terça-feira, 28 de abril de 2015


  Ponha-se no seu devido lugar.

            Se alguém já ouviu isso, fora uma piada ou brincadeira, ficou cismado, pelo menos. Essa expressão não costuma vir seguida (ou precedida) de luva de pelica. Costuma ser ofensiva, intimidante ou, pelo menos, uma trava para que quem ouve fique na sua, muito na sua e cesse todo litígio.

              Mas não. Essa expressão, longe de ser um recurso, eventualmente, muito utilizado, com o intuito de prender o outro na sua insignificância, postá-lo, digamos, no seu devido lugar, é genérica e assim deve ser compreendida. Ninguém pode prescindir ou presumir que não deve ser alvo dessa fala. Isso porque Jesus põe a cada um de nós no nosso devido lugar.

              Se alguém disse a você que um encontro com Jesus no meio do caminho será, sempre, suave e somente alvissareiro, enganou você. Isso porque, num primeiro momento, subitamente, o encontro com Jesus mata. Pelo menos, de novo, três figuras bíblicas que hora me ocorrem indicam que ninguém segue caminho com Jesus se não passar por morte, perda total ou cirurgia sem anestesia.

            Para ser radical, no contato com Jesus no meio da estrada da vida, para ser radical, aqui, no sentido de raiz, você morre. Literalmente. Não se trata de figura de linguagem. Isso aqui não é uma metáfora, lembra, da antiga 8ª série, agora 9º ano, quando aprendeu o que é metáfora? Não, não se trata de metáfora, aqui.

             Não estamos comparando com morte a profunda mudança, guinada, conversão na vida de quem bate de frente com Jesus, em todos os sentidos. É literal. Morre o eu. Viva, a pessoa se percebe, se vê morrendo, acordada, com todos os sentidos postos nessa transformação. Ou isso, ou tudo o que segue é falso. Ou morremos em Cristo, batizados nEle, para que Ele implante em nós uma nova vida, crie a partir do zero uma nova criatura, para que tudo se faça novo, ou será falso o que virá depois.

            Perda total. Um dos textos mais expressivos que definem conversão, na Bíblia, é aquele em que Paulo afirma que, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, por amor a ou pelo amor de Cristo, ele perdeu todas as coisas e as considera como refugo, para ganhar a Cristo, sendo nEle achado com a justiça que vem de Cristo e não outra qualquer, mesmo uma que proceda de texto legitimamente judicial ou jurídico.

            Cirurgia sem anestesia, sim, não é metáfora, mas é o que dói ser circuncidado pela mão de Deus. Paulo polemizava com os judeus que queriam forçar os novos crentes gentios, os não judeus, a submeter-se ao ritual judaico da circuncisão. O apóstolo disse que os novos e verdadeiramente convertidos já haviam sido circuncidados pela mão de Deus, textualmente, no despojamento do corpo da carne, escreve Paulo, que é a circuncisão de Cristo. Sem anestesia. Cirurgia de olhos abertos, sentidos nos nervos e lucidez total, para a troca do homem, o eu que se corrompe continuamente, sem freio e remédio, amputado, em Cristo, como despojo, substituído pelo novo eu, que se refaz à imagem e semelhança de Jesus Cristo, como a Bíblia ensina.

              Enganaram você quando disseram que, do encontro com Cristo, a gente sai alvissareiro. Num primeiro momento, não. O exemplo bíblico é o daquele jovem, sobre quem os três evangelhos narram sua aproximação de Jesus. Este remeteu o jovem a um confronto consigo mesmo e com a verdade, ela mesma, aquela do texto jurídico, que o jovem afirmou conhecê-la toda e praticar. Jesus propôs a perda total, simulando que ele devesse dar toda a sua riqueza a outrem.

              E o texto, típico em Marcos, enquadra, mais uma vez, um sentimento de Jesus, textualmente: "E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo o quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me."

                   Jesus simulou,  sem internet, perda total para o jovem. Na verdade, queria somente medir a reação dele. Foi um teste de prejuízo pecuniário total. Uma troca, inversa, de perder tudo aqui e ganhar tudo lá, troca do objetivo e concreto pelo subjetivo e suposto. Ainda Jesus acrescentou o que deveria soar como um modelo de calamidade no estilo de vida da época, que seria viver tomando sua própria cruz pessoal. E o resultado foi, textualmente, que o jovem "pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades." Não escolheu perda total. Perdeu Jesus. Ponha-se no seu devido lugar.

                 Foi demais para o jovem. Mas Jesus não poderia oferecer outra opção. Se o fizesse, não seria Jesus. Por isso está escrito que essa oferta foi feita por amor. Morte, perda total, cirurgia sem anestesia. Tome essa cruz. Ponha-se no seu devido lugar. Antes de encontrar Jesus pelo meio da estrada, estamos na condição de caminhar, pela estrada da vida, sem Cristo. Uma vez que o encontramos, se assumirmos o trauma, vamos passar à condição de caminhar pela estrada da vida com Jesus, até a (nossa) morte. Mas, pensem, se Jesus morreu essa mesma morte e ressuscitou, em Cristo, aguardamos também ressurreição. Estaremos batizados em Cristo, caso assumamos o trauma.

                De um jeito ou de outro, ponha-se no seu devido lugar.

   Por esta causa II

         Voltando ao texto da Bíblia. Aliás, voltando ao mesmo texto da Bíblia. Alguém diria, poxa, de novo? Sim, a vida é feita de voltar ao texto da Bíblia, ainda que seja o mesmo texto. Melhor ou lamentavelmente dizendo, a vida deveria ser feita de voltar, continuamente, ao texto bíblico. Trata-se de um livro referencial, ao qual chamamos "Palavra de Deus". Para nós, se Deus fala, fala por meio desse Livro. Daí essa necessidade diária, de voltar, de novo, ao Livro.

         Paulo, nessa oração, escrita no texto de sua carta aos Efésios, justifica por que a faz. Costumo tentar entender o efeito didático dessa oração de Paulo. Porque ela está aí, há, pelo menos, quase 20 séculos. Feita, pronta, então, o que ela deseja ressaltar? Eu costumo me deter nesse ponto de partida, "Por esta causa", exatamente porque é o ponto de partida e chama a atenção para o conteúdo da oração.

         Aí, eu volto no texto, linhas atrás, tentando localizar ao que Paulo se refere, exatamente quando diz "causa". Saio à procura da causa. E aí, aleatoriamente, neste texto, eu pretendo destacar o que seriam três causas. Talvez seja uma só, a causa, mas eu desejo desdobrá-la em três causas ou em três modos de atinar com essa causa fundamental.

          Primeiro, Paulo diz que, de um modo especial, ele atribui a uma revelação específica, a um privilégio seu, ter recebido de Deus a indicação de que se tratava de uma "dispensação" especial, com origem na graça de Deus, confiada a ele, mas a ser distribuída a todos. Seria essa revelação um "mistério" ou o "mistério de Cristo".

             E creio que, se aqui, falei três causas, ou da reunião de três tópicos de uma mesma causa, a primeira é que Paulo afirma que Jesus termina com todas as barreiras e reúne, em si, todos e quaisquer homens, mulheres, raças, enfim, como o próprio Paulo disse aos Gálatas, para Deus, "não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos (vós) sois um em Cristo Jesus."

              Texto de Efésios, Cristo derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade. Texto de Gálatas, quem reconstrói essa parede de separação, edificando aquilo que (Cristo) destruiu, a si mesmo se constitui transgressor. Essa é a primeira, na economia deste meu texto, afirmação que desejo ressaltar, nessa fala de Paulo, nesse trecho da carta aos Efésios: Jesus derrubou toda e qualquer parede de separação entre homens, não importa de que categoria ou em que categoria (não interessa mesmo) sejam classificados.
           
                Segundo ponto, esse ato de Deus, em Cristo, transparece, faz aparecer aos homens a multiforme sabedoria de Deus. Isto é, a assembleia, a eclésia, a igreja, a comunhão de pessoas que desse ato de Deus resulta, essa comunidade sem fronteiras indica, permanentemente, a homens e até a anjos, a multiforme sabedoria de Deus. E falar "multiforme sabedoria", em certo sentido, é pouco. É necessário (e urgente) definir do que se trata. Mas, para economia, de novo, destas linhas, basta dizer, procure maiores informações no conteúdo da mensagem do evangelho.

                 E, em terceiro, Paulo aponta para uma expressão ou limites aonde chegar, quando se trata de alcançar compreensão a respeito dessa ação de Deus ou aonde Ele pretende chegar com Seus, digamos assim, propósitos. Ele diz, em sua oração, que pretende, entre aqueles que foram alcançados pelo que ele chama (essa) "graça de Deus", que cheguem aos limites da largura, comprimento altura e profundidade, diz o apóstolo, sem esclarecer quais são. Não é tão exato como pretendemos que seja alguém, ao certo, quando fala de medidas.

               Somente conclui dizendo que se deve conhecer o amor de Cristo que, segundo ele, "excede todo o entendimento"  e arremata que isso é para que "sejais tomados de toda a plenitude de Deus". Aliás, arremata, não, porque faz a ressalva de que pode haver algo a mais, porque Deus é "poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos". Acho que aqui ele disse isso, no caso de avaliar sua oração como nem tão exata assim, com alguns pontos em que Deus poderia, ainda, completar.

               Resumindo, uma oração em que a causa é a obra que Deus realiza entre os homens, derrubando todas as barreiras entre Ele mesmo, Deus, e o homem, assim como as barreiras entre os homens, formando uma comunidade na qual Ele, Deus, pretende que alcancem, sem limites, medidas do amor de Cristo que, de si mesmo, excede todo o entendimento e que, ao final, sejamos todos tomados, vejam bem o termo, tomados de toda a Sua plenitude, da plenitude de Deus.

                Creio que, sem cerimônia nenhuma, estamos diante do despojamento de Deus. E de Sua bem sucedida tentativa de realizar comunhão com o homem. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015


     Por esta causa

            Paulo decidiu orar e expôs a causa por quê. Poderíamos deduzir, a partir desse texto, que toda oração tem ou deve ter uma causa. E, para que se constituísse numa oração de alto nível, vamos usar tal termo, de total credibilidade e grandeza de conteúdo, uma causa plena e justificável.

            Mas, na verdade, como recurso último, ao alcance de quem é único em seu uso, o ser humano, sim, porque anjos não oram, a oração não exige tais requintes. Claro que a Bíblia a apresenta, como vamos dizer, portadora de certos padrões, certa normas, certo controle de qualidade, instruções, enfim, para que seja coerente levá-la a efeito.

           Na aula que Jesus ministrou por ocasião do Sermão do Monte, assim chamado, ensinou que devemos nos dirigir, também único a quem encaminhar uma oração, ao Pai. Revolucionário, sim, porque chamar Deus de Pai, partindo da boca de qualquer homem (ou mulher, principalmente), na mentalidade judaica da época, era pura blasfêmia. Total blasfêmia.

            Era intimidade demais. Mas é este o ponto de partida de qualquer oração, intimidade para dirigir-se a Deus como Pai. No mesmo sermão, Jesus dá outras instruções sobre oração. Evitar exibição, fala rebuscada, como se quisesse ser visto, ouvido, dignificado, orações públicas, de efeito, só para aparecer, usando este termo coloquial. Pura vaidade, não pense que haverá efeito, para Deus, haverá, apenas, falsidade e engano para ouvintes desavisados. Hipocrisia, que é máscara.

             Orações quilométricas, Jesus desaconselha, pelo muito falar pensam que vão ser ouvidos. Vão cansar Deus. Pelo caráter daquele a quem são dirigidas, as orações não precisam ser longas, nem cheias de floreio, requintes, tentativa de ouvir de si para si, com o intuito de autoavaliar-se um orante de alto nível. Como diz Jesus, já recebeu a recompensa, ou seja, alimentou-se da própria soberba, viu-se a si mesmo no espelho, como diz Tiago, para logo esquecer-se.

             Orações repetitivas, por razões variadas, que podem ser de uma insistência em obter algo que muito se deseja, mas que não convém ou não é urgente ou inteligente pedir. Fundamental é o que Jesus ensinou pedir na chamada Oração do Pai Nosso. Ali está o fundamental, e ainda se torna necessário refletir sobre que meios são necessários ao homem para que se cumpram ou sejam acertadas, no dia a dia, a ocorrência daquelas principais necessidades ali expostas.
   
             O que a mim cabe para que seja santificado o nome do Pai? E para que venha o Reino, a cada dia, visto, enxergado em mim e aberta a porta para que outros nele entrem. Ah, o mais difícil, o que cabe a mim para que a vontade do Pai seja feita na terra? Para que seja feita no céu ou, uma vez feita no céu, está posto o padrão para que se faça na terra. E para que o pão nosso de cada dia chegue a nossa mesa, sim, e para que chegue à mesa de quem falta?

            Depois de que a vontade seja feita, aqui embaixo, no mesmo modelo de como é feita lá, em cima, esta agora é a mais difícil, tão ou mais do que essa outra, que é perdoarmos como Deus perdoa. Está posto que a condição de crente está restrita a certos indicadores dos quais não podemos fugir ou negar, se praticamos ou não praticamos. Perdoar-se, ou não, na proporção idêntica do modo como Deus perdoa, e isso se chama amor: ou se perdoa assim, ou não se perdoa. Soa falso.

             E o que devo fazer para não me deixar cair em tentação? Deus sempre está disposto a livrar-me do mal (ou livrar-me de ser ou tornar-me mal, agora que me converteu a Si), sim, mas como vou me colocar, diante de Deus, na condição de ser livrado do mal? Jesus sempre se colocou em condição de ser livrado do mal. Na tentação, primeiro, colocou a palavra de Deus acima da intenção de satanás de ordenar a ele o que deveria fazer.

            Em segundo, Jesus não duvidou das intenções do Pai a seu respeito, quando satanás quis supor ou induzi-lo a supor que Deus, apenas por um momento que fosse, faltaria em guardá-lo. Jesus não precisava colocar o Pai em prova, como nenhum de nós precisa ou vai duvidar que Deus, permanentemente nos guarde. E, em terceiro, satanás não desviou de Jesus a exclusiva atenção que concedia a si mesmo de somente adorar o Pai. Uma vida de adoração, para que seja autêntica, pressupõe santidade. Jesus se comprometeu com o Pai em preservar sua santidade, negando-se a adorar qualquer outro e repreendendo satanás, adorador de si mesmo.

              Jesus é meu modelo de oração. Repita isso para você mesmo. Não que a repetição mecânica vai virar um mantra e te fazer maduro em oração, mas que pratiquemos isso, ou seja, pratiquemos as instruções de Jesus para aprender a orar. Jesus orou publicamente, diante de Jerusalém, quando chorou porque a cidade recusou crer. Orou publicamente, também, diversas vezes, quando invocou o Pai para efetuar, em nome do Pai, em obediência ao Pai e invocando o nome do Pai, os milagres que o confirmavam como Filho de Deus e salvador dos que creem. Jesus orou com os discípulos, orou sozinho, reservado, à parte, orou no Getsêmani, sozinho, quando desejava orar em comunhão. Jesus é meu modelo para a oração.

             Frágeis como somos, muitas vezes nossa oração tem uma causa que até pode mesmo ser infantil. Ou uma causa deslocada de importância, esta, quando deveria ser aquela. Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai. Creio que a melhor maneira de, digamos assim, selecionar a causa certa, bem centrada, para uma oração qualquer, é treinar. Orar muito e orar sempre. Porém, adquirindo certo traquejo para fazer um controle de qualidade, como diz Paulo, para não sermos como meninos, levados ao redor por qualquer vento ou artimanha de homens. Enganado-nos a nós mesmos (ou sendo enganados).

              Orar como Jesus orou. Folhear a Bíblia, não displicentemente, mas com fome e sede dessa Palavra, que vai nos ensinar modelos de oração. Salmos, quantas orações nesse livro! As orações de Abraão, o crente mais citado na Bíblia. As orações de Eva. Orações de Abel, de Daniel, de Neemias, de Jeremias. Modelos de oração, meditar neles e pedir a Deus que, por meio de seu Espírito, nos instrua, para que sejamos lúcidos, que nos permita enxergar, para dentro de nós, assim como para fora de nós, situações que nos amadureçam em nossa conversa e relação com o Pai. 

              Como disse o próprio Jesus, vós orareis assim, assim devemos orar, para aprender a enxergar o mundo com outros olhos, pressentindo, como Jesus, tendo as mesma motivações que Ele teve, quando sentia necessidade de orar. Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai.

sábado, 25 de abril de 2015


 Uma estalagem à beira do caminho.

            O profeta Jeremias, diante do dilema que seu ministério lhe representava, certa vez desejou a possibilidade de uma fuga de sua dura responsabilidade. Isso porque sua penosa tarefa era denunciar Judá como reincidente no mesmo pecado de sua irmã Israel e condenado ao mesmo doloroso remédio: o exílio. Se aquela, Israel, a irmã adúltera, como Jeremias se referia à traidora do Senhor, idólatra, imoral e corrupta, foi enviada à Assíria, Judá, esta irmã que seguiu o mau exemplo da outra, seria enviada à mesma região, agora submetida à Babilônia.

             Era o Êxodo ao inverso. Se o povo fora retirado, a fórceps, do Egito, pelas mãos do Senhor, agora, contramão da história, retornaria ao cativeiro. Era uma realidade ao inverso, dura para Jeremias, que se constituía, como profeta fiel ao Senhor, em minoria, rejeitado que era até em sua pequena vila, Anatote, que ficava pertinho, a menos de 10 km de Jerusalém, a capital. Por isso, com o fardo de denunciar o pecado de Judá, do rei,de seus príncipes, anciãos, juízes, sacerdotes, enfim, até falsos profetas em maioria, todo o povo, e apontar na direção do exílio em Babilônia, Jeremias fantasiou fugir e, para tanto, como já tentara Moisés, esconder-se numa estalagem à beira do caminho. Desistir de tudo.

           Deus não permitiu. A Bíblia diz que o amor de Deus nos constrange, o que significa dizer, ficar sem saída, sem chance de escolha. Assim se sentiu Jeremias: Deus não o deixaria abandonar seu ministério. Nem para que fosse para a estalagem à beira do caminho. Jesus veio para instalar, à beira do caminho, a estalagem que não nos faz abandonar, rejeitar ou fugir, porém assumir o ministério. A igreja de Jesus é a estalagem à beira do caminho.

            Não entramos na igreja, não nos tornamos parte integrante da igreja, que Paulo, o apóstolo, diz ser parte integrante do corpo de Cristo, para fugir do mundo, para nos escondermos, para abandonar, por medo, as responsabilidades. Não. Somos feitos igreja para assumir a condição de servos, à serviço de Cristo, no mundo. Asim como Jesus Cristo apresentou-se ao mundo como servo de Deus, a serviço do mundo, a igreja é feita por Jesus, é composta, edificada por Jesus de servos de Deus, como ele, Jesus, a serviço do mundo.

             Estalagem à beira do caminho, porque se constitui num refúgio que supre acolhimento ao sofrimento humano no mundo. Nela Jesus protege aqueles a quem alcança com Seu amor. O homem não sabe identificar o que mais o aflige. E no seu desatino agride a Deus, a si mesmo e ao próximo. O maior problema no mundo é o homem e sua maldade. A igreja, a verdadeira igreja de Jesus é aquela que acolhe os que foram resgatados desse dilema e agora recebem, de modo permanente, o tratamento para a sua cura definitiva.

             Por isso a igreja é um lugar de paz. Mas ali se encontram os enfermos que, recentemente, foram recolhidos e ali abrigados. Costumo dizer que igreja é como um hospital especial, para um mal específico, que a Bíblia chama pecado, do qual hospital nunca receberemos alta. Por isso há quem estranhe a igreja e tenha reclamações do que ocorre lá dentro. Atribui seu distanciamento às decepções que teve, razão da sua saída da estalagem do meio do caminho. Mas o salmista, no Salmo 133, insiste em dizer que é onde o Senhor ordena a sua bênção, porque é ali onde os irmãos vivem em união.

               E não adianta tentar criar uma igreja à nossa imagem e semelhança, porque quem chama e quem constitui, quem dá forma à igreja é Jesus. É evidente, não adianta negar, que nem todos os que lá se encontram são, verdadeiramente, convertidos. Mas quem vai distinguir entre joio e trigo é Jesus, e não nenhum de nós. Se tentarmos, cometeremos injustiça e seremos culpados desse juízo, que a nós não compete. Então não diga que não vai para a igreja por causa dos defeitos que lá enxerga, porque os patronos desses defeitos ganharão mais uma, sendo sem razão usados como desculpa de seu afastamento. Você está lá por Jesus? Então é verdadeiro crente e nunca vai sair. E constitui-se num erro se os que lá estão entraram porque os influenciamos, e não foi em nome de Jesus que lá entraram, isso quando não somos nós mesmos e é por nossa causa que tantos ou quantos saíram.

               Mirem-se no exemplo de modelo dos que são padrão. Verdadeiramente padrão, tenha olhos de ver, para não trocar um pelo outro e mirar no mascarado. Em Jesus, todas as máscaras caem. Diante de Deus, como Adão e Eva, todos estamos nus. A roupa com que Deus nos veste é original, como ocorreu no Éden, e cobre a nossa nudez. O sangue de Jesus constitui-se no preço da remissão, purificando, como diz o autor de Hebreus, a nossa consciência de obras mortas para servirmos ao Deus vivo. Remissão é ter a dívida de pecado paga pelo sangue de Jesus.

              Certa vez, tentaram encurralar um verdadeiro crente do Antigo Testamento. Neemias foi chantageado por três tentativas de seus adversários. Numa primeira vez, chamado para acordos suspeitos, rejeitou. Numa segunda vez, uma carta aberta, que procurava detratar publicamente esse governador. Na terceira e última tentativa, convidaram-no para um encontro secreto no interior do Templo em Jerusalém. A resposta de Neemias, primorosa: homem como eu não entra no Templo para que fuja, para que se esconda, para que se proteja.

               A igreja, a estalagem no meio de nossa jornada, não se constitui num lugar de fuga do mundo. Também não é lugar onde quem entra, o faz para receber vantagens, auferir lucro para si. É um lugar, sim, de proteção, da angústia que aflige a alma, mas não é proteção para os covardes, do tipo entre os quais Neemias não se inscrevia. Não é lugar para alienados do mundo. Jesus integrou-se e interagiu com a sociedade de seu tempo. Na estalagem cabem muitos caminhantes. Daquele tipo que o servo de um Senhor exigente recolheu, numa parábola que Jesus contou, para uma festa programada.

                   Uma grande maioria de convidados não viu vantagem nenhuma em comparecer. Muito provavelmente não era, segundo avaliaram, para gente de seu nível. O dono da festa disse ao servo que passasse e repassasse pela cidade recolhendo todos que fossem periferia. Havendo sobrado lugar, ainda, mandou que chamasse mais gente mais à margem, dentre os que a si mesmos nenhum valor atribuíam.  A casa se encheu. Essa casa é a igreja. Somente vão à festa os convidados que a si mesmo nenhum valor se dão, tão à margem se encontram.  Mas na casa serão acolhidos pelo Senhor, receberão vestes, porque o convite feito, caso aceitem assim se classificar como dignos desse convite, é para que sejam lavados e limpos pelo sangue do Cordeiro.

terça-feira, 21 de abril de 2015


  Levítico

    Um dos livros, talvez, menos lidos na Bíblia. Isso porque tem pouca narrativa, isto é, se ainda há quem se interesse pelas narrativas bíblicas. Digo isso porque, atualmente, os que mais deveriam nutrir interesse pela leitura do Livro, entre aqueles do grupo outrora chamado 'os Bíblia', estão deixando de lado o Livro.

    E recomeçar pelo Levítico, talvez, de novo, não fosse boa ideia. As narrativas bíblicas já povoaram a imaginação dos crentes, através dos anos. Porém outras são as ocupações e distrações para a mente, hoje em dia. Facílimo manter-se ligado à telinha, que já foi a da TV, a partir dos anos 50, passou pela do computador, início dos anos 90 e agora, neste começo de século, fixou-se na tela do Smart Fone. 

   Bem, nada contra, muito embora, até às linhas deste texto, eu não tenha adquirido o meu. Porém, fatalmente, vou adquiri-lo, mais tempo, menos. O problema será caso vire fixação, não permitindo que, nos intervalos, seja prudente que se construam, ou resgatem, relações. Como, por exemplo, ler a Bíblia, que significa relação com Deus. Surpreendi-me, dias atrás, com um companheiro de banco de praça que iniciou agradável conversa, em meio à qual discutiu essa perda da capacidade de, simplesmente, conversar, ao vivo, ele quis dizer.

    Pois, sem mais delongas, uma das obrigações, ou melhor, aqui, prazeres roubados aos mortais nestes dias é aquele de ler as Escrituras. Levítico constitui-se num desafio, exatamente porque necessita do esforço de ser desmembrado, de ser, como diz Paulo a Timóteo, bem manejado. Manejar bem a Palavra da Verdade. Pois esse critério se aplica, também, ao Levítico.

     Nos capítulos iniciais são descritos 5 tipos de sacrifícios. Constituem-se numa chave inicial para compreender, duma vez, (1) o próprio livro de Levítico, (2) a espinha dorsal da religião de Israel e (3) a projeção profética permanente que se fazia, no grande audiovisual que foi o ritual do Antigo Testamento, a respeito do sacrifício de Cristo, central na história da revelação.

      O 'alah, holocausto, ou seja, a queima total; a minhah, oferta de manjares; as shelem, ofertas pacíficas; o 'asham, a oferta pela culpa; e o hatta'th, a oferta pelo pecado. São cinco os tipos de sacrifícios. Todos eles associados à rotina de vida do ser humano, ao mesmo tempo em que tipificavam elementos presentes na relação com Deus.

        A escala de aproximação de Deus, para o homem, começa com o 'asham, a oferta pela culpa, visto que esse sacrifício aponta para a realidade genérica de que todos pecaram e carecem ou, como diz outra tradução, destituídos estão da glória de Deus, como está escrito em Romanos 3:23. Essa oferta indica essa generalidade, qual seja, todos são iguais, perante Deus, no mesmo grau de culpa.

         Já o hatta'th aponta para outra realidade, que somente a Bíblia define como certa, é de que não temos condições de dizer que não cometemos, eventualmente, pecado contra a santidade de Deus. Aliás, uma coisa está associada a outra: o fato de nos convencermos, ou melhor, sermos convencidos pelo Espírito Santo, como está em João 16:8, de que somos pecadores, diante de Deus, portadores dessa culpa, enseja o fato de que, eventualmente, pecamos.

       João também nos socorre com relação a essa verdade, quando diz que, se alguém negar que é pecador, mais do que fazer-se, automaticamente, mentiroso, estará chamando Deus de mentiroso, porque é Ele quem nos convence de que somos pecadores, apontando e mostrando em nós essa triste realidade. E vai ser também, segundo nos mostram as Escrituras, quem nos redime dessa condição: Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós (isto é culpa) [...] Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo - isto é, fazemos Deus - mentiroso, e a sua palavra não está em nós (isto é pecado eventual, decorrente da nossa condição de pecadores)- 1 João 1:8 e 10. 

        O 'alah, holocausto ou, literalmente, queima (causto) total (holo) aponta para a realidade de que Jesus Cristo, para nos redimir, pagar o preço, cobrir a culpa, ofereceu-se totalmente ao Pai. É perda total. Como diz Paulo aos Filipenses, se alguém pretende fazer essa troca, sua vida perdida, entregue a Deus, em troca da oferta da vida de Cristo, pode se preparar, porque será necessário encarar perda total: Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, paara ganhar a Cristo e ser achado nele não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo Jesus, a justiça que procede de Deus, baseada na fé - Filipenses 3:8-9.

      Com relação aos dois outros, o minhah e o shelem, significam de modo amplo, em nosso retorno, diante da graça sem limites de Deus, o que temos, agora, a oferecer. Mediante a entrega total de Jesus, essa mesma graça nos reeduca, como ensina Paulo a Tito: a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos, Tito 2:11-12. Então temos a oferecer a nós mesmos: Ele - Jesus - morreu por todos, para que os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou - 2 Coríntios 5:15. Com relação ao minhah, a oferta de manjares representa a obediência  em reposta ao Senhor, com a qual brindamos Deus com nossa fidelidade, nosso compromisso com sua verdade e a responsabilidade por sua obra entre os homens.

       Desse modo é que, desde o Antigo Testamento, o homem, perante Deus, foi responsabilizado por transmitir aos semelhantes as verdades da revelação. Moisés lembra como, em Deuteronômio 5:27, o povo fez com Deus aliança, nos seguintes termos: Chega-te, - disseram a Moisés - e ouve tudo o que disser o Senhor, nosso Deus; e tu nos dirás tudo o que te disser o Senhor nosso Deus, e o ouviremos, e o cumpriremos. A partir daí, homens transmitem a homens a palavra de Deus. Oferta de manjares é a contrapartida da obediência devida a Deus e da responsabilidade de sustentarmos, no mundo, a obra de Deus, na transmissão de Suas verdades aos homens.

       Por isso que o dízimo, tão combatido e mal entendido por tantos, foi assumido pela igreja de Jesus, nos dias atuais, como símbolo dessa fidelidade e compromisso de obediência, como justa modalidade de contribuição, para o sustento da obra que devemos realizar, em nome de Deus. Já a oferta pacífica, assim denominada, shelem, da mesma raiz da palavra shalom, paz, significa toda a amplitude das bênçãos com que somos contemplados por Deus. Retiro do meu sustento, para além dos 10% que assumi como compromisso, outra faixa monetária, em resposta e retribuição pelo que Deus me concede e que, certamente, sustenta e sobra.

       Fui criado por um casal de origem na classe social mais baixa, pobre mesmo, só não eram miseráveis, como há muitos. Meu pai, numa carta que enviou, da roça, da colônia, como chamam aqui no Acre, a minha mãe, noiva recente dele, e que estava na cidade 'grande' do Rio de Janeiro, descreveu a refeição que faria na casa da irmã, poucas léguas a pé do lugar em que estava, em casa de seu pai. Nessa carta, ele descreve a refeição, de como, na zona rural, em 1952, havia roçado de milho e feijão, hortaliças, criação, quais eram, porcos, galinha, escambo com vizinhos, para que bem se alimentassem.

         Casados em 1954, morando de aluguel até 1967 e, a partir desse ano, enfiados num brutal financiamento de seu apartamento no Méier, nunca deixaram de ser dizimistas, ele, funcionário público do IBGE, ela, professora de 1ª a 4ª antigas séries, ganhando salário provisório, em julho e dezembro, acumulado, nunca, vou repetir, nunca deixaram de ser dizimistas. A a oferta pacífica deles era constante, mais tipificada em julho de cada ano, que era o mês de Missões, para minha mãe, da denominação Congregacional e, para meu pai, pastor batista, era a oferta pacífica para a Junta de Missões Nacionais (e Estrangeiras também) dos Batistas.

         Assim fui criado, como se costuma dizer. Retorno. Oferta de manjares e oferta pacífica, doces nomes de enlevo, delícias, paz, prosperidade, não essa absurda, ridícula e abusiva que está aí, na mídia, mercenários do 'teatro, templo e mercado' em que transformam seus ministérios, agora, pseudo ministérios. Mas a prosperidade de José, nas mãos de quem a vontade de Deus tinha livre curso: E nenhum cuidado tinha o carcereiro de todas as coisas que estavam nas mãos de José, porquanto o Senhor era com ele, e tudo o que ele fazia, o Senhor prosperava - Gênesis 39:23, profeticamente tipificando Jesus, nas mãos de quem a vontade do Pai prospera: ...e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos - Isaías 53:10c.

        Tarefa de casa: ler o Levítico. Porta de entrada desse livro: 'asham, admissão da culpa; 'alah, o holocausto de Jesus, que nos permite trocar nossa vida em pecado pela vida em santidade; hatta'th, enfrentamento e vitória, em Jesus, sobre o pecado eventual, como disse Jesus, basta ao dia o seu próprio mal, Mateus 6:34c; e minhah e shelem, nosso retorno, frente à graça sem medida e sem tamanho de Deus, derramada toda e completa no coração de cada verdadeiro crente salvo, tipificando o privilégio do sustento do verdadeiro ministério no qual e do qual somos servos. 

terça-feira, 14 de abril de 2015


 Verdadeiros adoradores

         É temerário, quando se trata da Bíblia, com relação à sua interpretação, retirar ou acrescentar. Evidentemente, estamos tratando aqui de leitores/intérpretes honestos com relação ao texto. Aliás, princípio para todo o tipo de interpretação, tirar ou pôr será violência contra a originalidade do documento, seja ele qual for. Mas, no caso que trataremos aqui, não se trata dessa falta, mas trata-se de uma proposta de leitura diversa da que, costumeiramente, é feita. Vamos dar um break na leitura de um trecho (vai ficar parecendo um breque, que me desculpem os puristas e seja lembrado o Moreira da Silva).

         O trecho em questão é aquele da narrativa de João 4, o célebre encontro entre Jesus e a Samaritana, primoroso diálogo. Aliás, primorosa toda a história. Se não, leiam lá, para avaliar, com olhos de ver bem abertos. Então, chega numa altura da conversa, Jesus relativiza a religião, mesmo porque aquela mulher já estava saturada de gente que só a atrapalhava, quando se tratava do que ela avaliava como essencial, que era sua busca por adoração, e diziam a ela que somente no lugar certo ela obteria resultado aceito como culto.

            Foi quando Jesus denunciou os dois grupos de religiosos e suas exigências descabidas, ou que fosse formulação doutrinária, ou receita de ascese requerida, somente antepondo obstáculo ao que, de coração, a mulher buscava. Jesus formulou, então, que o conteúdo do coração da mulher teria eco no coração de Deus, independentemente do lugar do culto, fosse no Templo em Jerusalém, ou seu contraponto em Samaria, ou em nenhum outro lugar geográfico, ou em qualquer outro lugar, enfim, Jesus explicou, e disse: "Porque o pai - no caso, Deus - procura verdadeiros adoradores que o adorem em espírito e em verdade."

              O breque, sugiro, deve ser na expressão "verdadeiros adoradores". Proponho a seguinte leitura: "Deus procura verdadeiros". Pronto. Para ser adorador, é necessário ser verdadeiro. Caso alguém busque ser verdadeiro, será, consequentemente, considerado adorador. Porém, uma vez que não busque a verdade, jamais será adorador. Mas no que o homem/mulher precisa ser verdadeiro para que, somente, então, seja considerado adorador? Em tudo. Vai precisar ser verdadeiro em tudo. Autêntico, como Deus é e se mostra, agradando-se da verdade no íntimo, já dizia Davi num de seus salmos. Aliás, mais de uma vez, mesmo redonda e profundamente mergulhado em seu erro, atolado em seu próprio lodaçal, Davi se mostrou verdadeiro.

             Em outros trechos da Bíblia, ocorre essa confrontação entre adoração e verdade. Por exemplo, nos tempos do ministério de Samuel, Israel bateu-se com os filisteus, seus seculares inimigos. Eram povo do litoral da Palestina, dizem os historiadores terem sua origem em Chipre, abalando-se de lá para uma tentativa de invasão do Egito. Tendo fracassado, instalaram ali mesmo, na hoje ainda famosa faixa de Gaza, a meio caminho do objetivo original, que era o delta do Nilo, pegando no pé, literalmente, dos israelitas.

              Ao pé das montanhas, eles ficavam, impedindo que os judeus descessem ao litoral, inclusive, nessa época de Samuel, juiz, profeta e sacerdote, diz a Bíblia que o jugo era tão cruel que, ainda somente para amolar ferramentas agrícolas, era necessário pedir permissão aos filisteus. Um jugo desses foi que motivou Israel a pedir um rei, com tudo que implicava essa mudança. Pois numa dessas escaramuças, para efeito de amedrontar os filisteus, visto mesmo que, nessa situação, o exército de Israel não era lá valente o bastante, como de costume, resolveram fazer um jogo de cena e trouxeram a Arca da Aliança para o arraial militar, próximo à tenda em Siló.

         E diz lá o texto bíblico que puseram-se a comemorar antecipadamente, de tal modo e em tal altura que, do acampamento inimigo, ouviam-se as vozes de júbilo. Amedrontaram-se os filisteus com essa empolgação toda, lá no acampamento adversário, e deram por perdida a batalha, inclusive evocando as verdades que conheciam a respeito da fama dos 'deuses' dos judeus. Era boa hora para que o Altíssimo lhes desse uma lição, mas não, Ele preferiu deixar transparecer a falta de verdade que havia em meio do povo de Israel, chamado por seu Nome. Uma voz entre os filisteus os repreendeu pela demonstração extemporânea de medo, estimulando-os a serem fortes e não se tornarem, como os judeus o eram, escravos dos próprios inimigos.

          E, dessa feita, quem perdeu a refrega foram os judeus. De nada adiantou Arca da Aliança, gritos de júbilo, fetiche, adoração, rejubilar-se. Faltava autenticidade. Os judeus, naquele dia, não foram verdadeiros diante de Deus. Por isso, nenhuma ajuda, coragem ou brio que os socorresse, como em tantas outra vezes ocorreu, quando mesmo em desvantagem. Por exemplo, na chamada Guerra dos Seis Dias, em 1967, estavam cercados por todos os lados: Jordânia, ao leste; Egito, ao sul; Síria, ao norte. Em menos de uma semana, venceram. Porém, uma vez sem autenticidade, não se esperem, da parte de Deus, subterfúgios, jogos de azar ou fetiches, como o uso de talismãs, como tentarem fazer com o baú de utensílios memoráveis, revestido de ouro, ao qual chamavam Arca da Aliança. Se haviam rompido, com Deus, sua aliança, que não trouxessem a Arca.

          Adiante, lá mais para o final do período dos juízes, pouco antes da transição que Samuel representava, houve um dos fatos mais escabrosos que a Bíblia registra em sua tradição. Não que seja novidade porque, infelizmente, lugares geográficos há no mundo atual onde ocorre esse mesmo drama, sumamente covarde, desprezível e deprimente, marca da decadência da condição humana, que é o estupro coletivo. Uma história de amor pungente, sincero e modelar, findou nessa violência gratuita, praticada contra um casal recém-casado. Vamos resumir, mas você pode lê-la, completa, no final do livro dos Juízes, o sétimo livro a partir do Gênesis.

           Um levita, servidor do templo, do culto e instrutor da Lei do Senhor teve, na região montanhosa de Efraim, ao norte, um affair, no bom sentido, o que chamaríamos flerte ou paquera, porém chegou a casamento, com uma mocinha turista de Betel, ao sul. Adiante, casal novo, relacionamento nem meio maduro, ainda, desentenderam-se. Ela voltou para a casa dos pais, arengue que durou 4 meses de ausência da esposa. O homem, apaixonadíssimo, empreendeu jornada, a fim de reaver seu amor e foi bem sucedido. Muito bem recebido na casa dos sogros, pela esposa e pelos pais, insistiram com ele que não voltasse logo, o que ele anuiu, e essa conversa repetia-se e prendeu, em Belém, por quase mais uma semana, o casal.

          Afinal retornando, caminharem até o anoitecer, alcançando um entroncamento de duas cidades, Jebus, que será a futura Jerusalém, embora, naquela época, ainda cidade estrangeira aos judeus, encravada na terra que começavam, apenas, a ocupar. Decidiram, então, pernoitar na outra cidade de patrícios deles, possessão da tribo de Benjamim, denominada Gibeá. Acomodados na praça da cidade, deu com eles um ancião que, compadecido, sugeriu-lhes que pernoitassem em sua casa. O casal concordou, foi quando homens, quais a Bíblia indica como 'de Belial', isto é, demoníacos, maléficos, bateram à porta do hospedeiro e insinuaram que lhe entregassem o homem, para dele abusarem, muito óbvia, provavelmente e inclusive, sexualmente.

        Ora, a hospedagem, no Oriente, é dom inviolável. Recomendação bíblica que seja praticada, ao grau de, até mesmo, que seja fator de apaziguamento mesmo entre inimigos beligerantes. Pois esses 'filhos de Belial', além de violar esse princípio, também violaram outro que foi intentar, por violência gratuita, contra a integridade física e moral do levita. O homem que os hospedava sugeriu que violentassem sua filha. O levita, hóspede da casa, resolveu dar sua esposa aos arruaceiros. É claro que vamos estranhar essa decisão, principalmente tendo dito, linhas atrás, que havia amor entre eles, apego mesmo, como casal de amantes, prova disso foi a jornada empreendida para reaver a mulher.

         Mas não adianta nada olhar com olhos de hoje os modos daqueles dias. E assim, do mesmo modo que hoje, consoante os maus costumes, o desfecho da história resultou em destrato e violência gratuita contra a mulher, incluído o menosprezo, ainda o secular e recorrente machismo. Porém, em sua atualização, o século atual não difere, quando se trata de qualquer espírito crítico mal dirigido contra costumes, maneiras e gestos dos tempos bíblicos. Isso porque estupro coletivo está nas manchetes dos dias. Constitui-se anacronismo grosso pretender desabonar a Bíblia, portanto, em suas realistas narrativas, quando a velha humanidade, tratando-se do refinamento de sua maldade, continua a mesma.

             Pois, ao encontrar morta a esposa, deitada ao umbral da porta, após a gana dos estupradores, que a violentaram toda aquela noite, friamente o levita a pôs sobre sua montaria e continuou o rumo da viagem de retorno. Chegado a sua casa, retalhou, desmembrando o corpo da esposa em doze partes, equivalentes às doze tribos de Israel. Muito provavelmente, embora a Bíblia não mencione, deve ter salgado as partes, porque, senão, chegariam ao destino putrefatas. Requintes. Ao receberem cada pedaço, as tribos inquiriram do que se tratava o absurdo e resolveram reunir-se, o que fizeram em Mispá, para deliberar. Ouviram a história contada pelo levita. Eram 400 mil homens. Decidiram justiçar Benjamim, que tinha 20 mil homens em sua guarnição, fora uma tropa de 700 atiradores de elite, sim, que manejavam fundas, eram snipers, sim, segundo a Bíblia acertavam um fio de cabelo à distância de um tiro de pedra.

           Duas vezes foram derrotados todo o Israel, em cada escaramuça perderam, para Benjamim, respectivamente, 20 e 18 mil homens. Por quê? Por falta de autenticidade. Deus não deu apoio a Israel, mesmo juridicamente justificável e ainda para mais do que suficiente a quantidade de dez vezes mais soldados, porque a verdade, se não estava, como claramente ficou demonstrado, com Gibeá, muito menos tinham as demais tribos postura de santidade, diante de Deus, para que punissem Benjamim. Deus requer verdade e verdadeiros. Ponto.

               Terminando o texto que já se faz longo, falta apenas discutir outra situação que bem define adoração e autenticidade. Trata-se, vou assim denominar, a Tentação de Jesus ao inverso. Sim, porque imagino que satanás, quando escolheu em que áreas da vida haveria de instigar Jesus, refletiu sua estratégia e avaliou testar Jesus: (1) em sua fidelidade à Palavra de Deus; (2) em relação à legitimidade do cuidado do Pai com seu Filho; (3) em relação a quem, em último caso, deve-se prestar adoração.

           A primeira proposta do adversário de ocasião era para que Jesus saciasse sua fome usando seu próprio poder, supunha satanás, para tornar pedras em pão. Jesus replicou que sua fome era satisfazer a vontade de seu Pai e o poder de Deus não estava a disposição do Filho para satisfazer caprichos e necessidades imediatas, fora dos critérios do juízo de Deus. O homem deve viver da palavra que sai da boca de Deus. Aí está a verdade de Deus para o homem.

         A segunda proposta foi para que Jesus soubesse se Deus haveria de livrá-lo de qualquer risco,  "atira-te daqui abaixo", provavelmente satanás testando se Jesus confiava no Pai o suficiente, visto mesmo que, pelo que Jesus lia, escrito no Antigo Testamento, a respeito do Filho, eram intenções do Pai fazê-lo enfermar, moê-lo, enfim, sacrificá-lo. Provavelmente satanás desejava ir mais longe, como sempre, jogando um contra outro. Jesus fechou com o argumento de que não devemos intentar contra Deus, tentando-o, supondo-o equivocado em Sua vontade.

         Satanás encerrou, segundo ressalta Lucas, até ocasião oportuna, radicalizando e supondo que, como sempre intentou, pretendendo julgar-se igual a Deus, fosse adorado em lugar do Altíssimo, vício esse antigo que, segundo informa Ezequiel, o profeta, está mesmo na essência do diabo, que é ver-se como Deus ou até acima e desejar ser mesmo adorado por Jesus, do mesmo modo que este adorava, literalmente, o Pai. O pai da mentira, como a Bíblia o define, não tem verdade nem para que  seja considerado um adorador, que dizer ser adorado.

        Tentação ao inverso foi satanás supor (1) que Jesus não optaria por obedecer a palavra de Deus, assim como (2) supor que Jesus se prevenisse contra  o Pai, testando o cuidado e amor do Pai pelo Filho e last, but not least, segundo Lucas, (3) supor que Jesus o adorasse como só Deus merece ser adorado, esta última, uma afronta e sumo atrevimento. Deus procura verdadeiros. Se somos verdadeiros em tudo o que pensamos, no recôndito, no íntimo, em todas as atitudes, mesmo quando pecado, sempre confessado, nunca presumidamente escondido, Deus nos aceita como adoradores.

        Como diz Davi no Salmo 51, Deus tem prazer na verdade que abrigamos no íntimo, ali treinados pelo Espírito Santo, que dá testemunho dessa verdade. Eis aí uma diferença, desde o Éden, quando o homem resolveu culpar Eva no primeiro contato com Deus após a queda, "a mulher que tu me deste", enquanto que a mulher resolveu admitir sua culpa, "a serpente me enganou e eu comi". Adoradores adoram em espírito e em verdade. Em qual dos dois houve verdade? Qual dos dois se dispôs mais prontamente a receber o perdão? Assim como, na conversão, se dá a primeira oração, dá-se o primeiro ato de adoração, quando, como diz Pedro, a "candeia (palavra) de Deus brilha em lugar tenebroso". Como orou Davi, "Deus, que derrama luz sobre as minhas trevas". Deus procura verdadeiros. Então, serão adoradores. Mas se não são verdadeiros, não são adoradores.

sábado, 11 de abril de 2015


  Casa de minha avó.

                Chegou a mim a notícia que pretendem vendê-la. Casa de vó nunca deveria ser vendida. É uma coisa que carregamos dentro de nós, ao longo da vida. Mas, já dizia meu velho, e já ido, pai: o tempo é inexorável. Mas nunca vai apagar a casa da vó de dentro de mim. O que me lembra a casa da vó? Ora, vai depender muito da ótica com que se olha. Pois aí vai a minha, muito pessoal. Ou, dependendo desta vírgula, vai muito, pessoal!

              O evangelho. Outros mais, outros menos, a vó Eunice levou todos os netos que pôde levar, que o tempo lhe permitiu levar à Igreja Congregacional de Nilópolis. Uns mais, quando os pais desses meninos ou meninas eram mais descuidados, não dando a esse mister a máxima importância. Pois Eunice assim acreditava, que deveria ser dada a máxima importância. Hoje, os netos e netas são pais e mães, aliás, Eunice tem neto que já é avô, mais exatamente o Rúbio, que chamamos Rubinho, mais exatamente ainda, avô do único trineto que alcançou Eunice viva. Pois tais netos e netas nunca poderão dizer que, por ela, não foram conduzidos à máxima importância. Se deram à essa máxima importância a importância devida, só eles podem responder. Mas nunca poderão dizer que não foram, da casa da vó, conduzidos, por mão dela, à igreja.

          Eu, por ser, dos netos, o mais velho, com apenas duas lindas primas à minha frente, nesta vida, por míseros dois, um ano de dianteira, ainda lembro o avô que tinha na casa da vó. Tula, o avô e seu apelido, tinha uma oficina para reparos dos artefatos daqueles idos como, por exemplo, rádios à válvula. Rsrsrsrsrsrs. Eram aqueles dispositivos que variavam no tamanho e na forma, parecendo lâmpadas, com placas, dutos e filamentos internos, que acendiam ao serem ligadas, produzindo um barulho característico, um zunido resultante do efeito do caminho percorrido pela corrente entre elas. Eram montadas, encaixadas em soquetes, em cima de um chassi, por debaixo do qual se podia ver o emaranhado do circuito, já agora repleto de caminhos e contatos de resistências multicoloridas, com código de cor indicativo do valor em ohms, entre outros elementos desse circuito em evolução.

        Homem de poucas palavras, o Tula, pelo menos com crianças, mas de um sorriso inesquecível. Sem sombra de dúvida, desculpada a ausência de meu pai e a presença de meu filho, nunca encontrei um homem que tivesse um sorriso tão lindo! Uma vez, apontando com o dedo médio da mão direita, porque perdera o indicador, num labor qualquer da vida, conversamos, eu e ele, numa noite também inesquecível. Ali mesmo, no portão da casa à venda, cada tijolo e cada reforma feita com aquelas mãos de dez, mais agora nove dedos: lembrem daquele portão de ferro embrutecido, nem tão grande, mas que achávamos mal acabado, as duas pilastras que o guarneciam, de lado e outro, o canteiro de plantas à esquerda, com aquele pé de café, de onde ele colhia as frutinhas para deixar secar ao sol, ali mesmo, ao pé da escada da frente, torrar, moer e fazer a bebida, e mais o pé de ameixeira, aquelas bem amarelinhas e azedinhas, no qual subi algumas vezes.

       Tula apontava para as serras de Mesquita e falava, trai-me a memória, mas a imagem daquela noite caminha e vai comigo ao longo da vida, inexorável, dizia o Cid, meu pai, o tempo. E os dentes de Tula, que ele areava, como se dizia, ao longo do L que formava a lateral e o canteiro da frente, conferindo o estado das plantas, escovando, escovando, escovando. Dorcas, a mais velha das cinco filhas, diz que, inexoravelmente, quando testemunhou o traslado de seus ossos, conferiu que, da arcada, nenhum dente faltou. O que mais? Muito, pessoal, já disse.

      Leila, a caçula, e isso meus primos mais novos não vão lembrar, ou só agora saber, confeccionava barquinhos de papel, para colocar nos córregos formados na sarjeta das calçadas, nos dias de chuvaradas de verão. Saíamos, eu e ela, para essa peraltagem. Não havia calçamento na Av. Oswaldo Cruz onde, no 306, ainda está a casa. Serpenteávamos, escolhendo o melhor chão, contornando as poças, como no dia em que vim sozinho, do Instituto Filgueiras onde fazia, o ainda assim, na época chamado, Jardim de Infância, atravessando a cancela da REFFSA, como eu lia nos vagões de trem, por cima dos dormentes que, durante anos, Tula assentou, trabalhando na turma de linha ou de campo na Central do Brasil, e prossegui, com aquele uniforme, farda, como chamam no Acre, ridículo, com babadinhos fofos, elástico na coxa e ainda suspensórios (lembra para que serviam?), pisando lama.

       Os cachorros da casa da avó. Poucos primos, acho que só aquelas primas bonitonas de que falei, as únicas duas netas que chegaram antes de mim, lembram do Blaike (vou grafar assim, para não confundir com black), o único cachorro que, até hoje, devo completar 58 anos, conheci que tinha, ora vejam só, lábio leporino. Bom, não sou veterinário, mas o primo Erlon Campello, o irmão da linda Bela (leia com  ∕ ê ∕), pode dar o termo correto, mesmo porque Blaike não tinha lábios, mas tinha uma fenda em seu focinho. Era meio caramelo, no pelo. Duque e Peralta, ele e ela, o macho meio grande, branco encardido e vistoso, ela, mais baixinha e malhada. A vantagem dela era que cantava, melhor, uivava, toda vez que Onésimo pegava seu xilofone e se punha a tocar um hino qualquer. Talvez, baseando-se no Salmo "todo ser que respira, louve ao Senhor". Só na casa da avó vai haver uma cachorra solista lírica.

      Almoços de domingo na casa da avó. Concorridíssimos. Um panelão de sopa. Uma mesa imensa e farta, em torno da qual todos sentávamos. E a disputa pelos jilós? Tão característica era que eu mesmo decidi, a partir dos 14 anos, não disputar o butim daqueles dias, mas comer jiló, até hoje garimpado por mim aqui nos mercados de Rio Branco. Abalávamos de Cascadura, onde morávamos, para Nilópolis, eu e Dorcas: Escola Dominical e culto na igreja, almoço na vó Eunice, Silvio Santos, das 8 às 18 h, na TV preto e branca (à válvula, evidentemente), piadas do Dante Santos, o tempo todo, e pão com carne assada para levar como merenda, à noite, de volta à igreja. Legal mesmo era quando Marisa França Costa passava por lá: a estripulia era completa.

      Casa da avó. Há muito, em quantidade, a dizer, e em tempo decorrido. Têm mais de 50 anos essas recordações. Ia esquecendo de falar da avó. Posso começar pelo sorriso que, quando se abria, os olhos dela se fechavam, lembram? 96 anos muito bem vividos. Cuidada, nos momentos finais, pela dupla de netos médicos, Gisley e Alexandre. Deixou a gente atrás de si. É claro que outros avôs e avós há nessa família, nessa família enorme, nesse familhão, opa, inexistente a palavra, mas sintética o bastante. Cada avô e cada avó trazem esse mesmo charme. As casas deles têm esse mesmo grude. E tais lembranças enchem a nossa vida e mexem com nossa imaginação. A casa dos avós é esse tipo de museu permanente. A gente roda esse filme e enxerga as cenas que se sucedem.

     Vamos nos encontrar ainda por mais algum tempo. Inexorável. Vamos nos recordando, comentando com filhos e netos o quanto faltou contar. A casa da avó nunca mais vai sair de dentro da gente. Mas, para terminar, já que comecei falando em igreja, nasceu uma na casa da nossa avó. Aquela área externa nem era tão grande. Parece que as coisas, com o tempo, diminuem. Caramba, como havia espaço ali para surgir uma igreja? Era outro avô o pastor, avô da outra prima bonita, a que nasceu primeiro, a Ruth, carinhosamente chamada Rutinha. O avô dela era o pastor da igreja nascida na casa da avó. Era tão apertadinho, mas tão apertadinho, mas tão bem utilizado o espaço útil da área dos fundos, que roubava um tantinho do local dos cachorros. Por isso, só podia vir da cabeça dele, Onésimo resolveu chamar uma das Classes da Escola Dominical de "Carrapatos de Cristo". Hahahahaha.

       Termino aqui. Mas resolvo fazer uma advertência, tomando essa liberdade, para dizer àqueles primos e primas que, junto comigo, carregam dentro de si a casa da avó: carreguem também dentro de si algo que a avó Eunice tinha como bem mais precioso: a igreja. Como Jesus pensou, igreja é como uma tenda, um tabernáculo que a gente carrega dentro de nós. Sabe para quê? Para Jesus residir dentro. Todo o povo que está nela, cada um, individualmente, nem mais, nem menos, nem pior, nem melhor, todos iguais perante Deus, devem entender igreja assim, desse jeito. Então, aonde a gente vai, a gente monta e desmonta, mas nunca larga de mão essa tenda. Foi isso que a vó nos quis transmitir. E conseguiu.

terça-feira, 7 de abril de 2015



      A respeito da morte de Deus.

            Falar sobre este assunto, para mim, constitui-se num escabroso atrevimento. Não sou filósofo, cientista e, terminantemente, nem teólogo me considero ser. Sim, teólogo, digo, escolado, sumamente acadêmico, desses, não me inscrevo entre os tais. Se quiserem dizer que sou, no sentido, vamos dizer, lato, extenso, sim, podem desse modo, considerar-me, pois falo, sim, sobre Deus. Ah, isso lá falo e, sai de baixo, tenho esse direito, mesmo porque creio em Sua existência e que fala conosco.

           Podem, então, classificar-me rasteiro, assim, e se quiserem juntar a esse epíteto, 'teólogo de oitiva' ou, se preferirem 'de orelhada', podem juntar a este epíteto o de semiblogueiro. Portanto, lendo, alhures (aprecio muito esta palavra) sobre a morte de Deus, para ser mais exato, na revista 'filosofia - ciência & vida' nº 103, o artigo "A morte de Deus e o filho do humano", foi que resolvi, mais uma vez, permitindo-me esta ampla liberdade blogueira, escrever.

          Em primeiro lugar, (1) parece que as pessoas que acreditam ou, querendo usar o verbo, creem em Deus, são as mais absolutamente idiotas possível. Sempre que lemos os argumentos dessa turma aí, deparamos isso, o que seja, que somente absolutamente idiotas creem em Deus. No artigo transparece que, segundo se avalia, a necessidade que os homens tinham na idade antiga e média da humanidade para crer em Deus é aquela que prevalece ainda hoje. E que, nem hoje e, mormente, naquela época, não havia vida inteligente que cresse, acreditasse e postulasse a existência de Deus.

          No texto do artigo, parte-se do axioma "Deus é uma criação humana e não o contrário como se costuma acreditar", para esclarecer que, frente a fenômenos inexplicáveis, não compreendidos pelo homem, fossem forças da natureza, como tempestades, trovões, raios, furacões, maremotos, terremotos, enfim, coisas grandes assim, o homem só as compreendia como fúria de deuses ou do Deus. Também, quanto a doenças, seriam resultado de maldições divinas, e, para explicar a maldade, identificada e incompreendida no homem, necessário se tornaria um antídoto ao máximo, que seria a suprema bondade, projetada numa personalidade divina compensatória.

         Enfim, diz o texto, "nos mais diversos pontos geográficos do planeta, e em particularmente todas as culturas e momentos históricos humanos pesquisados até então, a ampla mitificação e divinização sempre pode ser constatada, como formas úteis de conceber o inconcebível, de compreender o incompreensível e, de modo geral, para lidar com a perplexidade de estar vivo. E também, inevitavelmente, um dia ter que abrir mão dessa condição, ou seja, ter que morrer." Generalizante ao absurdo: será que não existia quem não tivesse medo da morte e, assim mesmo, ou, por isso mesmo, cresse em Deus?

        E quanto a explicar Deus, "nasce exatamente da impotência, da incompreensão, da perplexidade, da vulnerabilidade, da dor, do medo, da tragédia existencial, da inaptidão do ser humano para entender o todo, dos horrores brutais das lutas evolucionárias entre as espécies (!?) - o crivo é nosso -, das doenças, da velhice e, principalmente, diante da morte, essa alteridade máxima, primeva, fatal, à qual todo ser vivente, mais cedo ou mais tarde, tem que enfrentar e (a que) se submeter." Então, fora desses condicionantes, não é possível conceber Deus: sua personalidade e, como fica exposto, a 'finalidade' de Sua existência estão restritas somente a essas circunstâncias?

        Bem, este seria o modelo, ao inverso, de Deus, razões por que, elencadas, foi necessário que o homem primevo o inventasse, sendo que, quanto mais próxima de nossos dias chega a humanidade, mais próxima está da desmistificação, ou seja, da plena e total libertação do homem dessas amarras, desse Deus-band-aid-existencial, curada que já se avizinha toda a ferida da existência, todo o peso, perto e pleno que estamos da suprema compreensão de tudo. Ao ponto de nos recriarmos a nós mesmos, já libertos de toda essa carga ancestral da necessidade de um Deus ou deuses.

      E caminhamos, a passos acelerados, nos informa o artigo, para a programação de um novo homem, feita, evidentemente, pelo próprio homem, desta vez, perfeita, não com os equívocos dessa 'criação' que, por coincidência (ou ironia) vem sendo atribuída a um 'Deus'. Trata-se da ectogênese, "procedimento técnico (ainda em experimentação) por meio do qual a totalidade das etapas do desenvolvimento humano, desde a fecundação até o recém-nascido de termo, se realizaria em laboratório, sem recurso ao acolhimento num organismo materno." Ainda, citando Hans Jonas, "conjecturas hipotéticas, que pareciam impossíveis de realizar - como adiar indeterminadamente a morte humana, alterar nossa bagagem genética, clonar animais e pessoas, criar novas substâncias e seres transgênicos, por exemplo -, se tornarão cada vez mais factíveis e reais." Percebe-se que, (2) enquanto o homem não tem, ainda, a explicação total para a origem do Universo, vem aprendendo, direitinho, a receita que encontrou já ponta.

         O Deus que aqui morre é aquele que supõe-se projetado a partir das limitações humanas e somente existe como compensação para elas, enquanto que não se encontram remédios para saná-las mas, segundo se anuncia e supõe, a que logo, e já muito presto, chegamos, por meio da ciência, é tal fase em que o homem criará um novo homem, sem os defeitos de antes. Seria, mais ou menos, como descrevem, no artigo também citados, Axel Kahn e Dominique Lecourt, que, então, seria imposto um "invólucro corporal, a cor de seus olhos, a textura de seus cabelos, a forma de seu rosto, seu tamanho médio, a idade de início de sua calvície e de sua miopia, os detalhes desse corpo no qual será preciso viver dias e dias, alguns aspectos do hardware cerebral - e portanto certos traços de caráter - isso ele não poderá mudar. Ora, não se trata de suportar os resultados da sorte, da grande loteria da hereditariedade, mas as consequências da vontade de outrem." Este 'outrem' seria o Big Brother, personagem sugerido por George Orwell, em seu livro "1984"?
       
           Realmente o homem já supõe que obteve todas as respostas ou, se não as obteve, é questão de tempo obtê-las. Já possui a certeza, mesmo intuitivamente, daquilo que o autor da carta aos Hebreus chama de 'invisível', ou seja, a partir de partículas que se fundiram nas eras primordiais, foi-se formando o Universo, por si, aleatoriamente. Aliás, já se faz, experimentalmente, a colisão de partículas, no LHC - Large Hadron Collider, isto é, num Acelerador de Partículas, para tentar comprovar que o Universo surgiu, sim, a partir de uma colisão ou múltiplas colisões entre elas. Só fica faltando dizer como elas, as partículas, surgiram. E aqui chegamos à Bíblia, quando Deus disse 'Haja luz ou 'Haja fótons', e houve. Portanto, o Universo é uma composição, uma arquitetura de partículas-tijolinho, combinadas sob fusão, que deram origem a todas as reações químicas que tornaram possível toda essa complexidade que a ciência, apenas, ainda, em grande escala, supõe.

       Ufa, chegamos a Deus, finalmente. Aliás, desde o início. O terceiro argumento é que (3) a prima-dona do ateísmo, aquela que teria todas as respostas, a ciência, não tem, pelo menos, ainda, todas as respostas. Afigura-se brilhante em suas deduções, propaladas que são suas descobertas, aliás, ter ela todas as respostas, por que implicaria na dedução de que Deus não existe? Certa vez li num desses livrinhos de escola dominical que, caso encontremos, no meio da selva, restos de edificações de uma civilização perdida, se uma vez deduzirmos e reproduzirmos em laboratório os meios que foram utilizados para as construir, deduziremos que toda a estrutura surgiu, então, do nada, ou perseguiremos pistas para conhecer os arquitetos de todos os edifícios?

          Aplicando, uma vez que (e isso é função precípua dela) a ciência descobre, revela e descreve toda a complexidade da natureza, incluído o ser humano (e olha que complexidade!) e, sem bias (permitam-me copiar a definição, an inclination of temperament or outlook to present or hold a parcial perspective, often accompanied by a refusal to consider the possible merits or alternative points of view - tradução livre: inclinação de temperamento ou particular visão para apresentar ou sustentar uma perspectiva parcial, frequentemente acompanhada por uma recusa em considerar os possíveis méritos ou pontos de vista alternativos), enfim, caríssimos, questiono, (4) uma vez pesquisada, aprendida e reproduzida, em laboratório, a 'receita' do Criador em meio à complexidade da criação, por que deduzir, então, que ele não existe, uma vez posto fora dela?

        Sem todas as respostas, por exemplo, de onde vêm as partículas formadoras do Universo, denominadas, pelo autor anônimo de Hebreus, 'invisíveis'? Ele escreve: "o visível veio a existir das coisas que não aparecem" - e, muito interessante, a palavra 'visível', no grego, é fainomenon que, simplesmente, nos deu a palavra 'fenômeno', isso mesmo, esses fenômenos observados, reproduzidos e nomeados pela ciência são a partir do que não aparece. Disse Deus: Haja fótons. E houve fótons. Ou não? Bom, a origem deles e delas, das partículas em geral, a ciência ainda não sabe indicar ou responder. Até agora, sem pistas. Portanto, (5) longe da ciência ter todas as respostas. Está deveras cedo para tanta comemoração.

        Quanto a Deus somente existir como compensação para o drama humano, persiste até hoje a crença em sua existência e, pelo que consta, não há somente gente burra crendo em Deus. Acho até que, tirante a morte, essa sem conformidade ou conformação, até mesmo para tantos e quantos ateus, creio que contra e à chegada de quaisquer calamidades, caprichos da natureza, surpresas com o refinamento da maldade humana, doenças novas que surgem e as velhas, enfim, deixados de lados esses óbices, o comportamento estoico diante do sofrimento não seria motivo, nos dias de hoje, para que se buscasse num Deus ou em deuses reforço para que fosse nutrido. O homem não precisa de Deus para ser cínico.

           Por muito menos, aliás, costuma-se dizer que, até mesmo pela banalização, por meio da mídia,  o ser humano, a cada dia se torna, por causa da saturação, mais indiferente e vacinado para qualquer choque, seja com relação à violência ou a favor ou contra a quebra de paradigmas. O homem/mulher não mais necessita de socorro, no sentido de abrigar-se contra o que existe de ruim, a não ser que sinta medo de que o atinja, porque já se espalhou pelos quatro cantos da terra e bem perto está a maldade humana: sentindo medo ou não, vamos nos deparar com ela. Caso atinja os outros, somos indiferentes; caso nos atinja, estrilamos. Aliás, Jesus deve estar certo quado diz que ela está dentro de cada um(a). E o homem está absolutamente indiferente à sua própria maldade. Assim como caminha para a perda de todos os escrúpulos. E ainda trabalha contra as afinidades que poderia nutrir pelo seu semelhante.

           Só falta ao homem experimentar o amor. Esta é a falha primordial. O 'filho do ser humano', como termina o artigo mencionando, deverá ser melhor programado do que o filho de Deus, Adão (e Eva). Aliás, esse 'filho do homem' (favor e cautela em não confundir, aqui, com o Filho do homem, Jesus) esse 'humano-pós-humano', como diz o artigo, estará fora desses desenlaces primitivos, ou seja, não terá pai nem mãe, nem parentes e sua teia social será reprogramada, sempre a favor do que é superior e melhor do que o projeto original, que temos aí. Família e sociedade, enfim, relações, de modo geral, serão supérfluas, não, eliminadas, coisas do passado primitivo. E, certa e obviamente, toda uma reprogramação moral será, enfim, efetivada, extirpados todos os resquícios, vícios e opressões, resultado de séculos de validação da tradição judaico-cristã.

        Diz Habermas: "Até o momento, somente as pessoas nascidas, e não produzidas, encontram-se em interações sociais. No futuro biopolítico, prenunciado pelos eugenistas liberais, essa relação horizontal seria suplantada por um conjunto de ações e comunicações entre as gerações, que se instauraria verticalmente por meio da modificação intencional do genoma dos nacituros." Deus, portanto, "deixa de ser o responsável técnico pela criação da vida" e o ser humano "se metamorfoseia e se confunde com suas próprias tecnologias, recriando a natureza e da mesma forma os seus filhos, 'melhorando-os' e hibridando-os tecnologicamente", enfim, trazendo à luz uma 'fusão filogenético-tecnológica'. Enfim, a tão sonhada perfeição. Esse é o Deus. Não menos projetado, porém, plenamente exequível, o que não deixa de ser fé concreta, podemos assim dizer, no 'Deus' certo, desculpem a recaída, fé na Ciência ou, mais exatamente, fé no próprio homem.

         Enfim, chegamos ao final do texto, citando, ao inverso, lá do início, da chamada proto-história bíblica, o modo como cumpre-se, hoje, a 'Torre de Babel': o homem não chega aos céus, mas ocupa seu lugar, ou seja, deus de si mesmo. O homem se torna o criador, mal comparadamente falando, desculpem-nos, não queremos ofender o homem denominando-o Deus. João, o apóstolo, e acho que, se tinha alguém por perto, deve tê-lo repreendido, quis definir Deus como amor, escrevendo "Deus é amor". Por um ato de amor, criou, não somente o homem, como também todo o universo. Não sabemos se é fé ou amor o mais urgente. Embora o autor de Hebreus diga que, sem fé, é impossível agradar a Deus, João diz que Deus é amor. O Big Brother (atenção, o de George Orwell, 1984, ficção, não o daquela rede de TV) a programar o homem, certamente, vai corrigir a falha da incapacidade de amar. Até o momento, (6) religiosos ou ateus, a humanidade, com ou sem Deus,  não soube resolver o problema primitivo do respeito mútuo, mas pretende entregar essa solução ao Big Brother.

          O anônimo autor de Hebreus confirma que, aquele que se aproxima de Deus, creia que ele existe. Talvez (7) a maior agonia da ciência, aliás, dela não, dos cientistas, seja que não conseguem provar que Deus exista, mas também não conseguem provar que não existe. Aliás, injustiça, eles nem estão preocupados com isso. Aliás, de novo, quem e quantos esperam por essa geração de super-homens, capazes de recriar o homem, quando serão extintos todos os medos, incluído o medo da morte, assim como todos os sentimentos supérfluos, como o amor? A vida será bem melhor, nesse paraíso terrestre pré-programado. Trata-se, mesmo, de uma nova história da criação. Interessante a posição em que a si mesmo o homem se desenha estar. Algo de primitivo, a pretensão de chegar tão alto assim, ou extrema convicção, humildade e senso de pertinência? Mas, provavelmente, todos os problemas que nessa criação primeira ficaram pendentes, vão ser resolvidos, nesse novo projeto, do homem como top de linha da evolução.

quarta-feira, 1 de abril de 2015


  O essencial e o efêmero

         Permanentemente em conflito. Do seguinte modo: a busca do ser humano pelo essencial confirma que prevalece o efêmero. Dizendo de outra forma, o efêmero é o essencial. Já nos dizia o Pregador, o Cohelet, do Eclesiastes que, no original hebraico tem exatamente esse título (ainda escrito qohelet ou kohelet): Tudo é vaidade e correr atrás do vento, cita uma das versões.

              Haroldo de Campos, de modo magistral, traduziu do hebraico sua própria versão do O-que-sabe, assim denominado por ele o, por ele grafado, Qohélet: Névoa de nada / Disse O-que-sabe // névoa de nadas / tudo névoa-nada (Eclesiastes 1:2). E segue, em 2:3, outra pérola de sua tradução: Que proveito / para o homem /// de todo o seu afã // fadigas de afazeres / sob o sol.

             Parece, então, que o efêmero se confirma sobre o que parece ser essencial. A busca do homem parecer ser mesmo pelo essencial. Pelo menos se rende ou se entrega, aparentemente, a essa busca, cada qual apressando para si mesmo o que aos próprios olhos considera que deve ser seu e sua identidade. Se for o dinheiro, assim será. Se for o poder, vai precisar, junto, do dinheiro. Se for fama, terá de juntar em si os três. Efêmero, porém: uma vez no cemitério, seja cova rasa ou mausoléu, dentro, a essência será a mesma e a efemeridade estará confirmada.

           Paulo, o apóstolo, também dono de vasta filosofia que, de certa feita, na carta 1 Coríntios, escreveu, expressando-se de forma irônica, ser necessário mostrá-la, em determinadas circunstâncias, aos 'sábios' e 'entendidos' do presente século, daí ter escrito, mais ou menos assim que, se a nossa esperança se limita, apenas, a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.

           Concordando com O-que-sabe, creio que Paulo quis mesmo afirmar ser nossa existência 'correr atrás do vento', uma vez que a limitemos às expectativas, apenas, circunstanciais a esta existência. A tradução desse trecho de Eclesiastes 2:17, feita por Haroldo de Campos, que a versão 'Revista e Atualizada' da SBB traz 'correr atrás do vento', nela afirma o Qohélet: Eu odiei / a vida // pois para mim é ruim/ a obra / que se faz / sob o sol /// Pois tudo é névoa-nada / e fome-vento.

            Conferem Paulo e Qohélet, avaliando que o essencial à vida, ou na vida, foge à percepção humana ou à sua capacidade de atinar com o próprio valor que a chance de viver confere a quem passa por essa fugaz experiência. Sem dúvida, vamos encontrar nas palavras de Jesus uma mesma advertência, ou melhor, várias advertências quanto à percepção do que, na vida, é essencial.

              Pelo menos em três ocasiões Jesus, como sempre, surpreendeu todos à volta, apontando, aos olhos desses circunstantes, algo que era essencial e lhes fugia à percepção. Diante de Nicodemos, Jesus falou que, uma vez não nascendo de novo, seria impossível, ao menos, ver o Reino de Deus. E, para confirmar a necessidade desse 'novo nascimento', repetiu a Nicodemos que, depois de já velho, para entrar no Reino de Deus, se fosse desejo dele (ou de qualquer outro), seria necessário nascer da água e do Espírito.

             De outra vez, Jesus disse que era necessário a qualquer que fosse 'converter-se e tornar-se como criança' para entrar no Reino dos Céus que, para Mateus, equivale a Reno de Deus. E o Evangelho de Lucas registra a vez em que Jesus afirma que o Reino de Deus está (ou não está) 'dentro' e que não é possível vê-lo ou constatá-lo fora, ou seja, em visível aparência. Era rotina para Jesus fazer referência ao que era essencial.

              Diante da efemeridade da vida, é essencial ao homem atinar com o que Jesus tem a dizer sobre a vida. Jesus dá sentido à vida. A Bíblia gira em torno da revelação de Jesus e do que Ele tem a dizer sobre a vida. Por isso, entre as coisas que Jesus diz, é essencial atentar para essa realidade, a realidade do Reino de Deus, que significa, nada mais, nada menos, do que ter Deus habitando no homem, ter Deus habitando em nós. Mas, para tal, é necessário nascer de novo. O DNA original não inclui pertença ao Reino. Somente o nascimento segundo Deus, gerado por Deus, mediante a fé em Jesus, garante entrada no Reino, garante pertencer ao Reino. Isso é essencial.

               Num sentido, poderemos até dar razão ao Qohélet, porém atentos ao que Paulo diz, que não nos apeguemos, apenas, a esta vida. Aliás, omiti uma palavra do versículo de Paulo aqui citado, quando diz que 'se a nossa esperança em Cristo se limita, apenas, a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens'. Mas esperança em Cristo, para ser, verdadeiramente, esperança, não se limita, apenas, a esta vida. Encarar Jesus apenas como um-exemplo-para-a-humanidade, ou qualquer outro clichê, omite a principal mensagem da Bíblia: veio para que tenham vida, diz Jesus em João 10:10, e especifica que é eterna, plena, já nesta existência, desde sempre.

            E quem vive Cristo, nesta vida, tendo Deus habitando em si, vendo e dentro do Reino, não sabe, não sente e nem vive vida efêmera. Passageira, nesse sentido, rápida demais, até que ela é. Mas tem, sim, sentido, porque é começo e tem qualidade de eternidade.
Vida

      Imprevisível. Impossível saber quando e como a morte sucede. Imaginar que um piloto vai despedaçar um voo inteiro contra montanhas de 2000 metros, por desejo de se matar, matando junto 149 pessoas. A internet mostrou os rostos, o que já se sabe, mãe segurando bebê ao colo, grupo de quatro, mãe e dois filhos que, ao fim, perderam pai e marido. Enfim, histórias outras de cada um daqueles centena e meia.

          Dezesseis alunos de uma mesma escola de uma cidade pequena. Fico imaginando as mães, particularmente elas, visto que são mais próximas e sensíveis aos filhos, quantas tenham orado e pedido proteção para a viagem. Tratava-se de um intercâmbio. Simples assim: os pais liberam para um intercâmbio Espanha X Alemanha e, no retorno a casa, o copiloto muda de rota e decide atirar o avião contra os Alpes.

         Escolhas do homem. Ele tem problemas em assumir que faz escolhas erradas, esdrúxulas mesmo, contra qualquer tino ou traço de razão. Costuma não assumir as escolhas erradas, equivocadas mesmo que ele ou seus semelhantes fazem. E atribui a culpa disso a Deus. Horas como essas, é a primeira pergunta que fazemos: onde está Deus?

              O homem reclama liberdade para cometer seus desatinos. Não suporta ter escrúpulos para evitá-los. Nem quer ingerência de Deus em sua vida para converter-se a outra modalidade de vida e consequente ou equivalente comportamento. Então, quando tal escolha dele resulta num desatino qualquer ou, falando de outro modo, quando essas escolhas se voltam contra si mesmo, Deus é o culpado.

              Deus não pode ser responsabilizado pelo que de ruim ocorre entre e como gênero humano. É necessário admitir que o homem possui autonomia, que é traço distintivo de sua 'imagem e semelhança de Deus', ou seja, autonomia absoluta e capacidade autônoma de fazer suas escolhas por si mesmo. E, frequentemente, há quem as faça de modo escandalosamente contrário ao padrão de Deus. A Bíblia diz que é possível ao homem fazer outras escolhas ou manter comunhão com Deus, de modo a reduzir, ao mínimo, as escolhas erradas. Porém, mesmo essa opção, de manter-se preventivamente em comunhão com Deus, está incluído entre as escolhas que podem ou não ser feitas.

            E é flagrante identificar e reconhecer quem não pauta a sua vida pela escolha de fazer a vontade de Deus. Fica espelhado na vida pessoal e no trato das relações pessoais. Quando, então, as consequências das escolhas erradas feitas por alguém assaltam até mesmo quem, à volta, próximo, de imediato, não deveria ser responsabilizado ou sofrer tais funestas consequências, aprendemos o modo como esses erros afetam a pessoa que os comete e quantos ao redor. Tais consequências se voltam contra quem as desencadeia e afetam quantos à volta. Pecado é sempre contra Deus, conta quem pratica e contra tantos à volta. E o salário do pecado é a morte.

            Escolha errada, escolha contra os padrões de Deus, qualquer homem ou mulher são capazes de fazer, e a Bíblia chama essas escolhas de pecado. A consequência é sempre negativa, pois se trata de violência contra Deus, contra quem comete e contra tantos à volta. Para pôr freio nessa sequência ou círculo vicioso de escolhas erradas, Deus pôs um fim à vida do homem/mulher: morte. A morte é um justo salário, nem para mais, nem para menos, do pecado.

             Não há como culpar Deus pelo pecado e suas consequências. A tendência do ser humano em argumentar que, se Deus fosse tão sensível ou amoroso ou cheio da sua graça como a Bíblia proclama, evitaria as desgraças consequentes das escolhas erradas do homem/mulher, é tentativa de responsabilizar a Pessoa errada, melhor dizendo, responsabilizar errado a Pessoa (certa) de Deus.

              O refinamento de crueldade dos quais, potencialmente, todos nós somos capazes, só tem freio quando permitimos que Deus entre em nossa vida com seu (dEle) amor, Sua bondade e misericórdia. Pessoas que não têm Deus em sua vida são, potencialmente, capazes de qualquer desamor, por Deus, por si mesmos e pelo próximo. E as consequências são imprevisíveis mas, certamente, sempre funestas.