terça-feira, 3 de outubro de 2017

LEITURAS BÍBLICAS - Apologia 4

        Não adianta remediar: no que se refere à Bíblia, a narrativa do milagre lhe é comum. Pode-se argumentar, bem, mas ela não é toda milagres. Pode-se retirá-los do foco, e ler com proveito o que restar.

       Equívoco. O essencial da Bíblia é miraculoso. É dizer que Deus assumiu forma humana em seu Filho Jesus, morreu e ressuscitou, trazendo consigo dentre os mortos todos os que nEle creem.

        Ainda se pode argumentar: mas é possível ler a Bíblia com proveito, desconsiderando seu essencial. Certo. Mas o principal da condição humana, que é a vida, se perde.

      Porque o efeito não é esse de marketing da fé, como muito hoje se pratica. Não atinar com o essencial, na Bíblia, é não atinar com o milagre, esse, principal, que é a vida, a própria existência humana.

     Jesus afirma "eu vim para que tenham vida, vida plena". A biológica todos, até animais e flores a tem. Mas "vida plena", só encarando de frente o milagre, o essencial do Livro: Deus que se fez homem, para ganhar-nos de volta à vida.

      Qualquer outro milagre entre aqueles narrados nas Escrituras é secundário. Aliás, a própria narrativa deles aponta para o milagre. Esse maior e definitivo, a favor do homem.

      A Bíblia é um livro a favor da vida e a favor do homem, ser humano: homem e mulher. Qualquer outra leitura é equívoco. Aliás, em suas páginas, quando são encontradas narrativas contra a vida, pode creditá-las na conta do homem.

      O Livro também nos mostra em todas as nossas contradições, como quando, de modo suicida, colocamo-nos contra Deus, contra o outro e contra a natureza. Típico do ser humano. Infelizmente.

     Portanto, a partir de então, entenda o inusitado da Bíblia: o Deus que começa, em suas páginas, como criador e doador da vida, não abandona o homem à sua própria sorte.

      Deu-se em amor, fez-se homem, deixou-se morrer, exatamente para desmoralizar a morte. Esta não o pode segurar em seu seio. O que não significa, apenas, uma remota ressurreição.

      No diálogo com a irmã de Lázaro, que disse acreditar, um dia, nessa remota ressurreição, a ela Jesus disse: eu sou a ressurreição e a vida. Desde agora, no seu momento de fé, quem crê ressuscita.

      Jesus disse: vim para que tenham vida e vida plena. E perguntou Jesus, ao cego recém curado: "Crês nisto?".
   

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

LEITURAS BÍBLICAS - Apologia 3

     O Apocalipse conquistou espaço, transformando-se quase que numa marca, que muitas vezes significa algo bem diferente do que o plano original da obra sugere.

     Por causa de sua típica linguagem e imagens fortes, o termo "apocalipse" que, mais estritamente está relacionado ao conteúdo do livro, significando "revelação", passou a ser associado a calamidades que prenunciam o "fim do mundo".

     Um mergulho nas descrições detalhadas dessas imagens apocalípticas, longe de nos colocar num contexto fantástico ou mítico, acaba nos jogando de encontro à realidade louca das épocas vividas pela existência humana.

       Caminhando de hoje para o passado, destaque-se quando o apocalipse fala de contaminação das águas, rios e oceanos, ou da capacidade que bolas de fogo têm de queimar a terça parte do mar ou da terra.

        Impossível não associar aos modernos e devastadores efeitos da poluição ambiental e da capacidade humana de explodir o mundo com armas nucleares.

      Caminhando em direção ao passado, vamos nos deter no ambiente da chamada Grande Guerra, a primeira, em que, proporcionalmente, a capacidade humana de matar em massa apareceu, em seu début, na idade moderna.

      O volume de tropas, com as máscaras antigases horríveis, a inauguração das metralhadoras contra as formações de cavalaria e as condições desumanas dos extensos labirintos de trincheiras tipificam as descrições de bandos de gafanhotos em guerra no texto apocalíptico.

     E com relação às imagens mais aterradoras ou, desejando-se assim indicar, as mais loucas do livro, associadas a bestas com várias cabeças e chifres, dragões e seres mistos fantásticos que emergem do mar, essas cenas não se situam assim tão distantes da realidade.

     Isso porque simbolizam a urdida maldade humana, para a qual qualquer representação horrenda corresponde a menos da realidade. E o figurino dessas cenas em pouco, muito pouco difere dos "ismos" que, já há cem anos, invadiram as artes e tornaram corriqueiras imagens não menos esquisitas.

     Impressionismo, Expressionismo, Cubismo, Abstracionismo, enfim, ondas que se misturam à tendência humana de experimentar estados mentais de diferentes estágios, em função da ingestão de alucinógenos, tão frequentes já no século XIX, turbinados no século XX e servidos delivery  neste século.

     Definitivamente, o Apocalipse não se situa assim tão distante da realidade. Na verdade constitui-se, em atualíssima linguagem, num retrato que foca, transparece e bem delineia o louco contexto no qual o homem moderno, aliás, ao longo da sofrida história da humanidade, inscreveu-se a si próprio.
     

LEITURAS BÍBLICAS - Apologia 2

       O livrinho de Ester reserva um mosaico de informações detalhadas sobre variadas rotinas no contexto do Império Persa que, muito provavelmente, nenhum documento antigo oferece.

         Só que se configura um problema: numa análise geral de sua moldura, comentaristas avaliam que não são todas essas informações que podem, indistintamente, ser tomadas como literais.

      Evidentemente que não fica claro quais delas são confiáveis. Na verdade, sempre se procura buscar fora da Bíblia fontes que confirmem o que está escrito nela.

     Mas, e se ocorrer o contrário, ou seja, o texto bíblico apresentar fatos que, simplesmente, não poderão ser nunca comprovados fora dele, porque somente são mencionados no Livro?

      Entre a gama de dados fornecidos em Ester, um deles, essencial como principal fio condutor de toda a trama narrada, que foi o levante contra os judeus, sobre ele já li não ser possível comprová-lo, pois não há nenhum resgistro dele nos anais do Império Persa.

       Neste caso, a realidade se impõe. Os críticos assinalam que, numa época obscura da antiguidade seria improvável que um governante caprichoso intentasse pôr fim a uma dada etnia achada entre outras diversas no contexto do Império que governava.

     E em pleno século XX uma ordem politico-social se instala para, sistemática e calculadamente promover o extermínio dessa mesma etnia, em escala mundial, por cima e com desprezo dos supostos avanços civilizatórios que separam esses dois períodos da história.

       Trata-se do império do nazismo, movimento alemão de ultradireita, esboçado a partir de 1933, liderado por Adolf Hitler, causa geopolítica da Segunda Guerra Mundial, que se estendeu de 1939-1945. Embutido e camuflado nesse contexto, a planejada implantação da chamada Endlösung der Judenfragen, a Solução Final, o plano de extermínio total da etnia judaica.

      Supor, portanto, que toda a armação de Hamã, o agagita, no livro de Ester, para exterminar os judeus, por não constar em outros registros seja uma construção puramente literária, sem respaldo na realidade, no mínimo é, de modo gratuito, uma tentativa frustrada de menosprezar o texto como fonte histórica fidedigna.

domingo, 1 de outubro de 2017

ESCOLA DE TEOLOGIA


INSTITUTO LOGOS - PREPARAÇÃO DE LIDERANÇA

     Os tempos modernos têm colocado a liderança evangélica diante de desafios constantes, devido à rápida revolução de costumes e de conceitos. É necessária uma preparação para defesa dos pontos de vistas específicos da visão bíblica de mundo, que não é preconceituosa e excludente, como se vem declarando, apenas diferente da postura mais comumente divulgada.

OFERECEMOS DISCILINAS POR MÓDULOS BEM DEFINIDOS EM AULAS SEMANAIS. O CURSO BÁSICO SERÁ OFERECIDO EM 1 ANO, COM A GRADE INICIAL DE 10 DISCIPLINAS:

INICIANDO COM: Introdução ao Estudo da Bíblia - Temas Polêmicos da Atualidade - Noções Jurídicas Básicas - Dinâmica de Leitura Produtiva

(Esboço de embrião para um Instituto que a gente poderia implantar, com outras igrejas e ou pastores. De repente, a fagulha produz um incêndio)

sábado, 30 de setembro de 2017

Para o meu filho.

Bom dia, meu filho.

Resolvi falar assim com você, por ser mais fácil do que pelo zap, porque devo falar muito.

Começando por esta demora incômoda aqui no Rio. Embora o plano fosse logo operar, esta solução que acabou ocorrendo, foi uma possibilidade que havia vislumbrado ainda aí, antes de vir.

A cirurgia feita foi metade, só retirada das pedras da bexiga, sem a ressecção, ou seja, raspagem interna da próstata. Eu achava que remédio resolveria, mas nenhum médico receitava, a não ser este que me operou.

É conhecido do Helio Henrique. Eu havia pensado nessa solução. Depois de uma grande curva, que passou pela desistência do primeiro médico, eu acabei fazendo o que julgava, por mim, preferível. E até acho que posso dizer, confirmado por Deus.

E essa demora, meu amado filho, foi uma escola, uma classe dos 60 anos, acho que devo estar entrando na página 2 da cartilha de minha vida (aqui entra o emoji de espanto). Ha ha ha.

Estou no Meier, onde cheguei em 1967, ano em que a mãe nasceu. Estive em Sepetiba, três noites, terreno que vô Cid comprou antes desse ano aí atrás. Estive na PUC, onde entrei aos 20 anos, sonhando ser Engenheiro Elétrico, de onde saí frustrado, mas para saber, às duras penas, que Deus me queria professor de português e pastor.

Ser pastor me levou ao Acre e ser professor ajudou na parceria com sua mãe para sustentar a família e também como inserção social e ajuda no testemunho ministerial.

Nestes dias aqui, meu filho, o filme de minha vida passou em cenas. Por um lado, pode-se dizer, foi muita coisa contingencial. Mas você e sua irmã que acompanham metade de nossa vida, eu e sua mãe, sabem que nossa família é uma rica experiência e que nós dois, Regina e eu, não casamos só por contingências.

A mão de Deus está conosco. Lembrei muito a agradeci muito a Deus por vô Cid e vó Dorcas: eu, assim como o casamento, você e sua irmã são fruto do ministério e da oração deles.

Então, essa parada e esse retorno meu ao meu chão, com a imersão nesses cenários, a angústia da distância e saudade de vocês, a vontade de melhorar muito em qualidade de vida neste tempo que ainda me resta, tudo isso junto me faz pensar num novo começo.

Só não é loucura, porque a promessa do evangelho é renovação permanente, renovação sempre. Por isso, até eu e você, tão jovem como você é, podemos recomeçar juntos. Deus renova a tua vida, ainda tão tenra, mais repleta de dons e promessas, assim como a minha, já desgastada, necessitada de restauração em algumas áreas, mas com a marca das experiências positivas.

Deus renova sua irmã, sua mãe, nosso lar, nossa igreja, enfim. Deus sempre renova, refaz, cria novo, molda o barro maleável em Suas mãos. Quero chegar aí com essa proposta. Estou relendo a Bíblia, tentando aquela proposta que coloquei, que começa hoje, 13 capítulos/dia até 31/12/2017.

É um bom começo. Já li alguns livros pequenos. Estou na metade de Romanos, Apocalipse e já comecei 1 Crônicas ontem. Ler a Bíblia sempre é bom. Caso você se engaje nessa jornada, teremos mais alguns assuntos a discutir sobre o Livro. E muito mais desta minha experiência aqui desejo falar.

Todas as coisas cooperaram aqui para o bem. Aí também, incluído o susto e livramento que Deus nos deu, especificamente a você, mais esta vez. Ele sempre vai agir assim conosco. Vamos entender que lições podemos aprender. Você, pessoalmente, com sua inteligência e percepção, mas também com a sabedoria, esta como dom de Deus.

Como diz Paulo, Cristo se nos torna, da parte de Deus, sabedoria, 1 Co 1,30-31. Vamos continuar juntos, como família, na repartição dos dons que Deus nos concedeu, individualmente, assim como na bênção dessa comunhão que temos, para além da simples genética.

Que visões Deus nos quer mostrar? Quais os avisos do Altíssimo? Ele conhece mais do que nós tempos e épocas. E nos deu esse contexto gostoso de convivência e comunhão, não só para sermos entre nós, somente, mas para, como estamos tentando, ser bênção aos que estão em redor.

Abração e quero chegar logo aí. Continue tendo todo o cuidado e se preservando. Abração a você, sua irmã e mãe.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

LEITURAS BÍBLICAS - Apologia 1

      A epístola de Judas, penúltimo livrinho do Novo Testamento, colado ao famoso Apocalipse, em função de sua linguagem, é "prato feito" para polêmica.

     Isso porque costuma-se acusar Deus, principalmente por causa do Antigo Testamento, como tipicamente iracundo. E a temática do livrinho detalha aspectos dessa ira.

      Judas cita (1) minorias, (2) cidades e (3) anjos contra quem o próprio Deus se manifesta. São elas Sodoma e Gomorra, são eles os revoltosos contra Moisés no deserto e anjos são os que, cita o autor, "abandonaram domicílio e estado original".

      Polemistas de plantão folgam em acusar a linguagem do livro absolutamente descontextualizada do tempo atual, assim como típico exemplo de como a Bíblia se apresenta disfuncional em sua pseudo retórica.

     Vamos tirar Deus de cena. Assim, satisfazemos logo quem divulga que Ele nem existe. Saindo fora, Sua ira seria, então, lenda pura e não, como dizem, desvio de personalidade.

     Agora vejamos se (1) destruir cidades, (2) eliminar minorias e (3) pôr a culpa da maldade em anjos maus se isso não é tipicamente humano.

      A segunda Grande Guerra, 1939-1945, inaugurou destruição sistemática de cidades, à esquerda e à direita. Culminou com Hiroshima e Nagasaki, primeiras bombas atômicas detonadas, ironicamente, por uma "nação cristã".

     Destruição sistemática de cidades é coisa de homens. Não culpem Deus por isso.

      No mesmo teatro, minorias foram perseguidas e quase que totalmente eliminadas: ciganos, homossexuais e minorias étnicas. E nem foi algo inédito na história.

     Discriminação, perseguição e eliminação de minorias ou grupos não é prática divina: é rotina histórica tipicamente humana.

     Resta discutir a prisão de anjos que aguardam o "juízo final", comentada por Judas e o juízo de Deus contra eles.

    Aqui, sim, é matéria tipicamente bíblica. O Livro conta a história dos anjos: ministros de Deus, com corpo imaterial, nome e personalidade própria que, esporadicamente, manifestam-se aos homens.
   
     Da mesma forma que nós, que temos corpo material, nome e personalidade própria, anjos também escolhem ser maus ou bons. E não têm sobre quem jogar a responsabilidade de sua escolha.

     Cessa a polêmica. Destruir cidades, perseguir minorias e culpar demônios pela maldade própria não tem nada a ver com Deus.

    A linguagem de Judas se atualiza,  se invertemos a ênfase e indicamos como maldade tipicamente humana o que polemistas desavisados apontam como ira de Deus, vício divino de Sua personalidade.

     Trazendo Deus de volta à cena, para os que creem nEle, trata-se de uma postura típica de Quem se envolve com a condição humana, a ponto de se ter feito homem em Cristo.

      Trata-se da reposta daquele que, segundo o Salmo 23, "guia pelas veredas da justiça, por amor do seu nome".

   

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

DESAFIO

   
       A Bíblia possui 1.189 capítulos. Proponho a você um desafio, ontem compartilhado a mim pelo Pr. Purim Jr.

      LER A BÍBLIA TODA ATÉ O FINAL DESTE ANO.

        Vamos contar a partir de Outubro/Novembro/Dezembro, considerando 90 dias.

         Essa conta, 1.189/90 = 13. Se lermos 13 capítulos ao dia, vamos conseguir.

         Lembre-se que capítulos como II e III João são curtos. Há Salmos também muito curtos.

        Subdivida o Salmo 119 em capitulos de 16 ou 24 versículos, lendo 2 ou 3 conjuntos de 8 versículos.

        E também Obadias, Judas, Naum, Jonas entre outros são curtinhos. Mas não é só essa estratégia que é importante.
     
        O importante é seu interesse. Mergulhe no texto. O interesse será avançar na leitura.

        Largue a novela. Abandone o zap-zap. Deixe de lado a telinha touch screen. A recompensa será compartilhar da intimidade de Deus.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Por falar em amor 4

      Caminhos de quem ama. Como no olho de um furacão. Estão em moda. Tudo à volta gira com ventos a 300 por hora. Amor é furacão grau 5. No último.

      Só existe amor se for nesse grau. Não existe amor sem risco. O máximo que pode ocorrer, é que o olho da coisa se estreite tanto, mas tanto, que parece somente sobrar espaço para quem ama não sossobrar.

      Estreito. Tudo à volta a 300 por hora. Essa é a sensação. A realidade é mais intensa. Caminhos de quem ama incluiu labirintos onde somente há gente à volta.

     Amam-se amigos, amam-se filhos, ama-se cônjuge. Ama-se qualquer um (ou uma). Amam-se todos e cada qual, sempre um a um,  sempre individualmente.

     Esses caminhos conduzem a todo o lugar. Quando se afasta do previsível, em direção, como a Bíblia arrisca dizer, de amar o inimigo, aí que vem a prova, na verdade, de que se ama.

      Amar a quem não ama, a quem nunca ama, como Deus pratica, somente se, como Deus, estiver verdadeiramente dentro de nós. Não o amor dentro de nós. Somente se Deus estiver dentro de nós.

      No olho do furacão. Seguindo para em que direção ele for. Estreito e seguro, bem no olho. Menina dos olhos do olho do furacão. Deus dentro de nós, todo o risco, em toda e qualquer direção. O amor.

      "O perfeito amor lança fora o medo. Aquele que teme, não é aperfeiçoado no amor". João Apóstolo.

Por falar em amor 3

      Radical. No sentido de raiz, tanto quanto no sentido absoluto. Pode parecer estranho, mas não há democracia na escolha do amor.

      "O amor de Cristo nos constrange", disse Paulo Apóstolo. Ama-se todos. Não há como optar a quem amar: ama-se todos e qualquer um ou não se trata de amor.

      Ama-se com igual intensidade. Se não, de novo, não é amor. Amor é único: o mesmo e igual sentimento a todos e em igual intensidade.

      Cumplicidade pode não ser amor. Mas sempre amor implica cumplicidade. Muitas vezes amor implica dizer não. Caim e Abel foram cúmplices em apresentar culto a Deus.

      Deus amou igual aos dois, dizendo sim a Abel e não a Caim. Os ladrões ao lado de Cristo foram cúmplices em toda a vida. Pelo menos um deles, por amor, deveria ter dito não ao outro.

       Talvez tenha sido esse que, uma vez crucificado, resolveu receber, em si, o amor de Jesus. Amar às vezes implica dizer sim, outras vezes implica dizer não.

      Seja sim, sim; não, não. Negue, por amor; reafirme, por amor. Muitas vezes, na vida prática, inverte-se o sim pelo não, perdendo-se a oportunidade do amor.

      Nem todos que são cúmplices o são ou devem ser por amor. Nem todos os iguais o são ou deveriam ser por amor. Às vezes, a diferença é fundamental no amor.

      Às vezes, discordar é mais amar do que concordar sempre. Pode haver cumplicidade e concordância no erro. Uma quadrilha é cúmplice, tem concordância, estão articulados, mas não compõem uma comunidade de amor.

      Às vezes até pode-se rejeitar o outro, em nome do amor. Namorados ensaiam amor. Unilateralmente, em nome do amor, um pode, eventualmente, rejeitar o outro: experimentarão amor em amizade, nunca em vida a dois, como cônjuges.

      Facetas do único, permanente e autêntico amor. Uma vez por todas dado aos homens (e mulheres). Nunca suficiente, nunca totalmente habilitado e aprendido, porém permanentemente ensaiado como prática desafiadora.

     

domingo, 10 de setembro de 2017

Sermão 2

    Texto: Jeremias 22,15-19

Objetivos:

1. Indicar o efeito do oráculo de um profeta no contexto em que foi pronunciado;

2. Uma vez eternizado nas Escrituras, demonstrar como seu efeito se torna referência permanente;

3. Compreender o modo como as Escrituras, ainda hoje, reatualizam-se em seu cumprimento.

Argumentação:

     Os livros proféticos apresentam uma variedade de textos, todos eles inseridos no contexto geral da profecia. No caso de Jeremias destacam-se, pelo menos, três tipos: palavras de viva voz, biografia e sermões do profeta. É possivel, então, compreender com que urgência as Escrituras se estão formando e de que modo, até nossos dias, é possível que se atualizem.

Tópicos:

1. Para Israel, no contexto da vontade de Deus, reinar era praticar justiça;

2. A figura humana de Josias, o rei avivalista, tornou-se modelo em seu tempo, dentro de sua geração e nas Escrituras;

3. A profecia de Jeremias se atualizava em Escritura e, na medida em que se formava, era assimilada e se cumpria.

Textos:

Para o Tópico 1: a) o acúmulo de riquezas, na contabilidade de Deus, não representava justiça: Jr 22,15a; b) muito próximo estava, ao alcance, um modelo de justiça: Jr 22,15b; c) a prática da justiça sempre foi a verdadeira vocação para os reis de Israel: Jr 22,15c-16; Sl 72,1-5;

Para o Tópico 2: a) a figura humana de Josias se constitui em exemplo de justiça: Jr 22,16; b) apegado às Escrituras: 2 Cr 34,19-21; c) não meramente um reformador, buscou com sinceridade o Senhor:  2 Cr 34,1-3; 2 Cr 34,10-13.30-31;

Para o Topico 3: a) a máxima da justiça como prioridade cristaliza-se na profecia de Jeremias: Jr 21,12 // Jr 22,3 // Jr 22,16; b) caráter e atuação política negativa reprovam o caráter do rei: Jr 22,17; c) comparado ao pai, mui lamentado, alvo de um poema de Jeremias, não será lembrado como modelo: Jr 22,18-19; 2 Cr 35,25-27.

Conclusão:

     As Escrituras indicam homens e mulheres de Deus apontados como padrão. Desde os antecedentes de sua infância e em toda a sua trajetória, Josias se impõe como exemplo de justiça: verdadeiramente buscava o Senhor, priorizava as Escrituras para as cumprir, convocava o povo ao compromisso com Deus e todo o tempo praticava, de modo imparcial, a justiça. Exemplo pessoal e coletivo de um governante segundo o coração de Deus.

Sermão 1

     Texto Lucas 1,1-4

Objetivos:

1. Compreender o zelo e preocupação de Lucas em confirmar Teófilo na fé;

2. Confiar que o texto que Lucas envia, seja o Evangelho, assim como a continuação em Atos, são capazes de cumprir essa finalidade;

3. Entender que, também para nós, esses textos, agora recebidos como Escritura, podem cumprir esse mesmo objetivo.

Argumentação:

      Lucas reconheceu, a distância, que Teófilo havia sido alcançado pelas verdades do evangelho. Estimulado, tanto por essa boa notícia, quanto reconhecendo a necessidade de confirmar seu amigo e agora irmão na fé, resolve seguir, dentro de sua metodologia muito especial, o exemplo de outros que narraram as verdades referentes a Jesus.

Tópicos:

1. Há nos registros de Lucas indicações fidedignas do conteúdo do evangelho: por meio delas é possível crer e ter confirmada a fé;

2. Tais registros, as Escrituras, são referência permanente para os que, através dos séculos, creem: caso sejam desprezadas, estará comprometida a identidade da igreja;

3. A influência da igreja no mundo, o principal, sua imitação de Cristo, somente serão definidas pelo exercício da fé baseada no seguimento das Escrituras.

Textos:

Para o Tópico 1: a) efeito da primeira pregação do evangelho, falando direto ao coração: At 2,27-28; b) a exclusividade da salvação em Jesus, defendida contra qualquer reação: At 4,11-14; c) a capacidade necessária à igreja para encher a cidade com a doutrina e bênção do evangelho: At 5,28.

Para o Tópico 2: a) Paulo utiliza a Bíblia de seu tempo para convencer a respeito da fé: At 17,2-4; b) não há salvação à parte da palavra de Deus, como registrada nas Escrituras: At 8,30-35; c) a ação de Deus na história da salvação, entre os homens, é confirmada pelas Escrituras: At 2,15-21.

Para o Tópico 3: a imitação de Jesus é seguir sua identificação com todos e todas: Lc 7,44-47; b) a revelação de Jesus, imperceptível aos olhos, confirma-se no testemunho da verdadeira fé: Lc 19,7-10; por meio de Jesus, os olhos de qualquer um são abertos, pelo testemunho das Estruturas: Lc 24,44-49.

Conclusão

     É necessário redescobrir o prazer pela leitura das Escrituras. Além do  fato de ser vital à igreja, ao testemunho e ao crescimento daquele que crê, por meio dela será resgatada a dimensão profética da igreja, no anúncio do próprio evangelho, assim como no enfrentamento e denúncia do que, no mundo, está fora do padrão de Deus.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Por falar em amor 2

Pecado e amor

     Pecado é o não-amor. Pecado é não amar. Não quer dizer que, quem ama, não peca. Aliás, o que é pecado? Palavrinha atormentadora.

       Não existe pecado do lado de baixo do Equador. Abaixo dessa latitude, já se gaba o poeta, não há tormenta. Ora, chame do que quiser:  maldade, entropia, desajuste, não evolução.

       A definição bíblica é dramática mesmo. Nesse caso, de novo, ela não é pessimista, porém realista. Caso a opção seja amar, esse é o antídoto para o pecado.

     Quando ele se manifestar, se houver amor, será por pura impotência. Ninguém está isento dele. E logo virá o (pedido de) perdão: não há amor sem perdão, não há perdão sem amor.

     Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Não existe amor sem o bem, não existe o bem sem amor. Pecado sempre é contra quem dele é portador, contra quem está próximo (e sempre há quem) e contra Deus: não, necessariamente, nessa ordem.

     Mas é tríade sempre presente na condição humana: contra si mesmo, contra o outro e contra Deus. Por isso e para isso, conta o Livro, Deus se fez homem: por amor, por amar homens e mulheres. Fez-se por amor, para amar e para tornar possível o amor em nós. O amor é antídoto contra o pecado.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Por falar em amor 1

Amor

         É uma coisa de que se tem de falar. Mesmo que não saia o que valha a pena dizer ou ouvir. Porque é no exercício, como se diz, nessa dialética de refletir, dizer e tentar atinar, que reside essa possibilidade.  Mas amor, definitivamente, é dado aos homens (e mulheres).

         E, essencialmente, pelo menos, há um consenso: é coisa de se praticar. Falar que ama sem uma prática convincente, no mínimo, soa falso.

       Uma vez dado aos homens (e mulheres) para compreensão e prática, uma primeira questão: há amores, ou seja, diferentes tipos e espécies, ou será único, havendo somente um e único tipo: amor e pronto, tudo ou nada?

      Partimos do dado bíblico, supondo aqui, como axioma, que esteja correto: Deus é amor. Então, é único. Só existe um tipo e é atributo divino. O que não resolve nada, porque, contadas as opiniões a respeito de Deus, tantas serão, em sua diversidade, as definições de amor.

         Para logo se dizer: sim, se é assim, ateus não amam? Óbvio que a possibilidade do amor é para todos, incluídos ateus, os com ou sem religião, não interessa que religião. A plausibilidade do amor é para todos e todas, para qualquer um.

        Ora, mais por que não ser, em termos de amor, democrático? Para e por que ser absoluto?  Ora, mais uma vez, amor é, a um só tempo, radical e absoluto. Como exemplo, vou usar o bíblico, não é por nada não, mas porque o Livro baseia-se, exclusivamente, no amor.

     E amor de Deus. Afirma que Deus é amor. E que ele radicalizou geral: para amar o homem (e as mulheres), fez-Se a si mesmo homem. De outra forma, seria impossível que amasse.

     E é o mesmo Livro que também afirma: o perfeito amor lança fora o medo. Ora, quem tem medo, não ama. Deus amou todos (e todas, como está na moda dizer). Radicalizou.

     Para amar, não pode existir medo. Quem tem medo, não ama todos e qualquer um. E quem não ama, indistinta e indiscriminadamente qualquer um (ou qualquer uma), verdadeiramente não ama. A coisa é radical.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Reflexões sobre Jeremias 5


Foco

     Todo profeta tem um foco. Mesmo em meio à diversidade de textos, representada na estrutura costumeira de seus livros, em menor ou maior escala, é possível depreender um foco.

     Nesse sentido, o profeta, com um olhar específico para a época, prisioneiro do contexto específico, opera uma interpretação sobre si mesmo, sobre a realidade em redor e sobre Deus.

     Jeremias é o profeta onde essa complexidade mais se reflete. A começar pelo fato de seer aquele sobre quem, em meio aos textos de seu livro, há uma visão biográfica sobre sua personalidade e circunstâncias de sua ação.

     Além dos oráculos específicos a ele atribuídos, a ipsissima verba, confissões, que são orações pessoais, refletindo perplexidade, há um terceiro tipo de material, que são os sermões atribuídos a redatores deuteronimistas, baseados em material original anteriormente recolhido.

     Foco. Não se trabalha sem uma visão de vocação, de chamado específico e individual de Deus para si mesmo. A vocação de Deus é o ser humano. E quem vivencia isso, interpreta Deus para o outro, em seu próprio contexto, tempo e época.

     Foque o foco em Jeremias. Como qualquer outro, quando se trata de vocação verdadeira, assustou-se e tentou fugir ao chamado de Deus.

     Em meio ao caos que se esperava, dispersão pela mesma rota seguida pelos israelitas do Norte, um êxodo ao inverso, o profeta julgou a si mesmo ludibriado por Deus, quando incapaz de contribuir, de alguma forma, para evitar a calamidade que era esperada.

     E sozinho contra tudo e todos: de linhagem sacerdotal, rejeitado por seus iguais de Anatote, deslocado como profeta, os de mesma classe desautorizavam sua palavra e versão dos fatos.

     Quanto aos demais, príncipes, juízes, anciãos que fossem, colocou-se contra todos eles. Foco. Contra tudo e contra todos. Jeremias mais parecia uma ave de mau agouro.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Reflexões sobre Jeremias 4

Jeremias e suas dimensões

      Diante da dimensão do caos que Jeremias anuncia, tornava-se difícil assumir, assim como proceder segundo o profeta sugeria: submeter-se ao poder opressor, sem nenhuma reação.

       A situação seria um êxodo ao inverso. Como dizer que a história se repetiria, mas como inversão de si mesma: retorno ao cativeiro, perda da terra, do templo e do trono. Enfim, perda da identidade.

      Os judaítas já haviam assistido ao revés dos efraimitas do norte, as dez tribos dispersas e perdidas no cativeiro assírio, cerca de 120 anos atrás. Sabiam do que se tratava ser invadidos por uma potência militar estrangeira.

     O rei herói, Josias, havia sido morto exatamente tentando impedir que as potências do norte revigorassem seu poder. Jogo de peças do xadrez geopolítico já haviam demonstrado o poder dos babilônios: derrotaram a coligação egípcio-assíria.

       Nessa ocasião, foi posto Jeoacaz no trono, retirado à força, três meses depois, pelo próprio Faraó, que põe no trono Jeoaquim, filho de Josias, a quem acabara de matar.

      11 anos depois, havendo Jeoaquim, contra a palavra de Jeremias, ameaçado rebelar-se, porém morrendo antes que pudesse fazê-lo, vem Nabucodonosor retirar, após outros três meses, Joaquim, para pôr no trono Ezequias, outro filho de Josias.

     Este será o último rei a ocupar o trono em Jerusalém. Definitivamente, a promessa feita a Davi de uma dinastia eterna não dizia respeito a um rei político permanentemente assentado no trono. O sentido era outro.

      Que sentido, para o povo, voltar ao cativeiro? Que missão, no plano de Deus, esse povo escolhido haveria, agora, de cumprir? Que levava consigo como marca a espalhar entre as nações?

      O tamanho dessa perplexidade cabe na dimensão do ministério de Jeremias.
     

Mal traçadas linhas 51

Em nome de Jesus

      Frase fácil. Dizer. Deus intencionou fazer-se homem. Não como fim em Si mesmo. Fez-se homem para ensinar ao homem ser homem.

      E para convidar à comunhão com Deus. Não há como ser sem reconciliação com Deus. O máximo para Deus foi quando, um dia, fazer-se homem.

       E o máximo, para o homem, não é fazer-se deus. Mas sim ser, em nome de Jesus. Não como autoridade chula. Não somente dizer por dizer. Mas ser.

       Em nome de Jesus, anunciar Jesus. Entre os homens, imitar Jesus. Enfim, ser igreja, que significa ser comunhão de Jesus, em Jesus. Não precisa nem dizer "em nome de Jesus".

       Basta ser em nome de Jesus. Ninguém acende uma lâmpada, para pô-la debaixo de uma mesa. Não dá para esconder uma cidade situada sobre o monte.

     Não dá para esconder a igreja. A não ser que ela se despersonalize. A não ser que se confunda, perca-se, camuflada, escondida, metamorfozeada, sal insoso, pisada pelos homens, camaleonicamente misturada ao mundo.

     Ela está, mas não é mundo. Mundana. Seduzida pelo que, entre os homens, Deus condena. Definitivamente, não é para que a igreja experimente o que, no homem, Deus rejeita.

      Deus se fez homem. Habitou em tendas, peregrinando entre nós. O próprio filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. Identificou-se com os marginais, homens e mulheres os mais rejeitados.

     Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim buscar justos, mas pecadores ao arrependimento. O filho do homem veio buscar e salvar o que se há perdido.

     Em nome de Jesus. Quem encontra, melhor, aqueles a quem Jesus encontra são em nome de Jesus. Sem retoques. Sem forçação de barra. Apenas são. Em nome de Jesus. Igreja.
     

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Reflexões sobre Jeremias 3

Prostituta

       Vai, prostituta. Jeremias aponta Judá como irmã prostituta de Efraim. A tribo do Sul seguindo a mesma trilha de infidelidade da tribo do Norte. "Carta de divórcio" a Efraim, em Oséias; "carta de divórcio" a Judá, em Jeremias.

      Ele mencioma, em sua pregação,  que a irmã prostituta do Norte foi despedida e dispersa na Assíria por causa de sua traição. A irmã do Sul assistiu a tudo. Mas de nada adiantou. Será despedida e dispersa na Babilônia. Idêntica geografia.

      Também seguiu após outros deuses. Era pedir demais que assim não fosse? Então o profeta cita as experiências fundantes do Êxodo. De novo, menciona Oseias e o falar de Deus ao coração.

      Deus fala ao coração. Saídos do Egito, perambularam pelo deserto, outra ironia que se, em Números, reflete ser tempo de rebeldia, Oseias denomina tempo de namoro.

     Jeremias anota que, internacionalmente, pelo que ele conhece entre as nações, os povos tinham mais reverência e respeito por seus deuses e ídolos do que Israel por seu Deus vivo. Prostituta.

     Daí a simpatia (e empatia) de Jesus por elas. Prostitutas tipificam a condição humana. Não joguem pedra na Geni.

     Muito provavelmente estamos diante de textos autênticos do poeta profeta. Tão veemente acusação não seria qualquer um que asumiria. Bendita coragem tradição corajosa, muito provavelmente do copista Baruque em escrever e retocar o rolo dessas profecias.

      Aliás, durante todo o período desse ministério, ambos correram risco constante de morte. O rei perseguia o profeta. Em Anatote, sua vila de origem, pertinho da capital Jerusalém, desterrado: seus conterrâneos não o queriam por lá.

     Vai-te, ó profeta. Agora e aqui ele se identifica com Amós, cerca de 150 anos antes dele. A irmã prostituta do Sul viu a traição da irmã prostituta do Norte. Ao invés de escandalizar-se e não agir igual, imitou-a.

     Deus desposou a irmã do Norte, que Oséias indica como aquela que o Altíssimo atrai para Si com "cordas de amor" para, uma vez traído, tentar de novo com a irmã do  Sul. Jeremias denuncia mais esta traição.

      Então, aqui Deus se identifica com os polígamos. Só que, no caso, foi traído duas vezes.

      Será que podemos dizer que Israel é a irmã do Norte, prostituta dispersa entre as nações, arrastando consigo a vergonha de sua nudez?

      E que a igreja seria a segunda irmã, a noiva de Cristo, também chamada a experimentar com Deus a relação que Israel ainda não experimentou. Mas Deus nos livre, a igreja não é prostituta. Sim e não. Santa e pecadora.

Reflexões sobre Jeremias 2

        O homem, sua época e o texto: ecos de Jeremias hoje.

       Jeremias e Deus. Ou seria Jeremias X Deus. Jeremias e aquele que se revela e se vela a Si mesmo. Velado, escondido, o drama de Deus, revelar-se ou esconder-se.

      O drama de Deus: até que ponto identiicar-se com Seu povo, até que ponto revelar-se ao homem, até que ponto ser traído pelo homem, por Seu próprio povo.

       Jeremias é intérprete dessa traição. Muito provavelmente debruçou-se sobre Oséias, o marido traído, a fim de entender o modo como e por que Deus se sentiu traído. Entender no que e o modo como Deus se sente traído.

      Jeremias é o homem que se senta à mesa de um bar para compartilhar com Deus o sentido de uma traição. Jeremias se identifica com Jesus em Sua boemia e, como mais um entre os modelos típicos do Antigo Testamento, interpreta Deus para o povo.

      Se a revelação de Deus consiste e inclui, no próprio desfecho da história da salvação, a história de um risco, precipuamente de Deus se fazer homem, há uma suma ou súmula e uma necessidade: compreender no que consiste a traição.

      O chamado de Jeremias consiste em não ser. Jeremias de autointitula na'ar, termo indefinido que significa, entre outras coisas, tenro, mancebo, criança. Deus rejeita Jeremias: solene, temor e tremor, afirma que não.

     Não diga sou na'ar. Para começar com Deus é necessário ser, de início, não. Renunciar-se significa rejeitar-se a si mesmo. Começar sendo não com Deus. Começar com Deus sendo não.

      Interessante que o pecado primordial foi ser não. No Genesis está escrito "é certo que morrerás". A serpente inverte dizendo "é certo que não morrerás". Por ironia, com Deus somente se começa não sendo, somente se começa por morte.

     Jeremias é um homem que, em seu tempo e época, começa com Deus sendo não Jeremias. Para interpretar Deus para o povo, tem de se tornar confidente do Altíssimo, a fim de entender uma traição.
   

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Reflexões sobre Jeremias 1

       Jeremias: o homem, seu tempo e o texto.

        Três vertentes para que seja definida uma visão de Deus. Na possibilidade em que se confirmem textos de incontestável autoria do profeta, qual a impressão de Deus que transparece?

         Todo o conjunto do livro a ele atribuído reserva pelo menos outros dois tipos de textos: biográficos, representado pela pessoa de seu escriba Baruque.

        Assim como sermões, muitas vezes baseados em oráculos considerados autêntica fala do profeta, que têm como referência a escola deuteronomista de redatores.

        E a época, reconhecida como emblemática. O caos total da perda da terra, a queda da monarquia e a destruição da cidade, incluído o Templo, configurava-se como um "êxodo ao inverso": retorno ao exílio e cativeiro.

       Jeremias confirmava esse caos e, por isso, era considerado colaboracionista com os imperialistas babilônicos. Daí sua rejeição total. Os próprios conterrâneos de Anatote não o queriam ali refugiado.

      Até um dos reis do período, em pessoa, desejava matá-lo. Somente contava com a simpatia de egressos do antigo "povo da terra", partido político-econômico que havia garantido a posse de Josias no trono, rei modelo de justiça na tradição do livro.

      A época, o texto e o homem profeta que emerge desse contexto, nessa ótica que se pretende contextualizar a visão de Deus. E que função teria, hoje, esse conjunto de textos, tais circunstâncias históricas e como, ainda, configura-se um modelo de relação com Deus.

      Esse exercício hermenêutico pressupõe uma chance de se contextualizar a mensagem de Jeremias para os dias atuais. Deus e o homem de hoje, no contexto dos dias atuais e que relação com o texto tradicionado se torna compatível com esta época.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Artigos soltos 26

Novo

       A promessa do evangelho é de renovação. Aliás, este termo ficou desgastado. Como, assim, novo? Tudo envelhece. O tempo é implacável. Algo sempre novo não existe.

       Vai ver que se trata de um "falso novo". Salomão, rei sábio da Bíblia, ele mesmo confirmou, certa vez: "nada de novo debaixo do sol". Aparenta ser novo, é aceito como novo mas, na verdade, não apresenta nenhuma novidade.

       Como o rock, por exemplo. Nada contra. Mas já está na estrada há quase um século. Onde, a novidade? A junção dos três, por exemplo, sexo-drogas-rock'n'roll está na rua desde os tempos dos (bis)avós.

       Então, deve ser o velho com roupa de novo. Mas então, continua a ser falso novo. Ou é totalmente novo ou trata-se do falso. Jesus mesmo falou que uma das características do novo é implodir o velho.

       Advertiu: não ponham vinho novo em odres velhos. Não ponham remendo de tecido novo em roupa velha. Em que sentido, então, o evangelho renova?

      Novo por imitação. Aí, parece aquela experiência ridícula do sujeito que não sabe envelhecer. Tenta empatar o tempo. Veste-se, fala-se e pinta-se como novo e vira-se um arremedo. Ridículo.

      O novo é original. Não reveste o que se desgastou, para apresentar disfarçado  de novo. E outra coisa, o novo é selfmade: autorrenovável, faz-se a si mesmo e, por isso mesmo, impõe-se.

       Na verdade, há coisas antigas que, por virtude intrínseca, se mantém, enquanto que outras, de novas, só a fama: têm prazo (curto) de validade.

      O evangelho, em si mesmo, traz nova ótica, a qual permite filtrar o que, mesmo antigo, conserva seu valor, daquilo que, exibido como novo, vale menos, pouco ou nada.

      De si mesmo renovador e ainda dado, em sua mentalidade, como um filtro de qualidade, o evangelho entra renovando a vida daquele que o incorpora, de quem o aceita, acolhe, abraça e divulga.

      Pela ótica e método do evangelho, brota espontâneo um controle de qualidade para despir-se do velho, que se desfaz, e incorporar o novo que, permanentemente, se refaz.
   

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Sermão quase pregado V

       A igreja é quem, no mundo, imita Cristo. Paulo Apóstolo afirma "sede meus imitadores como eu sou de Cristo". E, noutra carta, "sede imitadores de Deus, como filhos amados, andando em amor do mesmo modo que Cristo".

       Definitivamente, a igreja, no mundo, vive Cristo. Aponta Cristo por si mesma, conduzindo outros à fé. Portanto, de que maneira pode a igreja compreender e levar a efeito sua imitação de Cristo, senão pelas Escrituras?

      No crente o Espírito habita e opera, como esclareceu Jesus, conduzindo à verdade. Fazendo lembrar tudo o que Jesus fez e ensinou. Somente pelo suporte concedido pelo Espírito, a igreja será igreja.

       Nas Escrituras consta o modelo de conduta e ministério da igreja. Em sua primeira obra, Lucas previne que vai expor a pessoa do Mestre. E sempre o indica dando prioridade às pessoas. O primeiro erro da igreja será não dar prioridade às pessoas.

      Deus dá prioridade às pessoas. Maria pergunta, no início da história que Lucas conta, como se achará grávida, se não contraiu núpcias com homem algum. O anjo responde como a virtude de Deus, pelo Espírito, vai envolvê-la, a ponto do ente nela gerado ser, autêntica e verdadeiramente, o filho de Deus.

      A vocação de Deus foi tornar-se homem. A prioridade de Deus é amar pessoas. Se há na missão da igreja uma prioridade é amar pessoas. A pergunta urgente é se a igreja tem, no mundo, vivido essa prioridade única.

Sermão quase pregado IV

       Atos dos Apóstolos, igreja em ação, plena do Espírito, seguindo e segundo instrução de Jesus: não arredar pé, "até que do alto revestida de poder".

      Pentecoste ao inverso. Não confundir "poder" com poder. Presos os apóstolos, em função de sua autenticidade. Que obstáculos hoje a igreja enfrenta por insistir em manter sua identidade?

       Para Paulo Apóstolo, quem quiser viver piedosamente ligado a Cristo Jesus, será perseguido. Em Atos, capítulos adiante, foram acusados de "encher Jerusalém", encher a cidade com a sua doutrina, deles, dos apóstolos, no caso, de Cristo.

        Que pensamento hoje enche a ciadade? O que a igreja está anunciando? Do que ela enche a cidade? Que doutrina a igreja segue hoje, refletindo-a no dia a dia?

      Em Atos era penoso pregar, viver e defender o evangelho. Alguém duvida da autenticidade desses registros? Há dúvida se, em suas páginas, o registro do evangelho corresponde ao teor único do verdadeiro evangelho?

      Há dúvida se a igreja daqueles dias pregava-vivia-pregava o evangelho? Há dúvida se a igreja de hoje prega-vive-prega o evangelho?

Sermão quase pregado III

       Em Atos deparamos o Pentecoste. Mais que milagre, foi anúncio de Cristo. E Pedro tomou das Escrituras. E, fazendo assim, começava a igreja, como o próprio Jesus havia instruído, a não arredar pé enquanto não fosse cheia do Espírito.

       Chequem aqui os três tópicos: (1) anúncio do evangelho; (2) referencial das Escrituras; (3) presença da igreja no mundo.

       Quer-se hoje o milagre. Até mesmo como fonte de mídia e renda. Nada do anúncio de Jesus. Pouco, talvez. Tímida a igreja, com certeza.

      Que resultado foi desse primeiro anúncio do evangelho? Foi a primeira vez, após a ressurreição de Jesus, que atreveu-se a igreja a pregar. Eles perguntaram "que faremos, irmãos?".

       Arrepender- se, crer, obter remissão do pecado e receber o Espírito como dom. Plenamente atingido o alvo do primeiro sermão assim pregado.

     Comprovada (1) a autenticidade do evangelho, (2) usada a Escritura como referência e (3) checada como profícua a presença da igreja no mundo.

Sermão quase pregado II


         Partindo de Atos dos Apóstolos, ora, por que o livro 2 de Lucas e não o primeiro? Porque já defrontamos, em Atos, o evangelho em exposição e defesa.

        Portanto, desse modo mais próximos da realidade presente, faz-se a seguinte pergunta: como auferir se a igreja de hoje prega, mais que isso, vive a autenticidade do evangelho?

        Ora, a resposta passa pelo uso das Escrituras, para que se saiba tanto da autenticidade do evangelho, quanto da identidade da própria igreja. Isso acaba por antecipar a questão do tipo de igreja que aparece no mundo.

         Então, embolam-se os três possíveis tópicos do sermão quase pregado: (1) o evangelho conteúdo da "plena verdade em que somos instruídos"

       (2) registra-se nas Escrituras que, ao mesmo tempo que apresentada como referência permanente, avalia até que ponto

        (3) pregamos-vivemos-pregamos esse evangelho, sendo igreja no mundo.

Sermão quase pregado I


         O que se preze, começa por uma Introdução. No caso deste, baseou-se, coincidentemente, na Introdução do Evangelho de Lucas.

       A ideia é boa: destacar o procedimento ali indicado como aplicável a todos os demais livros e escritores da Bíblia.

       Quanto ao método indicado, dizer que todos eles, como Lucas, foram meticulosos e criteriosos no que escreveram.

       Quanto ao conteúdo, dizer que Lucas, com seu procedimento, entregava a Teófilo um referencial pronto para a fé em que ele foi instruído.

        Ora, dizer que, pelo menos, na tentativa de datar o texto, lá se vão quase 2.000 anos desde que foi escrito é, no mínimo, emocionante tê-lo preservado, e mais, servir-se dele como referência.

        Juntando o Evangelho de Lucas com seu livro histórico Atos dos Apóstolos, podemos instigar três coisas: (1) uma referência dada para, veja bem, de uma vez por todas, "ter plena certeza da verdade em que (Teófilo e nós) fomos instruídos".
     
        (2) de uma vez por todas, fixa-se um referencial que, como os demais livros das Escrituras, cumprem seu papel, qual seja, obviamente, como Escritura, tornar-se referencial permanente.

        (3) uma vez Lucas desejando confirmar, com "plena certeza", a Teófilo e, por extensão, a cada um de nós, "nas verdades em que fomos instruídos", que tipo de pessoa ter como resultado?

       A proposta seria tríplice: refletir (1) que poder tem esse evangelho, assim registrado e, por isso, autêntico para, (2) por meio das Escrituras promover, na vida de Teófilo assim como na nossa, o (3) efeito que nos torna, no mundo, imitadores de Cristo.

       Primeira etapa do sermão não pregado.
     

domingo, 6 de agosto de 2017

Artigos soltos 25

A adúltera

      Publicamente exposta. O grupo arremeteu contra ela. Mas a ideia foi, certamente, de alguns: propositalmente confrontar Jesus com a cena para avaliar sua reação.

      Tinham-na previamente definida: caso ele afirme que se cumpra a lei de Moisés, será contraditório falar em amor; caso ele, por amor, segundo prega, bloqueie o apedrejamento, vamos denunciá-lo por não cumprir a lei.

       Não entendiam que não há, entre lei e amor, contradição: este é mais do que aquela, porém não a contradiz. Jesus escrevia na areia. Eles davam vazão ao tumulto, hipocritamente clamando por justiça.

       Até que mencionaram pelo nome: o que fazer, Mestre? Jesus responde: para apedrejar, apanhem pedras os que não têm pecado. O efeito desse argumento bloqueou-lhes toda a ação.

      Muito provavelmente Jesus deve ter voltado ao que, talvez até, displicentemente, fazia. Um a um foram-se, retirando-se. Sobrou a mulher agora exposta sozinha diante de Jesus.

       É necessário sobrar sozinhos expostos diante de Jesus. Ele se dirigiu a ela, irônico. Muito provavelmente com ar de riso de amor nos olhos, embora traço de tristeza pela dureza da turba.

       "Onde os teus acusadores?". Ela disse não sei. Nem eu te condeno. Jesus não condena, somente salva. Recomendou à mulher que fosse, mas optasse por uma nova vida.

      Diante de Jesus sempre há opção por uma vida que se renova. Dali em diante aquela mulher entendeu isso.

sábado, 5 de agosto de 2017

Artigos soltos 24

A mulher do bálsamo derramado.

      Atrevidíssima. Não era seu espaço. Sua entrada aguçou a percepção do grupo. Muito provavelmente o fariseu anfitrião entrou em alerta.

       Deve ter fixado olhar na direção dela e notou que procurava por alguém. Jesus. Quando os olhares se encontraram, o fariseu exergou a chance desejada, de expor o Mestre ao ridículo.

      Foi gradual. A mulher ganha a direção do Mestre. Carregava um pote de bálsamo. Aproxima-se, ajoelha, toma nas mãos os pés de Jesus, lava-os no perfume, enxuga-os com seus cabelos, beija-os.

      Também foi gradual, no ânimo doentio do fariseu, perceber a chance que queria para envolver Jesus com a mulher que ele sabia prostituta. Aliás, gritou em sua mente a dedução fruto de mesquinhez.

      "Se fosse profeta, haveria de reconhecê-la prostituta". Jesus sabia. E estava com ela mais envolvido do que supunha o fariseu. Aliás, era amor: o nome do envolvimento com Jesus se chama amor.

       O que quebrou o silêncio, de súbito, substituindo o ruído dos beijos, foi a voz estridente de Jesus. A pronúncia do nome Simão, relativo ao fariseu, quebrou sua sequência lógica doentia. Estremeceu.

       "Simão, quem ama mais: quem tem perdão de dívida maior ou dívida menor?". Maior, respondeu o dono da casa e da festa. Por isso, Simão: essa mulher que você diminui, ama-me mais do que você, que julga dever menos.

      Jesus enumerou, no fariseu, os sintomas: "Sem óleo para asseio do rosto e cabelos, sem ósculo fraternal, sem alívio para os pés de andarilho, calosos e empoeirados." Quanto à mulher, não cessa: unge, alivia, enxuga e beija os pés.

      Quem mais ama, pergunta Jesus? Aquele a quem mais se perdoa, responde Simão. Por isso, responde Jesus. Na verdade, é igual a proporção do perdão. Também a proporção do amor. Porém, liberta estava a mulher. Prisioneiro de si mesmo era ainda o fariseu.

   


     

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Artigos soltos 23

A samaritana

        O que a mulher trazia, com o cântaro, à fonte, somente Jesus sabia. A sede era, nele, verdadeira e, na mulher, angustiante.

       A pergunta intencional do Mestre teve endereço e circunstância precisa: "dá-me de beber." Soou estridente para ela. "Como!?".

       Soou dúplice para ela. Como? Esse israelita ousa invadir meu dilema íntimo. Ao mesmo tempo indignada, ao mesmo tempo admirada.

       Sou mulher. Nem só isso, por si, desprezível e muito menor. Também sou samaritana. E ainda acrescentaria: sem marido fixo.

       A franqueza da mulher cativava Jesus. Provocou: há duas sedes, a sua e a minha. Se souberas, pedirias e eu te daria da água da vida.

      Jesus sempre surpreende. Como!? De novo a mulher perguntou. Vá buscar seu marido. A verdade na mulher cativou Jesus.

       Vejo que tu és profeta. E todas as dúvidas dela foram se dissipando. Franqueza, verdade no íntimo e sede são elementos constitutivos de adoração.

       Mulher, chegou tua hora. Eu, eu que falo contigo. Os verdadeiros adoradores são encontrados pelo Pai. Importa que Deus seja adorado em espírito e em verdade.

       De súbito, chegaram os apóstolos. Sutis, em seu tumulto. Achavam que Jesus não tinha que falar com aquele tipo de mulher. Mas, a essa altura, esquecido o cântaro à beira da fonte, ela encontrara seu manancial.

      De dentro dos que creem, fluem rios de água viva. Isso Jesus falou com respeito ao Espírito que haveriam de receber todos os que nEle cressem.

      Deixa-se à beira da fonte até o que, nesta vida, é essencial. Há sede maior: de vida plena. Alargamento de todas as angústias. Ela chegou diferente à vila: "vinde e vede o homem: será, porventura, o Messias?". Ela os provocava.

      A mulher encontrou o Messias.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Artigos soltos 22

Mulheres

        Muito interessante a relação, em Lucas, de mulheres que atendiam Jesus: Maria Madalena, Joana e Suzana.

       Imaginem Joana, esposa do procurador de Herodes. Consciência de serviço da parte de alguém de nível social elevado.

        Ali está escrito que, além dos apóstolos, elas acompanhavam o grupo de cidade a cidade. Também consta que uma de suas tarefas era "servir com fazendas", ou seja, suprir o Mestre por meio de dinheiro.

         Mais interessante é a menção de que muitas outras mulheres procediam do mesmo modo. Por essa ótica podemos enxergar outras situações de valorização da mulher nos outros evangelhos.

         A conversa com a samaritana provocou estranheza nos apóstolos. Além de ser dentre os vizinhos rejeitados, considerados mestiços, falsos judeus, era mulher e, certamente, tinha mesmo aparência de uma esposa de cinco "maridos".

        Ela própria não escondeu isso de Jesus. Outra que também se atreveu, foi a meretriz que invadiu a cena do banquete na casa do fariseu, para ungir com bálsamo, enxugar com os cabelos, acariciar e beijar os pés de Jesus.

       Muito sensual, segundo a opinião do anfitrião. Jesus denunciou-lhe o preconceito e demonstrou que, mesmo pelo raciocínio torto do dono da casa, quanto mais pecado, mais razão para amar e ser amado por Jesus.

       E a defesa feita, com relação àquela adúltera, humilhada publicamente. Inexistia qualquer senso de justiça: era tudo a pretexto de desmoralizar
 Jesus. Mais sincero foi o amante, propositadamente deixado de lado, do que os fariseus, dela servindo-se dissimuladamente.

        Por fim, o anúncio feito à Maria Madalena na ressurreição. O tom de voz com que a ela se dirigiu. Com que voz? As mulheres devem mesmo ouvir Jesus de um modo bem diferente daquele que os homens ouvem.
     
         Com que seriedade mulheres verdadeiramente cristãs prestam atenção em ouvir Jesus. Como aquela outra Maria, em casa de Lázaro. Nada vai distraí-las de ouvir. Na opinião de Jesus, escolheram uma melhor parte que não lhes será tirada.
       
       

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Artigos soltos 21

Galileia

      Prioridade. Sem dúvida, Jesus tinha, estabelecidas para si, prioridades. "Uma comida tenho para comer. Minha comida consiste em fazer a vontade do Pai". Enfim.

      Uma delas foi o plano de reunir colaboradores. Era, muito provavelmente, uma radiante manhã de sol no lago da Galileia, uma mar de tão grande.

      Jesus perambulava por suas margens. Nunca sem um propósito bem definido. A urgência de sua missão requeria. Deu com os pescadores por ali. Era seu mister. Se queria encontrá-los, garantido que seria ali.

         Marcos aponta-os como estando a recolher redes. Pelo menos quatro dentre eles pertenciam a dois grupos distintos: remediados financeiramente, Tiago e João, os filhos de Zebedeu, ao ouvir o chamado de Jesus, deixaram com os empregados suas redes.

         Os irmãos André e Pedro recolheram suas próprias redes, certamente por não dispor de quem por eles fizesse: donos, apenas, de suas redes, provavelmente até usassem os barcos da empresa de pesca de Zebedeu.

       Galileia dos gentios, apelido dado pelos judeus. Ambiente das prioridades de Jesus. Inverteu a prioridade dos pescadores a quem chamava: "vos farei pescadores de homens". Cumpriu o prometido.

       Galileia dos gentios: "o povo que andava em trevas, viu grande luz; sobre os que habitavam na terra da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz". Jesus não escolhia ricos ou pobres. Ele escolhia ricos e pobres.

       As prioridades de Jesus vão demonstrar que, em meio a todos, sem se esconder de ninguém, circunscreveu na Galileia seu ministério: "graças te dou, ó Pai, pois encondestes de sábios e cultos essas verdades".

      A prioridade de Jesus é circunscrever seu ministério a menos favorecidos. Talvez porque os mais favorecidos têm com que se ocupar, não têm muito com que se preocupar e, por isso, dão-se por satisfeitos.

      Ocupando-se somente consigo próprios, nunca serão pescadores de homens. Nunca inverterão suas prioridades. Nunca terão as prioridades de Jesus. Nunca terão as prioridades da igreja.

domingo, 30 de julho de 2017

Mal traçadas linhas 50

Pacificadores

        Ora, pacificadores. No grego, é literal: "fazedor da paz". Pacificador, como tradução, encaixa-se perfeitamente.

       Coisa de raiz. Na Bíblia, começa pela paz com Deus. O Livro indica que somos inimigos de Deus, no entendimento. E em nossa vida manifestam-se, em nosso fazer, os resultados dessa condição.

        Não dá para ser "fazedor da paz", no plano horizontal, se não houver como Deus, de cima para baixo, a pacificação. Portanto, paz começa na ação de Deus a nosso favor. Ele, por excelência, é o pacificador.

        Paulo Apóstolo refere-se a Cristo, de modo tríplice, na Carta aos Efésios, dizendo ser Ele a paz, ter feito a paz e anunciar a paz. Jesus anuncia a paz como opção à humanidade.

     Anseia tanto por ela que Lucas anota ter Jesus, diante de Jerusalém, na semana anterior a sua morte, ter chorado, assim expressando-se em relação à cidade: "ah, se por ti mesma conhecesses o que é devido à paz".

       Jesus ansiava por paz. Comunhão com Deus e com os homens significa paz. Paulo Apóstolo afirma paz como decorrência de justiça: "justificados pela fé, temos paz com Deus". Tiago também, quando diz "ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que são pacificadores".

       Paz, fé, justiça e comunhão entrelaçam-se. Pacificador alcança sê-lo por fé. E satisfaz-se o fruto de justiça por paz, que enseja comunhão. Paz significa pagamento da dívida com Deus.

      Jesus é a nossa paz, fez a paz e anuncia a paz: ah, se conhecesses, por ti mesmo, agora, o que é devido à paz."

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Mal traçadas linhas 49

Os limpos de coração verão a Deus.

      Supondo-se ver Deus, só para limpos de coração. Porém, antes mesmo de discutir essa possibilidade, quem limpo de coração?

       A própria Bíblia, num de seus Salmos, denuncia que Deus olhou do céu e não viu nem um justo sequer. Portanto, supondo seja possível ver Deus, não há esse.

     Seria, então, um blefe? Sentido figurado, então. Em que sentido, pois? Ver, no sentido bíblico, não admite meios termos e é muito, incomparavelmente mais e maior do que o "ver" humano.

      Há quem reclame de fé, admitida, nesse caso, como algo muito vago. Mas é garantido que extrapola o simples ver. Sentidos enganam. Imagem, muitas vezes, senão sempre, é distorcida.

      Não há limpos de coração, no sentido absoluto. E os que Deus purifica e santifica também não se pode dizer deles que, definitivamente, o sejam.

      Estamos, portanto, diante da seguinte situação: ver Deus não é blefe e também não se reduz a enxergar com olhos humanos. Para isso existe a fé.

    Deus, em essência, mostra-se, revela-se e anseia pelo cara a cara. Como limpos de coração, para vê-Lo, Ele mesmo se encarrega de os purificar.

      Faz com extrema e suficiente competência. Por isso deseja, em pura amizade de amor, vê-los, assim como deseja, expondo a Si mesmo, ser visto.

    Como requereu Felipe, "mosta-nos o Pai, isso basta" e replicando-lhe, Jesus afirmou: "quem me vê a mim, vê o Pai". Limpos de coração, vede Deus.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Mal traçadas linhas 48

Misericordiosos

       Não há como teorizar a coisa: aprende-se misericórdia sendo misericordioso.

       No texto bíblico, misericórdia tem dois vocábulos, um deles significando "entranhas" e o outro traduzido "amor".

        Moisés, o homem mais próximo de ver Deus em Sua glória, exclamou dEle: misericordioso. Este texto, cristalizado ao longo da história, permitiu Naum dizer o mesmo de Deus, mas acrescentando: não inocenta o culpado.

         João diz: Deus é amor. É amor porque compartilha esse amor conosco. E Deus prova o Seu amor, diz Paulo Apóstolo, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. Somos os culpados que Naum aponta.

        Amor em Deus é prática. Só se aprende amar na prática do amor. Praticamos amor se nascemos de Deus. Se Ele tem entranhas de misericordiosa, aprendemos a ter quando nascemos de Deus.

        Somente na prática da misericórdia, alcançaremos misericórdia. Isso não significa dizer que primeiro vem a nossa misericórdia, para depois alcançarmos favor de Deus.

         Significa dizer: quem recebe em si da misericórdia de Deus, apreende a ser misericordioso como somente Ele é.

Mal traçadas linhas 47

Fome e sede de justiça.

    Quando? Quando alguém tem fome e sede de justiça? Quando serão fartos?

     Fome e sede são duas carências de diferente grau. É mais um esboço permanente de atitude do que um determinismo.

     Quer dizer que ser farto dessa carência, em relação à justiça, pode ser remoto, mas a fome e a sede devem prevalecer. Mesmo porque há justiça e justiça.

    Há a que é comportamental, decorrência do dia a dia, pro gasto. O cara quer disputar comigo na arrancada do sinal: deixa, deixa ele ir. Eu ganhar, no arranque, não vai provar nada.

    O guarda negaceia, hesitando em me multar, quer seu trocado: não adianta. Não vou molhar a mão dele. Justiça para o gasto.

     Mas há a que é fundamento de todas as outras. Fim último. Quem crê, associa essa justiça a Deus. E diz que todos, com essa, temos dívida. E também diz que, decorrente de "ficha limpa" com relação a essa justiça, decorrem os efeitos práticos de todas as outras.

     Fome e sede. Sacie-se da fome e sede de Deus, em satisfazer Sua justiça. Decorrente disso, mantenha a sua própria fome e sede de justiça: mediata ou imediatamente, vai prevalecer toda a alegria.

     Cheios de alegrias os que têm fome e sede de justiça (embora, vez por outra, sejam bem-aventurados também por chorar).

domingo, 23 de julho de 2017

Mal traçadas linhas 46

E os mansos?

       Herdarão a terra. Logo a terra, pela qual, através da história, tantas brigas houve e milhões de vidas foram ceifadas.

       Quanta ironia! Uma vez verdadeira essa afirmativa, só há uma pergunta a ser feita: que poder há na mansidão que se lhe permite dizer que, em seu portador, residem condições de herdar a terra?

        A não ser que, no caso aqui, herança signifique último termo, quer dizer, no final das contas a herança final será dos mansos. Eles prevalecerão junto à e com a terra.

        Ou por que razão os "não mansos" abririam mão da terra, para doá-la aos mansos. Não existe essa possibilidade. A não ser que, um dia, não mais existissem "não mansos" e somente mansos herdassem.

       Talvez seja essa ideia. Partindo da Bíblia, como afirmativa, haverá, sim, tempo profético escatológico onde somente mansos existirão. Na Bíblia há coisas e afirmativas somente possíveis como promessa e ação de Deus.

        Aliás, a questão é perguntar se prevalece importância na Bíblia se não for levado em conta exatamente isso, que o valor dela reside no fato de apontar promessas e ação de Deus.

       Aqui está expresso que a totalidade de alegria, toda a alegria, a bemaventurança dos mansos é essa: herdarão a terra. No final das contas, vale mais ser manso. Vale menos o valor da terra.
   
       Por enquanto, prevalece o poder de quem o detém e usa para ser dono da terra. Mas e o poder de Deus? Não conta? A Bíblia pergunta sobre quem tem mais poder: se aquele que mata e enterra ou se Aquele que chama, da terra, de volta à vida.

        Aqui entra o poder de Deus. Pelo poder de Deus, a terra é herança permanente dos mansos. Felizes são eles. Porque Deus tem poder para chamá-los de novo à vida. Seja manso. Sejamos mansos.

       Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Mal traçadas linhas 45

Por falar em bemaventuranças

     A primeira entre elas fala de ser humilde. Etimologias à parte, vamos supor que signifique ser consciente de sua real condição. Por exemplo, a condição humana: onde há espaço para orgulho?

     Habacuque, o profeta, contrapõe fé a soberba. Ele diz que o soberbo não tem em si retidão. Mas o justo, vive de sua fé. Está aí outro elemento que confere precisão à real condição humana.

     Paulo Apóstolo aponta humildade como o principal destaque da personalidade de Jesus. Quando diz que não julgou como usurpação o ser igual a Deus. Esvaziou-se e assumiu a forma de servo.

     Está aí outra combinação de elementos que se equivalem e só ocorrem juntos: humildade, fé e serviço. Na vida humana, uma vez enxergada a real condição, resta crer e se entregar ao serviço.

     Nessa primeira bem-aventurança para os humildes, está escrito, deles é o Reino de Deus. Não quer dizer que têm um prêmio. Quer dizer que todos do Reino são humildes. Por isso enxergam e entram no Reino.

      Na entrevista com Nicodemos, Jesus o provocou a entender o conceito de Reino: não dirão ei-lo aqui ou acolá, porque o Reino é Deus em nós. Uma vez entendida a real condição, pela fé, Deus em nós.

     João Apóstolo diz, com respeito a uma palavra de Jesus, que este disse "eu e o Pai viremos para ele (para quem crer) e faremos nele morada".

      Bem-aventurados os humildes.

Mal traçadas linhas 44

Os que choram

       Bem-aventurado os que choram? Mas que choro? Qualquer choro? Qualquer um? Basta chorar? E quem avalia o tipo de choro? Quem chora ou quem assiste?  

       Há variados tipos de choro. Por ódio, por exemplo: não viu completada no outro a vingança que queria. Por amor, que seja. Choro por raiva. Choro por alegria. Choro por razões justificáveis e outras injustificáveis.

       Linhas depois desta, há outra bemaventurança: bem-aventurando os que tem fome e sede de justiça. Está aí uma boa razão de choro: chorar de fome, de sede ou fome e sede de justiça.

        Mas não deve ser literal, porque se for chorar por essa razão aí, que seja o mínimo de lucidez, olhando à volta, não se vai parar de chorar. Neste caso, alguma alienação se torna necessária.

       Chorar pelo que é meu. Esaú chorou quando entendeu o que foi jogar fora seu "direito de primogenitura" que, para ele, era burocrático e desprezível e, para Deus, pleno de sentido.

      Jonas deve ter chorado, por dentro e sem lágrimas, de não ver Nínive, como uma Pompeia dos tempos romanos, ter sido subvertida e submergida como Sodoma e Gomorra.

     Jesus chorou, mesmo sabendo que estava para ressuscitar Lázaro e trazer de volta a alegria àquela família e, aos adversários, a gana de morte contra ele próprio.

      Alguma sensibilidade e alguma lucidez serão necessárias a quem chora. E alguma atitude, também. Talvez choro insite oração e ação. As bem-aventuranças acontecem juntas na vida de quem enxerga e já entrou no Reino de Deus.

     Talvez chorar, do jeito certo, seja sintoma de parecença com Deus.
   

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Salvar alguém como eu.

         Gravado pelo Grupo Elo, em 1977, consta de um arroubo de reflexão sobre a condição humana. Faz a gente refletir sobre a nossa própria.

        Supõe, uma vez confirmada a palavra bíblica, que Deus se ocupa, pessoal, intransferível e individualmente com a salvação. Vocação, no mínimo, estranha escolhida pelo Altíssimo para Si mesmo.

         Sim, porque se imagino Deus ocupado em me amar, caramba, agora num arroubo meu de (falsa) modéstia, surpreende-me se ocupe comigo. Para logo deduzir que, agora sim, tomado por arroubos de Sua divindade, amar-me combina com Ele.

          Porém, é desconcertante assumir a diversidade desse amor. Porque somos seletivos nessa história de "amor" ao próximo. Não saímos, por aí, amando, ciosos de não queimar nosso filme.

       Adotamos uma visão "cristã" da coisa, porém não radical. E aí, deparamos Jesus, expressão exata de Deus, refletindo no que é um envolvimento sem acepção (ou assepsia) de pessoas.

       Deus ocupar-se em amar todos e cada um. Ele que tudo sabe e tudo perscruta, ainda se faz Espírito para, além de uma vez se ter feito homem, ocupar-se da intenção de estar dentro dos que ama.

         Cara, uma vocação dessas, de se envolver, individualmente, com a falência humana é, no mínimo, excêntrica. Imergir no íntimo onde ninguém chega e, se e quando o faz, veste fantasia, impondo máscara. Hipócritas caras de pau nós somos.

domingo, 16 de julho de 2017

Mal traçadas linhas 43

        A questão da culpa é complicada, sim, no entendimento de alguns. Por que há grande resistência em entender a graça? As pessoas não aceitam que, para purgar suas faltas, nada podem fazer.

       Torna-se, em si, contraditório. Admitem ter que alguma coisa "fazer" para compensar. Então, estão admitindo dívida. Mas resistem em admitir que, por sua natureza de culpa, um só ato fora de si mesmos,  de uma vez por todas, zera a conta.

       Talvez a razão seja por seu convencimento de que precisam autojustificar-se. Desejam manter consigo toda a iniciativa, seja na sua própria ação, suspeita que seja, seja na providência para inocentar-se, satisfazendo sua consciência.

      A impressão que fica é que haverá trapaça. Que não há nem justa proporção de avaliação da falta cometida e que, na proposta da compensação por ela, querem guardar consigo a proporção do preço, como se fosse um "caixa dois" da culpa ou uma "propina pelo pecado".

      Deixa disso. Ninguém é capaz de avaliar a própria culpa. Somente Deus perscruta a natureza do mal cometido e todas as implicâncias dele, em quem pratica, e nos efeitos na comunidade.

      E só Ele, por um único ato Seu, pode sanar a culpa e todas as consequências do mal. Entregue-se a essa evidência. Não tente manipular a situação, tentando autojustificar-se. Não há o que fazer, por compensação, e nem como fazer. Há que crer.

      Quem deseja agir com e por boas obras, entenda que a essência do bem é graça. Não há retorno para quem tenta, no específico da culpa, "caixa dois" ou "propina". Quem faz, por desejar justificativa no seu ato, exige compensação que, em essência, é trapaça: na avaliação do preço e na canhestra compensação.

      Por um único gesto da graça de Deus, toda a culpa é perdoada, toda compensação se cumpre e todo o pecado está sanado. Sem complicações. Permita-se conduzir pela lógica do Espírito, no compartilhamento da fé. Acolha, em si, a graça.

sábado, 15 de julho de 2017

Constatação 2

Desagravo

     Vai desculpando aí. Vamos direto ao assunto. Devo desculpas, caro leitor, por te chama "canalha", no texto anterior. Não quis ofender.

     Neste texto vou abrir o anterior. Troque a palavra "canalha", no anterior, pela palavra "pecador", termo técnico bíblico. O raciocínio passa a ser: todo canalha é pecador e todo pecador é canalha.

    A Bíblia coloca todos os viventes, sem nenhuma exceção, nessa condição. Quando me referi, no texto anterior, a mim mesmo, estava afirmando que, se não fosse Deus, eu não seria convencido de que sou pecador.

   A coisa é individual, individualíssima, intransferível: todos pecaram. E, no texto, referi-me ao fato de Deus, pessoalmente, ter-me convencido disso. A Bíblia afirma que "a tristeza segundo Deus produz arrependimento".

    Arrependimento é a tentativa de colocar-nos, de novo, no Éden bíblico, ou seja, perfeitos e no paraíso. Utopia. Não dá para tornar atrás desse jeito. Então Deus, sempre realista, assume a condição humana. Essa é a história da Bíblia.

    O envolvimento pessoal de Deus com o pecado se dá para, por meio da Sua morte e ressurreição em Cristo, livrar-nos, inexoravelmente, de nossa condição. Não se trata de utopia ou enganação: trata-se de realidade, lógica e, consequentemente, fé.

     Deus comprou Sua igreja pelo seu (dele) próprio sangue. Igreja de Deus é o grupo, a grei, não e nunca uma instituição, que ele deseja congregar. Deus é congregacional, desculpe o trocadilho. Não é brasileiro e, muito menos, flamenguista: mas congregacional ele é.

      E Jesus sempre foi boêmio. Se dava com todos e qualquer um. Tinha predileção pessoal pelos socialmente proscritos. Caso você tenha o corrente nojo social, não vai apreciar o cheiro de Jesus. Também, por sua vez, não vai espalhar o Seu perfume, entendeu? Não? Então, leia a Bíblia.

      Deus me colocou diante do meu pecado. Termo bíblico genérico e, ao mesmo tempo, específico da condição permanentemente danosa e socialmente dissimulada em que cada um se encontra imerso.

     Deus, em Cristo, pessoal e intransferivelmente cuida disso. Cristo morreu a nossa morte, para que recebêssemos em nós Sua ressurreição. Nos concedeu pela fé Sua justiça e santidade a preço de sangue.

      Deculpe o "canalha" do texto anterior. Excluo você da lista. Deixa só que eu assim me considere. Mas pecador, todos somos.

   

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Constatação

Por quê?

    Diante da pergunta por que sou crente, uma variação possível de respostas podem ocorrer. Mas, de súbito, me ocorre dizer que, basicamente, há um ponto de partida.

    Eu sou um canalha. E a consciência disso, por incrível que possa parecer, tem a ver com Deus. Por mais irônico que possa parecer, se não fosse por Ele, eu jamais admitiria isso.

    Evidentemente há um círculo, talvez até restrito de pessoas, ora, admite-se, tenho 60 anos de vida, que folga em concordar e até, por que não dizer, deleita-se com o fato dessa afirmação.

     Pois conta menos a opinião alheia, assim como a minha não contava também, até que Deus me colocou diante de mim mesmo. Daí em diante, não precisou ninguém mais acusar-me do fato.

     Necessito, desesperadamente, do sangue daquela cruz. Não há, para mim outra, falo de mim mesmo, pois essa constatação é pessoal, eu a procuro como minha única saída.

    Não me envergonho de dizer isso e, falar assim, só serve para mim mesmo. Tornar-se "crente" foi contingencial e, sendo assim, tornar-me um pastor, mais contingencial ainda. Não melhorei com isso.

     Copio as palavras de Paulo, quando disse que, por amor da cruz perdem-se todas as coisas e tudo o mais é considerado refugo, a fim de se ganhar Cristo sem que se tenha justiça própria, senão aquela que vem por meio dEle, não de lei, não da carne, mas aquela cujo louvor só provém dEle.

     Se há quem se alegre com minha confissão, concordando que sempre me soube um canalha, advirto que sua opinião não me interessa. Nesse caso, só interessa a minha.

     Individualmente somos colocados, por Deus, diante da realidade de que, desesperadamente, carecemos da cruz de Cristo. E, pior para alguns, para quem é doloroso ter que admitir, todos em igual condição.

     É melhor não rir de mim. Você também é canalha.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Artigos soltos 20

   Visão de Ezequiel - final

   Numa visão como essa, desde seu prenúncio, passando pelo decorrer da cena e até o seu final, há um clímax.

   No caso de Ezequiel, deu-se quando divisou uma aparência metálica, bem no meio do cenário, assentada numa espécie de trono, por cima de um dado firmamento, que era fogo, dos lombos para cima e dos lombos para baixo.

   De novo, era uma figura humana. Desde que Deus afirma que vai criar homem e mulher a Sua imagem e semelhança, no Gênesis, pode crer, o Altíssimo reservava surpresas.

   Adiante na história, quando diz à mulher que o descendente dela, mordido no calcanhar, esmagará a cabeça da serpente, trata-se do prenúncio da revelação plena de Deus em Jesus.

   E no próprio Deuteronômio, a mais enfática advertência contra a idolatria enfatiza que nenhuma aparência foi vista nas teofanias, ou seja, nessas súbitas aparições de Deus em visões proféticas no Antigo Testamento.

   E quando houve, como no caso de Ezequiel, uma como forma humana ganha destaque. Para Deus dizer ao projeta quatro coisas: (1) esta era a forma da glória de Deus; (2) que, a partir de então, Ezequiel falaria "assim diz o Senhor"; (3) que quer ouvissem ou deixassem de ouvir, saberiam que no meio deles esteve um profeta; (4) que, para tanto, o profeta comesse o Livro, escrito por dentro e por fora.

   Veja você mesmo, conferindo e, para isso, sugiro a leitura atenta de 2 Coríntios 3, se não são (ou deixam, infelizmente, de ser) exatamente essas as características da igreja: (1) refletir a glória de Deus no rosto do crente; (2) falar no e ao mundo em nome de Deus; (3) ser profeta, no contexto social, quer ouçam, quer deixem de ouvir; (4) e, para tanto, "comer o Livro", ou seja, ler, viver e proclamar a Bíblia, exatamente nessa ordem.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Artigos soltos 19

     Rosto de homem. Os seres viventes que prenunciavam tratar-se de visão da glória de Deus tinham rosto de homem. Anjos, porém com a nossa cara.

    Era medonhos, assustadores porque, na visão, eram desobedientes às leis da física. Sempre direitos, andavam em quatro direções, ao mesmo tempo, sempre para frente, na direção dos quatro rostos que tinham, presididos por rodas cheias de olhos por todos os lados.

      Medonhos, com ambos os pés direitos, sendo quatro, formavam um todo, agrupados com asas abertas, mutuamente tocando-se uma com a outra, mas sobravam, em cada um, outras duas com as quais, provavelmente, cobriam o corpo, informação esta oriunda de outa visão, a de Isaías, onde esses seres também foram personagens presentes.

       E seus rostos? Cara de homem, sim, mas também de leão, de boi e de águia. Cara de homem, um dia, Deus também, definitivamente, assumiu. E quanto aos outros rostos, alguém já disse que se aplicam às identidades conferidas a Jesus pelos quatro evangelhos, também escritos por homens: homem perfeito, em Lucas; Leão da tribo de Judá, em Mateus; cara de boi, servo para sacrifício de oferta perfeita ao Senhor, em Marcos; e águia, na visão do Deus que se faz homem, em João.

     Não deixa de ser uma ideia e também uma  leitura da visão, que nos quer ensinar que o Deus que assume ser homem, faz nessas quatro dimensões. O próprio autor de Hebreus, em sua introdução, dedica argumentação em demonstrar que, mais do que anjos, Deus assumiu mesmo foi a forma humana.

    Como diz o salmista, o filho do homem, Jesus, foi feito, por um pouco, menor do que os anjos, por causa do sofrimento da morte. E ainda afirma, sobre Jesus, que aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu.

     Espiritualidade é se fazer inteiramente homem, plenamente homem, como o foi Jesus, pleno do Espírito. Há quem pense ser tornar-se deus (ou semideus). Isso quem pensou foi um anjo que pretendeu ser Deus ou mais do que isso. Deus não criou anjos a Sua imagem e semelhança: criou homem e mulher.

    E, na culminância de Sua existência, fez-Se homem, por amor ao pecador, a todos eles, a qualquer deles, eu e você incluídos.

sábado, 24 de junho de 2017

Artigos soltos 18

      Ora, a visão de Ezequiel. Uma vez comentada sua especificidade, comparada a que nos diz respeito, presa ao modo e visto como Deus se revela, individualmente.

     Avistou um revolver de nuvens que procediam do norte, a princípio típica de uma concentração de cumulus nimbus, porém progressivamente mais horrenda do que o aspecto daquelas. Muito mais do que isso.

      Assomava-se. Vinha em sua direção. Não era somente ameaça de uma segura tempestade, porque aquela concentração tinha algo específico a revelar ao profeta.

      Houve um limiar, um limite, uma fronteira na percepção dele, desde que considerasse ser apenas um acúmulo corriqueiro, porém estranho, de nuvens, para, na verdade, torná-lo consciente de que não era rotina.

    Como Elias, em conflito pessoal com sua própria vocação, deprimido e fugindo de Deus, no interior da caverna, não sabia discernir se Deus estava no temporal, nos raios que caíam ou no terremoto. Em nenhum deles. Deus sempre está.

    Como nós, que tentamos discernir as circunstâncias do viver, perguntando como pode? Onde Deus está, que não impõe limites e põe freios à maldade. Querendo deterninar os modos de Deus, quando nem os nossos nem os dos outros determinamos.

    O ser humano não é dono de
nenhuma coerência. Mas deseja determinar, para Deus, uma teologia. Ezequiel, junto aos exilados, perguntava como e por quê? Eles perderam, a um só tempo, sua terra, seu rei, sua liberdade. Caiu, a um só tempo, o trono, o templo, foi-se a terra, só ficou o Livro.

     A única saída era enxergar, afinal, onde está a glória de Deus, aviltada na aposta feita, nessa aliança suicida com um povo rebelde. Ezequiel, de cara, a enxergava.

     Deus diria a ele, em meio à própria relutância do profeta: esse povo rebelde, ouvindo ou deixando de ouvir, saberão que, no meio deles, esteve um profeta. Como está em Amós, nada essencial Deus faz sem que comunique isso ao profeta.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Artigos soltos 17

Escrevendo sobre Ezequiel.

    Começa mirabolante o livro que toma seu nome. Visão em CinemaScope colorida. Esta é a mãe das técnicas modernas de filmagem, surgida em minha geração.

    Ezequiel viu a gloria de Deus, como este escolheu manifestar-se a ele. Sim, porque é da soberania de Deus a escolha do modo como vai, individualmente, manifestar-se.

    Por exemplo, o caso de Paulo que, literalmente caiu (se, na verdade foi esse o transporte) do cavalo. Ou como no caso de André e João, cujo xará, denomindo Batista, apontou, num jeito meio grosso: "Eis o Cordeiro de Deus".

    Ezequiel, assentado entre os exilados, à margem do rio Quebar, amargava-lhes, entre outras coisas, o ódio expresso no Salmo 137. Um anônimo não teve escrúpulos em registrar tal emoção.

     Também, como destacou o pastor Manoel Porto Filho, aquele povo indignava-se com o pedido de seus algozes babilônios que desejavam ouvir-lhes a já internacional e famosa música.

    Mas como, diziam, cantar no cativeiro. Especificamente, disse Porto Filho, é o lugar mais próprio de se cantar. Muito provavelmente Ezequiel lhes seguia o mesmo estado de ânimo.

    E nós, sentados em meio à nossa própria realidade, exilados nela, também não divisamos muito otimismo. Resta-nos divisar a glória de Deus.

    Muito provavelmente, não em CinemaScope. Outro anônimo, o autor de Hebreus, indica que a experiência atual é muito mais próxima da face de Deus. Se assim não divisamos, é por outro tipo de cegueira.

   Talvez pela prática equivocada de não olhar para o rosto do outro. Ver, no rosto do outro, expressão da face de Deus. Isaías diz que não devemos nos esconder do nosso semelhante. Para Deus, não há outro modo de olhar, senão cara a cara.

     Passeando no jardim, pela viração do dia, buscava olhar o casal cara a cara. Nós, que já enxergamos Deus, em Sua glória, devemos encarar o outro, qualquer outro, cara a cara, refletindo a glória de Deus por nosso rosto.

    Paulo a isso se refere, quando diz "somos transformados, de glória em glória, como pelo Senhor, em nós o Espírito".

domingo, 11 de junho de 2017

Oração de criança

   O Brasil se tornou um país triste, de um povo explorado. Tanta alegria existe, de um povo tão espirituoso, que tem música, poesia e dança, só para falar esses três.

   Que comece bem superficial essa análise. Não precisa muito. Tudo no Brasil hoje se resume em poucas palavras, sem muito recurso de definição: políticos cínicos são ladrões descarados, a nação, em sua maioria, de trabalhadores escravos, com impostos escorchantes que sustentam esses desmandos.

    E ainda querem dizer que roubam, sim, de ladrões. Por que são ladrões, dizem eles, porque todos somos ladrões. Eles nem mais se justificam: mentem sempre e culpam seus eleitores: são ladrões, porque todos somos ladrões.

    Não me venham com ideologia, nomes de partidos ou argumento pueril e simplista de esquerda/direita. Desde o mensalão de FHC, que lhe garantiu reeleição, presidenciáveis e ex-presidentes mentem e não assumem o combate à corrupção.

    Não me venham dizer que corrupção foi a desculpa para o golpe em 64, se foi, foi mais uma delas, injustificável, mas corrupção é chaga que existe desde o Império e falta vontade política para acabar com ela. Não acredito em nenhum outro discurso que não seja discutir o fim dela ou, pelo menos, seu combate frontal.

   E não me venham dizer que, como quer o mais recente ladrão-chefe, é necessário emparedar o judiciário. Combatê-lo e negar seu serviço é antidemocrático. Embora eu mesmo reconheça que até democracia, na boca de alguns, é puro pretexto e hipocrisia.

    Por falar em democracia, não existe no país. Porque o grau de impostos nos reduzem a trabalhadores escravos. Para angariar o dinheiro que roubam e desperdiçam. Como dizia Isaías, o profeta, da planta do pé ao alto da cabeça, uma chaga só.

    Como dizia Jeremias, outro entre profetas verdadeiros, que minha cabeça fosse um rio de lágrimas a chorar pela filha do meu povo. Não há mais o que revelar. Já sabemos tudo. Se algo mais vier, será sórdido como tudo já demonstrado.

    Só há superlativos. Tribunal Superior? Desde o presidente e seus cúmplices, são cínicos. Havia quem era contra a Lava Jato? Tornou-se incoerente quando ela alcançou seus próprios cúmplices.

    São corruptos e corruptores e querem que todos sejamos. Se formos honestos, rirão na nossa cara, detratando-nos para dizer que não existe honestidade. Meu Deus, tu existes. Não ignoras o que pratica esse tipo de "brasileiros" desde o descobrimento.

   Bem poderia deixar, soberanamente, ó, Pai, que assim continuasse, pois engendram o que lhes é comum. Mas alguns de nós, com sinceridade, te pedimos: basta. Chega. O tempo de sua ladroagem é suficiente. Pedimos que, por Tua misericórdia, nossa geração veja justiça e que sejam eles os encurralados.
   
   Como crianças, pedimos algo impossível para nós. Mas cremos que, entre homens, há ministros Teus, e Teu reino é realidade e já opera no mundo. Riem de Deus, riem de teus profetas, riem de teus ministros. Riem. Pouco medo nutrem, porque sua glória e segurança está na sua infâmia.

   Basta, Senhor: é a nossa oração. Supreende-nos e a todos e a muitos. Sinal do Teu reino, em nome de Jesus, amém.

domingo, 4 de junho de 2017

Mal traçadas linhas 42

    Todos somos. Todos somos?

      A polêmica sobre a narrativa do Gênesis termina onde a leitura certa da história se cumpre. E deve ser levada a efeito de modo inteligente e com toda a percepção a que se presta essa introdução de todo o Livro.

     Rasteiro, rasteiro o que a narrativa quer deixar bem claro é que a Bíblia, em sua introdução, quer nos dizer que, em certo sentido ou, se preferimos, no sentido mais estrito e restrito, todos somos Adão e Eva.

    Somos Adão porque a raça homem, em toda a sua macheza, o que mais está acostumado a praticar é não assumir-se diante de Deus, de modo covarde, e ainda pôr a culpa na mulher.

    E somos Eva porque a raça fêmea, por mais que, ainda, seja sincera diante de Deus, só pode mesmo admitir ter sido enganada pela serpente, sugerindo ao homem a mesma parceria, para que fossem juntos arrastados ao mesmo buraco existencial.

    Todos somos Adão e Eva. É isso que a narrativa introdutória da Bíblia quer nos dizer. É por essa ótica que ela nos enxerga. O autor de Deuteronômio, no poema que fecha o livro, em 32:5, diz que agora, nessa condição, somos manchas. Numa versão, diz "corromperam-se contra ele (contra Deus); não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e distorcida é.".

    Mas o Livro aponta uma saída. Paulo Apóstolo apelida Jesus de "segundo Adão". Ele diz que esse homem, Jesus, não enveredou pelo mesmo labirinto, esse sem saída, que sempre vai dar no homem e mulher nus, sem máscara diante de si mesmos, fugindo de Deus e fora do paraíso.

    Jesus, o segundo e definitivo Adão, nunca se escondeu de Deus assim como nunca deixou de ouvir a voz de Deus e sempre a obedeceu. É isso que a Bíblia tem a dizer sobre esse homem.

    "O filho não pode fazer de si mesmo senão unicamente aquilo que vir fazer o Pai". Sem nenhuma hipocrisia, essa palavra se cumpre cabalmente com relação a Jesus.

   E a Bíblia também afirma que Deus se dedica a refazer, regenerar, ou seja re + gerar, gerar de novo, deixar o modelo de barro falido, a carga de Adão e Eva que todos trazemos conosco, para realizar nova criação em Jesus Cristo.

     É de novo Paulo Apóstolo que diz "pois somos feitura dEle", quer dizer, de Deus. Somos, em Jesus Cristo, a partir do batismo em nova matriz, feitura, a palavra grega traduzida quer dizer "poema" de Deus, quer dizer, poema cujo autor é Deus: cada um que se deixa moldar pelas mãos do Criador, é barro novo modelado, a partir de nova matriz que é Jesus.

   Somos todos Adão e Eva. Quantos podem dizer que são Jesus? Quem pode dizer que é modelado pelas mãos de Deus, a partir dessa nova matriz, que é Jesus, como enxergou o profeta Jeremias na casa do oleiro, onde Deus lhe mandou ir, para atinar com o seu trabalho.

   A igreja de Jesus é a casa do oleiro. Quantos somos Jesus, batizados por ele no Espírito Santo, modelados barro novo pelas mãos do Pai, na casa do oleiro?