quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Repugnância

    Não é uma palavra boa para se terminar um ano. Re + pugna, seria juntar "voltar" (re) + pugna (lutar) que, por sua vez, vem de "pugnus", que significa "punho".

     Portanto, repugnância teria, agregada a si, como sinônimas, auxiliando compreender seu significado as palavras asco, nojo, aversão, antipatia, repulsa, falta (ou nenhum desejo por) de compatibilidade.

     Na verdade, seria bem íntima essa sensação, plenamente disfarçada pela hipocrisia social, cedo aprendida na cartilha do convívio. Diria eu, ensinada intuitivamente pelos pais, delicada e disfarçadamente, porque ninguém quer ser acusado de ser um repugnante praticante.

    Os disfarces para tanto são muitos. Assim como as razões por que repugnar. Existem as clássicas como, por exemplo, cor da pele ou nível social. Disfarçar a íntima repugnância pelo preto e pelo pobre.

    Trazem patente e flagrantemente suas características. Aliás, são transformados em discurso e tema de ideologia e movimentos sociais de denúncia e libertação. E, em muitos casos, à hipocrisia agora soma-se a demagogia.

    Não que não devam ser um constante tema para discussão. Mas o que se reclama aqui são as ações efetivas e que caminhos traçar na efetiva solução secular, senão milenar desses, pelo menos esses dois, fatores de repugnância social.

    Um outro fator, agora mais ligado à minha área de atuação, é como o disfarce da religião, mais um fator que promete e afirma praticar igualdade, é usado para disfarçar a repugnância. Vou falar da minha. Por entender um pouco mais sobre ela do que da dos outros.

    Definitivamente o evangelho iguala todos, no antes e no depois de se encontrar Jesus. Todos pecaram, afirmam as Escrituras, situados na condição de "destituídos da glória de Deus", ou seja, todos somos, por natuteza, repugnantes.

    Aqui talvez haja já um problema inicial de aceitação. Ou haja uma aceitação retórica dessa afirmação. Isso significa sentir asco, nojo de si mesmo. De início. Vamos especificar e generalizar.

    Diante de Jesus, somos educados a perceber, sentir e exercitar repugnância por nós mesmos. Todos estamos nessa mesma condição. Muito embora o processo de se encarar essa realidade, nua (literalmente, e fora do Paraíso) e crua seja doloroso e, muitas vezes, disfarçado por franca covardia.

    Então o verniz social e os já mencionados vícios intuitivos de formação podem ser uma tentação a se mascarar essa realidade ou a domesticar o "evangelho" que se vai aceitar (e praticar). Definitivamente, repugnância é um tema não autopraticável: somente praticado com os outros.

     Lembrei da parábola do bom samaritano, assim chamada. Jesus focou exatamente na crítica aos "religiosos" e sua hipocrisia. Seu legalismo transformado numa prática flagrante, por parte do primaz, o sacerdote, e seu aprendiz, o levita. Sim. Repugnância faz escola.

    Nesse ano que passa até o vírus se tornou pretexto. Se alguém não quiser ou não quer outros alguéns perto, ainda há a prevalência do omicron, entre outras variantes. Chance de se prorrogar o afastamento.

    Para terminar, quero lembrar mais dois personagens, que podem ser quaisquer uns, porque repugnância, embora seja delicado mencionar, afeta a todos. Jesus e Jonas. Ambos com "J". O primeiro, porque tem o remédio para esse mal. O segundo, porque quis levar ao extremo esse mesmo mal.

     Jesus ensina direcionar a repugnância para o lugar e pessoa certos: para você mesmo e o nojo que o teu pecado deve inculcar a você mesmo. Jonas ensina que a fuga à repugnância, sua generalização extrema e até a tentativa de suicídio, seja moral ou literal, não resolvem o problema.

     Para quem não acredita no peixe de Jonas ou não acredita num Deus capaz de deparar um peixe desse teor, pelo menos tenta acreditar num Deus que ressuscite defunto, mais especificamente aquele que as Escrituras dizem ter sido ressuscitado ao terceiro dia.

     Parece que nesse anônimo Jesus, mais para desconhecido, reside a cura ou, pelo menos, o correto direcionamento para a repugnância. Vamos entrar nesse novo ano pensando nisso.

     Repugnância dirigida somente às variantes do vírus. Ao próprio pecado individual pão nosso de cada dia. E a uma aceitação ainda mais plena do evangelho, mas sem domesticagem. Ele faz coisas que nem a ideologia sonha em fazer.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Missões - ano zero - 3

    Dia seguinte, o Rev. veio me cumprimentar, eu então lhe disse: "Eu tenho uma notícia para o senhor". Então contei-lhe a conversa havida com o meu primo. Ele replicou sobre a possibilidade dele aprender sobre todo o trabalho. Havia alguns detalhes administrativos, o Boletim da Catedral, a "menina dos olhos", para todos os membros, no Brasil e fora dele   "Você acha que ele aprende rápido?". Eu acho que sim, respondi. Em quanto tempo, ele perguntou. Uma semana, repliquei. Então fale para ele 15 dias. Notifiquei meu primo, por telefone, para comparecer lá. Ele se apresentou ao Rev. e começamos a ensiná-lo. Ele aprendeu muito rápido, com a prática que já adquirira no CAN, realizaram um culto de despedida e eu vim para a COMEC - Condecoração de Mocidades Evangélicas Congregacionais.

     Na COMEC, não havia um salário. Então, Marco Antônio, na época membro da Fluminense, e Maria Leopoldina, filha do pastor Ivaldo, da Congregacional de Nilópolis, e o pastor Ary Madureira, na época Conselheiro da COMEC, combinaram de cobrir, pela fé, o mais próximo possível do que eu recebia antes. A ideia era desfiar os jovens de forma a contribuir, para alcançar a maior parte do salário anterior, sem ideia do montante, para  mais ou para menos. Interpretei cono um teste de Deus para mim, agora engajada numa tarefa mais ligada a uma vocação ministerial.
       Mas o que, para mim, foi um desafio de fé, para eles, que me convidaram, era já um compromisso matemático. Marco Antônio se comprometera com 1/2 salário mínimo da época, Ma Leopoldina com 1 salário e o pastor Ary com outra metade, o que completava o que eu recebia na Catedral. Era uma cota para viagens e itinerância. Foi quando, numa conversa desse pastor com um seu amigo professor, este decidiu participar, e outra metade de salário passou a compor o total de 2,5.
     Até hoje nunca identifiquei esse quarto integrante que, dois meses adiante, complementou a quantia total. Veio, então, a primeira viagem, que foi a Caruaru, já no tempo de Leopoldina como Oficial de Justiça, quando uma diligência, nessa viagem dela a trabalho, coincidiu com uma preleção dela em um Congresso. Mas ela não pôde ir, então eu a substituí. Era a época saudosa do monobloco da Itapemirim, máxima economia de espaço, na antiga concepção de carroceria, para conter minha estrutura avantajada em altura.
     Após quase 3 dias de viagem, hospedei-me na casa dos pais do pastor Joseildo, irmãos Coreia e Leda, quando preguei no sábado à noite na 1a Igreja Congregacional em Caruaru e, no domingo pela manhã, em função da visita, sábado à tarde, de um senhor, deficiente visual, decidiu assistir ao culto, o que nunca antes fizera, mais ainda com a dificuldade de ter apenas uma das pernas. Pastor Correia exultou, devido a essa novidade, eu preguei em Ap 5, a respeito de céu, ter escrito o nome no livro da vida, foi quando o homem a todos surpreendeu, afirmando que queria ver seu nome nesse Livro.
     O argumento decisivo era que teria de receber Jesus. E o homem, em sua cadeira de rodas, então oramos juntos. Logo após, ele retirou do bolso um cheque, do que hoje, calculo, ter sido uns 300 reais, que, quando o pr Correia viu, admirou-se, porque o novo convertido tinha fama de avarento. Sorrindo, o pr Correia brincou, "mas o que houve?" E eu resojndi, Deus operando conversão e, ao mesmo tempo, confirmando o meu ministério.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Missões - ano zero - 2

     Cheguei com o aparato caseiro improvisado de beleza feminina, o mais que poderia, é lá chegando, o pastor orou por mim e já me presenteou com duas bolsas da São João Batista Modas, uma de calçados e outra com roupas, da parte de uma das irmãs peritas no assunto e de manequim igual ao meu.             Assim comecei na Catedral e, agora que dispunha de salário falei com o pastor Bequele, bem, pastor, agora que eu tenho salário, vou pagar o Seminário, e a igreja não vai precisar arcar com essa despesa. Ele me respondeu que não, que o trato era a igreja cobrir: faça com o seu dinheiro o que Deus lhes instruir fazer, seja oferta, seja dízimo.

     "Nós prometemos que seriam 4 anos, está na ata da igreja, e assim vai ser", concluiu Bequele. E eu, pelos dois últimos anos, decidi retornar o valor da mensalidade acrescido do meu dízimo. Nesse período, recebi muitas ofertas de livro, material didático, passagens de ônibus, enfim, certeira de trabalho assinada, um ou dois salários mínimos e comecei na Catedral.
     E seguia eu por lá, muito bem, querida por todos, recebia presentes e reconhecimento, muitos mimos para mim e minha outra colega, chegam, um dia, pastor Jair, Isabel Carvalho e Maria Leopoldina, e ainda acompanhados de Carmem, de Rio Doce, no Recife, time de (muita) responsa, desafiando-me numa visão nova, muito espiritual e inteligente: ser obreira da COMEC - Confederação de Mocidades Evangélicas Congregacionais.
      Titubeei, disse que iria orar, eles oraram comigo ali mesmo, na secretaria da Catedral. Eu teria de pedir demissão, logicamente, para desempenhar esse ministério. Orando, senti paz e procurei o pastor Guilhermino, comunicando que deveria retornar à minha denominação. Eu, que brincava com ele, de 2a a 6a, sou presbiteriana, sábado e domingo, sou congregacional, ele resistia. Até aquele momento, ele também brincava, dizendo me querer membro da Catedral.
      Não posso te demitir. Você me ajuda muito, são muitas viagens minhas, muitas ausências, muita responsabilidade. Era 1988, ele era o representante dos evangélicos na Constituinte, em Brasília, mas eu confirmei a decisão, dizendo que o Senhor assim me convocava e eu teria de ir. Então ele me deu um ultimato, por favor, arranje-me alguém igual a você. Rimos juntos, não dá, minha mãe só teve uma, mas foi taxativo: "Eu preciso de alguém igual", falou e encaminhou-se para o seu Gabinete.
     Ali mesmo, na secretaria, eu orei por uma pessoa que me substiuísse o que, para mim, seria um sinal de Deus. À tarde, chegou meu primo. Ele era da aeronáutica e trabalhava no aeroporto Santos Dumont. Estava sendo dispensado e muito pesaroso.  Ore por mim, porque estou carente de um emprego. O que você fazia lá, perguntei. Eu era secretário do CAN - Correio Aéreo Nacional.
    Amilson, atualmente pastor, naquela época foi a solução para ocupar o vazio que ficava com a minha saída, providência de Deus e descanso para o pastor Guilhermino. Propus, mas ele considerava-se menor para o cargo. "Não tem nada a ver". Porém contra-argumemtei: "Primo, é secretaria. O que for necessário suprir, eu ensino. É falar com o pastor, caso ele concorde, porque você já trabalha nessa mesma área".
     Cedeu. Está bem, prima. Então fale.
      

Artigos soltos 51

 "Replicou-lhes Pilatos: Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo". Mateus 27:22.


     Estimulante, por si, esta pergunta. Muito já se disse e escreveu sobre ela. Vai aqui mais um texto. Isso porque ela está implícita em qualquer atitude em relação a Jesus Cristo.

    Pilatos separou as duas pessoas, ou melhor, separou o título "Cristo" do nome "Jesus": "Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo".

    Na cultura judaica havia o costume de ungir com óleo o que fosse, pessoas, lugares, utensílios. Simbolizava sua consagração.

    Por exemplo, no ritual detalhado de ordenação sacerdotal levítica ungia-se com óleo. Na cerimônia ou fora dela, como ocorreu com Davi, um rei era consagrado ao seu ofício.

    Um profeta, como ocorreu com Eliseu, também levava óleo sobre sua cabeça. Porém, mais do que o óleo, simplesmente, que, por si, nenhum efeito místico possuía, valia a personalidade.

     Por exemplo, na comparação entre Saul e Davi, os dois levaram óleo sobre a cabeça, porém somente Davi honrou, em essência, o que o ritual significava.

     Já no caso de Elias, que ungiu Eliseu, os dois honraram a investidura. Aliás, a simbologia extrapolava a condição de ser apenas judeu, porque Elias ungiu Hazael, rei sírio.

     No caso de Jesus, a unção corresponde a uma tarefa específica dele, associada à marca distintiva de sua personalidade, daí o termo "Ungido", o mesmo que "Cristo" ou "Messias" ter se tornado seu sobrenome.

     A pergunta de Pilatos pergunta pelo personagem histórico "Jesus", associado ao título "Cristo" a ele atribuído. Por isso esse governador usou o terno "chamado". Para ele, tratava-se de uma alcunha.

    Quase certo afirmar que, como personagem histórica está garantida a existência do galileu Jesus. Embora até teólogos, assim chamados, tenham encetado uma busca pelo "Jesus histórico".

     Mas partindo-se da hipótese de que sua historicidade é incontestável, falta a outra parcela, o sobrenome Cristo e, nesse caso, o que significaria, que sentido e tarefa a ele designada representa a sua unção.

     De tão específica, por toda a argumentação e significado do termo "unção" aqui expostos, destaca- se o seu uso bíblico, aliás a razão por que aparece no relato do Evangelho, neste caso, Mateus, e a razão de ser da personalidade histórica Jesus.

     Uma tarefa e personalidade únicas: ser o salvador, aliás, o sentido hebraico de seu nome "Jesus", o único designado por Deus para essa tarefa. Portanto, a unção de Jesus é e está em função de todas as outras assim realizadas.

     Logo, a pergunta "Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo?" se aplica a todos, tenham-na feito ou não. Porque primeiro, revela o grau de relevância dado à Pessoa. Porque é inadmissível desconhecer, totalmente, Jesus. Ou até seja admissível, porém não sem violência contra si mesmo.

     Refiro-me a Jesus, pessoa histórica. Avançando em direção à Jesus, agora como Cristo, sim, porque são a mesma Pessoa e a fala de Pilatos, supondo ser uma alcunha fraudulenta chamá-lo Cristo, é pura equivoco dessa outra histórica personagem.

     Jesus é o Cristo, como afirmou o apóstolo: "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo". Aqui como confissão de fé. Que é a única alternativa cabível na solução é resposta para essa questão. E a resposta dada a Pilatos representa uma resposta coletiva.

     E prevalece a pergunta. Ninguém se livrou dela. O que fazer, ainda hoje, de Jesus, chamado Cristo? Há algumas possibilidades a ser discutidas.

      

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Missões - ano zero.

 Você trabalhava no DERP?

      Sim, mas é que eu teria de vir, não é, a partir da Souza Cruz, de como o Senhor me tirou... Como Amós, tirado de após o gado. Mas qual foi esse ano? Pois é.... Cálculo, pelo falecimento de minha mãe, em 1981, entrei no Seminário em 1983, no externato, na Fluminense.  Nesse período, dois anos trabalhei na igreja, como Redatora de seu Boletim, assim como visitava com o pastor Constantino Bequele.
     Uma vez tendo saído da Souza Cruz, o pastor Bequele me chamou ao seu Gabinete e me perguntou, por três vezes: "Você tem chamado?" Buscaba ver em mim convicção, por isso insistia em sua indagação. Eu disse que sim, que antes, no emprego, eu tinha dinheiro, mas não tinha tempo. E agora, eu tinha tempo, mas não tinha dinheiro.
     Eu fizera um curso de secretariado e outro de inglês, mas a troca de horário nesse antigo serviço impossibilitara a continuação dos estudos. Trabalhava pela manhã, mas trocaram para a tarde, incluindo o sábado, o que inviabilizou a continuidade do curso Yes, no Meier, de inglês.
    Pastor Bequele, então, convidou-me a trabalhar como Secretária da igreja, redigindo o Boletim e me ajudando nas visitações, mas controle o seu horário e agenda para não se atrasar no Seminário. Então, a visitação era de 14 às 16h, para que então eu pudesse ir para casa, pegar o meu material e chegar a tempo ao Externato, no centro do Rio de Janeiro.
     A igreja, assim, prontificava-se a pagar os 4 anos de curso, condicionado à não reprovação. Avaliei que era justo, em função de um compromisso consciente. A igreja pagou os dois anos iniciais porém, no 3° e 4° anos, com o Rev. Guilhermino Cunha sendo meu professor de Seitas e Heresias, convidou-me para trabalhar como titular na secretaria da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro.
     Argumentei que, por várias razões, não me via capaz para essa tarefa. Avaliava ser acima de meu nível social, o que comentei com o pastor Bequele, mencionando o convite e dizendo que não aceitaria. Interessante que o pastor Guilhermino, que havia me dado 24h para decidir, argumentara: "Você toma decisões sem ouvir Deus? Ore e retorne amanhã". Então, eu fui à igreja, e meu pastor reforçou: "Mas é uma honra, minha irmã. Você não pediu, mas foi ele que te convidou. Deus que te escolheu. Eu acho que você deve aceitar".
     Meu pastor orou comigo e eu, no dia seguinte, munida da melhor roupa que eu tinha, rumei para a Catedral.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Apresentação

    Para mim constitui-se num grande  privilégio conhecer o trabalho do Prof. Maestro Afonso Portela denominado "SINGELAS CONTRIBUIÇÕES PARA A INTERPRETAÇÃO VOCAL DE CANÇÕES AMAZÔNICAS".

    Por múltiplas razões. Embora não seja, propriamente, alguém da área específica da música, senão um apreciador amador, tive o privilégio de ser aluno desse competente Artista, Maestro, Professor e agora também Escritor.

    E do mesmo modo e grau de importância, conhecê-lo, por assim dizer, considerando-me amigo. Conviver com o Maestro Afonso é gratificante. Porque sua postura em relação à arte da música constitui-se num grande incentivo a quem com ele convive.

    Consegue transmitir a seus alunos, entre os quais me incluí, independentemente do grau de seus conhecimentos musicais, da idade deles e atendendo, de modo peculiar, às suas dificuldades, os métodos, caminhos e o potencial da arte musical, numa linguagem ao mesmo tempo rica em detalhes técnicos e acessível à compressão de todos.

     O que demonstra sua competência e larga  experiência. E, particularmente, quando se lança à tarefa de registrar sua vivência com a música, demarcada em sua história com essa arte, torna-se possível então, como num diálogo, acompanhá-lo a cada etapa, constatando seu meticuloso senso de observação e o meticuloso cuidado com os pormenores.

     O Maestro Afonso Portela se revela em seu texto, não somente como legítimo integrante da cultura amazônica, porém como alguém que cultivou a percepção dos desdobramentos dela, assim como revela capacidade de reconhecer seu valor e demonstrar suas peculiaridades.

     Ler o seu texto é como assistir a suas aulas. O modo como discorre sobre suas experiências revela seu ponto de partida, que se delineia no conhecimento pormenorizado da arte do canto, o modo como se configura, como se aprecia, como se articula, no contexto cultural pesquisado e, finalmente, como se explica e se ensina.

     Maestro Afonso reúne, ao mesmo tempo, profundidade e simplicidade. Porque de nada adiantaria experiência, conhecimento e vivência, se não houvesse como expor suas conclusões num modo abrangente, claro e numa linguagem acessível, porém sem perda de conteúdo.

      Ainda que não  esteja na posição de um especialista na arte da música, incluo-me no grupo dos que apreciam, neste trabalho do Professor e Maestro Afonso Portela uma contribuição que reforça o valor da cultura local do Norte do Brasil.

     E o faz destacando a riqueza que há na poesia, no canto e no detalhe do modo como deve ser replicado, a partir da interpretação correta que se deve incorporar, na medida em que se propõe conhecer, apreciar e reproduzir, pela arte do canto, a música regional amazônica.

     Somente há uma maneira de fazê-lo, o que se torna bem claro por meio do laboratório de pesquisa executado por nosso caríssimo Maestro, que será por meio da técnica demonstrada de modo tão claro e meticuloso, bem ao gosto e ao exemplo do esforço pessoal que testemunhamos ser a conduta de nosso Professor.

     Congratulamo-nos com o Maestro Afonso Portela, porque sua obra ocupa um lugar de destaque pelo teor que revela, constituindo-se numa espécie de manual permanente, revelando a cultura amazônica do canto, o modo como ela retrata seu ambiente, assim como o modo como deve ser apreciada, experimentada e reproduzida.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

A velha - 3

 

    A professora da escola irritadíssima. A escola do bairro. Sta Leocádia. A escola. Vocês tem de ser dar o respeito. Num respeita os outro. Tem de respeitá. Respeitar d. Maria, respeitar a religião e respeitar a si mesmo, o pai e a mãe de vocês. Cês têm tudo que se dar o respeito.

      Porque a criançada passava pela velha e falava Ave, Maria. Ela só olhava. Mas bastou. Cidade pequena, chegou nos ouvidos de alguns pais, algumas mães deram peia, a própria Diretora fez uma preleção no recreio da escola. Olha, isso é muito feio. Os pais de vocês vão ficar envergonhados. Vocês querem os pais de vocês envergonhados? Essa pergunta foi enfática.

     Eu não acredito que vocês queiram ver a vergonha, a vergonha, repetia, modulando a voz, es-tam-pa-da, falou, gesticulando uma imagem circular com as mãos, em forma de garras, estampada na cara, no rosto, melhor dizendo, de seus pais. Bastou. A velha superou mais essa e continuou plantada em seu perímetro.

     E foi nesse perímetro que Alfredo, esse, o motoboy das entregas, a viu plantada, quando virou a curva, para pegar a marginal, para pegar a autoestrada. Deu de cara, distraído, desligado, como sempre, e desprevenido que estava, com a estampa do rosto profético protocolar sombria da aparição. Como se fosse uma aparição.

     Desgovernou-se, na moto, como se fosse cair, a lado e outro, fez um 8 no chão, até que parou, como se fosse num cavalo de pau. Minha Nossa Sra, ele gritou. Que que isso, seu Alfredo, era Maria, a menina de bike, os três únicos, naquela hora, cedo no dia, ali naquela rotatória.

    Maria freou sua bike. Machucou-se, seu Álvaro? Falou assim mesmo, "machucoo-se", com o "se" depois do verbo. Era uma menina muito inteligente. Trabalhava e estudava, mas as duas coisas fazia, dando tudo de si. Não, é deslocou o olhar para a velha. Ia dizer alguma coisa. Mas os olhar da mulher o estatelou. Esgueirado pelo franzido da fenda que dissimulação os olhos.

     Dissimulada. Esse velha é uma Dissimulada isso que ela é. Mas não disse, pensou, enxergou o olhar dela fixado no seu, pela fenda dos olhos, e a imagem completa foi aumentando de tamaho, ganhando corpo e força, mateforfozeando-se, ou melhor, metaforizorceando-se diante dele. Seu Alfredo. Maria o chamava.

      Porque congelara. Ahn, sim. Oh, Maria. O Sr. está bem mesmo? Claro! Claro. Fez uma careta. A velha manteve os olhos de brecha cravados nele. Não tirava. Ele abaixou a cabeça, deu com duas vezes no pedal, a moto pegou, deu tchau para Maria, olhou de novo para a velha, ela com a lentidão de sempre acompanhou olhar e trajetória da moto.

     Ele ganhou, intrigado, seu rumo. Porque sua vontade mesmo era culpar a velha pelo transtorno da derrapagem. Que que ela tinha de estar ali, feito um poste. Caramba! Mas convencia-se de que a culpa era sua. A velha era um patrimônio e o lugar dela era ali. Definitivamente, não era para ele encarar a velha e se desgovernar. Caramba! E foi assim que deu mais uma olhadela atrás. E deu com o olhar da velha, 180⁰ mirando a cara dele. Deteve-se o suficiente para ouvir um buzinaço. 

     O cara da via de sentido contrário o alertara. Virou para ver, deu com a traseira do carro defronte, par de luzes de freio acesas, crescia, chamou para si a moto, freou amenizando, ganhou à direita, desviou, retomou o prumo, saiu da traseira do carro da pista da direita, ganhou o acostamento, viu areia no chão, chamou ameno no freio, a moto ainda dançou a lado e outro, agradeceu a Deus não ter ninguém nem nada naquele espaço, entre o caminhão que agora via a sua esquerda e a vala negra cheia de mato que via à direita.

     Noutros tempos, ainda solteiro, teria xingado, sonoramente, um nome. Mas lembrava da cara, desta vez de sua mulher, seu olhar reprovador. Tirou o capacete, rodando a cabeça para um lado, velha do caramba!

A velha - 2

    Fortuito aceno. Tarso naquele dia levantara cedo. Madrugou, hein, ironizou a mulher. Vou ao município. Ela remexia os ovos mexidos, remexendo estava, remexendo continuou. Sei...reagiu, irônica.

     Posso saber qual deles? Eram 22, ao todo, uns mais perto, no entorno da capital, outros mais isolados. Sim. Pode. Cruz Alta. Huuummm... Sei. Pertinho. Logo ali, agora foi ele o irônico.

    Não dava não, pra você me prevenir quando vai dar essas estiradas? Mulher, é meu trabalho. Tranquilo. Uma coisa não conflita a outra, ela respondeu. Que é seu trabalho, eu sei. Mas avisar à esposa, prevenir, e aí, já despejava no prato dele, gesticulando com o colher, avisar, prevenir, nada custa, você não acha?

      A mulher tinha razão. Ele que era o máximo desligado. Imagina que eu vou ali, digo ali, em Senador Caiara, aqui do lado, enfática, indicando pela colher, com uma circunferência no ar, você acordasse, altaneiro (gostava dessas palavras ditas do nada, desses adjetivos), acordava altaneiro e não me encontrava aqui, agora disse apontando, com ênfase, a colher para o chão, e nem seus ovinhos mexidos. Sabe o que ia acontecer: meu celular aqui ia tocar e, do outro lado, mulher, cadê você? Eu então ia dizer, estou aqui, benzinho, no Caiara. Apelido do município. Você ia dizer caramba! Que era a expressão de espanto dele, marca registrada.

      Ele já degustava os ovos mexidos. Já havia consumido o mamão. Agora ia degustar a tapioca. Por último, o café. Você é muito desligado. Aliás, desligado demais pro meu gosto. Vai desculpando, mulher. Partia a metade da outra tapioca, para terminar o café.

     Haviam se conhecido por puro acaso. Ela trabalhava de diarista na casa do advogado dr. Gonçalo. Ele um dia, parou a motinha em frente, para a entrega de um pacote. Buzinou. Não seu nem 1min, clicou de novo na buzina. Aquelas estridentes, de moto barata, irritantes.

     Já vai, estorvo, gritou lá de dentro uma voz, a dela. Caramba! Precisa chamar de estorvo. Ora, você não tem paciência. Pensa que estou brincando, aqui dentro. Tô trabalhando que nem você. Por isso mesmo, disse ele. Olha aqui, mostrou atrás o vagonete cheio de entregas para fazer. Também tô trabalhando. Então tenha educação e muita calma nessa hora.

     Ora, educação, educação, quem fala de educação. E já estendia a pranchetinha para ela assinar o recebimento, ela já abrira o portão, assinou, recebeu, grato, disse ele.  Seja mais prestativa. Ela olhou com indiferença, com cara de nojo, e disse seja menos pra frente.

      Ele acelerou, agora foi ele que olhou com cara de desprezo, ela manteve o mesmo olhar de nojo, até nunca mais, disse ele, até o dia do juízo, disse ela, e não se despediram. Dia seguinte, por pura e, literalmente, co-incidência, a buzina irritante tocou defronte da casa do dr Gonçalo, muito conhecido e querido na pequena capital. 

      Lá de dentro, ela. Não acredito não. Mais uma vez, a buzina, desta vez repetida com menos de 30 seg. Ela veio irritadíssima. Ele esperava com um sorriso debochado escancarado na sua cara. Foi decisivo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A velha

        A fama da velha era injusta. Nas redondezas, diziam, por pura implicância, que tinha 100 anos. Nem tanto. Alguma coisa entre 80 e 90. Ficava por ali, nas redondezas do bairro.

     A lenda urbana dizia que ela era onipresente e onisciente. Porque era uma das primeiras moradoras do bairro, diziam que  a invasão começara por ela, e que sabia tudo de todo mundo. Exagero.

    Mais pela figura, do que pela atividade. Porque tinha uma figura singular, num certo sentido, até meio sinistra, e estava sempre por ali, na calçada, cedo do dia, começo de noite, sim, porque tarde da noite apenas se via a lâmpada de sua casa, de matiz amarelado, dependurada, a partir do teto, pendida, presa num bocal envelhecido como ela, pendente do teto da casa, madeira escura pelo tempo, envelhecidos como ela, a casa e o tempo.

    Dava a impressão que, quem saísse cedo, pela manhã, para o batente, daria com ela ali, estratégica, rosto multiengilhado, quer dizer, com rugas mil, nariz bico de águia, queixo pronunciado, sem a característica verruga, conferindo um perfil vulgar, então, pela ausência dela, era portadora de uma feição solene.

    Sinistramente solene. Os olhos miudinhos, como se fossem dois rasgos na pele encarquilhada, duas rugas a mais num mar delas, nesse rosto amarrotado por elas, acentuavam o tom profético de seu prognóstico. Era possível entrever, dentro, na fresta dessas duas fendas, brechando, as pupilas baças, um desbotado que já havia sido negro.

     Diziam que dar com ela, pela manhã, assuntando, dava azar. Roupa para maior do que o seu tamanho. Blusa abotoada até a gárgula da garganta, gola imensa, pontuadas, angulares, que pareciam guarnecer todo o tórax, mangas que só deixavam ver as pontas dos dedos, com unhas distorcidamente aparadas.

    Saiote cumprido até o pé. Pontas dos dedos das unhas ainda mais brutas e endurecidas do que as das mãos. Chinelas. Rosto enorme. Rasgo de boca. Lábios finíssimos. Uma só menina das redondezas, chamada Maria, acenava para ela, todos os dias, em que saía com sua mochila às costas, montada em sua bike, caminho para o trabalho, caixa de supermercado. 'dia, d. Maria, ela dizia. A velha, lentamente, voltava o rosto, alteava, imperceptivelmente, a mão, afastando do vestido e da posição despencada, pendida, um átimo de distância. Era o aceno. Maria desenhava um lindo sorriso seu para Maria, a velha. Ganhava esse aceno. 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Inusitado 1 - Providência divina na BR

O que mais lembra o Gol 1000
quadrado Kodak que nos socorreu 

     Inusitado. Já seria navegar num Gol 1000 1995, aquele quadradinho mesmo, raiz de mais uma falcatrua das montadoras, desta vez ou, mais uma vez, a WV, que exigia, para vc "encontrar" o dito carro popular, comprar tapetes, peito de aço e um rádio-gravador, para fitas K7, lembram?

     Somente sair navegando, no Gol 1000 quadrado, a partir da colina da Floresta, nome de um bairro aqui, em Rio Branco, a caminho de 4.100 km, até o outro Rio, tudo foi inusitado. A parada na antiga WV, em Porto Velho, para trocar o morcego, nome do antigo 1/4 de vidro, de acabamento da porta, junto ao parabrisa dianteiro que, nesse Gol, era fixo.

     Retenção na estrada, impedindo de alcançar para além de Cacoal, que era sempre nosso plano, por causa de recapeamento. Mas como a memória falha, não sei se foi nessa primeira viagem, em março de 1995, para defender dissertação de mestrado na PUC, que houve essa retenção, ou que achamos o menino sumido, caído entre camas, ou no hotel de Cacoal ou já no de Rondonópolis.

     Já contamos o susto na curva de saída da 364, para atravessar Cuiabá e retomar para Rondonópolis, quando o choro de estresse do menino, injustamente no colo da mãe, no banco traseiro, o dia inteiro, obrigou-nos a parar num posto para, ao mesmo tempo, abastecer e verificar o tamanho do estrago no peito de aço, retorcido no imenso buraco que colhemos, quando, bem na curva, voltei-me para ver o garoto em seu choro.

     Carolina, desta eu me lembrei, a concessionária WV em Rondonópolis, para constatar que houve o milagre. Eu apalpei, no posto, por debaixo, para ver se havia óleo vazando, senti o peito de aço retorcido, mas não era possível deduzir o quanto perto da sucção interna da bomba de óleo havia ficado a parte interna do carter com o impacto.

    Foi uma expessura de folha de papel, segundo me mostrou o mecânico. Ficou num canto da loja o peito de aço retorcido e mais a tampa do carter de óleo. Rumamos para o sul, pela BR 364, para a cidade seguinte, que eu acho que foi São José do Rio Preto. Ali pernoitamos, temos uma foto do menino que, àquela altura, apenas cambaleava nos primeiros passos.

     Para alcançar o Rio no dia seguinte. E vir com Dorcas na volta. Emparelhar, aqui e ali, com um Gol 1000 de mesma carroceria, todo amarelinho, da Kodak, ora eu, ora ele me ultrapassava, até que, numa curva, peguei em cheio um buraco. Desci para trocar o pneu dianteiro. Ele logo parou atrás, que eu nem notara que, justo naquela altura, ele estava atrás.

      Quer ajuda, perguntou? Eu disse claro, toda a ajuda é bem-vinda. Mas ele deve ter notado que eu, realmente, não havia notado tudo. O pneu traseiro também estava furado. Ele me repassou seu estepe. Perguntou para onde eu ia. Quando disse Rio Branco, ele então deu um ih, de espanto, e pediu que eu deixasse o pneu num posto de um conhecido, mencionou o nome, de que não lembro, logo após Pimenta Bueno.

     Assim fizemos: ultrapassamos a cidade, fomos ao posto, deixamos o pneu como encomenda ao dono, voltamos para pernoitar nela. Aliás, mais uma dormida em Pimenta Bueno, favor anotar. Tudo isso após ouvir histórias dos buracos da 364, na época nomeados e reconhecidos por todos os caminhoneiros, cuja conversa sobre enguiços e acidentes, infelizmente até com mortes, pude ouvir, enquanto Regina e Dorcas lavavam o menino de suas emergências. Esse borracheiro foi indicado pelo amigo da Kodak, uns 40 km à frente do sinistro. 

sábado, 14 de agosto de 2021

Necrópole XII - Final

       Fechariam como numa pinça. Um arco, por dois lados, eram, pelo menos, meia dúzia deles. Pelo menos, dois estranhos havia, um totalmente, outro conhecido, pelo menino, só de vista. Agora desenhou-se um sorriso sinistro no rosto do líder.

    Súbito um redemoinho de vento, por detrás do menino, levantou poeira. Costumava vir assim, como que subindo a partir do descampado. Certa vez, o aviso da vinda do vento virou ventania, ele caminhou, atraído, para o beiral último que o muro representava, para assistir a uma evolução, belíssima, de chuva, temporal mesmo, vindo célere em sua direção, subindo o aclive do descampado.

    O redemoinho, como num recorte preciso, rodeou o menino, como que desenhando um círculo ao seu redor, levantado folhas secas da árvore ali pertinho, sombra solene e contínua companheira de nosso herói. Projetou poeira no grupo, como a se espraiar, como um leque, num vetor de direção de encontro a eles.

     O riso de deboche estava na cara dele, cerrou um pouco os olhos, como instintivamente, os outros bandearam ao lado os rostos, o menino olhou à volta, lado e outro, como num semicírculo, seu terreno, suas campas, seus túmulos e jazigos, sua área, seu vento. Agora cravou o olhar nos olhos do adversário de ocasião, sustentou nenhum medo, como que inquiria se havia compreendido.

     Compreendido o que o vento tinha a dizer. Nem tempo contado houve, leve, levíssima alteração, congelados riso e deboche, como a se perguntar por que e como, que queria dizer essa falsa segurança, essa comunicação do quê, se eles se fechavam como pinça. Sem tempo, dessa vez não foi brisa, mas como um tufão de força calculada, como se mãos invisíveis de vento avançassem contra e bloqueassem o avanço de cada um.

    Num ruído surdo. Como tufão contido. Surdo e forte. Como se fossem se fechar essas mãos de vento, ao redor, assim se sentiram eles, enquanto isso vinha um som, mais agudo, como de fosse ventania de longe, varrendo tudo, árvores onde houvessem, assobio onde nada houvesse, zoada típica de uma muralha que avança, no conjunto todo.

     Mais uma olhada do menino ao redor. Agora, sério, congelou o olhar, como se encarasse a todos e um a um ao mesmo tempo. Modulou, de leve, os lábios, como a advertir, é isso, e, agora com o olhar, como que fez menção do ruído atrás de si, cada vez mais perto e mais ameaçador, vindo a partir do descampado, por detrás do nosso herói, de frente para a malta.

     Agora o som era total, chegara a tormenta, a gang como que estatelara, parada, até os paus estavam no ar, também congelada a cena, foi quando reviveu-se atrás um som de chuva. Que chegou, em evolução maravilhosa, varrendo tudo, de trás para diante, lavando de toda a poeira, encharcando as folhas, agora grudadas ao chão, apenas movidas pela enxurrada que fazia regos nos desvãos das tumbas.

    A água, definitivamente, os fez parados, encharcados. O menino ergueu as mãos aos céus, como a louvar a tormenta. Todos os olhos voltados para o seu gesto. A chuva continuava, pelo vento, a bater-lhes o rosto, de frente, a encharcar o menino, pelas contas. Braços erguidos e olhar aos céus, olhos semicerrados, cheiro ameno da terra molhada.

      Todos como a não saber por que ou como, balançaram sem por que, nas mãos, os porretes, um a um largados ao léu da água que escoava no chão, matizada nos desvãos. Um ou outro porrete, que não travou naquele desenho, deslizou pelas vielas entre túmulos.

      Ninguém mais olhou para a cara de ninguém. Cada um tomou seu rumo. O líder não sabia o que fazer de seu cetro, se parecia que iria arremessar a qualquer quadrante, largou-o ali mesmo, emblematicamente. E menos simétricos do que na vinda, agora voltavam. O líder por último, em direção à elevação do cruzeiro, agora mais conduzidos pelas determinação natural da chuva torrencial, do que por mãos de vento invisíveis.

     O garoto mirava a debandada. Fechou os olhos, curtiu a água benta que o lavava. Quando os abriu de novo, a silhueta do líder se perdia descendo o aclive rumo ao portão de ferro. Junto ainda com a chuva, um raio de sol entre nuvens esbarrou no menino. De trás para a frente, do mesmo lugar de onde veio, a chuva foi indo, no mesmo sentido.

     Agora era um vento quente que vinha lá de trás. Morno. Contribuía para secar a roupa molhada. A sujeira estava toda lavava e levada. As nuvens se iam e um sol de entardecer despontava. E foi essa luz que trouxe, lá da direção do portão, despontando pelo alto do declive, ao lado do cruzeiro, pela via do meio, o contorno no negro Pedrão.

     Mãos enormes, braços quase na altura dos joelhos, ombros de laje. Sorriso alvo. Vinha ele. Costumavam, os dois juntos, e quantas vezes fizeram isso, em silêncio assistir ao sol se pondo. O pessoal em casa já sabia que, sol posto, a essa hora, ele chegava. Pedrão veio em sua direção. Ele deslizou da lájea ao chão. Também riu para ele.

     Não precisava dizer. Na chegada de seu plantão, havia cruzado com o bando disperso. O olhar duro que lançou a cada um, nunca mais esquecerão. O líder se deteve. O mesmo olhar, mas agora a menos de palmo, medido nas mãos do negro, de distância. O olhar do delinquente adolescente sabia que tinha que mirar no do outro. Ficaram assim, encarando-se, até que o rapaz entendesse o nunca mais.

    Os dois juntos, como sempre, em silêncio, agora quase totalmente secos, miravam o sol se pondo. A mão gigante esquerda do negro pousada no ombro esquerdo do menino. Cada anjo que aparece. 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Hotéis 3

Hotel Amazonas, Cacoal, RO:
por diversas vezes nossa pousada.

    Saindo de Rio Branco, AC, 980 km sempre estava bom para nós. No segundo dia, fazíamos uma média de 1200. Com mais uma cota acima de 1000 no terceiro, sobrava o restante, de 850 a 900 para o último dia.

    Às vezes tentávamos passar de Cacoal, RO, que era essa primeira parada. Certa vez, um reparo de asfaltamento nos atrasou e, doutra vez, chocaram-se dois caminhões, um carregado de cerveja, com um daqueles de transporte dos tais materiais químicos mas, ainda bem, vazio. Mas a posição em que ficaram, fechou a rodovia.

    Desistimos de tentar ultrapassar Cacoal. Somente uma vez, milagre e CNTP, alcançamos Ji-Paraná, onde pernoitamos num hotel vertical de lá. Cacoal, então, foram pernoites de perder a conta. De 5 a 10, talvez. Em Pimenta Bueno, ainda em Rondônia, sem contar a primeiríssima viagem em 1993, foram 2 vezes, talvez mais uma quando esticamos até a casa de um amigo acreano que se mudou para lá.

       A volta nos colocava em Ariquemes, RO, por várias vezes, desde os tempos de Cornélio e Abigail, missionários fundadores desse trabalho, umas duas vezes, pelo menos, até o tempo de Vitelbo e família, pelo menos umas 4 vezes. Passávamos pelo supermercado, fazíamos uma feira e tanto, e deixávamos com eles, garantindo nossa janta e o café da manhã nessa hospedagem.

     Acho que os esquecimentos podem acrescentar, por baixo, umas 4 vezes mais, com uma vez esquecida por algumas dessas cidades, com pelo menos 2 ou 3 a mais em Cacoal. Uma menção em Alto Araguaia, MT, e Sta Rita do Araguaia, GO. Numa dessas, mais uma daquelas paradas de estresse, a princípio somente para jantar, pois visávamos Mineiros, mas deixamos para tirar a diferença no dia seguinte, assombrados com a possibilidade dos buracos. Avaliamos muito sábia essa decisão. 

    Doutra vez, subimos ladeando Goiás, provenientes de Mato Grosso do Sul, após parar num trevo, pedir informação ao caminhoneiro, o melhor guia nas estradas, e subir com atrevimento por uma estrada de terra, 197 km acima, para pernoitar no Alto Araguaia. Ponham, talvez, mais uma vez, devido a esse mesmo cálculo de chegada e não chegada a Mineiros.

     Numa outra vez, agora foi em 2003, com certeza, para pousar em Brasília, onde estava o cunhado mais velho, paramos numa pequena cidade, de que não vou lembrar o nome, e vamos contar Brasília que, curiosamente, permite terminar a viagem, com cerca de 1100 km até o Rio, completando Rio Branco-Brasília-Rio de Janeiro com pouco acima da distância dos 4100 da viagem sem essa baldeação.

    Umas duas noites também passamos em Ribeirão Preto. Quando parávamos lá, vínhamos direto tentando compensar a distância, visto que, nessa primeira jornada, a partir do Rio de Janeiro, havíamos apenas percorrido os 750 km até lá. O que me lembrou a vez, para nunca mais, em que tentamos fazer Rio-Rio em três dias. Pura ilusão. Atravessamos a Dutra durante a noite, como num pinball, além de ter de parar a toda hora na luta contra o sono.

    E também decidimos que não mais faríamos o trecho do Madeira até Rio Branco, na vinda, à noite, da balsa para cá.  A parada em Ariquemes passou a ser estratégica. Uma dormida em Campo Grande, nessa vez em que viemos em dois carros, com o pessoal da antiga igreja, nessa em que nos surpreendemos com o preço da pousada em Jaciara, então dormimos num hotel mais micha, feito alojamento.

    Ponham mais uma duas vezes em hotéis de Ariquemes, quando não mais havia lá missionários, uma vez em Bonfim Paulista, coladinho em Ribeirão Preto, pelo menos 1 vez em Campinas, 4 vezes em São Paulo, duas na casa do outro cunhado e outras duas na casa da prima.

     Conferindo, 10, por baixo, em Cacoal, 8, no mesmo pé, em Ariquemes, mais a 4 de São Paulo, as 2 do Araguaia e 3 em Pimenta Bueno, mais uma em Brasília, Campo Grande, Bonfim Paulista, Campinas, essa de que não lembrei, entre Cuiabá e Barra do Garças, em 2003, e ponham Ji-Paraná, que vai dar 37 ou 38 paradas. Ficam faltando umas 8, para as 45 restantes mas, como fizemos por baixo e nas vezes em que faltou acrescentar, pelo menos, mais uma, quase zeramos a base de erro. Sujeito, ainda, a pequenas variações, conforme a memória ajude. Até lá. 

Hotéis 2

     Pousada Rosa dos Ventos, Jaciara, MT, 
desafogo da rodovia fechada

    De outra vez outra emergência deixou a gente, e isso é providência de Deus, num outro hotelzasso, em Jaciara, MT, Pousada Rosa dos Ventos. Hoje é um hotel que a gente não escolheria para pernoite, pelo preço, certamente. Mas o pegamos na inauguração.

    A gente vinha pelas quebradas, aquele fim de tarde, doidos para chegar a Cuiabá, onde havíamos planejado aquele pernoite. A gasolina encostada na reserva, mas só havia a serra entre nós e aquela capital. Pelas quebradas, a gente via os postos no caminho para a serra superlotados de gente, cargas, ônibus.

     Deixa pra lá.  Seguimos. Até que, na subida, um policial rodoviário sinalizava para diminuição da velocidade. Tudo vazio, para quem subia, para quem vinha, e eu nem notava. Tombou um caminhão na serra. Material químico. Até chegar o pessoal autorizado, trânsito impedido.

     Retornei. Parei no primeiro posto que encontrei. Gente para caramba. Ônibus, caminhões, veículos, enfim, minha gasolina agora estancara no vermelho. Gasolina comum. Não temos, meu senhor. Não acreditei. Olhei o panorama já descrito à volta. Deduzi que guardavam o combustível para abastecer quem já estava por lá, no desafogo da rodovia. Seguimos.

     A toda hora olhos no ponteiro de combustível parado na reserva. Estávamos entre Jaciara e Cuiabá, muito mais para Jaciara, agora voltando, comentei, esta gasolina não vai chegar à cidade. Foi quando vimos o indicador de hotel e, à frente, demos com a rampa dele. Novíssimo. Inaugurado um mês atrás. Vaziíssimo, porque, até aquele momento, o reflexo da estrada fechada não alcançara seus limites.

     Com esta, foi a primeira de uma segunda vez em Jaciara. Aliás, foram três: numa outra, indo para o sul, quando éramos dois carros e dormimos como que num alojamento, porque tentáramos o Rosa dos Ventos, para aprender que, definitivamente, não era para nosso nível. E noutra, quando optamos deliberadamente, porque, experiência de estrada, desta vez antes de chegar a Cuiabá, onde os hotéis são os mais caros. 

    Por isso temos, apenas, duas paradas nesta cidade: a primeira, quando aprendemos essa lição, e outra, quando também vínhamos em direção Sul, com três carros, e ficamos numa pousada, bem na saída de Cuiabá para a serra, em direção a Rondonópolis.

    Aliás, Rondonópolis lembra carinhosamente a primeira viagem com Regina e Isaac, este com 10 meses, março de 1995, quando ali pernoitamos. Num hotelzinho do grito, por causa de uma barata no banheiro, na hora do banho da parte feminina do casal.

    Pelo menos mais duas ou três vezes ali pernoitamos. Certa vez, vindos de Guarapari, ES, a partir da Assembleia Geral, pernoitamos pela primeira e única vez em Jataí, GO, parando em Rondonópolis para reparar os pneus da Filder, em sua viagem de estreia, em 2007. Também houve uma passagem, à noite, por essa cidade, em 1998, Regina grávida de Ana Luísa, optamos por subir e não vir por Mineiros, GO, por causa da buraqueira na estrada. Dessa vez pernoitamos, nessa única vez, em Primavera do Leste, MT.

    Outras duas paradas obrigatórias, e uma delas, de novo, no dia do estresse, como na vez de Lajes, já havia anoitecido, a gente pretendia ir além, talvez visássemos Pontes e Lacerda, que virou parada obrigatória e pré-planejada, mas demos com um hotel recém inaugurado, em um fundo de terreno, com uma churrascaria ao lado, em Cáceres.

     Nessa cidade nos hospedamos, nesse hotel, pelo menos mais uma vez e, numa outra oportunidade, com ele superlotado, mum outro, numa rua atrás e adiante. Lembrei de uma única parada que fizemos em Comodoro, MT, fronteira com Rondônia, Vilhena, onde também ficamos nessa mesma vez de 2007, enquanto que nessa outra aí, de novo, no mesmo ano de 1998.

     Como mencionamos Pontes e Lacerda, MT, outro grande hotel horizontal, onde sempre ficacávamos num quarto que mais parecia uma suíte, ficamos, pelo menos, duas vezes nesse hotel e numa outra vez num outro. Acho que numa época em que somente ia o Isaac e noutra também com Ana. Aliás, nesse mesmo ano do tal Rosa dos Ventos, saímos de Jaciara, após uma parte da manhã na piscina, esperando a rodovia abrir, e pernoitanos em Pontes e Lacerda.

     Acho que aqui, desta vez, contando de trás para a frente, 3 em Pontes e Lacerda, 3 em Cáceres, 3 em Rondonópolis, 3 em Jaciara, 2 em Cuiabá e com 1 em Vilhena, Comodoro, Jataí e Primavera do Leste, vai dar 18 que, somados aos 17 anteriores, são 35 que, para 45 do total, faltam 10 hotéis nessa história. Lembrem ida e volta, então, na verdade, faltam 55 hotéis.

Hotéis 1

 
                  Hotel Dallas, em Mineiros, GO:                    
 a Sra mais diplomata do planeta

    15 X 3 = 45. Explico. Em quase 27 anos de Acre, fomos 15 vezes, de carro, ao Rio de Janeiro. São cerca de 4.100 km, pouco mais, pouco menos, dependendo da escolha de vias em certos trechos da viagem. Opa, ida e volta, 45 X 2 = 90. Esta é a conta.

       Mas o 3 da conta acima indica o número de pernoites na estrada. Uma primeira noite em Rondônia, uma segunda em Mato Grosso, a terceira em São Paulo e a quarta noite se chega ao Rio de Janeiro.

       Portanto, este texto pretende lembrar os hotéis, assim, de um modo aleatório. Tentei guardar as notas fiscais, que representariam dados precisos, com datas e custos. Mas vários fatores trabalharam contra essa tentativa.

    Então, como se diz, vai de orelhada, por pura memória. Começaremos por situações inusitadas, emergenciais, em certos casos. Alguns deles por fadiga, como daquela vez que paramos, pela primeira vez, em Jales, SP.

     A ideia era avançar até Sta Fé do Sul, tríplice fronteira, à beira do Paraná, com Mato Grosso do Sul e Minas. Mas uma parada, por puro cansaço, na entrada da cidade, que é cortada pela rodovia Euclides da Cunha, que liga São José do Rio Preto a essa fronteira.

     Disse a Regina, é aqui mesmo. Entramos, saímos à cata de um hotel, atravessamos uma praça, àquela altura da noite atulhada de jovens, para dormir naquele hotel com água quente de energia solar, um saco, que só esquenta abrindo-se as duas saídas de água.

     Tivemos de mudar de quarto para ter um chuveiro que funcionasse. Nessa cidade nos hospedamos, pelo menos, mais umas três vezes, duas num hotelzasso vertical, de uma senhora muito atenciosa, e numa outra vez num horizontal, à beira da rodovia.

     Linda cidade essa Jales. Por ali, nessa rota, paramos por São José do Rio Preto, pelo menos umas duas ou três vezes, uma delas na primeira viagem, em 1995, somente eu, Regina e Isaac, com 1 ano e meses, e numa outra vez, também vindo (ou indo) em direção ao Rio, oportunidade em que, num posto, troquei, ou melhor, comprei um extintor a mais, por pura implicância daquele pessoal da barreira em Mato Grosso.

     Estou dando uma vez mais de lambugem, por não me recordar direito. Quer dizer, estou falando das 15 viagens com a família, porque naquela com Paulo Leite, somente eu e ele, em janeiro de 95, para a vinda definitiva, pernoitamos nessa cidade.

     Nessa rota, da Euclides da Cunha, dormimos certa vez em Votuporanga e, numa outra vez, do outro lado do rio, em Aparecida do Taboado. Não havia hotel que valesse, então dormimos num que mais parecia um almoxarifado improvisado, de um quarto só, pelo menos era essa a impressão, se não fosse para outras finalidades.

     Café da manhã, dia seguinte, uma qualhada bem intencionada mas que, de olhar para ela, desanimamos e tomamos o restante do café prevenidos. Para falar, então, de hotel bom, vamos frisar Catanduva, SP, 60 km à frente de São José do Rio Preto, onde pernoitamos três vezes, com certeza, quartos enormes, geminados, com banheiro comum, mas excelente, e piscina, que as crianças aproveitaram, pelo menos 2 vezes.

      Para ficar por São Paulo, vale dizer o pernoite duplo, ida e volta, em Lençóis Paulista, num hotel num posto, ou seria um posto de gasolina no hotel, a gente não conseguiu distinguir. Mas é outra cidade pitoresca, com uma pracinha linda e um restaurante acolhedor, onde nos refestelamos numa linda e apetitosa refeição, naquela tarde noite. Rumamos, logo depois, para dormir, porque estávamos exaustos.

     E quando a gente optava, em Rondonópolis, MT, pelo caminho, um retão, até Campo Grande, MS, nunca alcançávamos a cidade, mas dávamos uma guinada à esquerda, em direção à Três Lagoas, fronteira com Andradina, SP, porque preferíamos descer a Marechal Rondom até Judiaí, pegar a rodovia Pe II e depois a Carvalho Pinto, até Taubaté, na Dutra, do que pegar a Castelo Branco, pela rota de Campo Grande, caindo dentro de São Paulo.

      Pelo menos uma vez pernoitamos em Três Lagoas, para amanhecer descendo, por Andradina, a Mal Rondom, percorrida inteirinha até o trevo de Jundiaí. Certa vez, que não conseguimos alcançar São Paulo, por causa de um temporal enorme, torrencial, como dizia meu pai, pernoitanos em Mineiros, outro hotelzasso vertical, onde estivemos dessa vez e em mais duas, também de uma Sra. fantasticamente diplomática que, pasmem, nessa terceira vez, porque não tinha vaga, colocou-me, eu, esposa e casal de filhos, no quarto de casal de sua própria casa, do outro lado da rua.

    Somente aqui, vamos contar: 3 em Jales, 3 em Mineiros, 2 em Lençóis, 3 em São José do Rio Preto, 3 em Catanduva, 1 em Três Lagoas, Votuporanga e Aparecida do Taboado, total de 17 dormidas. Faltam 28, para um total de 45 pernoites. Vamos em frente, porque ida e volta serão 45 X 2 e o que falta para 90.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Necrópole - XI

      Como num daqueles dias. Cismou, então foi ao cemitério. Cansou de refletir sobre as razões que o moviam à necrópole. Talvez mesmo porque nada de razão houvesse.

    No mesmo ponto. Na mesma campa. Não era a de seu pai. Bem sabia onde ela ficava. Fora lá várias vezes. Mas não era bem lá que preferia estar. Conferia, vez ou outra limpava ao redor, mas sempre retornava para o ponto habitual.

    Sempre no mesmo horário. A mesma posição do sol. A mesma brisa. Poucas tumbas atrás dele ficava a plataforma que já mencionamos, do alto da qual, naquela quina de muro, avistava um descampado em declive, imenso, um dos poucos que restavam na cidade, na qual os prédios e as vias tudo invadiam.

     À frente a alameda que dava na entrada do cemitério, estirão até o cruzeiro, leve aclive, outro tanto até o enorme portão de ferro, leve declive. Para a esquerda, como se fosse uma visão em diagonal, a extensão máxima de tudo, todos os contornos de todos os modelos de túmulos e adornos múltiplos simbolizando, numa tentativa vã de amenização, a morte.

     Para trás, algumas tumbas mais atrás dele, o beiral para o descampado. A sua quadra. Bem assim já poderia dizer, tal a intimidade do tempo e dos dias que ali vinha. Todos os funcionários o conheciam, conhecia-os todos nome a nome. Lajedos de mármore negro, um grupo grande de túmulos de mesmo modelo naquela quadra.

     Pedrão, um negro enorme, um dos mais antigos coveiros, contava que era uma família rica a enorme que comprara toda a quadra, para ali sepultar todos os parentes. Ele mesmo sepultara muitos deles. Aliás, seu pai conhecia a história desde o primeiro, Costa Corte Cipriano.  Isso mesmo. Tudo sobrenome.

     Ventava ameno. Eriçaram-se os pelos do garoto. Toda a adrenalina no sangue. Por um momento, a brisa parou. O sol, que também pareceu parar, mais esquentava. Batendo pedaços de paus nas campas ao redor, vinha o grupo da escola. Aquele mesmo. Arredio. Haviam se dividido de forma a impedir uma escapada qualquer. Surgiram como do nada, cada um por detrás de um diferente mausoléu, era estudado, foi pego desprevenido.

     De antemão também já deviam saber onde ele estaria. Na quina daquele quadrante da necrópole. Batiam com a madeira nas campas. Riam um riso de deboche. Formavam como que um V ao contrário, o líder no vértice, mais lentos vinham seus asseclas. Estratégia. Para onde ele corresse, todos os outros se deslocariam para o mesmo ponto.

     Entraram um a um. Espaçadamente. Pedrão não estava de serviço. Se fosse seu plantão, teria manjado o golpe. Nada lhe escapava naquela cidade. Era um arquivo de histórias. Muitas de assombrações. Porque se essas mesmo existiam, todas o respeitavam. Mas, definitivamente, Pedrão não estava.

     Pensou em correr para trás, pular o muro, e ganhar a extensão do declive. Jamais o alcançariam. Surpreenderia a todos. Todos os sentidos do menino se aguçaram para essa fuga. Viu, lida nos olhos do líder, um traço de percepção de sua intenção. Então estacou. Percebeu, então, outro traço, agora de ironia nos olhos do rival.

     Ele achou que o intimidara. Até mesmo percebeu que a reação dele fez com que os outros ralentassem os passos. Era sincrônico. Agora, retomavam. O menino viu nessa retomada, logo em seguida ao tom de ironia no olhar do outro, uma sensação de prepotência da parte deles.

    Porque pensavam que o intimidavam. Enganavam-se. Agora quem devolveu um olhar com ponta de ironia foi o garoto. O modo como mirava nos olhos seu oponente, ele pôde ler isso nos olhos dele, intimidou-o, como que fazendo-o perguntar-se o que o torna tão confiante, se está encurralado?

    Manter fixos os olhos nos olhos do adversário desencadeou como que um diálogo. Este não entendia por que o garoto passou a lhe encarar, após a súbita impressão que ele teve de que, sentado sobre a lájea da tumba, ele se desnortearia. Não entendia a segurança do menino.

   Como se todos perdessem 1 segundo. Como se houvesse um sinal sincronizado. Como se lessem o pensamento do chefe. Sério agora, olhou a lado e outro, como que confirmando o avanço. Mas agora sério. E célere. Como se decidisse, após um átimo de hesitação, pela segurança vista nos olhos do menino, como que advertido a recuar. Jamais. Não recuariam. Lado e outro, como em câmera lenta, prosseguiram.

     

sábado, 10 de julho de 2021

Revelações douradas

 

           Decorridos 50 anos, algumas revelações necessitam, urgentemente, serem feitas, em função, precipuamente, desse tempo decorrido. E que, de outra maneira, ficariam ocultas e se perderiam na bruma dos tempos. É claro, por mim, fonte a mais fidedigna, muito embora modesta, desses fatos. E não menos honrado, na condição de agregado dessa família.

         Vão-se os tempos dos Anos Dourados, no qual o casal Jeconias e Oscarina, nas madrugadas da vida, punham-se de joelhos orando por esse menino, nessa fase de influências da beatlemania e da Jovem Guarda. Montado, perigosamente, nas lambretas voadoras, chegando ao absurdo, 60 km/h, trafegava pela rede Caruso de cinemas, do Meier a Copacabana.

        Eu, desde sempre, fá do Presbítero Patriarca, de vez em quando ouvia traços de sua ligeira preocupação, mobilizando as meninas, nós, a família lá de casa, de círculo, vamos dizer assim, mais íntimo de irmãos e amigos. Desnecessário mencionar quem e quantas frequentavam a garupa daquelas loucas lambretas.

        E isso aqui menciono sem nenhuma intenção de intrigas, mas é para reforçar o alcance do milagre que vai logo, neste texto, ficar esclarecido. Uma delas até cheguei a conhecer ainda no AP da Pache de Farias e nos corredores da igrejinha antiga, a Congregacional de Cascadura. Mas Deus é fiel. E como é!

       Eu, testemunha imparcial dessa história, cheguei mesmo a conhecer, pelo menos, uma delas que, diga-se de passagem, nem sombra faz, em sua beleza e virtude, a essa que se tornou resposta de oração, fruto de calejados joelhos paternos e maternos.  As meninas, refiro-me às irmãs do rapaz, mais do que depressa, e isso elas podem confirmar, apressaram o desfecho.

       Deus, com todo o respeito, é maroto. De uma vez, resolveu o problema, de forma magistral, reunindo virtude, beleza e espiritualidade numa pessoa só. Toda a força numa fala mansa, quase imperceptível, e o rapaz, que posava de “godzilla” dos Anos Dourados, com toda aquela valentia, rendeu-se. Tome, valentão, pra aprender. E ainda está aprendendo.

       Porque com mulher virtuosa do lado, aprende-se a vida toda. E a família cresceu. Eu não poderia, tendo nascido do meio para o final desses anos, omitir aos que chegaram depois, a solução desse drama, de forma magistral sintetizada num casamento. Ficamos como quem sonha, como diz o salmista. E os anos que se seguiram, ainda que tendo reservado, em certos momentos, provações, somente contribuíram para solidificar essa relação.

     E espalhar seus benefícios. Porque o que Deus faz, por Sua marca, é monumento permanente. Como diz João, no livro de Revelação, quem tem ouvidos (e olhos) para ouvir, ouça (e enxergue) o que de maravilhoso Deus opera. Que alcança filha e genro, neto, a nossa própria família, as famílias ao redor, próximo, perto e distante.

      E o rapaz do circuito Caruso, o badalado Jair, que cavalgava aquelas loucas lambretas, a 60 km/h, foi alvo de orações que o colocaram em rota de união com Miriam, e lá se vai meio século. Gratos a Deus, porque é com a assinatura dele que vocês um dia se encontraram e permanecem juntos, vitoriosos e espalhando bênçãos, de fora para dentro e de dentro para fora dessa família, da qual tenho a honra de também participar.

     Somos todos alvos de oração. Deus seja louvado por nossos pais, já em presença dEle, que derramaram sua alma, como Ana, diante do Senhor, para que essas que conhecemos, e delas testemunhamos, e tantas outras bênçãos por vir aconteçam. Aleluia! Somos gratos, Jair e Miriam. Sigam assim e cada vez mais, no amor do Senhor, e na fé que, de uma vez por todas, como menciona a Bíblia, foi-nos dada.