quarta-feira, 31 de dezembro de 2014


  Capazes em seus limites.

           Paulo, de novo ele, na sua segunda carta aos Coríntios, expõe, num comentário seu, um princípio geral de ação que ele mesmo aplicava a sua atuação, como ministro de Deus, mas que (esse princípio) se aplica, de modo geral, a uma ampla esfera da vida. É ele (o princípio) que vai escrito na referência 2 Co 10:13: "respeitamos o limite da esfera de ação que Deus nos demarcou". Trata-se, enfim, de um princípio geral, genérico, de ampla abrangência a todas e qualquer área do relacionamento humano.

               Ou seja, um regime totalitário, por exemplo, jamais vai aplicar esse procedimento no contexto de sua atuação. Não vai respeitar limites, apenas estabelecer seus próprios interesses, cercar-se de uma máquina de ação que os implemente, e seguir adiante, sem que seja questionado por qualquer desatino que houver perpetrado ou sem que consulte os governados a respeito de opções ou escolhas que cabem o povo decidir. Por outro lado, um regime não autoritário terá prazos, submeter-se-á a escrutínios periódicos para sua renovação no poder, terá câmaras para as decisões a tomar, enfim, terá suas esferas de poder e atuação claramente definidos, sendo cioso por manter-te eticamente defensor desses justos direitos.

               Um sistema de governo com respaldo jurídico qualquer, da atualidade, por exemplo, séculos e séculos de história pregressa para que se estabelecesse, passando por sua gênese na Grécia Antiga, suas experimentações no tempo do Império Romano até que, por ocasião da Revolução Francesa, tomasse a forma que chegou aos nossos dias, ganhando o nome genérico de democracia, precisa, precipuamente, respeitar o princípio acima mencionado pelo apóstolo em sua carta, qual seja, respeitar o limite de sua esfera de ação. Nos sistemas jurídicos ficam muito bem e sensivelmente definidos os limites de ação. Ultrapassá-los significa transgressão da norma, transgressão da lei, sujeita a penalidades de leis específicas que resguardam o trânsito dentro desses limites previamente definidos, ou seja, leis que resguardam leis.

                       Limites. Na Bíblia, por exemplo, novamente, no Antigo Testamento, em Israel havia um padrão de conduta legal, que os profetas cobravam dos reis, principalmente, mas que servia como padrão para todos, principalmente juízes, sacerdotes, anciãos, enfim, autoridades, coisa de cima para baixo, mas que igualava todos, incluído o povo, que era o mispat e o tsedaqah, traduzidos no português 'juízo' e 'justiça'. Uma leitura, verdadeira busca por seus significados nos dicionários bíblicos, comentários ou enciclopédias vai indicar mispat como o padrão divino de justiça e tsedaqah, o padrão humano de justiça, numa frequente busca por sua efetiva aplicação de modo o mais próximo do perfeito que fosse possível.

                  Jeremias, profeta do século VI a. C., indicava o rei Josias como aquele que, efetivamente, praticou o mispat e o tsedaqah em seu governo. Basta lembrar que ele pôs abaixo os templos idólatras construídos desde a época de Salomão que, por si só, constituíam-se num marketing permanente da idolatria, ainda levando-se em conta que seu próprio autor tinha sua auto-imagem própria de rei sábio (em termos) e, por isso, nenhum rei anterior, até os dias deste aqui citado, teve o mínimo de coragem de fazer o que Josias, em seu curto período de governo, fez. Nas palavras do profeta, ele 'exercitou juízo e justiça', isto é, asah, fez, realizou, estabeleceu (a todo e qualquer preço) mispat e tsedaqah.

               Josias invadiu os limites do clero de seus dias, os sacerdotes, não lhes respeitou a esfera de ação, simples e objetivamente porque eles mantinham o marketing da idolatria, por pura conveniência. Josias promoveu uma revolução cultural e religiosa em seu tempo, alterando costumes que vinham de anos, pelo menos séculos atrás, profanando os túmulos de todos os sacerdotes que serviam naqueles templos delivery idólatras, para queimar-lhes os ossos nos altares dedicados aos seus ídolos de intimidade. Escandalizou muitos, desafiando o status quo de seu tempo, contra os que não tiveram coragem de desafiar seu poder político e autoridade espiritual, visto que, como diz o segundo Livro das Crônicas, ele, desde muito cedo, porfiava por seguir a Lei do Senhor, desde sua pré-adolescência, ficando, então, comprovado, que é possível vida inteligente já desde essa fase da existência e, ainda, entender em que limites por que Deus deseja ver pautada a conduta de um rei (ou qualquer autoridade do mesmo caráter de Josias). Desde a pé-adolescência, aliás, Segundo Crônicas diz, antes até, é possível ter padrão de conduta dentro de limites.

                Limites e esfera de ação. Passeando pelas Escrituras, ainda, poderemos aplicar esse amplo conceito de Paulo, rastreando sua falta ou presença, quando e de que modo deveria ser aplicado. O primeiro casal, por exemplo, a eles foram estabelecidos limites. Quando questionados, não souberam guardar, de si e para si, sua esfera de ação. Invadiram e deixaram-se invadir pela esfera do mal, pensando poder manipulá-lo, ilusão que, até hoje, o homem, genericamente falando, mantém: não é possível manipular a maldade ou servir-se dela como arma de ataque, defesa ou, domesticada (se é que isso seja possível), dela servir-se para 'benefício' próprio. Ela vai se voltar contra si mesmo. Os limites do homem deixaram de ser o Jardim, expulso que foi para o limite exterior, para suar, cansar-se, pecar, penar, sofrer e morrer por isso. Violou-se o homem, violado foi, violado está, prostitui-se no e com o mal, portas escancaradas, sem que se contenha, a não ser que se permita, por Deus, impor-se limites. Santidade é impor-se limites.

               Abraão adquiriu limites ao negociar com Efrom, o heteu, uma parte da terra onde sepultar sua morta, a amada Sara. Negociou sabiamente com eles e lhes adquiriu a porção que, simbolicamente, passou a ser possessão na terra que, futuramente seria a morada de seus descendentes e que, até hoje, é disputada, exatamente para uma definição de limites. Deus prometera a Abraão que seus descendentes a herdariam, após luta de conquista, porque, na leitura bíblica, os antigos moradores, a família dos amorreus em suas designações mais específicas, a tinha profanado. De novo, repetição, falta originalidade na ação do mal, porta escancarada, permissividade, eles se permitiram violar-se num disfarce de religiosidade, idolatria, que é construir para si o deus que se quer, para se permitir violar, entrada e saída do mal sem pedágio, mas com ágio de um peso real de dívida não paga e condenação da própria consciência. Mais uma vez uma discutível questão sobre limites impostos por Deus e não respeitados pelos homens.

                Mais adiante Moisés, não esse do cinema, mas o do Êxodo mesmo, de verdade, o segundo livro do Livro, esse Moisés invadiu os limites de Faraó. Ele, que nascera como legítimo descendente da realeza, mergulhou numa tremenda aflição pessoal em seu exílio em Midiã, casou com uma das filhas do sacerdote de lá e, tendo Deus com ele provocado um encontro no Sinai, experiência da sarça que ainda arde, chamado por e para Deus, voltou ao Egito como escravo, para só assim ser usado, por esse mesmo Deus, para invadir os limites do Faraó, não lhe respeitando a esfera de ação. Faraó oprimia o povo que Deus chamava de seu. Deus, então, resolveu intervir, no Seu (de Deus) tempo. Para isso, enviou seu (formalmente, o primeiro) profeta para, propositada e propositalmente, roubar a paz de Faraó e do Egito, potência daquela época.

              Foi Moisés, posteriormente, o mediador da Aliança do Sinai. Ficavam explícitas, no Decálogo, a Constituição, e nos demais códigos, o Civil, no Êxodo, o de Santidade, em Levítico e o Deuteronômico, no livro de mesmo nome, onde Deus queria chegar no ensino do povo para orientá-lo na busca de Seu (de Deus) mispat e tsedaqah, trocando em miúdos, do senso de justiça de Deus e seu equivalente humano, a justiça do homem, baseada na fé, legado de Deus para ele. É uma questão de limites. É uma questão de esfera de ação. Atritos são a matéria de nossa vivência e de nossas relações. Ficam as marcas desses atritos. E o benefício é quando invadimos os limites e não respeitamos as esferas de ação, mas quando é para deixar claro, para marcar, que tal ou qual conduta está fora do mispat de Deus, ou seja, está fora do conceito divino de justiça. Seria uma 'invasão do bem' e 'para o bem', benefício em trazer para o mispat e tsedaqah de Deus, sob denúncia, uma conduta que não tem o selo de Deus. Profeta é aquele que invade os limites, quando não são aqueles delimitados por Deus. Assim fez Moisés com Faraó.

             Como mencionava um amigo meu, frequentemente, citando Chico Buarque, numa definição deste do que seja profecia, 'perturbar a paz e pedir o troco', por estar fora da esfera e do limite de ação que Deus estabeleceu. Deus quis se misturar ao homem, mesmo pecador. Isso se chama comunhão. Deus se fez homem na pessoa de Jesus. De outra forma, não haveria comunhão, porém um simulacro dela. Deus invadiu nossos limites, reduziu-se ao que nos tornamos: 'tornando-se em semelhança de homens e, reconhecido em figura humana, a si (este é Jesus) mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz'. Para em sua carne, na carne de Cristo, no corpo humano de Cristo, trazer-nos para dentro dos limites de Sua santidade, expurgando em nós (e de nós) o pecado. Como diz Paulo, 'Deus condenou na carne (de Cristo) o (nosso) pecado.'

              Ministros. Paulo chama a si mesmo ministro. Há de toda a espécie, no caso de Paulo, ministro de Deus. Ministro significa servo, ministrar significa prestar serviço. Minister em latim significa criado, servente. Curioso, que a raiz minus vai gerar palavras como menos, menor, miniatura, minúsculo. Desculpem aí, vão desculpando aí os que achavam que ser Ministro era coisa alta ou grande. Alguns ministros, a seguir, desculpem, em minha ignorância, não citar brasileiros entre os que tais, menciono aqui Wiston Churchill, Primeiro-Ministro da época da 2ª Grande Guerra, dentro de seus limites, em tempos de emergência, para invadir os limites do Reich nazista. Golda Meir, Primeira-Ministra, dentro de seus limites, lutava pela preservação de Israel, na disputa dos limites, no contexto da luta fratricida entre israelenses e palestinos. Ministros são servos.

             Moisés se fez ministro de Deus, na luta por desafiar um império e seu Imperador, para trazer o povo para a liberdade fora e para dentro dos limites de Deus. Moisés nasceu Minstro, no sentido político, mas Deus só o usou como ministro dele, quando menor, quando de sua identidade como escravo, junto com o povo cativo. O autor de Hebreus afirma que, em Moisés, agia o 'espírito de Cristo que nele estava'. O que torna possível a um homem/mulher manter-se dentro dos limites de Deus? Há no Brasil exemplos de Ministros, heróis e exemplo de vida, na área política, que tenham se mantido dentro desses limites? Ou nessa latitude não há heróis, porém simulacros de homens? Sem exageros. É claro que há homens e mulheres, muitos, milhares, milhões de e com caráter no Brasil, mas, muitas vezes, nem sempre aqueles apontados como heróis, porém uma legião de anônimos.

          Seja na esfera política, seja na esfera da relação e comissão divinas, seja na personalidade de homens e mulheres de Deus, assim reconhecidos(as), manter-se na sua esfera de ação, dentro dos limites que Deus estipula, é marca de bem estar, de benefício, de bênção, de bom exemplo a ser seguido, marca de profecia e marca de promoção e convite à comunhão com Deus, marca de santidade. O Deus que estabelece limites, como fez no Sinai, que não era para que fossem transpassados, mas que convida a compartilhar com Ele a Sua imagem e semelhança, numa comunhão igual àquela de Pai e Filho, Deus e Jesus, nEles, igreja, esse Deus nos convida para dentro de seus limites, porque o sangue de seu Filho, Jesus, nos abre caminho, como diz o autor de Hebreus, 'por novo e vivo caminho, consagrado através do véu (rasgado) que é Sua (de Jesus) carne'. Venha para dentro desses limites. Dentro dos limites de Deus.

                                

          

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014



Raiz de todos os males.

         Da série pequenos comentários sobre pequenos textos bíblicos dentro ou fora de contexto. Esta última observação não indica que será descontextualizado, mas que o leitor considere em abrir o Livro e buscar o contexto do texto, sempre mais enriquecedor, de modo a ampliar a visão do assunto exposto. No caso, lá na carta a Timóteo, capítulos finais da primeira, assim escrita, quando o é assunto dinheiro, quer dizer, muito dinheiro, porque o apóstolo fala no coletivo, citando o vocábulo 'riqueza'. 

         Sutilezas de cultura geral, filargyria, uma palavra só no grego, 'amor ao dinheiro' é a raiz de todos os males. Quando eu estudava lá no Seminário, idos de 1978-1981, um meu professor, comentando esse texto de Paulo a Timóteo, opinou ser um exagero dizer, pleno, que 'o amor do dinheiro é a raiz de todos os males'. Aliás, interessante o 'do' no lugar do 'ao', quanto citamos de oitiva e dizemos que é 'amor ao dinheiro'. Acho que como está lá, indica o amor que tem origem no dinheiro.

          Olhadela despretensiosa na internet, google, vai indicar num dos sites que tal preposição, 'de', tem pelo menos, 20 significados. É claro que um gramaticista vai indicar mais, mas vamos ficar aqui com o significado 'origem', supondo que esse amor de que fala o apóstolo tem sua origem no dinheiro. Vá lá que seja, ele, o dinheiro, por sua quantidade na mão de quem possui, gera um tipo de amor, quem sabe ao próprio dinheiro ou ao poder que ele sugere, aos bens que ele pressupõe, enfim, desencadeia um processo que, caso vire apego, paixão, senhorio, é raiz de todos os males. Descontrola, desnorteia, enfim.

            Agora, meu professor, na época, comentando o texto, a disciplina era Análise do Novo Testamento, achou que era exagero o pronome associado, na tradução, à palavra 'males': todos os males, portanto. Ele achou que seria males demais, males para caramba. Todos, generalizante, inclusivo ao extremo, afinal de contas, todos é todos, por definição, era englobar, incluir, nada, nenhum mal que fosse deixado de fora. Também coitado do dinheiro, culpado de tudo, e, afinal, de novo, injustiça seria, porque pelo menos uma quantidade extra de males ficaria de fora e teria sua origem em outra(s) circunstância(s).

            Está bem, que seja. Mas o presente arrazoado quer, exatamente, destacar aquilo que, de modo claro e direto diz o texto, sem maiores firulas exegéticas. Amor do dinheiro provoca males para caramba, se não forem todos, fica bem perto. Ou, formulando de outro modo, bastam esses tipos de males para dar fim à humanidade, instaurar a cobiça que gera uma gama enorme de ódio, provoca e banaliza variados tipos de morte e, como corolário (sempre quis, um dia, escrever esta palavra, que conheci, pelo primeira vez, num livro de matemática), o enriquecimento de poucos, à custa de toda essa desgraça, a desgraça de muitos, a desgraça de uma maioria. Para que haja poucos ricos, é necessária a pobreza e miséria da grande maioria restante de gente e, para equiparar todo mundo, utopia besta esta, seriam necessários mais 3 ou 4 planetas terra, pelo menos, deu na internet.

           Em sala de aula, algumas vezes, em doses homeopáticas, intervalos de currículo, eu despejava alguns comentários, desses que visam fazer pensar ou mudar mentalidades, ou incutir ou motivar alguma virtude, em lugar de vícios e, quase sempre, ao comentar sobre drogas e seu uso, eu dizia que corre solto no mundo e o maior ganho de dinheiro, nessa ordem, pelo menos na época em que fiz esse comentário, ganho do lucro com dinheiro, no mundo, vinha da venda de armas, em primeiro, do comércio de drogas, em segundo, e, curiosamente, do roubo de obras de arte, em terceiro. 
            
          Venda de armas, para puro extermínio do semelhante, o mais forte para o mais fraco e, caso o mais fraco queira ou suponha defender-se, arme-se também. Guerras, por aí, testes ao vivo e em cores, máxima tecnologia, aviões não tripulados, testes para tanques de guerra do mesmo modo, mísseis guiados por computadores de bordo minúsculos, cálculos de acerto do alvo nem visto, enfim, toda uma tecnologia de ponta em serviço do extermínio. População civil, opa, foi mal, era para ser cirúrgico, mas não deu, falha deles.

          Venda de drogas, o barato, o glamour dos anos 60, cara, anos dourados, a TV projeta mundo afora, a telinha, quem diria, catapultou-se, transmudou-se, hoje aparece diminuta, touchscreen, na ponta do dedo de qualquer criança, a geração que chega com a nova linguagem que eu desconheço e tenho dificuldade de compreender, assimilar, aprender e utilizar. A telinha ao alcance de tantos e quaisquer. A TV anos 60 mostrou o barato das drogas, Vietnam, Woodstock, tudo se misturava e tornou-se pretexto, sempre foi a droga pela droga (e continua sendo), mas bastaram pretextos, ácido lisérgico democratizado, acessível, verdadeiro ópio do povo, até que cheguem as drogas mais recentes e usuais e suas derivadas, como cocaína, o próprio crack, como rescaldo, e todos os demais extasis da vida. Com entrega delivery, que já é não tão nova modalidade. 

         Dá dinheiro, velho, então, escrúpulos às favas. E a natureza? Ela agradece. Por causa do lucro, poluam-se rios e oceanos, líquidos em tons de verde escuro ao cinza, multicores, sejam despejados nos mananciais, florestas sejam postas abaixo, para dar lugar a mais indústrias, a maiores plantações, a toda a exploração do subsolo que resta, o apocalipse já começou. Parem de ridicularizar a Bíblia, porque a Besta é o homem. Anticristo e falso profeta ele já é. Falso profeta, 98% dos políticos já são, por causa do lucro. Talvez percentagem pouco maior, pouco menor. Anticristo, por pura demagogia, fala-se muito nEle, digo, no verdadeiro, talvez e principalmente agora, nessa época natalícia, mas é pura demagogia.

             Supondo que tudo o que está na Bíblia a respeito dele, Jesus, seja pura fantasia, mesmo assim não vale a pena pôr em prática. Portanto, sejamos anticristos. Não abertamente, é claro, ninguém tem essa coragem e esse  desplante, esse cinismo, camuflemo-nos, pois, hipocritemo-nos, hipocrizemo-nos, caramba, qual é mesmo o verbo, enfim, ponhamo-nos máscaras mil, sorrimos, sorramos, sorremos, até quem professa, de boca, sua fé, camaloneie-se, camalonear-se, ou será camaleãonezar-se, enfim, neologismos ou tentativas à parte, anticristos, quantos somos? Por lucro, ou por qual outro pretexto? Vale a vantagem de ser. Quem não for, cara, tem desvantagem nessa brutal luta leão do dia a dia. Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo, foi esta a desvantagem do apóstolo Paulo na sua luta do dia a dia.

            A raiz de todos os males. Basta esse amor do dinheiro. Há mais males, é claro, por aí. Não seja pessimista, há males a granel. Mas, por pura economia, aqui nos detivemos nesses que provém do amor do dinheiro, bastantes para matar o suficiente, por e com todo o plantel de armas, desgraçar, com lucro doido, pelas drogas, a vida de muitos e, por si, suficientes para dar fim à natureza, por pura poluição e ambição do lucro. Homem, esse único animal em extinção, vai carregar consigo seu semelhante e toda a natureza a sua volta. O Éden às avessas. O paraíso não é aqui. Definitivamente.

   

     

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014


 Texto definitivo

         Sem pretensões, o título não significa o que, a princípio, parece. É mais um texto, somente, como outros, mas 'definitivo' significa algo como buscar raízes, neste caso, pois elas definem o que chegamos a ser. Principalmente como são raízes em Cristo, como diz Paulo aos Colossenses, que nEle devemos estar enraizados, edificados e consolidados.

         Nesses 50 anos de meu primo Lyndon, desejo assim me expressar. Jogo rápido, para não cansar o público. Sou o mais velho dos netos, com duas mulheres que chegaram primeiro, Bela e Ruth. Por isso, ainda como filho único, carecia de primos com quem brincasse. Com o Rúbio, irmão de Ruth, aquele que cortava o bigode dos gatos, aprontei algumas, poucas e boas, pensem, quando o avô Tula, comedido, chegou a intervir.

         E aí chegaram Lincoln, Lyndon e Luciane, filhos e filha do mais tio dentre os tios, o Dante, e de "tia" Eunice, que nunca me deixou chamá-la sem este epíteto. Eu dizia Leila, Miriam, Gislaine... mas, quando chegava a dizer Nice, ela olhava séria, amarrava a cara e replicava "O que que você disse?". Aí, eu murchava, abaixava a crista e vinha o "tia" Eunice.

       Dante foi o brincalhão da hora, em meio àquele mesão da casa em Nilópolis, almoços memoráveis de domingo, que reuniam toda a família, sempre no intervalo entre Escola Dominical e culto da noite em Nilópolis. Dante dizia, pura intriga, "O Cid Mauro... lará, lará, lará, rá.." insinuando o que nunca fiz: xixi na cama. Imitava a cantoria do palhaço Carequinha.

          Desde esses tenros anos, antes mesmo do casamento com Eunice, onde estive presente com meu terno, o primeiro, bermudas, paletó e gravatinha borboleta, anos 50-60, trinques. Já desde essa época foi meu conselheiro. Sempre com seu jeito especial com crianças. Falou de namoro pela primeira vez comigo, me ensinou as primeiras lições de direção naquele fusca verde e, nas idas ao Sítio do Ari, dava dicas preciosas de como dirigir na estrada, muita ajuda, agora que completei mais de 150.000 km nas viagens entre os dois Rios: o Branco e o de Janeiro.

        Pois, com 57 anos, desde os 7 amigos dos amigos, epa, amigo de Lincoln, Lyndon e Luciane, cada vez mais e agora que vamos contando anos e recebemos esposas deles, esposo dela e chegaram os filhos e filhas, que podem encontrar e assumir essa herança, a mais preciosa que pudemos repassar para eles, raízes do evangelho, em meio a um mundo cada vez mais complicado, mas cada vez mais na direção do óbvio, ou seja, desgovernado.

         Fica difícil e, ao mesmo tempo, simples entender a vida lá fora. Complicada, por causa do caudal de tendências, costumes e filosofias distorcidas e confusas. Simples, porque conhecemos o remédio, antídoto e cura para tantos males. Com as lentes da Palavra de Deus, fica fácil distinguir, separar o novo do velho. Jesus, vinho novo em odre velho.

             Nessas raízes é que nos firmamos. O Dante dos anos 50 casou com Eunice, a durona do pedaço, que ajudou a colocar o playboy da hora nos eixos. Visitei-o, e não pude entrar, lá no hospital onde esteve, como paciente do corredor da morte. Mas a morte foi outra, a do velho homem, e a herança é esta nova, que recebemos e dela partilhamos.

             50, 100, 150, 200, 250 e serão tantos quantos na mesma raiz. "Ora, como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados, e edificados, e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graça". Valeu, Dante Santos. Valeu, Eunice Lima Santos. Agradecendo a vocês, tenho certeza que agradeço também a tantos outros, árvores de mesma raiz.

           Parabéns, Lyndon, Marcia, Ludmilla, Mariana e Beatriz. Abração aos demais familiares dessa linda tribo. Cid Mauro e família.

sábado, 20 de dezembro de 2014


 "Quem não pode Nova Iorque, vai de Madureira" (Zeca Baleiro)

              Igual. Este é o maior problema. A Bíblia (de novo, ela), eu até ia pedir desculpas por, vira e mexe, falar no livro, mas é cacoete antigo. Por aí, ia mencionando um certo trecho dela que diz, de Deus, que ele não faz acepção de pessoas. Seleção, compreendeu? O que a Bíblia quer deixar claro, nessa fala, é que Deus não dá, nunca fez ou nunca fará, dar preferência a um em detrimento de outro ou outros. Dicionarizado: predileção por alguém, inclinação, tendência em favor de.

          Lascou-se, como diria o carioca. Porque na vida em sociedade não vale essa história de que todos são iguais. Nem perante a lei, teoria jurídica abstrata, válida para poucos que a tentam fazer valer, esses mesmos se nisso acreditam, despertam virulenta aversão da parte daqueles que acham esse princípio uma idiotice, grupo este de extensa maioria. Iguais uma droga, há exaustiva comprovação de que igualdade não existe, é óbvio.

          Em que sentido? Economicamente, às favas, exatamente aí que reside a principal distinção, visto que quem mais tem, mais acima se põe, melhor acesso tem e se expande em gozo maior de seus privilégios, mais do que justa e legitimamente conquistados ou herdados de berço. Intelectualmente, ora, mais distintivamente imposta a lógica de que não pode haver igualdade, mesmo porque um abismo se estabelece entre quem menos e quem mais inteligência possui. É lógico! E o nome? Podes crer, nome é fundamental. Nome é fun-da-men-tal. 

             Um sobrenome vale muito e, às vezes, juntam-se os três, dinheiro, muito, bastante mesmo para estabelecer grau de nível social, onde mora, marca do carro, roupa que veste ou pra comprar qualquer coisa, corromper, enfim, meticulosa é a coisa e mais claras se estabelecem as distinções, dinheiro + QI + sobrenome de graduação nobre, não há como, por critérios que sejam, humanitários, democráticos, jurídicos, enfim, escrúpulos: as diferenças de nível existem e estão aí para quem quiser ver. Justo é que sejam levadas em conta.

            Naturais. São da vida. Realistas, pertencem à condição humana. Nesse sentido, o esforço, muitas vezes com cara de nojo, que visa a igualdade, medida igualitária, equiparação, impossível, levar adiante somente acarretará problema, principalmente quando houver a tentativa do encaixe de uma determinada classe num contexto que não é o seu, como dizia com traço de humor, o chiste, isso não te pertence. Por tradição. Sim, esse é outro critério, a tradição. 

            Essa palavra estabelece, por si, traços de distinções muitas vezes já consagradas no e pelo tempo. Algo cristalizado, que jamais poderá equiparar-se a outro que não traga consigo os mesmos valores. A não ser que outros valores, estes monetários, por exemplo, se imponham. Aí, sim, dinheiro faz milagres, aliás, compra até mesmo títulos e tem poder para transportar de nível a nível, elevar alguém de classe para outra, esqueçam-se tradições e outros que tais, basta fazer escola e adquirir traquejo no que gastar e que traços aparentar, garantida está a superioridade agora herdada, adquirida, conquistada por justificadas razões (pecuniárias).

             Pior. Quando aparecem exceções. Há quem tenha berço nobre, segundo predispõem os pais, por exemplo, mas o menino dá para o inverso. O que houve? Não acredito, eu-não-a-cre-di-to, fala, pausadamente, u'a mãe qualquer. Mas o que, indaga o pai. Nosso filho agora tá com uma mania doida de ser humilde. Como assim, 'humilde'? Deu para achar que todos são iguais, que ele tem de, como disse mesmo, condescender, é isso, condescender. Como assim, não estou entendendo nada. E por aí vai. Nobre, de berço, decidiu expurgar seus privilégios de nascença e assumir humildade, essa virtude bíblica tão mal dissimulada.

              Noutro dia, numa dessas cerimônias ecumênicas, chamaram o padre e depois me chamaram. Aí, o mestre de cerimônias, logo após a fala do sacerdote católico, pediu-me, quer dizer, ofereceu-me também a fala. Neguei, achando que estava de bom tamanho. Claro que não deve ter sido humildade, foi burrice mesmo, nem modéstia terá sido. Minha mulher falou, puxa, com tanto pastor atrás de microfones por aí... Sincera, a minha esposa. Claro que foi burrice, porque cabia ali uma palavra pastoral. Nada a ver. Não devo, mesmo, ser humilde. Mas é essa a primeira virtude. Jesus começa o famoso Sermão da Montanha com bem-aventurança aos humildes, é o começo da coisa, é a partir de.

              E aquele outro versículo, sobre a virtude destacada acima na simulação de diálogo, a historinha do menino teimoso, surpreendendo os pais com essa anacrônica virtude, a humildade, outro trecho bíblico, uma pérola, Romanos 12:16: “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos.” Só rindo, ou sorrindo muito. Poucos vão se prestar a esse papel, ou melhor, a esse papelão, procurando seguir essa normativa neo-testamentária. Aliás, há quem até possa tentar, mas por pura simulação, hipocrisia, pro gasto como, por exemplo, político em época de campanha.

                     Cara, a troca proposta por essa pérola de texto é tríplice: (1) "Ter o mesmo sentimento", já significa equiparação de virtudes, é claro, não se empolgue, que não se trata de cumplicidade em nenhum crime; (2) "Em lugar de", significa troca, ou seja, optar por condescender, que é 'descer, ir para baixo junto com', com quem, com quem? Com o que é humilde, pense, numa opção desta numa sociedade como essa; (3) "sábio aos próprios olhos", trata-se de abrir mão de auto-elogiar-se, não deixando brecha para que os requintes da própria inteligência apareçam, de modo a angariar confetes e serpentinas para si mesmo.

                    É muito. Por isso já diz o filósofo Zeca Baleiro, há que se adaptar e reconhecer, permitam-se a citação: "Quem não pode Nova Iorque, vai de Madureira". Contente-se com sua origem suburbana e nem pense em igualar-se, um dia, equiparar-se, sair por aí achando que todos são iguais, pregando essa utopia em meio a esse meio social vigente. Para Deus, somos iguais antes, no desvio onde todos se situam, e depois, para a segurança, direitos e deveres do curral da fé, onde ele, o Altíssimo, nos colocou, para onde nos chamou, tendo-se oferecido para ser nosso Pastor. Ele nivela, por baixo, antes, quando e como perdidos, e agora nivela também por baixo, chamando-nos servos (uns dos outros).

                   Outra pérola, Filipenses 2:3: "Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo". Pronto. Sem cabimento, como se diz. Não sei de onde esse menino tirou essa ideia, diria a mãe da pequena ilustração, ciosa, preocupadíssima com a ideia do menino em supor que, em sociedade, todos são iguais, ou que se deva perseguir tal bandeira. Portanto, para não dar bandeira, fiquemos com a filosofia do Zeca: quem pode, pode, quem não pode, se sacode.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014


  Sim, mas, e eu?

            Radicalmente democrático o evangelho. A Bíblia costuma ser muito e variadamente mal lida. Descuido e relaxamento de quem se lança a essa aventura. Fosse leitor mais atento e sistemático, não teria tantas e tão recorrentes críticas a fazer. Pior é quando tais críticas são por pura má fé. Bom, então, não há o que fazer, senão lamentar.

                 Aliás, leitura recente comenta sobre o problema que foi para Lutero concluir que desencadeara um problemão ao supor que seria de nobre alvitre legar as Escrituras, democraticamente, à interpretação do leitor, fosse quem quer que fosse. Deu no que deu, ou seja, o carinha lê e diz o que quiser, sem nenhum ou vagos critérios. Mas democracia, nesse caso e mais desta vez, vale tudo e vale a pena.

                 Não há como e não considerar como definitivo, a Bíblia é um livro simples, escrito por pessoas simples, dirigido a pessoas simples, ora, é claro que escrevem desde pescadores até gente de calibre acadêmico, é verdade, mas o texto foi dirigido a gente simples, por isso mesmo com mensagem ao seu alcance. A mensagem principal, central do livro, é e está ao alcance de todos e quaisquer.

                   Pois trata-se do evangelho, que traduzido significa 'boas novas', 'boa notícia'. Qual? O homem, genericamente falando, ou seja, qualquer um ou qualquer uma, está convidado ao cara a cara com Deus. Sem mais delongas, enrolação ou vá lá o que seja que atrapalhe, este é o cerne da mensagem: por meio de Jesus Cristo o homem é chamado ao cara a cara com Deus.
                    
                    Cada um, cada uma, individualmente. E aí, democratizada a leitura e o acesso ao texto, abrem-se as possibilidades de interpretação, evidentemente, democracia, já mencionamos aqui. E o resultado? Ora, o resultado, o resultado é que o simples super complicou-se. Virou, no bom sentido, quer dizer, sem querer ofender (o carnaval) um carnaval. Virou uma bagunça geral. E a mensagem, que era para que fosse acessível, simples, clara, direta, amorosa, cheia da graça de Deus, virou uma confusão geral, como dizia Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, um Febeapá doutrinário.

                    Virou foi religião, teologia, doutrina, enfim, não que seja ruim isso tudo, mais uma vez invoquemos a democracia, tem mesmo é que variar e aparecerem todos esses enfeites e artefatos, mas é que, no contra-fluxo, mesmo que não fosse essa a intenção, a simplicidade da mensagem acaba por ser afetada e pronto, embola o meio-campo e atrapalha o acesso. Confunde mais do que esclarece.

                   O evangelho nos encontra nus, logo após a queda. Essa é a história lá do Gênesis, que pelo seu jeitão só deseja esclarecer algumas coisitas: o homem deu uma banana para o Altíssimo, mais ou menos significando meta-se com a sua divindade e me deixa, me erra, que eu vou seguir na minha humanidade. Sem essa de comunhão entre nós. Tudo bem, mas o Altíssimo, em sua paciência eterna, reconhecendo que isso era tremenda burrice do ser humano, que nada sabia e desejava dar uma de entendido, veio em seu (do homem) socorro.

                     Foi quando encontrou o homem nu, logo após a queda. É assim que nós ainda hoje nos encontramos, ou era para que fosse, que nos apresentássemos, diante de Deus, assim, nus, após a queda. Mas aí a gente inventa de se vestir. E o pior é quando nos vestimos do nosso discurso, quaisquer e muitos deles, mais ridiculamente quando nos vestimos de um discurso doutrinário. Pegamos, lançamos mão das Escrituras, isso mesmo, do livro-fonte, e construímos a nossa doutrina, ou um esboço mal acabado de roupa, na velha tentativa de cobrir (ou encobrir, o que é diferente) a nossa nudez.

                 O homem original fez vestimenta de folhas de figueira, Deus mandou que tirasse e foi providenciar as vestes que julgava mais apropriadas. Continuamos a nos maquiar, a nos encobrirmos com qualquer quê, até mesmo aos nossos próprios olhos, assim como socialmente, aos olhos dos outros, vamos nos sobrevestindo, para ver se a nossa nudez não se torna patente, o que sumamente vergonhoso seria para nós mesmos, ai, que medo. O famoso, batido termo, verniz social.

                 Supra-sumo da ironia, ao avesso, é usar das Escrituras para fazer vestimenta de ramagens, farrapos de parreira, quebra-cabeças, e vamos cobrindo de curativos mal feitos nossa cicatriz e nossas feridas, nosso pecado, aos olhos desavisados de quem e de quantos? Faltam lentes, a quem? Lentes, exatamente, para tornar translúcidos os olhares. Fora as lentes, virão as máscaras, sobrepondo-se pele sobre pele, pura hipocrisia, que acaba por se tornar um exercício contínuo, social, como já mencionado, vital, quem sabe, porque disso (sobre)vivemos socialmente.

                      Interessante. Quando Deus, fazendo de conta que não sabia por quê, pergunta ao homem por que se escondeu? E ele responde, porque estava nu, tive medo, e me escondi. Ora, Deus responde, não é porque estava nu, porque nu te criei, nu sempre foste, nu estavas, estiveste sempre. Perdeste a inocência? Nu sempre fomos, sempre somos, mas perdemos a inocência. Vamos às máscaras e, socialmente, o jogo, a berlinda da vida e o exercício da moda, para saber quais e quantas usamos.

             Sim, mas, e eu? O que fiz do evangelho, manipulado-o de modo a se encaixar em mim como máscara? Tira já essa roupa, artificial, mal ajambrada, posta de qualquer jeito, ou intencionalmente retocada, que vou te vestir com outra, diz o Altíssimo. Original. Vai que fica mais bonito, na fita. Fica. Original e bela.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014


Sobre cores, raças e religiões.

             Multicor. O Universo é multicor. Cores e tons para as quais o homem nem mesmo consegue, para todas, dar nomes. Tonalidades variadíssimas, levando em conta não somente a natureza vista, estudada e conhecida, em parte, no Planeta, em toda a sua pujança, mas também o cosmos, por meio das mirabolantes imagens trazidas pelos telescópios em órbita ou em viagens interestelares, visto que a visão de suas lentes é límpida, por situar-se fora da atmosfera terrestre.

             As cores das  frutas, eu me lembro, perto dos 15 ou 16 anos quando, por brincadeira, falei que minha mãe me tinha traído por não me ter falado sobre o jambo. Ele mesmo, apelidado aqui no norte como 'maçã da amazônia', por sua cor rubra, tons de púrpura, por isso mesmo, de odor e forma suculentos. Você não imagina ou jamais terá visto quando suas flores, perto da época de brotarem os frutos, caem, cobrindo o chão perto de suas árvores de um tapete arroxeado, numa tonalidade impossível de descrever ou nomear. 

              Quando pela primeira vez soube que jambo existia, foi lá na zona rural do Rio de Janeiro, que ainda existe, castigada, embora pelas agressões de praxe, mas resistindo heroicamente. Vi uma criança saboreando um seu fruto e perguntei à minha mãe do que se tratava. A resposta óbvia dela me surpreendeu: "Ué, não sabe? É um jambo!" Por isso me senti traído, porque nunca a ouvira mencionar que existia. Surpreendido, é claro que tudo não passou de brincadeira, mas foi lá, talvez em 1972-1973, que eu soube que jambo existia. Foi num sítio, do Ari Flores, olhem bem quanta ironia.

              Hoje, aqui onde resido, estou cercado de pés de jambeiro, um deles, majestoso, em minha casa. Tons de púrpura arroxeados, inomináveis, indescritíveis, doces ao olhar, a suculenta 'maçã da amazônia', com uma poupa esbranquiçada e macia, azedinho-doce ao paladar. Ah, sim, as frutas! Todas elas, cada qual com sua cor, seu gosto e seu charme. E as flores, que as anunciam? Em minha santa ignorância, garoto mais urbano do que rural, não havia, ainda, dado com a cor e forma da flor de maracujá. Há poucos dias soube, pela TV, como é primordial que haja abelhas onde existirem parreiras do maracujá. Porque elas espalham o pólen que, de outra maneira, terá de ser espalhado num toque de três dedos friccionando-se os pistilos da flor, para que haja fecundação.

                Imagine flor a flor, isso fazendo o lavrador, deixem que as abelhas o façam mas, atenção, elas (também) estão em extinção. Cores, raças e religiões. Por brigas de raça também extinguem-se entre si os homens. Aliás, os homens muito entendem sobre extinguir. O Criador lhes transmitiu o dom da vida, gerar outras vidas, abençoou-os dizendo multiplicai-vos, enchei a terra, sujeitai-a, nela habitai, espalhem-se em sua superfície, ocupem o solo com inteligência, não se acumulem em cidades insanas, não desmatem, não derrubem a mata, não poluam os rios, enfim. Mas o homem entende mais de extinguir do que de multiplicar. Daí as brigas entre raças, pretexto para as guerras. Da infeliz natureza humana são as guerras, bastando para que ocorram pretextos injustificáveis.

                Colored. Assim foram designados os negros nos Estados Unidos. Nos filmes, nos ônibus, nos bebedouros e banheiros, assim escrito, em vias da propaganda e facilidade da divulgação dessas imagens pela TV, invenção deles, na divulgação internacional do racismo. Alemanha nazista. Não, não se perde num passado longínquo, como se fosse pré-história, tempos imemoriais não assinalados, por isso, quem sabe, homens ignominiáveis, violentos ao extremo, pré-históricos, portanto. Não, estamos no século XX e não há, ainda, 100 anos que nos separam desse extremo racismo, sem causa, a pretexto, estrelas de Davi amarelas identificando judeus, presas em ombreiras, presas decorativamente como broches, ao peito, prenunciando o massacre.

                 E o ódio de séculos encubado há a quase 500 anos que gerou a guerra dos Bálcãs, nos anos 90? Genocídio nos Bálcãs. Genocídios na África. Triste humanidade. Cega para si própria. Cores, raças e religiões. Voltemos às flores, voltemos às folhas. Aqui em casa plantamos uma mangueira, nem sei se foi espontâneo, mas durou sua vida mais de 10 anos. Deliciamo-nos com seus frutos, acompanhávamos a renovação de suas folhas, estação a estação e, muitas vezes, fotografei suas flores. Flores de mangueira, como flores de goiabeira, tínhamos três delas, são despretensiosas. Não devem ser, entre as flores, nem medalha de bronze. Somente são flores. Fotografei-as, mania esquisita essa minha.

                As folhas, creio que, na minha ignorância, nunca nossa mangueira produziu duas folhas exatamente iguais. Identificávamos como folhas de uma mangueira, mas nunca achamos duas exatamente iguais. Deus fez as folhas, mesmo na mesma planta, diferentes entre si. Deus não fez céu verde, verde é a clorofila. Céus e mares têm cor parecida, embora haja mares com tons de verde, agora, na verdade, multiplicam-se os tons de cinza, porque o homem está extinguindo, também, os mares e oceanos. Não são cores iguais, em sua variedade são lindas e harmônicas, cada qual no seu lugar, num espetáculo grandioso de belo. Cores diferentes, raças diferentes em sua cor, cultura e língua, religiões diferentes. A variedade provém de Deus. Falando sobre religião.

                Assunto delicado esse. Mesmo porque, falando disso, mexe-se com o que há de mais sensível nas pessoas. Fanatismos à parte, religião é algo do maior e máximo respeito. Cada qual e cada uma deve ser respeitada na mesma e igual proporção. Mas há certos princípios, penso eu, que se colocam acima de qualquer uma delas, aos quais todas elas devem estar subordinadas. Vamos enumerar alguns que, no meu exercício de convivência mais próxima com a minha e aventuras de tentativa de compreensão de outras, vão me ajudando a compreender todo esse contexto.

                   Primeiro, religião, por mais antiga, que vão lá milênios, ou repleta de adeptos, sim, porque, desfeita é pura bobagem, há quem julgue que quantidade, nesses casos é qualidade, independentemente da quantidade de adeptos, mesmo essas devem respeitar o seguinte: religião nunca será mais importante do que seu ou cada um dos adeptos dela. Você (e eu também), somos mais importantes do que nossa religião. A religião nos presta um serviço, pronto e ponto final, se bom ou ruim, vá lá que se saiba, por isso nós e não ela somos mais importantes. É só lembrar a lição que Jesus deu às autoridades religiosas de seu tempo, quando quiseram impor aos discípulos a guarda do sábado: o sábado foi instituído para eles e não eles para o sábado.

                       Em segundo, e decorrente da anterior, nenhuma religião pode advogar fazer o mal a quem quer que seja. Se qualquer delas joga uns contra outros, erro histórico e recorrente de tantas e quantas guerras contraditoriamente religiosas, prega, previne, prescreve o mal contra outrem, essa ou tal religião não merece esse título, não merece nenhum respeito da parte de ninguém, não merece que lhe defendam e, cuidado, seus adeptos são uma ameaça, não merecendo confiança, apenas o respeito digno do qual qualquer ser humano é portador, mas previna-se contra esses.

                        E em terceiro lugar, creio que também relacionado ao anterior, há valores que estão acima de todas e quaisquer religiões, mais uma vez aos quais todas elas devem estar subordinadas, logo, depreende-se que não são, propriamente, as religiões, aquelas detentoras de toda a verdade (até mesmo sobre Deus) ou tiranicamente possuidoras da 'última palavra', ao contrário, mesmo para o adepto, em particular, encare com reservas e relativize as doutrinas de sua religião, pois há valores e ideias acima de tudo e quanto elas abrigam como suas 'verdades'.

                          Creio que se assim se pensasse a respeito delas, haveria a total relativização de todas e muito dos conflitos entre adeptos de tantas e quantas seriam evitados. A pessoa em si, o respeito à pessoa e a certeza de que existem valores acima dos postulados delas são características e dados que se situam acima delas, ainda que sejam, pretensamente, portadoras e, pretensiosamente, detentoras do caminho para o 'além', guardiães de cânones doutrinários e revelações escriturísticas ou que apregoem contato com Deus. Ainda assim, previnam-se. Vale uma postura crítica e o crivo para saber se, elas sim, respeitam esses cânones extra preceituários. Cores, raças e religiões. Variedade múltipla. Valor igual. Aventura. Pura aventura.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014


Samba da bênção, ou, quem sabe, mistura de teologia com samba

         Creio que Vinicius, quando definiu num título essa preciosidade, muito provavelmente nem tenha pensado constituir-se, para alguns, atrevimento misturar samba e bênção. Mesmo porque são, indiscutivelmente, equivalentes. Sob ameaça de heresia ou, pior, blasfêmia, não terá o poetinha, como era identificado pelo seu parceiro Tom, cometido erro nenhum.
          E, aliás, faz na letra nesse mesmo samba a belíssima definição do que, em sua essência, se é que tenha pensado nisso, uma definição do que seja esse gênero típico e tão plenamente identificado com o brasileiro: o samba é uma forma de oração. Pronto. Definitivamente, samba e teologia estão associados. E não poderia ter começado melhor seu arrazoado, o Vinicius, senão dizendo que "É melhor ser alegre que ser triste/Alegria é a melhor coisa que existe/É assim como a luz no coração."
           Fico imaginando Jesus, perdoem-me o atrevimento, sentado numa roda de samba e comentando esse começo de bênção. Pois foi num descuido desses que eu, manhã morna, após cumprir o primeiro compromisso da manhã, nessa cidade acolhedora e ainda distante do IDH, índice de desnorteamento humano, que tem seus engarrafamentos de 15 min, o que nos estressa ao máximo, levei meu querido filho à UFAC, a Universidade Federal daqui.
           Desavisadamente, cliquei no dial, se ainda assim for chamado, meu analógico (e nem sei, ainda, a sua diferença para digital, nasci no século passado) muda estação de rádio (lembram disso?), quando passei, inadvertidamente, a ouvir a programação da Rádio Senado, 100.9, vejam só, pelo menos algo que aquela Casa tem de bom. Foi quando.
        Três sambas em sequência me acudiram que vão aí seus títulos e nomes, pescados lá no site Vagalume, o qual recomendo como endereço para que esse paciente leitor os ouça, em toda a sua integridade (do leitor e dos sambas): sucederam-se "As força da natureza", cantado por Clara Nunes; "Pagodespell", agora cantado pela dupla Martinho da Vila e João Bosco (não poderia ser melhor); e, last but not least, "Coisas banais", desta vez o monumental Paulinho da Viola.
             Pego de surpresa, ainda dentro e no entorno da rotatória da UFAC, sem expectativa de nenhum engarrafamento, nem de 5 min, ainda ia dar 8h no relógio daqui, horário, vejam bem, do sudoeste da amazônia, três a menos que horário de verão por aí, imaginem vocês, 11h da manhã no trânsito aí de sua cidade, sucederam-se as letras e alguns de seus tópicos principais, pegando-me em cheio, nesse milk shake de minha empírica prática teológica. 
              A primeira deixa foi Clara Nunes dizer "As pragas e as ervas daninhas/As armas e os homens de mal/Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval". Trata-se de um samba meio apocalíptico. Não, inteiramente apocalíptico. Vale a pena ler a letra toda, que vai num crescendo, até esse arremate (ou remate) final. Imaginem as cinzas de um carnaval dando fim ao mal, todo o mal que existe por aí, disseminado, granulado e salpicado, como dizia Jesus, de dentro, do coração do homem.
            Pensei comigo, caramba, se carnaval acaba em cinzas é porque não deve ser expressivo como algo positivo, quarta-de-cinzas, pois é, alguém encostou o carnaval nesse dia aí, para expiação dos males, possível ou provavelmente, por puro descuido, é claro, praticados. Vai lá se saber, não é? É melhor prevenir. Pois imaginem essas cinzas dando um fim definitivo a todo o mal, profetiza a letra do samba. Não sabemos se será numa quarta-feira de cinzas, mas, nesse caso, a profecia confere.
            E quem sabe, então, todos os dias da eternidade serão carnavalescos... Epa, olha a heresia! Peraí, sem Momo, sem mal, só com alegria, festa pública do povo pelas ruas do céu, sim, que a Bíblia diz que no céu tem ruas, cujo asfalto é ouro. Mesmo porque, já dizia Vinicius, é melhor ser alegre que ser triste, alegria é melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração e, como somos teológicos e sabemos que a luz é Jesus, taí, samba + bênção. E carnaval no céu.
           E o segundo samba, logo em seguida ao apocalipse, ensinava um modelo de oração e vida diária, quando Bosco ou Martinho da Vila, nem me lembro, ensinou "No Pão de Açúcar/De cada dia/Dai-nos Senhor/A poesia"Não é este um pão ázimo, mas também não é o famoso pão-que-o-diabo-amassou, seria um despretensioso pão doce. E segue o poeta pedindo que, a cada dia, haja poesia na vida. Aliás, palavra que aparece lá em Efésios, quando Paulo afirma que na (re)criação nossa em Cristo, nascidos com cidadania do Reino, como Jesus tentou ensinar a Nicodemos, mais pela sabedoria do Mestre, do que pela capacidade do aluno, somos poesia de Deus.
            Dá-nos, Senhor, a poesia de cada dia. Pedir que sejamos poesia, de que modo, no que dizemos, fazemos, enfim, todo o que fizermos, seja em palavra ou em ação, enfim, as palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração, trecho de outra poesia, enfim, ao fim, bem, o que significa o pedido doce de que haja poesia a cada dia? Saio, como louco, fotografando árvores, rodovias afora. Estão em extinção. Aliás, resumi minha lista de animais em extinção a um só: o homem/mulher. Vai extinguir todos os outros e a si mesmo, apocalipticamente.
              Cada árvore é uma poesia, assim esgalhada para todo lado e para cima. São viventes da natureza, derrubar cada ou qualquer delas deveria ser crime, como matar seres humanos também é crime. Mas banalizada está a morte, de humanos e de outros viventes, incluídas as árvores. Elas também são poesia, no seu esgarçar, destinadas, também, à matança, até que venha a última quarta-feira de cinzas. Vem, último carnaval. Maranata! 
             E, para terminar, como já falei, last, but not least, Paulinho da Viola vem com um samba de amor. Fala como coisas banais, são banais e devem continuar nessa classificação, nunca e jamais se interpondo contra ou como barreiras ao amor. Nada mais profético: "Quando o amor é de verdade, não se implora/Nem se prende a coisas banais/Repare bem." Repare bem ele adverte, repare bem! Nada melhor do que terminar falando de amor. Pensei, é claro, em minha esposa. E quantos assim não pensaram. Na luta para que as coisas banais nunca se interponham. 
               O compositor menciona, lá atrás no começo, que já recomendei que vocês vejam a íntegra dos sambas, que se trata, essas coisas banais, de orgulho, vaidade, desamor. Serei caridoso e colocarei tais versos ou tal estrofe aqui, em pauta: Repare bem, não é assim/Que a gente faz com o que tem/Se a gente ama de verdade/Orgulho, vaidade, desamor/São coisas banais que só têm utilidade/Pra machucar o nosso amor." Ora veja só, falar de amor, existe algo menos teológico do que isso? Formule melhor essa questão. Pois samba, é ou não é, uma forma de oração?
            Vai ver que não. Mas está entranhado, vindo d'África, na cultura brasileira, assim, fundido como num apóstrofo, que suprime a preposição, para fundir melhor. Costumo dizer que, muito provavelmente, se Jesus pintasse por aqui, nesta ou na sua cidade, seria um corre-corre para agendar sua, dele, presença nas igrejas, igrejinhas ou igrejonas, 'éfesos' ou 'laodiceias', vá lá que sejam, mas Jesus ia dizer, vai desculpando aí, vou procurar rodas de samba, estimular que não se extingam, como tanta coisa boa que já se extinguiu: pique bandeirinha, bola de gude, campinho de pelada de bola e carrinho de rolimã.
            Vou para as paradas, como contei naquela parábola, procurar a marginália, porque não aguento o que vejo (e o que ouço) aí dentro. Vai desculpando aí, vou recolher a marginália, que a festa está pronta. Mas será um carnaval?

   Cid Mauro Oliveira.




             

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

            O salário do pecado é a morte
            
              O direito ao salário, correspondente exato e justo em função de um serviço ou equivalente, é inalienável. Uma das maiores conquistas da humanidade, celebrada como resultado de 2.000 anos de história, em pleno século XX, é a constatação dos direitos adquiridos pelo trabalhador de obter justa compensação pelo trabalho prestado.
            Desse modo, então, a Bíblia, livro que prima por ser continuamente justo em todos os conceitos que enuncia, quando equipara ‘salário’ como justo e preciso pagamento pelo ‘pecado’, equivalendo-o à ‘morte’, decisivamente não está cometendo uma falta ou um erro de avaliação.
             Salário é um conceito já consagrado e devidamente definido, seja em ciência econômica, social ou jurídido-trabalhista, assim como morte pode ser encarada de variadas maneiras, por ciências médicas, biológicas ou ainda pela psicologia. Pecado, porém, é um conceito estritamente bíblico, quem sabe contemplado pela teologia, pelas ciências bíblicas do texto, que tanto a exegese como a hermenêutica se preocupem em definir, ou ainda a homilética, ocupando-se do modo como expor esse conceito.
            Para a Bíblia, somente existe um pagamento justo e cabível, atribuído de modo pleno e preciso ao desgaste do pecado, uma única equivalência plenamente compensatória, que é a morte. A partir dessa correspondência, é possível deduzir, para o pecado, um quilate de valor, bastando que, para isso, reflita-se no sentido, significado e realidade da morte.
          Pecado, como a Bíblia o denuncia, não tem sua origem em Deus. Isso porque o Livro indica Deus como o Criador, por excelência, de tudo o que existe. Na linguagem de João 1:3: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” Exceto o pecado, que não tem, definitiva e absolutamente, origem em Deus. É realidade à parte da avaliação do Criador quanto a tudo o que fez: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” - Gênesis 1:31.
          Jesus, por sua vez, numa de suas públicas altercações com fariseus, afirmou o lugar onde, em meio à humanidade, é possível encontrar o pecado, em Marcos 7:21: “Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios.” Pelo menos, dois fundamentos já estão aqui definidos para esse conceito a que somente a Bíblia se refere: o pecado (1) não tem sua origem em Deus e (2) no contexto da humanidade, procede de dentro do coração dos homens.
          Já é possível deduzir que, pelo fato da morte afetar seres vivos, aqui incluídos animais, vegetais e seres humanos, torna-se evidente que a morte do homem/mulher, portanto, dá fim ao pecado na vida que se extingue. Num outro texto bíblico Paulo, aos Romanos 8:3c, indica essa verdade quando afirma que, “com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado.” Para dar um fim ao pecado, afirma a Bíblia, Deus condenou o homem/mulher à morte, para que, dessa forma, fosse, concomitantemente, extinto o pecado.

          Num próximo texto vamos procurar analisar pistas que a Bíblia fornece para a origem do pecado, qual é o antídoto para a morte e como, ainda em vida, é possível ao homem identificar nele mesmo o pecado, isolá-lo e combatê-lo, de modo a que não exista sem freios nele e comprometa a sua identidade, subvertendo-o, manchando sua reputação e o tornado inaproveitável para a convivência plena com seus semelhantes. Já basta, para pôr fim a essa existência, a morte. Então, enquanto vivos, é prudente saber como não ser um morto-vivo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014


 Jonas
             “Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira por causa da planta?”
             Curioso esse profeta e riquíssimas as lições que aprendemos no lidar de Deus com ele. Aliás, é o tipo de profeta que nenhum de nós convidaria para ser obreiro em nossa igreja. Mas era verdadeiramente vocacionado, porque Deus foi quem o chamou, para ensinar lições fundamentais que desconhecia.
          A lição principal, o amor que, muitas vezes, julgamos que já aprendemos, que praticamos e que ainda queremos ensinar a outros, sem que Deus nos dê suporte para isso, será um vexame ou uma farsa. Essa lição Deus queria que Jonas aprendesse. Maravilhoso como ministério é, antes de tudo, lição e ensino, primeiro, para o autenticamente vocacionado.
            Provas de que Jonas era autêntico profeta foi que (1) a ele veio a palavra do Senhor, (2) foi enviado a uma dada região, para (3) pregar a palavra do Senhor – Jonas 1:1-2. Mas simulou obediência e, o que é surpreendente, um desobediente não é abandonado por Deus, como até poderíamos supor, mas perseguido pelo próprio Deus, até que aprenda e ponha em prática o que Deus quer ensinar.
            No livro, fica explícito até onde pode ir, no desespero de Jonas, a fuga da lógica de Deus e o mergulho na distorcida lógica do homem. Tentando atualizar o dilema do profeta, é como se, em nossos dias, Deus enviasse a nazistas um profeta judeu para lhes pregar arrependimento. Porque os assírios, a quem Jonas foi enviado, haviam trucidado os habitantes de Samaria em 722 a. C. A lógica distorcida do homem, desde o Éden, sempre em fuga em relação a Deus, não entende a lógica do amor e do perdão.
             Jonas, em sua fuga, desceu ao seu abismo pessoal: (1) procurando diligentemente um navio em Jope, (2) pagou o preço, mais de seu desespero, medo e covardia, do que da viagem, (3) embarcou, meticulosamente, sem desistir ou cair em si em nenhuma dessas etapas – Jonas 1:3. Dentro do navio, (1) escondeu-se infantilmente no porão, (2) mergulhou num sono depressivo e doentio e (3) nem disposição para orar tinha, quando questionado pelos tripulantes, cada qual invocando seu ídolo, em meio aos terrores da tempestade em alto mar – Jonas 1:5-6.
            Precisamos nos deixar conduzir por Deus em sua lógica do amor e do perdão, embora em nós, sem a assistência do Espírito Santo, nada dela nos seja natural. Mais uma vez confrontado, Jonas deu mais importância, também de modo doentio, a sua fútil e ilusória euforia, à sombra da parreira que o abrigava do desconforto do sol, do que preferiu avaliar o peso da morte de 120 mil pessoas. Pelo contrário, isso lhe teria dado prazer.
          Quando Paulo, em 1 Coríntios 2:10-16, na aula dele sobre o ministério do Espírito em nós, afirma “Nós, porém, temos a mente de Cristo”, é para que consigamos pensar e agir pela lógica de Deus. Fora dela, corremos todos os riscos que Jonas correu. E não sabemos se foi suficientemente corajoso para se dar por vencido em sua lógica e adotar aquela de Deus. 


          Obadias
                   
 “Mas tu não devias ter olhado com prazer para o dia de teu irmão, o dia de sua calamidade.”
          
         Algumas situações nos apanham desprevenidos, ou seja, não esperávamos, mas elas revelam traços de nossa personalidade que gostaríamos de manter ocultos ou nem percebemos que não são recomendáveis a quem professa temer a Deus.
         Neste trecho de seu pequeno livro, aliás, o menor do Antigo Testamento, o profeta Obadias acusa exatamente uma situação dessas, quando os edomitas, descendentes de Esaú, revelam alegria quando presenciam os efeitos do juízo de Deus na vida de seus irmãos, descendentes de Jacó.
        Revela-se o ódio reprimido que nutriam por seus vizinhos do outro lado do Rio Jordão e, ao constatarem a invasão dos babilônios, no início do séc. VI a. C., respiraram aliviados a ainda se aliaram aos invasores. Não devemos nos alegrar e nem nos sentir vingados quando um desafeto nosso é alcançado por qualquer calamidade que, muitas vezes, identificamos até equivocadamente como um juízo de Deus em sua vida. Aliás, crente tem desafetos?
              Há textos bíblicos que nos revelam aspectos fundamentais de nossa condição como verdadeiros crentes que jamais poderiam coincidir com um sentimento desses, de recalques que se revelam, transformados em prazer quando se vê na vida de outrem qualquer calamidade. Romanos 2:4 é um desses textos:
               “Ou desprezas a riqueza de sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento.” Este texto ensina que não existe ‘gente boa’. Há bondade em Deus e é ela que nos move ao arrependimento. E só após o arrependimento, quando ocorre a nossa conversão, é que começamos a aprender a bondade de Deus, tê-la em nós e demonstrá-la em nossas atitudes.
              Se não permitirmos que o Espírito, em nós, ensine e nos aperfeiçoe na bondade de Deus, em certas situações pode se revelar o nosso velho homem, que, entre outros vícios, demonstra uma alegria disfarçada quando vê um desafeto afetado por uma calamidade qualquer. Outro texto, ainda em Romanos 12:14:
            “Abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis". Este texto ensina que nenhuma situação na vida de qualquer outra pessoa pode nos estimular a desejar, para ela, qualquer maldade. Há quem, nos dias de hoje, interpretando errado o Antigo Testamento, julgue que tem autoridade para amaldiçoar quem quer que seja. Pois desconhece esta norma de amor do Novo Testamento.
            Plenos da bondade de Deus que só nele existe, em seu estado puro e verdadeiro, a nós concedida e aperfeiçoada pelo Espírito Santo, que em nós habita, não devemos alimentar, em nosso coração, mágoas ou ressentimentos que podem se revelar, de maneira súbita, num momento em que vemos, na vida de alguém, qualquer situação desagradável experimentada.    
            Devemos olhar com temor, principalmente se for consequência de pecado, como no caso do juízo de Deus sobre o povo de Israel, na época de Obadias. Como diz o salmista, Salmo 40:14-15, não devemos ter prazer com o mal revelado na vida de ninguém ou dizer ‘bem-feito, bem-feito’. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Amós
                        Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o SENHOR Deus, quem não profetizará?

          O profeta Amós faz uma comparação entre o rugido do leão, seu efeito em seus domínios, na selva, e o alarme que deve resultar do efeito da palavra do Senhor.
          Palavra é veículo de revelação, mas também de ocultação, ou seja, palavra proferida pode revelar ou pode ocultar. Quando uma palavra revela, é verdadeira e, quando oculta, quando esconde, quando encobre, quando é proferida dissimuladamente, para ocultar verdades, é uma palavra mentirosa.
          Por exemplo, um marqueteiro brinca com a verdade, ou seja, a palavra que manipula com arte pretende refinar mentiras, de modo a fazer um efeito maquiado, nebuloso, porém retocado para aparecer como belo e ilusório, mascarando a realidade.
         Outro fator da palavra, relacionado ao efeito que deve proporcionar, é a fidelidade ao seu significado. Uma vez proferida, a palavra deve ser entendida, compreendida com clareza e o efeito exato de seu valor e mensagem deve promover uma atitude prática em quem a ouve, uma reação, um resultado, um posicionamento, denunciando o efeito exato da mensagem.
         A palavra pode ser relevante, e o ouvinte displicente. A palavra pode ser vital, mas não promover o efeito desejado a partir do emissário da mensagem. Por exemplo, em Hebreus 4:2, o texto fala de uma palavra anunciada, denominada ‘boas-novas’, dirigida ao povo nômade de Israel, no deserto, em sua peregrinação após a saída do cativeiro no Egito.
        O versículo ressalta que essa palavra ‘não lhes aproveitou’ e dá a razão por que foi assim: não deram crédito a ela. Simples e, ao mesmo tempo, drástico e trágico, porque essa palavra, essas boas-novas tinham procedência da parte de Deus e foram anunciadas por profetas autorizados, mas não cumpriram, no destinatário, nenhum efeito.
             Amós tem expressões interessantes, nesse começo de seu livro, a respeito dessa mediação, desse tripé (1) palavra de Deus, (2) profeta como mediador e (3) efeito dessa palavra. Em Amós 3:7, afirma que Deus, quando fala ou quando age, sempre leva em conta o homem, isto é, toda ação de Deus é benéfica, abençoadora e nunca despreza o homem, sempre valoriza a pessoa humana.
            O contrário nem sempre é verdadeiro. Muitas vezes, infelizmente, o homem age sem levar Deus em conta. Agindo assim, revela desprezo por Deus e por sua palavra. Nesse mesmo texto acima citado, está escrito que Deus revela a profetas, ou seja, o homem é veículo da palavra autorizada de Deus. Quem fala em nome de Deus é denominado ‘profeta’, que fala a outros homens iguais a ele, transmitindo a palavra de Deus.
           E, assim como o rugido do leão espalha medo na selva, espraia um silêncio respeitoso, sendo claro a toda a animália quem foi que produziu aquele ribombar, a palavra de Deus, para o homem, nem sempre tem esse mesmo efeito. Em muitas ocasiões, infelizmente, a palavra de Deus não mais produz temor e tremor, como diz Paulo aos Filipenses 2:12-13, ou seja, não é obedecida, não é valorizada e nem é, ao menos, ouvida.
          Dois textos se referem a (1) quem é seu veículo e (2) ao efeito da palavra de Deus. O primeiro deles, está em 1 Coríntios 14:1: “Segui o amor e procurai, com selo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis.”
          Nessa recomendação geral aos crentes, Paulo fala de três coisas essenciais: (1) amor, fruto do Espírito; (2) dons espirituais, fundamentais no crescimento do crente e da igreja; (3) profecia, intrinsecamente relacionada às Escrituras, à obediência a ela e à autoridade para falar em nome de Deus, que todo crente deve perseverar em ter.
          E, em segundo lugar, quanto ao efeito da palavra ou ao teste para saber se ela realmente provém de Deus, os textos de 1 Coríntios 14:3 e Efésios 4:29 podem ser considerados uma definição de profecia e dão o controle de qualidade para identificar profecia. Ela deve (1) edificar, exortar e consolar e (2) ser unicamente para a edificação, conforme a necessidade e (3) transmitir graça aos que a ouvem.        
         Vivemos um tempo em que palavras proferidas e ouvidas têm se revelado, em grande conta, falsas, revelando o caráter de quem as profere ou defende sua vigência. Vivemos quase a mesma época revelada em 1 Samuel 3:1b: ‘Naqueles dias, a palavra do SENHOR era mui rara’. Profetas não se têm dedicado às Escrituras, para ouvir Deus falando e para adquirir autoridade para falar em nome dele. 

        É urgente que verdadeiros profetas de Deus falem, com autoridade, em seu nome. Que o leão ruja e o temor de Deus seja experimentado.  O leão continua a rugir. O eco de seu rugido se espalha. É prudente ouvir e temer.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Uma história de branca e uma negrinha.



      Creio que a gente conhece um monte de histórias da branca que deu muita porrada (desculpe-me o termo) na negrinha, para logo depois desejar recebê-la humilde ou humilhada (para a negrinha, humilde; para a branca, humilhada, algo como 'ponha-se no seu lugar'). Pois esta história se repetiu com Dilma, a branca (aliás, com nome Rousseff), e a negrinha, Marina. Então, independentemente do que Marina pensa, caso ela optasse, agora, por Dilma, seria a humildade da humildade ou a humilhação da humilhação? Não importa, mas era essa a Marina que a gente queria, domesticada, não é mesmo? Acho, volto a dizer, que o PT está praticando o vale tudo. Até concordo que é a mesma política do PSDB. E até a mesma política do PMDB (mas, quem foi mesmo que falou em velha política?). Pois é, a gente esperava que o PT continuasse sempre sendo o PT, alguém lembra como era, quando foi fundado por sonhadores, gente muito boa (que ainda existem aos montes, no atual) e ainda era partido de oposição? PT virou velha política. PT está entregando tudo ao PSDB. PT destrói PT. PT ruim, PT velha política, destrói PT bom, muita gente boa que está por aí, traída em seus ideais pelo próprio partido. Mas quem mesmo falava (ou fala, ainda) em velha política? Queriam uma Marina domesticada. Ah, bom: ponha-se no seu lugar. Isso não é velha política, mas é uma velha história.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014


      Joel

             Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor vosso Deus.

         Joel, seguindo a mesma ideia de qualquer genuíno profeta do Antigo Testamento, por meio do versículo acima indicado, define o que significa converter-se ao Senhor. Trata-se do verbo hebraico shubh, equivalente ao sentido grego do vocábulo metanous, converter-se, fazer uma conversão, voltar, mudar a própria mentalidade, experimentar uma mudança de vida.

           O sentido teológico dessa experiência, espelhada no significado desses dois vocábulos, representa o que a Bíblia define como ‘conversão’. Essa experiência é fundamental para a fé, tanto na época do Antigo, como do Novo Testamento, porque representa o retorno do homem para Deus, o voltar-se para Deus, nele crendo e, a partir de então, manter com Deus comunhão.
          
                Não existe mais, pelo que a Bíblia indica, uma natural comunhão entre Deus e o homem. Desde que, segundo a narrativa do Gênesis, Deus saiu ao encontro dele e este pretendeu, ingenuamente, esconder-se de Deus por entre as árvores do jardim, o homem já havia voltado as costas para Deus e seu padrão de conduta.

           A essa opção do homem a Bíblia chama pecado, hata’ah, no hebraico, mais exatamente ‘errar a marca no alvo’, ‘errar o objetivo ou a instrução’. O homem decaiu do propósito que Deus tinha para ele. Outras palavras da Bíblia para pecado são: pesha, transgressão intencional, ir além de limites estabelecidos, revolta contra um padrão pré-determinado; awon, traduzida perversão, iniquidade e, eventualmente, vaidade, um ato de perversão intencional; tame, ser imundo ou considerar-se imundo; avar, infringir, deixar de lado o que é certo ou correto, no caso, o pacto com Deus.

       Consideramos bem ilustrado o significado geral do conceito bíblico ‘pecado’. Embora, comumente, costume-se entender que, na época da lei, assim identificado o período do Antigo Testamento, a relação com Deus fosse diversa daquela indicada pelo texto do Novo Testamento, mesmo no tempo de Joel a salvação e o resgate do homem era devido à graça de Deus, por meio do arrependimento e conversão, do mesmo modo como está claramente definida essa mesma experiência no Novo Testamento.

           Assim, Deus sempre saiu ao encontro do homem, modelo do mesmo expediente lá de Gênesis 3:8-10: “Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim. E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi.” 

             No caso aqui, o homem já havia descoberto, ele e sua esposa, que poderiam, na hora em que quisessem e desejassem assim, romper com o padrão de Deus, negando sua origem como criação de Deus e unilateralmente agindo por sua própria índole. Deste modo está descrito como o homem e mulher romperam com Deus e, ingenuamente, pensaram esconder-se de sua presença, tentando ocultar o seu pecado, fugindo de encará-lo de frente.

             E o ponto máximo dessa busca de Deus se deu nos tempos do Novo Testamento, por meio de sua revelação em Cristo Jesus. Do modo como Paulo afirma em 2 Coríntios 5:18-19: “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando ao homem as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.” Trata-se da presença de Deus em Cristo, não jogando na cara do homem aquela relação de pecados acima indicada, mas pretendendo convertê-lo a si, por meio de uma palavra da qual nós, os que já cremos, somos portadores.

              Como, então, o próprio Paulo complementa no texto de sua carta, 2 Coríntios 5:20c, prevalece o apelo: “Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. E ainda, Paulo, citando o Antigo Testamento, desta vez em 6:2: "Eu te ouvi no tempo da oportunidade e te socorri no dia da salvação; eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação." O apelo de Joel ecoa em Paulo e chega aos nossos dias: trata-se de um apelo à conversão.

             

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Oseias e uma sua divisa bem conhecida
            
               Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor.
        
        Certos textos dos profetas menores já conquistaram um determinado status, em função de ser mais conhecidos ou de já serem consagrados pela leitura ou mesmo pela mensagem mais direta que transmitem. Este, acima citado, é um deles.
        Portanto, são associados mais especificamente ao profeta em questão, no caso Oseias, e começamos aqui por analisá-los, mesmo porque sua atualização nos dias de hoje e presença na memória coletiva estimula essa apreciação.
        Conhecer, verbo hebraico yadha, na mentalidade do Antigo Testamento não tem o mesmo significado que conhecer, ginoskw, no grego. O conhecer da filosofia grega é mais abstrato, enquanto que o conhecer do hebraico é mais prático e experimental.
        Conhecer do grego, em geral, envolve abstração mental, mais próximo do conhecer teórico de nossa época, ou seja, formar uma imagem mental, enquanto que o conhecer do hebraico envolve experiência sensível. Não confundir, numa aproximação desses significados mais corriqueira, com determinados usos dos sentidos que mais enganam do que definem experiências com Deus.
         No sentido grego, Deus não cabe em nossa compreensão. No sentido hebraico, conhecer ao Senhor seria algo cuidadoso e cauteloso, pelo temor que inspirava aos judeus a santidade e a transcendência divinas. Para nós hoje, no estágio da revelação em que nos situamos, tanto é possível conhecer Deus, no sentido grego, revelação cabível a nosso entendimento, assim como ter com Deus comunhão, relação prática e vivencial com Ele.
         Podemos nos expressar relatando aspectos da pessoa de Deus, de sua natureza e ação, informação e discernimento ao alcance de qualquer pessoa, assim como é possível descrever, experimentar e demonstrar aspectos concretos da relação com Ele, comprováveis e verificáveis como indícios dessa relação. A Bíblia, em seus textos, especifica essas duas tendências.
         Um primeiro exemplo de texto em Romanos 1:19: "Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, por meio das coisas que foram criadas."
          Numa linguagem esquemática, enxergamos neste texto: (1) Deus manifesta ao homem o que se pode conhecer dele mesmo, que são (2) seus atributos invisíveis, (3) seu eterno poder e (4) sua própria divindade, e isso (5) pode ser reconhecido, de modo claro, (6) desde que o homem existe no mundo, (7) por meio das obras da criação.
            E vejam que não chegamos, ainda, ao texto dessa revelação, que é reconhecido como o texto da Bíblia. Todo esse conhecimento está ao alcance do homem nas duas maneiras aqui expressas, seja na modalidade grega do conhecimento, teórica, mental e abstratamente, capaz de ser apreendida e explicada pelo homem, assim como na modalidade hebraica, pela qual é possível perceber, sentir e experimentar, de modo prático e sensível, a segurança dessa revelação, ou seja, ter e experimentar comunhão com Deus.
            No texto a seguir Paulo, agora aos Efésios 2:11, indica elementos mais claros dessa relação com Deus: "Naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo". Reparem que podemos inferir 5 situações pelas quais se identifica, de modo perceptível e claro, quem não se inclui entre aqueles alcançados pela graça de Deus e, portanto, que não privam dessa comunhão à qual a Bíblia se refere.
       Trata-se dos seguintes aspectos práticos indicadores: (1) estar sem Cristo, (2) estar separado de uma comunidade, que significa, num sentido objetivo, estar afastado ou fora da igreja de Cristo, (3) ser estranho às alianças da promessa significa ignorar, textualmente desconhecer ou estar alienado em relação à Bíblia, (4) não ter esperança, significa vivenciar existencialmente o desespero e (5) sem Deus significa estar presente no mundo, criação de Deus, mas não perceber-se, ou não sentir-se ou não ter consciência de pertencer a Deus.
          No sentido prático, conhecer a Deus, seja pela ideia do vocábulo yadha, do Antigo Testamento, ou no sentido teórico do vocábulo ginoskw, do Novo Testamento, os dois conceitos são necessários e complementares, segundo a divisa do texto de Oseias e seus desdobramentos aqui verificados, expressos por outras unidades da Bíblia, com as quais o texto original foi comparado. Exercício ao seu alcance e início de caminhada pelos textos dos profetas menores.