Uma fortificação cercada por muralhas de sete metros de altura se torna protagonista em meio ao verde amazônico, como se tivesse sido deslocada por outro continente. E do lado de fora do perímetro, circundam florestas contando com a presença de um rio. Em seu interior, jazem ruínas de alojamentos, depósitos e outras estruturas que um dia já formaram uma pequena cidade militar.
É o real Forte Príncipe da Beira localizado em Costa Marques, na margem do Rio Guaporé e diante da fronteira com a Bolívia. Erguido no século 18, o conjunto é reconhecido pelo Iphan como a maior edificação militar portuguesa construída fora da Europa e guarda quase 250 anos da histórica ocupação do território brasileiro.
A grandiosidade chama atenção, mas a história não é escrita apenas nas pedras. O forte também carrega as marcas da mão de obra escravizada usada em sua construção, do longo período de abandono e da comunidade quilombola que vive em seus arredores há mais de dois séculos.
Fortificação e uma fronteira em disputa
A decisão de erguer o forte começou longe da Amazônia. Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o tratado de Madrid, que reorganizou as fronteiras de suas colônias na América do Sul. A posse passou a depender completamente, em grande parte, da ocupação efetiva do território.
Para Portugal, manter homens e estruturas às margens do Guaporé era uma forma de provar domínio sobre aquela faixa da região. O antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição já cumpria essa função, mas uma enchente destruiu a construção em 1771.
Cinco anos depois, a Coroa escolheu outro ponto, cerca de 1,5 quilômetro adiante. A pedra fundamental do novo forte foi lançada em 20 de junho de 1776.
As obras avançaram em uma região isolada, marcada por calor, umidade, doenças e dificuldades de transporte. O engenheiro italiano Domingos Sambucetti, responsável pelo projeto inicial, morreu de malária antes de ver a fortaleza concluída. A inauguração ocorreu em 20 de agosto de 1783.
Uma cidade atrás dos muros da fortificação
O tamanho do Real Forte Príncipe da Beira impressiona até hoje. A estrutura possui cerca de 970 metros de perímetro e quatro baluartes, batizados com nomes de santos católicos.
Cada Canto foi planejado para receber canhões e permitir a defesa de diferentes direções. Um fosso cercava a construção, enquanto o acesso principal ocorria por uma passagem controlada na muralha norte.
Por dentro, o conjunto funcionava como uma pequena cidade militar. Havia alojamentos para soldados, residências de oficinas, capela, prisão, armazéns, depósitos e um poço.
Pedras extraídas da própria região formaram boa parte das muralhas. Outros materiais precisaram percorrer longas distâncias até chegar ao canteiro de obras, em uma época sem estradas, tendo um rio como principal caminho.
Portugueses, indígenas e pessoas escravizadas participaram da construção. Pesquisas históricas apontam que muitos trabalhadores morreram durante o serviço, principalmente em razão da malária e das duras condições encontradas na região.
A mata fechou as portas da fortificação
Com o passar das décadas, a fortaleza perdeu sua importância estratégica, suas tropas diminuíram, estruturas ficaram sem manutenção e a vegetação começou a avançar sobre o interior, fazendo com que a antiga cidadela desaparecesse aos poucos sob a mata.
Em 1914, uma expedição comandada por Cândido Rondon encontrou o forte abandonado e coberto por plantas. O que antes servira para afirmar o poder português na fronteira havia se transformado em um conjunto de ruínas isolado na floresta.
Anos depois, trabalhos de limpeza devolveram parte da construção à paisagem. O Exército voltou a ocupar a região e instalou nas proximidades o Pelotão Especial de Fronteira, conhecido como Sentinela do Guaporé.
O tombamento federal ocorreu em 1950, quando o forte passou a ser reconhecido oficialmente como patrimônio cultural brasileiro.
Objetos que contam outras histórias
O chão do Real Forte Príncipe da Beira também guarda informações que não aparecem nas muralhas. Pesquisas arqueológicas iniciadas em 2008 encontraram louças portuguesas, fragmentos de vidro, metais, cerâmicas indígenas e estruturas relacionadas ao funcionamento cotidiano da fortaleza, como paiol e estábulo.
Os vestígios revelaram uma ocupação mais complexa do que a narrativa estritamente militar. Há sinais de presença humana anteriores à chegada dos portugueses, além de materiais ligados às populações indígenas e afro-brasileiras que viveram ou trabalharam na área.
Uma pequena peça de cerâmica pode indicar hábitos alimentares. Um fragmento de vidro ajuda a reconstruir rotas comerciais. Restos de construções mostram como soldados, trabalhadores e famílias organizavam a vida dentro e fora dos muros. Por esse motivo, objetos encontrados no local não devem ser retirados pelos visitantes.
Memória sobrevive ao redor
A fortificação não está cercada apenas por mata. Nos arredores vive a Comunidade Quilombola Forte Príncipe da Beira, formada por famílias ligadas à história da região há gerações.
Parte dos moradores descende de pessoas escravizadas que trabalharam na obra ou permaneceram no Vale do Guaporé depois do período colonial. Atualmente, integrantes da comunidade atuam no turismo e ajudam a apresentar o monumento a quem chega a Costa Marques.
A presença quilombola muda a forma de compreender o lugar. O forte não representa somente uma obra de engenharia militar portuguesa. Suas pedras também carregam a história de quem foi obrigado a erguê-las e de famílias que continuaram vivendo naquele território muito depois da retirada das tropas.
Durante a época de seca, quando o nível do Guaporé baixa, inscrições rupestres aparecem em pedras próximas às margens. Os sinais acrescentam outra camada ao passeio e mostram que a ocupação humana da região começou muito antes das disputas entre Portugal e Espanha.
Quase 250 anos de resistência
O Real Forte Príncipe da Beira integra a lista indicativa brasileira para uma futura candidatura a Patrimônio Mundial da Unesco. O título ainda não foi concedido, mas a inclusão reconhece a importância histórica e arquitetônica do conjunto.
Visitar o forte significa caminhar por diferentes tempos no mesmo espaço. As muralhas lembram a disputa colonial. As ruínas revelam os anos de abandono. Os achados arqueológicos mostram uma história mais antiga e diversa, enquanto a comunidade quilombola mantém viva a ligação humana com o território.
No meio da Amazônia, a construção continua cercada pela floresta que quase a fez desaparecer. O que sobreviveu não foi apenas uma fortaleza portuguesa, mas um lugar onde quase três séculos de histórias ainda permanecem gravados na pedra.

Nenhum comentário:
Postar um comentário