segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Mal traçadas linhas 11



               Vento de Deus.

           Ruah Elohim. Espírito de Deus. A palavra espírito, seja no hebraico, língua do Antigo Testamento − AT, ou no grego, língua do Novo Testamento − NT, traduz termos que significam sopro, ar em movimento, vento. Uma das razões, certamente, é que essas palavras que traduzem Espírito, no AT, e Espírito Santo, no NT, indicam sua imaterialidade. 

          Aliás, o termo espírito, por assim dizer, é um termo técnico que se refere à definição de Deus, Ele em sua imaterialidade, como disse Jesus à mulher samaritana: “Deus é espírito”. Do mesmo modo os anjos, como indica o autor de hebreus, que são “espíritos ministradores”. O ser humano também é constituído por espírito, como diz Paulo aos Coríntios 1: “quem sabe as coisas do homem, senão seu espírito que nele está?”.

         Mas de todos aqui citados, bem parece que o único que retém consigo a identidade de ser mesmo espírito, visto que até mesmo por este nome é reconhecido, é o Espírito de Deus. Seu nome, então, guinado para substantivo próprio, tem a ver, primeiro, com sua imaterialidade. Por certo, também, de novo, pela sutileza de sua ação, aqui comparado a uma suave brisa, porque o Espírito, em sua identidade, age de modo sutil.

           E haja sutileza, porque é Paulo, novamente, que indica que o Espírito "perscruta - sonda, avalia, investiga, explora, bisbilhota mesmo - a intimidade de Deus". Isso quer dizer que o Espírito Santo é o alter ego de Deus. Se o Altíssimo desejou, um dia, privacidade, pela eternidade afora, nunca teve: o Espírito sempre privou de todos os Seus segredos. Aliás, de novo, no Evangelho, Jesus diz aos discípulos que, sobre o momento de Seu retorno, nem ele sabe, senão somente o Pai. Pois está aí: há coisas que o Pai sabe, que não divulga ao Filho. Já o Espírito, este sabe tudinho. Nada Lhe escapa ao conhecimento.

           Porém, mesmo que referindo-nos a uma suave brisa, é claro que vemos heróis do AT por ele sendo dirigidos, habilitados para a luta, como Sansão, por Ele conduzindo em ações de confronto, luta corporal mesmo, com inimigos. Sansão, campeão de UFC de seu tempo, porque cheio do Espírito. Assim como O vemos convocando, encorajando, inspirando e soerguendo profetas que, sob Sua influência, adquirem coragem para agir, pregando com todo o risco, enfrentando a fúria de seus contrários. E ponha contrários nisso...

        No Evangelho de Marcos, comparado o termo que se refere à tentação de Jesus com os outros dois sinóticos - levado ao deserto, em Lucas; conduzido ao deserto, em Mateus - a tradução escolhe o verbo impelir, como que indicando a necessidade de contrariar Jesus, a contragosto, como se pudesse haver alguma relutância da parte dele em obedecer. Já lá atrás, na fase que antecede a Criação, pairava por sobre a face do abismo, como se aguardasse a indicação do Criador de que o tempo de agir estava por vir. Como se inspecionasse o que estava para ser feito. Como pronto a inspirar o Criador em sua obra, imerso nesse silêncio primordial.

        Seja no Antigo, tanto quanto no Novo, a ação de Deus no homem só se torna possível, real e exequível por meio da presença do Espírito no próprio homem. A distância infinita entre Deus e homem, instaurada quando este optou pelo pecado, pode ser anulada a zero, isso se chama comunhão, por meio da obra de Jesus, completa e perfeita, realizada na cruz. Mas fazer o homem, genericamente falando, entender isso, tornar possível que ele creia e tenha em si implantado esse benefício que sejam homem ∕ mulher batizados em Cristo, somente se torna possível, se torna factual por meio do Espírito. Comunhão com Deus somente por meio do Espírito, ainda que em Jesus esteja completada a obra de reconciliação.
  
        Vento de Deus. Como é esse vento? Na entrevista de Jesus com Nicodemos, aprendemos que é vento “que venta onde quer”. Se há um momento em que se assemelha a uma muito suave brisa, é quando sussurra aos ouvidos do homem argumentos que podem gerar o convencimento que conduz ao arrependimento e, consequentemente, à fé. Se há momento que se assemelha a um furacão, um tornado contra o mal, como Paulo descreveu aos gálatas, é quando milita contra a carne que, por sua vez, milita contra o Espírito, porque são opostos entre si. O Espírito se levanta, no homem, contra tudo o que contribui para destruir esse mesmo homem. Alguém que priva de presença do Espírito em si é, antes de tudo, esquizofrênico, lutando contra sua própria tendência assassina.

       Há momentos em que o vento, aqui me refiro ao mero fenômeno da natureza, parece só o vento mesmo. Que o que o norteia são condições climáticas, diferenças de temperatura, pressão atmosférica, enfim, outros fatores. Há momentos, porém, que a candura do vento, como suave brisa, ou mesmo até que seja mais forte, porém cadenciado, no modo como varre a vegetação rasteira, inclinando folhas, galhos, árvores, ou simplesmente aliviando o calor, esse vento, talvez, lembre mais o Espírito, pelo efeito benéfico e controlado que produz, como se fosse um regente, tomando tudo com seu frescor, refrigerando a Criação e espalhando doce aroma aos quatro ventos.

          Presença real. Nosso ponto de contato com Deus. Sutil. Invisível, porém sensível. Objeto de nossa fé. Fiscal da certidão de verdade do sacrifício de Cristo que, "pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu a Deus". Fiscal de nossa confissão de fé porque "o Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus". É quem nos convence, no ponto de partida da conversão, de que somos pecadores, pois dele disse Jesus "quando vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo". É ele que nos permite ser imitadores de Deus, como requer de nós Paulo aos Efésios, ou partilhar do fruto do Espírito, como também se referiu aos Gálatas.

             Vento de Deus. NEle nos batizou Jesus. Ele nos revela as grandezas de Deus. Consegues ler com esses olhos as páginas das Escrituras?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Mal traçadas linhas 10



   
          A Bíblia
           
          Inegável o status que a Bíblia alcançou como Livro. Se prevalece a estatística, ainda é o mais vendido no mundo. Lido, não sei não. Por variados pontos de vista, pelo menos 3 milênios desfilam por suas páginas, senão mais. História, literatura e religião, essa tríade vem marcando a interseção da humanidade com seus textos, para o bem ou para o mal, dependendo do fato de ter sido entendida de maneira acertada ou usada a pretexto.
           
           Fonte de polêmica, sempre um canal aberto que lhe serve de referencial, assim como uma acirrada crítica que caminha paralela aos fatos que descreve. Serão isentos todo o tempo seus autores? Pelo menos supõe-se que sempre acreditaram no que escreveram, visto que, nem sempre, estão a favor da marcha natural desses mesmos fatos ou ao lado, de maneira cúmplice, apoiando os protagonistas da mesma história descrita.

         Só para ficar num exemplo, Jeremias brigava com todo mundo. Supõe-se que nasceu sacerdote, mas nem seus conterrâneos, da vila de Anatote, a 5 km de Jerusalém, queriam-no de volta. Deslocado para a função de profeta, indispunha-se com todos os outros profetas, batia de frente com o pessoal do sacerdócio, contestava os anciãos do povo, acusava de corrupção os juízes e, até mesmo com relação à turma do palácio, isso mesmo, nas barbas do rei, não era consenso entre a nobreza. Para falar a verdade, até o rei ele trazia em sua lista negra. Para se ter uma pálida ideia do problema, Jeoaquim, em nada semelhante a seu pai Josias − este o único rei amenizado pelo profeta − quis matar Jeremias.

           Muito embora seja esta uma discussão deveras interessante sobre a Bíblia, qual seja, a marca de caráter, contexto e valia de seus personagens, seu incômodo maior é dizer-se ou ser aceita por tantos outros como “palavra de Deus”. O autor do Gênesis, por exemplo, logo o seu primeiro livro, que muitos aceitam ser Moisés, porém acadêmicos modernos, com pelo menos já 100 anos de argumentação, francamente contestam essa autoria, pois bem, esse autor, seja lá quem for, atreveu-se a afirmar: “No princípio... Deus”.

             Mais adiante ainda afirma que, além de Deus fazer, de Deus criar, segundo o autor, todo o Universo, Deus disse “Haja luz”. Quero frisar, aqui, que esse (anônimo) autor, além de dizer o que Deus fez, quer dizer o que Deus diz. Aqui temos, portanto, o primeiro profeta no texto da Bíblia. Definitiva e independentemente da discussão, válida ou não, do valor adquirido pelo Livro ao longo de milênios, da quantidade de pessoas ou religiões que o prescrevem como regra de fé ou do valor intrínseco de seu gênero literário, ou ainda referenciais fidedignos de suas indicações históricas, entre todas as outras prováveis discussões, supremo atrevimento foi esse autor dizer “Deus fez”, “Deus disse”.

           Sim, porque nessa formulação, atribui duas coisas a Deus e podemos perguntar: com que autorização afirma isso? Qual sua fonte primária de dados? Como, enfim, sabe ou comprova que “Deus fez” e “Deus disse”? Segue-se adiante ou, definitivamente, alguém se detém, tropeçando logo nessa primeira afirmação. Sim, porque ela é determinante para o valor da narrativa que segue. Se é possível confirmar que “Deus fez” e que “Deus disse”, a postura será uma, com respeito ao grau de fidedignidade do que segue escrito. Caso seja impossível atestar essa confirmação, sim, prossegue-se, até, mas a narrativa e toda a documentação textual que segue terá um viés relacionado a essa segunda postura de suspeita da possibilidade de ser verdadeira a premissa.

          Os textos, então, terão valor literário, histórico, sim, em certo sentido muito bem definido, religioso, é certo, como fenômeno tipicamente humano, enfim, toda a história do texto e de suas interpretações se confunde, definitivamente, e até se funde com a história do Ocidente e do Oriente. Impossível estudar história da humanidade sem levar em conta a Bíblia. Mas se vai longe a premissa que nela, em verdade, comprovadamente, “Deus fez” e “Deus disse”, ora, uma bruta guinada será dada na autenticidade de sua principal afirmação, de que o ponto de partida seja que Deus existe, criou o Universo e pode falar, ser ouvido, comunicar-se com o homem.

               Vivemos uma época da crise de valores, da presunção de se ter resposta para tudo e conhecimento ilimitado, assim como da total permissividade e rápida e radical mudança de paradigmas. Considera-se, definitivamente, a ciência como num patamar de última palavra em todos os sentidos. Portanto, se houve tempo em que a Bíblia fosse considerada uma espécie de "manual de bons costumes", é claro, se fosse lida de modo correto, espelhando um retrato fiel da sociedade, sem meias palavras, trazendo consigo valores, conhecimento ou revelação, enfim, uma exposição e fonte de tesouros e elementos úteis à humanidade, atualmente nem virtudes, nem valores e nem princípios éticos, até mesmo, religião são considerados prioridade ou que a Bíblia seja referencial para tanto.

               Mas resta a ela uma validade, que me parece a principal. Prevalece a sua identidade fundamental: o que Deus faz, o que Deus diz. A Bíblia é o único Livro referencial para o fazer de Deus e para o falar de Deus. Alguém se arrisca a fundamentar que haja outro paradigma para que seja definido conhecer o que Deus faz e o que Deus diz? A identidade da Bíblia é apresentar-se como o agir e o falar de Deus, enfim, a voz de Deus e a identidade, uma revelação de Deus, por seus atos. Se o seu primeiro autor foi verdadeiro e tem credibilidade ao afirmar que “Deus fez” e “Deus disse”, a Bíblia será lida, ao longo de seus textos, por esta marca.  Se esse primeiro profeta mentia, delirava ou somente tinha a intenção de enganar tantos ou inventar religião, nada resta à Bíblia como relevante para a humanidade nos dias atuais. Só interessa na possibilidade de que Deus fale e o homem seja capaz de ouvir.

                  Profeta é quem fala a outrem o que ouviu de Deus. Os autores da Bíblia são autênticos ao afirmar que o que dizem, dizem da parte de Deus? Eles, antes de mais nada, acreditam no que dizem e dizem falar em nome de Deus. Este é o principal absurdo. Este é o absurdo maior das Escrituras. O homem não suporta esta evidência. Torna-se tão perturbadora essa possibilidade que é possível até encontrar teólogos que não creem na existência de Deus ou, se creem, não creem tão literalmente que a Bíblia seja voz de Deus. Estudam e “fazem” teologia por teologia, tornando-se o suprassumo do que até hoje foi produzido na esteira dessa história toda. Agora, Deus falar, Deus fazer, bem, é discutível.

              Talvez seja melhor fechar em torno da questão de ser a Bíblia uma criação do homem, do gênio humano, e assim deve ser estudada. É perturbador que Deus tenha feito, que Deus tenha dito. Não tão óbvio assim. O homem precisa cercar de mistérios a possível revelação de Deus, quem sabe elitizando essa percepção. Não para tantos, não para qualquer, não tão direto e não tão simples assim. O homem precisa cercar até mesmo de incredulidade sua teologia a respeito de Deus. Por muitas outras vias, por outras várias argumentações, por outros variados e complicados sistemas é que se torna possível chegar a um vislumbre de Deus. Nunca tão direto, nunca tão simples.

        Mas a Bíblia insiste em afirmar que Deus se fez homem. Deus surpreendeu o homem. Deus revelou todo mistério. Deus encurtou o caminho. Deus tirou a venda de si, para desvelar-se, e a venda dos olhos do homem. Isso é demais para o homem. Não pode ser assim tão simples, não pode ser assim tão direto, não pode ser assim tão fácil, não pode ser assim tão para todos. É necessária uma mediação e não pode ser por meio de pessoas tão comuns assim. Certa vez, Jesus se expressou, numa oração, dizendo “graças de dou, ó Pai, porque dos ‘sábios’ e ‘entendidos’ ocultaste toda essa simplicidade”.

           Por um único ponto de vista, do primeiro autor (anônimo) do Livro, Deus fez, Deus disse. O primeiro profeta assim se expressou. Esse anônimo, se não foi mesmo Moisés, inventou o método áureo, a regra maior para a serventia que o Livro traz consigo: ou Deus fez e Deus disse, aceita-se assim, ou para nada mais serve, comparativamente será secundária a serventia. Ao longo dos textos do Livro, o que Deus fez, o que Deus disse segue como parâmetro. Ou não.
               

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Mal traçadas linhas 9


      Tradição judaico-cristã ou por algumas mandrágoras


             Faremos uma comparação entre duas narrativas atuais e outras duas bíblicas. Os endereços das atuais estão indicados aí, abaixo, marcados por (1), (2) e (3). Vamos ao exercício proposto:

(1) http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/01/1732932-casais-de-3-ou-mais-parceiros-obtem-uniao-com-papel-passado-no-brasil.shtml
          
          Antecipadamente, peço perdão porque estas mal traçadas linhas serão ou pouco mais extensas do que as anteriores. Quando se trata de academicismo rasteiro, ou seja, incompetência ou má intenção proposital na discussão de assuntos que não são tão simples quanto se quer que pareçam, costuma-se responsabilizar, numa penada só, a “tradição judaico-cristã” por todos os males da humanidade.

          Explica-se: a Bíblia é formada por dois blocos: o primeiro, de tradição mais acentuadamente judaica, é o Antigo Testamento; o outro, de tradição acentuadamente cristã, é o Novo Testamento. Pois são exatamente esses dois blocos responsabilizados por essa praga moralizante, esse rescaldo, esse patrulhamento ostensivo da História, com uma única intenção, dizem, estragar a festa.

          Leitura equivocada do Livro, deliberadamente sem critério. Aqui abordo dois fatos que, para a Bíblia, nunca foram novidade e parece que, nos dias atuais, deseja-se trazer, de volta, ao costume. O primeiro deles ganha o nome atual de “união poliafetiva”. Vou abordar aqui dois casos desse tipo bíblico de poligamia, o primeiro deles referente a Jacó, já decantado em poesia por Camões, lembram: “Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela.” Já leram toda a história? Já ouviram estes versos?

           Pois Jacó, por amor a Raquel, também desposou a irmã, Lia, enganado que foi pelo tio Labão, pai das duas moças. Começou entre as duas uma renhida disputa pela atenção e amor maior de Jacó, que não conseguia esconder sua preferência por Raquel que, a princípio, era estéril. Resultou numa relação poliafetiva de um varão e quatro mulheres, duas delas escravas dadas pelo sogro às filhas. Cada filha adiantava a Jacó sua serva, a fim de ganhar na provável quantidade de filhos homens nascidos. Por mandrágoras, certa vez, Raquel alugou à Lia uma noite com o marido, um drible na agenda do revesamento das irmãs na intimidade com o patriarca.

          Como resultado, a disputa entre as mães pelo ganho do pai gerou, entre os irmãos, ódios de morte. José, depois chamado “do Egito” só escapou à gana dos irmãos porque o mais velho, Rubem, argumentou que seria feio que o matassem, ficariam mal na fita. Venderam-no a mercadores na estrada para o Sul, enganaram o velho pai e só vão reencontrar o irmão anos depois, quando careciam de alimentos para sobreviver.

         Segundo caso de união poliafetiva, homem mais sábio que Jacó na condução de sua casa, foi Elcana, que administrava a união com Ana e Penina. Esta “provocava excessivamente” Ana, a quem ela considerava rival, “para a irritar”, no linguajar bíblico. O que fez Elcana, o marido das duas? Convocou uma reunião de família e deu uma dupla bronca? Não, era um homem inteligente. Convocou a vítima e, indiretamente, recomendou-a a suportar a ofensa da rival e lhe fez uma declaração de amor que poucos homens são capazes de fazer e/ou sustentar coerentemente. Como a principal reclamação de Ana era ser estéril, Elcana disparou: “Não te sou eu melhor do que 10 filhos?”. E olha que a mulher é a unica que pode atestar a validade de declarações como essas.

  (2) http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ps-sp/2016/01/1730004-festas-com-nudez-e-sexo-permitidos-se-popularizam-em-sao-paulo.shtml

          Com relação a outra moda em voga, a exposição pública do sexo também é abordada na Bíblia, aliás, indicada por um fato curioso que envolveu uma briga de família. Absalão, que diz a Bíblia ter sido um jovem belíssimo, de uma vasta e magnífica cabeleira, pretendeu para si o trono de seu pai, o rei Davi. Garoto mimado desde sempre, Davi, cavalheiresca e estrategicamente, retirou-se do palácio, com toda a sua corte, staff e exército, deixando o caminho aberto ao rapaz.

          Pelo sim, pelo não, Absalão irritadíssimo com essa postura inteligentissimamente light de seu pai, resolveu, no mesmo terraço do palácio, como ato (sexual) de provocação, proporcionar à Jerusalém da época, desprovida de vídeo, televisão, internet ou tela touchscreen uma cena de sexo explícito com as concubinas de seu pai, uma espécie de vingança obscena pretendida para uma exposição do pai ao ridículo, ao mesmo tempo agastado o rapaz com a estratégia inteligente de Davi que, magistralmente, encarregou ao tempo e à experiência o esvaziamento das pretensões do menino.

         Baseado nas reflexões sobre esses dois fenômenos, quais sejam, a possibilidade concreta de um homem conviver com mais de uma esposa e do sexo se tornar, em qualquer grau ou medida, uma experiência explícita, veiculada pela mídia ou praticado em grupo, mesmo em ambientes fechados, faço algumas observações:       
   
         (1)     A Bíblia, mal interpretada por muitos, vista com preconceitos por outros tantos reflete, em suas páginas, a realidade do tempo ou época em que foi escrita. No caso da poligamia, ela expressa a opção de uma etapa da sociedade, num determinado contexto, e pode ser até que estejamos retornado a tempos dessa mesma opção. Mas o padrão que os evangélicos seguem está explicitado na narrativa do Gênesis, quando o Livro afirma que Deus (1) criou macho e fêmea, (2) abençoou sua união e (3) incluída na bênção estava a indicação para que fossem fecundos. Vivemos um tempo em que outros modelos de família se esboçam, inclusive com aprovação legal. Portanto, a divulgação de modalidades diversas da tradicional monogamia heterossexual, bem como a defesa de variações desse modelo são reivindicadas como um direito irrefutável. Diante disso, os evangélicos reivindicam também o seu direito, inalienável, de defender (1) a monogamia heterossexual e (2) o modelo de família que resulta dos filhos nascidos no contexto dessa relação. Este é o modelo que tomamos como prática, defendemos e divulgamos, sem que, na defesa deste modelo, seja necessário acusar outros. Para tanto eu, particularmente, discordo de qualquer acusação, denúncia ou discriminação de quem pratica outro modelo, mesmo porque a responsabilidade por toda e qualquer escolha, para a Bíblia e para Deus, é sempre individual. 

           (2)  Quanto ao modelo de sexo praticado pelos evangélicos, aliás, mais uma vez, a Bíblia nunca foi moralista ou estraga-prazeres em termos da questão sexual. Esse assunto é mais um que entra na lista das leituras equivocadas do Livro ou da má fé de seus “intérpretes de ocasião”. No coração da Bíblia, pertinho do Livro dos Salmos, há um outro que enaltece a sexualidade e a relação entre homem e mulher, que é Cantares ou Cântico dos Cânticos. É o livro que começa com a declaração "beija-me com os beijos de teus lábios, melhores do que o melhor vinho". E isso é só o começo. Portanto, a Bíblia nunca indicou o sexo como algo repulsivo, menosprezado ou desvalorizado. Ela faz questão, sim, de indicar certas posturas que ela considera perversão sexual. Pois evangélicos conscientes e inteligentes, leitores lúcidos do Livro, nunca foram inimigos de uma sexualidade sadia. Somente acham que deva ser praticada na intimidade, com limites definidos pelos parceiros e nunca usada como instrumento de mídia ou exposição pública, por julgar que se trata de uma parceria íntima e para ser experimentada numa vivência de amor e respeito.

          Nós evangélicos não abrimos mão dos princípios aqui expostos. No momento que escrevo este texto, a internet divulga o interesse de um certo grupo de políticos para que seja aprovada uma certa “imunidade”, ou seja, “eximindo religiosos de crime de injúria e difamação”. 

      (3) http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/01/28/o-que-e-o-projeto-de-lei-que-exime-religiosos-de-crimes-de-injuria-e-difamacao.htm

              Sou contra, pois já há jurisprudência definida para essa finalidade. Novamente a Bíblia, ela condena que quaisquer pessoas se arvorem no direito de serem juízes ou acusadores de outrem, de qualquer um, de qualquer outro. O que reivindico aqui é o mesmo direito que, frequentemente, vejo em outras parcelas da sociedade de propagar, propalar e defender seu modo e modelo de entender e praticar, no caso da argumentação deste texto, sua sexualidade. Que façam conforme sua consciência lhes aconselha. Quanto a nós, evangélicos, também agiremos da mesma forma, entendendo, praticando, defendendo e proclamando o nosso modelo. Para isso, requerendo os mesmos direitos e a mesma liberdade.