quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Casa de Banho de Dom João VI

 

Casa de Banho de Dom João VI

A Casa de Banho de Dom João VI, na cidade do Rio de Janeiro, é um casarão do início do século XIX de nove cômodos e alpendre, de propriedade do negociante de café Antonio Tavares Guerra. A construção adquiriu certa fama por D. João VI, após a instalação da família real portuguesa no Rio de Janeiro, ter a usado para tomar banhos de mar na região, atual bairro do Caju, que, à época, desfrutava de uma paisagem natural intocada.













 Os banhos de mar de D. João VI foram uma recomendação médica para curar a infecção da mordida de um carrapato. Além disso, à época, o trajeto percorrido da residência da corte no Paço de São Cristóvão até o Caju era concluído sem dificuldades.

Em 1938, o casarão foi tombado pelo IPHAN. Entretanto, como não abrigava nenhuma instituição, acabou sendo ocupado por um grupo de pessoas. Décadas depois, em 1961, já no governo de Carlos Lacerda, a construção foi desocupada. Mas continuou sem utilidade e, por mais de uma vez, quase desabou.






Em 1979, o escritor Rubem Fonseca, então diretor da Fundação Rio, sugeriu que a casa se transformasse em centro de artesanato. Todavia, o plano não foi adiante.

No ano de 1985, foram iniciadas obras de restauração do imóvel. As obras foram finalizadas, o casarão voltou a ser como era nos tempos de glória, mas seguiu sem função e três anos depois foi ocupado por uma família sem-teto.

Na década seguinte, em 1996, foi feita uma nova restauração, com financiamento da COMLURB em parceria com a Região Administrativa da Zona Portuária, e passou a ser o Museu da Limpeza Urbana, ganhando função e valorização.  No entanto, em 2012, o museu foi fechado para visitação devido à falta de segurança no bairro do Cajú.

O casarão resiste ao tempo pronto para ser útil em alguma nobre função.  Em seu interior, jaz o acervo histórico da Limpeza Urbana aguardando pacientemente por um novo momento de valorização cultural

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pergunte à IA

 Neste versículo ⁶⁴" Também Rebeca levantou os olhos, e, vendo a Isaque, apeou  do camelo" no livro de Gênesis é correto dizer, no hebraico original, que Rebeca caiu do camelo? Gênesis 24.

Sim, no hebraico original, o termo utilizado em Gênesis 24:64 permite a interpretação de que Rebeca "caiu" ou "lançou-se" do camelo. 
A palavra hebraica usada é va-tippol (da raiz naphal), que significa literalmente "e ela caiu". Embora a maioria das traduções em português e inglês utilize termos como "apeou", "desceu" ou "dismounted" para suavizar a cena, o texto bíblico sugere uma ação abrupta ou de grande impacto emocional. 
The Jewish Chronicle +3
Nuances do Texto Original
• Significado Literal: A raiz naphal é a mesma usada para quedas acidentais ou para alguém que se prostra voluntariamente em sinal de reverência.
• Interpretações Acadêmicas: Muitos estudiosos sugerem que Rebeca não simplesmente desceu, mas sim "despencou" ou saltou apressadamente do camelo ao avistar Isaque, tamanha foi a impressão que ele lhe causou.
• Contexto Cultural: O Israel Institute of Biblical Studies observa que traduções como "descer" falham em capturar a intensidade do verbo hebraico original, que denota uma queda ou um movimento súbito para baixo. 
Israel Institute of Biblical Studies +4
Por que ela "caiu"?
Comentaristas bíblicos clássicos, como Ibn Ezra, debatem se a queda foi:
• Acidental: Um choque ou susto ao ver a figura de Isaque meditando no campo.
• Sinal de Respeito: Uma descida tão rápida e humilde que se assemelhou a uma queda, demonstrando reverência ao seu futuro senhor.
• Modéstia: Uma reação para evitar ser vista montada "como um homem" diante de seu pretendente, optando por descer imediatamente. 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Civilização maia ganha novo capítulo



Civilização mesoamericana chegou a reunir 16 milhões, mais do que a população da Itália durante o Império Romano, e pode ter chegado ao "fim" de uma forma diferente do que se acreditava

 Civilização mesoamericana chegou a reunir 16 milhões, mais do que a população da Itália durante o Império Romano, e pode ter chegado ao "fim" de uma forma diferente do que se acreditava. Durante décadas, os antigos maias foram retratados como um povo que desapareceu misteriosamente. Mas essa noção de decadência abrupta vem sendo substituída por uma narrativa mais complexa e fascinante sobre resiliência e transformação.

Mapeamento por laser revela rede urbana oculta sob a selva

Grande parte dessa mudança de perspectiva se deve ao uso da tecnologia LiDAR – acrônimo para Light Detection and Ranging, ou Detecção e Medição de Distâncias por Luz –, que permite mapear o terreno oculto sob a selva. Equipamentos instalados em aviões emitem bilhões de pulsos de laser e atravessam a vegetação até tocar o solo, gerando mapas tridimensionais que revelam estruturas invisíveis a olho nu.

Segundo relatou a National Geographic em 2024, o momento da descoberta teve algo de cinematográfico. Em um escritório em Nova Orleans, Estrada-Belli observava enquanto seu colega Marcello Canuto abria imagens aéreas e, com alguns cliques, removia digitalmente a vegetação. Debaixo do que pareciam simples colinas havia reservatórios, terraços agrícolas, canais de irrigação e enormes pirâmides coroadas por complexos cerimoniais.

"Foi como o que devem ter sentido os astrônomos quando olharam pela primeira vez através do telescópio Hubble. Ali estava aquela vasta selva que todos acreditavam estar quase vazia e, quando removemos digitalmente as árvores, apareceram vestígios humanos por toda parte", afirmou à época o arqueólogo e explorador da National Geographic Thomas Garrison.

Nesse sentido, o mundo maia não está sendo "redescoberto", e sim reinterpretado à luz de novas evidências. E, com isso, estão sendo revistas ideias que pareciam fixas há décadas: quantas pessoas viviam nas terras baixas, como os assentamentos eram organizados, o grau de conexão entre as cidades e o campo. E também o que significa falar em "colapso" de uma civilização quando os dados sugerem não um desaparecimento, mas sim continuidade, realocação e adaptação.

Numa reportagem recente publicada pelo jornal britânico The Guardian, Francisco Estrada-Belli, professor do Instituto de Pesquisa Mesoamericana da Universidade Tulane, nos EUA, recorda vividamente sua primeira visita às ruínas de Tikal, quando ainda era uma criança. "Fiquei completamente hipnotizado", relata. "Havia selva por todos os lados, animais e, depois, aqueles templos enormes e majestosos."

A experiência o impactou de tal forma que ele, quando adulto, acabaria dedicando sua carreira a investigar e revelar os segredos dos maias.

Mais de meio século depois daquela primeira viagem a Tikal, Estrada-Belli faz parte do grupo de pesquisadores que está transformando nossa compreensão da civilização mesoamericana.

O estudo mais recente de Estrada-Belli, publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, estimou em cerca de 16 milhões a população maia durante o Período Clássico Tardio (600–900 d.C.) – bem acima dos 7 a 11 milhões que se acreditava terem vivido nas terras baixas.

"Esperávamos um aumento modesto nas estimativas populacionais a partir de nossa análise LiDAR de 2018, mas ver um aumento de 45% foi realmente surpreendente”, afirmou Estrada-Belli na época, em comunicado da Universidade Tulane.

 Segundo o Guardian, se a estimativa estiver correta, ela significaria que a população da região superava a da península Itálica no auge do Império Romano (que ademais tinha o triplo de tamanho em território).

Cidades maias eram muito mais complexas do que se pensava

Os novos mapas revelam que os assentamentos maias eram muito mais complexos e interconectados do que se pensava. Os pesquisadores identificaram padrões de construção semelhantes tanto em áreas urbanas quanto rurais: uma praça pública central, geralmente associada ao controle da elite, cercada por zonas residenciais.

Além disso, quase todos os edifícios estavam a menos de cinco quilômetros de uma dessas praças, o que sugere que até mesmo a população rural participava ativamente da vida cívica e cerimonial.

Essa conclusão desafia a antiga ideia de cidades maias cercadas por uma selva praticamente vazia e revela, em vez disso, uma paisagem densamente ocupada e conectada por estradas elevadas, infraestrutura hidráulica, campos agrícolas e áreas úmidas manejadas de forma planejada.

Um exemplo claro dessa rede urbana aparece em El Mirador, no norte da Guatemala, uma das maiores cidades maias conhecidas. Ali, o LiDAR revelou que o que pareciam colinas e caminhos naturais eram, na verdade, estradas elevadas e estruturas monumentais que conectavam a cidade a mais de 400 assentamentos vizinhos, formando uma vasta rede de comunicação.

Para sustentar populações tão numerosas em um ambiente de solos pobres e ciclos extremos de chuvas e secas, foram necessárias soluções igualmente monumentais. Na região, desenvolveram-se sistemas agrícolas e hidráulicos altamente sofisticados, com terraços, canais e reservatórios que permitiram manter a produção de alimentos e gerenciar a água em condições ambientais difíceis — uma infraestrutura cuja magnitude só agora começamos a compreender.

"Não se podia alimentar tanta gente como faziam os antigos maias com o tipo de agricultura de corte e queima que se utiliza hoje", explicou Canuto à National Geographic.

Reescrevendo o final do período clássico maia

A capacidade de sustentar populações tão numerosas dependia de um equilíbrio frágil entre infraestrutura, clima e organização social. Quando esse sistema começou a se tensionar, as grandes cidades do período clássico passaram por transformações. Durante décadas, esse processo foi interpretado simplesmente como o "colapso" maia, mas cada vez mais pesquisadores propõem uma pergunta diferente: em vez de "por que desapareceram?", "como conseguiram sobreviver?".

Como explicou Kenneth Seligson, professor de arqueologia na Universidade Estadual da Califórnia, ao Guardian: "Já não falamos realmente em colapso, mas em declínio, transformação e reorganização da sociedade e continuidade da cultura. Mudanças semelhantes ocorreram em outros lugares, como Roma, e hoje quase ninguém fala do grande colapso romano, porque essas sociedades ressurgiram de diferentes formas, assim como ocorreu com os maias".

Essa mudança de perspectiva também obriga a reinterpretar o fim das grandes cidades clássicas. Quando Tikal ergueu sua última estela conhecida, no ano 869 d.C., a cidade acumulava mais de 1.500 anos de desenvolvimento contínuo. O que se seguiu não foi um desmoronamento repentino, mas um processo gradual de reorganização: vários centros urbanos foram despovoados enquanto parte da população se deslocava para regiões do norte e do sul. Cidades como Chichén Itzá e Uxmal cresceram rapidamente, o que sugere — segundo os pesquisadores citados — que muitos habitantes optaram por migrar e se adaptar a novas condições em vez de permanecer em centros urbanos em declínio.

Descendentes maias lutam por reconhecimento

Para além da revisão histórica, como destaca o Guardian, essa nova compreensão do mundo maia mostra que essa cultura não pertence apenas ao passado, mas segue viva.

Hoje, mais de 11 milhões de pessoas pertencentes a diversos povos maias e a outros grupos indígenas da Mesoamérica vivem no México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras e Estados Unidos, e muitos deles fazem parte das populações mais pobres do continente, apesar de descenderem de algumas das civilizações mais sofisticadas da América pré-colombiana.

Na Guatemala, onde a população maia representa oficialmente 44% dos habitantes — embora por muito tempo identificar-se como maia tenha sido marcado por estigma e discriminação — essas pesquisas também assumem uma dimensão política.

Como explica Liwy Grazioso, ministra da Cultura e dos Esportes e arqueóloga especializada em história maia: "Não é que os maias sejam melhores, ou que sua antiga sociedade fosse superior à nossa, mas que, como seres humanos, são iguais".

As demandas atuais dos povos originários incluem o reconhecimento como nações preexistentes, a autodeterminação territorial e um acesso mais equitativo a recursos. Sonia Gutiérrez, a única mulher indígena no parlamento guatemalteco, resume assim essa luta: "Não devemos ser vistos como um povo alheio, mas como pessoas que vivem em nosso país, onde viveram nossos antepassados".

As novas descobertas arqueológicas também questionam séculos de narrativas que diminuíram as culturas indígenas. Grazioso lembra que, durante muito tempo, circularam teorias pseudocientíficas segundo as quais seria mais provável que os templos maias tivessem sido construídos por extraterrestres do que pelos antepassados da população local.

Essas ideias, sugere a deputada, cumprem uma função política: "Se privarmos os maias atuais de seu passado glorioso, não teremos que lhes dar poder hoje".

Mas a disputa pela memória não é apenas simbólica. Ela também atravessa uma ferida ainda aberta: a dos desaparecidos durante a guerra civil da Guatemala (1960–1996). O confronto entre forças do governo e guerrilheiros, em sua maioria de esquerda, deixou cerca de 200 mil mortos, majoritariamente maias, e mais de 40 mil desaparecidos. A Comissão para o Esclarecimento Histórico documentou 626 massacres cometidos por forças governamentais e atribuiu ao Estado mais de 93% das violações de direitos humanos registradas.

No laboratório da Fundação de Antropologia Forense da Guatemala, a tecnologia volta a desempenhar um papel central, embora aplicada a outra forma de arqueologia: a identificação de vítimas. Segundo o Guardian, a instituição trabalha atualmente com 12.611 amostras de esqueletos e conseguiu identificar quase 4 mil pessoas, principalmente por meio de análises de DNA.

Patrimônio ameaçado pelo avanço do crime na floresta

Enquanto novas tecnologias revelam a riqueza do mundo maia oculta sob a selva, esse mesmo patrimônio enfrenta hoje ameaças urgentes. Os mapas e dados recentes revelam marcas de saqueadores, madeireiros, grileiros e narcotraficantes que avançam sobre a segunda maior floresta tropical da América, colocando em risco inúmeros sítios ainda não estudados.

"O Estado não tem recursos financeiros para proteger nosso patrimônio", advertiu à National Geographic Marianne Hernández, presidente da fundação Pacunam, que cuida do patrimônio maia. "Com os novos dados, ao menos estamos descobrindo onde estão os sítios. Se tivéssemos um exército de arqueólogos, poderíamos enviá-los para estudá-los antes que sejam destruídos."

A pressão é crescente: segundo a National Geographic, nas últimas duas décadas, a Guatemala perdeu cerca de 20% de suas florestas primárias. Muitos dos sítios recentemente identificados por meio do LiDAR já apresentam sinais de saque, em uma corrida contra o tempo entre documentação e destruição.

Lições para o presente

Talvez a lição mais importante que emerge dessas descobertas seja sobre resiliência e sustentabilidade. Os antigos maias desenvolveram métodos agrícolas que sustentaram milhões de pessoas durante milhares de anos em um dos ambientes mais desafiadores do planeta.

Como observa Estrada-Belli: "Quando olhamos para as florestas centro-americanas atuais, devemos ter em conta que os antigos humanos impactaram tudo. E todos esses métodos foram sustentáveis durante milhares de anos".

    Em contraste, ele aponta que hoje utilizamos a terra "para a pecuária e para monocultura de milho, que apenas destroem o solo. Temos muito a aprender".

Diferentemente do que foi propagado por muito tempo, os maias foram uma civilização complexa, que alcançou feitos extraordinários e manejou os recursos naturais em seu entorno de uma forma que alguns pesquisadores consideram sustentáveis para a época. E só estamos começando a reconstruir sua história agora. O legado dos maias não está enterrado na selva; segue vivo em milhões de descendentes que continuam lutando pelo reconhecimento de seu lugar legítimo na história e no presente da América.


Ver na net:

https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/02/15/historia-da-civilizacao-maia-ganha-novo-capitulo-com-descobertas-ineditas.ghtml

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cyro Monteiro, o Formigão, quando de seus 102 anos

 

Cyro, de uma família de nove irmãos, todos com nomes começados com “C”, nasceu no subúrbio carioca do Rocha. Seu pai, dentista e funcionário público, era conhecido como “Capitão Monteiro”, título que parece se referir a uma patente da Guarda Nacional, corporação criada no Império e extinta em 1918.

Era sobrinho do grande pianista de samba Nonô (Romualdo Peixoto), conhecido como o “Chopin do samba”, na época um dos mais famosos do Rio de Janeiro, acompanhador de Sílvio Caldas, que ensaiava na casa dos Monteiros. Da família também fazem parte os primos Peixotos: Cauby, Araken, Andyara, Aracy e o pianista Moacyr.


Ciro passou a infância e a juventude em Niterói, para onde se mudou com a família quando tinha apenas dois anos e cresceu ouvindo e aprendendo em ambiente musical.
Na juventude, conviveu na Confeitaria Guanabara com músicos e boêmios como seu tio Nonô, Valfrido Silva, Mário Travassos de Araújo, Dutrinha, Gadé e Ary Frazão, e cantava em festas e rodas de amigos. Com seu irmão Careno, cantava em dueto procurando imitar a dupla Sílvio Caldas-Luiz Barbosa, até que, em 1933, Sílvio Caldas chamou-o para substituir Luís Barbosa no “Programa Casé” da Rádio Philips. Fez sucesso ao lado de Sílvio Caldas, mas preferiu abrir mão da dupla e manter a que tinha com o irmão.

Em 1936, fez em seu primeiro disco para a Odeon, a primeira gravação para o carnaval daquele ano, cantando o samba “Perdôa”, de Kid Pepe e João Barcelos e a marcha “Vê se desguia”, de Kid Pepe, Germano Augusto e Fadel. 

Em dezembro do mesmo ano participou no coro da gravação da marchinha “Mamãe eu quero”, de Jararaca e Vicente Paiva, ao lado de Almirante e Odete Amaral, em disco que foi sucesso no carnaval do ano seguinte.
Ainda em 1936, passou para os programas noturnos, com Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Custódio Mesquita, Noel Rosa, Gastão Formenti e outros grandes artistas. Em um deles, o “Picolino”, de Barbosa Júnior, lançou seu primeiro grande sucesso, “Se Acaso Você Chegasse”, considerado um dos melhores sambas de todos os tempos, gravado a seguir, que o projetaria nacionalmente e também ao autor da melodia, o gaúcho então desconhecido Lupicínio Rodrigues. Foi nessa época que começou a criar um estilo que o imortalizaria. Luiz Barbosa marcava o ritmo no chapéu de palha e Joel de Almeida foi seu seguidor. Descobriu no ritmo de uma caixinha de fósforos o toque instrumental para suas interpretações.

Em 1938, casado com a cantora Odete Amaral, que tinha o apelido de “A Voz Tropical”, mudou-se para o bairro do Riachuelo, vizinho ao Rocha. Gravou em dueto com a mulher o jongo “Pomba serena”, de Humberto Porto. Nessa época começou a compor em parceria com Dias da Cruz.
Em 1939 voltou a gravar em dueto com Odete Amaral, registrando os sambas “Sinhá, sinhô” e “Bem querer”, ambos de Aloísio Silva Araújo. Ainda no mesmo ano, gravou o samba “Mania da falecida”, de Ataulfo Alves e Wilson Batista. Conheceu novo grande sucesso com o samba “Oh! Seu Oscar”, de Ataulfo Alves e Wilson Batista, grande vencedor do carnaval do ano seguinte e segundo grande sucesso do cantor.

Na década de 1940 é novamente responsável pelo lançamento de outro grande nome da música popular brasileira, o compositor Geraldo Pereira, um mineiro nascido em Juiz de Fora, mas criado no morro da Mangueira: Falsa baiana e Escurinho. Outro sucesso veio com Boogie-woogie na favela, de Denis Brean.

Em 1940, gravou dois frevos-canção do compositor pernambucano Capiba e também no mesmo ano o samba “Beijo na boca”, de Ciro de Sousa e Augusto Garcez. No final do mesmo, gravou outro samba de sucesso, sendo muito cantado no carnaval de 1941, “O bonde de São Januário”, de Ataulfo Alves e Wilson Batista.

Em 1941, gravou, de Ary Barroso, o samba “Os quindis de Iaiá”  e tornou a gravar música do pernambucano Capiba, o frevo-canção “Linda flor da madrugada”. 
Em 1942, gravou o samba-choro “Botões de laranjeira”, de Pedro Caetano, lançado com grande sucesso no “Programa César Ladeira”, na Rádio Mayrink Veiga. Na ocasião de seu registro em disco, a música sofreu censura, pois na letra havia o nome próprio de uma menina, Maria Madalena de Assunção Pereira, para quem o compositor Pedro Caetano fez a música. O radialista César Ladeira sugeriu a troca do nome para Maria Madalena dos Anzóis Pereira, e o disco foi finalmente gravado.

Em 1943, gravou os sambas “Até quarta-feira”, de Geraldo Pereira e Jorge de Castro, “Senta lá na mesa”, de José Gonçalves e Claudionor Cruz, “Beija-me”, de Roberto Martins e Mário Rossi, que foi um dos sucessos do ano, “Você está sumindo”, de Geraldo Pereira e Jorge de Castro e “Minha homenagem”, de sua parceria com Ari Monteiro. 

Separou-se em 1949 de Odete Amaral, com quem teve um filho, Cyro Monteiro Júnior. Até a separação, ambos formariam um casal dos mais famosos da era do rádio.


Em 1955, gravou na Todamérica “Tem que rebolar” onde estreou com o samba “Escurinho”, de Geraldo Pereira.

Em 1956, participou como ator da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, vivendo o papel do pai do personagem principal. Ainda nos anos 50 e 60 participou de programas de televisão como O Fino da Bossa e Bossaudade, gravou discos e fez muitos espetáculos.

Em 1965, participou em São Paulo, juntamente com Dilermando Pinheiro, do espetáculo “Telecoteco Opus nº 1”, produzido por Sérgio Cabral. O espetáculo recebeu ótimas críticas e acabou virando LP.

No mesmo ano, lançou o LP “De Vinicius e Baden especialmente para Cyro“. Segundo trabalho da dupla Baden e Vinicius, foi gravado em Paris em 1965. Como o nome diz, o LP foi dedicado ao músico Ciro Monteiro, que empresta sua voz para as canções deste álbum com 10 composições dos dois artistas, entre as quais, “Deixa”, “Para fazer um bom café”, “Linda baiana”, “Formosa”, “Astronauta” e “Amei tanto”.

Em 1966, gravou com Elizeth Cardoso pela Copacabana o LP “A bossa eterna de Elizeth e Cyro“, no qual fizeram gravações solo e em dueto 

No final dessa década – já com a saúde debilitada por anos de cigarro, bebida e boemia – integrou o elenco do espetáculo “Mudando de Conversa”, com Clementina de Jesus, Nora Ney, Jards Macalé, o conjunto Os Cinco Crioulos e Dino Sete Cordas, no Teatro Santa Rosa, no Rio de Janeiro. O espetáculo “Mudando de Conversa”, produzido por Hermínio Bello de Carvalho se transformou em LP pela Odeon.

Em 1969, voltou a gravar com Elizeth Cardoso, o LP  “A bossa eterna de Elizeth e Cyro volume 2”  

Em 1970, lançou pela Continental o LP “Alô jovens, Ilmo Cyro Monteiro canta sambas dos sobrinhos”, com obras de novos compositores, como Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Paulinho da Viola, Paulo Sergio Valle e Marcos Valle.
Em 1971, gravou com o cantor Jorge Veiga o LP “De leve – Jorge Veiga e Cyro Monteiro”.

Cyro Monteiro se notabilizou pelo sincopado, pelo deslocamento das sílabas fortes (as tônicas) dos versos das músicas, além de ter sido um pioneiro na arte de “fazer amigos e influenciar pessoas”. A doçura de Ciro garantiu a ele grandes amizades. Vinícius de Moraes escreveu na contracapa do LP “Senhor samba”, lançado pela Columbia em 1961: “Uma criatura de qualidades tão raras que eu acho improvável qualquer de seus amigos não se haver dito, num dia de humildade, que gostaria de ser Cyro Monteiro. Pois Cyro, pra lá do cantor e do homem excepcional, é um grande abraço em toda a humanidade”. Seu canto teve importância crucial para o samba, influenciando intérpretes como Roberto Silva, além de ter iluminado compositores de sua geração, como Geraldo Pereira, de quem ele era a voz (e o sincopado) ideal.

Conhecido no meio artístico como “Formigão”, apelido dado por Frazão, por ser viciado em doces, e não se sabe bem ao certo quem o chamou pela primeira vez de “O cantor das mil e uma fãs”. Era um amigo generoso e flamenguista fanático. Tinha o costume de presentear os recém-nascidos de seus amigos com a camisa do rubro-negro carioca, paixão que lhe valeu homenagens significativas. A primeira veio na forma do samba bem-humorado “Ilmo. Sr. Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném”, de Chico Buarque, em resposta ao “presente” dado à pequena Sílvia – filha de Chico e Marieta Severo – e, no qual, o compositor declaradamente tricolor tentava mudar as cores da camisa.

Mais uma homenagem fez Vinícius a Nonô e a Cyro no famoso Samba da Bênção, no qual o poetinha, ao mencionar Cyro Monteiro, faz questão de frisar: “Você, sobrinho de Nonô”.

A última gravação de Cyro Monteiro foi com Vinicius de Moraes e Toquinho para o LP “Toquinho, Vinicius e amigos”, lançado alguns meses depois da sua morte.
A outra homenagem, na verdade a última, foi feita pela Torcida Jovem do Flamengo, no dia do seu enterro, em 13 de julho de 1977, quando cobriu o caixão do cantor com a bandeira rubro-negra, ao som do hino do clube carioca.

Cyro Monteiro morreu com apenas 60 anos, em 1973. A causa foi cirrose, de acordo com o paulista continuador do samba sincopado, Germano Mathias, que garante ter ouvido do amigo, mais de uma vez, a seguinte advertência: “Anda depressa, porque estou atrasado três conhaques”. A ternura pela mulher Lu, que o acompanhou por todo o tempo difícil da doença, deixou registrada no samba Minha Marilu, de seu LP de 1961. 
“Leve um recado pros meus amigos Vinicius de Moraes, Fernando Lobo e Reinaldo Dias Leme. Diga a eles que é pra não chorar, porque eu tenho um encontro marcado com Pixinguinha, Stanislaw Ponte Preta e Benedito Lacerda. Eu não bebo há dois anos e agora vou tomar o maior pileque da minha vida”. Ainda lúcido quando pronunciou estas palavras, Ciro Monteiro morreu depois de 10 dias em que permaneceu internado.

Fontes: Mara L. Baraúna

Ver na net em

O bonde de São Januário 

De Vinicius de Baden para Cyru

A bossa eterna de Elizeth e Cyru

Odete Amaral e Cyru Monteiro Jr.