segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Haikai existencial - 4

Tragédia, sofrimento depressão
Efeito borboleta. Será. Será?
Tá valendo a oração de Lameque?

sábado, 19 de agosto de 2023

Família sorriso

 

   Família linda essa a nossa. Sou filho do quarto filho. Antônio e Adalgiza geraram 11 filhos. Mas criaram 8 entre eles. Pela ordem, Nair, falecida; José; Alaíde, falecida; Dejanira; Maria; e meu pai, Cid. Depois vieram Jani, Mário, João Batista, também falecido ainda bebê, Nadir e Isaías, o caçula. Não esquecer o Antônio, filho do segundo casamento do vô Antônio e Antunilia.

   Dejanira era o sorriso mais lindo entre todos. Visitei tia Deja muitas vezes em Cosmos, encostadinho em Paciência. Por isso me acostumei a conviver com as filhas dela, Deni e Dalmi.

   Os meninos eu via menos. Dirceu foi com quem mais convivi. Lembro de um almoço em sua residência, família completa, ele, a esposa, os filhos, eu, meu pai e minha mãe.

   O mais velho de tia Deja foi com quem menos convivi. Aliás, não me lembro de sua fisionomia. Mas as meninas de Deni, ora, conheci-as ainda solteiras. Sempre as achei muito lindas.

   Herdaram o sorriso da avó materna, mas também do pai, Ademar. Dele também não esqueço o sorriso. Aliás, Ademar sorria com o rosto inteiro. Como Ana Lúcia, que muito se parece com o pai. No livro que escrevi, sobre nossa família, menciono os pais dele.

   Foi nessa casa que, em 1951, minha mãe se hospedou, quando foi visitar essa família linda, no recanto que conhecemos como roça. Ademar foi a referência e o motorista avisado para deixá-la na porteira da fazenda de Manel Chiquinho e d. Aninha.

   Mas que gente hospedeira! Acolhedora ao máximo. Que refeição gostosa. Minha mãe nunca esqueceu. Juntavam-se os sorrisos de tia Maninha com os de toda essa gente linda.

  E o evangelho? O que dizer do evangelho? Gente, eu sou a terceira geração. Porque se contarmos os avós, Deni, Dalmi, seus irmãos e eu, que somos primos, somos 3ª geração.

   Pois vocês que são 4ª, 5ª e até 6ª, jamais deixem de crer no evangelho. Podem acreditar que, por detrás desses sorrisos, encontra-se a palavra de Jesus e, por que não dizer, o sorriso dele. Porque sorrimos o sorriso de Jesus.

   Como cresceu essa família! E sempre toda linda. E sempre toda de Jesus. E com o sorriso dEle. E não se pode dizer que não houve muitas lutas e provações. Momentos de tristezas, como este agora experimentado. Mas quem partiu, foi para a casa que Jesus preparou.

  E deixaram conosco, que aguardamos chamada, essa certeza. Jesus disse: "Na casa de meu Pai, há muitas moradas. Vou preparar-vos lugar". Todos os que partiram antes de nós creram nessa promessa.

   Daí termos a certeza de que vamos encontrar lá todos esses sorrisos. Lá não há mais lágrimas, a não ser de alegria. Nem morte, nem dor, nem mais pecado.

   Inesquecível o sorriso de Dionice. Mas sem inveja, mana Ana Lúcia, porque o seu não fica atrás. A gente olha para você, e vê, rememora com saudade, seu pai. E escuta a gargalhada de sua mãe.

   Estamos distantes somente na geografia. Porque em oração e em comunhão, estamos unidos. Sigamos firmes nas promessas que, desde nossa avó e, no seu caso, dos bisavós, também nos foram deixadas como herança.

   Aqui me lembro do Salmo 16, no qual o salmista se expressa, dizendo: "É mui linda a minha herança". Sim, é muito linda a nossa herança, muito linda a nossa família e muito lindos esses sorrisos. 

   Linda a presença de Jesus em nossa vida e em nosso viver.
                                      

Tia Dalmi e sobrinha Dionice,
num certo dia, num certo ano,
na casa de tia Maninha.

sábado, 12 de agosto de 2023

O específico da igreja

    O específico da igreja é o poder de Deus. Paulo Apóstolo, na 2 Tm 3,5, descreve a seguinte situação: "...tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder".   

  Esclarecendo o sujeito oculto e o pronome pessoal, vamos saber quem são os atores: "tendo" refere-se a um determinado grupo de pessoas, cuja (1) prática e (2) momento definido de atuação estão indicados pelo Apóstolo.     

           O pronome oblíquo "lhe" refere-se a Deus, donde se deduz que os que têm "forma de piedade" negam a Deus o poder. Trata-se de uma forma simulada de ser igreja.

     A Bíblia não confunde igreja com instituição, no sentido humano. Ela também não nega sua presença no mundo. Aliás, o essencial da igreja é sua presença no mundo.

    Jesus mesmo, que chama a si a formação, concepção e pertencimento da igreja, quando diz "edificarei a minha igreja", afirma também que ela "está no mundo", mas "não é mundo".

    Caso a igreja perca a dimensão da atuação do poder de Deus nela, perde a sua identidade. Ela não atua com poder próprio, em nome de Deus.

    Neste caso, será instituição humana, simulando o poder de Deus. Caso o poder de Deus nela atue, será legítima instituição de Deus, atuando no mundo suprida pelo poder de Deus.

    Interessante a questão da última pergunta dos apóstolos no ato da ascensão de Jesus aos céus, após os 40 dias de ressurreto, período entre a crucificação e o Pentecostes.

    Ali eles perguntaram a Jesus, porque era a preocupação deles, sobre a restauração do reino a Israel. E Lucas afirma, no mesmo contexto, que o assunto dos 40 dias de aparição intermitente havia sido o reino de Deus.

     Portanto, três tópicos de assunto estavam em questão: (1) o reino de Deus, assunto de Jesus nos 40 dias; (2) o reino de Israel, pergunta e inquietação dos apóstolos; e (3) a igreja, que surge como reposta, na argumentação final de Jesus.

   Ele afirma "recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e me sereis testemunhas", At 1,8. O específico da igreja no mundo é (1) ser testemunha de Jesus, (2) no poder do Espírito Santo.

    A Igreja vai se orientar pelo poder de Deus, será suprida pelo poder de Deus, vai anunciar e vivenciar no mundo o poder de Deus com uma única finalidade: testemunhar Jesus.

    Definitivamente, a partir da argumentação de Jesus que, em relação a "reino de Israel", "reino de Deus" e "igreja", para esta última, o Mestre, em sua despedida define, então, uma dupla e específica função.

    Diz: (1) recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo; e (2) sereis minhas testemunhas. Igreja, portanto, define-se nisto: poder, com origem no Espírito Santo, para testemunhar de Jesus.

     O diferencial é que o poder, de origem específica no Espírito Santo, tem uma finalidade específica: testemunhar de Jesus. Nessa conversa emergencial, no exato momento da ascensão de Jesus, os elementos em discussão pressupunham poderes.

    Vejamos: reino de Israel pressupõe poder humano, autonomia de governo, política de Estado; reino de Deus, o assunto intermitente dos 40 dias, pressupõe governo, autoridade e poder de Deus; igreja, finalmente, pressupõe poder do Espírito para testemunhar de Jesus.

     Realmente, convenhamos, o conceito de "poder" é muito variado. Aliás, historicamente, a igreja já se equivocou soberba e soberanamente errando a distinção entre "poder de Deus" e "poder humano". Já foi igreja "em nome de Deus", oprimindo por poder humano.

     Jesus, que disse "edificarei a minha igreja", como diz Pedro, é "Senhor e Bispo" dessa mesma igreja. Jesus é o dono da igreja. Ninguém mais. Nem a igreja é dona da igreja.

    A Igreja é serva de Jesus, primeiramente, para estão prestar serviço à humanidade, como sinal do e para o reino de Deus. Certa vez interrogado, pelos fariseus de seu tempo, sobre "quando" e "como" viria o reino de Deus, Jesus respondeu: "não vem com visível aparência: já está dentro em vós".

      Nesse sentido, reino de Deus dentro de nós, é que a Igreja se constitui num sinal do reino de Deus. Prefigura, antecipa e, por si, já é indicador atualizado dessa realidade.

    Nesse sentido, igreja não serão as instituições assim denominadas. Clique em seu GPS "Igreja" e ponha qual a identificação, para encontrar a sede, o lugar geográfico de qualquer delas.

    Clique num site jurídico qualquer e escreva "Igreja", para encontrar a identificação legal dela, estatuto, ata, diretoria e CNPJ. Essa é sua definição jurídica.

     Abra a sua Bíblia para compreender a feição autêntica e espiritual dela. São legítimas as suas pretensões geográficas e jurídicas. Representam o status físico de sua existência.

    Mas a autenticação dela é espiritual. Com isso, quero dizer que é divina. Somente tem aval da Pessoa que a edifica, sobre Si mesmo, como disse Pedro, "pedras vivas edificadas sobre a Pedra angular", que é Jesus, como santuário espiritual dedicado ao Senhor. Definitivamente, o divino e o humano se encontram na igreja. Mas o poder é exclusivamente de Deus.

  Pode haver localização de GPS e registro documental, sem que seja igreja, espiritualmente. Pode haver igreja, espiritualmente, sem lugar geográfico definido ou registro documental.

    A chamada "igreja primitiva" tinha endereço flexível, fosse nas varandas do Templo, em Jerusalém, imitando o lugar onde Jesus se acostumou a se reunir com eles, ou em casas, como na noite em que Rode foi surpreendida com as pancadas de Pedro no portão.

       Há instituições menos igreja do que deveriam. Há igrejas que se fazem instituição para ainda melhor servir. Há igreja que se envolve em desafios sociais sem deixar de sê-lo. Há grupos que perderam o sentido de sua vocação, envolvidos em atividades que fogem ao específico da missão de ser igreja. Deixaram de ser.

      Igreja, permanentemente, é ação do poder do Espírito Santo no homem/mulher para o específico de testemunhar Jesus. Se não houver essa natureza de poder, não é igreja. Caso não ocorra o específico do testemunho de Cristo, não é igreja e não há poder do Espírito.

       O problema está em associar a marca típica do Espírito Santo, "não por força, nem por violência", com o expediente humano. Agenda humana e o específico de sua atuação, muitas vezes, requerem poder e expedientes humanos.

     Não quer dizer que a igreja não possa se engajar em agendas e expedientes humanos. Pode. Mas sempre haverá um limite além do qual, como igreja, não poderá avançar. O jugo será desigual.  Mormente pela natureza divergente de poderes em jogo e a finalidade específica de cada poder.

sábado, 5 de agosto de 2023

Caso queira, leia este texto

 Falta. Aos 66, pode ser, a tendência é tentar uma síntese da existência. Peço desculpas, antecipadamente, pelo texto (e seu teor). Aliás, talvez, principalmente, seu autor.

   Tenho mania por escrever. Mais desculpas ainda, por dizer, leia se quiser. Ainda porque será longo. Não proposital, mas necessário. Pois sobra. Não em minha fé, que é pequena. Mínima. Mas suficiente. Sobra na graça de Deus.

  Transborda, como diz Paulo. Eu acho que minha mãe, talvez e principalmente ela, fez um marketing inverso de mim. Ora, qualquer grávida, melhor e mais prudente dizer, a maioria das grávidas faz marketing da cria.

   Mas Dorcas, essa é minha mãe, nesta fase, só em memória, havia sofrido dois abortos espontâneos, numa espécie de gradação: o primeiro, não se sabia se menino ou menina, a segunda, uma menina.

   E por ironia, se assim se pode definir, nasceu Cid Araújo de Oliveira, tendo como primeiro nome o de meu pai, em 29 de fevereiro de 1956, para nos deixar em 11 de março e ser sepultado 12 de março de 1956, dia dos 26 anos de Dorcas.

   Creio que esse calvário, permitam-me dizer assim, pessoal dela produziu, quando vingou o quarto parto, sim, que quase provocou-lhe a morte, por uma bruta hemorragia, por isso menciono o marketing invertido.

   Ainda não fiz psicanálise. Aliás, tendo filha psicóloga, Ana Luísa, chegada em 24 de março de 1999, mais ainda prezo essa ciência. Mas basta, por hora, dizer que não fui Fake, em minha formação, como gente, porque transbordou a graça de Deus.

   Olhando do ponto de vista dEle, foi sobra. Transbordamento. Olhando do meu ponto de vista, falta. Dorcas, nome herdado de sua avó, mãe de Eunice, esta sim, minha avó materna, teve a personalidade da Dorcas bíblica.

   Que mulher! Ela transbordou todo o tempo. Professora, como eu. Devo isso a ela. Professora, como minha esposa, que deve isso a Lourdes, a mãe dela. Que também transborda. Estou cercado de pessoas que transbordam.

   Derramar, acreanos; entornar, cariocas. Pessoas que derramam. Não cabem dentro de si. Minha família, por parte de pai e de mãe, é repleta de gente que transborda. Gente do interior, por parte de pai, e da periferia, por parte de mãe.

   Onde as virtudes são forjadas na carência. Pois é essa carência que, neles, ao invés de tolher, transbordou. Essa gente nos transmitiu, muito pessoalmente, particular e pormenorizadamente, sua leitura do evangelho.

  Sim. A moderna hermenêutica, se é que não me falta, também, nesta arena ou, como dizia meu pai, nessa seara, informação, ela faz leituras. Pois é exata e precipuamente nessa hermenêutica de meus ancestrais, perto, imediatos ou remotos, que nossa família vem, nessa inércia da vida forjada por eles nas carências.

   Vida de Cascadura, onde nasci. De Nilópolis, onde comecei a aprender. Vida de igreja. De escola, de onde somente mais tarde um pouco pude entrever que seria meu elemento. Meu laboratório. E que laboratório! Aliás, são dois: igreja e escola. Não, três: família, igreja e escola.

   Certa vez, perguntei-me se fui ou, se ainda sou, professor pastor ou pastor professor. Acho que a duas coisas colaram em mim. Fui, com falta, os dois. Quer dizer, ainda sou. Mas são duas coisas grandes demais para mim.

   Escrevi a minha vida por essas duas linhas. Deus transbordando. Eu meia água. Desenharam-se a duras penas essas duas vertentes. Talvez a de professor, de modo mais espontâneo. Com relação à outra, resisti mais.

   Mas findou, como se diz em acreanês, acovardei-me e me fiz pastor. Ou, como se deu com Ezequiel, Jeremias, Isaías, Jonas, enfim, pesou a mão de Deus. NEle, transborda, em nós, falta. Deus nos tem como vocação. Ele sempre acredita mais em nós, do que nós nEle.

   Eu agradeço a tanta gente com quem cruzei na vida. Tendo falado já em família, com essa multidão de tios e tias, dos avós paternos, de quem só ouvi falar, dos maternos, com quem convivi, essa multidão de primos e primas, de parte a parte, de mãe ou de pai, todos lindos e lindas.

   Dessa gente de igrejas mais antigas, de quem lembro, seja na infância, em Nilópolis, 1957-1966, seja na batista de Japeri, RJ, onde meu pai entrou no ano em que nasci, 1957, e saiu em 1963, mas de lá ainda lembro dessa gente, sua fé, grandeza, exemplo, transbordamento.

   De meus amigos. Para não agastar (ou desgastar), Hélio Henrique, Manoel e Paulo, mencionados em ordem alfabética. Há mais, mas estes três os representam. De meus alunos. De meus Diretores e Diretoras. De meus colegas de trabalho. Da vida que começa num Rio, de Janeiro, para continuar noutro Rio, este agora Branco.

   Os colégios: Salesiano, em Rocha Miranda, RJ, onde me colocou Dirley, meu professor de português desde meus 10 anos de idade. No Leocádia Torres, pelo concurso do município, caminho da Pedra de Guaratiba, zona rural do Rio, em 1994. Só fiquei 6 meses, porque em janeiro de 1995 vim para o Acre.

  Aqui, no Dom Giocondo Maria Grotti, onde Graça Silveira me apresentou à Diretora Letiva, primícias no Acre. Depois, em 1986/7, no Humberto Soares, para iniciar no CEBRB, por concurso público, em 1998, por 16 anos seguidos.

   A partir de 2007, tarde e noite. Mas havia passado também pelo Meta, 1999, Alternativo, 1998, e João Calvino, 2000. No Anglo, fosse no Ensino Médio, com Flavius, ou no Primeiro Passo, com Ana Maria, foram 15 anos, a partir de 2000.

    As igrejas, Nilópolis e Cascadura, na infância, pastorados com "C", Curicica, Cascadura e Copacabana, e no Acre, Tancredo, Iolanda, Vila Betel, alguns desses interinamente.  Agora na Congregação do Manoel Julião, mas interino nas do Eldorado e Alto Alegre.  E ainda com "C", por atrevimento missionário, Cruzeiro do Sul, AC.

   Para encerrar, falta mencionar a mulher que colou em mim. Regina me atropelou. Colisão inelástica, como menciona a física. Uma gamação incontida e incontrolável, uma vez, de minha parte, surtada e, da parte dela, cerebral. Desculpem qualquer terminologia.

   Mas para fechar com rosa de 🥇ouro, vai o resumo. Numa quinta-feira qualquer, em Cascadura, tensa, onde eu desesperadamente carecia de votos favoráveis, numa comissão ao meu estilo, com quase 10 componentes, o primeiro voto contrário foi o dela.

   Nem me lembro o assunto da reunião. Não importa. Mas saí dali com uma só convicção: vou ♥ namorar essa mulher. Deu no que deu. Casamos em janeiro de 1993. Deus transbordou de novo. Ainda não a conheço completa.

   Mas a graça de Deus por meio dela enche nossa casa, a vida de nossos filhos e agora até a vida de Amanda, esposa do Isaac. Desculpem o texto assim tão longo. Mas ainda falta. Reafirmo que, em Deus, sobra. Transborda.

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Palavra, dicionário e hermenêutica

"Provavelmente porque o dicionário não exprime ainda as revoluções metodológicas que tiveram lugar na linguística. Trata-se, muito simplesmente, da distinção entre duas formas de tratar uma palavra. Podemos perguntar o que ela significa na língua, ou procurar ainda saber o que são os objetos de que ela fala. Os nossos dicionários misturam as duas coisas. Falam das coisas nomeadas e também falam do lugar das palavras no sistema lexical de uma língua. Os nossos dicionários são uma espécie de compromisso entre, por um lado, uma verdadeira semântica das palavras, isto é, a ordenação de uma palavra em relação a todas as outras, sem se ocuparem das coisas em si e, por outro lado, a descrição das coisas correspondentes (RICOEUR, 1976, p. 3).

Sendo assim, os dicionários não substituem uma análise pormenorizada das coisas. Porém, eles são bons guias de ordenação e descrição das coisas. Em Percurso do reconhecimento, Ricoeur dá um excelente exemplo de como o dicionário pode ser utilizado por um filósofo. Em tal obra, este recurso não aparece como auxílio para resolver um dilema, como em A Memória, a História, o Esquecimento, mas como apresentação de um conceito problemático, a saber, o conceito de reconhecimento. Desta forma, o filósofo francês, em um primeiro momento, recorre aos dicionários, para, depois de tal esclarecimento, iniciar uma discussão através de grandes obras filosóficas. Sua justificativa para esta estratégia metodológica é de que este conceito nunca foi trabalhado de maneira central e, por consequência, esclarecido por nenhum grande autor."

Dois principais autores contemporâneos ocupam-se com definições do que seja hermenêutica. São ele o francês Paul Ricoeur (1913-2015) e o alemão Hans-Georg Gadamer (1900-2002). Essas respectivas definições variam entre os dois. Em Gadamer, um só conceito sobre hermenêutica percorre toda a sua obra. Em Ricoeur, à medida que com ele se caminha, há desdobramentos variáveis em sua definição.

O diálogo acadêmico entre os dois é quase inexistente, ou seja, não há citações de parte a parte, a não ser, talvez, Ricoeur mencionando Gadamer. Enquanto, para este a hermenêutica seria "uma disciplina do perguntar e do investigar, que garante a verdade" (GADAMER, 1997, p. 709), para o outro, esta seria apenas uma faceta da questão. 

Em Ricoeur, pode-se presumir, pelo menos, três aspectos: (1) "métodos precisos que comportam regras rigorosas – é o caso da filologia e da exegese dos grandes textos clássicos, como a jurisprudência; em seguida, (2) uma reflexão sobre a própria natureza do próprio compreender, as suas condições e seu funcionamento; finalmente, (3) um eixo mais ambicioso, uma espécie de “filosofia” que se apresenta como outra via da inteligibilidade, e que pretende compreender as condutas cientificas melhor do que elas próprias conseguiram, acantonando-os nos limites de uma espécie de 'metodologismo'”.

Nesse sentido que será definido o dicionário como ferramenta essencial ao fazer filosófico que, precipuamente, terá, como tarefa mínima, analisar e classificar. O texto que precede este artigo, acima enunciado, indica os limites que o dicionário, como instrumento, apresenta. As palavras, portanto, teriam, nas línguas, duas funções: (1) o que elas significam em cada língua; (2) o que são os objetos de que ela fala. Ricoeur acusa, nos dicionários, uma mistura desses dois conceitos.

Ricoeur define um "percurso do reconhecimento", destacando que o dicionário "não substitui uma análise pormenorizada das coisas" (SOUZA, 2019). Dois dicionários franceses podem ser nomeados, um deles mais rigoroso em seus critérios lexicográfricos, o Littré, e outro mais coloquial em sua classificação das palavras, o Grand Robert. Seus equivalentes no contexto brasileiro, seriam o Aurélio, para a abordagem mais popular ou coloquial, e o Houaiss, para a mais rigorosa.

Para o Aurélio, hermenêutica apresenta três definições: (a) interpretação do sentido das palavras; (b) interpretação dos textos sagrados; (c) arte de interpretar leis. Neste aspecto, “hermenêutica” refere-se a "um sentido geral de interpretação, ou em um sentido instrumental, seja este para se referir a interpretação comum, como na primeira definição, ou seja este para interpretar textos sagrados ou leis, como na segunda definição, ou como uma arte, isto é, uma técnica, como apresenta a terceira definição" (SOUZA, 2019).

E com relação ao Houaiss, há quatro definições: (a) ciência, técnica que tem por objeto a interpretação de textos religiosos, ou filosóficos; (b) interpretação dos textos, dos sentidos das palavras; (c) teoria, ciência voltada à interpretação dos signos e do seu valor simbólico; (d) conjunto de regras e princípios usados na interpretação do texto legal (HOUAISS, VILLAR, 2009, p. 1014).  Portanto em Houaiss, para mais do que em Aurélio, hermenêutica não é apenas interpretação, num sentido instrumental, mas também ciência/teoria. 

Assim esquematizadas no quadro abaixo:

Um dos destaques apontados na reflexão deste artigo, é sobre a importância da linguagem na contemporaneidade: 

"A linguagem se tornou, em nosso século, a questão central da filosofia. O estímulo para sua consideração surgiu a partir de diferentes problemáticas: na teoria do conhecimento, a crítica transcendental da razão, foi por sua vez, submetida a uma crítica e se transformou em “crítica do sentido” enquanto crítica da linguagem; a lógica se confrontou com o problema das linguagens artificiais e com a análise das linguagens naturais; a antropologia vai considerar a linguagem um produto especifico do ser humano e tematiza a correlação entre forma da linguagem e visão do mundo; a ética, questionada em sua racionalidade, vai partir da distinção fundamental entre sentenças declarativas e sentenças normativas. Com razão, se pode afirmar, com K. O. Apel, que a linguagem se transformou em interesse comum de todas as escolas e disciplinas filosóficas da atualidade (OLIVEIRA, 2006, p. 11).

Levando-se em conta a problemática dessa constatação, é que se caminha para uma definição mais precisa e abrangente de hermenêutica, que seria: “Por hermenêutica entenderemos sempre a teoria das regras que presidem a uma exegese, isto é, a interpretação de um texto singular ou de um conjunto de signos suscetível de ser considerado um texto” (RICOEUR, 1977, p. 19, grifo do autor).

Ricoeur aponta três crises na modernidade: (1) da linguagem; (2) da interpretação; e (3) da reflexão. Na crise da linguagem, "a linguagem natural é transformada pela univocidade da linguagem artificial, eliminando a pluralidade da linguagem simbólica"; na da interpretação, seria "a falta de consideração das interpretações possíveis e, até mesmo, concorrentes"; e na da reflexão, "que é o esquecimento de nossas raízes, que pode nos levar ao niilismo."

O próprio Ricoeur é quem afirma: "Toda interpretação se propõe a vencer um afastamento, uma distância, entre a época cultural revoluta, à qual pertence o texto, o exegeta pode apropriar-se do sentido: de estranho, pretende torná-lo próprio; quer dizer, fazê-lo seu. Portanto, o que ele persegue através da compreensão do outro, é a ampliação da própria compreensão de si mesmo. Assim, toda hermenêutica é, explícita ou implicitamente, compreensão de si mesmo mediante a compreensão do outro (RICOEUR, 1978, p. 18)."

Dessa forma, envolvendo, na concepção de sua hermenêutica, interpretação, método e reflexão, sendo este o conceito que melhor resume seu pensamento filosófico, e a reflexão constituindo-se no marcante diferencial de distinção em relação aos demais autores de seu tempo, cuja síntese de sua ideia seria: "a melhor maneira de se conhecer é através de algo que é método que possibilita encontrar um si por meio da interpretação de um outro. Ou seja, entre outras coisas, hermenêutica para Paul Ricoeur é o lugar da investigação do si-mesmo como outro".

Referências:

https://www.redalyc.org/journal/5766/576664144019/html/#:~:text=Sem%20sombra%20de%20d%C3%BAvidas%2C%20os,Ricoeur%20(1913%2D2005).

  

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Nao leia este texto

    Se você não tem o costume ou se apenas, esporadicamente, aliás, muito esporadicamente lê este tipo de texto, neste blog, mais uma razão para não ler este texto.

  Pare aqui. E esta é a última advertência. Prosseguindo, por sua própria conta e risco, vou buscar no filme O Livro de Eli uma referência temática. Trata-se de um filme.

   Que imagina um tempo em que não existe mais a Bíblia. Desculpe falar nela de novo. Neste blog eu a tenho abordado várias vezes.

  Se você não leu os outros textos, não perdeu nada. Porque há duas razões fundamentais para legitimar sua indiferença: 1. na maioria das vezes, falei sobre Bíblia; 2. fui eu que falei.

    Esse filme imagina um tempo em que a Bíblia havia, definitivamente, desaparecido. Sobre isso que desejo fantasiar aqui. Imagine, comigo, um tempo assim. Claro, se você chegou até aqui no texto.

   Sem Bíblia, homem e mulher ficarão livres. Sem peias. Sem amarras. Você poderá pensar o que quiser, sem ninguém, principalmente, sem nenhum "pastor" pra te perturbar o juízo.

   Aliás, eu sou um deles. Mas procuro, o mínimo possível, perturbar teu juízo. Se por algum motivo você se sentiu assim, um dia, perturbado por minha causa, alguma coisa que eu disse, perdoa.

   Vamos continuar amigos. Ou "amigos". Mas não quero que você pense que a Bíblia vai cercear (entendeu esta palavra?), cercar, coibir, tirar fora a sua liberdade. Aliás, pense da Bíblia o que você quiser.

   E aproveite, antes que acabe. No filme O Livro de Eli, se você não viu, não vou estragar sua vontade, mas é muito interessante o que eles imaginam com relação ao sumiço da Bíblia.

  Imagina que você não tenha que fazer um montão de coisas que a Bíblia condena, ou não admite, ou não permite, ou não recomenda, sei lá. Imagine que, definitivamente, você liberte a sua consciência da obrigação de seguir fielmente a Bíblia.

   De ficarem "pegando no teu pé". Se bem que eu acho que entender "pastor" como alguém que "pega no pé" é entender errado. Mas há quem entenda. Chega. Vou acabar o texto.

   Este é o último ou penúltimo, eu prometo, parágrafo. Por uma vida sem Bíblia. Por uma vida sem peias, sem amarras. Por um vida sem pastores. Sem igrejas.

   Mando em mim. Entendo a Bíblia como eu quiser. Faço o que eu quiser. Respeitando o outro, é claro. Seja quem ou como for o outro. Seguir a vida interpretando a Bíblia como eu quiser. Ou, definitivamente, ignorando-a. Por que não? Vive-se muito bem sem ela.

   Bem-feito para você. Não cumpri o prometido. Este é o último parágrafo. Quem mandou chegar até aqui? Por uma igreja (ou sem igreja, pra quê?) à minha imagem e semelhança. Em que eu faça o que eu quiser. Não vou um monte de coisas. Nem ser e nem fazer. Só vou fazer o que me interessa.

   E passe muito bem.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Profecia de Isaias - Antecedentes

 "Visão de Isaías, filho de Amoz, que ele teve a respeito de Judá e Jerusalém, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá. Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque o Senhor é quem fala: Criei filhos e os engrandeci, mas eles estão revoltados contra mim. O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ai desta nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores; abandonaram o Senhor, blasfemaram do Santo de Israel, voltaram para trás."  Isaías 1:1-4.


    O início de cada livro profético indica, em linhas gerais, a condição geral de abordagem da profecia que segue, em função do que se configura para o profeta.

   No caso de Isaías, como acima indicado, o Senhor Deus reclama que os filhos que criou revoltam-se contra seu Pai. Até boi e jumentos identificam seu possuidor, mas Israel não conhece e nem entende.

  E segue cumulativa, detalhada e definida a imagem de Israel, nesse começo de profecia, como se fosse o tom de tudo o que segue: nação pecaminosa, povo carregado de iniquidade, raça de malignos, filhos corruptores.

   E termina indicando a razão por que adquirem essa feição de sua personalidade: abandonaram o Senhor, blasfemaram do santo de Israel e voltaram para trás.

   Espanta-nos ser este o povo escolhido. Que não sigjfica, como explicado no Deuteronômio, privilégio mas, ao contrário, cobrança para que seja modelo a todas as demais nações.

   Privilégio, sim, como esclarece Paulo, na carta aos Romanos, ter recebido, de modo direto e seletivo, revelação, oráculos, profecia, sinais, prodígios, lei, enfim, tudo o que pormenoriza o trato com Deus.

    Por isso que a cobrança se reflete nessa fala inicial do profeta, e não somente nela, visto como em Atos, num dos sermões ali anotados, registra-se como Deus não se deixa sem testemunho por toda a história de Israel.

   O primeiro adjetivo abrange, de uma vez, a todos: nação pecaminosa. O pecado, denúncia e rejeição única, somente definio e identificado por Deus, tornou-se a qualificação geral da nação.

   Em paralelismo, modo típico da escrita hebraica, em que se segue reforçando e reafirmando, por sinônimos, o que foi dito antes, Israel é agora definido como um povo carregado de iniquidade.

   Não traz consigo o acúmulo de virtudes, como tipificados no Êxodo, na Aliança do Sinai, quando Deus pretende que Suas virtudes sejam conhecidas pela conduta de Seu povo.

   Não. Isarel se sobrecarrega de iniquidade. Outra designação aprofunda e sublinha negativamente a personalidade de Israel, quando são classificados raça de malignos. Até aqui, nação, povo e raça equivalem-se, e pecaminosos, iníquos e malignos qualificam o seu viés.

   E termina o profeta acusando Israel, em seu conjunto, de ser filhos corruptores, ou seja, o mal exemplo se torna escola, visto que tais vícios são compartilhados com a vizinhança de Israel, diante da qual deveriam ter se constituído num testemunho fiel de sua filiação ao Senhor.

   O profeta termina esse oráculo inicial, que dá o tom de sua denúncia, indicando o modo pelo qual se chega a essa condição deplorável. Israel abandonou o Senhor, blasfemou de Deus e voltou-se, converteu-se não a Deus, mas contra Deus, afastando-se dEle.

   Era no sentido inverso que deveria se firmar o curso do povo: abandonar, blasfemar ou voltar-se contra o pecado, e não optar pelo pecado, contra Deus. Absurda escolha e, infelizmente, tão frequente, não somente a Israel, os filhos, mas a toda a humanidade, da qual este povo é amostra.

   Basta ser humano. Não existe lógica ou lucro nessa escolha. As características serão sempre essas, pois uma vez que se abandona Deus, consequentemente se blasfema dEle, voltando-se contra e para longe dEle.

   E as consequências serão sempre intimidade e apego ao pecado, à iniquidade, malignidade e corrupção. Feições distintas do mesmo mal, que tem raiz na mesma atitude. Voltar-se para Deus não é natural, nem espontâneo no ser humano.

   A denúncia de Isaías, nesse início de profecia, é absolutamente necessária. Sem a consciência da real condição, não há como fazer meia volta. Converter-se ao Senhor somente a partir da denúncia da real condição.

   Esse o ponto de partida da profecia de Isaías, seguindo-se o percurso sinuoso e luta individual e ferrenha para o arrependimento. Esse o apelo constante de Deus.