quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Crônicas de uma vida VI - José Mauro, primeiro amigo

        Zé Mauro. Na verdade, José. Começavam aí as coincidências. Também tinha Mauro no nome. Enquanto o meu era Cid, o dele era José.

       As outras eram estudar na mesma Escola Paraná, mesma turma, nascido no mesmo mês e ano, morar numa vila do outro lado da mesma rua.

      Galegozinho, pelos 8/9 anos, eu fazia aniversário 6 de maio, ele 14. Acho até que, se não me falha a memória, certa vez comemoramos juntos. Tinha olhos claros, não sei se tons de azul, cabelo raiado de loiro finíssimos, com franja indomável, irrequieta na testa.

      Esse conjunto com mais um sorriso cínico, daqueles que se desenham no rosto inteiro, até fecham os olhos quando se insinuam, fazia de José Mauro o amigo que Dorcas não queria para mim.

      Não ande com esse menino. Não gosto do jeito dele. Mas não havia jeito. Pelo menos, por ano ou ano e meio, todos os dias letivos de 1966/1967 fomos juntos ladeando o curso da larga Av. Ernani Cardoso, do outro lado da calçada do famoso e, infelizmente, hoje fechado Colégio Arte e Instrução, sugestivo nome.

     Da Mendes de Aguiar à esquina de Padre Manso com a avenida, onde ficava nossa escola. Comecei nela em 1963. Ano antes da gloriosa, em março de 1964. Não sei por que cargas d'água, como dizia meu pai, Dorcas tentou encaixar-me na Escola Rugendas.

      Ficava ali atrás, enfurnada por detrás da Paraná. Novíssima, recém  inaugurada, provavelmente para casos como esse meu, absorver alunos dessas mais antigas unidades. Nada. Não me adaptei. Pede pra sair. Pedi. Implorei. Pátio amplo e novíssimo, carteiras novinhas em folha, quadros-negros bem negros, enfim, nada me seduzia.

      Voltei ao macarrão ora com salsicha, ora com sardinha em lata da merenda escolar no mais acanhadinho refeitório da Paraná, ali quase encostado na Faculdade Souza Marques, do outro lado da rua, onde Dorcas, na década de 1940, completou seu ginásio, com ajuda do tio Nelson Matos, que trabalhava na Central do Brasil, irmão da mãe dela.

       E ao lado do 5o RecMec, Regimento de Cavalaria Mecanizada, do exército, ainda mentalidade da 2a guerra mundial, de 1939-1945. Mais tarde, no Vietnam, aprendemos pelo filme Apocalipse Now que cavalaria, como a 82a aerotransportada, seria munida de helicópteros.

       Certa vez, para surpresa da turma, soldados nos levaram ao quartel ao lado para andarmos dentro de um daqueles blindados anos 40. Suprema realização! Percorremos os espaços internos do quartel, onde atualmente foi construído um Supermercado Guanabara imenso, dentro do blindado, ouvindo atentos todas as explicações, fascinados.

      José  Mauro, segundo as sombrias premonições de Dorcas, realmente não foi uma companhia 100%, isso pelo rigor puritano da época. Ensinou-me uma coleção de palavrões, não proposital ou didaticamente, mas porque, como diz o Livro, "a boca fala do que está cheio o coração".

      Dorcas analisava que a família dele não tinha mesmo lá aquela estrutura requerida. Exageros, interpretei, e segui colado nele. Dorcas em Nilópolis, melhor (ou pior) percorrendo os colégios da Baixada Fluminense, assim designada na época, atrás dos contratos provisórios, como chamamos aqui no Acre.

      Cid, no IBGE, na Av. Presidente Wilson, ali pelo Castelo, centro do Rio, com uma passagem relâmpago pelo SNR - Serviço Nacional de Recenseamento, na Urca, os dois precisavam defender o seu. Eu ia e voltava sozinho, quer dizer, na companhia de Zé Mauro. Além dos palavrões censurados, as piadas indecentes e os rudimentos de (des)educação sexual: o que os pais dele faziam e ele comentava comigo, credo-em-cruz, os meus jamais. Jamais! Pensava eu.

     A Paraná foi onde, numa única vez na vida, num arroubo liberal de Dorcas dancei, em 1964/5, uma Quadrilha de São João. Ano anteriores, Dorcas iniciara o Curso Normal no Colégio Nilopolitano, próximo à estação de trens de Nilópolis. Levava-me ao Instituto Filgueiras, onde fazia meu Jardim de Infância, e seguia para seu Colégio.

       Uma vez terminado o curso, seu plano era ajudar Cid que, com salário muito curto, nada sobrava para o sonho da casa própria. Cid que  queria a esposa "para o lar". Mas Dorcas, mestra dos convencimentos, ganhou mais essa. Mas convencê-la que não poderia fazer carga com o menino, que o pusesse numa escola em Cascadura, ela cedeu. Cheguei a estudar numa escola em Nilópolis, ali pela Mirandela, 1a ou 2a série primária. E vindo para a Paraná, dei um pulo para a 3a.

     Zé Mauro chegou a visitar a Congregacional de Cascadura e estava comigo no dia do atropelamento na esquina Pe. Manso/Ernani Cardoso, em 27 de junho de 1967. Evidentemente visitou-me no Servidores do Estado, HSE, visitou-nos no Méier, em 1967/1968. A amizade foi interrompida, contra nossa vontade, porque a família se mudou para Éden, não o paraíso, mas um bairro de São João de Meriti, município vizinho a Nilópolis.

       Dorcas foi dar aulas num colégio na rua onde residiam. Numa extremidade da rua, a escola, na outra, a casa deles, já em direção a Pavuna. Lá encontrei mãe, irmãs menores e Paulo, o mais velho, tão cínico ou mais que o irmão, cabelos negríssimos e lisíssimos como os de Zé Mauro, dono de um riso sarcástico. Pouco brincamos juntos, nós três, pela mesma razão: certa defasagem na idade e ainda maior corrupção de costumes, pelo padrão Dorcas.

      Mas Paulo mesmo pouco se interessava. Sujeito de poucos amigos. Quanto a mim, tímido por natureza, essa aí foi a primeira influência, meio a contragosto de minha mãe. Padrão Dorcas de comportamento.

Eu, Paulo e José Mauro

Vila onde morava José Mauro

Colégio Arte e Instrução, 
tombamento em 27 de maio de 1980

Esquina Ernani Cardoso/Pardre Manso,
fatídica em 27 de junho de 1967

Escola Municipal Paraná

Escola Municipal Paraná

Faculdade Souza Marques

Souza Marques, ginasial de Dorcas
na década de 1940

Local do antigo Rec Mec - 
Regimento de Cavalaria Mecanizada

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Crônicas de uma vida V - O carro de bombeiros

         Não me lembro se foi presente de Cid, meu pai, ou de um dos amigos dele. Era perito em fazer e manter amizades.

       Foi um requintadíssimo carro de bombeiros. Feito de madeira, tinha o truck e, rebocada, a carroceria com a escada Magirus.

      Nesta parte, pinos de encaixe para os soldados, que eram de madeira torneada, dois deles com o fire helmet, tradicional chapéu de bombeiros americano, com uma aba atrás.

      Detalhe: havia, ainda, além da escada Magirus de madeira trabalhada, um carretel de madeira preta, no qual se enrolava a réplica de mangueira que, de modo realista era vazada, por dentro, permitindo simular um esguicho de água.

      A escada era o mais especial detalhe. Funcionava! Deslizava, por dentro da escada suporte, com beiral de madeira artesanalmente trabalhada e envernizada, a escada de dentro.

      Duas pequenas manivelinhas no suporte giratório permitiam, a primeira, erguer todo o conjunto no ângulo simulando ação e, a outra, permitia alcançar tamanho máximo, pelo deslizamento da parte interna.

      E os pneus? Também igual aos verdadeiros, tinham relevo, como se fossem para tração, semelhantes aos de tratores de verdade. Eram de borracha negra e escamoteáveis, isto é, encaixavam/desencaixavam da jansen (como chamam aro, aqui no Acre) de madeira.

       Roda simples, pneus da frente, duplas, como em caminhões de verdade, no truck desencaixável, todas escamoteáveis. Como brinquei com aquele caminhão!

      Certa vez a viúva portuguesa, Maria Luíza, tomava conta de mim. Provavelmente Dorcas circulava por seus contratos, fosse Nilópolis, Éden, Belford Roxo ou Nova Iguaçu. Deixava-me, nessa fase, aos cuidados de d. Maria Luíza.

       Levei comigo o caminhão escada Magirus. Numa dessas horas, com permissão dela, desloquei-me até a casa do Luís Carlos, aquelas geminadas, da entrada da rua, próximas à vila, com certeza para combinar com ele uns compromissos lúdicos.

      Retornei à casa da portuguesa amiga de Dorcas, companheira de tricô e receitas apetitosas, como o grão de bico com bacalhau, especialidade dela. Houve visitas na casa da portuguesa. E também houve tentativa de demonstrar o engenho da escada Magirus obviamente deslizante em meu carro de bombeiros.

       Deu ruim. Ocorria que, o barbantinho, que fazia descer/subir a mais delicada escada interna, enroscava-se e, quando ocorria, nada adiantava continuar girando a manivelinha no sentido horário porque, inopinadamente, a escada não subia, retornava, subia, retornava.

      Quando cheguei e fui advertido, por pergunta, do por que ocorria a bad function, uma vez tendo eu deduzido, ora vejam só, que besta, mexeram sem minha autorização no meu carro de bombeiros, gente, pela primeira vez na vida vi aflorar o velho homem.

      Para os de pouca intimidade com termos bíblicos, "velho homem" é o demônio íntimo de cada um. O meu desembestou-se, sabe-se lá de que modo até ali reprimido, literalmente, numa linguagem infantil, mas dura e calculadamente ofensiva, amaldiçoei a casa. Ora, remexerem sem minha autorização!

      Ficávamos nessa varandinha dos fundos, um puxadinho lateral, de telhavam, com mesinha e cadeiras, onde ali mesmo havíamos prazerosamente lanchado. Quando as nuvens tenebrosas baixaram, coroando com teimosia e pirraça toda a aleivosia de palavras, culminei tomando o caminhão e, contrariando a inquilina de Matilde, rumei para a casa do Luís Carlos.

      Certamente contrariando d. Maria Luíza. Mas fui. Ora, Cid Mauro, dizia ela com sotaque luso, "a sinhôra sua mãi num vai gostaire". Teimei. Fui. Desabalado. Eram já para lá das 17h e tanto, quase anoitecido totalmente. Lembro, porque eu me distraía com meu amigo na área dos fundos. Não foi nada difícil reparar o dano da cordinha encrencada. Logo com habilidade resolvi.

       Essa foi a lógica da minha má criação. Garoto malcrioso, como se dizia. E já estava corrigido o problema. Fácil assim. O caminhão estava, portanto, lá no meado da área. Distraí-me noutra ocupação com Luís Carlos.

      Havia uma escada imensa, de verdade, colada à parede que dava acesso ao telhado da casa vizinha. Estas, da frente, eram geminadas, mas as de trás eram no começo de uma vila. Não sei quem subiu, se alguém  da casa, mais provável, pelo adiantado da hora. Olhos esbugalhados e totalmente inoperante, assisti à queda da escada de, pelo menos, uns quatro metros e todo o peso dessas madeiras antigas sobre minha escada Magirus de frágil madeirinha artesanal envernizada.

      Impacto tão forte, que a vi equilibrar-se, oscilar qual pêndulo sobre o caminhão de madeira, carro de bombeiros vermelho, como câmera lenta, os pneus de borracha chegaram a amortecer o baque, também oscilando, deformando e reformando-se. Como era resistente a madeira do carro, como eram borracha rocha aqueles pneus.

      De qualquer modo, foi um milagre. Não partir ao meio a frágil estrutura da Magirus, mas somente estraçalhar o beiral trabalhado com arte, de lado e outro, foi lucro. Retiramos a escada. Devolvemos ao nível, devida inclinação, mais cuidadosamente aprumada do que o adulto que subiu houvera feito.

     Recolhi o carro em parte esbagaçado. Humilhado, associando, na mente de criança, minha desfeita ao castigo obtido, fui avistar-me com a vizinha e minha mãe, muito provavelmente àquela hora, justo por chegar. Não me lembro os detalhes desse encontro.

     Mas a fé de criança, o senso de arrependimento, a confissão e o perdão materializaram-se num reparo miraculoso. Até hoje lembro a fisionomia do sujeito que examinou, à porta da casa de Cascadura, sobre a tábua de passar roupa que Dorcas ali punha, para aproveitar a aragem que entrava. O caminhão estivera cuidadosamente guardado e então, por ocasião do artífice de ocasião, lá em casa para resolver outros caraminguás, expúnhamos à sua avaliação.

      Era um carpinteiro. Com que carga de esperança fui buscar o brinquedo. Com que tamanha alegria constatei a possibilidade do reparo. Examinou as duas escadas preservadas, com beiral totalmente esmigalhado. Esse camarada restaurou melhor como nunca. Só faltou envernizar, que ele recomendou fazer posteriormente. Nunca feito. Mais tarde tudo foi esclarecido.

       Confissão a Dorcas, mediação junto à vizinha, vergonha definitiva. Tudo acertado. Por um tempo, fiquei cabreiro, sem saber até onde a minha barra estava limpa. Dora, a filha, me falha a memória quando interveio, se agora, no desenlace, ou se na constatação do defeito que provocaram no manuseio, ao demonstrar o mecanismo às visitas.

      Como brinquei com esse carro de bombeiros. E foi didático, na demonstração dos danos do velho homem, esse demônio íntimo, que nunca é infantil, o ácido de veneno que espalha e quanto, pela graça de Deus, profusamente derramada, se faz restauração. Simbólico esse brinquedo.

A família Cândido, a filha Dora Elsa 
e d. Maria Luíza, amiga de d. Maninha,
esta esposa de "dotoire" Cid

A frente do truck parecia com esta;
os bombeiros de madeira, com estes,
sendo os meus coloridos


Bem próximo do modelo, 
mas o meu era totalmente colorido,
com truck e carroceria escamoteáveis,
e pneus adaptáveis de borracha

Estilo do capacete, aba de plástico presa
ao "fire helmet" de madeira, adaptável 
a um pino na cabeça do boneco de madeira

Escada Magirus

Parecidos, os meus eram afilados
e esguios, com calças azuis, 
fardas vermelhas e capacetes
escamoteáveis, por pinos, nas cabeças



Vila ao lado da casa do Luís Carlos

Casas geminadas: numa delas residia o Luís Carlos

Base da escada: no modelo
de meu tempo era de madeira,
com a manivelinhas para deslize
da parte interna sobre a parte fixa


Crônicas de uma vida IV - Brincadeiras solitárias (nem tanto)

         Muitas vezes, filho único que sou, brincava solitário mesmo. Incluídas as de super-herói. Haja fantasia!

      Mas outras vezes, com brinquedos mesmo, sempre muito baratos, por ser filho de funcionário público do IBGE, nível médio, e de professora primária contratada.

     O salário dele chegava mensal, mas o dela, no acumulado de julho e, depois, só no fim do ano. Os carrinhos eram aqueles mesmo de "matéria plástica", assim designada a novidade da época, hoje tão comum, a ponto de comprometer o meio ambiente.

      Havia um simulacro de carro de bombeiros, uma Kombi, enfim, outros mais que fugiram à memória. Improvisava-se. Por exemplo, cortar a lateral e encher de pedras e/ou areia, de modo a torná-los bólidos de alta velocidade, puxados que eram por barbantes, em curvas alucinantes, com rodas derrapantes, sem eventuais capotagens.

      O corredor virava autódromo. Ou dentro entravam soldadinhos, também de matéria plástica, cuidadosamente retocados em cores, detalhadamente caracterizados como índios e soldados, sempre em luta. Os filmes, de novo na TV preto e branca, eram de faroeste, abordando essa temática que, só mais tarde, entenderíamos como covardia de colonos contra nações indígenas.

       Faltava, ainda, ler o clássico Bury my Heart at Wounded Knee, "Enterrem meu coração na curva do rio", que adquiri pelo Círculo do Livro,  mas é outra história. Nessa época anterior, colecionávamos soldadinhos e indiozinhos eternos litigantes, cultura norte-americana importada.

      Certo dia 24 de dezembro, que bem pode ser de 1965, fui com Cid Gonçalves de Oliveira, meu pai, ao Tem Tudo de Madureira. Ali havia uma das Lojas Helal. Havia chovido muito, véspera de Natal, perto das 22h, o conselho dos pais era deixar para depois, provavelmente não haveria tempo de caminhar a pé por aquele caminho mesmo da primeira infância, só que agora em direção ao Tem Tudo já construído.

      O coração de criança via nisso um risco de perder o tão sonhado Fort Apache, da já mencionada temática. Alberto, o vizinho, já havia ganhado a Batalha de Tuiuti. Acidentes geográficos representados em mini-moitas verdinhas, cabanas, canhõezinhos,  arvorezinhas, soldadinhos caracterizados em seus uniformes, meus olhos brilhavam.

      Mesmo sabedor que o pedido de adiamento talvez também estivesse relacionado à carência econômica do casal, esse tipo de brinquedo era pedido antigo e o preço um pouco acima da média, por intuição eu pensava, mesmo solapando esse drama fiscal de consciência, tem de ser agora. Convenci o Cid, era mais fácil, seu gênio de roceiro combinava mais com os sonhos de uma criança, a esposa dele era mais calculista.

     Saímos à rua. Eu pela não dele. Calçamento de paralelepípedos de granito. Diferente daqui, quando tijolos substituem a falta absoluta desse material. Solo molhado da chuva recém estancada, quase argumento último de Dorcas para nos reter, seguimos até o fim da Mendes de Aguiar, dobramos à esquerda, na Maria Lopes e chegamos à loja.

      Fim de festa. Caixas e papéis inúmeros, agitação ainda premente, mas claramente indicando fim de estoque. Subimos o lance de escadas que davam para a calçada, logo perguntamos ao funcionário pelo brinquedo. Não. Acabara. Ainda era possível ver uma caixa do produto. Vazia. Ele mostrou. A saída era muita. Alberto mesmo já havia ganhado um num Natal passado. Mais abastados economicamente.

       Mas ele puxou lá de cima uma caixa última, que já que a coqueluche era o Fort Apache, nem ligavam para esse, que era chamado Caravana. Em meio aos índios, assim caracterizados, não soldados de farda azul e preta, mas cowboys multicoloridos em suas roupas, calças largas, camisas em punho, sempre de rifles e revólveres à mão, poses diversas.

     E carrocinhas, ou carroções, como nos filmes, duas delas cobertas de imitação de lonas, uma descoberta. Alguns cactus, imitando vegetação desértica. Numa das carroças, duas almofadinhas, parecendo aqueles patuás, como víveres, dois caixotes, escritos por fora rifles e dinamite, esse anterior com miniaturas de imitação dentro.

     Cavaleiros em seus cavalos, fossem cawboys ou índios, juntas de cavalos que puxavam as carroças, enfim, prêmio de consolação, na falta absoluta do tão sonhado Fort Apache. Talvez não tão intenso o brilho nos olhos, a amurada do Forte, originalmente de madeira, na época, a casinha dentro, as guaritas encaixadas nas quatro esquinas, o lote de soldadinhos com farda e outro com os índios dos EUA eram a grande moda e pedida da hora.

     Mas era esse ou nenhum e adiar entregava tudo às incertezas financeiras dos próximos anos. Não. Estava bom. Estava ótimo. E até se configurou um dado positivo: a Caravana era mais barata. Chegei a casa super feliz. Quer dizer, por um lado feliz, por outro meio frustrado. Armei, pela primeira vez, sobre a mesa enorme da sala, de madeira escura, móveis herdados por negociação feita com Dr. Mario de França Costa e d. Santinha, apelido de Maria José, sua esposa. Existem até hoje (os móveis).

       Com a Caravana, brinquei muito no chão de tacos de madeira, em Cascadura e no cimento do corredor lá fora, até 1967. Trouxe para o Méier, nesse ano, continuando a brincar no sinteco do ap da Magalhães Couto. Lincoln e Lyndon, com quem muito brinquei, herdaram, com mais outros soldadinhos e indiozinhos que adicionei à coleção, a partir do saldo de vendas avulsas da Lobras - Lojas Brasileiras. Tia Nice, mãe desses primos, quando eles alcançaram a adolescência, doou o que restou da Caravana às crianças do AEPG - Abrigo Evangélico da Pedra de Guaratiba.

      Aqui em casa restou um pele-vermelha que, estrategicamente, engatinha empunhando um rifle e uma pedra. Certamente quererá acertar um cowboy distraído e desavisado.

Batalha de Tuiuti


Atijolamento de rua em Rio Branco:
Conjunto Joafra
Pele vermelha restante,
recordação desses tempos


O cobiçado Forte Apache
da garotada dos anos 1960

Variação cultural, 
desta vez destacando os indígenas

Este feiticeiro também
fazia parte de meu plantel




Shopping do Méier, vendo-se
as Lojas Brasileiras - LOBRAS

Local da Loja Helal
do Tem Tudo, nos anos 1960

Plantel completo: diversos desses modelos
compunham os soldadinhos/cowboys
de meu plantel



segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Crônicas de uma vida III - O corredor

     
       Testemunha de muitas brincadeiras nessa primeira infância. Filho único, muitos cuidados, ao mesmo tempo não prender demasiado, ao mesmo tempo todos os cuidados. Na rua não. Então o corredor foi refúgio, ao abrigo dos perigos do mundo lá fora, perigos dos anos 1960.

         Brincava de Super Homem. George Reeves, o primeiro deles, via na TV Philco, preto e branco. Então, reproduzia as aventuras, em minha imaginação, e haja imaginação, desenhando com esferográfica Bic o símbolo com "S" no peito, uma daquelas fraldas de pano amarrada ao pescoço, como capa.

         Jack Larson, como Jimmy Olsen, fotógrafo do Daily Planet, o Planeta Diário, jornal onde trabalhava o Clark Kent, o identidade secreta do homem de aço, e Noel Neill, a primeira Lois Lane, a repórter amiga dele e, posteriormente, namorada do herói. Perry White era o editor-chefe do jornal, artista de nome John Hamilton.

       Recrutava colegas que seriam os vilões ou mesmo outro super qualquer de mesmos poderes. Que puderam ser o José Mauro, que morava numa vila da mesma rua, fazia aniversário 14 de maio, oito dias após o meu, e nasceu também em 1957. Muita coincidência. Raramente o irmão dele, Paulo, juntava-se ao grupo. A faixa etária era outra mais acima.

        Luís Carlos se juntava ao grupo, mas Alberto, por essa época, havia se mudado. Vez por outra, também raramente, o primo Isaías deve ter experimentado esse super papel. Saulo, filho de outra irmã de meu pai, também, porém para eles era mais distante e a explicação das ações heroicas, mais desgastante, porque não acompanhavam o seriado anos 50.

      Nacional Kid era outro. No caso, dispensávamos a máscara, mas desenhávamos a letra "N" no estilo do uniforme dele. Enfrentava os Incas Venusianos, os Seres Abissais, que disfarçavam sua cara dinossáurica com capuzes negros, estilo Klu Klux Klan, aterrador, o Império Subterrâneo, aqueles caras com chapéus tipo indiano, uniformizados estilo terninhos que, com armas de um estampido agudo, tichuiiimmm, acertavam as pessoas, que escorriam como líquidos branco-pastosos. Impressionante!

        Culminava, sem mais spoilers, na história de Tarô, menino que chegava do espaço numa nave ovalada, perseguido pelos Zarrocos do Espaço, que queriam destruir a terra. Numa dessas tentativas do menino para nos ajudar, surge Giabra, o monstro precursor de todas as séries japonesas de monstros, robôs e transformers (estes, até hoje) dos anos 80/90. A identidade secreta do Nacional Kid, ora vejam só, era a do professor Massao Hata que, com um grupo de alunos, liderado pela jovem Tiako, com mais os garotos Kuraso, Yukio, Kioko e Tomohiro, efetuava todas as bem-sucedidas tentativas de salvar nosso planeta.

      Muito legal! Sensacional! Assistíamos na TV preto e branca, pela Record, de São Paulo, em 1964, meus 7 anos de idade, passou também na TV Rio, canal 13, e na Rede Globo, ambas no Rio, até 1970. Nossa faixa etária discutia cada episódio. À medida que crescíamos, não deixávamos de ver, mesmo rindo e ridicularizando os clichês. Introduzi meus primos Lincoln e Lyndon nos segredos da série: 39 episódios, subdivididos em 5 diferentes conjuntos, com os vilões acima mencionados.

        "Mariola la, Mariola la, Mariola Lula", vejam o nome: era a musiquinha do patrocinador da série, em que o macaquinho anunciava a bananada, que era muito consumida, principalmente nas Horas do Recreio, nas escolas públicas. Quem, dessa geração, não comeu Mariola Lula? Nada a ver com o metalúrgico, futuro presidente, nessa época em torno dos 20 anos, começavam as encrencas com a repressão, pela ditadura de 31 de março de 1964.
   

George Reeves

Kuraso, Yukio, Kioko e Tomohiro:
não me perguntem quem é quem...


O líder dos Incas Venusianos
Imperatriz Aura

John Hamilton, editor Perry White; Super Homem; 
Jack Larson, o Jimmy Olsen; e Noel Neill,
a primeira Lois Lane



Nave ameaçadora sobre o Japão

Incas Venusianos


Pistolas flash light

Crônicas de uma vida II - Saias de minha mãe


            Os vizinhos eram Maria Luíza, muro da direita, dona Olga, casa da frente, acesso ladeado pelo já famoso corredor, tempo e universo da infância. Aquela, portuguesa, mãe de Dora Elsa, esposa do, no sotaque luso “dotore” Cândido, precocemente falecido.     

         Ali por perto tínhamos uma subestação da Light, à época empresa canadense de monopólio de distribuição da energia elétrica, incluída a energização para os bondes. Eu estava, com outras crianças, exatamente no caminho cimentado ladeado de plantinhas, que dava na porta da casa de nossa amiga portuguesa.

         Minha mãe Dorcas, por ela chamada, com todo o respeito, Dona Maninha, com ela conversava. Muito provavelmente entre as crianças deveria estar o Alberto, irmão de Shirley, filhos de Matilde, senhoria do casal luso. Lembro-me que ganhei,  acelerando, numa estirada ao máximo de uma corrida, o rumo do caminho de entrada para o portão da rua, junto com as outras crianças.

          Havia um caramanchão, com planta trepadeira, que formava como que um arco, sobre nossas cabeças, justo na fronteira que separava casa da senhoria, entrada da casa da inquilina, termos típicos da época. Foi quando.

         Uma explosão espetacular, enorme, dessas que enchem o mundo. Quando, por reflexo, olhei para cima, clarão, estrondo, escuridão, tive a impressão de que todo o Universo se enchia daquele barulho, e não somente o bairro de Cascadura. Um estrondo ensurdecedor, um clarão nos céus, em tons azulados, arroxeados, avermelhados, seguidos de uma enormidade de black out em toda Cascadura. Eu acho que pensei que era o fim do mundo. A segunda vinda de Jesus. Sei lá! Ganhava esse rumo, seja seguido por Alberto, quem sabe Luís Carlos, caboclinho lá das casas geminadas de entrada na rua.
   
     Aquele tipo e corrida desabalada, caramba, após o susto da explosão, deu 180°, guinei voltando a Dorcas, em direção oposta, gritando de terror. Ô, sujeitinho frouxo!  E o grito? Sabe, aquele grito aterrador, que você usa todas as vogais? Cujo medo incontido não se expressa por apenas uma? Muda tom e inflexão, à medida que o terror te domina? Foi esse. Éééêêêeeaaaooowww!!!! Agarrei-me a ela, pus entre suas pernas o rosto, escondido no refúgio e aconchego que a roupa de mãe me dava, só me restando chorar. Que vergonha!

         Calma, meu filho, calma, dizia suave. Não foi nada não. Como, não foi nada não!? E eu, nesse estado de total descontrole! Acariciava-me o cocuruto. Consolava-me. Coisa de mãe. Chateação maior ainda foi ter percebido que fui o único chorão. Que os outros entenderam mais rápido do que eu o “não era nada não” de mãe. Estava escuro. Procurei ouvir outros choros, ecos do mesmo desespero, e nada. Localizar outros colegas próximos às respectivas mães. Se havia, era em posição usual. Não numa de desespero. Poxa, pensei. Esses caras não vão chorar não? Afinal, será que não avaliam o tamanho deste caos?

        Não avaliavam. Um e outro ouviam os comentários, não me lembro se Matilde, a senhoria, estava por perto. Alberto se manteve sangue frio, mesmo, talvez, ano, ano meio mais novo do que eu. E voltamos a nossa rotina. Fomos ao portão, agora acompanhados pelas comadres conhecer, com mais detalhes, os estragos.

         Comentários de que foi na Light, foi na Light, mais tarde, esclarecidos de que um transformador havia explodido. E que explosão! E que desmoralizante transformador. Minha reputação em jogo. Ora, bolas.

Entrada da subestação da Light
em Cascadura, acesso pela
Ernani Cardoso
Matilde, em primeiro plano, sua filha Shirley,
a terceira sentada, a partir de Dorcas,
que está de pé à porta
Corredor à esquerda, acesso à
minha casa; corredor à direita, 
onde se deu a corrida em surto.
Antiga casa de Matilde, 
essa com o toldo.

Crônicas de uma vida I - O corredor

           Morávamos em Cascadura, Rio, RJ. Num corredor. Lá no final, dobrando a esquerda, em “L”, ficava o “Mendaguiá” 90, ap 102, que era assim que, ainda tenro, eu pronunciava Mendes de Aguiar, rua onde nasci, em 6 de maio de 1957. Na verdade, nasci no HSE, abreviatura de Hospital dos Servidores do Estado, na Gamboa, carioca da gema.

           Contava minha mãe que foi arriscado. Fui o quarto parto, desde que casaram, em 29 de maio de 1954. E só vingou eu mesmo. O anterior, Cid (sem o Mauro), havia nascido em 29 de fevereiro de 1956. Meus pais o sepultaram em 12 de março de 1956: apenas 13 dias de vida. E, nesse dia, Dorcas completava 26 anos de vida.

          Foi um trauma. Ela contava, nessa casa mesmo aí em Cascadura, chegavam amigos à noite para conhecer o menino. Traziam presentinhos para ele, presentinhos para ela. Meu pai despistava, para não chocar as pessoas. Minha avó materna Eunice, a “vó velhinha”, como minha filha passou a chamar, a partir de 2002, foi esteio nesse período.

         Lembro desse corredor, o mais atrás que vai minha memória. Meus pais diziam que eu falava, em rudimentos de linguagem, “Aiá, aiá”, que era “Passear, passear”, que eu queria, tendo ouvido que esse som significava ganhar a rua no colo do Cid, meu pai. Comigo transitava ali, pelas cercanias, até Madureira.

          Caminhava até o final da rua, naquele tempo, sem saída. Contornava um valão, certamente muito menos poluído, naquela época. Íamos por ali, não existia ainda o Tem Tudo de Madureira. Caminhávamos até a Igreja Católica. Entrávamos. Seja lá por que motivo, na cabeça do Cid. E eu apreciava os santos ali por dentro distribuídos.

          Em meu ainda parco vocabulário dizia “Neco, neco”, traduzido quer dizer “boneco”, desejando levá-los para casa. Lembro que, pelo menos uma vez, chorei, nesse intento, por chantagem emocional, contrariado pela insensibilidade do pai em não me atender. Um padre, que naquele tempo ainda usavam batina escura, tomou-me no colo para consolar-me.

          Explicou que deveriam ficar ali. Outras pessoas, que não somente nós dois, Cid e Cid Mauro, viriam também vê-los. Devo ter olhado com espanto para a cara do paroquiano, mais ou menos entendendo, toquei mais uma vez, guiado pela sua mão, o “Neco”, e quedei-me convencido. Era esse um dos tours pelos quais meu pai me conduzia.

         Mas voltando ao corredor, não esqueço o dia. Talvez voltássemos da igreja ou de outra saída, alhures, sei lá, o casal era visitadeiro. Portãozinho de madeira, à época, naquele tempo muito mais extenso o corredor, do que é hoje, compreensível, para o mundo infantil. Um céu enorme, acima de minha cabeça, muito mais estrelado do que hoje, pelo pouco de luz que, nos idos dos anos 60, esboçava-se por Cascadura.

        Devo ter suposto que era momento de uma pergunta teológica. Eu queria saber do rolo em me dizerem, os dois, pai e mãe, ser Jesus filho de Deus e, ao mesmo tempo, de José. Afinal, era de Um ou do outro. Cid entrou pela fórmula “pai adotivo”, “pai de criação”, bem, rudimentos de construções teológicas, digamos assim.

        Era só para lembrar o corredor.

Rua Mendes de Aguiar, bem na esquina
com Ernani Cardoso

Casa da Matilde, à direita; portão acinzentado,
indica a entrada do corredor; portal térreo do sobrado,
entrada dianteira da casa de d. Olga.

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A Paróquia, quase
60 anos depois.