quarta-feira, 30 de setembro de 2020

O Apocalipse de cada um

       Na minha, com muito custo, humilde opinião, o texto bíblico se caracteriza por sua simplicidade. O que não quer dizer que seja um texto simplista.

       Não foi escrito para uma aproximação iniciática, na qual somente "gurus" previamente dotados, seriam capazes de transmitir seus "mistérios".

      Afinal, o livro mesmo, a Bíblia, define origem, autores e finalidade, bastando crer ou não em seu conteúdo: "homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo".

      Crer ou não é outro capítulo da história. Assim como, a partir do que vai escrito, formar teologia. Porque outro equívoco muito frequente é dizer que se pode lê-la desprovidos de suporte teológico. 

      Bobagem. Qualquer afirmação do livro será especificamente teológica. Incluída a que foi escrita aqui. Homens (e mulheres) escreverem, todos temos uma ideia do que seja. Agora, "movidos pelo Espírito Santo" é tanto uma afirmação teológica, quanto dizer "falaram da parte de Deus".

      Quando eu afirmo que o Apocalipse é de cada dia e de cada um é porque, se há alguma dificuldade para compreender, a culpa não é de João. Para seus primeiros destinatários, era muito claro de ser compreendido. 

    Porque João jamais escreveria algo supérfluo ou enigmático em plena era de perseguição, para um povo não facilmente alfabetizado e que necessitava de uma mensagem de ordem prática e direta.

     Foi fácil para eles discernir aquelas imagens e o suporte utilizado, que lhes era familiar, que foi a literatura apocalíptica. Empolgaram-se, certamente e, entre si, decifraram e viram descortinar-se, diante dos olhos, um desfile de imagens que lhes deixou animados e imediatamente esclarecidos.

      Complicar o Apocalipse, tentar alçar-se a uma posição dogmática unilateral ou perder-se em meio ao seu linguajar e arcabouço, como se diz, no vulgo, não é de Deus. De Deus será proveniente o bom senso, o afinco no preparo e a simplicidade em desvelar o livro.

       Por isso, é Apocalipse de cada um e para cada um. Como texto bíblico, precisa de contextualização, talvez mais cuidadosa do que outras partes do livro inteiro, por exemplo, comparado, dentro das mesmas Escrituras, aos outros textos apocalípticos que contribuem, em conjunto, para a sua compreensão.

      Mas nos é dado. E seus pontos principais devem ser postos como axioma para entender todo o restante. A revelação do Cordeiro de Deus glorificado, a urgência, por meio da igreja, da pregação do evangelho e a missão permanente dela de aviso ao mundo sobre a brevidade do tempo. 

      Lá mesmo está um texto que indica "o testemunho de Jesus é o espírito da profecia". E a missão da igreja é "ser testemunha de Jesus" e, para isso, "receber poder do Espírito Santo". Quem primeiro anunciou o evangelho e indicou que o tempo do fim estava às portas foi o próprio Jesus.

      Marcos, o primeiro  evangelista e que fez escola, assinala na profecia de Isaías sua base de argumentação. Ele marca a primeira vez em que o evangelho foi pregado, e foi Jesus quem o fez, dizendo: "O tempo está cumprido, o reino de Deus está próximo, arrependei-vos e crede no evangelho".

      A era do Apocalipse foi inaugurada por Jesus, advertindo o que, nas páginas do livro, a cada passo, está urgente como advertência. 1. O tempo cumprido; 2. A proximidade do reino de Deus; 3. A urgente necessidade de arrependimento e fé no e evangelho.

      A livro é síntese da Bíblia inteira. Remete, a todo momento, às imagens e profecias do Antigo Testamento, que era a Bíblia de João, seu autor. Para compreender o livro, impossivel sem conhecer a profecia do AT e os "apocalipses" dentro delas, sejam imagens, clichês ou referenciais.

      Exemplos são a expressão "dia do Senhor", nos profetas menores, as duas oliveiras em Zacarias, equivalentes às duas testemunhas, em Ap 11, e a descrição da cidade e do santuário restaurados, a partir de Ez 44, associados à descrição da cidade que desce do céu, em Ap 21-22.

       Aparelhamento mal feito no trato com o texto, vaidade pessoal em se imaginar um "guru escatológico" ou mania por "mistérios" e decifração de "enigmas" é que podem forjar, literalmente, enganos ou síndromes de empecilhos em relação ao Apocalipse. 

     Fora isso, será a desfiguração de algo essencial no trato com o gênero literário dos livros bíblicos: sua simplicidade e dedicatória específica aos símplices de coração. 

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