sábado, 26 de maio de 2018

IGREJA EVANGÉLICA CONGREGACIONAL DE CASCADURA - ATA Nº 1 DA REUNIÃO INAUGURAL


     
     Em 28 de setembro de 1952, com assinatura de Henrique de Souza Jardim, secretário “ad hoc”, e presidência de Manoel Medeiros de Carvalho, presidente dirigente a ser empossado neste dia, como consta nas assinaturas, foi lavrada a que se chamou “Ata nº 1 da reunião inaugural da Congregação Evangélica de Madureira, sita na Rua Firmino Fragoso, 26”, seguindo a data já aqui no início indicada.
  
     Quem presidia essa reunião, como ali assinalado, foi o pastor Sinésio Lyra, da Igreja Evangélica Fluminense. Pois foi essa geração que, assim, iniciava a história da Igreja Evangélica Congregacional de Cascadura, aquela que marcou, como vida de igreja, a minha formação. A partir de 1966, com 9 anos incompletos, vim para essa igreja com Dorcas, ficando até 1994, sem saber, naquela época, que seria seu pastor, a partir de 1983.

       O pastor inicia a reunião às 19h20 desse dia, os crentes presentes cantam o nº 134 de Salmos & Hinos, numeração antiga, e prossegue numa preleção, como consta na ata, de incentivo aos irmãos, prolongando-se até às 19h42, quando declara inaugurada a Congregação, uma vez filiada à Igreja Evangélica Fluminense. A seguir, constam os nomes da geração que assinalei acima.
   
      Amaury de Souza Jardim, consta como primeiro nome, irmão que é do secretário dessa reunião, e logo após consta o nome da mãe deles dois, Anna da Silva Jardim. Seguem Sofia Prudente da Silva, Maria Rodrigues Lemos e Fernando Landim de Souza; Maria da Glória Cardoso de Souza, Orlando de Oliveira Luna e Odessa de Carvalho Sezures, esta mãe da irmã, a seguir anotada em ata, Arsylene de Carvalho Sezures, já noiva do secretário “ad hoc” e prontos para o casamento que se deu em 1954.

        Joaquim Guedes Júnior, a quem conheci pessoalmente e alcancei como líder do trabalho com crianças na futura Congregação de Magno, na antiga Vila das Torres, que hoje não mais existe. Nelson Celestino dos Santos e Maria da Glória Celestino dos Santos, na casa de quem esses mesmos membros, egressos da Congregacional de Piedade se reuniam, antes dessa reunião histórica aqui assinalada. A seguir, três filhas deste casal  assinalam o rol dos membros fundadores: Lídia, Lígia e Léa Celestino dos Santos.
    
     Nesta mesma lista de depoimentos, aguardem outra entrevista, desta vez com Lídia. Jeconias Celestino dos Santos e sua filha, Lourdes Costa dos Santos que, aliás, com o sobrenome Benevides, excluído Costa, passou a ser minha sogra, a partir de 2 de janeiro de 1993. Até esse ponto, entendam, portanto, essa geração, realmente, marcou minha vida. E seguem os nomes da outra filha, Gilca Costa dos Santos, e da esposa, Oscarina Costa dos Santos. Essa duas famílias aqui citadas eram de duas irmãs, Maria da Glória e Oscarina, casadas com dois irmãos, Nelson e Jeconias Celestino dos Santos.
    
        A seguir, a lendária Naura Ferreira Araujo da Silva. Sua marca foi ser organista, como a encontrei em Cascadura. Tive o prazer de ser seu pastor, por alguns anos, até sua despedida no Largo do Pechincha. Morou com d. Odessa, nos fundos da Igreja Congregacional na João Romeiro, como zeladoras. Também com Maria Etelvina e João, também como zeladores do terreno da Pe. Telêmeco 149. E por um tempo com uma amiga e irmã em Cristo, Aurea, em Pedra de Guaratiba. Em minhas idas ao Seminário, como professor, eu visitava Naura frequentemente, na casa dessa amiga.

        Manoel Medeiros de Carvalho, Elza, Uyratan e Marília, todos Silva de Carvalho, um casal e seus dois filhos, encerram a lista destes 26 irmãos, a maioria a quem conheci pessoalmente, privando momentos de comunhão com eles não, evidentemente, na Firmino Fragoso, visto que meus pais também casaram em 1954 e eu somente nasci em 1957. E, last but not least, muito característico, logo após o anúncio da oficialização da Congregação, a irmã Arsylene faz solo do hino “A cruz de Cristo” e, como somente poderia ocorrer, a irmã Lourdes, é claro, “declama linda poesia própria para o dia”, literalmente assim escrito por Henrique Jardim diga-se, de passagem, um eterno gozador.
    
        Zila dos Santos também canta, filha do diácono Azarias dos Santos, também futuro regente do coral e instrumentista, aliás, propriamente, dos “sete instrumentos”, e outra irmã de Lídia, Lígia e Léa, não mencionada como membro, Rute Celestino dos Santos “recita, com muito sentimento, uma bela poesia”, assinala o secretário “ad hoc”. Parecendo ser um concurso de poesia, mais uma vez o secretário: “...a irmã Marília Silva de Carvalho recita, também, uma poesia, fazendo alarde de grande calma e expressão.” Esse secretário é mesmo literário.

          O pastor Sinésio Lyra, às 20h, dará posse aos diversos líderes da novel Congregação: Vice-Superintendente: Manoel Medeiros de Carvalho que, por sinal, ao fim, assinará esta ata; Superintendente da Escola Dominical: Jesuíno dos Santos, este o pai de Azarias, avô de Zila, uma das declamadoras; Diretor do Departamento Infantil: Joaquim Guedes Júnior; Diretora do Rol de Berço: Odessa de Carvalho Sezures, que também acumulou a Presidência da União Feminina. Completou a diretoria deste órgão a vice-presidente, Maria da Glória Costa dos Santos; a 1ª secretária, Elza Silva de Carvalho, e a 2ª, Maria da Glória Cardoso de Souza; e tesoureira a irmã Anna da Silva Jardim.
     
       Amaury de Souza Jardim, presidente da União de Mocidade, com os irmãos Uyratan e Marília, respectivamente, vice-presidente 1ª secretária. A 2ª secretária foi Lídia Celestino dos Santos e a tesoureira, Zila dos Santos que, embora de mesmo sobrenome, apenas em Cristo são irmãs. Para o Coro da Congregação, Presidente Manoel Medeiros de Carvalho, a secretária, a irmã Naura e a tesoureira, a irmã Arsylene. Rev. Odilon de Oliveira, presente e, aliás, em defesa de quem esses irmãos se deslocaram da Congregacional de Piedade, para fundar  esta Congregação, ora, antecipando a mensagem da noite, que o pastor Sinésio Lyra baseou em João 1:15-51, como assinalou o secretário Henrique Jardim.
  
       O Coral cantou, vejam bem, saudosistas, eu incluído, que cantei em Cascadura, em diversas ocasiões, “O Estandarte”: “O estandarte desta igreja/Levantemos sem temor/Ela é muito amada esposa/Do bendito Salvador/É Jesus o Comandante/Verdadeiro que a conduz/Somos nós os seus soldados/Dessa igreja de Jesus”. Com este hino nos ouvidos, no próximo texto saberemos dos visitantes presentes: “nota-se que a casa está repleta, com muitos visitantes”, assinalou nosso secretário.

IGREJA EVANGÉLICA CONGREGACIONAL DE CASCADURA - MARCO ZERO


       Entrevista com a irmã Arsylene Sezures Jardim, membro fundadora.

          "Nós éramos membros da igreja de Piedade. Então, o pastor lá era o Rev. Odilon de Oliveira. Antigamente, antes do Rev. Odilon, era o Salustiano. Então, quando o Salustino saiu, junto com ele saiu uma turma. Aí, depois, resolveram voltar, e fizeram tudo para o Rev. Odilon sair. E resolveram voltar com o Salustiano lá, para Piedade.
             Então, um grupo de membros, não é, que gostavam do Rev. Odilon, resolveu sair, em torno de 42 membros. Saíram, de lá da Piedade, e se filiaram à Igreja Fluminense, com o Rev. Sinésio, que os acolheu. Mas, como lá era um pouco distante, não é, a maioria morava aqui pra cima (zona Norte do Rio de janeiro), resolvemos o seguinte:  durante a semana e no domingo nos reuníamos na casa do irmão Nelson Celestino dos Santos, irmão do Jeconias.
        No domingo de ceia, então, nós íamos à Fluminense, tomar a ceia lá. E, continuando assim, resolvemos então, com a aprovação do Rev. Sinésio, nós alugamos uma casa em Madureira, na Rua Firmino Fragoso 26, e fizemos a Congregação lá". Situa-se em 1952, lembra Arsylene, porque se casaram, ela e o Pr. Henrique Jardim, em 1954.
           "Então, o Rev. Sinésio deu todo o apoio, para a gente ficar lá. Depois, o Rev. Sinésio saiu da Fluminense e foi lá para o Rio Comprido, e assumiu o Rev. Teodoro, que dava todo o apoio para a gente lá, na Congregação. Quando ele não podia ir dar a ceia, ele mandava um pastor. E esse pastor, que ia sempre lá, que era um senhor, não sei, esqueci o nome dele.
         Então, como lá a Congregação tinha presbítero, tinha diácono, o Rev. Teodoro deixou a Congregação por conta do grupo e ia lá dar a ceia. E como estava ficando pequeno, ficou resolvido comprarmos um lugar para instalar a igreja. Aí, o Henrique saiu procurando, saiu procurando, quando encontrou essa casa em Cascadura, na João Romeiro.
       E lá, antes, era um Centro Espírita, mas o dono resolveu vender. Acabou com o Centro e resolveu vender. Apareceram vários compradores, inclusive uma fábrica, parece que de bebidas, parece que uma escola também, mas ele deu preferência a uma igreja. Foi quando o Henrique foi lá e falou com ele, que era membro de uma igreja e estava procurando uma casa, ele deu preferência a vender para a gente.
       Aí, nós compramos e organizamos lá. O Rev. Teodoro foi lá e organizou a igreja, tudo direitinho, com os Departamentos: tinha Mocidade, União Feminina, União de Homens, tinha tudo lá. Uma igreja praticamente pronta. Muitos membros que saíram lá de Piedade preferiram ficar na Fluminense, alguns até se afastaram. Mas o grupo maior ficou lá: os que frequentavam a casa do “seu” Nelson, os de lá em Madureira, foram formar Cascadura.
Na Fluminense, a ceia era pela manhã, para facilitar tempo e acesso. E cada um ia por conta própria, trem ou ônibus". Os avós de d. Arsylene, originários de Portugal, filiaram-se à Igreja Fluminense, ainda nos primórdios do trabalho. João de Almeida Sezures, esposo de Isaura Sezures. Quando eles saíram de Piedade, ficaram na Fluminense por um período, como membros. Seus pais e tias, com os avós, eram membros na Fluminense.
            Umas das tias, Rosalina, deixou a Fluminense e tornou-se freira católica, enfermeira no Hospital da Penitência, antigamente no Largo da Carioca e, com o Rio Bota Abaixo do Prefeito Pereira Passos, foi transferido para a Tijuca, na Conde de Bonfim, próximo ao Alto da Tijuca. Seu pai foi, durante muito tempo, Superintendente da Escola Dominical da Congregacional de Piedade. Na época em que namoraram, o pai, João de Almeida Sezures Júnior, era membro na Fluminense e a mãe, Odessa de Carvalho Sezures, membro no Encantado.
      Tornaram-se membros em Piedade e Arsylene, nascida e criada na Igreja Evangélica Congregacional de Piedade. Ela e seu futuro esposo, Henrique Jardim, foram lá criados juntos, desde nascidos, nessa mesma igreja. Esteve, por um tempo, afastada da igreja, por problemas pessoais do próprio pai. Por esse tempo, moravam no Sampaio, e o pai foi disciplinado pela igreja. Chegaram a frequentar a Igreja Batista do Engenho Novo.
        Chegou a ficar por um bom tempo e o pastor, Souza Marques, insistiu muito que lá se batizasse. Mesmo porque, muito nova ainda, uma garota de seus 10 anos, ainda não havia sido batizada na Congregacional de Piedade. Participava, muito ativa na Batista, na União de Juniores, as Mensageiras do Rei. Por isso houve muita insistência do pastor: “queria, porque queria que eu me batizasse”. Belíssima história de resistência.
         "Mas depois, os membros de Piedade e o pastor Odilon também sempre iam visitar minha mãe, conversavam com ela, para ela voltar para Piedade. Belíssima história de amor fraternal. Aí, ela resolveu voltar e nós voltamos". O pai, porém, permaneceu na igreja batista. Ela e o futuro esposo, Henrique Jardim, desde crianças ali criados, participando desde o Departamento de Crianças, Juniores, Mocidade, com os irmãos dele Amaury e Ari Jardim.
E já estavam noivos quando houve o problema, acima descrito, da separação em Piedade. A família Celestino dos Santos também estava nesse grupo, com a velha guarda (que não era da Portela) Dulcineia, Jesuíno e Azarias. "Havia outras famílias junto. Saímos e fomos, então, formar a igreja lá, em Cascadura. Ficamos na casa do Nelson, depois alugamos essa casa em Madureira, na Firmino Fragoso. Ficamos lá um tempo mas, como estava ficando pequeno, resolvemos comprar, com todo o apoio do pastor Teodoro: compramos lá, na João Romeiro, e a igreja foi crescendo".
          O primeiro pastor lá eleito, o da lambreta, que nos dava umas caronas até a entrada da rua, foi o Nelson Bento Quaioti. Aí, depois, o pastor Nelson saiu, e foi eleito o Rev. Maurillo Neves Moreira, em 1967, na época concorrendo com meu pai, Cid Gonçalves de Oliveira.



quinta-feira, 24 de maio de 2018

Mal traçadas linhas 81

         Todas as coisas.

        "De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra."
                                    Efésios 1:10

       Professor de português, sempre simpatizei com os pronomes indefinidos. Exatamente pelo seu poder implícito de generalização e síntese, ao mesmo tempo.

      De um modo que, às vezes, faz com que se igualem em seu significado. Por exemplo, dependendo do ponto de vista, "nada" é igual a "tudo".

     Alguém dizer, mesmo que mentindo, "não sei de nada", quer e pode mesmo dizer: "não sei de tudo". Assim como dizer "não vi ninguém" também seria dizer "não vi alguém".

      Pois no texto acima "todas as coisas" quer exatamente dizer "todas as coisas". E ainda para incorporar, de uma vez, acrescenta "tanto as do céu como as da terra".

      Cristo reúne em si tal convergência. Mal comparando, vamos evocar Tim Maia: "tudo é tudo, nada é nada". Propositalmente vamos estabelecer aqui esse grau de relevância entre essas duas pessoas.

     Aliás, se alguém (opa! desculpe a indefinição, mas preciso generalizar: posso dizer "se qualquer um") avalia aqui que deprecio, com esse comentário acima, o cantor, saiba que não.

     Até tenho a caixa de todos os CDs dele. Do Leme ao Pontal. Aliás, de novo, Jesus e Tim Maia tem tudo a ver. Uma profunda e verdadeira história de amor.

     Todas as coisas, inclui eu e Tim Maia. Aliás, no caso dele, incluiu, incluía ou incluiria, dependendo do ponto de vista.

      Porém, para não usar, de novo, "aliás", afirmo que, para Deus e para Jesus, o principal desse "todas as coisas" são as pessoas.

     Tão somente para Deus e para seu filho Jesus (inclua o Espírito Santo, também presente na argumentação de Paulo Apóstolo), o mais importante são as pessoas.

     Para ninguém (olha mais uma vez um indefinido) mais ou, se você preferir outra formulação, para nenhum outro, nem para as próprias pessoas, as pessoas importam.

     Deus ama todos. Deus ama qualquer um. Deus ama quem quer que seja. Ele não faz acepção de pessoas.

     Quanto a nós, pessoas, nós não amamos todas as pessoas, quaisquer pessoas, nós, sim, fazemos acepção de pessoas.

       E, para encerrar, veja abaixo mais um show de indefinidos que, na verdade, presta serviço de inclusão. Todos aí embaixo significa todos.

       E esse sonho, não, porque como diz Cláudio Duarte, Deus não dorme, mas como diz Paulo, "mistério de sua vontade e beneplácito proposto em Cristo", que se chama igreja: "congregar em Cristo todos e tudo, no céu e na terra".

      "E sujeitou todas as coisas a seus pés (falando de Jesus), e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos."
                               Efésios 1:22,23

        Deus ama a todos. De modo igual e com a mesma intensidade. Aliás, amor não tem intensidade. Deus ama. Ponto. Não ama muito. Ama. Ponto. Em Jesus Cristo, Deus cumpre "tudo" e em "todos".

       Deus deseja congregar todos em Cristo. Comunhão. A fim de que todos amem todos como Ele mesmo ama. A mesma comunhão que Jesus tem com Deus, tenhamos, uma vez unidos a/em/por Cristo.

     

   
   



     

 

quarta-feira, 23 de maio de 2018


Cascadura

       Bem que poderia ser.

       Achei na net esta foto. U'a mãe com seu filho pelo braço, ano de 1950, passeando em cima do velho viaduto de Cascadura.

     Poderia ser Dorcas e Cid Mauro. Embora eu seja de 1957, a foto carrega, congelados no tempo, traços de época.

     Vestido da mulher, terninho do garoto, corte de cabelo e bolsa da moda. Guarda os aspectos todos dessa metade de século.

       Herdei no tempo traços do final de século XIX. Ainda não havia plenamente chegado o século XX. Afinal, estamos na América Latina.

      Ali mesmo, de sobre esse viaduto, tinha acesso com Cid, meu pai, à Estação de Cascadura e aos trens, com vagões modelo Getulio 1930. Se fosse com Dorcas, a condução era outra.

     No Largo de Cascadura, do lado de cá, para quem vem pela Ernani Cardoso, pegávamos o lotação. Aquele mesmo, uma só porta, motor à manivela e janelinhas horizontais, de sobe-desce.

       A porta fechava manualmente, por meio de uma geringonça atrelada a uma manivela, ao alcance da mão do motorista.
       
      Na verdade, tratava-se de uma bruta alavanca, fixa na porta, apoiada num eixo e, por essa manivela, manejada pelo motorista.

      Havia uma presilha nas janelas que subiam, vidro sobre vidro, de modo a travar fechada a que deslizava internamente, caso chovesse.
      
      Legal era ver o motorista descer, quando era preciso, quando o motor morria, para encaixar uma grossa manivela,  pelo lado de fora, no motor, que era externo, contorcendo-se junto até o tranco de acionamento.

       Pelo viaduto íamos, a pé, até a feira ou ao Supermercado Disco, "do outro lado", geograficamente depois da linha do trem, delta da famosa Avenida Suburbana, escoamento de ida e volta ao Centro.

      Este era o Centro da Cidade, para onde alguém "descia", quando se deslocava para lá. E os bondes? Trasitavam por lá. Havia lazer na Praça Seca, rota para Jacarepaguá, e a condução era o bonde.

      Essas recordações me trazem a foto. Garoto que nasceu no ocaso do século XIX. Mal o alvorecer do XX. Apesar de estarmos já na metade, estamos na América Latina, onde tudo acontece 100 anos depois.  
  
 Foto do acervo de Carlos Santos Torres
Facebook - Cascadura - Caminhos do Subúrbio


sábado, 19 de maio de 2018

      Experiências ecumênicas

        Nesta semana, mais exatamente na quarta, fomos ver o bispo. Comitiva do Instituto Ecumênico Fé e Política. Eclética, formada por três pastores, um daimista, outro espírita e três católicos: um padre, outro ex-padre e uma irmã leiga.

      Boa conversa, boas impressões, boa diplomacia, pauta ampla. Hoje sábado, tempo suficiente para ruminar uma síntese e pô-la aqui escrita. Lembrei-me de Zacarias e Maria. Ambos fizeram ao anjo Gabriel uma mesma pergunta, porém num tom diferente.

        Quando o sacerdote perguntou no seu tom "Como será isto?", ao anjo, com relação à gravidez tardia de sua esposa estéril, a tonalidade revelava descrença. Quando a virgem fez a mesma pergunta, com respeito a sua gravidez sem concorrência humana, em sua tonalidade denotava, apenas, dúvida.

     A síntese de minha mais recente experiência com a legítima disposição da Igreja Católica em ser ecumênica também me coloca numa encruzilhada, a partir da qual expresso-me numa mesma frase, porém em duas tonalidades: uma interrogativa e outra afirmativa.

     Diante da postura entre dois bispos da Diocese de Rio Branco, separados por mais de 30 anos, D. Moacir Grecci e D. Joaquim Pertiñez, formulo uma mesma frase, a primeira em tom interrogativo, relacionada ao nonagenário bispo D. Moacir: "Taí, por que não ser católico?"

      E a mesma frase, agora em tom afirmativo, relacionada ao bispo Dom Joaquim: "Taí, por que não ser católico". São duas concepções de Igreja, a meu ver. Uma delas mais flexível, aparenta ser, essa representada pelo primeiro e mais antigo bispo, e outra mais inflexível, o que mais frequentemente se espera da Igreja Romana, representada pelo segundo e mais recente bispo.

       A conversa deixou claro que ecumenismo não existe para afetar ou alterar a visão específica de nenhuma confissão religiosa. Ninguém propõe sincretismos ou a possibilidade de um só modelo de uma "religião universal", resultado de um tipo qualquer de fusão de religiões. Hipótese absurda. Já foi testado o reinado de religiões. Termina, invariavelmente, em opressão.

      Mas ecumenismo pressupõe humildade. Assim como reconhe-
cimento, no mesmo nível, da religião do outro. Em meu aprendizado de me despir de preconceitos em relação à outra religião, sempre admiti até que, para a Igreja Católica, pelo seu porte, antiguidade histórica e capilaridade, é natural sua liderança num movimento ecumênico que se queira mundial.

     É natural para ela. Mas se é que vai estabelecer um índex de quem e com quem vai exercitar ecumenismo e ainda numa forma segundo seu modelo e visão internos e, devido a essa postura, inapelavelmente, vai alçar-se a uma posição acima de todos ora, certamente, constituiu-se num clube restrito.

       Cacoete histórico dela. O clero fica com a instituição, os leigos que fiquem com o carisma. Esforços ecumênicos bem-sucedidos e inclusivos, para usar o termo, vão partir da base, porque demora séculos qualquer flexibilização. Recentemente, o que tornou palatável certos avanços e o influxo de várias concepções modernas, bafejadas pelo vento do Espírito, foi o Concílio Vaticano II.

     A missa tornou-se compreensível em língua nativa, católicos ultrapassaram evangélicos no interesse pela Bíblia, a acentuação da visão pastoral criou várias instâncias de contato, assistência e evangelização. Até uma feição política, à frente dos protestantes, representada pelas CEBs, teve lugar definido e campo amplo de ação.

     Vaticano II foi a Reforma com 445 anos de atraso. É de se supor, nessa marcha, tempo equivalente para a perda do medo e dos escrúpulos com relação ao ecumenismo. Isso me faz reforçar meus fundamentos, é claro, diante do reforço dos fundamentos dela, a Igreja Católica, em sua visão particular, professoral e restrita do ecumenismo.

        Um único e definitivo sacramento me faz cristão: o batismo do Espírito em Jesus. Como afirma Paulo Apóstolo, "estou crucificado com Cristo". Isso também me faz igreja, sem necessidade de absolutamente nenhuma outra mediação. Essa postura bíblica, ao mesmo tempo que indica libertação da escravidão do pecado, me torna livre também de qualquer hierarquia.

        Devo satisfações a Deus e, pelo modelo congregacional, também devo satisfações à minha comunidade. E livre. Livre para o exercício ecumênico. Reafirmando a minha fé e a do outro, repeitando as diferenças, prossigo nesse aprendizado.

         Reconheço a dificuldade que uma instituição tão enorme, como Igreja Católica, dispõe para exercitar, de modo mais flexível, o diálogo ecumênico. A tensão entre a fixação de seus dogmas, na descrição de sua maneira de crer, tão essenciais à sua identidade, assim como as regras de como funciona sua estrutura são obstáculo a uma resposta mais imediata ao ecumenismo, tendo em vista ser multifacetado o quadro das religiões.

      Continuará, para a igreja, a tensão entre mostrar-se mais semelhante a Cristo, o que é essência do evangelho, e sua impossibilidade como instituição em responder célere a essa postura. Terá de continuar seu cestro milenar de definir o que é certo ou errado, para si e para os outros, em termos de cristianismo. Será difícil arvorar para si esse direito e manter a humildade, que Jesus indica como primeira bem-aventurança.

       Dificuldade suprema na insistência em se admitir "a" igreja e não, como na verdade é, apenas "uma" igreja. Que seja a maior e mais antiga, está bem. Mas que não julgue a si mesma a única certa. Cacoete, cestro este milenar, do qual precisa se livrar, definitivamente, para o exercício pleno do ecumenismo.

       Exercício, sem medo, do amor. Como diz João Apóstolo, quem teme não está, ainda, aperfeiçoado no amor, essencial para o exercício do ecumenismo, continuamente aprendido e exercitado. Nem ela em sua milenar história sempre o vivenciou, todo o tempo. Mas ser igreja é prosseguir na prática, vivência e aprendizado do amor.



     

 

terça-feira, 8 de maio de 2018

sábado, 5 de maio de 2018

Artigos soltos 30

      Sim. Não deu para ler uma notícia na net. Mas, pelo menos, a chamada me estimulou a escrever isto aqui.

     Dizia que o Vaticano assumiu como prova da existência de Deus o fato de um passageiro ter dormido no ônibus e acordado no ponto onde iria saltar.

     Bem, no caso, eu deveria ser ateu: já dormi no ônibus e acordei, em Bonsucesso, no ponto final do 907, com as pancadas do trocador na caixa, a fim de me despertar.

        Mas por muito menos admite-se a existência de Deus. Lembrei do texto bíblico que diz saber Deus, matematicamente, a quantidade de folhas que caem, diariamente, de todas as árvores da Amazônia.

        Pronto. Para ficar só nessa floresta. E também sabe quanto perderam todas as mulheres em fios de cabelo caídos no ato de se pentearem, falando-se só delas.

     Pronto. Está comprovada a Sua existência. Acrescido do fato de Paulo Apóstolo dizer "não perguntes: quem subiu ao céu para trazer Cristo de lá ou quem desceu ao inferno para, da mesma forma, fazê-lo subir". Ops!

      Não perguntes. Creia. Ele não está dizendo que nenhuma pergunta deve ser feita. E nem que a fé é aceitar qualquer blá-blá-blá. Mas que fé é coisa inteligente. Então, faça perguntas inteligentes.

      E palavra de Deus deve ser acompanhada de fé naqueles que ouvem. Por quê? Porque é de Deus. Simples assim. Deus fala. Então, creia.

     Nem precisa saber a conta dos fios de cabelos caídos. Ou a ordem de grandeza das folhas que, diariamente, caem. E pode cochilar à vontade no ônibus.