segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Leituras em Filipenses

     Filipos era uma cidade grega, geograficamente portão de entrada na Europa, para quem vinha da Ásia. O nome era em homenagem a Felipe II, da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, que promoveu a primeira globalização da história humana, espalhando língua e cultura gregas quando conquistou o mundo em cerca de 300 a. C.
     No tempo de Paulo era uma colônia romana, ou seja, uma Roma em miniatura, onde inclusive era proibido aos judeus edificar sua sinagoga. Por isso, o apóstolo desceu às margens do rio Gangites, onde um grupo da união feminina marcava reuniões, entre elas Lídia, vendedora de púrpura, talvez a peesidente da UAF.
     Nessa cidade Paulo permaneceu, talvez, quase um mês, frequentou esse lugar de reunião periodicamente,  repreendeu um espírito adivinhador que atormentava uma jovem, foi intrigado e preso por causa disso, açoitado, junto com Silas, na mesma prisão onde resolveram, os dois, cantar em louvor ao Senhor.
    Um terremoto localizado soltou as trancas, liberou todos os presos, sem rebelião, mas o carcereiro, entre enfrentar a punição romana e suicidar-se, preferiu esta opção. Mas Paulo, liderando os presos, propôs que poupasse sua vida e ouvisse o evangelho. Foi quando disse aquele versículo que a gente lia na parede de frente da "igrejinha antiga": "Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa".
    Ele creu. Recebeu Paulo em sua casa, contígua ao cárcere, pensou-lhe os ferimentos, alimentaram-se, toda a família foi batizada e, no dia seguinte, as autoridades pretorianas ainda levaram um susto ao saber que haviam açoitado, sem julgamento, um cidadão romano. Caramba, uma igreja que começa, emocionalmente, com todos esses acontecimentos, só mesmo poderia demonstrar em seu perfil os traços indicados na carta aos Filipenses. Vamos a sua leitura.

   Leituras em Filipenses.

   Já falamos como foi penoso o começo da igreja em Filipos e de Lidia, sua primeira conversão. Hoje mencionamos a introdução da carta, quando Paulo descreve o perfil daqueles crentes. Transparece a espiritualidade deles.
    São cooperadores unidos a Paulo, informados e agentes de seu ministério. Daí o apóstolo reconhecer essa atitude como obra de Deus na vida deles, que nunca cessaria de ser aperfeiçoada.
   Isso é amor. Diante disso, Paulo os exorta e estimula a aumentar e crescer em amor contínua e intensamente, por ser a única maneira de aprender a escolher o que é excelente, diante de Deus, assim como se manter sincero e inculpável, diante e para o dia de Cristo.
   Paulo indica esse perfil como aquele que apresenta os frutos de justiça na vida dos crentes, num grau pleno, os quais têm origem na ação do próprio Jesus em nós e, por meio dos quais, nossa vida se torna razão de glórias a Deus.
   Cooperação no Reino de Deus, crescimento em amor, percepção e lucidez na escolha do que, diante de Deus, é excelente e colheita de frutos de justiça cultivados por Jesus em nós, compõem o perfil da igreja, povo de Deus, cuja avaliação é razão de glórias dadas a Deus.
   
Leituras em Filipenses
 
      No início do cap. 2, Paulo vai mencionar 3 vezes a palavra amor. Aliás, se João definiu "Deus é amor", não há como obter, da parte de Deus, nada se não por amor. Neste trecho, o apóstolo, como que por ironia, pergunta aos crentes: "Há exortação do Espírito que te sirva de estímulo?".
     E Paulo mesmo completa, ora, se há e passa a dizer o que se espera: (1) tenham, entre si, um só sentimento; (2) nada façam por partidarismo; (3) cada um considere o outro superior a si mesmo. Essa é a definição do que seja comunhão.
    Até aqui, nesta carta, Paulo mencionou "cresçam em amor, "há consolação de amor no Espírito" e "tenham em vocês amor". E define este como o "sentimento de Cristo". Decisivamente comunhão se define em termos de amor. E é algo que se aprende praticando.
    Basta ler a oração de Jesus em João 17, que vamos entender assim. E aos Efésios, de novo Paulo afirma que comunhão e algo que, "suportando-nos, uns aos outros, em amor", devemos "esforçarmo-nos diligentemente por preservar, no Espírito".
    Definitivamente, ser igreja é uma construção permanente de quem luta, primeiro, por presevar sua autêntica comunhão com Deus, demonstrando isso no desdobramento de sua comunhão com o outro. Se isso não for realidade, assumamos a nossa hopocrisia e facamos a oração, "Senhor, faz cair minha máscara".
 
      Leituras em Filipenses
   
      "Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus". Talvez possamos dizer ser este o tema da carta. Paulo menciona 4 vezes esse "sentimento": (1) afirmando ser ele que produz unidade em Cristo; (2) afirmando, no versículo acima, ter origem em Cristo; (3) apontando Timóteo como quem tinha esse sentimento; (4) e dizendo que ser perfeito em Cristo é ter esse sentimento.
     Como defini-lo? Uma coisa é certa: ele tem origem em Cristo. E embora seja indicado aqui por um imperativo, tem de ser espontâneo em nós, "fruto de justiça", em Cristo, como Paulo mesmo já disse. Isaías, o profeta, disse que certo querubim quis usurpar o lugar de Deus. Aqui, o apóstolo diz que Jesus, sendo Deus, esvaziou-se e "não usurpou para si o ser igual a Deus".
  Para nos amar, Deus se fez homem em Jesus. Melhor, amando-nos, se fez homem em Jesus. Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus. Mas como? Paulo indica, sobre Timóteo, que ele: (1) cuidava, sinceramente, dos interesses da igreja;  (2) buscava primeiro os interesses de Cristo, e não os seus próprios; (3) tinha o caráter provado; (4) foi servo do evangelho, bem próximo, junto, unido a Paulo. Talvez seja assim.
      
          Leituras em Filipenses

          Assim como nas igrejas da Galácia, um grupo de judaizantes andou por Filipos tentando convencer os irmãos a admitir ser circuncidados e a guardar preceitos do judaísmo. Paulo os compara a um bando de cães, atrás da carniça de suas vítimas. E os responde, definindo o que é conversão genuína em Cristo.
    Começa com perda total: "para mim, o viver é Cristo e o morrer é ganho". O apóstolo demonstra como abriu mão das honrarias do farisaísmo, no caso, o que o enchia de orgulho e era seu "pedigree". Concorda com Habacuque, que indica fé em oposição à soberba: "Eis o soberbo, sua alma não é reta nele, mas o justo viverá pela sua fé."
    Paulo afirma que, por causa da "sublimidade do conhecimento de Cristo", ser crente é, verdadeiramente, perder todas as coisas e as considerar refugo. Dessa forma, o ganho é Cristo e a justiça que procede, exclusivamente, desse ato de fé. Como aos Gálatas Paulo escreveu, "não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim". Essa é a qualidade de vida de quem vive pela fé.
    A resposta do apóstolo ao grupo de "cães itinerantes" é que circuncisão sempre foi sinal profético de conversão, a qual se cumpre e realiza pela fé em Cristo, da qual cada verdadeiro crente é sinal profético vivo. Andemos por fé: vivemos pelo Espírito, andemos no Espírito.

     Leituras em Filipenses

     Já na conclusão da carta, Paulo propõe aos irmãos mirar num alvo e afirma ser esse o propósito de Cristo na vida deles: "caminhar para conquistar aquilo para o que fomos conquistados por Cristo Jesus". E o apóstolo diz o que é, trata-se da perfeição.
   Ser per+feito signifca ser por todo o perímetro, por toda a volta, completo, pleno, cheio. E Paulo diz que já ter essa vontade em si, é o primeiro indicador de perfeição. Ele mesmo se coloca como exemplo, mas também confirma não ter ainda alcançado.
   Na verdade, trata-se de uma característica permanente na vida cristã, que a marca como autêntica e frutuosa. É Cristo mesmo quem concede os elementos necessários a que se possa atingir esse alvo.
    Lembrando a introdução dessa mesma carta, Paulo disse que crescer em amor nos permite percepção e escolher o que, diante de Deus, é excelente. E em Coríntios 2, o apóstolo também diz que, pelo Espírito, ansiamos ser revestidos pelo que é celestial.
    Termina essa seção da carta dizendo "todos que somos perfeitos, tenhamos esse sentimento". Buscar perfeição é um desejo de Jesus posto em nosso coração, pelo Espírito. Conquistemos aquilo para o que Jesus nos conquistou. E Paulo deixa em aberto: dúvidas sobre isto? Deus vos esclarecerá, diz. Que tal começarmos, então, esse diálogo com o Altíssimo?


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Pastorais 2


      Idas à Pedra.

     A provocação e tema para as pastorais é nossa ida à Pedra, novembro próximo que, de si, já traz elementos metafóricos (e, como quase registrou o dicionário automático do meu smart, metafísicos).

    Vou registrar, porque gosto do algarismo, três razões por que ir à Pedra se constitui num elemento metafórico-existencial-emblemático, pelo menos para alguns do grupo.

    No primeiro sentido, ir a Pedra, para mim, desde muito cedo, constituiu-se num programa antes obrigatório, ao qual era sistematicamente conduzido por minha mãe, nos inesquecíveis 21 de abril da vida. E ironia entre ironias, num deles, em 1994 faltei, por estar na maternidade acompanhando o nascimento de meu filho.

       E, à medida em que alcancei a idade da razão, mais agradável ainda se tornava a tarefa, ensejada, muitas vezes, dentro de antigos lotações alugados pelas congregacionais de Nilópolis ou Cascadura, daqueles com motor externo e tranco à manivela.

     Cheguei a ver circular o bonde Pedra-Monteiro, se não me engano. Minha aproximação do que significa "denominação" passa por essas experiências. Pedra de Guaratuba, nos meus tempos, era programa para faixa etária de 0 a 100 anos.

     A intenção também era boa, visto que a festa do dia visava fundos para uma obra social única e todas e diversas igrejas participavam, unidas, numa quermesse monumental, que chegou a revolucionar o bairro e ser lucro contado entre os moradores da região.

     A empolgação do povo, as confraternizações do dia, o esforço conjunto, a motivação de nossos pais, as competições futebolisticas, cantores evangélicos, Rádio Copacabana, algum púlpito, políticos, enfim, virava Brasil, mas prevalecia o lado bom denominacional.

     Uma outra aproximação, a segunda, nem tão inocente do que representa "denominação", tive oportunidade de presenciar, na medida em que me aprofundei nos meandros e outras entranhas dela, que não as de misericórdia.

    Permiti-me ser feito pastor e, com isso, por breve espaço de tempo, experimentei o epíteto (pelo visto, cobiçado por tantos) de ter me tornado também "liderança denominacional".

    Exceto por minha ingenuidade atávica, testemunhei, eventualmente, é claro, situações em que o conflito entre se posicionar "politicamente" (quase o dicionário do smart escreve "polidamente") e se portar biblicamente foi inevitável, porém eu mesmo questiono: foi mal ou bem contornado?

    Ir a Pedra, já a terceira aproximação, também pode significar a busca por fundamentos. Denominação é resultado, já há 500 anos, no ano que vem, da Reforma. É necessário, inevitável e imprescindível buscar a Pedra e manter, entre si, uma "santa competição".

       Como disse Paulo, no bom sentido, trata-se de uma "santa emulação". Se é saudável na igreja local, assim caminham, ou deveriam as denominações, ao longo da história. Sou, pessoalmente, resultado de uma delas. Por ironia, congregacional de pai e mãe porém, o que é historicamente típico delas, não caminhar unidas, ambos em denominações diferentes.

    A teimosia de minha mãe, não admitindo ser batista, e sua influência maior do que a do pai, colocaram-me na denominação que se resolveu chamar "Congregacional", com todos os seus (e os meus e de todos nós) vícios e virtudes.

     Então, ainda acho que elas profundamente fazem parte de minha formação, e da de muitos outros. Se entraram em crise nos dias atuais, a culpa não é delas, ideia subjetiva que são, mas dos atores que a compõem, entre quantos e tantos, eu mesmo.

    Continuo achando-as, sim, historicamente, uma boa ideia: não dava pra continuar com todos os chamados "cristãos" num grupo só. Democraticamente, querendo ou não, desdobraram-se, adquirindo nome e personalidade.

    Sempre vou querer debruçar-me sobre mim mesmo e sobre a minha denominação aliás, porque sou um pouco do que ela me fez. Confesso que minha mãe tinha dela uma visão mais romântica e como sinto já muita falta de nossas mais recentes discussões sobre ela.

     Fico imaginando se há outro contexto, fora dessas associações, para se experimentar a fé. Por aqui, ao lado da congregação Congregacional que abrigamos em casa, ficam perto três versões modernas de "ministérios": Primeira Essência, Pentecostal Para as Nações e Adoradores da Verdade.

    Classifico como legítima a sua denominação. Mas não enxergo, nessa alternativa, escapatória daqueles mesmos vícios e virtudes linhas atrás mencionados. E recomendo que se debrucem sobre mais essa tentativa de denominação, buscando fundamentos.

domingo, 16 de outubro de 2016

Pastorais


   Algumas pastorais.
    
    Na vida das comunidades, costuma-se chamar Boletim Dominical aquela folhinha dupla de recados e agenda da igreja, na forma de caderno deitado.

     E o "artigo de fundo", como dizia meu pai, é a Pastoral. Esse gênero textual, como diriam os teóricos, vale-se do Boletim como suporte, para editar a palavra do pastor.

     Ela transparece alguns atributos e características do cargo como, por exemplo, a autoridade da investidura e, devido à limitação do espaço e à diversidade do público, uma certa flexibilidade do texto.

     Embora ele não violente as normas acadêmicas, visto que o pastor, sempre cioso (de novo meu pai) de sua reputação, não vai escrever sandices (meu pai), porém terá a profundidade e pertinência costumeiras.

     Por isso pretendo editar, aqui, tantas Pastorais quanto me permitir minha atividade bandida e clandestina de bloguear. E, uma vez investido, falo como pastor no blog do professor.

     O texto "União", antetior a este, é a primeira delas. Continue após, caso apeteça, a leitura das demais, e grato por sua paciência.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Pastorais 1


   Um velho ateu

    "Um velho ateu,
    Um bêbado cantor,
    Poeta, na madrugada,
    Cantava essa canção,
    Seresta: 'Se eu fosse Deus,
    A vida bem que melhorava:
    Se eu fosse Deus,
    Daria aos que não têm nada'".
                                                Beth Carvalho

    Provavelmente, não. Muito simples o argumento. Levando em conta que Deus não exista, era para que, há muito, esse problema estivesse resolvido.

    Isso mesmo. O argumento mais rasteiro dos ateus é dizer que, os que têm fé, usam Deus como muleta para suas frustrações.

     Ora, era para, há muito, estarem resolvidas todas as frustações da humanidade. Isso mesmo, Deus não está nem aí para as frustações humanas, visto que somos os únicos responsáveis por elas.

     Uma delas essa aí, da má, não, da péssima distribuição de renda. Ora, era para que a bondade da humanidade, por si mesma, houvesse resolvido esse problema. E, para tanto, Deus é absolutamente desnecessário.
 
     Talvez, para problemas mais complicados, daquela natureza, por exemplo, miraculosa, para esses, ligue o 0800 do céu, o SAC Celestial, e faça sua reclamação.

     Sim, porque problemas à altura do ser humano, ora bolas, Deus não tem nada a ver com isso. Problema deles. Só que o problema mesmo tem outra natureza.
 
     O homem está, por si mesmo, travado para resolvê-lo. Para pequenas coisas ao seu alcance como, por exemplo, ser bom. Simples assim. O homem não consegue ser bom.
   
      Deveria provar, sim, que Deus não existe, mas sem blá-blá-blá. Bastava demonstrar que, para ser bom, apenas isso, nem precisa que Deus exista.
 
       O problema é que, de si, nem consegue ser bom, nem consegue provar ou prescindir da existência de Deus. Criando esse "Ser" todo bondade, engendrando essa mitologia do céu, nem assim, com toda a fantasia ou sem ela, conseguiu ser bom.

        Pobre homem. Não consegue ser, por si, bom, assim como não consegue reproduzir, com seu sentimento religioso, expressividade de uma bondade simulada.

     Dupla frustração.

terça-feira, 11 de outubro de 2016


         
           União

         Na disciplina de Eclesiologia Denominacional, no Seminário onde estudei, no Rio, turma 1978-1981, as apostilas dessa matéria definem o jeito congregacional de ser igreja. Geralmente iniciavam com uma explicação detalhada das razões do nome União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil.

         Cada termo era definido e, em breves palavras, explicada a razão de ser do nome denominacional. Singelo. Na verdade, por mais que se avalie como óbvio, enunciar o nome de “dar nome”, “de + nominar”, ser uma “(de)nominação”, como ponto de partida da eclesiologia e de uma reflexão dos fundamentos bíblico-teológicos de sua definição, era uma etapa necessária aos calouros.

          Mais óbvio ainda é dizer que, se essa é a nomenclatura, vivenciá-la é parte constituinte da identidade, mais do que somente um nome. Seria hipócrita de nossa parte assumir um nome, em função de se propor eclesiologia, ou seja, definição de um modelo bíblico de igreja, sem que se cumpra o desafio bíblico de vivenciá-lo no mundo, na prática.

         Pretendo deter-me somente no primeiro vocábulo: união. Porque, quanto aos outros, ser "igreja", cada qual, cada unidade, de si, assume ser. "Evangélicas", ora, pelo menos em oposição histórica a ser “católica”, o primeiro nome delas foi “igreja evangélica”. Serem "congregacionais", também, de per si, o são, pois praticam um regime de escolhas eventuais como resultado de assembleias de membros onde a chance de propor é igual para todos.

         "Do Brasil", espaço geográfico onde se situam. Aliás, até, muito das peculiaridades do modo de ser “denominação” está relacionado ao “jeito Brasil” de ser. Mas esta não é a discussão aqui. E, sim, dizer que, de todos os vocábulos que definem o nome da Denominação, o primeiro deles, união, é aquele que, para sua devida autenticidade, depende de um milagre. Por si, haver união, já é um milagre.

        Porém, nunca será “milagre” do modo mágico que, costumeiramente, costuma-se entender. Porém, um esforço consciente e somente possível se um conjunto de fatores forem postos em ação. União será, primeiro, um desejo da maioria, sim, porque maioria é o que define decisões no congregacionalismo. Pode até ser que se, entre a liderança, houver essa disposição, ocorra uma corrente para essa essencial peculiaridade.

            Para "união", além de disposição, que outros fatores devem ocorrer? Sendo um milagre necessário e esperado, a natureza dessa união e a fonte inspiradora deverá ser, outra obviedade, a Bíblia. Tal característica pode ser procurada ao longo de todo o livro. Mas escolhemos Filipenses, para citar algumas etapas propostas pelo apóstolo àquela igreja:

(1) que o amor aumente mais e mais, 1:9, sem ele, não haverá milagre; (2) exortação em Cristo, consolação de amor, comunhão no Espírito e afetos e misericórdias há, 2:1, entranhados, nos atores dessa Denominação?; (3) pensar a mesma coisa, ter o mesmo amor, ser unido de alma, ter o mesmo sentimento, 2:2, que é o sentimento de Cristo, 2:5; (4) ausência de partidarismo ou vanglória, humildade em considerar o outro superior a si mesmo, não ter em vista o que é próprio do ego, mas enfatizar o que compete ao outro.

Precisamos desse milagre. Perseguir e criar condições para que ocorra. Não se trata, aqui, apenas de exercício de decisões ao nível local ou denominacional, porém um desejo individual e de todos, uma decisão pessoal que tem respaldo bíblico e que produz alegria geral, “completai a minha alegria”, diz Paulo, 2:2a, certamente alegria compartilhada pela própria Trindade. Essa ocorrência tem razão de ser em função de nossa identidade, assim como em função do que, biblicamente, significa ser igreja. 

        Caso não seja essa a nossa disposição, individual e coletivamente, não haverá milagre, não haverá união e a denominação, em si mesma, terá perdido sua identidade bíblica. Não conseguirá ser nem evangélica, porém apenas nominalmente, visto que "evangélico" está intrincado, entranhado em ser "unido". Pode até continuar sendo "congregacional", no nome e, individualmente, exercício da igreja local. Do Brasil, somos atores dentro dessa grande arena. 

         Dediquemo-nos à busca por esse milagre, pois só nos resta ser união (ou União). Caso não se verifique, entre nós, esse milagre, teremos que redefinir nossa visão bíblica, justificando que cada igreja local o seja por si, autoconvencida de que se basta a si mesma, vaidade das vaidades.
     




segunda-feira, 10 de outubro de 2016


      Mulheres na Bíblia - Eva

     Passa, propositalmente, despercebido que, no Gênesis, está escrito que Deus criou o homem (humanidade) a Sua imagem e semelhança, "homem e mulher os criou".
     Pode parecer que não, porém costuma-se esquecer isso. Muitos interpretam que só o homem é dono dessa caracteristicas, aliás, perdida por ambos na queda e somente reassumida na regeneração em Cristo.
     Daí começa a diminuição da mulher. Outro ponto é culpá-la, sozinha, pelos pecados do mundo. Porém, numa leitura atenta da Bíblia, desde Eva elas se distiguem nas virtudes que lhes são corriqueiras.
    A primeira mãe dos viventes passou por um trauma específico, talvez com paralelo no atual surto de violência social, que foi o assassinato do segundo filho do casal, executado pelo mais velho.
    Enfrentou com oração, assimilou o golpe, sem que culpasse Deus, o marido ou o próprio filho. Era mulher de oração, desde o nascimento de Caim, até à gratidão manifesta no nascimento de Sete.
      E, pelo que transparece, tinha um marido acostumado a responsabilizá-la pelo que ia errado na relação entre os dois. Vide a resposta dele a Deus, "a mulher que tu me deste", quando foram interpelados logo após a queda.
    Do mesmo modo que Paulo diz a Timóteo que sua fé sem fingimento era devida a uma mulher, a avó Loide, certamente, o primeiro homem após a morte de Abel a invocar o nome do Senhor, Enos, devia a sua avó Eva possuir uma fé sem fingimento.

      Mulheres na Bíblia - Hagar

      Pouco podia fazer Hagar, diante de Sara, para que fizesse valer seus direitos. Foi dada a Abrão por sua senhora, na tentativa de suprir, de modo precipitado e indevido, o que já constava como promessa de Deus: dar um filho ao patriarca.
     Uma vez nascido Ismael, Sara começou a sentir-se diminuída. Por tremenda injustiça, típico de mulheres como ela, encheu a paciência do marido, a ponto de convencê-lo a ser cúmplice da brutalidade pretendida: condenar mãe e filho à morte, na aridez do deserto.
     A marca da espiritualidade de Hagar se destaca quando: (1) diante de Deus, não acusa Sara; (2) uma vez já aviltada, entendeu o significado do humilhar-se diante de Deus; (3) diante de tantas vicissitudes, interpretou que faltava a ela enxergar Deus tão próximo.
   Eis a mulher que nos ensina a não nos fazermos de vítimas, se enfrentarmos situações iguais ou ainda piores do que as dela. Porque, caso entremos em conflito com a fé, certamente será por não ter dito igual a Hagar: "Tu és Deus que me vê. Não olhei eu também para aquele que me vê."

     Mulheres na Bíblia - Débora
 
     Mulher de Lapidote, sem dúvida era um entre os mencionados no texto da "mulher virtuosa", onde está escrito que até o marido é reconhecido pela boa fama da esposa. Ficou destacadamente reconhecida a "Palmeira de Débora", eternizada no texto bíblico, local onde ela atendia às demandas do povo, referência permanente à grandeza dessa mulher.
    Podemos bem compará-la a outra juíza, atual presidente do STF, Cármen Lúcia, que dirige o próprio carro, ofereceu água mineral e cafezinho em sua posse, por fator de economia, e saudou o povo brasileiro como maior autoridade presente nessa cerimônia.
    Além de juíza, eventual generala e profetisa, quando advertiu Baraque, já indicado por Deus como líder na guerra contra os midianitas, que o medo lhe roubaria o mérito de ter vencido a batalha. O homem respondeu à mulher, mais ou menos assim: "se fores comigo, guerra haverá; caso não vás, guerra não há." Houve. Débora definiu a tática do conflito.
     Dois únicos grandes referenciais, no longo período dos juízes, calculado em 300 anos de duração, são essa juíza e, na outra ponta, Samuel, já na transição à monarquia. Esse, sim, equiparado em importância a Débora. Preste bem atenção e deixe de ser machista: sempre haverá, bem perto, mulher virtuosa a ter como exemplo. E quanto a você, seja mais uma entre elas.

      Mulheres na Bíblia - Ana

     Símbolo de oração de conteúdo, qualidade da mesma recomendada por Jesus, no Sermão do Monte: "tenho derramado minha alma perante o Senhor."
    Símbolo de temperança e mansidão, pois dividia com Penina o matrimônio com Elcana, angustiava-se por não ter filhos e suportava a rival que, segundo o texto bíblico, "excessivamente a provocava".
      Símbolo de dedicação, entrega e reconhecimento do lugar dos filhos, perante Deus, pois disse a Eli: "por esse menino orava eu [...] ao Senhor eu o entreguei, por todos os dias que viver."
     Ouviu do esposo uma das mais belas declarações de amor: "não te sou eu melhor do que dez filhos?". Sábia nas relações domésticas, íntima do Senhor na oração e mestra na educação dos filhos, mulher modelo em três áreas fundamentais.

     Mulheres da Bíblia - Hulda

     Era duro viver num tempo em que os direitos, o reconhecimento e a valorização social eram quase nulos. O que dizer, então, se umas poucas como que invadiam o espaço masculino e se identificavam profetisas, como Hulda?
     Foi a ela que o rei avivalista Josias recorreu, após o trauma de conferir as maldições escritas no Deuteronômio e compará-las à realidade de Judá, por volta de 620 a. C. Jeremias já havia iniciado o seu ministério, mas foi uma profetisa que o rei buscou, após ler o Livro da Lei, a Bíblia da época, esquecido no Templo, e temer diante do cumprimento da Palavra. Ela só fez confirmar isso ao rei.
     Pelos nomes citados do marido, pai e avô de Hulda, ela era a mulher certa para aquela hora, ao nível de classe da realeza e pronta a consolar o rei piedoso. Jeremias, sacerdote fora de função, pertencia à vila de Anatote e se tornaria desafeto do todos os reis, os três filhos de Josias, que reinaram depois do pai, até o exílio de 587 a. C.
    Hulda nos ensina: (1) é possível ter, sim, mulheres muito bem entendidas, esclarecidas e estudiosas da Bíblia; (2) ser mulher "bem nascida" não se constitui, em si, demérito nenhum, a não ser que a futilidade, vaidade e superficialidade dominem a personalidade; (3) quando se obtém genuína autoridade por meio da Palavra, não há rei ou qualquer posto de destaque acima que não se subordine à sabedoria adquirida. Precisamos de muitas profetisas como Hulda, "bem nascidas" ou não.

   Mulheres na Bíblia - Maria

     Tudo bem. Não tenho nada contra enaltecer Maria. Mas ponha-se no seu devido lugar. A Bíblia, a gente querendo ou não, coloca-nos no devido lugar. E, quanto à mãe de Jesus, ela nunca tomou para si pelo menos 5 característica que, de novo, segundo a Bíblia (sempre o Livro), pertencem a Jesus. Veja:
     (1) Jesus é o único mediador entre Deus e o homem; (2) único ser humano a receber, como Deus, adoração, atributo específico Seu; (3) único ser humano autorizado a perdoar pecados; (4) além de Jesus, o único que intercede por nós diante de Deus é o Espírito Santo; (5) Jesus é o único entre os seres humanos  a ter ressuscitado e, afirma a Bíblia, a estar à direita de Deus.
     Nenhuma dessas afirmações diminui Maria, porque esses são atributos exclusivos de Jesus e ela mesma nunca desejou roubá-los para si. Foi Maria mesmo que aconselhou: "Fazei tudo o que ele (ou conforme ele) vos disser". Atribuir a Maria qualquer desses atributos é, literalmente, tradição humana. Veja 5 características exatas e justas de Maria:
    (1) Exemplo de serva, dizendo ao anjo: "Faça-se conforme a Tua (de Deus) vontade"; (2) exemplo entre os que necessitam de salvação, ela mesma necessitada, quando diz: "A minha alma se alegra em Deus, meu salvador"; (3) Logo entendeu que aos homens é sábio e aconselhável fazer e agir segundo "tudo quanto ele (Jesus) disser"; (4) sempre que enxergava, ouvia ou percebia uma manifestação da palavra ou ação objetiva de Deus, diz a Bíblia, ela "guardava todas essas coisas, conferindo-as no coração"; (5) entre tudo o que ela guardou no coração, certamente, está a palavra de Jesus a uma mulher que enalteceu Maria exageradamente, quando disse "bendita aquela que te deu à luz e os seios que te amamentaram": Jesus corrigiu e Maria guardou no coração: "Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam." Nenhum erro e nenhuma injustiça em colocar Maria no seu devido lugar, quando a intenção é seguir a orientação bíblica. Este livro existe para corrigir e sanar qualquer dúvida.



sábado, 8 de outubro de 2016



           
            

“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que não se veem.”                                                             (autor anônimo da carta aos Hebreus)

          Vamos discorrer sobre uma possibilidade, a de que, por meio da fé, sempre a fé, religião, ciência e a atual militância ateísta tenham um ponto comum de contato. E esse ponto de contato se expressa pela definição bíblica de fé que encima este texto: “certeza de coisas que se esperam e convicção de fatos que não se veem.”

          É reconhecido que a religião tem fé como fundamento. E que ela se expressa em acordo com a definição aqui transcrita. Vamos deixar para a parte final apreciação sobre ela. Porém, a ciência também se baseia, do mesmo modo, em “certeza” e “convicção”.

          A certeza da ciência provém de sua sistemática percepção da realidade, a qual será reproduzida, por método científico, em laboratório, repetida exaustivamente, até que se possa formular uma teoria. Esse é o caminho da busca científica por “certeza”.

         A convicção da ciência, razão pela qual ela é, nos dias atuais, mesmo que exageradamente, posta na condição de “última palavra”, a respeito da gama de fenômenos explorados pela pesquisa humana, essa convicção provém da exaustiva repetição dos fenômenos pesquisados e sua formulação em linguagem apropriada. Daí a consagração do que é científico e, até mesmo, seu uso tecnológico.

         Exemplificando, é fácil depreender que o voo dos aviões, aparelhos de alta tonelagem, muito mais pesados do que o ar e do que as aves, foram aperfeiçoados a partir da observação humana e seu desejo de alçar voo. Na falta de asas, seria por meio de um recurso idealizado e levado a efeito com ferramentas a seu alcance.

         A própria história da aviação demonstra que o homem foi bem sucedido. Também demonstra que foi a partir da observação do voo, anterior ao homem, observado em sua forma original, por meio das aves, que o homem foi instigado a imitá-las. Dá gosto constatar como a observação, o método científico, as pesquisas e o aperfeiçoamento geraram a capacidade e versatilidade das asas do avião, que imitam, na decolagem e na aterrissagem, as asas dos pássaros.

         Ora, aqui se aprende que muito (ou tudo) o que a ciência produz é aprendido ou imitado a partir do que está aí, como dado. Esse “estar aí” é a natureza, em sua complexidade. E quanto à origem desse caderno permanente de pesquisa para exploração científica, o que a ciência tem a dizer sobre sua origem? Ora, ela afirma ter “certeza de coisas que se esperam e convicção de fatos que não se veem”. Por que afirmamos isso?

         Exemplo prático dessa afirmativa, relacionada ao ponto de partida da própria ciência e sua razão de ser, que é a leitura do Universo, é a experiência do LHC, Large Hadron Collider, que é um acelerador de partículas, de bilhões de euros, que promete comprovar que a teoria do Big Bang é verdadeira. Trata-se de um túnel subterrâneo, de 27 m aproximados de diâmetro, construído a 100 m de profundidade nas cercanias de Genebra, na Suíça.

         Pretende provar que a teoria da colisão de partículas foi mesmo a que deu origem a tudo o que está aí. Pura certeza de coisas que se esperam e convicção de fatos que não se veem. Se afirmarmos que a existência de Deus depende de confirmação científica, provar que Ele não existe, da mesma forma, também depende de confirmação científica. Esta última afirmação coloca o ateísmo na total dependência do método científico.

          Assim como também podemos defini-lo como “certeza de coisas que se esperam” que, no caso dele, é confirmar, cientificamente, a não existência de Deus. E a convicção de fatos que não se veem, no caso, afirmar, peremptória e categoricamente, que Deus não existe. 

       Na verdade, ficou demonstrado como ciência, religião e ateísmo têm, em comum, a fé como pressuposto: “certeza de coisas que se esperam e convicção de fatos que não se vem.” Não falta aos dois companheiros da religião, em sua sistematização, dogmas e corpo doutrinário. Talvez, à ciência, falte militância e combate aos hereges. Só não vale virarem, os dois, religião. Mas que já vivem por fé, está comprovado que vivem.

         E o mesmo autor anônimo da epístola aos Hebreus afirma, logo a seguir que, "sem fé, é impossível agradar a Deus". Por extensão, fica comprovado que ciência, ateísmo e religião, vivendo por fé, agradam a Deus. Durma-se com um barulho desses.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016


     Uma mesma definição.

     Uma vez que seja possível uma mesma definição para três fenômenos distintos seria, do mesmo modo, possível dizer que se esquivalem?

     Se for possível alinhar, por meio de uma só definição, dada pelo autor anônimo da epístola aos Hebreus, fé, ciência e ateísmo, o que será possivel, então, deduzir?

    Provavelmente pela natureza de seus métodos, seja possível equivalerem-se numa mesma definição. Comecemos pela fé: "certeza de coisas que se esperam, convicção de fatos que não se veem."

   Certeza e convicção. Esses dois vocábulos compõem a espinha dorsal das sentenças enunciadas. Pelo que parece, somente a ciência pode fornecer esses dois elementos e parece que é justamente neles que se baseiam os ateus.

    Talvez, caso se comprove que a definição dada de fé se aplique mesmo à ciência, defina-se, na fonte, de que fé é mesmo fraude. Porque, se certeza e convicção apenas se aplicam à ciência, fé é fraude. Ou talvez descubra-se que se equivalem, se podem ser definidas pela mesma enunciação. Senão, vejamos.

     Certeza. A ciência produz certeza. Parte do que é concreto, do que é dado, vai ao laboratório, reproduz num experimento, retorna ao real e formula sua teoria.

    Convicção. Basta percorrer, no seu método, todo o percurso, repetir para evitar BIAS, que será instaurada, definitvamente, a formulação científica.

    O ateísmo não poderia ser formulado caso essa mesma ciência comprovasse, por seus métodos, a existência de Deus. Por isso a extrema e total dependência dele com relação ao método científico.

   Voltando ao autor anônimo de Hebreus, precipuamente, ele enuncia fé como certeza, sim, "de coisas que se esperam" e convicção, sim, "de fatos que não se veem".

   Teorias científicas se baseiam nesses dois axiomas. Por exemplo, os estudos sobre a formação do Universo e, consequentemente, da vida, com tudo o que a ela se refere, baseiam-se em convicções de fatos não vistos e ainda não comprovados.

  Porém a ciência neles crê e ainda reserva, para si, uma certeza futura. Por isso investe milhões, talvez bilhões de euros construindo mecanismos que a conduzam à definitiva comprovação.

    Exemplo disso é o LHC, Large Hadron Collider, que pretende reproduzir em laboratório o Big Bang original, a colizão de partículas que, no início, deu origem a tudo o que hoje se vê. Assim se espera comprovar.

   Trata-se de certeza de coisas que se esperam e convicção de fatos que não se viram. Pelo menos, comprovado está que a mesma definição de fé, dada pelo autor de Hebreus, dela depende a ciência.

   Certeza do que se espera e convicção do que não se viu, sem fé, afirma o autor de Hebreus, é impossível agradar a Deus. Delas dependem a ciência e, por extensão, o ateísmo, ambos impossibilitados de comprovar, definitivamente, suas postulações.

    Pelo método científico, dependente de certeza e convicção,  não se comprovou nem uma coisa, nem outra, ou seja, ficamos sem a comprovação de que Deus exista, assim como ficamos sem a comprovação de que não exista. Mas vivamos por fé: certeza de coisas que se esperam, convicção de fatos que não se viram. Isso basta para agradar a Deus.


 

                  Verbete.

 Contente-se. Esta é a principal distinção nossa em relação aos outros animais: a capacidade de nos definirmos por meio de um verbete de Enciclopédia. Falando de outra maneira, ou seja, a linguagem nos distingue. O uso construtivo dessa capacidade. Sim, porque se formos entender esse dispositivo, uso da linguagem, como define Tiago, a língua humana possui uma tremenda capacidade destrutiva.

     E olha que, aqui, nem estamos nos referindo, própria ou diretamente, à fofoca, à pura dissimulação ou mesmo à difamação. Ainda que muito bem intencionados, muitas vezes, até mesmo de forma elegante, num disfarce, numa roupagem intelectual, reduzimos a nada alguém, especificamente, ou qualquer outro.

  Podemos nos ver por óticas variadas. Nossa documentação, a reflexão que fazemos de nós mesmos, a análise benfazeja que, de nós, fazem os amigos, por outro lado, a análise maldita que, de nós, fazem os inimigos, estes com escrúpulos de, assim, serem reconhecidos. O fato é que, na melhor das hipóteses, é melhor que nos enxerguemos como um verbete de Enciclopedia.

 Certo. Essa capacidade de formulação nos salva de sermos contados entre os irracionais. Desse modo, perdemos para eles apenas no quesito do inusitado. Explico. A animália irracional, exaustivamente estudada, tem já descritas todas as nuances de seu comportamento. Já se sabe o que deles esperar. Quanto aos humanos, assim reconhecidos, não se sabe, totalmente, que ou quais malvadezas vão surpreender.

 Evidentemente, seria injusto somente destacar este aspecto da condição humana, qual seja, sua capacidade de surpreender negativamente. Grande obras o gênero humano tem empreendido. Creio até que é possível afirmar, como se fosse numa perspectiva compensatória, numa pura intenção de redenção para essa mesma condição humana, que as muitas, variadas e boas obras, se comparadas à variedade das desgraças, perpetradas por essa mesma humanidade, a redimem.

     De súbito. O homem carece de uma visão de si mesmo. Seja ela proveniente da exatidão e método científicos, ou, vá lá que seja, proveniente de formulação teológica. Para o gasto, no dia a dia, que fosse até mesmo a visão especulativa, puramente empírica, diríamos, pro gasto, mas se torna essencial essa visão de si mesmo. Afinal, somos racionais. Houve até um tempo em que se falava muito de autoconhecimento, outro em que se falava de autoajuda, ou ainda neurociência, enfim, que seja a sabedoria de botequim, todos temos o direito de efetuar uma espécie de "auto formulação" de si mesmo.

   Até onde nos recolha a nossa fragmentária memória, até onde nos remeta a nossa capacidade de repaginar a existência, evidentemente, para quem se (pre)ocupa com isso. E afirmo que até os soberbos, e talvez, principalmente eles, se ocupem com isso. Vale a pena reconhecer que nos cabe, uma vez, justa e continuamente atualizados, afirmo que o que melhor nos define, pro gasto, é um verbete de Enciclopédia. Talvez não mais do nível Barsa, mesmo que fosse digitalizada, porém dessas mais recentes, online.

     É certo que um tal salmista, no saltério, disse que o Deus de quem a Bíblia conta a história enalteceu o ser humano, nestes termos: "Que é o homem que dele te lembres? E o filho do homem que o visites?". Ok, essa pergunta parece colocar esse ser (humano) no seu devido lugar. Porém, a resposta surpreende: "Fizeste-o, no entanto, por um pouco menor do que os anjos e de glória e honra o coroaste". Isso, surpreendentemente quer dizer que Deus se ocupa, prioritariamente, com o homem, numa leitura mais atenta da Bíblia.

     Levando em conta a possibilidade de que sejam verdadeiras essas palavras, quais sejam, que Deus existe e que, uma vez existindo, tenha mesmo criado o homem (a Sua imagem e semelhança) e que ainda se ocupe de coroá-lo de glória e honra, talvez estejamos, aí, resgatados da mediocridade de valer ou sermos medidos por um verbete da Barsa.

      De qualquer modo, a definição bíblica de fé se aplica também à ciência (e até ao ateísmo, agora militante): "certeza de coisas que se esperam, convicção de fatos que não se viram." Uma vez impossibilitados de comprovar se Deus existe, resta-nos abraçar essa definição de fé, ou de ciência, ou de ateísmo: ver, mesmo, ninguém viu, mas que há convicção, essa há. E quanto a ter esperança, bem, alguns esperam, um dia, ver Deus. Outros, não podem ter total certeza de que nunca o verão. E quanto à ciência, ora, essa, mais do que ninguém, baseia-se no que não viu, projetando uma expectativa de certeza para o futuro. Grande pretensão.

    Enquanto isso, narcisista, o homem vai se achando muito além do que um simples verbete.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016


      Considerações sobre acompanhamento pedagógico.

   Centralidade no aluno, certamente, é o ponto de partida. Evidentemente, se trata-se de uma partida, torna-se urgente e indispensável saber onde se quer chegar.

   Este detalhe se torna determinante porque, caso o alvo seja demasiadamente remoto ou depreciado, aquém das possibilidades do aluno, que é justamente o que se deseja incrementar, subdimencionamos o potencial da educação.

    Ponto de partida na realidade do aluno, Paulo Freire, e a partir do que ele já sabe, Piaget. Porém, desde o começo, reconhecer que a troca aluno-professor, no exercício do ensino e aprendizado, deve configurar-se constante e permanente.

     O aluno deve sentir-se ensinando, ao mesmo tempo em que aprende, desse modo, sendo valorizados ambos os atores, trata-se de um estado de arte, professor e aluno. Este vai alçar um voo que foi divisado por aquele porém, uma vez alçado, a autonomia será total e definitiva.

    O professor deve estar predisposto a essa troca e renovação constante de seu próprio aprendizado. Deve reconhecer que ambos, aluno e professor, turma e educador estão inseridos num contexto maior, que se define a partir do lugar da escola, seja no sistema de ensino, seja no contexto social.

     A articulação do aluno com a realidade social, para fora dos muros da escola, sociedade, graduação e mercado de trabalho adentro, será bem mediada pelo professor, somente na medida em que ele próprio reconheça como se dá a sua própria articulação.

     Caso professor e aluno se fechem numa redoma, o específico da educação sofrerá reducionismo. A partir dessa relação, uma vez enriquecida, no contexto da sala de aula, avançando para o contexto da escola e compartilhada na rede de ensino regional, será possível avaliar sua expressividade.

    É nesse contexto que se configura a equipe de apoio à tarefa do professor, que nao pode se sentir uma ilha ou dono da verdade. A tarefa do ensino será compensatória e bem contextualizada, uma vez que se projete para além de si mesma e contextualize o aluno na configuração atual de mundo.

    Por isso, coordenador de ensino e assessoria pedagógica são essenciais para que essa articulação se dê e seja profícua. Não existe educação em contexto restrito ou desarticulada de um sistema educacional. O professor deve sentir-se estimulado a renovar sua visão do processo educativo como um todo, assim como estimulado a rever suas estratégias.

     Se o aluno deverá não somente ser preparado para o mercado de trabalho, mas também reconhecer seu potencial acadêmico, voltado para seu avanço e sua contribuição na área da pesquisa, assim também o professor.

    Os conteúdos com os quais, na sua constante troca, alunos e professor foram confrontados, deverão ter sido mediados de forma a que se tornassem dinâmicos e contextualizados, de modo a que servissem de constante estímulo à renovação.

    Uma educação dinâmica e contextualizada, consciente do potencial que lhe é inerente e condizente com o seu papel, uma articulação de experiências bem feita, com divulgação e troca de ações bem sucedidas levadas a efeito, será capaz de proporcionar a seus atores realização e certeza de missão cumprida.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Mal traçadas linhas 35


    O amor de Deus.

    Pura pretensão. Tentar compreendê-lo será pura pretensão. Imagine, então, descrevê-lo. Que tal exprimentá-lo? Que tal praticá-lo?

     Corre-se um risco, que é avaliá-lo como privativo e, não, como na verdade é: coletivo, sem acepção de pessoas.

     Deus se fez homem, porque não haveria outra forma de amar. Essa é a história que a Bíblia conta. Essa história é o eixo-mestre da narrativa bíblica. Tudo, no Livro, gravita em torno desse eixo principal.

    O Livro fala de uma história de amor. Deus quis aproximar-se, ficar perto, identificar-se, misturar-se, enfim, ter comunhão com o homem.

   Deus não faz acepção de pessoas. Ama a todos igual, por mais que isso nos incomode. Sim, porque o ser humano, nós fazemos, praticamos diariamente acepção de pessoas. Nós discriminamos.

    Costumamos pôr em nosso índex negativo certos tipos e deixamos o índex positivo aberto para eventuais classificações. Nós nos achamos boa gente e pomos nos dois índex de que dispomos a seleção que fazemos.

     Precisamos aprender algumas coisas: (1) se alguém é mal ou bom, é para Deus e na avaliação de Deus. E, na avaliação dEle, todos são maus. Todos são, perante Ele, iguais. Isso nos incomoda muito.

    (2) ora, se Deus ama, indiscriminadamente, a todos, assim devemos ser e praticar. Ora, se Ele se fez homem para, indiscriminadamente, de todos se aproximar, muito mais do que isso, dar a Sua vida como cura para a maldade de todos e de cada um, maior e definitiva prova do amor devemos, perigosamente (não dar a nossa vida, inútil e desnecessário) mas nos aproximarmos, estar perto e próximos, perigosamente próximos do outro.

     Deus é amor. Então, é próximo: anseia por comunhão e praticou isso. Fez isso por amor e para perdoar. O amor tem seus riscos. Quem não quer se arriscar, não ama. Quem não se aproxima, não ama. Quem não anseia por comunhão, é porque não ama.

    Muito difícil amar como Deus ama. Perdoar como Deus perdoa. Estar, perigosamente, próximos como Jesus sempre se colocou. Ansiar por comunhão, como sempre Ele ansiou.

     Quando, ou se perguntarem a você, por que está, perigosamente, tão perto do outro, responda: é para compreender a intensidade e o interesse de Deus em amor.

    O amor de Deus.

    Pura pretensão. Tentar compreendê-lo será pura pretensão. Imagine, então, descrevê-lo. Que tal exprimentá-lo? Que tal praticá-lo?

     Corre-se um risco, que é avaliá-lo como privativo e, não, como na verdade é: coletivo, sem acepção de pessoas.

     Deus se fez homem, porque não haveria outra forma de amar. Essa é a história que a Bíblia conta. Essa história é o eixo-mestre da narrativa bíblica. Tudo, no Livro, gravita em torno desse eixo principal.

    O Livro fala de uma história de amor. Deus quis aproximar-se, ficar perto, identificar-se, misturar-se, enfim, ter comunhão com o homem.

   Deus não faz acepção de pessoas. Ama a todos igual, por mais que isso nos incomode. Sim, porque o ser humano, nós fazemos, praticamos diariamente acepção de pessoas. Nós discriminamos.

    Costumamos pôr em nosso índex negativo certos tipos e deixamos o índex positivo aberto para eventuais classificações. Nós nos achamos boa gente e pomos nos dois índex de que dispomos a seleção que fazemos.

     Precisamos aprender algumas coisas: (1) se alguém é mal ou bom, é para Deus e na avaliação de Deus. E, na avaliação dEle, todos são maus. Todos são, perante Ele, iguais. Isso nos incomoda muito.

    (2) ora, se Deus ama, indiscriminadamente, a todos, assim devemos ser e praticar. Ora, se Ele se fez homem para, indiscriminadamente, de todos se aproximar, muito mais do que isso, dar a Sua vida como cura para a maldade de todos e de cada um, maior e definitiva prova do amor devemos, perigosamente (não dar a nossa vida, inútil e desnecessário) mas nos aproximarmos, estar perto e próximos, perigosamente próximos do outro.

     Deus é amor. Então, é próximo: anseia por comunhão e praticou isso. Fez isso por amor e para perdoar. O amor tem seus riscos. Quem não quer se arriscar, não ama. Quem não se aproxima, não ama. Quem não anseia por comunhão, é porque não ama.

    Muito difícil amar como Deus ama. Perdoar como Deus perdoa. Estar, perigosamente, próximos como Jesus sempre se colocou. Ansiar por comunhão, como sempre Ele ansiou.

    O amor de Deus.

    Pura pretensão. Tentar compreendê-lo será pura pretensão. Imagine, então, descrevê-lo. Que tal exprimentá-lo? Que tal praticá-lo?

     Corre-se um risco, que é avaliá-lo como privativo e, não, como na verdade é: coletivo, sem acepção de pessoas.

     Deus se fez homem, porque não haveria outra forma de amar. Essa é a história que a Bíblia conta. Essa história é o eixo-mestre da narrativa bíblica. Tudo, no Livro, gravita em torno desse eixo principal.

    O Livro fala de uma história de amor. Deus quis aproximar-se, ficar perto, identificar-se, misturar-se, enfim, ter comunhão com o homem.

   Deus não faz acepção de pessoas. Ama a todos igual, por mais que isso nos incomode. Sim, porque o ser humano, nós fazemos, praticamos diariamente acepção de pessoas. Nós discriminamos.

    Costumamos pôr em nosso índex negativo certos tipos e deixamos o índex positivo aberto para eventuais classificações. Nós nos achamos boa gente e pomos nos dois índex de que dispomos a seleção que fazemos.

     Precisamos aprender algumas coisas: (1) se alguém é mal ou bom, é para Deus e na avaliação de Deus. E, na avaliação dEle, todos são maus. Todos são, perante Ele, iguais. Isso nos incomoda muito.

    (2) ora, se Deus ama, indiscriminadamente, a todos, assim devemos ser e praticar. Ora, se Ele se fez homem para, indiscriminadamente, de todos se aproximar, muito mais do que, isso dar a Sua vida como cura para a maldade de todos e de cada um, maior e definitiva prova do amor devemos, perigosamente (não dar a nossa vida, inútil e desnecessário) mas nos aproximarmos, estar perto e próximos, perigosamente próximos do outro.

     Deus é amor. Então, é próximo: anseia por comunhão e praticou isso. Fez isso por amor e para perdoar. O amor tem seus riscos. Quem não quer se arriscar, não ama. Quem não se aproxima, não ama. Quem não anseia por comunhão, é porque não ama.

    Muito difícil amar como Deus ama. Perdoar como Deus perdoa. Estar, perigosamente, próximos como Jesus sempre se colocou. Ansiar por comunhão, como sempre Ele ansiou.

     Quando, ou se perguntarem a você, por que está, perigosamente, tão perto do outro, responda: é para compreender a intensidade e o interesse de Deus em amor.

terça-feira, 4 de outubro de 2016


     O que vês, Jeremias?

     E o que via? No livro que toma o nome desse profeta, está escrito que ele viu um ramo de amendoeira. E daí? Poderia ser qualquer outro ramo.

     E logo emendado há uma afirmação que Deus vela sobre Sua palavra para que se cumpra. Ora, foi preciso dizer a Jeremias que o ramo específico que via tinha a ver com o levar em conta a palavra de Deus.

      O que tem o ramo com a palavra? Sejam ramos de videira, figueira, amendoeira ou até mesmo sarça, árvores citadas na Bíblia. Ou de mangueira, jambeiro, bananeira, que nem ramos tem, não citadas no Livro.

      Olhar ramos, não passa de somente olhar ramos. O que se propõe ser visto? Qual a confirmação de que há palavra, de que ocorre qualquer formulação nesse gesto?

      Exige-se que o maravilhoso esteja presente. Que o extraordinário, a fantasia, diz-se, que o sobrenatural se faça presente. Não se suporta o que está aí, do jeito que está. Não se acredita que Deus esteja presente no banal.

     Onde a palavra de Deus. Foi dito a Jeremias, olha o ramo da amendoeira, porque Deus vela sobre Sua palavra.

     

   

   


   

     O que vês, Jeremias?

     E o que via? No livro que toma o nome desse profeta, está escrito que ele viu um ramo de amendoeira. E daí? Poderia ser qualquer outro ramo.

     E logo emendado há uma afirmação que Deus vela sobre Sua palavra para que se cumpra. Ora, foi preciso dizer a Jeremias que o ramo específico que via tinha a ver com o levar em conta a palavra de Deus.

      O que tem o ramo com a palavra? Sejam ramos de videira, figueira, amendoeira ou até mesmo sarça, árvores citadas na Bíblia. Ou de mangueira, jambeiro, bananeira, que nem ramos tem, não citadas no Livro.

      Olhar ramos, não passa de somente olhar ramos. O que se propõe ser visto? Qual a confirmação de que há palavra, qualquer formulação nesse gesto?

   

   


   

     O que vês, Jeremias?

     E o que via? No livro que toma o nome desse profeta, está escrito que ele viu um ramo de amendoeira. E daí? Poderia ser qualquer outro ramo.

     E logo emendado há uma afirmação que Deus vela sobre Sua palavra para que se cumpra. Ora, foi preciso dizer a Jeremias que o ramo específico que via tinha a ver com o levar em conta a palavra de Deus.

     

     


   

     O que vês, Jeremias?

     E o que via? No livro que toma o nome desse profeta, está escrito que ele viu um ramo de amendoeira. E daí? Poderia ser qualquer outro ramo.

     E logo emendado há uma afirmação que Deus vela sobre Sua palavra para que se cumpra.

   

segunda-feira, 3 de outubro de 2016


     Pai, conta uma história?

      Eu incomodava com esse pedido. Meu pai me acostumou bem. Contava histórias bíblicas. Sansão, verdadeiro super herói. José e seus irmãos. Davi e sua valentia. Jesus e suas andanças.

     Minha mãe ouvia esse pedido, minha avó, mãe dela, ouvia esse pedido, até as tias ouviam: Nice, Gislaine, Miriam, talvez até Leila, a caçula, a que tem a idade mais próxima da minha.

      Você conta histórias bíblicas a teus filhos? Eu contei, confesso, menos do que meu pai contava. Ele ainda pôde contar ao Isaac a história de Zaqueu. Dorcas, minha mãe, completou contando histórias e estimulando a leitura da própria Bíblia, o Livro-fonte.

     Ora, alguém dirá, eu conto histórias aos meus filhos, filhas. Não precisam ser bíblicas. Sei do valor e função da história na mente e no desenvolvimento das crianças. Está bem, sabichão. Mas está aqui quem falou. Para suas crianças conhecerem Deus, conte as histórias da Bíblia.

     Ora, alguém dirá, de novo: eu não acredito em Deus. Não? Problema seu. Dê a seu filho chance de crer. E não pense que está com a razão. Há gente mais inteligente, inclusive, mais humilde do que você, que crê. Cesse a sua discriminação.

     Conheci uma mãe que argumentou comigo que, sim, expunha sua filha, sem medo, ao contato com a religião e a deixava intuir histórias e conversas, porque diz: eu não creio em Deus, mas quero que minha filha decida por si mesma.

     Em minha congregação, as meninas perguntam: a que horas vai começar a escolinha? Ansiedade, pura ansiedade por ouvir histórias. Você já parou para pensar no efeito que fazem as histórias na mente e no coração dessas crianças?

    Mais uma vez você dirá ser deletério esse interesse. Dirá que expor a criança a esse tipo de história será nocivo. Você tem medo de que seu filho ou sua filha acreditem em Deus. Ridículo? Você já ouviu a história de Thor, o deus do trovão?

     Já ouviu falar em Marvel Comics? É um herói de história em quadrinhos, filho de Odin, deus da mitologia nórdica. Você tem medo de seus filhos acreditarem nesse deus? Eu acredito em Thor. Mas distingo essa história daquelas outras. Thor é Comics, puro entretenimento.

     Não tenha medo de seu filho ou filha acreditarem em Thor. Puro entretenimento. É outra história. Agora, não privem seus filhos de ouvir histórias bíblicas. E, como adultos, façam como Jesus disse: tornem-se crianças e leiam essas histórias, contem a seus filhos e a outras crianças essas mesmas histórias. Contem a outros adultos essas histórias.

    Não tenha medo de Deus. Não deixe de ler histórias bíblicas. Não abandone o Livro. Não abandone a escolinha, como lugar de contar e ouvir histórias. Quanto mais perto de uma escolinha a igreja for, melhor pra todos e mais à vontade Deus vai se sentir em nosso meio.

sábado, 1 de outubro de 2016


    Acho que parecia uma aldeia.

    Uma imagem distante no tempo, lembra-me o quintal imenso da casa de equina da mãe de tia Iracema, ali na Oswaldo cruz, bem defronte ao 306 da vó Eunice.

    Nem adianta Lyndon, Lincoln e Gueguei tentarem lembrar: definitivamente, não foi na geração deles. Foi antes. Havia uma pilha de caixotes de feira, do Bide, empilhados fora, no terreiro. Naquele dia, estávamos indomáveis.

     Tio Ebinho, caramba, até ele, com aquele porte hercúleo, já havia despontado à porta dos cômodos dos fundos, onde morava a família, para tentar pôr freios.

     Ora, ensimesmado como era, se até ele interferira, é porque, naquele dia, Eliana, Cid Mauro, Bêla, Nanica e sua turma, desculpem o termo, estavam endiabrados. Binho, coitado, o menor e mais inocente de todos, só ria, sorria, com esse riso até hoje debochado.

      Acho que até Senhorinha veio à porta conferir, para ver se acreditava. Tivemos mesmo que nos separar, porque a rivalidade dos apelidos ultrapassou a tolerância, que nem era zero. Eu corri para a casa do outro lado da rua.

     Iracema era a mais tranquila. Sempre com o olhar grave de sempre, sorriso econômico, dissimulado, apenas advertia, com um muchocho, arregalando os olhos e falando baixinho: Olha o Ebinho, gente.

     Mansidão, se não me engano, jeito e gesto para administrar o gênio do esposo, lembram-me tia Iracema. Sim, e daquela vez em que cheguei, agora já beirávamos os 18 anos, pouco mais, pouco menos, já na casa atual?

    Tia Iracema jogou as mãos e olhões pro céu, "Cid Mauro, foi Deus que te mandou", disse ela. Eu, sem entender, mas logo depois inteirado, fui buscar Bêla ali ao lado, pertinho, numa reunião pouco ortodoxa, de descarrego.

    Só para lembrar, na década de 70 a Universal ainda não as realizava. Cara, até hoje, na memória, soa o ponto que iniciava essa tal sessão onde a mais velha foi se meter e de onde, sob peia, como chamam pisa aqui no Acre, tio Ebinho havia prometido tirá-la.

     Como havia esquisitices nos homens dessa família! Desde Nelson, passando por Tula, distribuídas por Baldomero filho, Éber e Onésimo. Mulheres que casaram com esses homens, tiveram que treinar diplomacia. Nota 10 para Iracema, com louvor.

     Deus é tão bom que bloqueou essas esquisitices naquela geração. Mas atenção, Cid Mauro e demais primos: vamos esperar a velhice bem cuidados e prevenidos, isolando esse DNA.

     Deus, foste bom também e principalmente por essas mulheres, como dádivas, esposas e mães, diplomatas com esses homens complicados. Devemos a vocês que não houvesse traumas ou, os que houve, soubemos tratar e não passá-los a nossos filhos.

    Estamos envelhecendo, primos. A turma do quintal do Bide já beira os 60: cabelos brancos, rugas, dores ósseas e lombares. A geração Gueguei ainda está assistindo, de camarote. Mas todos nós herdamos uma herança.

      Herança de bondade. Talvez uma pista dela a gente tenha visto nos olhos de Eunice avó, quando sorria: eles quase desapareciam, contraídos, quase totalmente fechados, o que dava ao rosto um desenho de rosto inteiro, sorriso enorme, lindo.

    Todo aquele rosto sorria. E as filhas leram o que havia por detrás, raízes desse sorriso, que  era a bondade de Eunice. Acho que as noras também aprenderam com esse sorriso. E acho também que souberam transmitir bondade.

       Sorrisos lindos, de Zila, de Francisca, de Iracema este, talvez, o mais disfarçado e dissimulado. Mas os olhões sempre atentos. Geraram filhos dessa aldeia. Como já disse, nem homens, nem mulheres perfeitos.

    Porém, transmitiram uma bondade vista, aprendida e legada como herança. Por isso nos sentimos uma aldeia de uma grande família, uma bondosa família. A Bíblia diz que é a bondade de Deus que nos faz bons.

     O segredo de Eunice avó. Venceu Tula por sua bondade. Continuemos assim, com olhões bem abertos, vigilantes, para que nada e ninguém nos roube a bondade.