quinta-feira, 23 de abril de 2026

"O correr da vida embrulha tudo”: 70 anos de Grande sertão: veredas. - 2

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Em sua coluna “No mundo dos livros”, na revista O Cruzeiro de 17 de abril de 1954, Geraldo de Freitas falava sobre Guimarães Rosa, “um escritor em atividade”, então às voltas com duas obras: Corpo de baile e “Veredas mortas”, como originalmente se chamaria Grande sertão: veredas:

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 José Condé, em coluna no Correio da Manhã de 4 de janeiro de 1956, já previa que Grande sertão seria colocado em proximidade a Os sertões, de Euclides da Cunha. Só errou ao dizer que a obra de Guimarães Rosa seria “suplementar”:

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Correio da Manhã de 17 de julho de 1956 apresentava o anúncio: “Afinal o esperado romance de Guimarães Rosa”. O clima de expectativa na imprensa era uma realidade em torno de Grande sertão:

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Em sua coluna nas “Notas Sociais” do Jornal do Brasil de 28 de julho de 1956, Maria Eugênio Celso lança suas impressões sobre a novidade literária do momento: Grande sertão: veredas:

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A Noite de 28 de julho de 1956 comentava o crescente interesse na obra do artista visual Poty Lazarotto, que então mantinha uma exposição na Biblioteca Nacional. O motivo? Era o ilustrador do fenômeno Grande sertão:

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Renato Jobim dá a resenha de Grande sertão no Diário Carioca de 29 de julho de 1956:

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 CM de 5 de agosto de 1956 colocava Grande sertão “sem dúvida alguma, o nosso grande acontecimento literário e linguístico do século”:

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Em “Livros a mancheias”, Manuel Bandeira fala sobre a “nova língua” utilizada por Guimarães Rosa em seu maior romance, no JB de 12 de agosto de 1956:

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Paulo Mendes Campos, na Manchete de 13 de outubro de 1956, dava inúmeros porquês a respeito de Grande sertão:
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Na mesma edição da revista, reportagem de Ruth Guimarães coloca nove literatos paulistas para julgar um mineiro, “assunto obrigatório das rodas literárias do Rio e de S. Paulo”:

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O bafafá sobre Grande sertão foi tamanho que o “Suplemento Dominical” do JB, em edição de 2 de setembro de 1956, estabeleceu uma mesa redonda sobre Guimarães Rosa, com Sérgio Milliet, Vivaldo Coaracy e Luiz Martins:

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Em 10 de novembro de 1956, coluna “Livros na mesa” do CM trazia resenha de Grande sertão por Octavio Mello Alvarenga:

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No CM de 1º de dezembro de 1956, Eduardo Portella louvava o “romance síntese” de Guimarães Rosa, trazendo uma imagem do escritor fazendo o até então improvável: colhendo informações in loco, no sertão:

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Reportagem de E. C. Caldas para O Semanário de dezembro de 1956 colhe depoimentos de variados literatos a respeito de Grande sertão:

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Paulo Rónai em “Três motivos em Grande sertão: veredas”, publicado no Diário de Notícias de 16 de dezembro de 1956:

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Valdemar Cavalcanti se entusiasmava em sua resenha literária do ano, em O Jornal de 23 de dezembro de 1956: “não se discute mais”:

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Em edição de 26 de dezembro de 1956 da Tribuna da Imprensa, Lúcia Miguel Pereira, que seria posteriormente uma das integrantes da comissão que decidiu por unanimidade dar a Guimarães Rosa o Prêmio Machado de Assis, lançava suas impressões a respeito do Grande sertão:

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Assis Brasil, novamente no “Suplemento Dominical” do JB, na virada de 1956 para 1957, publicava uma série de artigos que se tornaria famosa no meio literário, intitulada “Guimarães Rosa e a literatura brasileira”:

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Na Manchete de 5 de janeiro de 1957, Guimarães Rosa, o “diplomata do sertão”, era um inescapável destaque literário de 1956:

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Sob o título “A travessia de J. Guimarães Rosa”, suplemento “Tribuna dos Livros”, da Tribuna da Imprensa de 26 de janeiro de 1957, traz crítica de Afonso Arinos de Melo Franco a Grande sertão:

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A 10 de fevereiro de 1957, Benedito Nunes dá sua “Primeira notícia sobre 'Grande sertão: veredas'”, no JB:

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Affonso Ávila, em edição de 23 de fevereiro de 1957 do CM, abordava “O primitivo Guimarães Rosa”, autor “autenticamente nacional”:

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Lêdo Ivo trata do “cangaceiro” e do “universal”, na Tribuna da Imprensa de 23 de fevereiro de 1957:

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Já em 13 de março de 1957, Manuel Bandeira publicava sua célebre carta a Guimarães Rosa, em coluna regular no Jornal do Brasil:

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Autor de “O encontro marcado”, também lançado em 1956, Fernando Sabino dá uma aula de humildade e sinceridade: “O maior romance brasileiro é o de Guimarães Rosa”, diz em entrevista cedida ao JB de 31 de março de 1957:

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Revista Brasiliense número 10, de março-abril de 1957, trazia artigo de Paulo Dantas sobre a obra de Guimarães Rosa:

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A partir de 25 de abril daquele ano, é a vez de Múcio Leão dar suas impressões do livro em um par de artigos, também no JB:

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No CM de 19 de junho de 1957, José Condé informava que Aníbal Machado, Cavalcanti Proença, Lúcia Miguel Pereira, Alceu Amoroso Lima e Valdemar Cavalcanti, então membros da comissão julgadora do Prêmio Machado de Assis, então mantida pelo Instituto Nacional do Livro, havia sido unânime em favor de Guimarães Rosa. Prêmio foi entregue no dia 26 daquele mês, junto com seus 100 mil cruzeiros:

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Dias da Costa, em crítica para a revista Leitura de julho de 1957:

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Em 24 de agosto de 1957, Manchete publica “Aí está Minas: a mineiridade”, por Guimarães Rosa:

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Eleições para a cadeira de José Lins do Rêgo em 23 de janeiro de 1958 tiveram Guimarães Rosa como candidato favorito da imprensa, a exemplo de nota de apoio emitida pelo Correio da Manhã:

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Em edição de 15 de fevereiro de 1958, Franklin de Oliveira lançava seus “Estudos sobre Guimarães Rosa”, na coluna “Livros na mesa”, do Correio da Manhã:

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Em “Preciosismo no sertão”, no JB de 15 de fevereiro de 1958, Adolfo Casais Monteiro dizia que “há coisas que só entenderá em Grande sertão: veredas o sertanejo - precisamente o menos provável dos seus leitores. E os outros?”. A 1º e 8 de março, crítico voltava ao assunto:

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No JB de 3 de agosto de 1958, Cecília Prada publicava “3 depoimentos sobre Guimarães Rosa”, coletados de Cavalcanti Proença, Alberto da Costa e Oswaldino Marques:

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Lançamento da segunda edição de Grande sertão renovava a atenção ao romance, conforme texto de Mário Lacerda de Mello ao Correio da Manhã de 13 de setembro de 1958:

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Ferreira Gullar, Barbosa Lima Sobrinho, Adonias Filho e outros eram “Escritores que não conseguem ler 'Grande sertão: veredas'”, em depoimentos para Leitura de outubro de 1958:

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Em Leitura de março de 1959, José Freire de Freitas e suas “Trilhas no Grande sertão”:

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No Diário Carioca de 8 de março de 1959, Luiz Fernando Nazareth discute “O barroco no Grande sertão”:

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Em reportagem de Otávio Mello Alvarenga para o “Suplemento Dominical” do JB de 13 de junho de 1959, discute-se a comentada adaptação de Grande sertão: veredas para o cinema:

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No JB de 4 de julho de 1959, Alaôr Barbosa defende Grande sertão a um crítico resistente aos talentos de Guimarães Rosa, aparentemente fictício:

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Na edição de 1º de agosto do mesmo jornal, no entanto, Carlos Fernando Fortes de Almeida passa o recibo, rebatendo as argumentações de Alaôr Barbosa e alimentando a polêmica em torno do autor:

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Manchete de 10 de outubro de 1964 mostra os bastidores da adaptação cinematográfica da obra prima de Guimarães Rosa:

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“A linguagem solitária de Guimarães Rosa”, de José Olympio, na Manchete de 5 de agosto de 1967, trazia depoimentos de Hélio Pellegrino, Fausto Cunha e Antonio Callado:

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“Viagem aos campos gerais”, reportagem de Paulo Dantas e Maureen Bisilliat para O Cruzeiro de 11 de novembro de 1967, visita as fontes e as raízes de Grande sertão e seu autor:

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Em 2 de dezembro de 1967, R. Magalhães Júnior trata da “segunda imortalidade” de Guimarães Rosa, em Manchete:

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Na Manchete de 15 de junho de 1968, Vilma Guimarães Rosa “traça um novo retrato do autor de Grande sertão: veredas”, seu pai:

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Na série “As pequenas cidades dos grandes homens”, na Manchete de 7 de dezembro de 1968, reportagem de João Eustáquio e Esko Murto vasculhava a Cordisburgo de Guimarães Rosa, com direito a imagens de Juca Bananeira, amigo e personagem do escritor:

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Dois anos depois, em 4 de julho de 1970, na mesma revista, João Eustáquio volta às paragens do Grande sertão, em imagens de Guinaldo Nicolaevsky:

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Manchete de 4 de novembro de 1972 vinha com texto de Carlos Heitor Cony na série "As obras-primas que poucos leram". Em foco: Grande sertão:

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Reportagem de Luiz Alfredo para O Cruzeiro de 1974 visita Cordisburgo e a antiga casa de Guimarães Rosa:

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Arte ilustrativa utilizada como peça de divulgação nas redes sociais institucionais
Autor/criador: Wilian Correia

Referências bibliográficas e recomendações de leitura:

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"O correr da vida embrulha tudo”: 70 anos de Grande sertão: veredas.

18 mar 2026

Adentrar o grande sertão não é fácil. A concentração tem que ser total. Deve-se cumprir um trajeto inóspito, desses onde a violência, a miséria e o sol inclemente dão o ritmo. Riobaldo, o sujeito que ali nos acompanha, pode até estar armado, mas sua presença demanda fôlego: fala pelos cotovelos, contando sua vida quase inteira. Homem do povo e dos confins, não parece se comunicar em português, mas num dialeto mineirês-sertanejês, e ainda por cima de época. E no entanto, é como se cada parágrafo da transcrição de sua fala encerrasse uma preciosidade literária, trabalhada à perfeição. De fato, valendo-se de muita observação de campo, João Guimarães Rosa demorou dez anos para escrever esse monólogo: trata-se de sua obra de maior expressão, Grande sertão: veredas, publicada em 1956. Hoje visto como referência maiúscula na literatura brasileira, o romance chega a intimidar alguns. Dura quase seiscentas páginas, sem divisão por capítulos. Mesmo aqueles que o encaram enroscam-se aqui e ali em profusas palavras espantosas, ou acabam perdidos. Mas uma hora o leitor perseverante acha a sua bússola. E quando acha, o caminho é sem volta.


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Grande sertão: veredas é um incomum exemplo de livro com data e hora de nascimento. Coisa de seu autor, mineiríssimo de Cordisburgo, que deixava tudo registrado em cartas: foi aos 32 minutos após a meia-noite do dia 23 de novembro de 1955 que o original provisoriamente chamado de “Segundo rascunho” foi finalizado. Originalmente o romance de Guimarães Rosa se chamaria “Veredas mortas”. Era um calhamaço de 461 páginas datilografadas e salpicadas por correções e inserções feitas à mão, com cópia em papel carbono. Foi esse o texto enviado na semana seguinte à editora José Olympio, hoje mantido como joia rara no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP).

Naqueles idos Guimarães Rosa já havia publicado seu volume de contos Sagarana há nove anos, estando então na terceira edição, depois de muitas loas na imprensa. O literato já era uma figura digna de nota, e não apenas pela literatura. Diplomata, esteve no consulado brasileiro na Alemanha no pior momento possível: o início da Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito, ele e a paranaense Aracy de Carvalho, que viria a ser sua segunda esposa, foram reconhecidos oficialmente pela concessão de vistos a judeus e outras comunidades perseguidas pelo nazismo, mesmo desobedecendo as diretrizes da política imigratória em vigor no Estado Novo. No Brasil do pós-Guerra, depois de curtos períodos na Colômbia e na França, em março de 1955 havia sido indicado como representante do Itamaraty na Assistência Técnica em Educação e Cultura do então Ministério da Educação e Cultura, o MEC. Rosa já atuava no Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas do Brasil, este no Ministério da Agricultura. E ainda assim teve tempo de entregar, em abril, pouco antes de “Veredas mortas”, os originais de Corpo de baile à José Olympio.

Distribuído às livrarias cariocas a partir de 29 de fevereiro de 1956, Corpo de baile não ficava muito atrás de Grande sertão, em termos de grandiosidade: trata-se de um ciclo de sete novelas, dividido em dois volumes com capas e contracapas ilustradas originalmente por Poty Lazarotto. No mesmo dia a José Olympio aproveitava para lançar a quarta edição de Sagarana, revista e tida como “definitiva”. Apesar da sustância, isso seria apenas um aperitivo: em 16 de julho Grande sertão: veredas era disponibilizado aos leitores. Também acompanhada por desenhos de Poty, a primeira edição da obra vinha dedicada a Aracy, a quem haviam sido transferidos os direitos comerciais do livro no Brasil e no exterior. Nas orelhas dos exemplares, um curioso texto do próprio autor, não assinado, fazia um apelo a todos os que travavam (ou eram travados pelo) contato com esse “livro diferente, terrível, consolador e estranho”: “Aos leitores, e aos que escreverem sobre este livro, pede-se não revelar a sequência de seu enredo, a fim de não privarem os demais do prazer da descoberta” (Rosa, 2019, p. 531). E aqui vai uma piscadela aos entendedores.

Em carta datada do início de 1956 a Azeredo da Silveira, Rosa, que no mais passava naquele momento por outras duas robustas nomeações no Itamaraty, discorria sobre o que realmente interessava: seus últimos momentos antes da entrega dos originais de Corpo de baile e Grande sertão. Nela, o autor vinha com um discurso que aproximava o gênio literário a qualquer estudante em tempos de entrega de TCC:

(...) passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado - só lucidez e angústia. (...) Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente. (Rosa, 2019, p. 530)


Aflições à parte, os louros. A recepção da crítica a Grande sertão foi majoritariamente positiva, apesar do alto teor de experimentação no romance: houve quem estranhasse as inovações linguísticas promovidas pelo autor, em sua escrita “oralizada”, natural pela construção da fala do protagonista Riobaldo. Por vários meses o livro apareceu nas listas de mais vendidos, na imprensa. “Sou essencialmente um homem do sertão”, dizia Rosa a Paulo Dantas, em entrevista publicada na Tribuna da Imprensa de 19 de setembro de 1956: “Todos os meus personagens existem e são todos meus amigos. (...) Quando escrevo, como que sou tomado pelos caboclos de Minas”, completava (veja a entrevista nos links ao fim deste texto).

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“Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava” (Bandeira, 1957). E foi assim, com estas palavras, que Manuel Bandeira saudou Guimarães Rosa por sua obra-prima, em carta ao colega publicada em sua tradicional coluna no Jornal do Brasil de 13 de março de 1957 (veja também esse texto, na íntegra, nos links abaixo).

Exatamente um mês antes da publicação dessa correspondência, em 14 de março daquele ano, momento em que Rosa ocupava-se em visitar o canteiro de obras de Brasília, Grande sertão: veredas ganhava o seu primeiro prêmio: o Carmen Dolores Barbosa, por unanimidade, como melhor livro de 1956. Feito que seria logo ofuscado: a 18 de junho o Prêmio Machado de Assis, a maior láurea literária do país, promovida pelo Instituto Nacional do Livro (do MEC), também considerava o romance como a melhor obra de ficção do ano passado. Alceu Amoroso Lima, Lúcia Miguel Pereira, Valdemar Cavalcanti, Manuel Cavalcanti Proença e Aníbal Machado, os jurados do último, também foram unânimes. Outros prêmios ainda viriam, como o Paula Brito.

Sucesso a galope, ato contínuo Guimarães Rosa se sentiu à vontade para se candidatar à sucessão de José Lins do Rêgo na cadeira 25 da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 24 de setembro de 1957. Mas acabou derrotado por Afonso Arinos de Melo Franco, por 27 votos contra 10. Em compensação, em 5 de maio de 1958 o autor alcançaria o topo de sua carreira diplomática, sendo promovido a ministro de primeira classe (ou seja, embaixador), com direito a telefonema do amigo Juscelino Kubitschek de Oliveira, um conterrâneo que por acaso estava presidente da República. No mais, 1958 terminou com Rosa sofrendo um infarto. O escritor foi obrigado a reduzir o ritmo para o ano seguinte, que prometia: entre fevereiro e março de 1959 assinava seus primeiros contratos para as traduções de Grande sertão para o francês e o inglês. Os para o italiano e o espanhol viriam apenas em 1964. O que não é nada mal para uma obra “intraduzível”.

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Em 29 de junho de 1961 Rosa recebeu outro Prêmio Machado de Assis, o da ABL (que não deve ser confundido com o homônimo do Instituto Nacional do Livro), pelo conjunto de sua obra. No início da nova década o escritor vivia entre solenidades literárias, assinaturas de contratos para tradução, publicações de trechos de obras na imprensa e participações em comissões e eventos diplomáticos - isso quando não era nomeado para qualquer coisa de vulto, como para a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty.

No início de abril de 1963, todavia, Rosa decidiu tentar de novo um merecido posto: uma cadeira na ABL, no caso, a de número 2, vazia desde a morte de João Neves da Fontoura em 31 de março. Antes mesmo a imprensa já implorava: que botassem o bom Guima na primeira que vagasse. E dito e feito: na ocasião, Marques Rebelo e Guilherme Figueiredo chegaram a desistir do pleito, em favor da unanimidade. Só para não dizer que não houve disputa, o romancista potiguar José Bezerra Gomes manteve candidatura. Mas foi de lavada: a 8 de agosto o mineiro foi eleito, por 34 votos e apenas duas abstenções, atribuídas a Aurélio Buarque de Holanda e Álvaro Lins.

A trajetória meteórica e intensa de João Guimarães Rosa, seja como literato ou funcionário público, acabou cobrando seu preço ao final de 1968: às 20h45 de 19 de novembro um outro infarto pegou o escritor, e dessa vez em definitivo. Edições póstumas de obras como Estas estórias e Ave, palavra saíram já no ano seguinte pela José Olympio, o primeiro com o prefácio “Apenas saudade”, assinado pela filha Vilma Guimarães Rosa. Reedições e adaptações de textos rosianos para o cinema e a televisão viraram rotina, ao longo dos anos seguintes. E não apenas na teledramaturgia o autor pode ser, também, encontrado.

Em dezembro de 1969, o ponto mais alto da cordilheira Curupira, com 2.105 metros de altitude, localizado no município amazonense de Santa Isabel do Rio Negro, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela – a nuca da “Cabeça do Cachorro”, em alusão à área no extremo noroeste brasileiro –, foi batizado como Pico Guimarães Rosa: uma singela homenagem aos esforços do diplomata na demarcação do Pico da Neblina. Já numa região mais próxima à realidade pintada na prosa rosiana, o cerrado, em 1989 foi criado o Parque Nacional Grande Sertão: Veredas, numa área de 230 mil hectares na fronteira entre Minas Gerais e Bahia, com sede na cidade de Chapada Gaúcha (MG). Bem pelas bandas onde andaram Riobaldo, Diadorim, Hermógenes, Joca Ramiro, Zé Bebêlo e outros tantos imortais da obra maior do velho Guima.

Em relação às trilhas e percursos rosianos em letra, sobretudo àqueles empreendidos por pesquisadores interessados no universo de João Guimarães Rosa, resta um dado importante: o IEB da USP, a mesma instituição que guarda os originais de Grande sertão: veredas, adquiriu junto à família do escritor, em 1973, todo o seu arquivo. Somando cerca de vinte mil documentos, lá estão cadernos manuscritos de Rosa, fotos de viagens, recortes de jornal, correspondências. Sem contar os mais de três mil livros. São por essas prateleiras que os estudiosos devem embrenhar.

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Em carta ao tradutor italiano Edoardo Bizzarri datada de 25 de novembro de 1963, João Guimarães Rosa explicava que seus livros “em essência, são anti-intelectuais (...). Por isto mesmo, como apreço de essência e acentuação, assim gostaria de considerá-los: a) cenário e realidade sertaneja: 1 ponto; b) enredo: 2 pontos; c) poesia: 3 pontos; d) valor metafísico-religioso: 4 pontos” (Rosa, 2019, p. 537). Foi no último tópico que Antonio Candido, um dos primeiros e maiores estudiosos da obra rosiana, se deteve.

A observação atenta do autor à realidade sertaneja contribuiu para elevar seu romance a um desses “raros  momentos  em  que  a  nossa  realidade  particular  brasileira  se  transforma  em  substância  universal” (Candido, 2002, p. 192). É que, embora tratasse da violência e da desigualdade estruturais que atravessavam a formação da realidade brasileira, notadamente no meio rural, oligárquico e patriarcal, Grande sertão não dava menos atenção a questões e dilemas que assolam a condição humana em geral: o amor inalcançável, a falta de aceitação à homoafetividade, a guerra, o bem contra o mal, a vingança e a justiça, etc.

Por essas e outras, já em 1957, no ensaio basilar “O homem dos avessos”, Candido afirmava que Rosa havia transcendido o regionalismo característico da chamada segunda fase do modernismo na literatura: “A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e pelo nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico”, todos esses elementos não deixaram de subscrever Grande sertão a um desses “[...] grandes lugares comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, – para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e que na verdade o Sertão é o Mundo” (Candido, 2000, p.122).

Desses valores universais o crítico literário pensava a relação dialética entre o homem sertanejo e seu duro cenário, uma lógica de reciprocidade que pautou diversas interpretações posteriores da obra de Rosa. O homem responde à brutalidade de seu meio, que o molda, à força da necessidade:

Estas considerações sobre o poder recíproco da terra e do homem nos levam à idéia de que há em Grande sertão: veredas uma espécie de grande princípio geral de reversibilidade, dando-lhe um caráter fluido e uma misteriosa eficácia. A ela se prendem as diversas ambiguidades (...) um deslizamento entre os pólos, uma fusão de contrários, uma dialética  extremamente viva (Candido, 2000, p. 129)


“É pelo avesso que se chega ao direito”, diria com sábia simplicidade o heroi Riobaldo. Pois sim. Grande sertão: veredas é denso, intricado, tanto por sua riqueza vocabular quanto pelas idas e vindas na cronologia dos fatos. Em frases curtas e ritmadas, entre tiradas que vão num mesmo parágrafo do corriqueiro ao sertanejo a verdadeiras epifanias, Riobaldo narra sua vida como qualquer bom proseador: a memória o faz falar, sem se importar com encadeamentos cronológicos claros e lógicos. Um assunto puxa o outro, que puxa um causo daqui, outro dali. O personagem, assim, narra a sua vida a um visitante parecendo querer ele próprio passá-la a limpo. Entende-se daí seu modo de ser jagunço, acima de qualquer maniqueísmo:

O jagunço, sendo o homem adequado à terra, (“O  Sertão  é  o  jagunço”) não poderia deixar de ser como é; mas ao manipular o mal, como condição para atingir o bem possível no Sertão, transcende o estado de bandido. Bandido e não-bandido, portanto, é um ser ambivalente, que necessita revestir-se de certos poderes para definir a si mesmo. O pacto desempenha  esta função na vida do narrador, cujo Eu, a partir desse momento, é de certo modo alienado em benefício do Nós, do grupo a que o indivíduo adere para ser livre no Sertão, e que ele consegue levar ao cumprimento da tarefa de aniquilar os traidores, os “Judas”. Graças a isto é vencida, pelo menos na duração do ato, a ambiguidade do jagunço, que se fez integralmente paladino. (...)


Renunciando aos altos poderes que o elevaram por um instante acima de sua própria estatura, o homem do Sertão se retira na memória e tenta laboriosamente construir a sabedoria sobre a experiência vivida, porfiando,  num esforço comovedor, em descobrir a lógica das coisas e dos sentimentos. “E me inventei neste gosto, de especular idéias”. (Candido, 2000, p. 137-139)


Tamanho jeito de ser exigia um determinado jeito de se expressar: qualquer linguagem que não fosse a do jagunço, de fato, não interessava a Guimarães Rosa. Daí sua demora a parir a obra-prima, que o levou a um trabalho de pesquisa (sócio-linguístico-antropológico?) sem precedentes. A ensaísta e crítica literária Walnice Nogueira Galvão, outra potente voz em torno de Rosa, ressalta que o escritor foi buscar a linguagem de seu protagonista direto na fonte: o sertão.
É de lá que vêm os torneios de frase, os regionalismos e os arcaísmos resgatados. Como se sabe, o idioma conserva-se melhor longe dos centros urbanos, onde o isolamento o protege das inovações trazidas pelas correntes migratórias, pelo jargão da mídia e pela gíria. Os dois traços básicos da linguagem empregada por Riobaldo são, por isso, os regionalismos e os arcaísmos.
Mas não só, o que seria demasiado simples para um escritor tão requintado. Nem tudo o que seu protagonista profere é preexistente na língua portuguesa do Brasil: boa parte do vocabulário é constituído por neologismos. Saídos da oficina verbal do autor, dão brilho e graça à fala de Riobaldo. (Galvão, 2008, p. 248)

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Uma das frases mais reproduzidas de Riobaldo, fazendo as vezes de um aforismo rosiano, é a instagramável “No viver tudo cabe”. Pois parece que no Grande sertão também cabe de tudo: contabilizando uma fortuna crítica extensa, o romance sempre parece disposto a um novo olhar, em incontáveis linhas de abordagem. Já no primeiro parágrafo de seu ensaio basilar sobre a obra, Antonio Candido dizia que nela “há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício; mas em cada aspecto aparecerá o traço fundamental do autor: a absoluta confiança na liberdade de inventar” (2000, p. 121). A última frase do texto não poderia ser outra que não “O Sertão é o Mundo” (2000, p. 139), que bem poderia ter saído da pena de Guimarães Rosa.

Pode-se estudar o romance pela boa e velha crítica literária, estritamente preocupada com a forma textual, ou pelo viés da linguagem e da cultura popular. Mas também por perspectivas sociais, de raça, classe e/ou gênero. Leituras históricas e políticas aparecem às pencas quando se fala da dura realidade sertaneja, entre a violência e a pobreza, e do jagunço, em particular, envolto num complexo jogo de relações de dominação ditadas pela força, pela autonomia do poder privado frente à ausência do poder público e pela preponderância tácita da tradição e da honra sobre as instituições. O sistema jagunço pode, aliás, ser analisado do ponto de vista do Direito. Existe ainda o lado naturalista e geográfico nos textos do velho Guima. Não são poucas as leituras psicanalíticas, onde Riobaldo deixa a pistola de lado e é metido num divã. Nem as filosóficas, como a de Antonio Candido. E quantas e quantas laudas acadêmicas foram gastas para se discutir a relação entre deus e o diabo no Grande sertão. É por aí, nesse campo mais amplo do que as Gerais, que se entende que o livro é muito mais do que esse objeto paginado, recheado de palavras que contam uma história: é uma referência e uma reverência à vida. Pois: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Palavras cabíveis a quem encara o desafio de adentrar o Grande sertão.

Se entre as veredas o que não falta é estrada, trilha batida, atalho ou picada, seja como for, o jeito é aproveitar o caminho. “Meus livros não são feitos para cavalos, que vivem comendo a vida toda, desbragadamente”, dizia Rosa ao Jornal do Brasil, em entrevista publicada em 15 de março de 1960 (leia mais nos links abaixo). “São livros para bois. Primeiro o boi engole, depois regurgita para mastigar devagar e só engole de vez quando tudo está bem ruminado. Essa comida vai servir, depois de tudo, para fecundar a terra”. A melhor definição para a prosa rosiana vinha assim, também rosiana: no melhor estilo campeiro.