domingo, 5 de julho de 2026

Acreanos notáveis

 

ADEUS, DONA AURY | O Acre perdeu, na noite desta quarta-feira, 24, Aury Gama Silva, aos 92 anos. Enfermeira aposentada, era viúva do saudoso maestro José Belarmino da Silva (1914–1993), que marcou época à frente da Banda de Música da Polícia Militar do Acre.

Dona Aury pertencia a uma dessas famílias pioneiras que ajudaram a lançar as bases humanas, sociais e afetivas do Acre contemporâneo. Era a terceira dos seis filhos de Francisco de Souza Gama (1891–1974) e Maria de Carvalho Gama (1902–1976), família originária dos seringais das florestas de Sena Madureira, que se transferiu para Rio Branco na década de 1950.

Sua mãe, Maria de Carvalho Gama, a Loló, nasceu no seringal Silêncio, na divisa do Acre com o Amazonas, e representa uma das fontes de acreanidade da família. Os avós de dona Aury já estavam nestas terras no tempo da Revolução Acreana, entre 1899 e 1903, quando se desenhava, em meio à floresta, o destino político e histórico do Acre.

Dona Aury era irmã de Aldorico Carvalho Gama (1927–1993), funcionário público e poeta, figura estimada na vida cultural e afetiva de Rio Branco. Fui amigo de Aldorico por intermédio de seus filhos William, Chico Velho e, sobretudo, Jorge Nazaré — estes dois últimos, também já recolhidos à memória. Dona Aury era ainda irmã de Auréa, Alderi, Auride, Aldelice e Armando.

Da união com Belarmino, ainda muito jovem, Aury ajudou a criar Nostradamus, Schubart, Eliana e Marilena Brasileira do Acre Mamed, filhos de dois casamentos anteriores do maestro. Depois nasceram Jackson, que faleceu bebê, Ivonita, Regina Célia, Márcia Regina e Ronaldo José.

Seu sobrinho, meu amigo William Gama, de 68 anos, recorda a tia com a ternura de quem rememora não apenas uma pessoa, mas uma paisagem inteira de Rio Branco:

— Quando aprendi a andar por Rio Branco, logo descobri a casa do vovô Gama. Indo lá por trás, com o Armando, chegava à casa da tia Aury, na Avenida Ceará. Atravessávamos umas capoeiras e becos, pelo meio das árvores, até alcançar um igarapé delicioso, no atual Parque da Maternidade, para tomar banho. A tia Aury morava ali pertinho. Sempre a conheci naquele casarão de madeira da Avenida Ceará, que, na época, ainda era de terra. Depois calçaram a avenida com tijolos de barro e hoje ela se tornou uma das maiores vias de Rio Branco. Sua casa sempre foi grande e confortável.

Na lembrança de William, a casa de dona Aury se confunde com uma Rio Branco que já não existe senão na memória dos que a viveram: a cidade das capoeiras, dos becos, dos igarapés e das grandes casas de madeira, antes que o tempo a transformasse em avenida, asfalto e pressa.

Com a partida de dona Aury Gama Silva, despede-se uma mulher brava, herdeira de uma linhagem fincada nos primórdios da formação acreana. Sua morte enluta uma extensa família e uma imensa legião de amigos, a quem apresento meus sinceros sentimentos.

O maestro receberá a enfermeira com as valsas que compôs para ela.

VELÓRIO
Capela da Funerária São Francisco

SEPULTAMENTO
Cemitério São João Batista, às 16h.

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