sexta-feira, 31 de outubro de 2014

            O salário do pecado é a morte
            
              O direito ao salário, correspondente exato e justo em função de um serviço ou equivalente, é inalienável. Uma das maiores conquistas da humanidade, celebrada como resultado de 2.000 anos de história, em pleno século XX, é a constatação dos direitos adquiridos pelo trabalhador de obter justa compensação pelo trabalho prestado.
            Desse modo, então, a Bíblia, livro que prima por ser continuamente justo em todos os conceitos que enuncia, quando equipara ‘salário’ como justo e preciso pagamento pelo ‘pecado’, equivalendo-o à ‘morte’, decisivamente não está cometendo uma falta ou um erro de avaliação.
             Salário é um conceito já consagrado e devidamente definido, seja em ciência econômica, social ou jurídido-trabalhista, assim como morte pode ser encarada de variadas maneiras, por ciências médicas, biológicas ou ainda pela psicologia. Pecado, porém, é um conceito estritamente bíblico, quem sabe contemplado pela teologia, pelas ciências bíblicas do texto, que tanto a exegese como a hermenêutica se preocupem em definir, ou ainda a homilética, ocupando-se do modo como expor esse conceito.
            Para a Bíblia, somente existe um pagamento justo e cabível, atribuído de modo pleno e preciso ao desgaste do pecado, uma única equivalência plenamente compensatória, que é a morte. A partir dessa correspondência, é possível deduzir, para o pecado, um quilate de valor, bastando que, para isso, reflita-se no sentido, significado e realidade da morte.
          Pecado, como a Bíblia o denuncia, não tem sua origem em Deus. Isso porque o Livro indica Deus como o Criador, por excelência, de tudo o que existe. Na linguagem de João 1:3: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” Exceto o pecado, que não tem, definitiva e absolutamente, origem em Deus. É realidade à parte da avaliação do Criador quanto a tudo o que fez: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” - Gênesis 1:31.
          Jesus, por sua vez, numa de suas públicas altercações com fariseus, afirmou o lugar onde, em meio à humanidade, é possível encontrar o pecado, em Marcos 7:21: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios.” Pelo menos, dois fundamentos já estão aqui definidos para esse conceito a que somente a Bíblia se refere: o pecado (1) não tem sua origem em Deus e (2) no contexto da humanidade, procede de dentro do coração dos homens.
          Já é possível deduzir que, pelo fato da morte afetar seres vivos, aqui incluídos animais, vegetais e seres humanos, torna-se evidente que a morte do homem/mulher, portanto, dá fim ao pecado na vida que se extingue. Num outro texto bíblico Paulo, aos Romanos 8:3c, indica essa verdade quando afirma que, “com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado.” Para dar um fim ao pecado, afirma a Bíblia, Deus condenou o homem/mulher à morte, para que, dessa forma, fosse, concomitantemente, extinto o pecado.

          Num próximo texto vamos procurar analisar pistas que a Bíblia fornece para a origem do pecado, qual é o antídoto para a morte e como, ainda em vida, é possível ao homem identificar nele mesmo o pecado, isolá-lo e combatê-lo, de modo a que não exista sem freios nele e comprometa a sua identidade, subvertendo-o, manchando sua reputação e o tornado inaproveitável para a convivência plena com seus semelhantes. Já basta, para pôr fim a essa existência, a morte. Então, enquanto vivos, é prudente saber como não ser um morto-vivo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014


 Jonas
             “Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira por causa da planta?”
             Curioso esse profeta e riquíssimas as lições que aprendemos no lidar de Deus com ele. Aliás, é o tipo de profeta que nenhum de nós convidaria para ser obreiro em nossa igreja. Mas era verdadeiramente vocacionado, porque Deus foi quem o chamou, para ensinar lições fundamentais que desconhecia.
          A lição principal, o amor que, muitas vezes, julgamos que já aprendemos, que praticamos e que ainda queremos ensinar a outros, sem que Deus nos dê suporte para isso, será um vexame ou uma farsa. Essa lição Deus queria que Jonas aprendesse. Maravilhoso como ministério é, antes de tudo, lição e ensino, primeiro, para o autenticamente vocacionado.
            Provas de que Jonas era autêntico profeta foi que (1) a ele veio a palavra do Senhor, (2) foi enviado a uma dada região, para (3) pregar a palavra do Senhor – Jonas 1:1-2. Mas simulou obediência e, o que é surpreendente, um desobediente não é abandonado por Deus, como até poderíamos supor, mas perseguido pelo próprio Deus, até que aprenda e ponha em prática o que Deus quer ensinar.
            No livro, fica explícito até onde pode ir, no desespero de Jonas, a fuga da lógica de Deus e o mergulho na distorcida lógica do homem. Tentando atualizar o dilema do profeta, é como se, em nossos dias, Deus enviasse a nazistas um profeta judeu para lhes pregar arrependimento. Porque os assírios, a quem Jonas foi enviado, haviam trucidado os habitantes de Samaria em 722 a. C. A lógica distorcida do homem, desde o Éden, sempre em fuga em relação a Deus, não entende a lógica do amor e do perdão.
             Jonas, em sua fuga, desceu ao seu abismo pessoal: (1) procurando diligentemente um navio em Jope, (2) pagou o preço, mais de seu desespero, medo e covardia, do que da viagem, (3) embarcou, meticulosamente, sem desistir ou cair em si em nenhuma dessas etapas – Jonas 1:3. Dentro do navio, (1) escondeu-se infantilmente no porão, (2) mergulhou num sono depressivo e doentio e (3) nem disposição para orar tinha, quando questionado pelos tripulantes, cada qual invocando seu ídolo, em meio aos terrores da tempestade em alto mar – Jonas 1:5-6.
            Precisamos nos deixar conduzir por Deus em sua lógica do amor e do perdão, embora em nós, sem a assistência do Espírito Santo, nada dela nos seja natural. Mais uma vez confrontado, Jonas deu mais importância, também de modo doentio, a sua fútil e ilusória euforia, à sombra da parreira que o abrigava do desconforto do sol, do que preferiu avaliar o peso da morte de 120 mil pessoas. Pelo contrário, isso lhe teria dado prazer.
          Quando Paulo, em 1 Coríntios 2:10-16, na aula dele sobre o ministério do Espírito em nós, afirma “Nós, porém, temos a mente de Cristo”, é para que consigamos pensar e agir pela lógica de Deus. Fora dela, corremos todos os riscos que Jonas correu. E não sabemos se foi suficientemente corajoso para se dar por vencido em sua lógica e adotar aquela de Deus. 


          Obadias
                   
 “Mas tu não devias ter olhado com prazer para o dia de teu irmão, o dia de sua calamidade.”
          
         Algumas situações nos apanham desprevenidos, ou seja, não esperávamos, mas elas revelam traços de nossa personalidade que gostaríamos de manter ocultos ou nem percebemos que não são recomendáveis a quem professa temer a Deus.
         Neste trecho de seu pequeno livro, aliás, o menor do Antigo Testamento, o profeta Obadias acusa exatamente uma situação dessas, quando os edomitas, descendentes de Esaú, revelam alegria quando presenciam os efeitos do juízo de Deus na vida de seus irmãos, descendentes de Jacó.
        Revela-se o ódio reprimido que nutriam por seus vizinhos do outro lado do Rio Jordão e, ao constatarem a invasão dos babilônios, no início do séc. VI a. C., respiraram aliviados a ainda se aliaram aos invasores. Não devemos nos alegrar e nem nos sentir vingados quando um desafeto nosso é alcançado por qualquer calamidade que, muitas vezes, identificamos até equivocadamente como um juízo de Deus em sua vida. Aliás, crente tem desafetos?
              Há textos bíblicos que nos revelam aspectos fundamentais de nossa condição como verdadeiros crentes que jamais poderiam coincidir com um sentimento desses, de recalques que se revelam, transformados em prazer quando se vê na vida de outrem qualquer calamidade. Romanos 2:4 é um desses textos:
               “Ou desprezas a riqueza de sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento.” Este texto ensina que não existe ‘gente boa’. Há bondade em Deus e é ela que nos move ao arrependimento. E só após o arrependimento, quando ocorre a nossa conversão, é que começamos a aprender a bondade de Deus, tê-la em nós e demonstrá-la em nossas atitudes.
              Se não permitirmos que o Espírito, em nós, ensine e nos aperfeiçoe na bondade de Deus, em certas situações pode se revelar o nosso velho homem, que, entre outros vícios, demonstra uma alegria disfarçada quando vê um desafeto afetado por uma calamidade qualquer. Outro texto, ainda em Romanos 12:14:
            “Abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis". Este texto ensina que nenhuma situação na vida de qualquer outra pessoa pode nos estimular a desejar, para ela, qualquer maldade. Há quem, nos dias de hoje, interpretando errado o Antigo Testamento, julgue que tem autoridade para amaldiçoar quem quer que seja. Pois desconhece esta norma de amor do Novo Testamento.
            Plenos da bondade de Deus que só nele existe, em seu estado puro e verdadeiro, a nós concedida e aperfeiçoada pelo Espírito Santo, que em nós habita, não devemos alimentar, em nosso coração, mágoas ou ressentimentos que podem se revelar, de maneira súbita, num momento em que vemos, na vida de alguém, qualquer situação desagradável experimentada.    
            Devemos olhar com temor, principalmente se for consequência de pecado, como no caso do juízo de Deus sobre o povo de Israel, na época de Obadias. Como diz o salmista, Salmo 40:14-15, não devemos ter prazer com o mal revelado na vida de ninguém ou dizer ‘bem-feito, bem-feito’. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Amós
                        Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o SENHOR Deus, quem não profetizará?

          O profeta Amós faz uma comparação entre o rugido do leão, seu efeito em seus domínios, na selva, e o alarme que deve resultar do efeito da palavra do Senhor.
          Palavra é veículo de revelação, mas também de ocultação, ou seja, palavra proferida pode revelar ou pode ocultar. Quando uma palavra revela, é verdadeira e, quando oculta, quando esconde, quando encobre, quando é proferida dissimuladamente, para ocultar verdades, é uma palavra mentirosa.
          Por exemplo, um marqueteiro brinca com a verdade, ou seja, a palavra que manipula com arte pretende refinar mentiras, de modo a fazer um efeito maquiado, nebuloso, porém retocado para aparecer como belo e ilusório, mascarando a realidade.
         Outro fator da palavra, relacionado ao efeito que deve proporcionar, é a fidelidade ao seu significado. Uma vez proferida, a palavra deve ser entendida, compreendida com clareza e o efeito exato de seu valor e mensagem deve promover uma atitude prática em quem a ouve, uma reação, um resultado, um posicionamento, denunciando o efeito exato da mensagem.
         A palavra pode ser relevante, e o ouvinte displicente. A palavra pode ser vital, mas não promover o efeito desejado a partir do emissário da mensagem. Por exemplo, em Hebreus 4:2, o texto fala de uma palavra anunciada, denominada ‘boas-novas’, dirigida ao povo nômade de Israel, no deserto, em sua peregrinação após a saída do cativeiro no Egito.
        O versículo ressalta que essa palavra ‘não lhes aproveitou’ e dá a razão por que foi assim: não deram crédito a ela. Simples e, ao mesmo tempo, drástico e trágico, porque essa palavra, essas boas-novas tinham procedência da parte de Deus e foram anunciadas por profetas autorizados, mas não cumpriram, no destinatário, nenhum efeito.
             Amós tem expressões interessantes, nesse começo de seu livro, a respeito dessa mediação, desse tripé (1) palavra de Deus, (2) profeta como mediador e (3) efeito dessa palavra. Em Amós 3:7, afirma que Deus, quando fala ou quando age, sempre leva em conta o homem, isto é, toda ação de Deus é benéfica, abençoadora e nunca despreza o homem, sempre valoriza a pessoa humana.
            O contrário nem sempre é verdadeiro. Muitas vezes, infelizmente, o homem age sem levar Deus em conta. Agindo assim, revela desprezo por Deus e por sua palavra. Nesse mesmo texto acima citado, está escrito que Deus revela a profetas, ou seja, o homem é veículo da palavra autorizada de Deus. Quem fala em nome de Deus é denominado ‘profeta’, que fala a outros homens iguais a ele, transmitindo a palavra de Deus.
           E, assim como o rugido do leão espalha medo na selva, espraia um silêncio respeitoso, sendo claro a toda a animália quem foi que produziu aquele ribombar, a palavra de Deus, para o homem, nem sempre tem esse mesmo efeito. Em muitas ocasiões, infelizmente, a palavra de Deus não mais produz temor e tremor, como diz Paulo aos Filipenses 2:12-13, ou seja, não é obedecida, não é valorizada e nem é, ao menos, ouvida.
          Dois textos se referem a (1) quem é seu veículo e (2) ao efeito da palavra de Deus. O primeiro deles, está em 1 Coríntios 14:1: “Segui o amor e procurai, com selo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis.”
          Nessa recomendação geral aos crentes, Paulo fala de três coisas essenciais: (1) amor, fruto do Espírito; (2) dons espirituais, fundamentais no crescimento do crente e da igreja; (3) profecia, intrinsecamente relacionada às Escrituras, à obediência a ela e à autoridade para falar em nome de Deus, que todo crente deve perseverar em ter.
          E, em segundo lugar, quanto ao efeito da palavra ou ao teste para saber se ela realmente provém de Deus, os textos de 1 Coríntios 14:3 e Efésios 4:29 podem ser considerados uma definição de profecia e dão o controle de qualidade para identificar profecia. Ela deve (1) edificar, exortar e consolar e (2) ser unicamente para a edificação, conforme a necessidade e (3) transmitir graça aos que a ouvem.        
         Vivemos um tempo em que palavras proferidas e ouvidas têm se revelado, em grande conta, falsas, revelando o caráter de quem as profere ou defende sua vigência. Vivemos quase a mesma época revelada em 1 Samuel 3:1b: ‘Naqueles dias, a palavra do SENHOR era mui rara’. Profetas não se têm dedicado às Escrituras, para ouvir Deus falando e para adquirir autoridade para falar em nome dele. 

        É urgente que verdadeiros profetas de Deus falem, com autoridade, em seu nome. Que o leão ruja e o temor de Deus seja experimentado.  O leão continua a rugir. O eco de seu rugido se espalha. É prudente ouvir e temer.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Uma história de branca e uma negrinha.



      Creio que a gente conhece um monte de histórias da branca que deu muita porrada (desculpe-me o termo) na negrinha, para logo depois desejar recebê-la humilde ou humilhada (para a negrinha, humilde; para a branca, humilhada, algo como 'ponha-se no seu lugar'). Pois esta história se repetiu com Dilma, a branca (aliás, com nome Rousseff), e a negrinha, Marina. Então, independentemente do que Marina pensa, caso ela optasse, agora, por Dilma, seria a humildade da humildade ou a humilhação da humilhação? Não importa, mas era essa a Marina que a gente queria, domesticada, não é mesmo? Acho, volto a dizer, que o PT está praticando o vale tudo. Até concordo que é a mesma política do PSDB. E até a mesma política do PMDB (mas, quem foi mesmo que falou em velha política?). Pois é, a gente esperava que o PT continuasse sempre sendo o PT, alguém lembra como era, quando foi fundado por sonhadores, gente muito boa (que ainda existem aos montes, no atual) e ainda era partido de oposição? PT virou velha política. PT está entregando tudo ao PSDB. PT destrói PT. PT ruim, PT velha política, destrói PT bom, muita gente boa que está por aí, traída em seus ideais pelo próprio partido. Mas quem mesmo falava (ou fala, ainda) em velha política? Queriam uma Marina domesticada. Ah, bom: ponha-se no seu lugar. Isso não é velha política, mas é uma velha história.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014


      Joel

             Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor vosso Deus.

         Joel, seguindo a mesma ideia de qualquer genuíno profeta do Antigo Testamento, por meio do versículo acima indicado, define o que significa converter-se ao Senhor. Trata-se do verbo hebraico shubh, equivalente ao sentido grego do vocábulo metanous, converter-se, fazer uma conversão, voltar, mudar a própria mentalidade, experimentar uma mudança de vida.

           O sentido teológico dessa experiência, espelhada no significado desses dois vocábulos, representa o que a Bíblia define como ‘conversão’. Essa experiência é fundamental para a fé, tanto na época do Antigo, como do Novo Testamento, porque representa o retorno do homem para Deus, o voltar-se para Deus, nele crendo e, a partir de então, manter com Deus comunhão.
          
                Não existe mais, pelo que a Bíblia indica, uma natural comunhão entre Deus e o homem. Desde que, segundo a narrativa do Gênesis, Deus saiu ao encontro dele e este pretendeu, ingenuamente, esconder-se de Deus por entre as árvores do jardim, o homem já havia voltado as costas para Deus e seu padrão de conduta.

           A essa opção do homem a Bíblia chama pecado, hata’ah, no hebraico, mais exatamente ‘errar a marca no alvo’, ‘errar o objetivo ou a instrução’. O homem decaiu do propósito que Deus tinha para ele. Outras palavras da Bíblia para pecado são: pesha, transgressão intencional, ir além de limites estabelecidos, revolta contra um padrão pré-determinado; awon, traduzida perversão, iniquidade e, eventualmente, vaidade, um ato de perversão intencional; tame, ser imundo ou considerar-se imundo; avar, infringir, deixar de lado o que é certo ou correto, no caso, o pacto com Deus.

       Consideramos bem ilustrado o significado geral do conceito bíblico ‘pecado’. Embora, comumente, costume-se entender que, na época da lei, assim identificado o período do Antigo Testamento, a relação com Deus fosse diversa daquela indicada pelo texto do Novo Testamento, mesmo no tempo de Joel a salvação e o resgate do homem era devido à graça de Deus, por meio do arrependimento e conversão, do mesmo modo como está claramente definida essa mesma experiência no Novo Testamento.

           Assim, Deus sempre saiu ao encontro do homem, modelo do mesmo expediente lá de Gênesis 3:8-10: “Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi.” 

             No caso aqui, o homem já havia descoberto, ele e sua esposa, que poderiam, na hora em que quisessem e desejassem assim, romper com o padrão de Deus, negando sua origem como criação de Deus e unilateralmente agindo por sua própria índole. Deste modo está descrito como o homem e mulher romperam com Deus e, ingenuamente, pensaram esconder-se de sua presença, tentando ocultar o seu pecado, fugindo de encará-lo de frente.

             E o ponto máximo dessa busca de Deus se deu nos tempos do Novo Testamento, por meio de sua revelação em Cristo Jesus. Do modo como Paulo afirma em 2 Coríntios 5:18-19: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando ao homem as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.” Trata-se da presença de Deus em Cristo, não jogando na cara do homem aquela relação de pecados acima indicada, mas pretendendo convertê-lo a si, por meio de uma palavra da qual nós, os que já cremos, somos portadores.

              Como, então, o próprio Paulo complementa no texto de sua carta, 2 Coríntios 5:20c, prevalece o apelo: “Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. E ainda, Paulo, citando o Antigo Testamento, desta vez em 6:2: "Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação." O apelo de Joel ecoa em Paulo e chega aos nossos dias: trata-se de um apelo à conversão.

             

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Oseias e uma sua divisa bem conhecida
            
               Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.
        
        Certos textos dos profetas menores já conquistaram um determinado status, em função de ser mais conhecidos ou de já serem consagrados pela leitura ou mesmo pela mensagem mais direta que transmitem. Este, acima citado, é um deles.
        Portanto, são associados mais especificamente ao profeta em questão, no caso Oseias, e começamos aqui por analisá-los, mesmo porque sua atualização nos dias de hoje e presença na memória coletiva estimula essa apreciação.
        Conhecer, verbo hebraico yadha, na mentalidade do Antigo Testamento não tem o mesmo significado que conhecer, ginoskw, no grego. O conhecer da filosofia grega é mais abstrato, enquanto que o conhecer do hebraico é mais prático e experimental.
        Conhecer do grego, em geral, envolve abstração mental, mais próximo do conhecer teórico de nossa época, ou seja, formar uma imagem mental, enquanto que o conhecer do hebraico envolve experiência sensível. Não confundir, numa aproximação desses significados mais corriqueira, com determinados usos dos sentidos que mais enganam do que definem experiências com Deus.
         No sentido grego, Deus não cabe em nossa compreensão. No sentido hebraico, conhecer ao Senhor seria algo cuidadoso e cauteloso, pelo temor que inspirava aos judeus a santidade e a transcendência divinas. Para nós hoje, no estágio da revelação em que nos situamos, tanto é possível conhecer Deus, no sentido grego, revelação cabível a nosso entendimento, assim como ter com Deus comunhão, relação prática e vivencial com Ele.
         Podemos nos expressar relatando aspectos da pessoa de Deus, de sua natureza e ação, informação e discernimento ao alcance de qualquer pessoa, assim como é possível descrever, experimentar e demonstrar aspectos concretos da relação com Ele, comprováveis e verificáveis como indícios dessa relação. A Bíblia, em seus textos, especifica essas duas tendências.
         Um primeiro exemplo de texto em Romanos 1:19: "Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, por meio das coisas que foram criadas."
          Numa linguagem esquemática, enxergamos neste texto: (1) Deus manifesta ao homem o que se pode conhecer dele mesmo, que são (2) seus atributos invisíveis, (3) seu eterno poder e (4) sua própria divindade, e isso (5) pode ser reconhecido, de modo claro, (6) desde que o homem existe no mundo, (7) por meio das obras da criação.
            E vejam que não chegamos, ainda, ao texto dessa revelação, que é reconhecido como o texto da Bíblia. Todo esse conhecimento está ao alcance do homem nas duas maneiras aqui expressas, seja na modalidade grega do conhecimento, teórica, mental e abstratamente, capaz de ser apreendida e explicada pelo homem, assim como na modalidade hebraica, pela qual é possível perceber, sentir e experimentar, de modo prático e sensível, a segurança dessa revelação, ou seja, ter e experimentar comunhão com Deus.
            No texto a seguir Paulo, agora aos Efésios 2:11, indica elementos mais claros dessa relação com Deus: "Naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo". Reparem que podemos inferir 5 situações pelas quais se identifica, de modo perceptível e claro, quem não se inclui entre aqueles alcançados pela graça de Deus e, portanto, que não privam dessa comunhão à qual a Bíblia se refere.
       Trata-se dos seguintes aspectos práticos indicadores: (1) estar sem Cristo, (2) estar separado de uma comunidade, que significa, num sentido objetivo, estar afastado ou fora da igreja de Cristo, (3) ser estranho às alianças da promessa significa ignorar, textualmente desconhecer ou estar alienado em relação à Bíblia, (4) não ter esperança, significa vivenciar existencialmente o desespero e (5) sem Deus significa estar presente no mundo, criação de Deus, mas não perceber-se, ou não sentir-se ou não ter consciência de pertencer a Deus.
          No sentido prático, conhecer a Deus, seja pela ideia do vocábulo yadha, do Antigo Testamento, ou no sentido teórico do vocábulo ginoskw, do Novo Testamento, os dois conceitos são necessários e complementares, segundo a divisa do texto de Oseias e seus desdobramentos aqui verificados, expressos por outras unidades da Bíblia, com as quais o texto original foi comparado. Exercício ao seu alcance e início de caminhada pelos textos dos profetas menores.


Dodekaprofeton - Os doze profetas
      
      Curiosíssimo. Algum editor antigo e anônimo resolveu editar esses 12 livrinhos, reunindo-os num só volume. Só as razões por que se lançou a essa tarefa devem instigar-nos a conhecer seu conteúdo. Não se sabe, ao certo, a data precisa da edição, mas mão ou mãos deram um retoque final e mandaram ver essa pequena coleção.
     Assim, quando lemos poucas informações, muitas vezes só o nome do profeta (Obadias 1, Habacuque 1:1 e Malaquias 1:1), outras vezes só o adicional do nome de quem ele era filho (Joel 1:1 e Jonas 1:1), e ainda, por vezes, o nome da cidade natal (Naum 1:1), acrescido ou não se sua profissão anterior ao chamado (Amós 1:1), e ainda o período de sua atuação (Oséias 1:1, Miquéias 1:1, Sofonias 1:1, Ageu 1:1 e Zacarias 1:1), todos esses dados nos estimulam a reconhecer as razões por que o(s) editor(es) resolveram que era relevante estimular leitores a conhecer seu conteúdo.
     Aí, acima, estão os nomes desses heróis. Agora resta familiarizarmo-nos com detalhes que aparecem na linguagem de seus escritos. A leitura atenta, em si, já predispõe para o exercício da interpretação e ainda existe um exército de leitura paralela: dicionários bíblicos, comentários e análises desses livros, que vão ajudar no destaque devido a essa literatura especial e seus aspectos particulares, somente percebidos numa leitura atenta.
    Mas o leitor não deve aprender a depender de modo direto da literatura de apoio, porém prender-se à leitura bíblica do texto de cada livro, estabelecer seu modelo de memorização e compreensão dos textos, somente para, então, demarcadas as dúvidas, recorrer a esses dispositivos para sanar essas mesmas dúvidas.
     Em linhas gerais é necessário reconhecer o período geral da profecia desse ciclo de 12 profetas, sabendo, de antemão, que todos se inscrevem num quadro de ocupação da Palestina da época por impérios deslocados a partir da Mesopotâmia, e que a terra prometida se subdividia em dois reinos judaicos: Judá, ao sul, e Israel, ao norte.
     Esse era o quadro político geral, um detalhe reconhecido por eles como, em si, recurso disciplinar de Deus que, histórica e geopoliticamente falando, permitia que a terra, uma vez dada a seu povo exclusivo como herança, fosse ocupada por estrangeiros que, em duas brutais ocasiões, uma pior do que outra, chegaram a levar cativos, para a Mesopotâmia, judeus do norte e judeus do sul.
     Assim, do século VIII ao século VI a. C., ambos antes de Cristo (a. C.), nesse período de três séculos, assírios, babilônicos e persas ocuparam, sistemática e seguidamente a Palestina, varrendo-a de norte a sul: assírios levaram cativos os habitantes do norte, Israel, em 722 a. C., babilônios levaram cativos os habitantes do sul, em 587 a. C. e, em 536 a. C., os exilados foram liberados pelos persas para retornar, em três levas, sob Zorobabel, Neemias e Esdras, à terra natal.
    Desse modo, podemos situar esses 12 profetas no tempo: Oseias, Amós, Miqueias e Jonas, no século VIII; Naum, Habacuque, Obadias e Sofonias, no século VII; Ageu e Zacarias, no século VI; e Malaquias, no século V. Joel é, dentre eles, o mais difícil de localizar no tempo.
    Um dado geral também é ressaltar que todos os profetas lidavam com a dificuldade do povo escapar da cultura religiosa comum a todos os seus vizinhos, que afetava Israel e Judá com tremenda força, que era a idolatria. Esse foi o principal esforço desses gigantes, os profetas: denunciar e lutar, muitas vezes ingloriamente, contra o costume entre israelenses, norte, e judaítas, sul, de seguir a religião dos vizinhos.
    Era muito difícil separar religião e vida prática visto que, no oriente (ainda hoje) as duas estão intrincada, estranha e entranhadamente, para quem é ocidental, unidas. Nas relações diplomáticas, no comércio, nas relações humanas entre vizinhos, muitas vezes tão perto um do outro como do outro lado do rio, o povo de Deus, assim reconhecido, permitia-se misturar com o culto, festas, tradições e modelos de sacrifício dos seus vizinhos.
    Luta inglória dos profetas. Vamos ver, nos textos, a radiografia desse esforço, os resultados da idolatria na vida do dia a dia do povo, o uso desse expediente por meio dos sacerdotes corruptos, dos profetas cooptados e manipulados pelo ganho dos reis, além de juízes desse mesmo time.
     Muitas vezes, sozinhos, enfrentavam toda a resistência, colocando até a própria vida em risco, com eco positivo na vida de uma anônima minoria que se matinha fiel ao Deus em quem os profetas professavam crer, autenticamente chamados àquele ministério.

    Vale a pena ler esses textos e atualizar sua linguagem, exercício de interpretação, contextualização e divulgação, para fazer valer hoje o que disseram há cerca de 2750 anos. Vamos aos textos.
  O estudo da Bíblia.
     Creio que, pelo menos para os herdeiros da Reforma, que muito breve completará 500 anos, em 31 de outubro de 2017, é ponto comum ter a Bíblia como referência para o que nos foi concedido, por meio da palavra, conhecer a respeito de Deus. Trata-se do sola escriptura de Lutero.
     Não somente conhecer, no comum dos termos, mas estudar. Qualquer curso de seminário comum, pelo menos os sérios, estabelece que o estudante terá a seu alcance exegese, hermenêutica e homilética. Que, no rasteiro, significa dizer que o estudante terá como interpretar, contextualizar e divulgar a mensagem do texto bíblico.
     E, caso seja dos mais aplicados, ainda poderá, com recursos a seu alcance, por meio de referência bibliográfica e, mais atualmente ainda, por meio da internet, aprender as línguas originais, grego, para o Novo Testamento, hebraico, para o Antigo Testamento, para, desse modo, honrar sua exegese com leitura, métodos e interpretação a partir das línguas originais.
     Mas mesmo que assim não proceda, as versões atualizadas das Escrituras, sejam elas confessionais ou ecumênicas, de leitura atualizada ou até mesmo, para efeito de pesquisa, paráfrases do texto original, servem como auxílio para um estudo aplicado, um estudo de qualidade. Não é necessário aprender grego e hebraico para traduzir o texto original: não se preocupe, já fizeram isso para vocês.
    Por que interessa estudar a Bíblia. Livro que já teve, no passado, um cartaz muito maior, entre os chamados evangélicos, do que hoje em dia. Havia até um lugar específico, chamado escola, que era priorizada para seu estudo, a outrora assim denominada ‘Escola Dominical’, atualmente quase extinta.
    Estudo da Bíblia, vou definir como a capacidade que alguém pode adquirir, ou melhor, caso queira classificar-se como ‘crente’ (sem adjetivos), é ponto de honra exercitar-se para construir modelos de compreensão dos livros da Bíblia, 66 ao todo, 39 no Antigo e 27 no Novo Testamento, falando-se aqui da ótica protestante de visão do cânon.
      Digo construir modelos de compreensão, para consumo próprio e para divulgação da palavra da Bíblia, porque ela mesma diz isso, que é necessário nela meditar dia e noite, cumprir o que vai escrito e divulgar como padrão de aceitação e imitação de seus conceitos, de suas verdades, de sua mensagem. E isso já é uma interpretação, pelo menos presente na comparação que pode ser feita entre o diálogo de Deus com Josué, no capítulo 1:1-8 desse mesmo livro, comparado ao capítulo 1 do livro dos Salmos.
   Isso para consumo, pelo menos esta associação entre essas duas unidades de texto para estimular a aceitação desse conceito de que Bíblia só existe e só serve se for para ser apreendida em meditação diuturna, prática de seus conceitos e divulgação dos mesmos para modelo de conduta. Isso mesmo: foi escrita para fazer a cabeça da moçada.
    Pois meu pretensioso objetivo é propor a construção de modelos de estudo dos Profetas Menores, que são 12, tanto na edição protestante quanto nas edições ecumênicas, e, na hebraica, estão reunidos num volume só, o chamado Dodekaprofeton que, em grego refere-se a ’12 profetas’.

     Trata-se de um estímulo a que os próprios leitores construam para si modelos de compreensão desses livros, atualizando sua mensagem para os ouvintes de hoje. Crentes, sem adjetivos. Vamos à tarefa.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Vi um louco hoje pela manhã vagando pelas ruas

  Na verdade, vi uma louca hoje pela manhã vagando pelas ruas. Vestia-se maltrapilhamente, assim, talvez, fosse avaliado. Camiseta amarela, meio manchada, mas, também, vi-a num relance, cruzei com ela duas vezes, pois arrodeei na quadra para deixar a família no Colégio.
  Vi-a duas vezes, na primeira, na esquina, ainda sobre a calçada, magricela, aparentando, certamente, mais idade do que, na verdade, tinha, falando consigo mesma. Não balbuciava ou fazia movimentos com os lábios, apenas movimentava em meios círculos a cabeça, raciocinando algo consigo mesma.
   Ah, sim, bermudas, quase um short, mesmo, meio amarronzado, descalça, dei a volta na quadra, deixei a família no Colégio, segui só com meu menino, dei com ela, agora atravessando a rua, passei por ela e comentei com ele o que me ocorreu: "Louca. Isaías diz que nem eles errarão o caminho".
    De oitiva, lembrei-me do texto de Isaías. Afinal, há loucuras maiores do que outras loucuras. A alienação dos loucos os livra de outras loucuras, essas sim, espreitam todos aqueles que fazem uso da razão e muito provavelmente nem diagnóstico de loucos apresentem.
   Esses têm, pelo menos, duas opções, ficar com sua rotina encadeada de raciocínios para seu gasto, sem demonstrar nenhum sintoma de loucura, socialmente aceitos ou, pelo menos, apenas com as neuroses de plantão, aquelas que todos temos, de que todos fazemos uso, pegadas a nós como manchas, nódoas de que não nos vemos livres. Não são loucos, mas erram em não enxergar o caminho ou seguir seu rumo como quem não enxerga ou como se não enxergassem mesmo.
   E os loucos, assim identificados, claramente, até mesmo por leigos, como eu, que nada sei nem de psicologia e nem mesmo de minhas neuroses (ou de minhas loucuras), esses loucos têm sua absolvição, porque seguem seu rumo, ensimesmados, essa, por exemplo, vagava por ali, pelas cercanias da escola, talvez conhecida até mesmo dos alunos, porém inofensiva.
   Caso não cause maiores problemas, não incomode o sossego sagrado dos sãos, não mexerão com ela, seguirá seu rumo, falando consigo mesma. Livre. Mas loucura mesmo é quando se tem, pelo menos, dois rumos a seguir, pelo uso da razão, pelo tino em dia, e se escolhe (ou não se escolhe) aquele rumo entre todos os outros o mais lógico e racional. Segue-se como que sem rumo ou desconhecendo o caminho a seguir.
   Acho que é nesse sentido que Isaías adverte que há um caminho, há um rumo tão óbvio de escolha que nem os loucos errarão esse caminho. Que caminho, afinal, é esse? A qual caminho se referia o profeta? Advertia que aqueles que têm, ou assim pensam que têm, preservada sua razão, seu tino, sua lucidez de escolha em meio aos rumos da vida, não devem desprezar essa escolha, visto que nem mesmo os loucos deixarão de fazê-la. Que caminho será esse? Só mesmo indo ao texto do profeta e conferindo o contexto.
  Fico por aqui, com a imagem da louca, já se esvaecendo, mesmo porque tenho que produzir, outra neurose, no ambiente de trabalho e não ficar lucubrando loucuras. Mas a imagem da louca, da loucura dela e da loucura como opção ficou comigo nesta manhã. E fiquei pensando na loucura de quem não é louco, mas despreza a escolha do caminho de que nem os loucos errarão, ou serão acusados de ter errado, ao fazer ou deixar de fazer sua escolha.

                                                                 Cid Mauro Oliveira.