segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Por falar em amor 4

      Caminhos de quem ama. Como no olho de um furacão. Estão em moda. Tudo à volta gira com ventos a 300 por hora. Amor é furacão grau 5. No último.

      Só existe amor se for nesse grau. Não existe amor sem risco. O máximo que pode ocorrer, é que o olho da coisa se estreite tanto, mas tanto, que parece somente sobrar espaço para quem ama não sossobrar.

      Estreito. Tudo à volta a 300 por hora. Essa é a sensação. A realidade é mais intensa. Caminhos de quem ama incluiu labirintos onde somente há gente à volta.

     Amam-se amigos, amam-se filhos, ama-se cônjuge. Ama-se qualquer um (ou uma). Amam-se todos e cada qual, sempre um a um,  sempre individualmente.

     Esses caminhos conduzem a todo o lugar. Quando se afasta do previsível, em direção, como a Bíblia arrisca dizer, de amar o inimigo, aí que vem a prova, na verdade, de que se ama.

      Amar a quem não ama, a quem nunca ama, como Deus pratica, somente se, como Deus, estiver verdadeiramente dentro de nós. Não o amor dentro de nós. Somente se Deus estiver dentro de nós.

      No olho do furacão. Seguindo para em que direção ele for. Estreito e seguro, bem no olho. Menina dos olhos do olho do furacão. Deus dentro de nós, todo o risco, em toda e qualquer direção. O amor.

      "O perfeito amor lança fora o medo. Aquele que teme, não é aperfeiçoado no amor". João Apóstolo.

Por falar em amor 3

      Radical. No sentido de raiz, tanto quanto no sentido absoluto. Pode parecer estranho, mas não há democracia na escolha do amor.

      "O amor de Cristo nos constrange", disse Paulo Apóstolo. Ama-se todos. Não há como optar a quem amar: ama-se todos e qualquer um ou não se trata de amor.

      Ama-se com igual intensidade. Se não, de novo, não é amor. Amor é único: o mesmo e igual sentimento a todos e em igual intensidade.

      Cumplicidade pode não ser amor. Mas sempre amor implica cumplicidade. Muitas vezes amor implica dizer não. Caim e Abel foram cúmplices em apresentar culto a Deus.

      Deus amou igual aos dois, dizendo sim a Abel e não a Caim. Os ladrões ao lado de Cristo foram cúmplices em toda a vida. Pelo menos um deles, por amor, deveria ter dito não ao outro.

       Talvez tenha sido esse que, uma vez crucificado, resolveu receber, em si, o amor de Jesus. Amar às vezes implica dizer sim, outras vezes implica dizer não.

      Seja sim, sim; não, não. Negue, por amor; reafirme, por amor. Muitas vezes, na vida prática, inverte-se o sim pelo não, perdendo-se a oportunidade do amor.

      Nem todos que são cúmplices o são ou devem ser por amor. Nem todos os iguais o são ou deveriam ser por amor. Às vezes, a diferença é fundamental no amor.

      Às vezes, discordar é mais amar do que concordar sempre. Pode haver cumplicidade e concordância no erro. Uma quadrilha é cúmplice, tem concordância, estão articulados, mas não compõem uma comunidade de amor.

      Às vezes até pode-se rejeitar o outro, em nome do amor. Namorados ensaiam amor. Unilateralmente, em nome do amor, um pode, eventualmente, rejeitar o outro: experimentarão amor em amizade, nunca em vida a dois, como cônjuges.

      Facetas do único, permanente e autêntico amor. Uma vez por todas dado aos homens (e mulheres). Nunca suficiente, nunca totalmente habilitado e aprendido, porém permanentemente ensaiado como prática desafiadora.

     

domingo, 10 de setembro de 2017

Sermão 2

    Texto: Jeremias 22,15-19

Objetivos:

1. Indicar o efeito do oráculo de um profeta no contexto em que foi pronunciado;

2. Uma vez eternizado nas Escrituras, demonstrar como seu efeito se torna referência permanente;

3. Compreender o modo como as Escrituras, ainda hoje, reatualizam-se em seu cumprimento.

Argumentação:

     Os livros proféticos apresentam uma variedade de textos, todos eles inseridos no contexto geral da profecia. No caso de Jeremias destacam-se, pelo menos, três tipos: palavras de viva voz, biografia e sermões do profeta. É possivel, então, compreender com que urgência as Escrituras se estão formando e de que modo, até nossos dias, é possível que se atualizem.

Tópicos:

1. Para Israel, no contexto da vontade de Deus, reinar era praticar justiça;

2. A figura humana de Josias, o rei avivalista, tornou-se modelo em seu tempo, dentro de sua geração e nas Escrituras;

3. A profecia de Jeremias se atualizava em Escritura e, na medida em que se formava, era assimilada e se cumpria.

Textos:

Para o Tópico 1: a) o acúmulo de riquezas, na contabilidade de Deus, não representava justiça: Jr 22,15a; b) muito próximo estava, ao alcance, um modelo de justiça: Jr 22,15b; c) a prática da justiça sempre foi a verdadeira vocação para os reis de Israel: Jr 22,15c-16; Sl 72,1-5;

Para o Tópico 2: a) a figura humana de Josias se constitui em exemplo de justiça: Jr 22,16; b) apegado às Escrituras: 2 Cr 34,19-21; c) não meramente um reformador, buscou com sinceridade o Senhor:  2 Cr 34,1-3; 2 Cr 34,10-13.30-31;

Para o Topico 3: a) a máxima da justiça como prioridade cristaliza-se na profecia de Jeremias: Jr 21,12 // Jr 22,3 // Jr 22,16; b) caráter e atuação política negativa reprovam o caráter do rei: Jr 22,17; c) comparado ao pai, mui lamentado, alvo de um poema de Jeremias, não será lembrado como modelo: Jr 22,18-19; 2 Cr 35,25-27.

Conclusão:

     As Escrituras indicam homens e mulheres de Deus apontados como padrão. Desde os antecedentes de sua infância e em toda a sua trajetória, Josias se impõe como exemplo de justiça: verdadeiramente buscava o Senhor, priorizava as Escrituras para as cumprir, convocava o povo ao compromisso com Deus e todo o tempo praticava, de modo imparcial, a justiça. Exemplo pessoal e coletivo de um governante segundo o coração de Deus.

Sermão 1

     Texto Lucas 1,1-4

Objetivos:

1. Compreender o zelo e preocupação de Lucas em confirmar Teófilo na fé;

2. Confiar que o texto que Lucas envia, seja o Evangelho, assim como a continuação em Atos, são capazes de cumprir essa finalidade;

3. Entender que, também para nós, esses textos, agora recebidos como Escritura, podem cumprir esse mesmo objetivo.

Argumentação:

      Lucas reconheceu, a distância, que Teófilo havia sido alcançado pelas verdades do evangelho. Estimulado, tanto por essa boa notícia, quanto reconhecendo a necessidade de confirmar seu amigo e agora irmão na fé, resolve seguir, dentro de sua metodologia muito especial, o exemplo de outros que narraram as verdades referentes a Jesus.

Tópicos:

1. Há nos registros de Lucas indicações fidedignas do conteúdo do evangelho: por meio delas é possível crer e ter confirmada a fé;

2. Tais registros, as Escrituras, são referência permanente para os que, através dos séculos, creem: caso sejam desprezadas, estará comprometida a identidade da igreja;

3. A influência da igreja no mundo, o principal, sua imitação de Cristo, somente serão definidas pelo exercício da fé baseada no seguimento das Escrituras.

Textos:

Para o Tópico 1: a) efeito da primeira pregação do evangelho, falando direto ao coração: At 2,27-28; b) a exclusividade da salvação em Jesus, defendida contra qualquer reação: At 4,11-14; c) a capacidade necessária à igreja para encher a cidade com a doutrina e bênção do evangelho: At 5,28.

Para o Tópico 2: a) Paulo utiliza a Bíblia de seu tempo para convencer a respeito da fé: At 17,2-4; b) não há salvação à parte da palavra de Deus, como registrada nas Escrituras: At 8,30-35; c) a ação de Deus na história da salvação, entre os homens, é confirmada pelas Escrituras: At 2,15-21.

Para o Tópico 3: a imitação de Jesus é seguir sua identificação com todos e todas: Lc 7,44-47; b) a revelação de Jesus, imperceptível aos olhos, confirma-se no testemunho da verdadeira fé: Lc 19,7-10; por meio de Jesus, os olhos de qualquer um são abertos, pelo testemunho das Estruturas: Lc 24,44-49.

Conclusão

     É necessário redescobrir o prazer pela leitura das Escrituras. Além do  fato de ser vital à igreja, ao testemunho e ao crescimento daquele que crê, por meio dela será resgatada a dimensão profética da igreja, no anúncio do próprio evangelho, assim como no enfrentamento e denúncia do que, no mundo, está fora do padrão de Deus.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Por falar em amor 2

Pecado e amor

     Pecado é o não-amor. Pecado é não amar. Não quer dizer que, quem ama, não peca. Aliás, o que é pecado? Palavrinha atormentadora.

       Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Abaixo dessa latitude, já se gaba o poeta, não há tormenta. Ora, chame do que quiser:  maldade, entropia, desajuste, não evolução.

       A definição bíblica é dramática mesmo. Nesse caso, de novo, ela não é pessimista, porém realista. Caso a opção seja amar, esse é o antídoto para o pecado.

     Quando ele se manifestar, se houver amor, será por pura impotência. Ninguém está isento dele. E logo virá o (pedido de) perdão: não há amor sem perdão, não há perdão sem amor.

     Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Não existe amor sem o bem, não existe o bem sem amor. Pecado sempre é contra quem dele é portador, contra quem está próximo (e sempre há quem) e contra Deus: não, necessariamente, nessa ordem.

     Mas é tríade sempre presente na condição humana: contra si mesmo, contra o outro e contra Deus. Por isso e para isso, conta o Livro, Deus se fez homem: por amor, por amar homens e mulheres. Fez-se por amor, para amar e para tornar possível o amor em nós. O amor é antídoto contra o pecado.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Por falar em amor 1

Amor

         É uma coisa de que se tem de falar. Mesmo que não saia o que valha a pena dizer ou ouvir. Porque é no exercício, como se diz, nessa dialética de refletir, dizer e tentar atinar, que reside essa possibilidade.  Mas amor, definitivamente, é dado aos homens (e mulheres).

         E, essencialmente, pelo menos, há um consenso: é coisa de se praticar. Falar que ama sem uma prática convincente, no mínimo, soa falso.

       Uma vez dado aos homens (e mulheres) para compreensão e prática, uma primeira questão: há amores, ou seja, diferentes tipos e espécies, ou será único, havendo somente um e único tipo: amor e pronto, tudo ou nada?

      Partimos do dado bíblico, supondo aqui, como axioma, que esteja correto: Deus é amor. Então, é único. Só existe um tipo e é atributo divino. O que não resolve nada, porque, contadas as opiniões a respeito de Deus, tantas serão, em sua diversidade, as definições de amor.

         Para logo se dizer: sim, se é assim, ateus não amam? Óbvio que a possibilidade do amor é para todos, incluídos ateus, os com ou sem religião, não interessa que religião. A plausibilidade do amor é para todos e todas, para qualquer um.

        Ora, mais por que não ser, em termos de amor, democrático? Para e por que ser absoluto?  Ora, mais uma vez, amor é, a um só tempo, radical e absoluto. Como exemplo, vou usar o bíblico, não é por nada não, mas porque o Livro baseia-se, exclusivamente, no amor.

     E amor de Deus. Afirma que Deus é amor. E que ele radicalizou geral: para amar o homem (e as mulheres), fez-Se a si mesmo homem. De outra forma, seria impossível que amasse.

     E é o mesmo Livro que também afirma: o perfeito amor lança fora o medo. Ora, quem tem medo, não ama. Deus amou todos (e todas, como está na moda dizer). Radicalizou.

     Para amar, não pode existir medo. Quem tem medo, não ama todos e qualquer um. E quem não ama, indistinta e indiscriminadamente qualquer um (ou qualquer uma), verdadeiramente não ama. A coisa é radical.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reflexões sobre Jeremias 5


Foco

     Todo profeta tem um foco. Mesmo em meio à diversidade de textos, representada na estrutura costumeira de seus livros, em menor ou maior escala, é possível depreender um foco.

     Nesse sentido, o profeta, com um olhar específico para a época, prisioneiro do contexto específico, opera uma interpretação sobre si mesmo, sobre a realidade em redor e sobre Deus.

     Jeremias é o profeta onde essa complexidade mais se reflete. A começar pelo fato de seer aquele sobre quem, em meio aos textos de seu livro, há uma visão biográfica sobre sua personalidade e circunstâncias de sua ação.

     Além dos oráculos específicos a ele atribuídos, a ipsissima verba, confissões, que são orações pessoais, refletindo perplexidade, há um terceiro tipo de material, que são os sermões atribuídos a redatores deuteronimistas, baseados em material original anteriormente recolhido.

     Foco. Não se trabalha sem uma visão de vocação, de chamado específico e individual de Deus para si mesmo. A vocação de Deus é o ser humano. E quem vivencia isso, interpreta Deus para o outro, em seu próprio contexto, tempo e época.

     Foque o foco em Jeremias. Como qualquer outro, quando se trata de vocação verdadeira, assustou-se e tentou fugir ao chamado de Deus.

     Em meio ao caos que se esperava, dispersão pela mesma rota seguida pelos israelitas do Norte, um êxodo ao inverso, o profeta julgou a si mesmo ludibriado por Deus, quando incapaz de contribuir, de alguma forma, para evitar a calamidade que era esperada.

     E sozinho contra tudo e todos: de linhagem sacerdotal, rejeitado por seus iguais de Anatote, deslocado como profeta, os de mesma classe desautorizavam sua palavra e versão dos fatos.

     Quanto aos demais, príncipes, juízes, anciãos que fossem, colocou-se contra todos eles. Foco. Contra tudo e contra todos. Jeremias mais parecia uma ave de mau agouro.