quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Necrópole - IV

    Raul achava, por fim, que sim, vinha ali para encontrar-se com o pai. Naquela paisagem, naquele silêncio, naquela paz. Raciocinando sobre isso, foi que, certa vez, a irmã havia perguntado. Tu vai ao cemitério por causa da saudade de papai, é? Não. De estalo respondeu. E se for, emendou?

      Eram práticos, os três, a mãe, a irmã e o menino de 15 anos. Os dois filhos sabiam que haviam herdado dos pais toda essa praticidade. A relação do casal era prática. No sentido da resolução dos problemas mais intrincados, quando surgiam, entre os dois. Não no sentido da superficialidade. Não havia superficialidade entre eles. Ora bolas, diria a avó. Não havia, digo eu. Ponto.

       Ele deduzira que não precisaria ir a cemitério nenhum, principalmente ao que ia, para rememorar o que fosse. Mas ia, e estava acabado. A irmã não mais o importunou. Certa vez, viu a mãe chorando. Era um dia de chuva. Limpava as lágrimas. Ele se abraçou a ela. Ela lhe segurou os braços que a enlaçavam. Papai faz muita falta, ele disse. Pois é, ela falou. Para isso, ele não nos preparou.

     O menino queria dizer que ele os havia preparado para o que acabou por ocorrer, quer dizer, sua partida precoce. Mas para a falta que fazia, não tinha como. A mãe agachou-se e se abraçaram um ao outro. Raul era um homem raro. Você já visitou lá a cova dele, mãe? Não. Não é preciso, ela disse. Você quando vai lá, visita? Não, mãe, não é preciso. Riram os dois. 
      
      Um dia, à mesa, enquanto a mãe se servia, perguntara ao marido: o que você faz indo tanto a cemitério? Não vou tanto, ele disse, vou num só. A mãe fez cara de deboche. Ele riu. Sim, mas para fazer o quê? Andar, meditar, ver, observar. Falou aasim pausado. Parecia olhar através. Que mania besta. E para que leva o menino? Para que se acostume com o lugar onde, um dia, vamos todos estar. 

      Achavam no pai essa única excentricidade. Parceiro dele era o filho. Evidente que não associava à mania do pai qualquer despiste e não se esperava que fosse preparação para desfecho trágico. Nenhum deles assim interpretava, senão o menino. E nisso era intuitivo. Talvez fosse essa a razão por que, frequentando ainda o campo, poucas vezes se avizinhasse do túmulo do pai.

      Excentricidade. Toda a família absorveu igual a perda. Afagaram-se e se uniram em torno do colapso. É claro que a personalidade dele ajudou. E, no final das contas, sua intimidade com jazigos, tumbas e mausoléus, no campo dos idos, acabou por ajudar. Diante da morte, mesmo que diminuto, qualquer conforto ajuda.

      Mas não era o caso da família. Porque ele os preparara para qualquer trauma. A vida que viveram era um dom. Viviam uma vida que incluía o preparo para a morte. Não que fosse assim compassiva. Morte é sempre morte. Mas a intensidade com que viviam, compensava o incompensável.

     E todos os três lembravam que, em função disso mesmo, a morte dele foi menos dolorosa. Ficaram juntos o tempo todo. As pessoas vinham e os consolavam. Havia muitos amigos. Havia muitos parentes. Ele era um gerente de lojas. Seu jeitão o tornava essencial para a rede, amável com todos os colaboradores e clientes. Um achado para os patrões e chefes imediatos. 

     Sua genialidade, bom humor e criatividade eram seu principal trunfo. Meio atlético, futebol todo finalzinho de semana. Sexta à noite. Sábado e domingo eram exclusivamente da família. Shopping e piscina. Não necessariamente nessa ordem. Um dia, um tio convidou para irem a uma igreja. Era simpático a qualquer proposta familiar. Bastava representar agregação.

Necrópole - III

      Fascinara Laura. Mulher, de si, perspicaz, que poderia ter sido ou nascido desligada, como sua mãe, que era pessoa boníssima, mas desprovida de malícia, urgia ser como Jesus diz no Evangelho, "prudente como serpente, símplice como pomba", mas Meridiana era só símplice. Laura não.  Aprendera toda a sua sagacidade com o pai, filha única que fora. 


     Divertiam-se os dois, ela e o pai, Virgílio, com a distração inata da mãe. Mas, vigiada pelos dois, nunca se comprometeu por causa de sua inocência. Também, a época ajudava. Os contraventores do tempo eram românticos, muito diferente da malícia atual, pernóstica e cruel. Por causa dessa herança do pai, arguta, meticulosa e observadora, que Laura, uma única vez tendo posto os olhos em Raul, viu nele sua alma gêmea, por favor, aqui, mais uma vez, advertido ser força de expressão, nada místico. 

      Estavam no pré-vestibular, coisa daquele tempo. Laura já havia observado Rual, fala macia e silenciosa, como se fosse, em meio ao grupo barulhento de amigos, um ente à parte. Não entendia, ao mesmo tempo que passou a entender como que podia todo aquele refinamento de porte no meio de toda aquela algazarra e puerilidade.

     Mas de longe apreciava o modo como Raul geria tuďo a sua volta. O modo como interferia. Como ele ria. O sorriso dele era desenhado, calculado, como que se cada traço do produto final, do esgarçar final, completo, cada traço fosse estudado, meticulosamente, por um desenhista, um artista, alguém de fora, isso, o sorriso dele era como que um desenho de artista naquele rosto. E que rosto!

    Foi raciocinando assim que, pela primeira vez, ele cravou nela o olhar. Mostrou-se assustado. Ela embranqueceu e suou frio. Ele então, modulando para um meio sorriso, lábios entreabertos, deslocou-se do grupo e caminhou na direção dela. Olhos dele cravados no olhar dela que, ainda que tomada pelos humores de todas as emoções, por causa do flagrante de ter sido enquadrada por ele com olhar fixo nele, manteve seus olhos cravados no dele, como estratégia, desafio e defesa.

     Com licença, disse ele. Deslocara-se do espaço externo da sala, para entrar pela fileira de cadeiras, dessas de um só encosto para o braço, de antigamente, nos cursinhos pré-vestibulares. Pois não, fique à vontade. Sentou -se. Como é seu nome? Laura e o seu. Raul, muito prazer, disse estendendo a mão. Máscula, como o rosto, e enorme, não que fosse tão alto, quase que alguém poderia até considerá-la maior do que ele: não era. Ele era uns 2 cm mais alto.

      Ela olhou a mão antes de a tocar no aperto. Herdei do meu avô, disse ele, bem, assim dizia minha mãe. Eu não conheci meu avô. Ela assustou-se, como que se lhe adivinhasse o pensamento, observador, ela já sabia que ele era, não deixou de se arrepiar, muito de leve, porque junto com a observação do tamanho da mão, ela havia se imaginado totalmente tocada, tactilmente, por ela.

       Pensou que pensamento ele não poderia ler. Manteve o mesmo olhar. Você é observador. Nem tanto, custei a notar você, ele disse. Tocou um sinal. Movimentaram-se para entrar. Tem alguém aqui? Sempre tem, ela disse.  Sim, era muita gente, para pouco espaço. Sexta. Único dia de aula de Química. Ele reparou que não havia material especificamente naquela carteira ou, à volta, que caracterizasse ocupação. 

     Posso ficar aqui? Ela olhou sem alterar seu rosto. E o seu material? Acompanho com o teu. Olhou de novo, mantendo a mesma expressão neutra. E Laura copiava e anotava. Ele, sinceramente concentrado, acompanhava as explicações, qualquer hesitação de Laura ele interferia, explicando, olhavam-se de vez em quando, e assim foi. Não pararam mais de sentar-se juntos, já sorriam um para o outro, foram se tornando íntimos, andava mais com ela do que com o grupo, até o dia do primeiro beijo. 

      Ele demorou ali mesmo, dentro da sala, sentados juntos, com o dedo nas anotações dela, olhos na explicação do professor, aqui, ele disse, isso aqui que ele tá falando, ela olhou para a lousa, ainda de giz, naqueles idos, olhou para ele, olhou, nas anotações, para onde ele apontava, olharam-se de novo, desta vez, ela como que num sobressalto, prevendo, nessa demora de se encarar, ele ainda com o dedo nas anotações dela, indicando o lugar da dúvida, avançou de modo suave, alcançou os lábios dela, beijaram-se, ali mesmo, dentro da sala do cursinho, bem umidamente, fechando os olhos, nem muito e nem pouco tempo, mas o suficiente para perder a explicação do professor.  

Necrópole - II

       Naquela manhã sentado na tumba costumeira, embaixo da árvore que a abrigava, contemplava toda a extensão, até onde os olhos alcançavam. 

      Como se fossem domínios íntimos, reconhecia os estratos de ocupação de todo aquele espaço. Conhecido dos funcionários, sabia de todas as quadras, desde o sítio ocupado por restos de covas de escravos, pretexto de um cemitério ali, passando pela aristocracia do século seguinte, cantores famosos e artistas que se seguiram, até os menos interessantes por serem mais recentes e, por isso mesmo, desprovidos da criatividade, simbologia e arte dos anos idos.

     A parte preferida por ele era essa dos jazigos simétricos. A árvore era uma amendoeira imensa, pela expessura do tronco e altura da copa, quase centenária. Não sabia se vinha ali para se sentir próximo do pai, se bem que as memórias que nutria ali nem sempre se referiam a ele, com quem fora muito colado. Despertava até certo ciúme da irmã, crivo da mãe e observação atenta da avó.

     Mas sem dúvida sua presença ali tinha relação com o costume herdado. Era como que seu domínio. Tudo ali era conhecido por ele. Vielas, caminhos, pássaros, os micos eventuais nas árvores, os cahorros vadios, aos quais alimentava e batizava com nomes, a atividade e turno dos funcionários, incidência maior e menor dos féretros, bem como o seu nível social, religião, estilo típico e expressividade dos lamentos, enfim, conhecia tudo dessa cidade.

      Não procurava esse expediente. Mas sua ida eventual, sem que para isso houvesse previsibilidade, o fazia esbarrar, vez por outra, com toda a rotina. Observava de longe. Nessas horas era como se, no íntimo, viesse a imagem do pai. Era uma espécie de diálogo com ele, entenda bem, nada de místico aqui, que não que somente descobria um ponto de identificação ou, mais uma vez, vislumbrava os mistérios que envolviam sua memória do velho, numa maneira de se encontarem novamente. 

       Que não morrera velho. Casado aos 28, com sua mãe, dois anos depois nascera Rauana, mania de tentar assemelhar o nome da menina com o nome dele, quatro anos depois nascera ele, tinha 15, o pai morrera quando ele tinha 12, então, pela matemática antiga, como o pai dizia que o avô dizia, morrera aos 47 anos. Infarto fulminante. 

     A história que Meridiana, mãe da mãe, que morava com eles, contava era que ele tinha, na família dele, antecedentes com esse mesmo problema, diz que por parte de mãe, contava a avó materna a respeito das coronárias da avó paterna. Mas, ora bolas, costume frequente da avó mencionar, divertidamenete imitado por Rauana e Raul, "ora bolas", ele não se cuidava, ele nem ligava, não dava atenção ao que os próprios pais deles diziam, comentava, enfaticamente, a avó. 

     Tá bem, mamãe, tá bem. Já sabemos disso.  Ela não gosta que eu lembre isso, comentava, a respeito da filha. E acabava ali a conversa, apenas com mais um "pois é" da avó, que dizia arregalando olhos para um dos lados, homilética. Era uma família na qual todos reconheciam a economia da fala. Aliás, costume implantado pelo Raul.

    
       

      

Necrópole

   

        Uma brisa suavisava um brilho opaco do sol, nu'a manhã não tão quente de primavera, sobre a extensão dos jazigos, naquela quadra, dispostos simetricamente, como enormes tijolos maciços emergindo do chão, desenhando alamedas precisamente delineadas, a grande maioria deles com lápides de mármore negro bem polidas caracterizando, naquele ponto da enorme necrópole, uma fase bem definida no tempo de ocupação, exatamente pela exata semelhança deles todos entre si.

      O menino costumava vir sempre ali. Aliás, nem tanto menino, pois tinha lá seus 14 anos, corpo e compleição de 16, maturidade ainda mais à frente. Casa regida por mulheres, morava com avó, mãe e irmã maior, talvez fosse mesmo a mente precoce herdada do pai, que o fazia assim ter projetado para além de si o físico, o metafísico e o psicológico. Raul. O nome do pai. Aliás, não por coincidência, ali estava sepultado o primeiro Raul. 

       Nem tanto por isso, porque não estava próximo ao túmulo do pai. Era noutra parte, porque ali onde estava era o lugar no qual, de quando em vez, vinham os dois para as conversas, muitas outras do que somente as fúnebres, embora a visita, a pretexto, era didática, dizia o pai, para preparar o filho para aquela realidade, dizia ele. Nem tanto, porque seriam desnecessárias tantas e tão frequentes vindas, pois mais do que preparado o menino já se sentia. 

      E um dia havia argumentado exatamente assim com o pai, quando percebeu que a fluência dele nas conversas, a intimidade com as diferentes quadras, alamedas e jazigos, a visita às outras alas daquele campo santo, com as menções, por exemplo, ao mausoléu dos Alencastro, ali, dos Schneider, aquele mais antigo, dos Gouveia de Sá, esse mesmo aí, defronte de você, tudo arquivo seletivo de nenhuma visita anterior com ele, certamente de outras jornadas anteriores, com mais certeza ainda várias e muitas outras visitas anteriores. 

     O vô te trazia aqui? Não! Repondia o pai enfática e frisadamente. Não, absolutamente. Seu avô tinha um medo inconfessável da morte, sentia-se arredio a cemitérios, poucas vezes o vi em sepultamentos, fossem de parentes ou amigos íntimos. Não faltou ao de sua avó, com certeza, porque nesse eu vim com papai, e no dele mesmo, evidentemente. Fora isso, pouquíssimas vezes. 

      Então de onde vem esse seu apego por visitas a cemitérios? Perguntava ao pai ainda muito cedo na idade, porém já veterano nas visitas. O pai olhou para ele com olhos arregalados, como a surpreender-se com a lógica da indagação, para logo, refeito, responder não sei, nunca soube.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Jornada Teológico-Natalina 4 - Pecado individual e estrutural

      Definição de pecado é categoria bíblica.  Essencial para definir, como ficou claro no texto anterior, a necessidade primordial do homem de se converter, na relação com Deus. 

      Exatamente por causa do pecado, como o define as Escrituras, é que o homem necessita, no ato de sua conversão, aliás, o que a torna efetiva, sua morte/ressurreição em Cristo, ou circuncisão pela mão de Deus ou novo nascimento. 

      Paulo Apóstolo afirma, na sua Epístola aos Romanos: "todos pecaram e estão destituídos (ou carecem, dependendo da versão e tradução) da glória de Deus". O Deus da tradição judaico-cristã criou o homem a "sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou".

     Na conversão a Deus, são restituídos a sua condição perdida antes da queda. "Queda", como referencial teológico, está registrada na história do mito fundador, quando Adão e Eva, uma vez tendo desobedecido ao Criador, herdam o inverso de sua condição humana, destituídos da imagem e semelhança de Deus. 

      A partir de então perdem a opção de uma natural comunhão com Deus, passando a uma história de rebeldia, que afeta sua relação com Deus, a si próprios, e a relação com o outro. O pecado, como definido nas Escrituras, desagrega a relação com Deus, do homem consigo mesmo e dele com o outro.

     Portanto, o efeito do que vemos quando identificamos, no ser humano, operante nele uma força autodestrutiva, assim como destrutiva na sua relação inter-humana, é idicativo da mesma relação destrutiva com Deus, à qual a Bíblia define como pecado. 

     O Deus da tradição judaico-cristã se empenha, em Pessoa, para salvar o homem/mulher, criados a Sua imagem e semelhança, dos efeitos destrutivos do pecado. Só Deus, pessoalmente, pode realizar, por ato soberano dEle essa salvação. 

      Na tradição judaico-cristã, nas Escrituras, homem e mulher, criados à imagem e semelhança de Deus, não foram feitos para morrer. A morte é prescrita ao ser humano, antecipadamente avisados dela, como efeito imediato de sua desobediência ao Criador, seria por efeito e como antídoto ao pecado. Porque homens e mulheres defuntos não pecam.

      Homens e mulheres defuntos cessaram sua relação consigo mesmos, com o outro e, suposta e irremediavelmente, com o Criador. Portando, não mais pecam. Estão mortos. Mas a proposta das Escrituras é anunciar que há salvação para essa condição. Já afirmamos, em texto anterior aqui publicado, ser essa a principal mensagem das Escrituras.

       Em sua definição de pecado, as Escrituras ilustram certas situações que aqui vamos enumerar, num tour por suas páginas, porém não todas, evidentemente, mas algumas suficientes para que fique definido o que é pecado e, consequentemente, entendida, com propriedade, a principal função do Altíssimo, assim definida nas Escrituras da tradição judaico-cristã, qual seja, de início e prioritariamente, salvar do pecado homem e mulher criados a Sua imagem e semelhança.

       Logo na história do primeiro casal, quando o autor do texto enuncia o diálogo preventivo entre Deus e o homem, este fica, solenemente, avisado de que, hipoteticamente, imediatamente após desobedecer a ordem que lhe foi dada, certamente morreria. Linhas adiante, quando o autor enuncia o diálogo da mulher com a serpente, que aqui representa o Tentador, este afirma a ela: é certo que não morrereis, ou seja, nem ela e nem o homem. 

      Aqui, então, na economia deste texto, define-se a primeira característica do pecado: ele é o inverso da palavra de Deus. Se Deus diz "certamente morrereis" e a serpente, personificação do Tentador, diz "é certo que não morrereis", pecado é sempre o inverso do que Deus diz.

      Logo a seguir, na história de Caim e Abel, este assassinado pelo irmão, as Escrituras indicam outras características do pecado, desta vez expressas pelo autor do texto na conversa entre Deus e o assassino, antes do ato perpetrado, quando Deus faz  duas afirmações a Caim a respeito do pecado, essenciais ao trato com ele e sua definição: 1. É um desejo contra o ser humano; 2. Ao ser humano  cumpre, ou seja, sobre ele pesa a obrigação de dominar.

      Em nosso tour pelas páginas do Livro, uma vez já sendo prevenido que não será exaustivo, porém também não menos elucidativo e exato para a definição de pecado nele expressa, vamos às palavras de Jesus no evangelho de Marcos, quando ele afirma que, nada fora do homem contamina, mas de dentro do ser humano "procedem os maus desígnios".

      Interessante essa afirmação de Jesus pois, se a humanidade fosse exterminada, restando o que, ironicamente, chamamos animais irracionais e a natureza, sem a presença do animal racional e "top de linha" da evolução, o ser humano, todo o planeta, entregue à boa sorte da natureza e dos animais irracionais, não ocorreria nenhum risco de extinção: não haveria, por exemplo, nenhum risco de poluição degradante do meio ambiente ou guerras nucleares apocalípticas. Não  haveria oceanos estupidamente poluídos e florestas destruídas, assim como jamais existiriam as extensas listas de animais extintos ou em risco de extinção.

       E vale lembrar também a lenda genial sobre a Torre de Babel. Em oposição à orientação de Deus para que ocupassem o solo de modo inteligente, espraiando-se e interligando-se à natureza, mas, ao contrário, juntaram-se e inventaram a primeira cidade e, consequentemente, a primeira torre. Com a cidade, tudo o que as modernas metrópoles apresentam, agravado exatamente pela ocupação desregrada do solo, seus tamanhos absurdos, a poluição de rios e igarapés, derrubadas de matas ciliares, periferias e falta de saneamento, enfim, pérolas como resultado do chamado "pecado estrutural".

      Porque de dentro, do coração do homem (genericamente falando) é que procedem os maus desígnios. Portanto, os males que afligem a humanidade são decorrentes da condição humana, em suas relações consigo mesmos e com o outro. À medida que tais relações se tornam cada vez mais complexas, o ser humano carrega consigo no intrincado e ilógico dessas relações o seu próprio e individual pecado. A seguir, mais algumas definições de pecado, na continuação do tour pelos dois volumes da tradição-judaico cristã de escritos.

      Paulo Apóstolo caracteriza pecado como algo que, "para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno". Dois aspectos aqui apontados pelo apóstolo acima aqui mencionando: 1. O pecado, em sua constituição, sempre toma ocasião por meio de "coisas boas"; 2. O que denuncia o pecado como sobremaneiramente maligno é o mandamento. 

     Em sua sublime argumentação, Paulo enuncia que jamais haveria mandamentos para bons. Claríssima dedução. Porque os "Nãos", entre os 10 mandamentos, por exemplo, que indistintamente se aplicam a quaisquer de todos os seres humanos, são previdentes de desvios possíveis a qualquer um (e uma, caso exijam essa designação).

      E, por falar em mandamento, Jesus subiu o grau. Ao de "Não matarás", Jesus elevou ao nível da intenção onde, sem nenhuma dúvida, nascem todos os homicídios. Por isso o Mestre ilustrou, exemplificando que, se alguém chamar o vizinho de "Raca", "Tolo", já sujeita quem o fez à jurisprudência dos infernos. E o Mestre também elevou o grau de cobiça à intenção, no escondido, por detrás da máscara social, caso alguém olhe com intenção impura para uma mulher. Seria o "adultério no coração" onde, efetivamente, todos eles começam. 

      Voltando à brilhante definição de Paulo, tudo é bom, fora do homem, como Jesus já havia indicado. Mas o pecado, para revelar-se, insofismavelmente, como pecado, toma ocasião e perverte o que é, essencial e idealmente bom, num uso que condena o ator. Por exemplo, se quisermos retornar ao mito primordial, o problema não residia na degustação do "fruto proibido", mas em aprender a dizer "Não", quando Deus diz "Sim", ou vice-versa, dizer "Sim", quando Deus diz "Não".

      Por exemplo, vamos afirmar aqui, retomando o termo acima mencionado, "pecado estrutural", o modelo de relação que, oportunamente, tem lugar na estrutura das modernas metrópoles, a relação que se estabelece dentro dos aglomerados sociais, por todo o mundo, as relações econômicas entre as nações, o mercado e suas regras, enfim, tudo o que está relacionado ao dinheiro e ao poder político.

       Vamos usar "dinheiro", o papel moeda (já obsoleto, por causa dos expedientes digitais), a não ser no Brasil, para ser oculto nos aps ou dentro das peças íntimas, mas vamos citá-lo como exemplo de, se não algo bom, mas um expediente inteligente nas relações sociais, que substituiu o escambo e as moedas e pesos de ouro. Vamos indicá-lo como bom. Seria, então, inteligente afirmar, como se expressa na 2a Carta a Timóteo, seu autor, dizendo que o "amor ao dinheiro é a raiz de todos os males"?

       Pela regra de Paulo, coisa boa, externa ao homem e portadora de valor venal: dinheiro; coisa ruim, interna, própria e arraigada no ser humano: o pecado de amor ao dinheiro. Consequência: todos os males. Poderíamos, então, definir como "pecado estrutural" aquele que nasce das relações sociais injustas, turbinadas no contexto das sociedades modernas, assim como  as relações entre elas, tipificadas nas relações internacionais e consequentes injustiças decorrentes dos desequilíbrios assim verificados.

      Isso não quer dizer que nossos ancestrais, antes que residissem em modernas metrópoles, já não se destruíssem entre si por sua ganância herdada dos antepassados deles. Não existe nem o bom selvagem, assim como nunca existiu o bom escravo, o bom nômade ou o bom sedentário pastor ou agricultor. Não existe o bom opressor, mas também não existe o bom oprimido. Porque todos pecaram e ainda pecam. As relações humanas progressivamente se intrincaram, ao longo da história da humanidade, diversificando-se e se tornando cada vez mais complexas.

      Mas o pecado individual e seu desdobramento em suas relações, desde os irmãos Caim e Abel, como reflexo da não atenção à advertência divina, desdobrou-se e especializou-se, diversificando seus efeitos de maneira catastrófica e permanente em todas as relações humanas. E as Escrituras da tradição judaico-cristã são a única que lhe definem natureza e dano, indicando uma única Pessoa que lhe conceda, definitivamente, a cura. E, não por coincidência, no Livro, o agente dessa salvação é o Deus dessa referida tradição e dessas referidas Escrituras. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Jornada Teológico-Natalina 3 - Na suposição de um (D)deus à nossa imagem e semelhança

       Uma outra pergunta, em minha falsa modesta suposição, seria: que Deus queremos? Que homem somos?

     Ora, longa jornada nos separa e nos conduz já ao longo de uma extensa história, desde a era áurea da filosofia grega e suas revisões sucessivas, incluída sua redescoberta no Renascimento, todo o legado da modernidade e até da pós-modernidade

      Impossível que não tenhamos, atualizada, uma versão, pelo menos hipotética do homem ideal que queremos para este século. Sem contar o engajamento de múltiplos movimentos emancipatórios, de cunho social e político, reivindicando que seja veementemente rechaçado tudo o que pode contribuir para o aviltamento da condição humana.

     Portanto, temos um perfil de homem/mulher emancipado(a) no presente século, ainda que haja plena necessidade de que, em nenhum momento, haja descuido na vigilância e, por que não dizer, na militância necessária para que sejam preservadas todas as conquistas. 

      O homem/mulher que somos, o homem/mulher ideal que queremos está, mais do que poderíamos supor, plenamente reconhecido e definido. Falta-nos, evidentemente, para os que supõe possível que assim, efetivamente, ocorra, definir o Deus que queremos. E revela-se problemática essa definição, porque se for o Deus das Escrituras judaico-cristãs, de cara, para usar este termo, Ele requer conversão, para lidar no cara a cara com esse homem/mulher. 

     Portanto, elas supõem a existência de um Deus que, no contato a que se propõe com o homem/mulher, há a exigência de que se convertam a Ele. Converter-se ao Senhor é uma categoria bíblica, tanto do Antigo, quanto do Novo Testamento, unidades que perfazem as Escrituras, em sua concepção cristã. 

      Trata-se aqui da tradição judaico-cristã, tão escorraçada, quanto não compreendida ou irresponsavelmente interpretada. Desculpem, mas nela consta uma referência a um Deus ou ao Deus que aqui desejamos definir, pura pretensão, ou de Quem ao menos configurar, em tom de provocação, algumas pistas.

      E passam as Escrituras a dizer, seja pelos profetas do Antigo Testamento, seja pelos apóstolos, no Novo Testamento, da necessidade de conversão a Deus. Obviamente, se fica expressa uma necessidade de conversão, é porque a condição humana, anterior a ela, é de não conformidade, interesse ou comunhão com Deus.

      A necessidade de conversão a Deus era advertida pelos profetas do Antigo Testamento aplicada, especificamente, ao povo de Israel e, no Novo Testamento, pelos apóstolos, que passaram a aplicar genericamente, ou seja, tanto ao povo de Israel quanto a todos os demais povos nessa mesma condição.

   Jeremias, o profeta dizia "circuncidai o próprio coração". Esse ritual foi instituído ao patriarca Abraão e consistia em retirar, com uma lasca de pedra, o prepúcio que cobria o pênis do recém-nascido. Como aplicá-la ao coração? Era óbvio que Jeremias estava definindo uma mudança interna de caráter, unicamente possível por interferência divina direta. Esse profeta estava definindo conversão. 

     Joel dizia "rasgai o coração e não as vestes". Rasgar as vestes era uma reação radical, diante de um escândalo que envolvesse uma tremenda afronta, como procedeu o sumo-sacerdote, numa teatral hipocrisia, supondo estar  Jesus blasfemando, ao ter reafirmado sua intimidade com Deus. Rasgar o coração, impossível objetivamente, como provocação do profeta, mas tangível, por ação exclusiva de Deus, foi o modo de Joel definir conversão.

    Paulo Apóstolo, na carta aos Romanos, afirma que "circuncisão é a do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus". Desta forma o apóstolo define conversão, seguindo raciocínio idêntico ao dos profetas: ação divina no ser humano, mas não feita por mãos humanas. Uma cirurgia sem anestesia, digamos assim, por mãos divinas. Vede, pois que, não somente se instala neste texto a pretensão de definir Deus, mas também a indicação de Sua primeira e intransferível ação no Seu contato, seja com o homem, seja com a mulher. 
    
   O primeiro sermão pregado por Pedro Apóstolo no Pentecoste, festa anual, tradicional e internacional em Jerusalém, realizada 50 dias após a Páscoa da crucificação do Cristo, sinalizou para a internacionalização do evangelho quando, pela primeira vez, foi enunciado, após a ressureição de Jesus, e interpretado por tradução simultânea, como milagre do Espírito Santo, a todos que afluíram para ouvir os apóstolos. O final desse primeiro sermão expôs a imperiosa necessidade de conversão.  

      As Escrituras definem um Deus santo, que se revela amoroso e dadivoso, a ponto de se tornar homem, na encarnação do Verbo em Cristo Jesus. Mas, para acolher homem/mulher nessa conversão, opera neles, pelo Seu poder, uma mudança de condição tão radical que a ela as Escrituras chamam, literalmente, morte/ressurreição, circuncisão pela mão de Deus ou novo nascimento. 

     E na interpretação, como aqui já mencionamos que ocorre, da condição humana --- porque as Escriruras são dádiva aos homens, como menciona Esdras, foram prescritas ao ser humano, por isso, como resgatou Martinho Lutero na Reforma Protestante, devem estar na mão e ao alcance de todos ---, pois numa interpretação criteriosa dela, jamais de deve admitir que se considerem apenas "figuras de linguagem" esses três modos acima mencionados do sentido e definição de conversão, quais sejam: morte/ressurreição, circuncisão tangível por mãos divinas ou novo nascimento.

       São literais. Se admitirmos que os escritores bíblicos falam em nome de um Deus em que, sinceramente, creem, então anunciam literalmente que o homem/mulher, a fim de se tornar aptos a obter e manter comunhão com Deus, obrigatória e literalmente devem morrer/ressuscitar em Cristo, ou ter sido circuncidados pela mão de Deus ou ainda ter nascido de novo.
  
   A explicar: essas três descrições das Escrituras apontam para o milagre que somente Deus efetua no homem/mulher que, uma vez interpelados pela mensagem de conversão, essa mesma individualizada aos judeus, no Antigo Testamento, e agora, no Novo Testamento, coletivizada a todos os demais povos, incluídos os próprios judeus, optem por ver em si mesmos, desse modo específico, realizado.

      Todo homem/mulher, uma vez acolhida essa mensagem, interpelados e dispostos a converter-se ao Deus da tradição judaico-cristã, somente se assim, voluntariamente, o desejarem, só o serão se e quando Deus neles ou nelas operar o milagre da conversão.

      A conversão a Deus é livre e opcional, mas uma vez decidida, somente se torna realidade quando e se Deus a opera no homem/mulher que assim o decidir. Quem não deseja para si uma nova matriz como pessoa, segundo é indicado no escopo da proposta de conversão, seja no Antigo, quanto no Novo Testamento, não pense em se converter ao Deus das Escrituras. Assim está posto. 

       A não ser que se queira um deus a sua imagem e semelhança, outra maneira de se supor o que, teórica e praticamente, poderia ser chamado idolatria. Nunca pense em recorrer ao Deus das Escrituras, caso despreze essa condição da conversão, porque esse Deus tem personalidade própria e vai restaurar em você o projeto exclusivo dele para homem e mulher, segundo previamente definido que o faz, nas próprias Escrituras, porque criou homem/mulher  à  Sua imagem e semelhança. 

     Há uma matriz para homem/mulher nas Escrituras, ainda que homem/mulher desejem ser o que quiserem ser. Se a questão for conversão ao Deus da tradição judaico-cristã (e aqui, muito cuidado com o que você já ouviu alhures  --- como gosto deste termo machadiano --- sobre o exato, lato sensu, do sentido e significado de tradição judaico-cristã), somente morto/ressurreto em Cristo, cirurgiado pela mão de Deus ou nascido de novo.

      Fora essa hipótese, não será esse o homem/mulher que as Escrituras definem, nem aquele o Deus por ela indicado. Seja, então, um deus a sua imagem e semelhança.


        
     

Jornada Teológico-Natalina 2 - Fechado para balanço

    Partimos, no texto anterior, da premissa de que, uma vez que se altera a concepção do texto bíblico, como, por exemplo, negar a inspiração verbal-plenária ou dizer que não sabemos dizer se Abraão, Moisés e Davi são personagens históricas, mexemos também na concepção de Deus. 


     Ele vai mudar de personalidade, sua palavra vai ficar cambiável, sem a certeza de que seja ou não autêntica, e os crentes vão mudar sua identidade. Também mencionamos a capacidade de Deus realizar ou não milagres e, uma vez afirmativa a possibilidade, se aqueles descritos na Bíblia podem ser creditados na divina conta.

     Por exemplo, mencionamos Alfons Weiser e seu livro, Os milagres na Bíblia, autor que, por exemplo, desautentica que Jesus tenha ressuscitado alguém, para apenas mencionar a filha de Jairo ou o filho da viúva de Naim, mais absurdamente ainda o pobre Lázaro. Ainda bem que ele autentica o milagre da ressureição de Jesus, pelo menos, senão, sozinho, ele teria implodido todo o Cristianismo. Bem, seria uma proeza e tanto! Já dizia Nietzsche.

     Porque se supomos ser possível que Deus, sim, realize milagres, mas não atribuímos a Ele esses descritos nas Escrituras, há um problema com as Escrituras, que supõe milagres não realizados pelo Altíssimo. Portanto, nessa seleção dos possíveis milagres a ser autenticados ou na impossibilidade de se autenticar qualquer deles, não há então descrição confiável de milagres que o Altíssimo tenha realizado, como dizia meu pai, em Sua "revelação em marcha".

     Seria uma modalidade de idolatria, digamos assim, atribuir a Deus milagres que Ele não fez. Estaríamos agregando a Sua personalidade e ao Seu fazer, coisas que nunca fez. Portanto, longe de nós a Ele atribuirmos feitos que não são, absolutamente, de Sua autoria. Necessariamente, as Escriruras precisam desse saneamento, para usar o termo, despida, desmistificada dessas suposições, em certo sentido, fantasiosas.

     Mas vamos classificar como periféricos esses assuntos e essas questões. Se o peixe engoliu e vomitou Jonas, três dias depois, se o exército de Faraó, realmente, se afogou na travessia do Mar Vermelho ou se Elias, literalmente, subiu num disco voador, como dizia Raul Seixas, diante do olhar de Eliseu. Questões periféricas.

     Vamos focar, numa tentativa de resgatar a Bíblia e a personalidade de Deus, ou seja, o Livro, em seu conjunto, como uma fonte de Sua palavra ou de Sua revelação, verificando se o ponto principal nele focado condiz com sua proposta principal e com a suposta personalidade divina.

     Vamos então partir do centro para a periferia, do foco principal para o desfocado.  Vamos afirmar que as Escriruras têm um ponto central, insofismável, claro e acessível, que deve ser exposto acima de quaisquer outras modalidades de argumento. Podemos afirmar que as Escrituras revelam um Deus puro amor, Salvador que, para cumprir Seu principal desígnio se fez homem, encarnou, e não foi para jogar na cara desse homem/mulher o pecado deles, mas para aceitá-los reconciliados com Ele, numa mesma comunhão que tem com o Filho.

     Tudo o mais no livro seria periférico. Podemos até derivar desse suposto foco principal outros que, do mesmo modo, são essenciais à compreensão dessa mensagem principal como, por exemplo, a definição bíblica de pecado, a definição bíblica de fé, a história da (suposta, sempre suposta porque, afinal, nosso método é científico e não pode deixar de ser) profecia sobre a revelação de Jesus, seu nascimento, morte e ressureição, aqui socorridos por Weiser, que nos garante que ocorreu esse mijagre, pelo menos esse. Diga aleluia comigo, irmão. 

       Nessa gana pelo científico, como o último reduto possível para confirmar o que é autenticamente bíblico, do texto ao contexto, do gênero literário à história, do mítico e do literal, precisamos definir se a autenticidade ou inautenticidade do livro está sujeita à academia ou ao seminário de teologia. 

       Afinal, conceitos bíblicos como fé, pecado e milagre precisam ou não de confirmação da academia secular para, afinal, serem, de modo definitivo e esgotado, em termos epistemológicos, compreendidos? O seminário seria a academia da Bíblia, que a inscreveria, com esses seus conceitos, definitivamente, na galeria e status do conhecimento plausível com o nosso século ou, definitivamente, as Escrituras estão despojadas de identidade própria, mas são um campo neutro e aberto às variadas formas de ciências da academia e, por que não dizer, também aberta às variadas ideologias da história da humanidade.

      Campos diversos e multiformes poderão sugerir infinitas formas de compreendê-la, por exemplo e até mesmo no campo das religiões, no qual se oferece um mercado variado e variadas formas de deuses. Definitivamente, o século absorveria as Escrituras, acomodando-a e atualizando a sua visão, de modo a que, por exemplo, ela até cessasse de, insistentemente, afirmar que, vivo, só existe um Deus, porque todos os outros são falácia, inexistentes, são burla, pura invencionice. 

      Urge por uma Bíblia politicamente correta. Salve-nos a acedemia. A personalidade da Bíblia e, consequentemente, a do próprio Deus estão em revisão. Avisaram isso aos crentes?

domingo, 20 de dezembro de 2020

Jornada Teológico-Natalina

     Vou comemorar 40 anos de bacharelado em teologia no ano que entra. Pelo porte do seminário onde estudei, aliado às tradições eclesiástica e familiar em que fui formado, posso afirmar que dois vieses se configuraram.


      Aquele que provinha dessas três tradições mais conservadoras, que incluíam seminário, igreja e família, e a que tinha seu curso desconhecido por mim, até o inicio da minha jornada, em 1978, mas de marcante e determinante história acadêmica, desde a virada do século XIX para o XX.

       Mais ou menos, vamos classificar como segue, a diferença entre comprar livros na antiga Livraria Evangélica, da UESA, ali próximo ao Campo de Santana, ou nas Edições Paulinas, ali próxima à 7 de setembro, esquina com Rio Branco. 

     Ou ainda definido de outra forma, a configuração da diferença, como a própria tradição conservadora define, entre a alta crítica e a baixa crítica. Esta apenas define, entre as famílias de manuscritos originais da Bíblia, a melhor leitura derivada do cotejamento dessas fontes escritas. 

      E a outra, derivada de questões acadêmicas mais exigentes, como a classificação dos variados gêneros literários das Escrituras, o ambiente em que foram escritos, seus autores, as variadas críticas essenciais à definição da formação dos textos, como a histórica, a crítica da redação, a crítica da tradição, a crítica das fontes, a crítica das formas etc.

      O que se aprendia, como herança da escola teológica de nossos pais, legada pelos líderes estrangeiros, ligados à história dos seminários evangélicos que cada antiga denominação avaliava como essencial implantar estava, uma vez levada em conta essa tradição acadêmica, principalmente na história do texto bíblico, repleta de nomes alemães, escandalosamente desatualizado.

     Portanto, afirmações que ouvíamos nos cultos domésticos, nas escolas dominicais e nos seminários tradicionais, por exemplo, dizendo que Moisés era o autor do Pentateuco, caso fossem mantidas ou continuassem a ser sustentadas, o grupo que nela de aferrasse seria considerado alienado, quem sabe, coisa pior como, por exemplo, fundamentalista, termo este hoje satanizado (que me desculpe o Inimigo, pela ofensa) em qualquer contexto.

       Embora seja simplório hoje admitir que, na travessia dos 40 anos pelo deserto, Moisés achava tempo para, na sua tenda, uma mistura de recanto particular de hospedagem, tabernáculo e tenda dos litígios, com aquela fila de gente que Jetro destacou, ele ainda encontrasse tempo para alinhavar seu pentagrama, se é que houve uma peregrinação de 40 anos pelo deserto, esse processo, essa migração entre autoria/não-autoria de Moisés é apenas a ponta do iceberg.

      Por detrás dessa questão inicial está toda a postura de uma geração em relação ao lugar das Escrituras e, consequentemente, um modelo de Deus. Porque, do modo como o protestantismo vincula Palavra de Deus ao que está escrito na Bíblia, caso se inicie, como ocorre nesse processo acima indicado, já por todo o século XX, um modo diferente de se encarar as Escrituras, muda-se a personalidade de Deus, muda-se Seu modo de falar e se lançam à teologia novos fundamentos. 

      Não mais dizer ou, mais adiante, ridicularizar que, por exemplo, como aprendíamos nessa biblioteca da virada do séc XIX ao XX, até o pós-guerra, nos livros traduzidos do inglês pelos missionários pais dos seminários, que a inspiração das Escrituras era verbal-plenária, negar isso, por mais que seja ridículo hoje admitir, não se faz impunemente.

      Antigamente, para situar na cronologia do contexto acima indicado, Deus tinha uma fonte única e segura, endereço certo e palavra clara, célebre conquista da Reforma, uma de suas 5 colunas, 5 solas, sola escriptura. O que, aliás, para católicos, nossos vizinhos aí do lado, diante de quem construíamos os edifícios da formação teológica, da tímida produção de textos acadêmicos e até nossa própria atividade missionária e evangelística, esses vizinhos nunca se ligaram nessa história de sola escriptura.

       A Bíblia para eles tem uma solidez diferente da que tinha (o uso deste verbo aqui, no pretérito imperfeito, e põe imperfeito nisso) para nós. Dizer isso aqui é fundamental para este texto: "tinha" significa "não tem mais", pode ter teoricamente, mas a prática desagregou-se, tornou-se indigente e despersonalizada. Porque se mexeram na concepção da Bíblia como documento-fonte, e isso foi ocorrendo à revelia da formação teológica, da escola dominical, do púlpito, da práxis "evangelizadora" e missionária dos protestantes, perdeu-se uma identidade. 

      Ok. É pueril dizer que Moisés escreveu o Pentateuco. Mas não é só isso que foi dito. Porque quando se nega que Moisés, ao menos, foi uma personalidade histórica, toda a sua conversa com o Altíssimo vira uma peça literária não literal. Ora, negando-se a existência histórica dele, não se faz impunemente, porque entra no caldo toda a história dos patriarcas, ou seja, a relativização se torna geral para trás e para adiante. 

   Porque estamos falando de um método. Welhausen (1844-1918), para falar de um nome, aliás, um tanto desatualizado mas é o pai da teoria documental de formação do Pentateuco. Fez escola. Ou outro, Alfons Weiser, este a respeito da desmistificação sobre a ideia de que os milagres no Novo Testamento são literais. Em seu opúsculo, O que é milagre na Bíblia, que adquiri ali na lojinha da Edições Paulinas, no centro do Rio, no meu tempo de bacharelado num seminário conservador, o único "milagre" que esse autor não desmistifica nos evangelhos é o da ressureição de Jesus. Diga amém, irmão.  Glória a Deus!
    
      Portanto, o método percorre toda a Bíblia, At e Nt. É o método TNT para as Escrituras que, com a alienação e despreparo de nossas escolas teológicas, aliás, esvaziadas, com o púlpito medíocre, com as escolas dominicais fechadas, com a crise na família (esta, desde já nos tempos do Woodstock e do Vietnam), não mais existe uma fonte segura de referência para a voz incontestável de Deus. Puxou-se, há muito tempo, na surdina, o tapete dos protestantes. Vamos voltar no tempo, quem sabe, para a era do menino Samuel, quando a palavra de Deus era rara, caminhado para dentro, no Túnel do Tempo, do período dos juízes, quando cada um fazia o que achava mais certo. 

       Mas cuidado! Campo minado! Pode ser que nossos heróis dos tempos de nossa saudosa escola dominical absolutamente tenham existência histórica garantida. Talvez nunca tendo dito o que se afirmava que eles disseram. Faça com cuidado sua viagem no tempo. Diga aleluia comigo, irmão. Deus mudou de endereço. Talvez seja um monje, a surgir com nova personalidade. Afinal, metamorfoseia-se de acordo com a escola bíblico-exegética da hora. Vamos ao surfe. Identifiquemos nossa aposta no páreo da hora. Afinal, o texto bíblico foi formado a partir de escolas do texto fragmentado, sucessivas edições e revisões. É necessária toda uma iniciação para compreender esses meandros em meio aos quais existe a possibilidade de se encontrar a fala de um Deus. 

sábado, 19 de dezembro de 2020

Haja bate-papo

 A "fé que uma vez por todas foi entregue aos santos".  Judas 3


     Caro primo: manhã e tarde maravilhosa. Estivemos alinhavando esse nosso legado. Quanta identidade existe entre nós, pelo berço comum, e que diferenças se desenham, pela história individual que traçamos. 
   
     Mas mesmo assim insisto que há mais proximidade entre nós, nessa herança comum, do que distanciamento. Durante todo 2015 trabalhei com um amigo, irmão nosso que era presbiteriano, mas precisou romper com essa sua tradição. 

      Agora se dizia candomblecista. Filho de uma mãe de santo de uma Casa, ali pelo bairro, em Rio Branco, onde residia Nelson Rosa, que me acolheu em sua casa, no alvorecer de 1995. Tinha um apelido, que também aqui vou preservar, e um dia achou que tinha que me "confessar" que era casado com um homem. 

      Achei despropositado esse tom de confissão, que ele achou que, por eu ser pastor, não deveria esconder de mim e, de certa forma, "prevenir-me" dessa sua condição. 

      Eu lhe respondi nessa linha de pensamento. Não por isso. Disse a ele que essa sua condição de vida era muito pessoal e seria um problema seu com Deus. Usei a palavra "problema" para indiciar uma questão pessoal e não no sentido lato.

     Disse a ele que não concordava em que pessoas como ele tivessem que expor essa sua condição, no sentido de buscar aprovação dos outros, que o princípio bíblico não é denúncia de "pecados", mas a oferta do amor de Deus, que avistar-se com Deus é pessoal e intransferível e que, uma vez havendo mal nessa condição a que ele se impôs, na relação com o seu companheiro, quem dera fosse esse, no mundo inteiro, o único mal e mais nenhum outro. 

      Foi o mais perto que eu estive de uma pessoa que expressou para mim sua condição homossexual. Poderia também contar a história do segundo amigo, líder entre o "pessoal da sigla" lá em Rio Branco. Visitou uma reunião do Instituto Ecumênico. E, sem que ninguém lhe pedisse, após falar das reivindicações do grupo, passou a expor o seu drama íntimo, descrevendo como, desde a tenra infância foi vítima de abusos, por parte de parentes, vizinhos, conhecidos e estranhos. 
  
       O pequeno grupo ali se solidarizou com ele, dizendo ser o Instituto Ecumênico um lugar e um grupo de acolhimento das diferenças, onde se poderia esperar fraternidade, ainda que condicionada às nossas imperfeições, mas sempre na tentativa de lidar com toda a diversidade. 

      Dessa vez, aproveitei estar ele sentado ao meu lado, para dizer que, quando me visse alhures (gosto desse termo machadiano), pensasse de mim duas coisas: 1. Minha liberdade incondicional de sempre achar estranho o relacionamento homossexual; 2. Minha prontidão em acolher qualquer representante deles que, um dia, hipoteticamente, me procure buscando ajuda para inverter sua condição. 

      Usei aquele argumento: se eu chegar no seu grupo dizendo que quero "sair do armário", no dia seguinte serei notícia de jornal, como se fosse um troféu da imprensa (que aspira a ser neutra, e nunca vai conseguir). Mas se um membro do seu grupo me procurar, para inverter sua história, serei acusado de partidário da "cura gay" pela mesma imprensa.

       Disse a ele, na presença de todos, naquele dia: guarde meu nome e marque minha cara. Lei nenhuma que se aprove vai me obrigar a mudar esse meu posicionamento: estranhar a relação íntima de dois homens ou de duas mulheres, no comum, para ficar nessas duas únicas modalidades-símbolo, assim como me coibir de atender quem queira inverter sua condição de homossexual. Essa estrada é via de mão dupla, para se entrar ou sair, na hora em que se quiser. 

      Ficamos ontem analisando onde estaria o limite entre a fé e a não fé. Porque sem fé, é impossível agradar a Deus. Assim como quem e quais seriam verdadeiros/falsos cristãos. Não sabemos esse limite. O refinamento da maldade humana, assim como as maiores carências que Cristo veio suprir a gente nem de perto supõe.

      Somente sabemos que esse limite está fora da nossa ou de qualquer ortodoxia. Quando ontem, juntos, surfamos, ainda que tímida ou ousadamente pelos limites ou apenas na praia desse oceano da graça de Deus, apenas imaginando a agonia dEle de propor a homens e mulheres (generalizando, como supus, essa fórmula binária que, como eu disse ontem, acaba por enfeixar toda a discussão de gênero) acolher o Seu amor, eu acho que apenas arranhamos, de leve, o que Paulo chama de "sentimento de Cristo" que disse devemos ter em nós. 

       Loucura desse Deus em, definitivamente, conceder-nos essa fé santíssima para dela sermos portadores. Como ser veículo dela e interlocutor para que seja proposta? Este meio longo texto foi somente para dizer com que prazer conversamos. E falta ainda falar ainda mais da denominação de nosso amor. O Altíssimo está ansioso por essa nova conversa.  

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

A última noite - Final

        Aceitar-me e acolher-me é outra história. Quando foi que te acolhi, então, perguntou o homem? Procure se lembrar. Quando começou seu conflito íntimo? No dia em que ela morreu. Minha vida era regida pela vida dela. Eu era turrão para admitir. Mas a vida toda eu vivi sob a regência dela. E a sua morte... Olhou para o Ancião. Pode dizer. Definitivamente, sua morte foi a pá de cal sobre o que chamam fé em minha vida. 

      Pelo menos de modo patente, como ela sempre quis para mim. Sorriso e lágrimas misturados. Estranhou, de novo, essas emoções. Não estranhe, já disse, aqui há lágrima e riso. Eu sepultei com ela a fé que ela queria que eu tivesse. Você pode ter sepultado o modelo de fé. Mas ela ficou no lugar onde floresceu.

      Perdeu e não perdeu sua luta. Teve raiva da sua vida. Morreu pensando que em todo o tempo prevaleceu sua infelicidade. Que os momentos de bem-querer foram passageiros. Uma espécie de vingança íntima... contra Mim. Silêncio. Fácil Sua posição em dizer que não pode revelar Suas próprias razões. Dizer que o escopo dessa conversa.... Freou. Assustou-se na coragem absurda de seus argumentos. Eu Te estou acusando. 

     Quem morreu por você não foi sua esposa. Quem operou a fé em você não foi você mesmo. Nem nela foi ela mesma. A circunstância da fé ocorre em meio às outras circunstâncias da vida. Eu atuo com garantia no quesito fé. Pode me cobrar nisso. As outras circunstâncias estão fora dessa prioridade. Estão ligadas às circunstâncias da condição humana. 

      Esperou a reação do homem. Não houve. Você entendeu? O homem disse que fez separação entre os dois modos. Preferiu nada mais dizer. Há outras conversas. Mas você distinguiu e discerniu que a fé acontece por outros meios e por outros canais. Mas o Senhor há de admitir que a fragilidade da condição humana pode afastar a fé quando se impõe uma tragédia entre ela, a fé, e o crente. 

      Quando se rejeita a fé, para dizer por outra forma, qualquer argumento e não apenas tragédias se levantam contra ela. Mas para se crer, tudo se reúne em seu favor. Ainda que seja hostil o seu contexto, a fé se alcança com facilidade. Embora o conflito íntimo sempre ocorra. E seja intenso. Muito intenso. Para fé autêntica, só se for assim.

      Pausa. Suas afirmações são radicais. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Pausa. Sorriu o Ancião. Achando vulgares Meus termos. Longe do discurso teológico. Se não for simplificado, como o Filho sempre praticou, afasta, ao invés de aproximar. 

     Uma coisa é dizer que o acesso à fé é obscuro e complicado. Outra coisa é mencionar as tragédias humanas como obstáculos a se crer. Como se fosse dito, uma vez que Deus ponha freios às nossas tragédias, pessoais e coletivas, todos vamos crer.

      Tragédias humanas são consequências de escolhas humanas e não divinas. Não se pode pôr no Altíssimo a culpa por elas. Aliás, a fé, mas de modo mediato, e não imediato, é a resposta de Deus à tragédia humana. Deus tem uma resposta, a Sua ou, se você preferir, Eu tenho a Minha resposta. 

      Agora, se vai aceitar a Minha resposta, é opção dele, de cada um. A fé é a Minha resposta a toda a tragédia humana. Radical. As escolhas são radicais. Precisas também. E com base em fundamentos irredutíveis. Para a condição humana há uma resposta radical, duplo sentido aqui. Opção de raiz. Opção arregaçada. 

     Agora o homem teve o rompante de gargalhar. Pois riram juntos. Acenou. O homem teve a impressão de que a cena se desfazia. Abriu-se um novo cenário. Viu-se fora da sala. Como que sumira o cubículo. Outro homem, com o mesmo figurino, vestido de branco, veste talar, de cima a baixo. Não temos nada contra as outras cores, aliás, muito pelo contrário, até o preto, e muito, vai encontrar aqui. Sem falar no vermelho. 

      Alvos, avíssimos eram os dentes e muito largo o sorriso. Venha, sou o encarregado de mostrar todo o ambiente. O tour é comigo. Arregaçou outro sorrisão. Ele, o homem, percebeu a mesma história: não precisava falar, que já se dialogava só em pensamento. 

     Confere. Eu sou o Filho, assinalou o Homem, enlaçando-o pelo ombro e dizendo vamos. 
     
      

A última noite - Parte 5

    

   Então nunca tive você dentro, assustou-se perguntado? E aí veio, de novo, a angústia de saber, afinal, quando e como terminaria a conversa e a que ambiente, afinal, a antesala dava acesso. Não precisava, ouviu de novo. Você já ouviu casos de gente que, a vida toda, brigou intimamente contra Mim e que, na hora da morte, como vocês gostam de dizer, se consertaram Comigo? Sim, disse o homem. 

      Pois seu caso não foi esse. Você sempre lutou no seu íntimo em Me admitir como seu. E, no último momento, para piorar sua situação, morreu me xingando. Seu caso é diferente. Mas lhe veio, na cabeça, dizer poxa, mas não sinto que o Senhor não esteja dentro de mim. O Senhor mesmo não disse que, para esta conversa ocorrer, mais do que só o Senhor, quer dizer, junto com o Senhor, os outros dois tem de estar dentro de mim?

   Certo, homem, para o tipo de conversa que estamos tendo, sim, sua intuição se conforma. Mas haverá conversas Comigo, e veja tristeza nos meus olhos, em que estará vazio de Mim quem diante de Mim comparecer. Ele calou. Vamos, remonte ao seu passado, puxe pela memória, se refaça deste susto e lembre de todos os momentos em que ouviu (e viu) a Meu respeito. 

    Como num flash passavam, sem que se esquecesse, em sua mente. Deteve-se num deles, crucial. O Ancião o encarou. Desembucha, disse ao homem, entre irônico e circunspecto. O homem agora chorou, copiosamente. O Ancião esperou um pouco, para logo dizer enuncia.

     A pessoa que mais me amou na vida foi minha mulher. Ponto para você, disse o Ancião. E para ela também. Amar é Meu principal selo e o que de principal Eu reparto. O Senhor sabe que perdi cedo meus pais. Que a vida se desenhou dura para mim. E que minha brincadeira de provocação com ela foi tiro e queda. Ela me ganhou no olhar. Aqui ele estremeceu de novo, mas teve coragem para perguntar: aquele olhar... Sim, interrompeu o Ancião: tem a ver com o Meu. Meu Filho praticava, aliás, até hoje pratica, e tua mulher, já naquela época espalhava para quem ela olhasse.

      Ele se deteve, para dizer, então, desde essa época... Sim, Eu estava no teu encalço. O olhar dela me cativou. Casei com ela. Arrastei para o casamento minha usura. Minha murrinha. Ela me aturou a vida toda. Aquela mulher me amava. Quedou-se para dentro de suas lembranças, e agora encarava o Ancião, como que cobrando: nunca tivemos filhos e ela morreu de câncer! Assustou-se, de novo, com essa súbita ousadia e com esses termos, como dizer, humanos nessa conversa. 

     Mas esperou resposta. As razões por que filhos não vieram e por que foi câncer, o homem admirava-se de ver o Ancião repetir sua terminologia, não pertencem ao escopo desta conversa. E então? Ora, sim, a conversa agora tomava um rumo mais diretivo e mais cadenciado. Ora, acompanhei a agonia dela no hospital. 

     Demorou-se, para retroceder ao assunto anterior: Ela nunca se cobrou ou... quer dizer, acho que nunca cobrou do Senhor não ter tido filhos. Com um aceno de mãos, como a dizer não vem ao caso e, ao mesmo tempo, dizer vá em frente, o homem prosseguiu. 

     Na sua última vez que falou comigo me chamou de teimoso, me disse que me amava, disse que eu era turrão, mas bom marido... exagerada, ele comentou, sim, concordou o Interlocutor. E... o Ancião pedia arremate. 

      Mencionou você, quer dizer, o Senhor. Viu o mesmo meneio de mãos anterior. Disse que eu não esquecesse de... do Senhor, disse encarando, mas ainda não tão acostumado a todo esse despojamento que tudo ali representava. Precisava continuar. Ali, no leito, prometi. No cemitério, diante da cova, reneguei.

     A Mim. Ele olhou assustado. Você não renegou a ela. Renegou a Mim. Sim. Certo. Reneguei você. Manteve a afirmação, o termo mais íntimo e o olhar direto. Muito tarde para reconhecer, afirmou em seguida. Você não, propriamente, renegou. Você iniciou uma luta íntima e pessoal contra Mim. 

     Sim. Admito. Mas nem precisava. Precisava, repetiu noutro tom o Ancião. Todo mundo tem em vida a chance de, num gesto de amor, me conhecer. Foi sua chance. E chance de renegar também. Mas é luta vencida, feito a sua. Que morreu blasfemando de mim, porém não Me conseguia renegar definitivamente.

      Daí a necessidade dessa conversa. Quem assistiu a sua morte.... Vai dizer que fui para o... Se deteve aqui, a tempo, presumidamente, e assustado. Para esse lugar ninguém vai. Precisa optar por sair. A escolha está com cada um e cada uma. Renegar, no íntimo, Minha presença, impossível. 

A última noite - Parte 4

   Esperou. Religião é um paliativo. Dependendo do freguês, vira pura hipocrisia. A coisa é de dentro para fora. Quem acha que a formalidade da religião, como roupa bonita, vai cobrir a nudez, de nudez eu entendo e de máscara também. 

     Pensou em comentar sobre o nível do diálogo. Assustou-se com esse pensamento. De onde lhe vinha a ideia de fazer uma análise  crítica. Não combinava com o seu perfil. Foi quando pensou (e lembrou) de outras Pessoas que poderiam estar presentes ou, pelo menos, participando da conversa. 

     Viu de novo, desta vez nos olhos, o traço de riso no rosto do Ancião. Deteve-se, desta vez. Não sabia direito que sentimento abrigar, lutando intimamente em como aprofundar e mesmo demonstrar simpatia pelo Seu interlocutor.

     Fique à vontade com seus sentimentos. Quanto a outros, presentes aqui, não há. Como também esses recursos aos quais os humanos se acostumaram, perda da privacidade e vigilância contínua. A conversa aqui é privada, minha privacidade é insondável e não a reparto com ninguém e, quanto a alimentar simpatia por mim, sempre foi uma oferta contínua e permanente a toda a humanidade.

     Quanto aos outros dois, de que você lembrou, e deve ter sido por causa da nossa conversa mencionar religião, você deve saber duas coisas, aliás, fáceis para qualquer um saber. Que nada tem a ver com religião. Meu instrumento para me mostrar nunca foi religião. Mas se pensam serem necessárias, se não resistem  --- para usar um linguajar tangível a vocês --- se não resistem à tentação, inventem suas religiões, mas não se percam dentro delas, inventando, em meu nome, coisas que nunca prescrevi, ao menos disse ou que nunca legitimei.

     Isso vale para todos os seres humanos, de todos os quadrantes do planeta, e para qualquer religião que tenham inventado. Mas voltando à nossa linha de raciocínio, somos Um. Os outros dois, de quem você agora sente falta, como Pessoa, não participam desta fase. O papel e função específica de cada um é outro e outra.

     Aqui, a conversa é com o Juiz. Ao ouvir esse grau de vocábulo, ao mesmo tempo definidor da Pessoa e do ato em si, de toda a cena e seu desenrolar, pensou em se assustar, ao mesmo tempo que achou desnecessário. E mais uma vez, ao mesmo tempo que travou, no íntimo, foi tomado de uma paz, de que um dia, há muito tempo, se é que agora fazia diferença, ele ouvira falar. 

      Faz toda a diferença, ouvia, agora, do Ancião. Vamos por partes. Primeiro, sobre o termo "juiz", que apliquei a esse e nesse contexto, eu tenho muito apreço pelas palavras e suas definições. Eu as guardo todas e sempre trago à memória o seu valor e o empenho com que foram ditas. Por isso esta antesala. Ninguém avança adiante sem conferir comigo toda a palavra um dia empenhada. 

     E tem mais, para Mim, palavra, pensamento e ação têm o mesmo valor. Ninguém escapa dessa conferência e desse diálogo. Ponto seguinte: sim, os Outros dois não estão aqui, mas você está aqui por eles. Não há diálogo ou relação comigo sem a mediação deles. Eu até posso dizer, sem Minha mediação neles. Porque, e você já deve saber, pelo menos intuitivamente, Eu e cada um deles somos Um.

     Eu digo intuitivamente e menciono mediação, porque era necessário ser Homem para alcançar homens e mulheres e era necessário ser Espírito para formar nos demais homens e mulheres o que Eu mesmo, como Homem, fiz. O Espírito, de dentro para fora, forma no ser humano o que Eu mesmo, como Homem, fiz, quer dizer, mais nitidamente ainda, o que Eu Sou. Entendeu? Fui claro? Se preferir, posso perguntar de outra forma: Fomos claros?

      Ele esperou um pouco, ainda pensando. O Ancião replicou: a tarefa de pensar nisso é de todo ser humano. Ah, sim: ainda atropelando seu raciocínio, faltou dizer que sim, quer dizer, não, os dois não estão presentes aqui, em Pessoa, mas, para você estar aqui, e aí e agora, estão, sim, presentes em você. 

     Como que ohou para si mesmo, voltou assustado mirando o Ancião, quase infartou de emoção, se ainda pudesse infartar-se, e não precisou dizer o que o pensamento palidamente esboçava, porque o Ancião disse, e agora pôde ver a sua face, na profundidade de seu olhar, como até agora nunca antes nessa conversa.

     Com ar de riso, disse o Ancião, sim, estou dentro de você. Nunca estaria aqui e nunca estaríamos cara a cara, se você não acolhesse o que fizemos, cada um de nós em separado e como Um por você. Ele achou que ia chorar. Pensou se ainda podia chorar. Rir e chorar faz parte. Lembra lá, da sua religião, repetirem para você "bem-aventurado os que choram?". Rir e chorar faz parte.

     Me sinto outro. Demorou, respondeu o Ancião. Não, espera, ainda estão na minha mente um monte de coisas... um monte de lixo. Há um lixão em mim. Não há mais, respondeu o Ancião. Memória dele sim, mas o efeito dele não mais. As coisas velhas já passaram, lembra desta frase lá, da sua religião. Não, ele não lembrava.

     Não precisava eu ter morrido xingando e blasfemando. Sim, concordo. Blasfêmia contra Mim, é perda de tempo. Cansa o freguês, escandaliza alguns que ouvem e trabalha contra quem diz. Entendeu? Não que eu queira manter Minha imagem: não preciso disso. Mas acalentar no coração uma chama, ainda que tênue, para Me conhecer, é muito bom para o ser humano. Como diz no Livro, basta uma fagulha (de tênue esperança) para um grande incêndio, quer dizer, Eu dentro e o efeito disso. 

    

A última noite - Parte 3

 

    Esta é a sala do retorno de toda a memória. Agora chegavam ao ponto. Do lugar, da conversa e seu nexo e quem eram os atores: o anônimo e o Altíssimo. Você é... o homem, para confirmar, perguntava, por achar inóspito o lugar e inusitada a cena. Sim. Toda conversa comigo é informal. Prefiro as informais, para que haja menos mentira possível. Tentativa, é claro, assim poupo meu interlocutor de constrangimentos.

    Sei, disse o anônimo. Eu sei que sabe, disse o Altíssimo. Aliás, todos sabem. Mas você, interrompeu o homem, permita-me, dizer, não haveria ...  Ele interrompeu, não, não há. Não há ninguém com quem eu reparta minhas obrigações. E esta, desta conversa, é intransferível. Não há quem faça isto senão Eu.

     Voltando ao assunto, eu sempre fui intempestivo. Sei. Mas não era, assim, contra os outros. Todos dizem isso. Sei, quem agora disse foi o homem. E continuou. É verdade. Fui um homem e poderia ter sido outro. Certo. Muito bem. Isso também, em menor e maior escala serve para todos os viventes: sempre poderiam ter sido e ido além do que cumpriram ser.

     Certo, quem disse agora foi o homem, como respondendo pelo próprio argumento, mas também tem quem numa escala muito mínima tentou ser ou nem tentou. E viu no olhar do Ancião um estímulo a que continuasse o raciocínio. Bem, esse foi o meu caso. Sim, foi. Esta sala e esta conversa existem para que se chegue a essa conclusão. Por isso é uma antesala.

     Ele mirou, na verdade, agora até procurou mesmo, propositadamente, os olhos do Ancião para saber se, no geral ou no seu específico caso, antesala para o quê? Mas não enxergou e nem quis mais enxergar ou pensar nisso. Sim, ouviu, a conversa, em si, é mais importante, do que o seu resultado ou o que decorre dela.

     Veio a ele uma pergunta na mente, para logo se lembrar de que era o mesmo que ter dito: todo o resultado dessas conversas é positivo? A conversa sempre avalia o que se fez, em vida, do conhecimento a meu respeito, disse o Ancião. 

    Você concordando ou não, todos em vida têm responsabilidade por si, diante de si mesmo, dos outros e de Mim, quer aceitem isso ou não, quer pratiquem isso ou não. Aqui é o lugar de assumir, quer queiram ou não. O homem pensou no mundo todo e no tamanho da salinha. Não se preocupe. Aqui temos todo o tempo do mundo. Quer dizer, aqui temos todo o tempo, para mencionar como se ainda fosse uma unidade humana de grandeza.

      Silêncio. O homem entendeu que era para continuar. Começava a entender que a conversa ia rolar, até o ponto em que o Ancião se daria por satisfeito. Olhou com outros olhares a situação. Estranhou que assim se visse pensando. E novamente lembrou que ali e diante dEle, qualquer pensamento era ouvido em alto e bom som.

     E também começava a perder o medo. Mantinha o respeito. Assinou embaixo. Ali, modo assumido, qualquer esboço de pensamento era, imediatamente, registrado. Olhou para o Outro, mas desta vez buscando confirmação para a legitimidade do que sentia. Sempre lutei, na vida lá embaixo, contra esse sentimento. No fundo, no fundo sempre sabendo que era o que deveria me dominar. 

     Simpatia para comigo nunca foi proibido. Intimidade também. Era só, e ainda é, manter o respeito. Pera aí, respeito pelo Senhor, eu sempre tive. Agora sentiu que se precipitara em afirmar isso. O Ancião sorriu de soslaio e disse: Respeito é bom e eu gosto, mas inclui a si mesmo e aos outros.

    Que lição você tira disso? Preferiu ser didático dessa vez. O homem respondeu: que quem não se respeita, não respeita nem a si, nem ao outro e, consequentemente, nem a Deus. Então, lembrou-se da religião da esposa. De que a acompanhava à igreja. Olhou encarando, de novo, o Ancião, com esse pensamento na cabeça. 

A última noite - Parte 2

 

    Silêncio. Nada disse. Nada replicou o Ancião. Mas agora, o que o impressionava era o olhar. Ora, caramba, agora era o olhar. Estava e não estava, ali, com uma veste semelhante à dele, com alva cabeleira, olhava de soslaio, porque encarar nos olhos nunca ousaria. 

     Estava e não estava presente, lia e não lia seus pensamentos, ouvia e não ouvia sua voz mas, muito mais do que se angustiar com isso, sentia uma imensa paz, sentia uma presença, mas sua tendência era assustar-se com isso, porque qual a razão de ser dessa conversa, principalmente se, quem era que estava ali ele imaginava que fosse?

     Afligiu-se. Foi quando ouviu. Não precisava. Surtou-se. Fez cara de espanto mas, ao mesmo tempo que sabia, precisamente, sobre o que o Ancião de dias (e põe dias nisso) perguntava, porque essa conversa trazia tudo à memória, estremeceu porque a memória dele ia direto ao ponto, por isso, de novo, ouviu o comentário e reavivou as lembranças.

     Para que morrer xingando todo mundo? Esse era o ponto. A vida dele passava como um filme em retrospectiva. Daí, dessa pergunta para trás, aquela conversa ali, naquela antesala, com o Ancião, tudo começava a fazer sentido.

     Agora viu os olhos dEle plantados nos seus. E de novo, como repetição, não precisava. Essa frase, nessa altura do bate-papo, percorreu toda a sua vida, dali para trás. E ele sabia que o que lhe vinha à mente, era com isso que o Ancião conversava.

     É, eu era assim mesmo, estúpido. Ele ia dizer "mas o Senhor sabe", resolveu não dizer, mas pensou, estão estava dito, então logo disse audível, para ver se valia o dito pelo não dito, estúpido mesmo, temperamental, de explodir, falar à toa, até ofender, admito. Então se lembrou dos olhares da esposa.

     Olharam-se nesse ponto. Ele deu o frequente olhar da esposa para Ele como argumento de sua defesa. Mas ela lhe olhava reprovando você, Ele disse. Pois é, o homem retrucou. Aquela ali era uma santa, disse, caindo no lugar comum. Para te aguentar, disse Ele reticente.

     Sim, antes que o homem continuasse a pensar, inquirindo, nesta antesala fazemos uma revisão, antes de qualquer outra decisão. Ele então pensou na possibilidade de, digamos, um retorno. Não, respondeu o Ancião, sem retornos. A vida é uma só. Já viveste a tua. Foi taxativo. 

     O homem já, de antemão, percebia por que, desde que se vira ali, no cubículo branco e ele também todo branco, começara a ver a si mesmo por outra ótica, ou melhor, para dizer de outro modo, pela ótica que se acostumara a se ver, durante toda a sua vida, mas que sempre rechaçara, também durante toda a vida, vinha de novo à mente o olhar (reprovador) da esposa.

      Ao mesmo tempo que via, no olhar do Ancião e num jesto com as mãos um modo de dizer "É isso", como que assinando embaixo desse raciocínio, os olhos do homem se arregalaram, agora como que olhando para através da suposta porta de acesso que saía da sala, sim, porque aquela por onde entrara estava às suas costas, e isso o incomodava, mirou de novo o rosto do Ancião.

    E ficou esperando a resposta, porque já sabia que Ele sabia. É óbvio que sim. Esta resposta foi confirmando que sim, a esposa estava para além da porta de saída da antesala. Para a outra resposta, concernente ao pensamento que ele esboçou, que era, consigo mesmo, saber se ia revê-la, viu no olho do Ancião um indicador de não resposta. 

     Imediatamente mudou de assunto (ou de pensamento). Vocês mudam fácil de pensamento, Ele disse, o que não deixa de ser, também, uma espécie de fuga. Inútil tentativa, anuiu. Todo pensamento, uma vez pensado, volta. Baseado neles, no encadeamento deles, há muita ação indevida. E essa tentativa fútil do ser humano de pensar em esquecer, fazer de conta que nunca existiram e achar que nunca mais vai estar frente a frente com eles. Ou consigo mesmo. Que é a mesma coisa.