MANGA: O GOLEIRO QUE DESAFIOU O TEMPO E SE TORNOU UMA LENDA DO FUTEBOL SUL-AMERICANO
Entre os maiores goleiros da história do futebol brasileiro, poucos construíram uma carreira tão longa, vitoriosa e respeitada quanto Haílton Corrêa de Arruda, eternizado como Manga. Dono de reflexos extraordinários, coragem impressionante e uma personalidade tranquila, tornou-se ídolo do Botafogo, do Nacional do Uruguai e do Internacional, conquistando títulos históricos em três países. Sua imagem também ficou marcada por uma característica incomum: enquanto a maioria dos goleiros passou a utilizar luvas, Manga preferia atuar com as mãos enfaixadas ou praticamente nuas, acreditando que assim tinha maior sensibilidade e controle da bola.
Manga nasceu em 26 de abril de 1937, no bairro da Boa Vista, em Recife, Pernambuco. Filho de uma família humilde, cresceu jogando futebol nas ruas da capital pernambucana. Começou como jogador de linha nas peladas de infância, mas acabou assumindo o gol por necessidade da equipe. O improviso revelou um talento natural.
Sua carreira profissional começou no Sport Club do Recife, onde estreou em 1955. Em pouco tempo, tornou-se um dos principais goleiros do futebol nordestino, despertando o interesse dos grandes clubes brasileiros.
Em 1959, foi contratado pelo Botafogo, iniciando uma das passagens mais brilhantes da história do clube. O Alvinegro vivia uma geração de ouro, com craques como Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo, Quarentinha, Jairzinho, Gérson e outros. Em meio a tantos talentos ofensivos, Manga se consolidou como a grande referência defensiva da equipe.
Durante dez temporadas em General Severiano, disputou 442 partidas oficiais, tornando-se um dos goleiros que mais vestiram a camisa botafoguense. Conquistou os Campeonatos Cariocas de 1961, 1962, 1967 e 1968, além dos Torneios Rio-São Paulo de 1962, 1964 e 1966.
Seu estilo era marcante: excelente posicionamento, explosão nas defesas, segurança nas saídas de gol e a rara habilidade de não espalmar bolas para a frente. Sua coragem impressionava, especialmente numa época em que os goleiros recebiam pouca proteção da arbitragem.
As grandes atuações renderam convocações para a Seleção Brasileira. Participou da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Reserva de Gilmar nas duas primeiras partidas, assumiu a meta no jogo decisivo da fase de grupos contra Portugal, de Eusébio. O Brasil foi derrotado por 3 a 1 e eliminado precocemente. Apesar da campanha ruim, Manga não foi apontado como o principal responsável.
Em 1968, transferiu-se para o Nacional, do Uruguai, onde viveu um dos capítulos mais importantes de sua carreira. Rapidamente conquistou a torcida com defesas espetaculares e liderança em campo. Entre 1969 e 1974, conquistou quatro Campeonatos Uruguaios, a Copa Libertadores da América de 1971 e a Copa Intercontinental, ao derrotar o Panathinaikos, da Grécia. Suas atuações o fizeram ser considerado por muitos o maior goleiro da história do Nacional — reconhecimento raro para um estrangeiro.
Em 1974, retornou ao Brasil para defender o Internacional, justamente no início da era mais vitoriosa do clube gaúcho. Sob o comando de Rubens Minelli, foi peça fundamental na conquista dos Campeonatos Brasileiros de 1975 e 1976, os dois primeiros títulos nacionais da história colorada.
Mesmo veterano, manteve excelente forma física e reflexos impressionantes. Depois do Inter, ainda defendeu o Operário de Mato Grosso do Sul, o Coritiba, o Grêmio e encerrou a carreira no Barcelona Sporting Club, do Equador, em 1982, aos 45 anos, após sagrar-se campeão nacional equatoriano em 1981.
Curiosidades históricas
As mãos nuas:
Manga ficou famoso por atuar sem luvas. Preferia as mãos enfaixadas com esparadrapo, alegando maior sensibilidade. Isso lhe rendeu dedos deformados e uma imagem de grande bravura.
Dia do Goleiro:
Desde 1976, o “Dia do Goleiro” é comemorado no Brasil em 26 de abril, data de seu nascimento.
Longevidade:
Atuou profissionalmente por quase três décadas, mantendo alto rendimento até os 45 anos.
Tríplice coroa sul-americana:
Um dos poucos goleiros a conquistar títulos nacionais importantes no Brasil, Uruguai e Equador.
Origem do apelido: A versão mais aceita é que recebeu “Manga” na infância devido aos braços longos e finos, comparados às mangas de uma camisa.
Pós-carreira e legado
Após encerrar a carreira, radicou-se por muitos anos no Equador, onde trabalhou como preparador de goleiros e viveu de forma modesta. Enfrentando dificuldades financeiras e problemas renais, recebeu apoio de torcedores (especialmente do Nacional) e retornou ao Brasil, onde viveu seus últimos anos no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro.
Ao longo da aposentadoria, foi constantemente homenageado pelos clubes que defendeu. Nos últimos anos, enfrentou problemas de saúde e foi diagnosticado com câncer de próstata. Após dias internado no Hospital Rio Barra, Haílton Corrêa de Arruda faleceu em 8 de abril de 2025, aos 87 anos.
Sua morte provocou grande comoção. Clubes como Botafogo, Sport, Internacional, Nacional, Coritiba, Grêmio, Barcelona de Guayaquil, além da CBF e da CONMEBOL, prestaram homenagens oficiais.
Manga deixou um legado que vai além de números. Ídolo eterno do Botafogo, campeão da Libertadores e do Mundo pelo Nacional, bicampeão brasileiro pelo Inter e símbolo de coragem por atuar de mãos nuas, ele se consolidou como um dos maiores ícones do futebol sul-americano.

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