quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Mal traçadas linhas 68

      Ora, Deus.

      Ora, os ateus. Estão aumentando em número. Aqui no Acre formam, inclusive, uma associação. Já fui a um de seus encontros.

       Como se diz alhures, vai acabar virando religião. Ha ha. Duas coisas, pelo menos, são axiomas de sua argumentação.

      A primeira delas é que Deus, ou melhor, para eles, deus é uma projeção do ser humano. Quer dizer, foi criado por nós e não o contrário.

      A segunda coisa é que acreditam, sim, na ciência. Para eles, só não haveria saída se a ciência comprovasse a existência de Deus.

    Daí se deduz que têm fé na ciência. Sim, como já dissemos neste blog mesmo, há coisas da ciência que só aceitamos por fé. É claro, dizem, uma "fé científica".

         Já demonstramos como a definição bíblica de fé encaixa-se, perfeitamente, à ciência: (1) certeza de coisas que se esperam, isto é, afirmam que a ciência, um dia, tudo explicará, ainda que, por hora, algumas coisas ainda não conheça.

     Ora, isso é fé na ciência. E (2) quando a Bíblia diz que fé é convicção de fatos que não se veem. Ninguém viu, por aí, o antepassado comum aos macacos e a nós mesmos.

      Os macacos atuais são nossos primos em segundo grau. Mas não pensem que é só por causa da semelhança óbvia, mas por dados científicos. Ninguém sabe, ninguém viu, são convicção de fatos que não se veem.

       Aliás, essa semelhança entre símios e humanos acaba por legar deboches discriminativos, como no caso da torcida do Villarreal com o Daniel Alves. Quer dizer que macacos assemelham-se aos humanos mais primitivos? Isso é eugenia, bem ao gosto e época de Darwin.
   
       Pois sim. Cobra-se que Deus seja e esteja patente. Ou que se submeta a uma, pelo menos, prova documental científica. Não deixaria de ser um Deus a nossa imagem e semelhança, enquadrado e fichado em nossos arquivos.

     Pois é a história que a Bíblia conta. Deus se fez homem. Mostrou Sua cara. Mas não basta para ateus. Não serve como prova. Ora, que idólatras: querem um deus a sua própria imagem e semelhança.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

      Há um mistério.

      Blog é mesmo algo vababundo. Como também pode se tornar vagabunda a atividade da escrita.

      Eu, por exemplo, devo tê-la herdado dos antepassados. Passei a exercê-la, mais recentemente, digitando o teclado do smartphone.

       Acompanhava aquela que, com certeza, me foi o principal antepassado, Dorcas, minha mãe. Que reclamou, à epoca dessa assistência, por que eu tanto digitava.

      Havia um mistério. Há um mistério. Dorcas minha mãe partilhava dele. Que mistério? Não se explica. Na vida, há coisas que não se explicam.

      Os antigos viviam esse mistério. Não tiveram smartphone que digitar neles, nesse teclado miúdo e para nós, agora, tão essencial.

       Vai amanhecer aqui. Misturou-se comigo, de novo, a vigília vagabunda que às vezes me acomete. Lembrei das vigilias no hospital, lembrei de digitar e me veio essa ideia.

      Antes que amanhecesse resolvi escrever sobre esse mistério que nossos avós e bisavós antepassados mesmo experimentaram e nos legaram.

      Há bondade nesse mistério. Não havia para eles esse teclado essencial. Mas o que para eles foi essencial nos trouxe à existência. E não somos apenas o acaso de sua reprodução. Não.

        Por casusa do seu amor. Por causa da sua dedicação. Por causa da sua garra. Desculpem citar a Bíblia, mas lá há uma frase que diz "da fraqueza, tiraram força".

       Eles nunca souberam o que era fraqueza. Houve pobreza. Era outro tempo. Sabemos um pouco de sua história e do que viveram. Os mais velhos entre nós conhecem e lembram melhor.

      Mas mesmo nós, os primos, em torno de 60 anos, mesmo os que correm atrás, para alcançar (ou os que já alcançaram) 40, mesmo meio século, vá lá, os de 50, acusam, entre nós, esse mistério.

      De bondade. De amor. De dedicação. De saudade. Gi fez aniversário e lembrou daquela que chamava Irmãe, Dorcas vivia esse mistério na prática. E Moisés, de quem ela também lembrou?

     O humor de Moisés replicava naquele de Onésimo, que provocava qualquer um na família, gozações até com tia Zila, reverberando nas gargalhadas do Marcelo.

       Gi é a mãe do delegado da família e mais dois médicos. Vigília de delegado e de médico não é vagabunda. Ali, sono, salto, urgência e emergência têm outro sentido. Pura lucidez.

      Delegacia e Pronto Socorro, por ali a vida dá lições que não deixam a realidade escapar. Amanheceu. Mas o mistério não se explicou. Ficou no passado.

     Quem sabe na beira do rio onde pescava o bisavô. Talvez mesmo o pai dele. Na beira do fogão, ainda a lenha. Noutra vigília, à luz de vela, por causa da febre de um desses meninos.

         Quem sabe num diálogo entre a tia Zilda e a avó Dorcas, no Engenho de Dentro. Ou no andar gingado do Manoel Inácio, aprendido com os antepassados negros dele lá em Mossoró.

          Ou tenha a ver com a veia poética de Tula, também presente no cunhado Nelson, este inventor da geringonça  ainda presente na memória de Eunice, para dar sorvete às crianças na década de 40.

          Mistério. Bondade. Dedicação. Amor. Gozado, como conseguiram viver sem smartphone?

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Mal traçadas linhas 67

     Limites

     Deus impôs ao mar limites. Ora, vejam seu tamanho. Recorrente essa linguagem na literatura de sabedoria na Bíblia.

     Jó e Provérbios utilizam essa mesma imagem. Limites. Deus impõe limites. Paulo Apóstolo afirma que Deus encerrou na carne o pecado.

       A morte é limite final para o pecado. Com ela, ele deixa de existir. Não há comunhão entre Deus e o mal. Como se torna possível, com Deus, comunhão?

      Na comunhão não há limites. Se há, não há, então, comunhão. Há ou não há. Não existe meia comunhão. Não existe mais ou menos comunhão.

      João Apóstolo diz em sua carta: "A nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo". A comunhão é. É ou não é. Deve haver quem pense ter, com Deus, mais comunhão que outros.

       Somente Jesus tem com Deus uma comunhão sem limites. Qualquer outro homem ou mulher tem, na comunhão com Deus, limitações. Patentes.

      Elias fugiu quando, estressado, recebeu a extrema ameaça de Jezabel prometendo matá-lo, esconjurando a si mesma em nome dos deuses, caso, em 24 h, não matasse o profeta.

      Qual era o limite de Elias? Rota sem rumo, mergulhado no fundo de sua caverna íntima, esperou de Deus furacão, raios e terremoto. Mas a resposta veio quando tudo estava na mesma.

     Ester. Qual foi o seu limite? Miss mundo, todo um ano de preparação e a escolhida do imperador persa, todo poderoso governante do mundo. Conheceu seu limite quando o tio lhe recomendou a seguir a orientação de Deus em sua vida.

      Jonas. Seu limite foi quando, mergulhado no abismo, clamou por socorro. Como Jacó, lutou com Deus. E lutou contra si mesmo para que não fosse vencido pelo amor. Não se cumpriu em sua vida a letra do hino "vencido por tão grande amor".

       Qual o limite? Na comunhão, qual o limite que impede maior intimidade com Deus? Medo, fé claudicante e amor a menos são nossas limitações.

      Pretensão. Somente o homem Jesus teve com Deus comunhão sem limitações. Ainda que tenha acusado o desamparo do Pai na hora de Sua morte. Ali foi seu limite.

      Naquele momento somente ele poderia sofrer, em nosso lugar, tal desamparo. Para que somente assim nos trouxesse à real comunhão com o Pai.

      Afastemos de nós nossas limitações. Elias achou que, finalmente, diante de Jezabel, chegara a seu limite e não haveria de ser livre.

       Ester achou que já cumpria sua finalidade como a mais bonita de todas, a escolhida do rei, até ser advertida de que não: que não impusesse a si mesma aquele limite, porque iria ainda mais longe.

       Jonas impôs a si mesmo, diante de Deus, um limite ao amor. Não abriria mão de sua mágoa, a fim de que se deixasse aprender com Deus a amar.

     Qual é o meu limite? Qual é o seu limite? Quantos e quais são os nossos limites?
   

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Rosas da roseira de Dorcas

Primeiro, as flores.

       Há anos pr. Amaury Jardim escreve na coluna de Vida Cristã. Sua especialidade é focar aspectos simples e corriqueiros do dia a dia, aos quais costumamos não dar importância, mas que sempre foram enfatizados por Jesus.

      Acho que ele fala de flores, porque é da família Jardim. Mas aprendi com ele, aliás, com todo o clã Jardim, com quem convivi, mais ou menos, entre 1966 e 1972, a dar importância ao que é simples.

     Como Jesus. Não costumamos enxergar no que é singelo grandes lições a aprender. Principalmente num tempo em que reclamamos, exatamente, de qualquer contemplação, achando ser, com certeza, perda de tempo.

    Mas Jesus falou que mirássemos as aves do céu e lírios nos campos. Isso como remédio para a doença deste século: ansiedade. Nos tempos do touch screen, vamos valorizar essas coisas? Entenda esta pergunta como um convite.

      Noutro dia, peguei do binóculo lá de casa, que deve ter mais de 20 anos de comprado, para ver de mais perto a revoada de pássaros que, ao entardecer, veio aninhar-se no pé de ficus. Desenham idas e vindas em mergulhos de ajuste nos frágeis galhinhos na ponta da árvore.

        Frágeis. Nós mesmos o somos. E Deus. Escolheu-nos como Sua ênfase. Nisso está a importância de Deus e a nossa própria. A esse encontro, Deus chamou "igreja". Isso. Talvez o jardim seja a igreja.

       Igreja um jardim? Jardim lembra igreja. Família Jardim lembra igreja. Ali são cultivadas, de preferência, coisas simples. Flores, por exemplo. Cada uma com uma cor. Cada qual com seu perfume. Acho que, para Deus, primeiro as flores. Essa ênfase.

        Vidas. Deus plantou um jardim de vidas. Tão lindas! Com Sua mão. Oh, quanta beleza no jardim de Deus. Para que aparecesse essa beleza aos homens. E desejassem, de si mesmos, fossem flores cuidadas pelas mãos de Deus.

       Ei, família: um jardim. Um Jardim. Família de Deus. Igreja. Convite aos homens (e mulheres). Convite a cada qual. Convite a cada um. Há 90 anos ensinando a valorizar igreja.

         Seja você flor cuidada pelas mãos de Deus. Venha para esse jardim.





segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Mal traçadas linhas 66

     Mas onde, o mal?

     Há certa dificuldade prática em definir onde o mal. Sempre o vemos nas coisas ao redor. Apontamos com os dedos. Nisto ou naquilo situamos o mal.

     Ou então, nos outros, é claro. O mal sempre está no outro. Aliás, vamos citar a engenhosa sentença atribuída a Sartre: o nosso inferno é o outro.

     Ora, se não fossem eles: eu seria bem melhor. Fora de foco. Não é isso que Jesus diz. De novo, Jesus. Ele diz que de dentro, do coração humano é que procedem (todos) os maus desígnios.

      E ele mesmo passa a descrever. Leia lá você mesmo em Marcos 7. Desculpe decepcionar você, mas a maldade que você vê em mim, da mesma forma, existe em você.

     Digo maldade genericamente falando. Talvez o seu pecado não seja o mesmo meu. Mas, embora seja Carnaval, no calendário, esqueça o prêmio de originalidade.

     Pecado, seu e meu, têm o mesmo preço. Segundo indica a Bíblia, valeu o preço do sangue de Jesus. Você acredita nisso? Talvez seu evangelho também seja individualista.

     Esqueça. O pecado é, sim, individual. Embora o prejuízo dele seja coletivo: afeta cada um, afeta como ofensa o próprio Deus e afeta como violência o outro.

     Já a graça não. Ela é de Deus. É coletiva, no sentido de igual para todos, e aplica-se individualmente a quem crê. Você é dos que creem? Como diz Paulo:

      A ofensa parte de cada qual, de cada um, contra a santidade de Deus. A graça decorre da justiça de um só, Jesus Cristo, em favor de cada um que crer.

      Você e eu, tão iguais, que gostamos de apontar o erro do outro, oh!, que deleite, que íntimo e doentio prazer descobrir e identificar no outro a fraqueza.

     Deus olhou com mais tristeza e realismo o seu e o meu pecado. E não jogou isso nem na minha e nem na sua cara. Mas resolveu sensibilizar a mim e a você no ato do arrependimento.

      A Bíblia afirma que a tristeza segundo Deus produz arrependimento. É, meu caro, que temos mania de doentiamente nos deleitarmos no erro alheio: Deus é quem se entristece com o pecado e nos educa em duas coisas:

      (1) enxergar, sim, cada qual o seu próprio pecado; (2) encarar isso com realismo e tristeza. Paulo, de novo, aponta que é o Espírito Santo que nos educa para rejeitar paixões humanas. E viver sensata, justa e piedosamente.

      Vê se esquece o erro alheio. Deixa de sentir doentio prazer em indentificá-los. Olhe para o seu próprio. Peça a Deus que te entristeça por eles. E entenda que custou o preço do sangue de Jesus.


   

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Sermão 3

       Quem é o servo: sermão escatológico de Jesus.

                                   Mateus 24,1-51

       Uma conversa solta gerou toda essa argumentação. À saída do templo, a rapaziada de Jesus admirou-se da suntuosidade do prédio. Jesus mudou o tom, sombrio ficou.

       É claro que uma conversa dessas não ficaria sem, mais tarde, uma pergunta, que ocorreu no plantão das dúvidas, posteriormente, no ponto de encontro deles no Monte das Oliveiras.

        Três pontos principais: 1. Quando?; 2. Que coisas?; Que sinal da tua vinda? Quando, Jesus respondeu: nem o "Filho do homem" sabe. Isto é, não é assunto de revelação aos homens.

      Que coisas, todas essas que nos assustam. Guerras: onde há, (1) vêm as armas; (2) os que lutam, seja "justa" ou não a causa; (3) os que lucram e nela têm interesses.

      Ódio, perseguição e morte por causa do nome de Jesus. Traições, escândalos e falsos profetas aparecerão. Aumentará a iniquidade, na mesma proporção em que o amor esfriará.

       O evangelho será pregado. Sempre e mais do que nunca, prevendo, advertindo e avisando do fim: aterrorizante, para alguns; repleto de esperança, para outros.

       Plano de urgência: Instruções: 1. Não volte atrás a pegar o que esqueceu; 2. Haverá grande aflição: para grávidas, incluídos velhos e crianças será custoso; 3. Não acreditar nem mesmo quando vir milagres, porque são "sinais e prodígios da mentira".

       O sinal verídico da vinda de Jesus será distintivo e reverberará por toda a terra. Será instagram. Até os astros, no firmamento, como já foi avisado desde a Criação, darão sinal. E seremos todos, de uma vez por todas, recolhidos.

      Jamais os mortos serão esquecidos. Ao mesmo tempo, crentes em Cristo ressuscitarão e ambos, vivos e ressurretos se encontrarão com o Pai, por meio de Jesus em Sua volta.

       Quando virdes a figueira reverdecer, olhando os sinais indicadores e marcando o tempo desta geração, então será. Não seremos pegos de surpresa, como o foram a geração dos dias de Noé.

      O Filho de homem, Jesus, breve virá. Berve virá! Beve virá! Breve virá! E todos hão de vê-lo. Estarás tu pronto quando Ele vier. Quem é o servo.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

        Nunca me levarás os pés.

        Foi esta a palavra de Pedro, escandalizado com o gesto de Jesus, que se pôs a lavar os pés dos apóstolos, serviço de servos.

        Imagino o olhar assustado de Pedro, nesse cara a cara com Jesus. E o costumeiro olhar de firmeza e convicção de Jesus, dirigido a Pedro.

       Não sabia ainda Pedro o sentido real e completo do lavar que aquele gesto simbolizava. A experiência com Jesus é fundante e única. Não há necessidade de uma série ou sequência.

       Porém tão somente o aprofundamento dessa. Paulo diz até ver Cristo formado em nós. Dá-se num processo contínuo que desdobra-se e aperfeiçoa-se sem um fim previsível.

      Ele mesmo disse que com ele caminhava na direção de conquistar o que para o qual Cristo o conquistara. Não julgava ter ainda obtido a perfeição.

      E que todos os perfeitos tivessem esse mesmo sentimento. A partir do batismo em Cristo, que ele mesmo realiza no Espírito, como esclareceu o Batista, somos fundados na fé.

       Ela se cumpre em nós nesse batismo, a partir do qual Cristo é formado em nós. Nunca me lavarás os pés. Pedro não imaginava ainda, naquela última ceia, que Jesus haveria de muito mais entregar-se a fazer por nós.