sábado, 17 de outubro de 2020

Evangelho/Evangélico - Final

 3. Evangelho de Lucas: aborda genealogia num contexto diferente em relação a Mateus. Este deseja alinhar, por múltiplos de sete,  14 + 14 + 14, os ascendentes de Jesus, citando nomes-chave de sua genealogia. Lucas vai focá-la somente no cap. 3, dando outra ênfase à abertura de seu livro. 

     Vai priorizar o grupo que aguardava o cumprimento das profecias do Antigo Testamento, na melhor distinção do que Pedro comenta sobre o surpreendente de Deus: 

     "Da qual salvação inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar. 1 Pedro 1:10-12.

    Por isso encontramos, no início de seu Evangelho, personagens como Zacarias e Isabel, os pais de João Batista, assim como José e Maria, sobre quem Lucas vai concentrar seu foco.

     Dele, reconhecido pelas características que ele mesmo indica, de detalhado investigador de tudo o que escreve, nas palavras dele "acurada investigação de tudo desde sua origem", é que vai nos transmitir o relato da entrevista de Maria com o anjo que lhe anuncia sua gravidez. 

     Maria é a virgem de quem Isaías prontamente profetisa: "Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel". Isaías 7:14. Daí dizermos que, nessa entrevista, Maria se assusta três vezes:

1. Com a simples aparição do anjo Gabriel em seus aposentos;

2. Com a distinção de que era agraciada, sem ainda conhecer as razões por quê;

3. E, para finalizar, quando o anjo arremata seu recado, mencionando a gravidez.

     O "como será isso, de Maria", em tom de esclarecimento, e não de contestação, como foi a mesma pergunta feita por Zacarias, permite que conheçamos, com detalhe, pela palavra do médico Lucas, o modo como Jesus foi gerado, gestado e nascido: 

     "E disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem algum? E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus". Lucas 1:34,35.

     Pelo texto, compreendemos de que depende o evangelho e a que se refere, en função de sua principal personalidade:

1. a presença do Espírito Santo, assim como a virtude do Altruísmo, definem o modelo de geração de Jesus;

2. Por essa razão, ele é autenticamente chamado, uma vez nascido de mulher, porém gerado por Deus, Filho de Deus.

     A personalidade de Jesus está diretamente associada ao evangelho. Somente ele poderia, a um só tempo, anunciar e cumprir a proposta de sua mensagem, uma vez que, como diz a carta aos Hebreus 12,2, Jesus é "autor e consumador" da fé. 

     Lucas, o médico amado, como a ele se refere Paulo, faz questão de mostrar esse lado humano, incluído o relato da manjedoura, a apresentação do bebê no templo, o menino Jesus com os doutores, etapa a etapa o desenvolvimento do homem perfeito, o segundo Adão sem pecado, ao qual Paulo Apóstolo se refere. 

     Uma cena que bem simboliza o foco de Lucas, é como céu e terra, anjos e pastores, juntos celebram a solução divina para a queda hunana e a chance de reconciliação concedida por Deus. 

     A eles foi anunciado que, por um pouco, deixassem o gado nas campinas e corressem a ver o menino enkvolto em panos, de certa forma aceito, de outra forma rejeitado. Convite a crer e a enxergar a glória de Deus. 

4. Evangelho de João: este apóstolo dá um salto acima. Se o três Evangelhos anteriores são chamados sinóticos, ou seja, que veem por uma ótica comum a sucessão da história de Jesus, João avança até antes de Jesus ter nascido, para apresentá-lo como o Verbo de Deus. 

     Como se dissesse que a ação do Pai é somente uma, manifestada na revelação em e por meio de Jesus: "Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou". João 1:18.

       A noção grega do Logos representava um avanço em relação à fase intuitiva de, por exemplo, encarar cada manifestação da natureza como ação de Zeus, o deus supremo do Olimpo, na mitologia.

   O Logos era uma explicação mais racional para a organização do cosmos, na qual estava incluída tanto a sua concepção inteligente, como uma explicação mais definida, mais "científica", dos fenômenos naturais. 

    João, a partir de sua argumentação, assume a definição grega de Logos, Verbo, Palavra, esse princípio ordenador do cosmos, para dizer que, sim, no princípio era o Logos, o Verbo, porém, com uma correção, era propriedade de Deus e, avançando, João diz que não há "um Verbo", ou um Logos, mas que "o" Verbo, o Logos é Deus:

     "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. João 1:1-3.

     Dessa forma, João inicia seu Evangelho. Indica as origens eternas do Verbo de Deus, identificando-o como Deus e afirmando ser Jesus o Verbo que se fez carne:  "E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade". João 1:14.

     E logo passa a discorrer sobre sua identificação entre nós, por meio de João Batista, que aponta Jesus como o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, sendo o Batista um sacerdote fora de função, como Ezequiel e Jeremias, que confirma a vinda de Jesus e o indica como quem batiza no Espírito Santo. 

     Foi dessa maneira, enquadrado pela turma de Jerusalém, que veio reprová-lo por praticar o ritual peculiar, com exclusividade, aos sacerdotes, de dentro do templo, para fora, a que chamou "batismo de arrependimento", ele os desafiou a identificar entre eles o Messias prometido, por eles ignorado.

     E ainda foi surpreendido por Jesus, que veio por ele ser támbem batizado, ao mesmo tempo legitimando o batismo de João, quanto, definitivamente, demonstrando que sua identificação com o ser humano é total, exceto no pecado. 

    O evangelho, em João, está associado com a salvação que Deus, em Pessoa, realiza, encarnado  como Filho, que batiza no Espírito Santo. Toda a Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo empenhados em salvar, em Cristo, por meio do evangelho:

    "Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória". Efésios 1:13,14.




     

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Evangelho/Evangélico

     Introdução 


     Nomes enxovalhados. O que fazer para resgatar sua verdadeira ênfase? Pedro, mais maduro e consciente, diz em sua segunda carta: "Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós".1 Pedro 3:15.

     Certamente, outro Pedro, diferente daquele do incidente com João quando, convidado por ele a entrar no pretório romano, desembocou na negação de Jesus. Fase que ilustra bem o que pode ocorrer conosco, intimidados ou envergonhados do evangelho. Paulo nos socorre, indicando o antídoto e, ao mesmo tempo, a identidade: "Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé". Romanos 1:16,17

     Questões:

1. O que é, afinal, em dimensões exatas, "evangelho/evangélico"?

2. A compreensão é estática ou dinâmica, ou seja, estagnada ou renova-se?

3. Que fontes seguras me indicam as repostas?

      Respondendo desta última questão para as anteriores, temos 4 fontes denominadas "Evangelho", um gênero literário inédito do Novo Testamento. Cada uma, por si, fornece uma pista definida que responde a principal questão:

1. Evangelho de Marcos: inicia-se dum modo típico e preciso, citando suas fontes, na Bíblia de seu tempo, na profecia de Isaías: "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus; Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas". Marcos 1:1-3.

    A palavra "princípio", para Marcos, a um só tempo significa a) "ponto de partida", assim como b) "fundamento". Depois aponta para uma personagem excêntrica, João Batista, sacerdote fora de função, profeta anacrônico e o mais anti-social dos precursores de Jesus.

     Mas representa, homem "maniento" que foi, a) advertência para o arrependimento e b) promotor antecipado do batismo, daí seu apelido "batista", do símbolo distintivo de autenticidade do evangelho.

      Jesus enaltece João, assim como este enaltece Jesus: "E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, não há maior profeta do que João o Batista; mas o menor no reino de Deus é maior do que ele". Lucas 7:28; assim como João dignifica Jesus, dizendo "Este é aquele que vem após mim, que é antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da alparca". João 1:27.

      Por falar em princípio, há eco nas palavras de Marcos, quando da decisão de Jesus, logo após a prisão do Batista, seguir para a Galileia anunciando, pela primeira vez, a mensagem do evangelho, indicando o contexto preciso de sua urgência e cumprimento: "E, depois que João foi entregue à prisão, veio Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho do reino de Deus, E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho". Marcos 1:14,15.

     Esta fala de Jesus introduz o evangelho, contextualizando sua mensagem, assim como indicando a circunstância pela qual é incorporado à experiência humana:

1. "tempo cumprido" significa definição profética precisa, bem como última chance; 2. "reino de Deus próximo", os dois aspectos desse reino, o "já" e o "ainda não"; 3. e o arrependimento e a fé são os dois fundamentos sem os quais a autenticidade do assumir o evangelho como profissão individual de fé não ocorre.

      Marcos indica princípio e fundamento, contexto e as duas alavancas sem as quais ninguém incorpora o evangelho autêntico a sua própria experiência.

2. Evangelho de Mateus: começa por uma genealogia. Porém, Mateus foge do padrão delas e, no contexto purista farisaico de sua espoca, tiraria nota zero. Além de incluir, de modo inusitado, nome de mulheres, não escolhe aquelas de pedigree judaico definitivamente comprovado, mas mulheres goyim, quer dizer, estrangeiras, como a samaritana era considerada, o que, no mínimo, constituía-se numa provocação da parte dele. 

     Se das três, a única que não teve conduta duvidosa foi Rute, o fato de ser moabita, povo originário de uma relação incestuosa das filhas de Ló com ele, e chapados por Israel como malditos, já desabonava de uma vez, inviabilizando uma suposta inclusão nessa lista. Definitivamente, esse tal Mateus era um subversivo, no sentido lato da palavra. 

     Tamar, que entra na descendência porque foi mãe dos gêmeos nascidos do patriarca Judá, posou de prostituta, numa artimanha para enquadrar o pai dos meninos, que não a concedeu, nora legítima que era dele, ao filho caçula, cumprindo a lei do levirato.

    Desses detalhes sórdidos os "puristas das genealogias", nessa hora, não lembravam. Assim como, levianamente, não identificavam a legítima conversão de Raabe à fé do Deus Altíssimo únicos, ela com sua família, sobreviventes ao cerco de Jericó. 

    Essas três mulheres entram na genealogia, porque Mateus enfoca o termo na sua ampla acepção: "gene", genética; "logia", estudo exaustivo. O povo judeu não era o melhor, como o próprio Moisés explicou em seu discurso, no Deuteronômio, mas o privilégio (e a responsabilidade) dele é a que Paulo expressa aos Romanos nos capítulos 10 e 11: sacerdócio universal de aproximação de todas as nações com Deus, condicionado a que: 
    
     "Vós tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias, e vos trouxe a mim; Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo". Ex 19,4-6.

     O gene de Jesus é humano, sua identidade judaica está associada ao privilégio do sacerdócio que Deus concede a esse povo, porém o sacerdócio dele não procede da linhagem levítica, como certamente questionariam seus próprios patrícios. 

      Mas provém direito de Deus, no estilo Melquisedeque, rei de justiça, homem sem nenhum ascendente judaico ou abraâmico. Mateus já anuncia que o evangelho tem, sim, um salvador judeu, como Jesus disse à samaritana, mas tomado de entre os homens, condição que iguala os goy e os goyim, sejam judeus ou gentios, na mesma carência de salvação. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O Apocalipse nosso de cada dia - Pausa: comentários sobre os sete selos - Parte 15

 Aproveitando o intervalo natural entre o sexto e o sétimo selo, vamos destacar alguns conceitos que, de antemão, devem estar claros, ao procedermos à leitura e ao estudo do Apocalipse.

    1. Há uma relação direta entre o que ocorre nas visões, que representam a ação nos céus, e o reflexo delas na terra. 

    2. Essa simbologia ilustra a soberania de Deus que, mesmo diante da rebeldia humana, conduz a humanidade sob sua vontade.

    3. Deus não castiga ou é proativo em relação ao mal, vingança ou maldições perpetradas contra a humanidade. 

    4. Ao contrário, Ele é amor, mas também é justiça. Ofecere, como dádiva principal de Sua personalidade, Sua graça e oportunidade universal de arrependimento.

    5. Portanto, muitas das calamidades descritas no Apocalipse não são resultado direto da ação de Deus, mas consequências da desobediência e injustiça humanas.

    6. Deus age contra o pecado. Caso o homem busque parceria com Ele nessa luta, vai vencer. Caso não se arrependa, vai ter de encarar as consequências.

    7. As calamidades descritas no Apocalipse devem ser entendidas como consequências da desobediência humana e do encadeamento natural de seus resultados.

    Tomando, até agora, os 6 selos como exemplo, aparecem: guerras, exploração econômica e consequente desigualdade social, fome, mortandade entre os homens.

    Quando são descritos fenômenos naturais intensificados, como terremotos, drásticas mudanças geográficas, como deslocamentos de montes e ilhas, já se aguardam fenômenos semelhantes a esses, provocados por mudanças climáticas. 

    Até asteroides, que se chocaram com a terra, são indicados pela ciência como causa de profundas alterações no planeta, como quando a ciência supõe que foram a causa da extinção dos dinossauros.

    Portanto, regra básica na leitura do Apocalipse, separar o simbólico do hiperbólico, e o real do imaginário, mas checando dados, entre o que vai escrito e o que a realidade indica como possível e exequível.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

O Apocalipse nosso de cada dia - O Cordeiro abre o 5⁰ selo - Parte 14

     Quando é aberto o quinto selo, há uma pausa na ação, em relação aos anteriores, para que, pela segunda vez no livro, sejam mencionadas as orações dos crentes. 

     Desta vez são os mártires, identificados como "almas dos que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que sustentavam". 

     Clamam por vingança de seu sangue derramado, como mártires do evangelho, exatamente os que morriam sob a perseguição que, ainda na época em que o Apocalipse é escrito, estava em curso. 

    Lembrar que o sentido de "vingança" na Bíblia não é aquele do senso comum. Em Rm 12,17-21, está claro que a vindicação de justiça é exclusiva de Deus. Portanto, a resposta imediata às orações que fazem os mártires, é um gesto simbólico de espera: recebem vestiduras brancas e são exortados a esperar. 

     E até soa irônico, diante de um clamor, dizer que outros conservos ainda morrerão, do mesmo modo que eles. Uma afirmação realista, que indica a soberania assim como a vontade permissiva de Deus em relação aos que são perseguidos por causa de Jesus, como está escrito em Mt 5,10-12.

      A abertura do sexto selo afeta os fenômenos naturais, ocorrendo terremotos, afetados o sol e a lua, assim como o conjunto das estrelas, e todo o céu se enrola, como num pergaminho.

     Avaliam-se tais fenômenos celestes e seu reflexo na terra. Evidentemente, pelos exageros anotados, não são literais porque, por exemplo, gravitacionalmente falando, estrelas não caem no chão, sobre a terra. 

     Mas quando são medidos os efeitos, na terra, pelo que ocorre, nos céus, indicado está que as ações no céu, dentro do enredo do cumprimento dos tempos, tem implicações diretas na terra.

     Ilhas e montes são movidos de lugar, reis, ricos, comandantes e poderosos, e ainda escravos e livres se escondem em cavernas, nos penhascos dos montes. Astros nos céus e toda a população na terra, sem diferenciação social, reconhecem tardiamente que o dia do Senhor, como consta na literatura dos profetas menores, irrompeu.

      Todos na terra, em vão, tentam se esconder e demonstram desespero, dizendo: "Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?", Ap 6,16-17.

      Assinalada está a marca de começo dos acontecimentos decisivos dos fins dos tempos, e de um modo que é impossível negar, porque os astros assinalam, como em Gn 1,14, luzeiros como sinais, e os próprios habitantes da terra, em sua diversidade admitem, com medo, e numa tentativa absurda de fuga.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O Apocalipse nosso de cada dia - O Cordeiro abre os quatro primeiros selos - Parte 13

     Os chamados "Cavaleiros do Apocalipse" correspondem à abertura dos quatro primeiros selos. Não devem ser compreendidos fora de seu contexto, para que não sejam transformados em símbolos, ícones ou propaganda de outras realidades fabricadas. 

    João retira essa imagem a partir de Zacarias 1,7-11, com estes 4 cavaleiros do Apocalipse também saindo a percorrer a terra, cada um deles correspondendo a uma função específica. E cada um deles segue o mesmo padrão de convocação. 

    O Cordeiro descola o selo, imediatamente ouve-se a voz de cada ser vivente, cada um por si chamando cada um dos quatro cavalos: o branco, o vermelho, o preto e o amarelo. Cada um deles sai com missão definida.

     Quem lê o Apocalipse, deve proceder a certas pausas, para fora do texto, a fim de imaginar o cenário descrito. Eram essas visões, num tempo em que não existiam telas e tecnologia digital ou imagens virtuais, impactantes aos leitores que, instantaneamente, desenhavam com sua própria imaginação o cenário e assimilavam, prontamente, o recado, a lição e revelação transmitida por João. 

      Aqui vemos o Cordeiro abrir selo a selo os quatro primeiros e, a cada um, a voz de cada ser vivente dizendo "Vem" e cada cavaleiro sair com ordem expressa, para valer sua identidade específica. 

      Cavaleiro do cavalo branco, sai com arco, coroa e vencendo e para vencer. O do cavalo vermelho, com uma grande espada, para tirar a paz da terra e que os homens se matassem entre si. Aquele do cavalo preto, com uma balança na mão, ouve uma voz, também a partir dos seres viventes, recomendando praticar comércio inflacionado de trigo e cevada, assim como medir porções e conservar  estocados e valorizados o azeite e o vinho.

      O último, do cavalo amarelo,  traz assolação, seguido da Morte e do Inferno, afeta a quarta parte da população do planeta, provocando morte pela espada, pela fome e por meio de feras da terra.

     Como entender esse quadro? Sempre avalio que, na interpretação do Apocalipse, deve-se partir do geral e do garantido, como líquido e certo, para o específico e mais propriamente simbólico. Assim, vamos entender o que é literal, histórico e factual, assim como o representativo.

      Passo a passo: 1. os cavaleiros saem por toda a terra, portanto, são portadores de ações que afetam toda a humanidade; 2. avaliados em conjunto ou, individualmente, o que carregam consigo como ação representa sempre o que a própria humanidade já apresenta de si mesma; 3. cavalo branco: guerras de conquista; vermelho: guerras de extermínio; preto: carestia e exploração econômica; amarelo: as mais e frequentes variedades de morte.

      Antes, portanto que, de modo específico, o efeito do que está escrito no livro, sendo aberto pelo Cordeiro, ocorra, a simples abertura dos selos desencadeia a ação dos quatro cavaleiros.

     Eles representam ações que, por si, a humanidade já concede fluxo, porque todos os tipos de guerras, justas ou injustas, desde sempre ocorrem, como a exploração econômica, a carestia e inflação, que gera a fome, assim como as mais variadas formas de morte, pela fome, outros tipos de mortandade e por feras selvagens, típico de época, são apanágios típicos da condição humana e inerentes a ela. 

     Não podem ser responsabilizados por essas ocorrências os céus e nem poderes de fora da própria humanidade porque, independentememte da ação de Deus ou não, são factuais.

      Mas no Apocalipse, estarem simbolizados por cavaleiros que, a um sinal, saem com essa específica missão, revela que, além da responsabilidade humana por sua autoria, Deus em sua soberania preside essas ações, que não são, absolutamente, ações de sua vontade e decisão, e que serão cobradas e creditadas na conta da própria humanidade.    

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O Apocalipse nosso de cada dia - O trono dos céus: cenário de toda a ação - Parte 12

      Jesus agora aparece para João, no cenário descrito, de modo diferente ao da vez anterior. Um "Cordeiro como tendo sido morto" é a sua aparência, no lugar mais estratégico, no centro do cenário. 

     No meio do trono, entre os 4 seres viventes, entre os 24 anciãos, e vem dada a descrição de sua aparência. Tinha 7 chifres, a onipotência de Deus, pois chifres simbolizam poder, 7 olhos como chama de fogo, onisciência e a própria identidade e capacidade de ver como vê o Espirito de Deus, novamente aqui indicado como os "sete Espíritos de Deus".

      João em seu evangelho, cap. 16,12-15, asinala a identidade entre Pai, Filho e Espírito Santo. Faz o mesmo aqui, quando afirma que o Cordeiro está no meio do trono. Ninguém pode ocupar o trono, senão Aquele-que-é-aquele-que-era-e-que-há-de-vir, Deus Todo-poderoso. 

     Se o Cordeiro está no meio do trono, é porque tem identidade com Deus. E se os olhos do Cordeiro são os sete Espíritos, que Deus envia por toda a terrra, esse que perscruta Deus e os homens, que é o Espirito Santo, com ele o Cordeiro também tem toda identidade.

     João, no seu Evangelho, ao descrever a forma como Jesus apresenta o Espirito Santo, na referência acima, indica a palavra de Jesus, que diz "tudo quanto o Pai tem é meu", quer dizer, ninguém pode ter consigo tudo o que Deus tem, se não for com Deus a mesma Pessoa. 

     Porque Deus não pode repartir com ninguém o que é e nem o quem tem. E logo depois, Jesus afirma que o Espirito Santo recebe do que é dEle, de Jesus, para anunciar ao mundo. Ora, para receber de Jesus o que este recebeu de Deus e anunciar, na mesma proporção, o Espírito Santo precisa ter a mesma identidade do Pai e do Filho. 

     Vem, pois, o Cordeiro, e toma o livro inacessível, até ao olhar, da mão dAquele que está assentado no trono. O climax da angústia tem o seu desfecho. E todos no cenário à volta prorrompem em louvores.

    Quem for produzir o ato de abertura desse grande drama, não poderá esquecer do coral porque, no ato de tomar o livro da mão dAquele sentado no trono, todos os louvores agora se deslocam ao Cordeiro. Prostram-se seres viventes e anciãos, estes com harpas de louvor e taças, com todas a orações que pediam para que, um dia, isso acontecesse exatamente assim.

     E entoam todos um cântico, cuja lógica é, "porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra", então,  por isso, cantavam: "Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos".

     E se fosse no Brasil, saiu para a torcida, porque "milhões de milhões e milhares de milhares" de vozes, descreve João, reverberam o mesmo cântico: "Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor".

     Trata-se de uma multidão de anjos ao redor de todo o cenário, que logo foi seguida, descreve João o que ele ouviu, de mais e mais vozes,  porque "toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos".

      E as cortinas se fecham com o amém em uníssono dos 4 seres viventes que, em conjunto com os 24 anciãos se prostram, diante do Cordeiro, e o adoram. Vai começar o drama final do Apocalipse, na abertura dos 7 selos, pela mão do único que tem autoridade para fazê-lo.

O Apocalipse nosso de cada dia - A cena angustiante do Livro - Parte 11

    Se o fantástico cenário está montado no céu, 4 querubins circundam Aquele que está sentado no trono, os 24 anciãos elevam louvores e se prostam diante dEle, está pronto todo o quadro para a  ação que vai se seguir. 

     E João vislumbra o que vai ocorrer, quando concentra sua visão num livro que está na mão direita dAquele sentado no trono. Plenamente anotado, porque escrito por dentro e por fora, e de todo selado com 7 selos.

     Gosto de pensar que esse livro é a própria Bíblia, que vai se completar com a escrita do Apocalipse, que ocupa a mão de Deus, à qual somente tem acesso o Cordeiro, para lhe retirar os selos e dar cumprimento a toda a palavra ali escrita.

      Sendo assim ou não, o fato é que João continua, e passa a descrever um dilema, que vai gerar um suspense, uma grande angústia e, por fim, um clímax com a solução bem definida. E dela depende todo o desencadear do Apocalipse.

     Um anjo forte, visto por João, proclama em grande voz, que ecoa por todo o cenário: "Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?".

     Dilema: nem no céu, fosse na terra, fosse debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, ao menos olhar para ele. Suspense em todo o cenário.

    E João relata que passou a chorar desesperadamente, pela causa acima exposta, que ele repete e confirma. Até que um dos anciãos ameniza a angústia de nosso narrador, dizendo o que se torna uma legenda para todo o livro. 

    A chave hermenêutica do Apocalipse é a revelação dessa personagem, nessa cena inicial, principal e desencadeadora de toda ação, que é Jesus, já indicado como portador de toda a revelação do Apocalipse, como aquele que dita e envia as cartas às igrejas e, agora, quem desencadeia toda a ação subsequente.

      "O Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos". A seguir, João então descreve o que passa a ver, quando a personagem principal entra em cena.

Artigos soltos 50

 Perguntas: 7 delas na Bíblia.


     Quando bem feitas, confrontam quem ouve. Mal feitas, afrontam. Ou não conduzem a lugar nenhum. 

     Mas na Biblia há delas que são fundamentais e formativas do caráter, principalmente aquelas feitas por Deus ou, de conteúdo, feitas a Deus.

     Bem, às vezes até Ele omite uma resposta. E vai que, exatamente nessas horas é que aprendemos muito.

     1. Pergunta a Adão: "E chamou Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? [...] Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?". Vamos fazer valer como uma só essas três. 

      Porque aqui a circunstância é única. O começo da vida de qualquer homem ou mulher, com Deus, passa por essas perguntas. E a resposta para todos nós será "sim, desobedecemos". Começamos, com Deus, desnudados por Ele. Vai nos revelar o nosso pecado, não como Satanás, porque Deus não nos joga na cara, e vai estar em Cristo, reconciliando-nos com Ele. 

      2. Pergunta a Caim: "Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito?". De novo, vamos encadear as três. 

       Aqui, há relação direta com as anteriores. Também é típica de todos nós. Todos, sem exceção, já experimentamos a síndrome de Caim. Encher o coração com ódio. Não proceder bem, diante de Deus, e matar o irmão. 

     Lembrar que, na Bíblia, para existir ódio, basta não operar o amor. Proceder mal, no coração, basta a intenção. E matar o irmão, é só "dar gelo" ou difamá-lo. Somente a conversão a Deus, que foi a finalidade dessas perguntas feitas, pode nos livrar da síndrome de Caim.

      3. Pergunta a Abraão: "Por que se riu Sara [...] Acaso, para o Senhor, há coisa demasiadamente difícil?". A pergunta foi ao marido, mas o assunto foi a esposa (que logo depois, mentiu). Que coisa feia, Sara!

       Para aprendermos a não duvidar do que Deus vai realizar. E, compreendendo que não há impossíveis, referentes às promessas dEle para nós. O não haver impossíveis se refere aos assuntos de Deus a nosso respeito, e não à satisfação de nossos caprichos.

     4. Pergunta a Abraão: "Ocultarei a Abraão o que estou para fazer? [...] Pergunta de Abraão: "Destruirás o justo com o ímpio?".

      Deus é, em essência, revelação. Se não, não enviaria o Filho, que nos revela todo o Pai. Portanto, não estava para esconder nada de Abraão. E Amós, o profeta, também reforça que nada Deus faz sem parceria com seus profetas. 

     E Deus não destrói ímpios, mesmo porque todos são ímpios. Ele concede chance de arrependimento indistintamente. Mas, como diz Paulo, não se deixa escarnecer. Com Deus, não há impunidade.

      5. Pergunta a Abraão: "Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?". João Batista respondeu essa.

      Reclamam de tudo na Bíblia. Sabem por quê? Porque esse livro denuncia a maldade humana. Aqui, reclamam de Deus mandar Abraão matar o filho Isaac. Mas, ao mesmo tempo, matou e não matou.

     Matou, como diz o autor de Hebreus porque, no seu íntimo, Abraão obedeceu a Deus até as últimas consequências. Era isso que Deus queria lhe mostrar.

     E não matou, porque tudo aquilo, sem que Abraão soubesse, era um teatro, para demonstrar que, quem assassina seus semelhantes e mata seus filhos (e os dos outros) somos nós, que matamos o Cordeiro de Deus, Jesus, com nosso ódio, até que Ele, tendo ressuscitado, revelou-nos Seu amor. 

       6. Pergunta de Esaú: "Não reservaste, pois, bênção nenhuma para mim?" [...] "Longe de lugares férteis, sem orvalho que cai do alto, viverás da tua espada e servirás a teu irmão".

      Escolha por não viver sob as bênçãos de Deus é a mais louca possível. Paulo se refere a Deus, na introdução aos Efésios, como "Bendito Deus de bênçãos, que abençoa". Esaú, pela provocação do irmão, não considerou santo, da parte de Deus, o que o próprio Deus considerou santo para ele. Não há como viver fora da bênção de Deus. 

      7. A pergunta que Moisés não fez: "Rogo-te que me deixes passar, para que eu veja esta boa terra que está dalém do Jordão, esta boa região montanhosa e o Líbano" [...] "Basta! Não me fales mais nisto".

     "Posso passar?" Moisés trocou a pergunta por um rogo. E a resposta foi não. Quantos "nãos" já ouvimos de Deus? Paulo nos ensina que, ainda que ouçamos "não", a graça de Deus nos basta.

    Davi se especializou em ouvir "nãos" da parte de Deus. Pelo menos, três que me lembre: na tentativa de edificar o templo; na intercessão pelo primeiro filho com Bate-Seba; e na condição de escolher entre um dos três castigos, quando desobedeceu, fazendo o censo.

     Caiamos nós nas mãos do Senhor, mesmo ouvindo dEle quantos "nãos" forem necessários, porque são muitas as misericórdias de Deus.

domingo, 4 de outubro de 2020

O Apocalipse nosso de cada dia - A descrição do cenário no teatro do fim - Parte 10

    As cenas, no Apocalipse, vão se suceder. João está em pleno tour com o anjo, até completar o circuito. Logo no início do cap. 4 que, com o 5 completam um grupo cenário-ação, a mesma voz "de muitas águas", da visão anterior, chama-o: "Sobe para aqui".

     Para que a ação continue, aparecerá um cenário no céu. E, a título de introdução, antes mesmo de ler sua descrição no Apocalipse, será fundamental ler visões semelhantes de Daniel, em Dn cap. 7 e 8, Isaías, no cap.6, e Ezequiel, nos cap. 2 a 3.

     Novamente, nos dá a indicação "achei-me em espírito", e o quadro geral que vê: no céu, armado um trono e alguém sentado. Atentem, agora, para a descrição de quem está sentado. 

     Jaspe e sardônio tem coloração parecida, ambas com tons de vermelho, às quais se assemelha "esse que se acha assentado". No caso do jaspe, pode variar até o amarelo. O arco-íris, por cima do trono, tem tons esverdeados translúcidos, descrito comparado, pelo seu resplandecer, aos reflexos de esmeraldas.

     Ao redor do trono, compõem o quadro visto e descrito por João outros 24 tronos, com o mesmo número de anciãos vestidos de branco, neles sentados, cada qual com uma coroa de ouro sobre sua cabeça. 

     Relâmpagos, vozes e trovões saem do trono, ardem diante dele 7 archotes, que são os 7 espíritos de Deus e ainda uma plataforma, como cristal, denominada "mar de vidro", localiza-se à frente do trono, e ha quatro "seres viventes" esvoaçantes, cheios de olhos na frente e por detrás, pairando no meio e à volta do trono. 

     Serão descritos, em sua semelhança, idênticos aos que aparecem a Ezequiel, assim como em Isaías: cada um dos quatro com diferentes rostos de leão, novilho, homem e águia.

     Eles têm 6 asas, cheios de olhos por dentro e ao redor, como já mencionado, e não descansam, dia e noite proclamando, "Santo, santo, santo é o Senhor Dsus, o Todo-poderoso, aquele-que-é-que-era-e-que-há-de-vir".

     Na continuidade da narrativa, como num coral de vozes, a cada ação de adoração e enaltecimento a Deus, da parte dos seres-viventes, haverá um canto de louvor enunciado e dirigido ao trono. 

    Quando, por exemplo, os seres-viventes dão honra, glórias e ações de graça ao que está sentado no trono, todos os anciãos se prostam, depositando suas coroas aos pés do Senhor, adorando o que vive pelos séculos dos séculos.

     Será, então, ouvido, da parte dos anciãos: "Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas", Ap 4,11. 

    Está descrito o cenário para as cenas seguintes de todo o livro. Esse painel fica assim exposto, enquanto tudo o que vai acontecer é apontado na descrição do Apocalipse, até o seu final.

O Apocalipse nosso de cada dia - As sete igrejas: Tiatira, Sardes, Filadélfia, Laodiceia - Parte 9

    Tiatira: havia nela uma liderança independente, que forjava um falso ministério, enganando a muitos. Embora fosse uma igreja de reconhecida operosidade, amor, fé e perseverança, não confrontava essa liderança, uma falsa profetisa, que praticava e ensinava rituais de  idolatria, provavelmente religiões de mistério, muito comuns naquela época e naquela região. O grupo, reconhecidamente, mais maduro é exortado a confrontar, na fé, os que estavam no desvio. Essa igreja nos ensina a reconhecer a autenticidade e prática legítima dos dons, no ministério de Cristo, que é único, do modo como devem ser avaliados pseudo ministérios que espoucam, aqui e acolá, mas totalmente carentes de autenticidade.


     Sardes: a crise nessa igreja também era acentuada, pelo fato de quase totalmente haver perdido sua identidade, pois Jesus a aponta como viva só de nome. Havia poucos nela que se mantiveram fiéis, tendo recebido, ouvido e guardado a palavra de Jesus. Precisavam consolidar os que estavam fracos, 2 Pe 1,10-11. Essa igreja nos ensina o perigo de nem percebermos o quanto podemos nos afastar de nossa vocação original, praticando obras não íntegras, na avaliação de Jesus, e não as que, como salvos, somos convocados a praticar, Ef 2,10.

     Filadélfia: ela nos ensina a plenitude do ser igreja: porta aberta diante de si, pouca força humana, todo o poder de Deus e ter guardado e vivido pela palavra de Jesus. Não significa que não houvesse provações, pois eram desafiados pelo grupo "sinagoga de Satanás", de falsos crentes e falsos judeus. Mas estavam guardados e sem nenhum medo no amor de Jesus, o qual seria a marca maior de sua aprovação, diante de Deus. Ela nos ensina a viver e experimentar a plenitude do poder de Deus, no seu amor e na sua palavra.

      Laodiceia: muito interessante essa igreja, porque tinha uma falsa imagem que fazia de si mesma: avaliava-se rica, abastada e suprida mas, pela visão de Jesus, era pobre, cega, miserável e nua, como Adão, flagrado em delito no Éden. Perdera, como em Sardes, a identidade: nem quente ou fria, mas morna, a ponto de ser vomitada por Jesus. Mas ela nos ensina algo válido para qualquer igreja em qualquer época: se acolher Jesus, que bate à porta, para entrar, cear e exercer sua intimidade, haverá restauração, porque Jesus tem tudo do que qualquer e todas as igrejas precisam.

     Vale aqui mencionar que, o prêmio de vitória dela seria sentar-se, com Jesus, no trono que é de uso exclusivo dEle e do próprio Pai, como vamos ver nos próximos capítulos.

O Apocalipse nosso de cada dia - Cartas às igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo - Parte 8

      Já comentamos aqui de como as cartas às 7 igrejas abarcam todas as igrejas de todas as épocas. E como preenchem o que chamamos de kit de apresentação de todo o livro.

    O Apocalipse inteiro é dedicado a cada igreja de todas as épocas. E as sete cartas são uma análise de Jesus, que tem os olhos como chama de fogo, e sonda a todas e conhece tudo sobre cada uma. 

    Aqui vamos abordar sua análise, em cada carta, numa síntese do que é dito a cada uma delas, demostrando assim que o que é dito a cada uma, como exortação e advertência, aplica-se a todas em todas as épocas. 

      Vale lembrar que, ao falar "igreja", temos que pensar em nós mesmos. Claro que se trata de comunidades, no caso, do séc I, mas que se referem a pessoas. Portando, o que vai escrito se aplica ao grupo e, individualmente, a cada um.

      Éfeso: cidade maior do circuito das igrejas. O ministério de Paulo nela durou 2,5 anos, permitindo que toda a Ásia Menor fosse alcançada,  At 19,10. Uma cidade,  por si já importante, teve chance de abrigar uma igreja de porte equivalente, operosa, com amplo leque de atividades, porém com a perda do essencial: o amor. Foi considerado queda, quem sabe, por ser demasiado ufanista, tornando-se, com urgência, necessário arrepender-se e voltar ao que era antes. Ap 2,5, sob pena de "ter movido o candeeiro", que pode significar grande comoção ou provação, senão remoção total. Nenhuma igreja sobrevive sem amor. Se faltar, deixa de ser igreja. 

     Esmirna: o que marcava a igreja dessa cidade era a certeza de provações. Paulo diz, em 2 Tm 2,12-13, que provação é indissociável de ser autenticamente crente. Outra característica era o grupo de falsos convertidos, ao que parece, bastante ativo entre eles. E outra característica, de qualquer igreja, é a contradição pobreza/riqueza, visto que, nesse caso, o que cada um desses aspectos representa para Deus, é o inverso em relação ao que representa para o mundo. Toda e qualquer igreja ou crente precisa aprender a transformar tentação em provação, assim como entender o contraste, em Jesus, do que é verdadeira pobreza/riqueza e, assim, "ser fiel até á morte".

      Pérgamo: Jesus declara que o lugar da cidade era onde estava o "trono de Satanás". Certamente, tratava-se do culto ao imperador romano. Embora aprendamos, desde o Éden, que Satanás deseja montar o seu "trono" perto de nós ou dentro da igreja, 1 Pe 5,8,  sabemos que as portas do inferno não prevalecem sobre ela, Mt 16,18. Houve um mártir, chamado Antipas, que representava os que não negam o nome de Jesus e perseveram na fé, mas eram uma igreja mista, onde havia os seguidores da desconhecida doutrina dos nicolaítas, por opção própria, desprezando a doutrina sadia, 1 Tm 6,3-5, entre outros que flertavam exatamente com os cultos idólatras. São exortados a se arrepender, como em Éfeso, ou enfrentar Jesus e o poder de Sua palavra. Aprendemos que somente há vitória pela palavra de Jesus, a qual define verdadeiro e falso em termos doutrinários.

sábado, 3 de outubro de 2020

O Apocalipse nosso de cada dia - As sete igrejas: palavras de reprovação - Parte 7

      3. Palavras específicas de reprovação: "Tenho porém contra ti":

      Éfeso: 1. abandonaste o teu primeiro amor. Solução: 1. lembra-te de onde caíste; 2. arrepende-te; 3. volta à prática das primeiras obras. Advertência: 1. se não, venho a ti; 2. moverei do lugar o teu candeeiro. Ressalva: 1. tens a teu favor; 2. condenas as obras dos nocolaítas, Ap 2,4-6.

     Esmirna: (não há).

     Pérgamo: 1. tens os que sustentam a doutrina de Balaão; 2. ensinava Balaque a armar ciladas; 3. para que os israelitas idolatrassem; 4. e praticassem prostituição; 5. tens os que apoiam os nicolaítas. Advertência: 1. arrepende-te; 2. se não, virei contra eles; 3. pelejarei com a espada de minha boca, Ap 2,14-16.

    Tiatira: 1. toleras a mulher Jezabel; 2. a si mesma se declara profetisa; 3. não mais ensine; 4. não seduza meus servos à prostituição; 5. a comerem comidas dedicadas a ídolos. Advertência: 1. dei-lhe tempo a que se arrependa; 2. ela não quer; 3. vou prostá-la de cama; 4. e em grande tribulação os seus cúmplices; 5. caso não se arrependam. Juízo de Jesus: 1. serão mortos os filhos dela; 2. todas as igrejas reconhecerão; 3. Jesus é aquele que sonda mentes e corações; 4. concede a cada um segundo as suas obras. Exortações: 1. Jesus adverte aos demais da igreja; 2. que não seguem a doutrina das "coisas profundas de Satanás"; 3. Jesus não lhes jogará outra carga; 4. conservem o que obtiveram, até à volta dele, Ap 2,20-25.

     Sardes: (não há)

     Filadélfia: (não há)

     Laodiceia: (não há)

   4. Advertência final: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas": para todas, por igual.

   5. Promessas de galardão e vitória: "Ao vencedor darei que":

    Éfeso: alimente-se da árvore da vida, que se encontra no paraíso de Deus, Ap 2,7.

    Esmirna: de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte, Ap 2,11.

    Pérgamo: 1. darei do maná escondido; 2. uma pedrinha branca; 3. um nome escrito sobre ela; 4. ninguém conhece, senão quem recebe, Ap 2,16-77.

    Tiatira: 1. os que guardam até o fim as obras de Jesus; 2. receberão autoridade sobre as nações; 3. com cetro de ferro as regerão; 4. vão reduzi-las a pedaços como objetos de barro (Dn 2,44-45); 5. como recebeu do Pai, Jesus lhes dará a estrela da manhã, Ap 2,26-28.

    Sardes: 1. será vestido de vestiduras brancas; 2. não terá o nome apagado do livro da vida; 3. terá, por Jesus, seu nome confessado diante do Pai e dos anjos, Ap 3,5.

    Filadélfia: 1. será feito coluna no santuário de Deus, de onde jamais sairá; 2. terá gravado sobre si o nome de Deus, e o nome da cidade de Deus; 3. Jerusalém, que desce da parte de Deus; 4. receberá o novo nome de Jesus, Ap 3,12.

    Laodiceia: 1. sente-se comigo no meu trono; 2. como Jesus, que venceu e se senta com o Pai no seu trono, Ap 3,21.

O Apocalipse nosso de cada dia - As sete cartas de Jesus e sua estrutura - Parte 6

    As cartas às 7 igrejas obedecem a uma estrutura bem definida. Cada uma delas é subdividida igual e suas palavras são diretas de Jesus, que exorta a que João as escreva: "Ao anjo da igreja em (nome da igreja) escreve": 1. Apresentação de Jesus: "Estas coisas diz aquele que"; 2. Avaliação da igreja, seja positiva ou negativa: "Conheço as tuas obras"/"Aconselho-te": diagnósticos, reprovações, exortações ou soluções; 3. "Tenho, porém, contra ti": palavras específicas de reprovação; 4. Advertência final "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas"; 5. Promessa de recompensa final pela vitória obtida: "Ao vencedor darei que".

      Aqui destacamos, para cada igreja, o ponto central da avaliação de Jesus, a solução proposta e um ou outro destaque mais relevante. Aqui neste blog há textos sobre cada uma delas, analisando mais de perto a carta que recebem de Jesus. 

    Antes, ainda, de prosseguir, é necessário dizer que as cartas são, ao mesmo tempo, individuais e coletivas, àquelas igrejas e às de todas as épocas, e são acompanhadas do restante do livro, a cada uma, de modo que o Apocalipse é essa composição em bloco, dirigida, de modo geral, às igrejas de todas as épocas. 

     1. Apresentação de Jesus: "Estas coisas diz aquele que":

     Éfeso: "conserva na mão as sete estrelas e anda no meio dos sete candeeiros ds ouro", Ap 2,1;

     Esmirna: "o primeiro e o último, que esteve morto e tornou a viver", Ap 2,8;

     Pérgamo: "tem a espada afiada de dois gumes", Ap 2,12;

     Tiatira: "o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo e os pés  semelhantes ao bronze polido";

     Sardes: "tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas", Ap 3,1;

      Filadélfia: "o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá, Ap 3,7;

      Laodiceia: "o Amém,  a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus,  Ap 3,14.

     2. Avalição: "Conheço as tuas obras":

       Éfeso: 1. labor; 2. perseverança; 3. não suportava homens maus; 4. pôs à prova e identificou falsos apóstolos; 5. perseverante; 6. suportou provas pelo nome de Jesus; 7. não esmoreceu, Ap 2,2-3.

       Esmirna: 1. tribulação; 2. pobreza (mas é rica); 3. blasfêmia do grupo "sinagoga de Satanás". Exortações: 1. não temer o que terão de sofrer; 1.1. serão provados por prisão; 1.2. serão postos à prova; 1.3. serão atribulados por 10 dias; 1.4. sejam fiéis até a morte, para receber a coroa da vida 2,9-10.

     Pérgamo: 1. o lugar em que habitas, GPS do trono de Satanás; 2. conservas o meu nome; 3. não negaste a minha fé, nos dias da morte de Antipas, Ap 2,13.

     Tiatira: 1. o teu amor; 2. a tua fé; 3. o teu serviço; 4. a tua perseverança; 5. as tuas obras, maiores do que antes, Ap 2,19.

     Sardes: 1. tens nome de que vives e estás morto; 2. não tenho achado íntegras as tuas obras, diante de Deus. Exortações: 1. sê vigilante; 2. consolida os restantes que estão para morrer; 3. se não vigiares, virei como ladrão; 4. não conhecerás dia e hora em que virei, Ap 3,1-3.

     Filadélfia: 1. eis que tenho posto uma porta aberta, que ninguém fecha; 2. tens pouca força, mas guardas a minha palavra; 3. não negaste o meu nome, Ap 3,8. Exortações: 1. farei com que os da sinagoga de Satanás se dobrem a teus pés; 2. reconhecendo que te amo; 3. guardaste minha palavra, eu te guardarei da provação que vem sobre o mundo; 4. venho sem demora; 5. conserva o que tens, Ap 3,9-11.

     Laodiceia: 1. não és frio, nem quente; 2. porque não és, vomito de minha boca, Ap 3,16. Diagnóstico: 1. dizes, sou rico: não preciso de nada; 2. mas és infeliz: miserável, pobre, cego e nu; 3. compre de mim ouro refinado, vestes brancas e colírio; 4. repreendo e disciplino quantos amo. Exortaçõe: 1. seja zeloso e se arrependa; 2. estou à porta e bato; 3. quem ouve e abre, Jesus entra, ceia com ele e ele com Jesus, Ap Ap 3,17-20.

     

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O Apocalipse nosso de cada dia - João e a visão de Jesus - Parte 5

    A visão que João tem de Jesus, no Apocalipse, não é real como a que os discípulos, no caminho para Emaús, tiveram, Lc 24,30-31, ou em Atos, quando de sua subida aos céus, em At 1,10-11.

    Após sua ressurreição, o corpo de Jesus não mais tinha as imposições a que a matéria nos restringe, por isso, por exemplo, foi possível entrar ou sair de onde os discípulos estavam reunidos, como em Jo 20,19, sem que fossem abertas portas ou janelas. 

     E, simplesmente, desaparecer, como vimos acima, nos versículos de Lucas. A visão do Apocalipse, como já dissemos, é cifrada, ou seja, virtual, representativa e plástica. Tem impacto cênico e icônico. Por isso, a descrição de Jesus é assim tão fantástica.

     A estrutura em si, da pessoa, com 1. "cabeça e cabelos brancos", 2. "vestes talares", com um 3. "cinto de ouro" que o cingia, representam: 1. cabeça e cabelos brancos,  a coeternidade com o Pai, o "ancião de dias" de Dn 7,13; 2. as vestes sacerdotais, por ser Jesus, junto a Deus, o sumo-sacerdote de nossa fé, Hb 7,25-27; e 3. cinto de ouro, a realeza e presença nos céus, como superior a todos os poderes que existem, Ef 1,19-23.

      Olhos como chama de fogo, por Jesus co-pactuar com o Pai seu atributo de onisciência, que lhe permite conhecer tudo a respeito de todas as igrejas. A espada afiada de dois gumes que, estranhamente, sai de sua boca, representa que, em Jesus, sua palavra tem o mesmo peso e valor do que a de Deus: Jesus é o Verbo de Deus, Jo 1,1. 

       E quanto a sua voz ser "como de muitas águas", refere-se ao impacto de ouvi-la, tratando-se da autoridade que trazia consigo. Os pés como "bronze polido", referem-se à estabilidade de seu reino, em tudo diferente à da estátua que representa reinos humanos, e que vai se esboroar, que aparece em Dn 2,41-45. Quanto ao rosto "brilhar como o sol na sua força", Jesus inteiro é profetizado como o "sol da justiça", em Ml 4,2.

       A reação de João, diante desse quadro, ao vê-lo, foi 1. "cair como morto aos seus pés". Mas sente que pousou em seu ombro a mão direita de Jesus, na visão: 1.1. identificando-se; 1.2. comissionando o apóstolo, com intrepidez, "Não temas", para a sua urgente tarefa; e 1.3. fornecendo-lhe explicações sobre a própria visão: 1.3.1. "Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive"; 1.3.2. "Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos"; 1.3.3. "E tenho as chaves da morte e do inferno".

       E, como já expresso na introdução do livro, Jesus passa a conceder a revelação que o Pai lhe concede: 2. "Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas", que serão enviadas às igrejas e, como primeira informação do cenário dessa autoridade para com as igrejas, a indicação de que: 3. as sete estrelas na mão direita de Jesus, na visão, são os "anjos das sete igrejas", entendidos como os pastores de cada uma delas, e os "sete candeeiros", como sendo propriamente as sete igrejas. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O Apocalipse nosso de cada dia - João, o revelador - Parte 4

      João assinala quando, onde e como se iniciou o processo da revelação de que foi objeto. Em Patmos, ilha do mar Egeu, 55 km a sudoeste da Turquia, com uma área de 34,5 km².

    Apresenta-se aos destinatários como "companheiro na tribulação, no Reino e na perseverança em Jesus", por se achar na ilha "por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus". E 'companheiro de tribulação", referindo-se aos irmãos de fé, porque a igreja estava sob perseguição nesse período do império romano.

     Esse modo de dizer revela que era prisioneiro exilado, talvez entre 91-96 d. C., no período do imperador romano Dominicano. Foi quando num domingo, indicado por ele como "dia do Senhor", descreve "achei-me em espírito", situação em que, conservada a sua lucidez, vai se encontrar numa condição estática em que assinala, sucessivamente, as visões que lhe são concedidas. 

     A primeira delas é determinante para o contato com as igrejas, porque na forma como lhe aparece Jesus, estão reunidos um conjunto de símbolos definidores de sua autoridade, que vão se desdobrar no modo como vai se apresentar a cada uma delas. 

     Antes de descrevê-las, é importante saber alguns pormenores de seu efeito. Vamos numerà-los, para facilitar a compreensão:

1. Não são exatas, quer dizer, literais, com existência concreta no mundo real ou ainda no "mundo espiritual". São etéreas, ou seja, sem que sejam reais, têm um valor simbólico verdadeiro. Hoje podemos dizer que eram uma "realidade virtual";

2. Os destinatários do livro estavam familiarizados com elas. Se João as descreve e Deus, por meio delas, indica ao apóstolo verdades que deseja transmitir, por meio de Jesus, à igreja, significa que eram um meio fácil e direto, ao mesmo tempo que fascinante, para a sua compreensão;

3. A literatura ou linguagem apocalíptica era muito comum naqueles dias, tendo surgido séculos antes, como, por exemplo, quando a vemos no Antigo Testamento, portanto era bastante conhecida e explorada. O Apocalipse de João surgiu, em meio a muitos outros não canônicos, isto é, não pertencentes à Bíblia, para marcar presença, destacando-se de todos os outros como autêntico, concedendo um referencial seguro à igreja e transmitindo sua mensagem num modo familiar aos seus destinatários. 

     A primeira cena que João presencia descreve um personagem transitando entre 7 candeeiros, cujo aspecto se assemelha a um "filho de homem". Esta expressão é muito utilizada no AT, como em Dn 3,25, em 8,15 e em Ez 9,3. Trata-se de uma antecipação profética do perfil da pessoa de Cristo, autenticamente filho de homem, ao mesmo tempo que Filho de Deus, como obteve resposta Maria, ao indagar como seria o milagre de sua gravidez, ver em Lc 1,34-35.

      Ele chama a atenção de João, a partir do momento em que este se vê no contexto da visão, de modo audível, com "grande voz como de trombeta", atrás dele, ordenando que escreva o que vir num livro e o envie às sete igrejas da lista dada a seguir. Essa voz e essa ordem o fazem virar-se, para ver quem lhe chamava. E uma vez girando sobre si, vê 7 candeeiros, cada um deles representando uma das sete igrejas, e o próprio "filho de homem" em meio aos candeeiros.

O Apocalipse nosso de cada dia - Jesus: o primeiro a pregar o evangelho de Deus - Parte 3

    Pregar o evangelho sem contextualizar a mensagem, como Jesus o fez, dissocia-o do seu efeito principal de advertência. Em Mc 1,14-15 Jesus, o primeiro a pregar o evangelho, fez contextualizando a mensagem.

      Ele inaugura a Era do Apocalipse, porque afirma: 1. "O tempo está cumprido"; 2. "O reino de Deus está próximo"; 3. "Arrependei-vos e crede no evangelho". Esses três tópicos não se dissociam. 
     
     Daí a contínua advertência de que o livro todo é símbolo, já expressa na primeira bem-aventurança das 7 que aparecem no livro: 1. "Bem-aventurado", ou seja, pleno de bênção, afortunado e cheio de toda a alegria; 2. "Quem lê, ouve as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas", como em Dn 12,4, para esquadrinhá-las e se tornar sábio; 3. "Pois o tempo está próximo", eco e refrão das palavras de Jesus, na primeira vez que pregou o evangelho.

      A seguir, João se identifica, referindo o destinatário específico a quem envia as sete cartas e todo o livro, "João, às sete igrejas da Ásia", num kit dos fins dos tempos, e "da parte dAquele", ou seja, Quem é o remetente: "Aquele-que-é-que-era-e-que-há-de-vir", e mais, mencionando ainda os "sete espíritos que se acham diante de seu trono", modo de representar o Espírito Santo, em sua posição de intimidade em relação a Deus e como expressão de sua revelação aos homens, como nos informa 1 Co 2,9-10.
 
      E ainda na introdução, apresentando-nos esse Jesus e a parte íntima de sua relação conosco, João indica a seu respeito: 1. "Aquele nos ama", sua característica principal, que também o iguala ao Pai; 1. "Pelo seu sangue nos purifica dos nossos pecados", sua missão principal; 2. "E nos constituiu reino e sacerdotes para o seu Deus e Pai", a missão principal de igreja. 

       E termina esse trecho de apresentação detalhada de quem é Jesus, indicando a principal temática e propósito do livro: advertir sobre a volta de Jesus, auspiciosa para uns: "Vem com as nuvens, e todo o olho o verá", como advertiram os anjos em At 1,11; e desastrosa para outros: "...até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele", em referência aos que não acolhem a palavra de Jesus, Jo 12,47-48.

   Mais do que confirmado: "Certamente. Amém". E, a seguir,  João expressa a legenda de quem lhe dá autoridade para dizer o que está dizendo, transmitindo a revelação que recebeu do Pai. E, nessa legenda, João Apóstolo o indica com identidade única com Deus, que é o único que tem tais atribuições.

        1. "Eu sou o Alfa e o ômega"; 2. Diz o Senhor Deus"; 3. "Aquele-que-é-que-era-e-que-há-de-vir"; 4. "O Todo-poderoso". Aqui, João se refere a Jesus. Se não é o próprio João quem o diz, como alguns comentaristas gostam de dizer, negando ao apóstolo a autoria do Apocalipse, alguém o está imitando ou estudou na mesma escola. 

      A seguir, a indentificação do correio, João,  o estafeta que vai transmitir o recado de Jesus às igrejas, indicando circunstâncias e época da tarefa de que foi incumbido.

O Apocalipse nosso de cada dia - O Apocalipse começa - Parte 2

    O Apocalipse começa já indicando ser revelação, apocalipse, de Deus. Não existe nenhum outro que revele. Segue dizendo que Deus a deu a Jesus. Não existe nenhum outro que possa recebê-la.

    Então Jesus, por meio de seu anjo, vai repassar a João, para que ele repasse à igreja. Não existe nenhum outro destinatário para a revelação de Deus. 

    O anjo será o cicerone de João Apóstolo por todas as cenas do livro. Lá no final, na conclusão, que é necessário linkar com esta introdução, João e o anjo de despedem, dando este por encerrada a sua tarefa. 

      Na introdução, ainda, depois de definir a natureza de revelação que enseja o livro, João vai se apresentar como legítimo portador da notícia e vai apontar a principal personagem do Apocalipse: Jesus. 

      Se na leitura do livro se perde essa principal indicação, desaproveita-se qualquer coisa dita. "João às sete igrejas da Ásia", por que Ásia e por que sete? Um dos símbolos reconhecidamente mais comuns em seu uso era esse número. 

     As cartas e o próprio Apocalipse são para todas, para a totalidade das igrejas, são para a igreja de Cristo de todas as épocas. Daí, focar nas "sete igrejas". E Ásia, porque era um circuito que se destacava como se fosse uma vitrine, geograficamente, no contexto do Mediterrâneo, em torno do qual situava-se o mundo inteiro da época.

     O ministério de Paulo em Éfeso, assinala Lucas, nos Atos dos Apóstolos, foi oportunidade de que "todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor", At 19,10. Essa abrangência permite que cartas sejam endereçadas a essas igrejas, tomadas como padrão representativo de toda as outras em todas as épocas. 

      Jesus, da parte de quem João (e qualquer autor bíblico) fala, é a Fiel Testemunha, o Primogênito dos Mortos e o Soberano dos reis da terra. Não precisa dizer mais.

      Jesus é Testemunha de Deus, "expressão exata do seu ser", Hb 1,3 e Testemunha do evangelho. A missão da igreja é ser testemunha de Jesus, até a volta dEle, At 1,8. Jesus é o Primogênito dentre os mortos, porque é o primeiro e único ressuscitado, como vencedor da morte e do pecado, que trará consigo todos os que crerem nEle, Cl 2,11-15.

      E Soberano sobre os reis da terra, porque desde a profecia de Isaías, Is 52,13-15, há uma advertência para que os reis da terra prestem atenção, porque um maior do que todos se avizinha. E Paulo diz aos Efésios 1.19-23, que Deus colocou Cristo acima de todas as coisas e o deu à igreja. 

     Esse é Jesus, a quem João apresenta, a chave de entendimento para a compreensão do Apocalipse. A seguir, João expõe, sobre Jesus, a parte que, em relação a Ele, nos diz respeito de perto e anuncia a temática principal do recado que segue com o livro: "Eis que vem com a nuvens, e todo olho o verá".