quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Mal traçadas jornadas


   Tira a sandália dos teus pés

    Fim de jornada. Início de jornada. Capricho do calendário. Hora de tirar e repor sandálias. No Êxodo, diz que Deus pediu a Moisés que retirasse as sandálias dos pés. Para logo mais ele repor.

   Aquele homem já estava reduzido de filho da filha de Faraó ao desterro. Sobrava-lhe surrão, cajado e sandálias. Tirar sandálias significava ficar ainda menor do que já se sentia.

   Ficar do tamanho. Para continuar a jornada é melhor saber qual é o nosso tamanho. Com o que vamos ficar se tirarmos as sandálias. A razão dada por Deus era que a terra era santa.

  Uso como pisante. Uso como proteção. Para que o caminho não me machuque e eu não me suje. Caso eu tire minhas sandálias vou me expor. O que de santo pode haver nesse rude chão que eu piso?

   Valor. Tirar as sandálias mede o nosso valor. Para continuar a jornada sem saber também o tamanho dela é melhor saber o quanto valemos. Deus pediu a Moisés que avaliasse seu tamanho e real valor. Estava disposto a usá-lo.

  Deus está disposto a usá-lo. Para tanto, temos de, pelo menos, conhecer nosso tamanho e valor. Tirar as sandálias dos pés também é reconhecer que não dá para continuar a jornada sozinho.

  Olhe a seu lado. Seu tamanho, valor e cuidado dependem de quem está perto. Dependem do próximo. Nem Deus caminha sozinho. Na parábola que Jesus contou, o religioso não quis enxergar o próximo.

  Nem o aprendiz de religioso também. Então Jesus disse que o mais discriminado de todos foi quem enxergou o próximo. Ele soube que não dava para continuar a jornada sem pensar as feridas do próximo.

  Jesus, então, ensinou ao doutor da lei que não dá para continuar a jornada ignorando o próximo. Valor e tamanho se medem, diante de Deus, pelo valor dado ao outro. Deus queria usar Moisés em benefício de outros.

  Tiremos de nossos pés as sandálias. A jornada vai prosseguir. Mas não podemos caminhar sozinhos.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Mal traçadas linhas 38


   Natal

   Frei Beto falou do menino chamado Lucas. Ele propõe três soluções, relacionadas a problemas cruciais da condição humana. Logo, a primeira lição que nos ensina, é que possui sensibilidade para reconhecer questões cruciais da condição humana.

  Quando nos tornamos adultos, perdemos essa sensibilidade. E o pior, estragamos nas demais crianças essa capacidade. A escola que inventamos, dizendo ser lugar para ensinar, deveria ser lugar de se aprender com elas.

   Jesus mesmo dissse, a nosso respeito e a respeito delas: não atrapalhem o caminho delas em direção a mim, porque elas têm, mais aguçado nelas, a sensibilidade de atinar com o Reino de Deus.

  Lucas, (1) com relação à escatologia, propõe que não nasça e nem morra mais ninguém. Olhar à volta, é mesmo constatar que, no final das contas, só vai mesmo ter jeito com intervenção divina: o fim da história humana e a instauração literal, histórica e forçada do Reino.

  O menino (2) sugeriu que Caim não mataria Abel, se dormissem em quartos separados. Pretendeu solucionar o problema do ódio, na condição humana. Socialmente falando, ódio é amor falsificado. Torna-se explícito de várias formas, em hipocrisia seletiva, cuja expressão máxima é o assassinato por causas fortuitas: praticamos isso toda a hora, abortando, em nosso íntimo, relações e detonando, com a língua, a reputação alheia.

  Ele (3) também sugeriu enviar sua capa (como chamam aqui agasalho) ao menino Jesus, por causa do frio, quando o viu desnudo no Presépio. Pretendeu, assim, resolver o problema da miséria humana, panos pra manga no dia do juízo, quando será cobrado o descaso da humanidade, incluída a própria, assim denominada, igreja de Cristo, pela responsabilidade com esse câncer social: mal emprego de recursos financeiros.

  Amanhã, na chácara, vamos reunir nossas crianças e propor que avaliem, mais uma vez, o que esperam do nosso espaço ali. Também vamos propor a elas que exponham motivos de oração. Talvez todas as soluções não venham ao nosso encontro, mas vamos ouvi-las e pensar numa ação conjunta.

  Reino de Deus é uma opção e invenção do Autor, que decidiu limitar-se, junto conosco, aos limites da condição humana. Talvez a inocência, sensibilidade e percepção da criança seja a melhor expressão disso. Quem sabe fique mais fácil a busca e o compartilhamento das decisões.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Pastorais em Filipenses


  Se há.

  Em Filipenses cap. 2, Paulo usa de refinada ironia, argumentando se aqueles crentes identificam, em Cristo, ponto de partida para o que se refere à igreja.

  Somos capazes de estabelecer convivência em grupo, apta para experimentar e pôr em prática qualquer harmonia de propósitos. Porque minha origem é o Rio de Janeiro, gosto de usar como imagem as Escolas de Samba.

   Como se esforça aquela gente. Já se decantou até em samba como o esforço de todo um ano aparece com brilho supremo no Carnaval: são 36 juízes para 9 quesitos. Tudo muito lindo, mas essa harmonia não é igreja.

   Para ser igreja, parte, provém de Jesus. Paulo relaciona: a partir de Cristo, para ser igreja, provém (1) exortação, (2) consolação de amor, (3) comunhão do Espírito e (4) entranhados afetos e misericórdias.

  Somente então será possível que, agora sim, esse distintivo de grupo, apresente: (1) pensar a mesma coisa, (2) ter o mesmo amor, (3) ser unido de alma, (4) ter o mesmo sentimento (que houve também em Cristo Jesus), (5) nada fazer por partidarismo ou vanglória, (6) considerar o outro superior a si mesmo e last, but not least, (7) não ter em vista o que é propriamente seu.

   Cada elemento desses provém de Jesus. Torna-se engenharia do Espírito, em amor, entranhado em nós por afetos e misericórdias. E aparece o que, no conjunto todo, pode-se chamar comunhão.

   Acho que, nesse texto, Paulo pormenoriza os elementos do que seja comunhão e seu resultado prático na igreja. Escola de Samba é um espectáculo bonito. Tem marcas da arte e da genialidade humana, bem brasileira.

   Mas igreja, comunhão, somente com a marca de Cristo, proveniente dEle, promovida pelo Espírito, em amor, em nosso meio.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

     
        O jovem Daniel

        A postura assumida por Daniel, expressa no seu livro, ensina-nos duas coisas: (1) a pressão que o mundo exerce sobre nós e (2) a reação possível.
       Nabucodonosor, soberano do Império Babilônico, que dominou o mundo no alvorecer do séc. VI a. C., decidiu convocar jovens de elite, entre os povos conquistados, para que fossem aculturados e servissem no Palácio Real.
        Seu perfil incluía: (1) nenhum defeito físico e boa aparência; (2) nível intelectual de doutorado; (3) habilidade em etiqueta para servir no Palácio. Durante três anos: (1) aprenderiam a cultura e língua dos caldeus; (2) até mesmo sua dieta alimentar seria mudada; (3) e os nomes trocados segundo os deuses daquele povo.
        A pressão cultural sobre a igreja de Jesus muitas vezes é imperceptível. Vamos sendo aculturados sem perceber. Nossa dieta de escolhas é mudada, não mais falamos a língua do Reino de Deus e, sem perceber, cultuamos deuses e valores deste século.
       Jesus ensinou que o ministério da igreja é estar no mundo, porém não ser mundo, Jo 17:15-17. Estar no mundo como Jesus esteve, porém não ser mundo como Ele nunca foi. O jovem Daniel, por meio de sua postura frente ao deafio que enfrentou, ensina-nos como enfrentar e vencer esse dilema existencial.
     

Alguns sermões

Três exortações em Filipenses:
1. Ter o sentimento de Cristo Jesus:
2. Acautelar-se da falsa conversão;
3. Ter em si a busca pela perfeição.
   
   1.    O sentimento de Cristo tem três características:
A. Amplitude: Jesus o punha em tudo o que realizava. Andava por toda a parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos do diabo impulsionado, em tudo o que fazia, por esse sentimento. Seria o amor?
B. Originalidade: somente em Jesus existe esse sentimento. Só em Jesus existe e tem sua origem. Por sua vez, está em Deus que, antes mesmo que houvesse mundo, trazia consigo esse sentimento.
C. Finalidade: existe para ser compartilhado. Nada que Deus tenha consigo e, por sua vez, concedeu ao Filho existe para ser retido. Tudo o que o Pai tem, é meu, disse Jesus. E disso o Espírito Santo recebe, para que possa compartilhar. E pela graça e de graça.

2.     A conversão é perda total, troca de qualquer outra coisa pela sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus;

- costumamos, de modo disfarçado, é claro, ter nojo do outro, repugnância ativa. É um disparate. Imagina a gente de avaliando superior ao outro. Absurdo que, se não fosse trágico, seria ridículo. Deus se esvaziou de Si (o que teria para perder?) a fim de se identificar conosco.

3. O Espírito Santo pôs em nós esse anelo, do mortal ser absorvido pela vida, de ter a vida de  Cristo oculta em Deus revelada no dia a dia.

- Paulo coloca como limite ser imitadores se Deus. É retórico? É impossível? Mas Ele opera em nós e o que, de nossa parte, é necessário na busca dessa perfeição? Vida piedosa. Vida com Deus, vida com a Bíblia, vida em comunidade, vida de oração, situações de amor ao outro, principalmente: amor é o cumprimento do ministério ou o cumprimento do ministério é o exercício do amor.

Artigos soltos 16


    O pesadelo de Abraão.

    Depois da guerra, Gênesis 14, o pesadelo, Gênesis 15: vai ver que uma coisa combina com a outra. Talvez, a psicologia explique.

    Quem já não teve um, ou vários? Pior, quando é acordado. Abrão, porque Deus não lhe mudara ainda o nome, teve o seu, pelo menos esse que foi descrito.

    Talvez mal acostumado, por ter sido inflacionado por Deus com tantas promessas, ele cobrava de Deus, efetivamente, seu cumprimento. Nada mais humano e tão mesquinho.

    Mas somos mesmo assim tão frágeis. Imaginem o eterno frente ao fugaz, nós diante de Deus. Não poderia ser outra a pergunta do homem: "O que me haverás de dar?".

     E o espanto reside no fato de que Deus respondeu. O Altíssimo se detém, para ganhar tempo ocupando-se conosco, com toda a nossa fragilidade. É certo que a preocupação de Abrão era com o filho.

    Deus confirmou. Pediu a Abrão que saísse e olhasse o céu. O céu que Abrão tinha diante dos olhos era o tamanho do universo. Eram todas as estrelas. Deus lhe pediu que contasse.

    As estrelas, Abrão, são a medida da tua bênção. Sair e olhar as estrelas mede o tamanho da bênção. Significa dizer, Abrão, "conta as bênçãos, dize quantas são: vem dizê-las, todas, de uma vez e verás, surpreso, quanto Deus já fez" (e continua a fazer).

   Abrão dispôs o sacrifício a oferecer, preparou-o e, daí para o anoitecer, não o ofereceu ainda, até que dormiu, até que enxotava aves que desciam sobre as ofertas dispostas e já recortadas para o ritual.

    Fez-se noite. Abrão exauriu-se de espantar as aves que vinham descarnar as rezes, recortadas para a oferenda. Dormiu, e "grande escuridão e grande espanto caiu sobre ele."

    Inflacionado de tantas promessas do Altíssimo, "te farei grande, te farei nação, te bendirei, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem", enfim, parecia que Abrão esquecia sua fragilidade e esquecia o que, na verdade, significa ser grande diante de Deus.

    Nada como um bom susto. Um bom pesadelo. Tochas de fogo desenhavam-se no feitio do corte das partes ordenadas para a oferta: "escuridão, fumaça e fogo". Nossa fragilidade nos dá medo.

    O que depara o futuro? Afinal, bênçãos de Deus se medem por nossa moeda de troca, atendem o que avaliamos como urgente ou, simplesmente, o quê? Talvez a resposta venha na forma de pesadelo.

    Mas depois, Deus pormenoriza e detalha as bênçãos e faz aliança conosco. Feita a aliança, nem precisa pormenorizar as bênçãos. O susto e o terror nos deixam mais lúcidos. Avivam os olhos da fé, que só olham adiante, como se vissem "Aquele que é invisível".

     Meçamos, diante de Deus, o que significa grandeza. Vamos assumir nossa fragilidade. Pormenorizemos, detalhe a detalhe, as bênçãos. E vamos seguir sem sustos, olhando em frente, como que vendo, diante de nós, Aquele que é invisível.

Artigos soltos 15


    A vida que pedi a Deus.

    Engano. Não pediu e não foi essa a vida que Deus quis dar. Perder mãe com câncer, avião cair com time inteiro e divórcio de casal não é, definitivamente, vida que se pediu a Deus.

   Entre um esgarçar e outro de preguiça matinal, me incomodaram esses três aspectos da existência, agrupados, nesse torpor, em minha mente, talvez, quem sabe, por pressão de uma agenda qualquer do calendário.

   Não foi a vida que se pediu a Deus. Essas coisas são consequências da escolha humana. Não entraram na agenda de Deus, uma vez suposto que avaliou tudo quanto fez, e eis que era muito bom.

  Acredita-se Deus assistir a tudo isso incólume. Pretende-se atribuir a ele responsabilidade por tudo. Onde fica, então, a tão reclamada liberdade de escolha? Ora, a decantada liberdade, não sabe, desconhece o homem como exercê-la.

  Livre arbítrio. Outra terminologia tão desgastada pelo uso. Mal sabe o homem exercer. Aliás, no meu improvável discurso, costumo afirmar que o homem não possui e não exerce o livre arbítrio: é prisioneiro de si mesmo.

  Quando aparecem os malfeitos, põe a culpa em Deus. Listei três deles. Queda de avião, é checar que princípio da física foi contrariado. Câncer, meandros da ciência médica, em suas disposições e limitações. Quanto a divórcios, caprichos da escolha humana.

  Não era para cair avião, não era para dar câncer em gente (nem em bicho) e não era para casais se separarem. Diz o mito da Criação, no Gênesis, que Deus viu tudo quanto fizera e eis que era muito bom. Houve tarde, manhã, sucessão de dias e a reviravolta pós queda. Mas recai, exclusivamente, sobre o homem essa responsabilidade.

    Escolhas suas. Poderá ser, alguém diria, das três, não dá para pôr câncer no rol das escolhas humanas. É involuntário aperceber-se com esse mal. Seria, então, mais atribuível a Deus essa responsabilidade. Terá posto o Altíssimo, na condição humana, esse desvio de finalidade?

   Ora, realmente, caso a razão esteja com os ateus, para o câncer há explicação científica, embutido entre todos os fenômenos de entropia existentes. Mas se a razão estiver com os deístas, a probabilidade de Deus ser acusado por indiferença, diante da presença dessa moléstia entre nós é grande.

   Trata-se da profunda insatisfação humana e a vontade de sempre responsabilizar os outros por suas próprias mazelas. O menor, mais brando, autêntico e inocente dos cânceres é esse, o biológico.

   Cânceres sociais são piores, escandalosamente notáveis, acentuadamente danosos e de flagrante responsabilidade do gênero humano. Nem por isso são mais concorridos ou denunciados como causados pelo Altíssimo. Seria ridículo responsabilizá-lo, porque são descaradamente urdidos por deliberações humanas.

   Essa é a vida que pedi a Deus. Não foi. Trata-se da escolha feita. Se há Deus, não ponha nele a culpa que cabe a todos nós. Se não existe Deus, descaradamente é nossa própria responsabilidade. Afinal, não deixa de ser nossa exclusiva responsabilidade.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Artigos soltos 14


  A vitrine da miséria.

  Miséria humana. Mas onde reside, mesmo, a miséria humana? Onde a constatamos, mesmo, pelas estatísticas, no mínimo IDH, fotografado, ou no lado oposto, dos indiferentes, que dizem nada a ver com isso?

   Nos dois extremos, nos dois opostos. Alguém inventou as vitrines. Ora, o que mostrar nas vitrines, límpidos cristais, translúcidos e transparentes, escritas SALE, para inglês ver?

  Vitrines da miséria humana. Que tal invadirmos nossos shoppings, pondo os miseráveis nas vitrines? Passaríamos ao largo, vendo, com distância e nojo, toda essa imagem.

  É melhor não, porque a miséria é feia. É melhor que fique longe dos nossos olhos. Dentro das vitrines, estão nossos objetos de culto. Os shoppings são nosso templo e nossa religião.

  "Onde está o nosso tesouro, aí estará o nosso coração" (atribuída a Jesus). Nosso coração está distante da miséria humana. Ela deve ser culpa de Deus. Afinal, por que Deus não faz alguma coisa pela miséria humana?

  Não dá para repartir. Como ajudar 40% de crianças e adolescentes de países menos desenvolvidos com menos de 1 dólar/dia? A parte rica do mundo não tem com que ajudar. Já ajuda. "Cachorros comem das migalhas que caem da mesa dos filhos (de Deus)".

  Vai ver que os miseráveis não são filhos de Deus. Aliás, o Jesus dos pobres, do Joãozinho 30, foi mesmo censurado. Então, está provado. Jesus não é para os miseráveis.

  Não combina com Jesus. O rosto, o cheiro, a visão. A teologia é outra. Mudou a moda. Cada teologia a sua imagem e semelhança. Passou o tempo: "passou a sega, findou o verão e não estamos salvos".

  Talvez seja mesmo de Deus a culpa. Não é nossa. Vai ver que é dos miseráveis. Isso. Miséria? É castigo. A culpa da miséria, caso não seja de Deus, é dos miseráveis.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

 Tende em vós o mesmo sentimento.

     Bobagem. Má fé ou má informação de alguns. A gente, que lida com o texto bíblico, identificando nele valores, aqui e ali deleitando-se com suas histórias, evidentemente bem entendidas, é claro, se aborrece quando ouve besteiras sobre o texto.

    Alguns versículos da Bíblia podem ser considerados como síntese do livro todo. E também como teste, para identificar os mal ou bem intencionados sobre a mensagem do livro, como um todo.

    Esse de Filipenses é um caso: "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus". Tomado como sua personagem essencial, Cristo, o apóstolo sugere que Ele seja protótipo de um sentimento original que somente nEle existe.

  Pura pretensão. O quê? Que só em Cristo exista esse sentimento? Ou que seja possível transferi-lo aos demais mortais? Ou as duas coisas?

  Ser cristão ou aproveitar o Livro, se é que se torna possível esse proveito, é ter em si esse sentimento. Ter em nós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus é a síntese do livro. Síntese da missão de Cristo, síntese do que é ser cristão.

   Controle de qualidade do livro, sua finalidade e utilidade, e da possibilidade de lhe valer a mensagem que proclama. Prova final é saber dessa possibilidade, de ter em si esse sentimento.

   O que é sentimento? Que sentimento é esse? E da possibilidade de termos em nós? Será necessário deslumbrar-se com a personalidade de Cristo, tentar enxergar o mundo, principalmente os outros, incluída a oportunidade dessa breve vida, pela ótica do Mestre.

   Esse exercício requer mais do que somente reflexão, será necessária comunhão. A Bíblia prescreve essa natureza de comunhão, estabelecendo uma conversão radical a Deus, do mesmo modelo de relação que Cristo teve com Ele, a quem chamava Pai.

   No caso de Cristo, a filiação é autêntica, no nosso caso, baseia-se nessa conversão, que significa morte e ressurreição da própria personalidade, somente assim, nessa ressurreição, o sentimento tem chance de passar a ser natural em nós.

   Esse tipo de morte é mais radical em relação à morte física, determinista e irredutível. Sem alternativa. Assim como não há como escapar da morte física, é melhor experimentar essa outra. A existência somente tem essa opção: é melhor escolher uma como antídoto da outra.

   Igual a semente. O sentimento só brota se houver morte. Caso não ocorra, ele não surge, nem artificialmente.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Mal traçadas linhas 37

Amigo da mulher, de Pagola.
 
    Jesus resgata o valor da mulher na cultura patriarcal de seu tempo. Iguala ambos os sexos na relação com o Pai, resgatando o sentido de ser "homem e mulher" criados à imagem de Deus.

    O sentindo prático dessa revelação da práxis de Jesus, que transparece em suas atitudes, nos textos dos evangelhos, é que o trato com as mulheres, especificamente na relação conjugal, deve se tornar revolucionário.

   E não será no sentido de se avaliar que a elas deve ser dada chance e oportunidade de que se destaquem, do modo como o próprio Jesus as destacou, porém no sentido de sua definitiva emancipação.

    A avaliação delas, sempre sensível,  é que será o indicador de que nós, homens, palavras do próprio Paulo, aos Efésios, estamos cuidando delas como Cristo cuida de sua esposa, a igreja.

  Aliás, esta deve ser a pergunta-padrão do marido a sua esposa: na sua opinião, tenho cuidado de você do mesmo modo que Cristo cuida de sua igreja, dispondo-me a dar corpo e vida por você?

   Nesse mister, o homem se cala, e a mulher, com toda a sua sensibilidade, deve falar e o marido somente ouvir. A proposta de Jesus sempre foi que as mulheres tivessem voz, o que se torna difícil, mesmo para nós, com todos esses séculos de peso sobre nós e sobre elas.

    Aliás, torna-se difícil, mesmo para elas, dizer. O que vão dizer? Se há tanto tempo ficaram (e sofreram) caladas. E nós não achamos que tenham algo a dizer. Em nossa abalizada avaliação, julgamos que estejam bem, muito bem, cada vez melhores, contanto que continuem no seu lugar.

   Não equivalemos as duas sentenças aos Efésios, enfatizando apenas aquela da submissão, esquecendo propositalmente a que diz que devemos amá-las como Cristo ama Sua igreja. Cometemos alguns erros, muito provavelmente propositais, quando lemos também o Gênesis.

   "A imagem de Deus os criou, homem e mulher os criou", neste trecho não lemos homem E MULHER ambos criados à imagem e semelhança de Deus. Seguimos achando que Deus tem a nossa (de homem) cara.

   E no trecho da queda, lemos "a vontade da mulher vai pertencer ao homem" como regra e não no contexto do que na verdade se postula, que é a queda. Essa declaração é uma advertência aos dois, homem e mulher, para que não pratiquem essa subordinação.

  É muito fácil para o homem praticar,  postular e ler o texto bíblico de uma forma a sempre achar que sua interpretação é patrimônio nosso (masculino), e mesmo quando diz algo sobre mulheres, deve ser entendido pela ótica machista reducionista.

   Perguntem à mulher. O que você tem a dizer sobre mim? Talvez, se ela disser, possamos ouvir e compreender que, muito do que elas têm a dizer vai nos incomodar e se inscrever, pelo menos, em três modalidades.

   (1) O que não percebemos, pois são sentimentos delas que passam despercebidos por nós, incluída a avaliação que, o tempo todo, fazem a nosso respeito. Interessante que costumamos idolatrar a memória de nossa mãe, porém violar a vontade de nossa esposa.

  (2) O que, então, elas poderão externar, já que foi dada a chance e, muito provavelmente, os papéis vão se inverter, porque isso está explícito no texto aos Efésios: quem ama, muitas vezes se submete. Nós homens temos muito que ouvir delas e seguir, sensíveis, as orientações que nos transmitirem.

  (3) Há coisas que elas nem mais serão capazes de descobrir e identificar, tão acostumadas já estão a essa opressão. Somente juntos, homem e mulher, como Deus, um dia, romanticamente imaginou, poderão descobrir juntos. Dessa parceria deve surgir a libertação tão esperada. Pelos dois: quando aprisionamos nossas esposas, também perdemos nossa liberdade.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016


     Orações de Paulo.

     Supondo, mesmo, que Deus ouça orações feitas pelos mortais, torna-se uma pausa onde parece que o infinito se detém, diante do efêmero e frágil, a fim de ouvir.

    Como se já não soubesse o que vai ser dito. E Paulo, em três orações que registra, Filipenses 1:3-11, Efésios 1:15-23 e 3:14-21 e Colossenses 1:9-12, formula suas suposições.

    Creio haver três tipos básicos de oração: (1) anterior e primeira entre todas, aquela da conversão; (2) logo após, quando percebemos que devemos orar por tudo; e (3) alcançada a maturidade, aquelas que avaliamos serem essenciais.

   Essas que Paulo delineia nas "Cartas da Prisão" são do tipo essenciais. Entre todas as demais orações, seu conteúdo define o que é ser cristão e, portanto, torna-nos todos participantes do que é solicitado.

    Pedem três aspectos indissociáveis da vida cristã: (1) crescer em amor; (2) o viver de modo digno de evangelho; (3) dar fruto. Os textos acima citados, uma vez comparados, são autoexplicativos e se interpretam mutuamente.

   Amor está sempre associado à percepção, à capacidade de escolher o que, aos olhos de Deus, é excelente. Escapa ao nosso entendimento e, como "sentimento de Cristo", não nos compete enumerar uma lista de preferências, porém, como Jesus, incluir todos nessa relação.

    Quanto a ser sincero para o dia de Cristo (Filipenses), que se compara ao viver de modo digno do evangelho (Colossenses), define a marca de caráter dos que foram regenerados e, então, aparecem no mundo como sinal profético do Reino de Deus: sal da terra e luz do mundo, missão da igreja.

   E quanto a dar fruto, igreja, no mundo, é presença e ação, sem que uma se dissocie da outra. Como diz Tiago, não dá para mostrar uma fé sem obras. Fruto, pelo que Jesus falou, na metáfora da videira, é para o que fomos designados.

   Por essa causa me ponho de joelhos diante do Pai. Essas orações escritas por Paulo definem, com clareza, elementos permanentes e constituintes do que é ser igreja: conhecer o amor de Cristo, que exede todo entendimento, para que sejamos tomados de toda a plenitude de Deus.

   Para que o mortal seja absorvido pela vida (Coríntios 2). O apóstolo não faz por menos.
 
 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

      Caro irmão Pastor Ezio:

      Quero me dirigir ao irmão. Desculpe-me usar este recurso.
Mas será um modo, digamos, silencioso e reservado.

      Tenho orado pelo irmão. Desde nosso encontro, meses atrás, quando estávamos combinando a possibilidade das aulas de hebraico, soube do estado de saúde de sua esposa.

     Pois  o irmão também deve ter conhecimento de que minha mãe, no período de 10/3 a 6/6 foi diagnosticada com essa mesma doença.

     Acompanhei, no hospital, no Rio de Janeiro, dia a dia sua luta. Também aprouve ao Senhor convocá-la para o local onde, agora, também se encontra sua amada esposa.

    Só mesmo reconhecermos que é verdadeiro que estão juntas, na presença do Pai, com Jesus, serve de consolo. Sabemos que elas cumpriram seu chamado, seu ministério e estão alegres, aguardando a ressurreição na vinda de Cristo, quando todos nos reencontraremos.

    Pensei muito no casal de filhos do irmão. Enquanto que vivi meus, até agora, 59 anos ao lado de minha mãe, mesmo residindo no Acre há 21 anos, seus filhos separaram-se ainda jovens de sua querida mamãe.

    Gostaria de deixar para eles uma palavra. A mãe deles e a minha tinham muito em comum. O amor delas e sua fidelidade ao ministério que receberam de Jesus. Caro Pastor, nos longos quase 2,5 meses que minha mãe esteve internada, com dificuldade de falar, imaginei quais teriam sido suas orações.

    Deve ter orado muito por mim e minha família. Pois sua esposa deve também ter orado muito pelo irmão e seus filhos. Em minhas orações de agradecimento a Deus pela vida de minha mãe, eu pedi e peço muito a Deus que me torne parecido com ela.

    Em três coisas: (1) no apego à Bíblia, pois ela era leitora assídua e constante; (2) na presença na igreja, que ela nunca abandonou e da qual nunca esteve longe, trabalhando incansavelmente, servindo aos irmãos, como a Dorcas (o nome dela) da Bíblia; (3) no cumprimento do ministério dado a ela pelo Senhor.

    Dedico, em nome de Jesus, em oração, a vida de vocês ao Senhor. Que junto com o consolo venha um desejo permanente de que vocês sejam fiéis, como diz a Palavra, "firmes, constantes e abundantes na obra do Senhor".

     Carreguem com vocês, permanentemente, a marca e o exemplo de sua esposa e mãe, assim como tenho pensado em, com minha vida, ter a mesma marca que minha amada mãe teve. E esse sentimento, como diz Paulo aos Filipenses, o desejo de, diante do Senhor, ser perfeito (Fp 3:12-16) nos acompanhe.

   Desse modo, honraremos Jesus, em primeiro lugar, mas também seguiremos as pegadas que essas duas grandes mulheres deixaram atrás de si. Grande abraço. Precisando, entre em contato. Conte conosco em oração. Deus fortaleça e abençoe sua casa.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Pastorais em Filipenses


   Como nasce uma igreja

   Como nasce uma igreja? Alguns aspectos são subjetivos, enquanto que outros são objetivos. Quando, em Atos, o autor se refere ao dilema de Paulo e seus companheiros, procurando lugar para onde ir, com gana e sede de pregar o evangelho, ele nos confronta com um aparente absurdo, ao afirmar que o Espírito Santo "impedia de anunciar a palava" ou "não permitia" definir-se um dado rumo, diante da opção de ir para ali ou acolá. Isto nos faz refletir sobre:

  1. uma igreja nasce da compulsão incontida para pregar o evangelho: a beleza e urgência do evangelho, a necessidade, já implícita em sua definição, de ser compartilhado deve ser o substrato que impulsiona o autêntico discípulo de Cristo. Este é o aspecto subjetivo.

  Ora, se, progressivamente, vem se perdendo a riqueza e profundidade, a simplicidade e autenticidade do evangelho, se sua transposição do seu livro-texto, a Bíblia, para a prática de seu compartilhamento, no face a face, com homens e mulheres tem se tornado raro ou distorcida a mensagem, colocada como acessório a outros interesses, nem pregação, resultado ou grupos que surgirem em função do que for compartilhado serão autêntica igreja de Cristo.

   2. uma igreja nasce de opção consciente na escolha de um lugar definido, onde as circunstâncias concorrerão para o sucesso final: comunidades surgem em torno de ações bem definidas de compartilhamento do evangelho, quando laços de comunhão se estabelecem e a relação entre os discípulos cumprem características bem definidas. Este é o aspecto objetivo.

  Em Atos, crentes perseguidos, ainda quando Saulo, segundo o autor, assolava a igreja, tagarelavam sobre o evangelho com quem encontrassem, mesmo em fuga. Paulo, nessa oportunidade, após viver a angústia por definir um lugar onde pregar e estabelecer uma comunidade, enfrenta uma série de dificuldades que, em outras circunstâncias, por exemplo, visto por ótica "racional", poderia parecer inapropriado insistir:

   (a) a cidade escolhida não tinha a sinagoga que, como agregadora de judeus e ponto obrigatório de estudo das Escrituras, facilitava a pregação e o acolhimento; (b) um grupo reunido na beira do rio se constituiu em referencial para o apóstolo; (c) uma jovem, numa estranha atitude de êxtase, diariamente acompanhava Paulo e Silas, despertando a atenção de todos para eles, porém de modo contraditório e negativo; (d) a repreensão de Paulo à mulher revela que era possuída por um espírito enganador; (e) a articulação da mulher com homens que a utilizavam como adivinha provoca a prisão dos dois missionários, por intriga junto às autoridades romanas; (f) Paulo e Silas são açoitados e presos, pondo-se a cantar na escuridão do cárcere, até que todo o quadro começa a reverter-se, por influência direta do poder de Deus.

  Essa foi a gênese de uma igreja, descrita em Atos 16:6-40. Algumas lições, no contexto geral, precisamos contabilizar, observando como Paulo e seus companheiros agiram, atentos ao resultado final, que se tratou da consolidação de uma das comunidades mais maduras e rica em frutos da história do Novo Testamento. Podemos concluir:

  1. Situações de extrema dificuldade, quando parece que todos os fatores são contrários à consolidação de uma comunidade, não se constituem em obstáculo que impeçam seu florescimento;
   2. O ponto de partida inicial para que uma comunidade se estabeleça é a compulsão que determinados obreiros garantem sentir e constatar, que os conduz a confirmar e impulsionar-se, com toda a certeza e garantia de que serão bem sucedidos;
   3. O compartilhamento do evangelho estabelece laços de amor entre aqueles que o compartilham: quem se propõe a fazer, traz consigo traços do amor de Deus, assim como se propõe a que outros experimentem esse mesmo amor e, uma vez estabelecidos esses laços, está lançado o alicerce de uma autêntica comunidade de Jesus, que o Novo Testamento denomina igreja.

   Vamos acompanhar como se deu em Filipos e os resultados práticos dessa história, espelhados nas páginas da Bíblia, no texto da carta aos Filipenses.

 


       

terça-feira, 15 de novembro de 2016


  Diletante

    Lendo, puro diletantismo, Luiz Pondé e Schopenhauer, não necessariamente nesta ordem, acordei hoje meio filosófico. Provavelmente, por causa do tempo encoberto e frio.

    Resolvi, então, refletir sobre possíveis modos de confirmar que ou se Deus existe mesmo. Lembrei das Escrituras, uso da ferramenta e boca torta pelo uso do cachimbo, indo logo em direção ao específico da fé.

    O anônimo autor da carta aos Hebreus afirma "sem fé é impossível agradar a Deus". Quem dEle se aproxima, e aqui já está suposta Sua existência, deve crer que Ele exista, e se torna galardoador, e aqui, de modo simplista, o autor já supõe compensação ao crente, dos que O buscam.

    Fiquei só com a sentença "sem fé é impossível". E pensei se se pode afirmar que somente com ou mais especificamente se as Escrituras confirmam essa existência. Perguntando de outra forma, se fora das Escrituras, ou seja, supondo possível comprová-la, definitivamente, uma farsa, ainda assim se, fora dela, seria possível comprovar Deus ser existente.

   Ainda de outra forma a questão: crer em Deus depende exclusivamente das Escrituras? Refleti, então, na moderna, quer dizer, já faz mais de 100 anos, argumentação que põe em xeque trechos do Livro, ou dos livros da Bíblia.

   Comenta-se e comprova-se, diz-se, que tal(ais) ou qual(ais) autor(es) não escreveram esta ou aquela parte, o texto é ruim aqui e ali, tal ou qual texto não é tão antigo assim, discípulos de fulano e cicrano acrescentaram aqui e acolá, enfim, desgasta-se a tradicional credibilidade dos textos.

   E não mencionei, ainda, os erros históricos, segundo afirmam, e nem os disparatados "milagres", total e puramente anticientíficos, definitivamente postulam os preclaros doutores. A questão se reduz a uma pergunta: afinal, com o que sobra intacto e original, dá pra confirmar a existência de Deus?

   Sim, porque se der para confirmar, com o que sobra de autenticidade, até mesmo a questão se o Livro é ou apenas contém a "palavra de Deus" se torna irrelevante. Não interessa o quanto tem ou se tem total, o que sobra confirma a existência do Altíssimo.

   De um polo a outro, vamos ao Jesus histórico. Afinal, acharam-no? Caso tenha sido achado, foi ele um embuste? Uma fraude? Afinal, foi apenas um rabino meio louco e, definitivamente, foi Paulo, com a ajuda do pessoal que lhe deu continuidade histórica, que inventou o cristianismo?

   Se nem quanto à personalidade de Jesus conseguirmos obter, no texto bíblico, certezas, com relação às afirmações ali escorreitas, resta buscar argumento fora do Livro. Por ser diletante, como já preveni, refleti: ora, se somos fruto do acaso cósmico, provenientes do nada e em direção ao nada, novamente, eterno retorno, como diz Pondé, a razão também é uma variação sobre o nada.

   Ela nos dintingue dos demais animais. Muito embora, seja necessário dizer que, moralmente, somente o homem age de modo irracional. Voltando ao argumento, razão se torna não-saber, caso nossa origem e  destino seja o nada. Visto que conhecimento se torna múltiplas variações sobre tudo, sobre coisa nenhuma, conduzindo a lugar nenhum.

   Está a serviço do capitalismo e serve como instrumento de dominação: quem mais sabe, vende mais caro, ou se torna devedor, como no caso dos cientistas alemães feitos prisioneiros no projeto Manhattan, que dividiu as eras entre antes e depois da possibilidade de total aniquilação.

    Habitamos o centro de uma explosão ainda em curso, a Big Bang, os fótons são nossa origem e sua colisão pretende ser comprovada pelo LHC. Desesperadamente, procura-se vida fora do contexto terráqueo, algures, Universo afora. Caso não haja esse indício, perigosamente a humanidade se aproximaria da confirmação de que a vida no planeta seria mesmo resultado de uma ressaca do Altíssimo.

    Enquanto esperamos e, segundo Schopenhauer, vivemos, nessa existência, o nosso inferno, resta saber se Jesus falou mesmo aos judeus e, caso seja literal de Sua boca, se Ele pode bancar a afirmação "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

     Caso esse homem tenha acertado e possa bancar essa afirmação, salva-se, a um só tempo, a razão e até se supõe uma existência para além desse inferno. Sim, porque ser liberto, porém retornar ao nada não seria honesto. Só vai nos restar, então, responder a pergunta de Pilatos: "Mas, o que é mesmo a verdade?".


domingo, 13 de novembro de 2016


     Três exortações de Paulo
 
     Pelo menos, três exortações Paulo faz aos em Filipenses: 1. Ter o sentimento de Cristo Jesus, 2:5: 2. Acautelar-se da falsa conversão, 3:2; 3. Ter em si a busca pela perfeição, 3:15.
       O sentimento de Cristo tem três características:
       A. Amplitude: Jesus o punha em tudo o que realizava. Andava por toda a parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos do diabo impulsionado, em tudo o que fazia, por esse sentimento. Seria o amor?

      B. Originalidade: somente em Jesus existe esse sentimento. Só em Jesus existe e tem sua origem. Por sua vez, está em Deus que, antes mesmo que houvesse mundo, trazia consigo esse sentimento.

      C. Finalidade: existe para ser compartilhado. Nada que Deus tenha consigo e, por sua vez, concedeu ao Filho existe para ser retido. Tudo o que o Pai tem, é meu, disse Jesus. E disso o Espírito Santo recebe, para que possa compartilhar. E pela graça e de graça.

      Quanto à conversão, ela é perda total, troca de qualquer outra coisa pela sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus. Costumamos, de modo disfarçado, é claro, ter nojo do outro, repugnância ativa. É um disparate. O arrependimento verdadeiro nos coloca diante da rudeza do nosso pecado e nos aponta a cruz de Jesus.

      Imagine a gente se avaliando superior ao outro. Absurdo que, se não fosse trágico, seria ridículo. Deus se esvaziou de Si (o que teria para perder?) a fim de se identificar conosco. Deu-se, na cruz, para identificar-se conosco. A necessidade da morte de Jesus Cristo na cruz nos iguala a todos. Sem considerar o outro um igual, impossível a unidade.

      Precisamos  vital e desesperadamente do sangue de Cristo. Nisso, somos todos iguais, ou seja, pecadores perdidos e dispersos que, em Cristo, serão feitos um: unidade só possível em Jesus.

     Quanto a sermos perfeitos, o Espírito Santo pôs em nós esse anelo, do mortal ser absorvido pela vida, de ter a vida de Cristo oculta em Deus revelada no dia a dia.

      Paulo coloca como limite ser imitadores de Deus. É retórico? É impossível? Mas Ele opera em nós e o que, de nossa parte, é necessário na busca dessa perfeição?

     Vida piedosa. Vida com Deus, vida com a Bíblia, vida em comunidade, vida de oração, situações de amor ao outro, principalmente: amor é o cumprimento do ministério ou o cumprimento do ministério é o exercício do amor.

     Deus, no seu máximo, se fez homem. Perfeição é amar o Pai como Jesus amou e viver como Jesus viveu. O nome disso? Igreja.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016


    Salmos notáveis (1).
    Salmo 1, anônimo, é considerado um salmo de sabedoria, muito provavelmente composto ou colocado porpositadamente como introdução a todo o saltério.
   Isso porque nos lembra a necessidade vital de ler e nos alimentarmos da Palavra, dia e noite. Mostra o livramento que isso significa para o crente, livrando-o de uma progressão faltal: andar, deter-se e sentar em meio a ímpios, pecadores e escarnecedores.
    A imagem central, das mais lindas da Bíblia, é comparar o justo a uma árvore bem plantada. Não se sabe se foi Jeremias o autor, em Jr 17:8, ou se este salmo é a fonte. Mas remete ao que Jesus diz em João 7:38 ou mesmo Ezequiel 47: rio de água viva ou torrente arrebatadora.
   Combina também com o fruto do Espírito em Gålatas 5:22: "árvore plantada junto a ribeiros de água, dando fruto a cada estação, cuja folhagem não murcha". Aqui está a verdadeira prosperidade, segundo ensina a Bíblia.

domingo, 6 de novembro de 2016

Artigos soltos 13


   Teologia de ocasião.

   Domingo, na chácara da igreja, dia de nossa escola dominical com crianças. Também nos reunimos para estudo bíblico com os adultos.

   O caseiro, Manoel, crente arguto e muito curioso da Bíblia, argumentou com um caso que ouviu, certa vez, em sua juventude. Travou conhecimento com uma moça que lhe contou sua história.

    Voltava, com duas colegas, as três em torno de 15 anos, da Lagoa Azul, um recanto em Porto Velho onde, segundo contou, caso caia uma agulha ao fundo, é possível enxergá-la, tão límpida é a água.

    Dois homens raptaram-na, pois as colegas alcançaram fugir e, por cerca de cinco horas abusaram dela. Na conversa posterior com esse nosso interlocutor justificava por que não acreditava em Deus: havia todo o tempo implorado livramento, sem que fosse atendida.

   Eis aí um problema teológico de difícil solução. Principal e objetivamente para a vítima. Pois o que esperava, de imediato e obviamente era que Deus evitasse ter sido ela seviciada por dois homens durante cerca de 5 horas.

   Portanto, não há o que especular, senão fazer algumas generalizações e, a partir delas, definir o futuro da teologia, a existência ou não de Deus e o que esperar de outras situações semelhantes.

   Primeira generalização: era de se esperar que, nesse caso e com relação a nenhum outro caso de estupros, Deus assistisse a tudo incólume. Portanto, não deveriam existir casos de estupros.

   Segunda generalização: ora, não deveria existir nenhuma maldade à qual Deus assistisse indiferente. Deus deveria pôr fim a todas e quaisquer maldades, por antecipação,  visto que não combina, pelo menos, com nossa opinião a respeito dele, que permita ou ainda assista a tudo impassivelmente.

    Terceira generalização: esta agora em tom de advertência. Por definição, devemos ter o cuidado de não atribuir a Deus maldade. Ele é essencialmente bom e possui bondade ativa, ou seja, disposto a reparti-la, porém sem obrigar a ninguém que seja aceita.

    Quarta (e última) generalização (por economia da paciência do leitor): liberdade e livre arbítrio são dotes com os quais Deus constituiu a raça humana, responsável e livre para agir, mesmo que de forma absolutamente reprovável, de extrema covardia e violência, como nesses casos.

    Não eram homens. E nem chamem de animais, porque esses não fazem isso. Porém, toda raça humana não pode ser avaliada por esse ato. Há muitos, por enquanto, penso eu, uma maioria de homens que repugna esses atos contra a mulher.

    Não podemos também avaliar Deus pela inatividade ao clamor dessa jovem. O caseiro esclareceu que um colega que ouvia a narrativa da moça, expondo as razões de seu descrédito da existência de Deus, contra-argumentou que, apesar de tudo e graças a Deus, ela estava viva.

   Bom, é discutível que ela queira mudar sua oração, expressando-se grata, Deus, apesar de estuprada, estou viva. Avaliei fraquíssimo o argumento porque, bem sabe Deus, em outros casos houve estupros seguidos de morte. Não amenizou o problema da moça e nem resolve nossa dúvida a respeito da indiferença divina quanto à maldade humana.

    Arrisco a quinta generalização: Romanos 5:15-21 explica como, por um gesto de um homem, Deus generaliza sua graça para todos os homens. Arrisco dizer que a resposta de Deus para todos os estupros é oferecer sua graça, tanto às vítimas, quanto aos agressores.

     Escandaloso admitir isso? Pior será pôr em Deus a culpa por todos os estupros, pela indiferença e, genericamente, todos os demais atos de maldade do ser humano. É melhor supor que Ele ainda concede ao homem liberdade de escolha, esperando que sempre escolha o bem e escolha ser bom.

     Difícil explicar isso à moça. Carregar a marca de um estupro deve, certamente, ser um dos maiores sofrimentos e cicatrizes da alma. O tempo se  torna remédio, mas a memória cobra seu preço. Qual seria, então, o remédio para a maldade humana?

   Tomara que Deus exista. Senão, não há remédio para a maldade humana. Será que a cura das cicatrizes de toda a maldade reside no perdão?

sexta-feira, 4 de novembro de 2016


      Altares de Abraão.
      Por que a Bíblia relata, destacando, altares que Abraão ia edificando, à medida que avançava em sua jornada na terra da promessa?
     Era média que fazia, com Deus, "jogando pra galera", hipocritamente, em função do que o Altíssimo lhe havia prometido?
     Era coisa demais: te engrandecerei o nome; abençoarei quem te abençoar e amaldiçoarei quem te amaldiçoar; em ti serão benditas todas as familias da terra, enfim.
     Seria sincero a cada altar erguido ou tratava-se de pura formalidade? Para que se erguem altares? Que atitudes, hoje, equivalem a caminhar erguendo altares?
      Altar erguido é estar certo de que a vida é culto vivo e permamente ao Senhor. Não se trata de lugar ou lugares de culto, mas ser culto ao Senhor.
      Se assim não for, absoluta incoerência. Deus precisa nos aceitar primeiro, antes de aceitar qualquer manifestação de culto, como foi no caso de Abel. Deus rejeitou Caim e, consequentemente, sua oferta.
      Não é que rejeitou, mas a Bíblia registra que houve proposta direta de Deus a ele que se convertesse ao Senhor, prontamente rejeitada. E quanto a Abraão, considerado o pai da fé, mesmo erguendo altares, mostra-se vacilante em algumas circunstâncias.
      Vacilação, medo, mentira, carnalidade, covardia e até mesmo dúvida, vejam só, enfim, pecado fazia parte integrante da vida do Patriarca.
     Por isso altares eram erguidos com pedras toscas, sobre as quais sangue escorria e fogo consumia o redenho da oferta. Pedras toscas simbolizavam a vida do ofertante, o sangue da vítima sem mácula, a necessidade de remissão dos pecados e a queima total, o holocausto de fogo era porque a vida toda se consome na oferta assim como na remissão.
      Quem ergue sua vida em altar permanente ao Senhor carrega consigo, pelo menos, essa tríplice consciência: segue sendo tosco e falho, como foi Abraão, traz consigo também a marca do sangue da vítima derramado pelo pecado, garantindo a remissão da culpa e, assim como foi dada vida por vida, a vida de Cristo pela vida do pecador, a queima da vida no altar é total.
       Trata-se de perda total, como bem entendeu Paulo em sua carta aos Filipenses: o que para mim, algum dia, foi ganho, isso considero como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, em nome de quem perdi todas as coisas e as considero como refugo, lixo, para ganhar Cristo, sem ter em mim mesmo justiça própria.
       Somos pedras toscas, cujo amontoado se ergue em altar ambulante ao Senhor, na medida em que, lavadas pelo sangue de Jesus derramado na cruz se tornam edifício dedicado ao Senhor, para presença e habitação dEle, permanentes.
      Somos altar ambulante, somos corpo de culto permanente, somos marca e presença de Deus por onde vamos, sempre, em nome de Deus falando reconciliem-se com Deus. Tempo da oportunidade, o agora da salvação, tempo sobremodo oportuno, tempo da salvação.
       Deus quer caminhar nas tuas pegadas.

Mal traçadas linhas 36


     Cordeiro de Deus

      O estrangeiro, Abrão, seu nome, chegou por aquelas terras, despertando curiosidade e certo receio. Era muita gente com ele: rebanhos, provisões, esposas na caravana, enfim, pareceu mesmo que escolhia canto onde ficar.

     Era estranho. Na religião, por exemplo. Escolhia de seu rebanho o melhor ovino, de marca, e eventualmente o sacrificava num altar improvisado, um amontoado de pedras mal escolhidas, improvisadamente encaixadas umas às outras.

     Dispunha a rês. Retirava dela o que, queimado pelo fogo, poderia render mau cheiro. O aroma que subisse tinha de ser suave e agradável. Viam de longe a fumaça da queima elevar-se ao céu.

     Quem depois assuntasse as cercanias do altar, encontraria abandonado. Não que fosse santo o lugar, porque o homem era peregrino e não estabelecia santuários. Santo deveria ser o ofertante e a oferta, símbolo desse fundamento.

    Estranho aquele estrangeiro. Não carregava consigo nenhuma imagem de seu deus. Quando interpelado, dizia que seu deus era Deus. Aquele que criou céus, terra, águas de cima, de debaixo da terra e o próprio homem e mulher a sua imagem, à imagem de Deus os criou, homem e mulher os criou.

    Certa vez retirou-se, sozinho, com o filho considerado único que tanto esperara ver nascido. Era cedo, pela manhã. Somente os três, ele, seu filho e um servo souberam o rumo. A certa altura, ficou o servo e seguiram pai e filho. Daquela vez, ele ia sacrificar, sim, novamente, mas não escolhera o novilho.

    O menino perguntou, pai, e a oferta? Deus proverá para si, repondeu o pai. Cordeiro de Deus. Jesus disse que João era o maior entre os profetas, porque apontou Jesus e afirmou é o Cordeiro de Deus.

    Nenhum sangue de nenhum animal, diante de Deus, lava, limpa, purifica do pecado. A não ser o sangue do Cordeiro de Deus. Estranho aquele homem. Era um peregrino que, por meio de seu despojado ritual, profetizava a vinda do Messias, do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Pastorais 4


       Denominação

       Não posso deixar de abordar o assunto que, aqui, tem função de definição pessoal do que acho que seja, experiência própria vivida já há mais de 50 anos e, como não poderia deixar de ser, provocação a que outros revisem sua própria experiência e visão específicas.

       Não serei acadêmico, visto não ser o meu forte. Tentativa em buscar esse viés, sempre expõe a respostas dentro do mesmo contexto, no qual não sou perito. Aprovo, reconheço a relevância e sou admirador do método. Só isso. Por isso, sigo, empiricamente falando.

       Minha experiência denominacional inicia-se com os pais, mais acentuadamente a mãe. Os dois introduziram-me na leitura e contação de histórias bíblicas e na rotina de ida à igreja, dominical, rotineira e dedicadamente.

      Estabeleceu-se o conflito, herdado dos tempos de namoro, porque o pai era pastor batista e a mãe congregacional. Já prevenira ao seminarista que nunca seria batista, mesmo que ele se tornasse pastor. Cumpriu o que prometeu, até o dia de sua (dos dois) morte.

       O pai ainda tentou ser congregacional. Mas, acidente histórico típico do congregacionalismo brasileiro, que se desdobra ao longo da história, talvez a partir de 1913, com a institucionalização, intrigas pastorais forçaram a saída do Cid da "seara congregacional", palavras dele. Mas esse, "intrigas pastorais", já é assunto acadêmico, que deixo aos entendidos.

        Ponto um, de três: denominação, para mim, começou em casa, passou pela Escola Dominical, em Nilópolis, até 1963, e Cascadura, até 1983, daí para a frente fui pastor ali por 11 anos, antes de vir para o Acre, onde estou até hoje.

       Ponto dois, idade da razão, pode ser contada a partir de uma visão, ainda romântica, de seminário. Cheguei lá aos 21 anos, em 1978, terminei o curso em 1981 e me deixei, com muita relutância, ordenar pastor em 1983. Como agora sou um deles, recorro, academicamente, à declaração de Zagalo, em cadeia nacional: "vão ter que me engolir", mesmo porque, agora, serei julgado, no juízo final, como um deles.

       Então, empiricamente, denominação, para mim, na idade da razão, significa uma postura patoral assumida com relutância, escrita por 5 anos de pastorado em Curicica, 1983-1988, 11 anos em Cascadura, 1983-1994, três anos em Copacabana, 1992-1994 e no Acre, de 1995-2016.

       Em terceiro, o tempo que resta. É claro que a soma dos anos permite formar uma ideia do que significa denominação. No somatório, defino que a ideia é excelente, boa e bíblica: (1) relacionamento entre igrejas locais, esforço missionário e assistencial, Paulo já recomendava; (2) compatilhamento de doutrina, troca de experiências com o texto das Escrituras, as citações dos Bereanos, dos tessalonicenses e de Ladioceia e Colossos bem fundamentam; (3) preparo de obreiros, as cartas a Timóteo e as recomendações a Tito deixam claro a urgência e necessidade de cuidar dessa função: aliás, a definição do perfil de Timóteo em Filipenses 2 confirma a necessidade de bons obreiros.

       A institucionalização é uma exigência da modernidade. Nesse recurso do tempo e da época, correm-se os riscos do século: herança autoritária da história brasileira, que implica anulação da opinião do outro, quando não condiz com o requerido, e a consequente disputa por poder, quando, então, os fins justificam os meios: anulam-se os princípios bíblicos do congregacionalismo.

      Por que acredito em denominação? Porque é uma boa (e bíblica) ideia. Por que ocorrem desgastes que, às vezes, percorrem toda uma geração e não se solucionam, apenas são esquecidos na morte dos atores? Porque nós somos esses atores e isso se chama Brasil. Mas o que, no nosso caso, a vivência com a Bíblia pode propor como solução?

Patorais 3

   
       Preâmbulos

        Se a proposta é debruçar-se sobre tema ou temas seletivos, escolhidos para debate inteligente, produtivo e profícuo, alguns pré-requisitos são indispensáveis. Destaco três, de novo, por simpatia ao algarismo e economia de energia. Bandeira amarela, segundo a Eletrobrás.

       A idade conta muito. Alcançar coração sábio, como diz o Livro, aprender a contar os dias é essencial. E não adianta lutar contra o fato de que somos resultado acabado, até aqui, pelo menos, desses dias. Sujeitos de 60, como eu, garotos de 35, enfim, têm visão diferenciada. O consenso final requer sabedoria.

       Então, se vamos nos debruçar sobre uma dada temática, "olho na missa, outro no padre": não podemos deixar de pensar no método a utilizar, um que ponha freio e limitações à mistura do que somos com a abordagem a ser feita. Isso é um pouquinho do que significa método científico.

      Segundo, é compreender que, no nosso caso, um fator externo sempre se configura, que é a ação do Espírito e a prevalência das Escrituras. Quase que retornamos à estaca zero, como dizia meu pai, porque cada um tem uma ideia diferente, tanto das Escrituras, quanto da ação de Deus, por meio do Espírito.

      Este é um dado relevante na concepção bíblica de igreja. Agimos, falamos e vivemos, como se Deus falasse, vivesse e agissse em nós, no linguajar paulino, e tudo isso em função do outro. Podemos encarar  isso como uma definição de Reino, da ação de Deus na história e do que é ser igreja.

     Então, um certo esvaziamento será necessário. Como Deus, que soube do que abrir mão, para ser o homem Jesus. Acabou dando certo: ele se fez Cristo, encarnação humana do evangelho, do Reino e do que é ser igreja. Isso é o que estamos buscando, com todo o coeficiente de objetividade e subjetividade contido nesse dado.

     Por último, como diz a Bíblia, andar de acordo com o que já alcançamos. Este terceiro ponto acaba remetendo, de novo, ao primeiro, porque nos manda rever nossa tradição. Temos raízes e âncora históricas e tentativas que se desdobram e nos encontram no contexto de nossos ministérios atuais. De certa foma, então, buscamos continuidade, porém desejando renovar modelos desgastados com e pelo tempo.

      Porém, devemos ser cuidadosos em reconhecer o que, de antigo ou tradicional, refugar. Há elementos genuínos e autênticos na tradição do que se foi que precisam ser renovados em nossa experiência. Jesus foi exemplo de busca do novo e reedição do antigo, porque era modelo definitivo, que nunca deveria ter sido esquecido ou alterado.

       Alguns desses modelos tradicionais fazem parte da definição de missão, do que é Reino e do que significa ser igreja. Algumas (ou muitas) boas ideias dos antigos, talvez nem postas em prática, são exatamente elas que devemos retomar. Na efetiva metodologia do Reino, essa mistura, do antigo com o que se renova, sempre ocorre.

        Façamos escolha certa, levando em conta que, o que somos, no contexto da história que escrevemos e dentro do tempo que nos resta, com essa qualidade de gente Deus quer agir, em nós e por meio de nós. Faz parte da definição.

   

 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Leituras em Filipenses

     Filipos era uma cidade grega, geograficamente portão de entrada na Europa, para quem vinha da Ásia. O nome era em homenagem a Felipe II, da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, que promoveu a primeira globalização da história humana, espalhando língua e cultura gregas quando conquistou o mundo em cerca de 300 a. C.
     No tempo de Paulo era uma colônia romana, ou seja, uma Roma em miniatura, onde inclusive era proibido aos judeus edificar sua sinagoga. Por isso, o apóstolo desceu às margens do rio Gangites, onde um grupo da união feminina marcava reuniões, entre elas Lídia, vendedora de púrpura, talvez a peesidente da UAF.
     Nessa cidade Paulo permaneceu, talvez, quase um mês, frequentou esse lugar de reunião periodicamente,  repreendeu um espírito adivinhador que atormentava uma jovem, foi intrigado e preso por causa disso, açoitado, junto com Silas, na mesma prisão onde resolveram, os dois, cantar em louvor ao Senhor.
    Um terremoto localizado soltou as trancas, liberou todos os presos, sem rebelião, mas o carcereiro, entre enfrentar a punição romana e suicidar-se, preferiu esta opção. Mas Paulo, liderando os presos, propôs que poupasse sua vida e ouvisse o evangelho. Foi quando disse aquele versículo que a gente lia na parede de frente da "igrejinha antiga": "Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa".
    Ele creu. Recebeu Paulo em sua casa, contígua ao cárcere, pensou-lhe os ferimentos, alimentaram-se, toda a família foi batizada e, no dia seguinte, as autoridades pretorianas ainda levaram um susto ao saber que haviam açoitado, sem julgamento, um cidadão romano. Caramba, uma igreja que começa, emocionalmente, com todos esses acontecimentos, só mesmo poderia demonstrar em seu perfil os traços indicados na carta aos Filipenses. Vamos a sua leitura.

   Leituras em Filipenses.

   Já falamos como foi penoso o começo da igreja em Filipos e de Lidia, sua primeira conversão. Hoje mencionamos a introdução da carta, quando Paulo descreve o perfil daqueles crentes. Transparece a espiritualidade deles.
    São cooperadores unidos a Paulo, informados e agentes de seu ministério. Daí o apóstolo reconhecer essa atitude como obra de Deus na vida deles, que nunca cessaria de ser aperfeiçoada.
   Isso é amor. Diante disso, Paulo os exorta e estimula a aumentar e crescer em amor contínua e intensamente, por ser a única maneira de aprender a escolher o que é excelente, diante de Deus, assim como se manter sincero e inculpável, diante e para o dia de Cristo.
   Paulo indica esse perfil como aquele que apresenta os frutos de justiça na vida dos crentes, num grau pleno, os quais têm origem na ação do próprio Jesus em nós e, por meio dos quais, nossa vida se torna razão de glórias a Deus.
   Cooperação no Reino de Deus, crescimento em amor, percepção e lucidez na escolha do que, diante de Deus, é excelente e colheita de frutos de justiça cultivados por Jesus em nós, compõem o perfil da igreja, povo de Deus, cuja avaliação é razão de glórias dadas a Deus.
   
Leituras em Filipenses
 
      No início do cap. 2, Paulo vai mencionar 3 vezes a palavra amor. Aliás, se João definiu "Deus é amor", não há como obter, da parte de Deus, nada se não por amor. Neste trecho, o apóstolo, como que por ironia, pergunta aos crentes: "Há exortação do Espírito que te sirva de estímulo?".
     E Paulo mesmo completa, ora, se há e passa a dizer o que se espera: (1) tenham, entre si, um só sentimento; (2) nada façam por partidarismo; (3) cada um considere o outro superior a si mesmo. Essa é a definição do que seja comunhão.
    Até aqui, nesta carta, Paulo mencionou "cresçam em amor, "há consolação de amor no Espírito" e "tenham em vocês amor". E define este como o "sentimento de Cristo". Decisivamente comunhão se define em termos de amor. E é algo que se aprende praticando.
    Basta ler a oração de Jesus em João 17, que vamos entender assim. E aos Efésios, de novo Paulo afirma que comunhão e algo que, "suportando-nos, uns aos outros, em amor", devemos "esforçarmo-nos diligentemente por preservar, no Espírito".
    Definitivamente, ser igreja é uma construção permanente de quem luta, primeiro, por presevar sua autêntica comunhão com Deus, demonstrando isso no desdobramento de sua comunhão com o outro. Se isso não for realidade, assumamos a nossa hopocrisia e facamos a oração, "Senhor, faz cair minha máscara".
 
      Leituras em Filipenses
   
      "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus". Talvez possamos dizer ser este o tema da carta. Paulo menciona 4 vezes esse "sentimento": (1) afirmando ser ele que produz unidade em Cristo; (2) afirmando, no versículo acima, ter origem em Cristo; (3) apontando Timóteo como quem tinha esse sentimento; (4) e dizendo que ser perfeito em Cristo é ter esse sentimento.
     Como defini-lo? Uma coisa é certa: ele tem origem em Cristo. E embora seja indicado aqui por um imperativo, tem de ser espontâneo em nós, "fruto de justiça", em Cristo, como Paulo mesmo já disse. Isaías, o profeta, disse que certo querubim quis usurpar o lugar de Deus. Aqui, o apóstolo diz que Jesus, sendo Deus, esvaziou-se e "não usurpou para si o ser igual a Deus".
  Para nos amar, Deus se fez homem em Jesus. Melhor, amando-nos, se fez homem em Jesus. Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus. Mas como? Paulo indica, sobre Timóteo, que ele: (1) cuidava, sinceramente, dos interesses da igreja;  (2) buscava primeiro os interesses de Cristo, e não os seus próprios; (3) tinha o caráter provado; (4) foi servo do evangelho, bem próximo, junto, unido a Paulo. Talvez seja assim.
      
          Leituras em Filipenses

          Assim como nas igrejas da Galácia, um grupo de judaizantes andou por Filipos tentando convencer os irmãos a admitir ser circuncidados e a guardar preceitos do judaísmo. Paulo os compara a um bando de cães, atrás da carniça de suas vítimas. E os responde, definindo o que é conversão genuína em Cristo.
    Começa com perda total: "para mim, o viver é Cristo e o morrer é ganho". O apóstolo demonstra como abriu mão das honrarias do farisaísmo, no caso, o que o enchia de orgulho e era seu "pedigree". Concorda com Habacuque, que indica fé em oposição à soberba: "Eis o soberbo, sua alma não é reta nele, mas o justo viverá pela sua fé."
    Paulo afirma que, por causa da "sublimidade do conhecimento de Cristo", ser crente é, verdadeiramente, perder todas as coisas e as considerar refugo. Dessa forma, o ganho é Cristo e a justiça que procede, exclusivamente, desse ato de fé. Como aos Gálatas Paulo escreveu, "não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim". Essa é a qualidade de vida de quem vive pela fé.
    A resposta do apóstolo ao grupo de "cães itinerantes" é que circuncisão sempre foi sinal profético de conversão, a qual se cumpre e realiza pela fé em Cristo, da qual cada verdadeiro crente é sinal profético vivo. Andemos por fé: vivemos pelo Espírito, andemos no Espírito.

     Leituras em Filipenses

     Já na conclusão da carta, Paulo propõe aos irmãos mirar num alvo e afirma ser esse o propósito de Cristo na vida deles: "caminhar para conquistar aquilo para o que fomos conquistados por Cristo Jesus". E o apóstolo diz o que é, trata-se da perfeição.
   Ser per+feito signifca ser por todo o perímetro, por toda a volta, completo, pleno, cheio. E Paulo diz que já ter essa vontade em si, é o primeiro indicador de perfeição. Ele mesmo se coloca como exemplo, mas também confirma não ter ainda alcançado.
   Na verdade, trata-se de uma característica permanente na vida cristã, que a marca como autêntica e frutuosa. É Cristo mesmo quem concede os elementos necessários a que se possa atingir esse alvo.
    Lembrando a introdução dessa mesma carta, Paulo disse que crescer em amor nos permite percepção e escolher o que, diante de Deus, é excelente. E em Coríntios 2, o apóstolo também diz que, pelo Espírito, ansiamos ser revestidos pelo que é celestial.
    Termina essa seção da carta dizendo "todos que somos perfeitos, tenhamos esse sentimento". Buscar perfeição é um desejo de Jesus posto em nosso coração, pelo Espírito. Conquistemos aquilo para o que Jesus nos conquistou. E Paulo deixa em aberto: dúvidas sobre isto? Deus vos esclarecerá, diz. Que tal começarmos, então, esse diálogo com o Altíssimo?


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Pastorais 2


      Idas à Pedra.

     A provocação e tema para as pastorais é nossa ida à Pedra, novembro próximo que, de si, já traz elementos metafóricos (e, como quase registrou o dicionário automático do meu smart, metafísicos).

    Vou registrar, porque gosto do algarismo, três razões por que ir à Pedra se constitui num elemento metafórico-existencial-emblemático, pelo menos para alguns do grupo.

    No primeiro sentido, ir a Pedra, para mim, desde muito cedo, constituiu-se num programa antes obrigatório, ao qual era sistematicamente conduzido por minha mãe, nos inesquecíveis 21 de abril da vida. E ironia entre ironias, num deles, em 1994 faltei, por estar na maternidade acompanhando o nascimento de meu filho.

       E, à medida em que alcancei a idade da razão, mais agradável ainda se tornava a tarefa, ensejada, muitas vezes, dentro de antigos lotações alugados pelas congregacionais de Nilópolis ou Cascadura, daqueles com motor externo e tranco à manivela.

     Cheguei a ver circular o bonde Pedra-Monteiro, se não me engano. Minha aproximação do que significa "denominação" passa por essas experiências. Pedra de Guaratuba, nos meus tempos, era programa para faixa etária de 0 a 100 anos.

     A intenção também era boa, visto que a festa do dia visava fundos para uma obra social única e todas e diversas igrejas participavam, unidas, numa quermesse monumental, que chegou a revolucionar o bairro e ser lucro contado entre os moradores da região.

     A empolgação do povo, as confraternizações do dia, o esforço conjunto, a motivação de nossos pais, as competições futebolisticas, cantores evangélicos, Rádio Copacabana, algum púlpito, políticos, enfim, virava Brasil, mas prevalecia o lado bom denominacional.

     Uma outra aproximação, a segunda, nem tão inocente do que representa "denominação", tive oportunidade de presenciar, na medida em que me aprofundei nos meandros e outras entranhas dela, que não as de misericórdia.

    Permiti-me ser feito pastor e, com isso, por breve espaço de tempo, experimentei o epíteto (pelo visto, cobiçado por tantos) de ter me tornado também "liderança denominacional".

    Exceto por minha ingenuidade atávica, testemunhei, eventualmente, é claro, situações em que o conflito entre se posicionar "politicamente" (quase o dicionário do smart escreve "polidamente") e se portar biblicamente foi inevitável, porém eu mesmo questiono: foi mal ou bem contornado?

    Ir a Pedra, já a terceira aproximação, também pode significar a busca por fundamentos. Denominação é resultado, já há 500 anos, no ano que vem, da Reforma. É necessário, inevitável e imprescindível buscar a Pedra e manter, entre si, uma "santa competição".

       Como disse Paulo, no bom sentido, trata-se de uma "santa emulação". Se é saudável na igreja local, assim caminham, ou deveriam as denominações, ao longo da história. Sou, pessoalmente, resultado de uma delas. Por ironia, congregacional de pai e mãe porém, o que é historicamente típico delas, não caminhar unidas, ambos em denominações diferentes.

    A teimosia de minha mãe, não admitindo ser batista, e sua influência maior do que a do pai, colocaram-me na denominação que se resolveu chamar "Congregacional", com todos os seus (e os meus e de todos nós) vícios e virtudes.

     Então, ainda acho que elas profundamente fazem parte de minha formação, e da de muitos outros. Se entraram em crise nos dias atuais, a culpa não é delas, ideia subjetiva que são, mas dos atores que a compõem, entre quantos e tantos, eu mesmo.

    Continuo achando-as, sim, historicamente, uma boa ideia: não dava pra continuar com todos os chamados "cristãos" num grupo só. Democraticamente, querendo ou não, desdobraram-se, adquirindo nome e personalidade.

    Sempre vou querer debruçar-me sobre mim mesmo e sobre a minha denominação aliás, porque sou um pouco do que ela me fez. Confesso que minha mãe tinha dela uma visão mais romântica e como sinto já muita falta de nossas mais recentes discussões sobre ela.

     Fico imaginando se há outro contexto, fora dessas associações, para se experimentar a fé. Por aqui, ao lado da congregação Congregacional que abrigamos em casa, ficam perto três versões modernas de "ministérios": Primeira Essência, Pentecostal Para as Nações e Adoradores da Verdade.

    Classifico como legítima a sua denominação. Mas não enxergo, nessa alternativa, escapatória daqueles mesmos vícios e virtudes linhas atrás mencionados. E recomendo que se debrucem sobre mais essa tentativa de denominação, buscando fundamentos.

domingo, 16 de outubro de 2016

Pastorais


   Algumas pastorais.
    
    Na vida das comunidades, costuma-se chamar Boletim Dominical aquela folhinha dupla de recados e agenda da igreja, na forma de caderno deitado.

     E o "artigo de fundo", como dizia meu pai, é a Pastoral. Esse gênero textual, como diriam os teóricos, vale-se do Boletim como suporte, para editar a palavra do pastor.

     Ela transparece alguns atributos e características do cargo como, por exemplo, a autoridade da investidura e, devido à limitação do espaço e à diversidade do público, uma certa flexibilidade do texto.

     Embora ele não violente as normas acadêmicas, visto que o pastor, sempre cioso (de novo meu pai) de sua reputação, não vai escrever sandices (meu pai), porém terá a profundidade e pertinência costumeiras.

     Por isso pretendo editar, aqui, tantas Pastorais quanto me permitir minha atividade bandida e clandestina de bloguear. E, uma vez investido, falo como pastor no blog do professor.

     O texto "União", antetior a este, é a primeira delas. Continue após, caso apeteça, a leitura das demais, e grato por sua paciência.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Pastorais 1


   Um velho ateu

    "Um velho ateu,
    Um bêbado cantor,
    Poeta, na madrugada,
    Cantava essa canção,
    Seresta: 'Se eu fosse Deus,
    A vida bem que melhorava:
    Se eu fosse Deus,
    Daria aos que não têm nada'".
                                                Beth Carvalho

    Provavelmente, não. Muito simples o argumento. Levando em conta que Deus não exista, era para que, há muito, esse problema estivesse resolvido.

    Isso mesmo. O argumento mais rasteiro dos ateus é dizer que, os que têm fé, usam Deus como muleta para suas frustrações.

     Ora, era para, há muito, estarem resolvidas todas as frustações da humanidade. Isso mesmo, Deus não está nem aí para as frustações humanas, visto que somos os únicos responsáveis por elas.

     Uma delas essa aí, da má, não, da péssima distribuição de renda. Ora, era para que a bondade da humanidade, por si mesma, houvesse resolvido esse problema. E, para tanto, Deus é absolutamente desnecessário.
 
     Talvez, para problemas mais complicados, daquela natureza, por exemplo, miraculosa, para esses, ligue o 0800 do céu, o SAC Celestial, e faça sua reclamação.

     Sim, porque problemas à altura do ser humano, ora bolas, Deus não tem nada a ver com isso. Problema deles. Só que o problema mesmo tem outra natureza.
 
     O homem está, por si mesmo, travado para resolvê-lo. Para pequenas coisas ao seu alcance como, por exemplo, ser bom. Simples assim. O homem não consegue ser bom.
   
      Deveria provar, sim, que Deus não existe, mas sem blá-blá-blá. Bastava demonstrar que, para ser bom, apenas isso, nem precisa que Deus exista.
 
       O problema é que, de si, nem consegue ser bom, nem consegue provar ou prescindir da existência de Deus. Criando esse "Ser" todo bondade, engendrando essa mitologia do céu, nem assim, com toda a fantasia ou sem ela, conseguiu ser bom.

        Pobre homem. Não consegue ser, por si, bom, assim como não consegue reproduzir, com seu sentimento religioso, expressividade de uma bondade simulada.

     Dupla frustração.

terça-feira, 11 de outubro de 2016


         
           União

         Na disciplina de Eclesiologia Denominacional, no Seminário onde estudei, no Rio, turma 1978-1981, as apostilas dessa matéria definem o jeito congregacional de ser igreja. Geralmente iniciavam com uma explicação detalhada das razões do nome União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

         Cada termo era definido e, em breves palavras, explicada a razão de ser do nome denominacional. Singelo. Na verdade, por mais que se avalie como óbvio, enunciar o nome de “dar nome”, “de + nominar”, ser uma “(de)nominação”, como ponto de partida da eclesiologia e de uma reflexão dos fundamentos bíblico-teológicos de sua definição, era uma etapa necessária aos calouros.

          Mais óbvio ainda é dizer que, se essa é a nomenclatura, vivenciá-la é parte constituinte da identidade, mais do que somente um nome. Seria hipócrita de nossa parte assumir um nome, em função de se propor eclesiologia, ou seja, definição de um modelo bíblico de igreja, sem que se cumpra o desafio bíblico de vivenciá-lo no mundo, na prática.

         Pretendo deter-me somente no primeiro vocábulo: união. Porque, quanto aos outros, ser "igreja", cada qual, cada unidade, de si, assume ser. "Evangélicas", ora, pelo menos em oposição histórica a ser “católica”, o primeiro nome delas foi “igreja evangélica”. Serem "congregacionais", também, de per si, o são, pois praticam um regime de escolhas eventuais como resultado de assembleias de membros onde a chance de propor é igual para todos.

         "Do Brasil", espaço geográfico onde se situam. Aliás, até, muito das peculiaridades do modo de ser “denominação” está relacionado ao “jeito Brasil” de ser. Mas esta não é a discussão aqui. E, sim, dizer que, de todos os vocábulos que definem o nome da Denominação, o primeiro deles, união, é aquele que, para sua devida autenticidade, depende de um milagre. Por si, haver união, já é um milagre.

        Porém, nunca será “milagre” do modo mágico que, costumeiramente, costuma-se entender. Porém, um esforço consciente e somente possível se um conjunto de fatores forem postos em ação. União será, primeiro, um desejo da maioria, sim, porque maioria é o que define decisões no congregacionalismo. Pode até ser que se, entre a liderança, houver essa disposição, ocorra uma corrente para essa essencial peculiaridade.

            Para "união", além de disposição, que outros fatores devem ocorrer? Sendo um milagre necessário e esperado, a natureza dessa união e a fonte inspiradora deverá ser, outra obviedade, a Bíblia. Tal característica pode ser procurada ao longo de todo o livro. Mas escolhemos Filipenses, para citar algumas etapas propostas pelo apóstolo àquela igreja:

(1) que o amor aumente mais e mais, 1:9, sem ele, não haverá milagre; (2) exortação em Cristo, consolação de amor, comunhão no Espírito e afetos e misericórdias há, 2:1, entranhados, nos atores dessa Denominação?; (3) pensar a mesma coisa, ter o mesmo amor, ser unido de alma, ter o mesmo sentimento, 2:2, que é o sentimento de Cristo, 2:5; (4) ausência de partidarismo ou vanglória, humildade em considerar o outro superior a si mesmo, não ter em vista o que é próprio do ego, mas enfatizar o que compete ao outro.

Precisamos desse milagre. Perseguir e criar condições para que ocorra. Não se trata, aqui, apenas de exercício de decisões ao nível local ou denominacional, porém um desejo individual e de todos, uma decisão pessoal que tem respaldo bíblico e que produz alegria geral, “completai a minha alegria”, diz Paulo, 2:2a, certamente alegria compartilhada pela própria Trindade. Essa ocorrência tem razão de ser em função de nossa identidade, assim como em função do que, biblicamente, significa ser igreja. 

        Caso não seja essa a nossa disposição, individual e coletivamente, não haverá milagre, não haverá união e a denominação, em si mesma, terá perdido sua identidade bíblica. Não conseguirá ser nem evangélica, porém apenas nominalmente, visto que "evangélico" está intrincado, entranhado em ser "unido". Pode até continuar sendo "congregacional", no nome e, individualmente, exercício da igreja local. Do Brasil, somos atores dentro dessa grande arena. 

         Dediquemo-nos à busca por esse milagre, pois só nos resta ser união (ou União). Caso não se verifique, entre nós, esse milagre, teremos que redefinir nossa visão bíblica, justificando que cada igreja local o seja por si, autoconvencida de que se basta a si mesma, vaidade das vaidades.
     




segunda-feira, 10 de outubro de 2016


      Mulheres na Bíblia - Eva

     Passa, propositalmente, despercebido que, no Gênesis, está escrito que Deus criou o homem (humanidade) a Sua imagem e semelhança, "homem e mulher os criou".
     Pode parecer que não, porém costuma-se esquecer isso. Muitos interpretam que só o homem é dono dessa caracteristicas, aliás, perdida por ambos na queda e somente reassumida na regeneração em Cristo.
     Daí começa a diminuição da mulher. Outro ponto é culpá-la, sozinha, pelos pecados do mundo. Porém, numa leitura atenta da Bíblia, desde Eva elas se distiguem nas virtudes que lhes são corriqueiras.
    A primeira mãe dos viventes passou por um trauma específico, talvez com paralelo no atual surto de violência social, que foi o assassinato do segundo filho do casal, executado pelo mais velho.
    Enfrentou com oração, assimilou o golpe, sem que culpasse Deus, o marido ou o próprio filho. Era mulher de oração, desde o nascimento de Caim, até à gratidão manifesta no nascimento de Sete.
      E, pelo que transparece, tinha um marido acostumado a responsabilizá-la pelo que ia errado na relação entre os dois. Vide a resposta dele a Deus, "a mulher que tu me deste", quando foram interpelados logo após a queda.
    Do mesmo modo que Paulo diz a Timóteo que sua fé sem fingimento era devida a uma mulher, a avó Loide, certamente, o primeiro homem após a morte de Abel a invocar o nome do Senhor, Enos, devia a sua avó Eva possuir uma fé sem fingimento.

      Mulheres na Bíblia - Hagar

      Pouco podia fazer Hagar, diante de Sara, para que fizesse valer seus direitos. Foi dada a Abrão por sua senhora, na tentativa de suprir, de modo precipitado e indevido, o que já constava como promessa de Deus: dar um filho ao patriarca.
     Uma vez nascido Ismael, Sara começou a sentir-se diminuída. Por tremenda injustiça, típico de mulheres como ela, encheu a paciência do marido, a ponto de convencê-lo a ser cúmplice da brutalidade pretendida: condenar mãe e filho à morte, na aridez do deserto.
     A marca da espiritualidade de Hagar se destaca quando: (1) diante de Deus, não acusa Sara; (2) uma vez já aviltada, entendeu o significado do humilhar-se diante de Deus; (3) diante de tantas vicissitudes, interpretou que faltava a ela enxergar Deus tão próximo.
   Eis a mulher que nos ensina a não nos fazermos de vítimas, se enfrentarmos situações iguais ou ainda piores do que as dela. Porque, caso entremos em conflito com a fé, certamente será por não ter dito igual a Hagar: "Tu és Deus que me vê. Não olhei eu também para aquele que me vê."

     Mulheres na Bíblia - Débora
 
     Mulher de Lapidote, sem dúvida era um entre os mencionados no texto da "mulher virtuosa", onde está escrito que até o marido é reconhecido pela boa fama da esposa. Ficou destacadamente reconhecida a "Palmeira de Débora", eternizada no texto bíblico, local onde ela atendia às demandas do povo, referência permanente à grandeza dessa mulher.
    Podemos bem compará-la a outra juíza, atual presidente do STF, Cármen Lúcia, que dirige o próprio carro, ofereceu água mineral e cafezinho em sua posse, por fator de economia, e saudou o povo brasileiro como maior autoridade presente nessa cerimônia.
    Além de juíza, eventual generala e profetisa, quando advertiu Baraque, já indicado por Deus como líder na guerra contra os midianitas, que o medo lhe roubaria o mérito de ter vencido a batalha. O homem respondeu à mulher, mais ou menos assim: "se fores comigo, guerra haverá; caso não vás, guerra não há." Houve. Débora definiu a tática do conflito.
     Dois únicos grandes referenciais, no longo período dos juízes, calculado em 300 anos de duração, são essa juíza e, na outra ponta, Samuel, já na transição à monarquia. Esse, sim, equiparado em importância a Débora. Preste bem atenção e deixe de ser machista: sempre haverá, bem perto, mulher virtuosa a ter como exemplo. E quanto a você, seja mais uma entre elas.

      Mulheres na Bíblia - Ana

     Símbolo de oração de conteúdo, qualidade da mesma recomendada por Jesus, no Sermão do Monte: "tenho derramado minha alma perante o Senhor."
    Símbolo de temperança e mansidão, pois dividia com Penina o matrimônio com Elcana, angustiava-se por não ter filhos e suportava a rival que, segundo o texto bíblico, "excessivamente a provocava".
      Símbolo de dedicação, entrega e reconhecimento do lugar dos filhos, perante Deus, pois disse a Eli: "por esse menino orava eu [...] ao Senhor eu o entreguei, por todos os dias que viver."
     Ouviu do esposo uma das mais belas declarações de amor: "não te sou eu melhor do que dez filhos?". Sábia nas relações domésticas, íntima do Senhor na oração e mestra na educação dos filhos, mulher modelo em três áreas fundamentais.

     Mulheres da Bíblia - Hulda

     Era duro viver num tempo em que os direitos, o reconhecimento e a valorização social eram quase nulos. O que dizer, então, se umas poucas como que invadiam o espaço masculino e se identificavam profetisas, como Hulda?
     Foi a ela que o rei avivalista Josias recorreu, após o trauma de conferir as maldições escritas no Deuteronômio e compará-las à realidade de Judá, por volta de 620 a. C. Jeremias já havia iniciado o seu ministério, mas foi uma profetisa que o rei buscou, após ler o Livro da Lei, a Bíblia da época, esquecido no Templo, e temer diante do cumprimento da Palavra. Ela só fez confirmar isso ao rei.
     Pelos nomes citados do marido, pai e avô de Hulda, ela era a mulher certa para aquela hora, ao nível de classe da realeza e pronta a consolar o rei piedoso. Jeremias, sacerdote fora de função, pertencia à vila de Anatote e se tornaria desafeto do todos os reis, os três filhos de Josias, que reinaram depois do pai, até o exílio de 587 a. C.
    Hulda nos ensina: (1) é possível ter, sim, mulheres muito bem entendidas, esclarecidas e estudiosas da Bíblia; (2) ser mulher "bem nascida" não se constitui, em si, demérito nenhum, a não ser que a futilidade, vaidade e superficialidade dominem a personalidade; (3) quando se obtém genuína autoridade por meio da Palavra, não há rei ou qualquer posto de destaque acima que não se subordine à sabedoria adquirida. Precisamos de muitas profetisas como Hulda, "bem nascidas" ou não.

   Mulheres na Bíblia - Maria

     Tudo bem. Não tenho nada contra enaltecer Maria. Mas ponha-se no seu devido lugar. A Bíblia, a gente querendo ou não, coloca-nos no devido lugar. E, quanto à mãe de Jesus, ela nunca tomou para si pelo menos 5 característica que, de novo, segundo a Bíblia (sempre o Livro), pertencem a Jesus. Veja:
     (1) Jesus é o único mediador entre Deus e o homem; (2) único ser humano a receber, como Deus, adoração, atributo específico Seu; (3) único ser humano autorizado a perdoar pecados; (4) além de Jesus, o único que intercede por nós diante de Deus é o Espírito Santo; (5) Jesus é o único entre os seres humanos  a ter ressuscitado e, afirma a Bíblia, a estar à direita de Deus.
     Nenhuma dessas afirmações diminui Maria, porque esses são atributos exclusivos de Jesus e ela mesma nunca desejou roubá-los para si. Foi Maria mesmo que aconselhou: "Fazei tudo o que ele (ou conforme ele) vos disser". Atribuir a Maria qualquer desses atributos é, literalmente, tradição humana. Veja 5 características exatas e justas de Maria:
    (1) Exemplo de serva, dizendo ao anjo: "Faça-se conforme a Tua (de Deus) vontade"; (2) exemplo entre os que necessitam de salvação, ela mesma necessitada, quando diz: "A minha alma se alegra em Deus, meu salvador"; (3) Logo entendeu que aos homens é sábio e aconselhável fazer e agir segundo "tudo quanto ele (Jesus) disser"; (4) sempre que enxergava, ouvia ou percebia uma manifestação da palavra ou ação objetiva de Deus, diz a Bíblia, ela "guardava todas essas coisas, conferindo-as no coração"; (5) entre tudo o que ela guardou no coração, certamente, está a palavra de Jesus a uma mulher que enalteceu Maria exageradamente, quando disse "bendita aquela que te deu à luz e os seios que te amamentaram": Jesus corrigiu e Maria guardou no coração: "Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam." Nenhum erro e nenhuma injustiça em colocar Maria no seu devido lugar, quando a intenção é seguir a orientação bíblica. Este livro existe para corrigir e sanar qualquer dúvida.