sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

US United States, o navio

Coveiro do mar: a curiosa profissão de um afundador profissional de navios

Jorge de Souza
Colunista de Nossa
22/01/2026 05h30


O americano Tim Mullane, de 55 anos, tem uma profissão um tanto curiosa: ele é um "afundador profissional de navios" — e faz isso, com sucesso, há mais de 20 anos.
Atualmente, ele está envolvido no seu maior projeto: preparar um grande navio de cruzeiros, o outrora sofisticado transatlântico SS United States, que já foi um dos maiores do seu tempo, para afundar no mar do Golfo do México, bem diante da cidade americana de Destin, no condado de Okaloosa, na Florida.


Ali, o imenso navio, de quase 300 metros de comprimento, servirá à um duplo propósito: dar forma a um recife artificial que estimulará a vida marinha (o maior do mundo, por sinal), e atrair turistas mergulhadores, que injetarão muitos na economia da cidade.
"Afundar navios com esse propósito é um grande negócio", diz Mullane, um ex-militar da Marinha Americana, que hoje é um dos doze especialistas no assunto nos Estados Unidos, e dono de uma empresa que atua com uma equipe de mais de 30 pessoas, todas envolvidas na preparação do SS United States para sua derradeira viagem, rumo ao fundo do mar.

Agentes funerário dos navios

"Somos os agentes funerários dos navios e os coveiros do mar", brinca o americano, que há mais de um ano vem trabalhando na preparação do SS United States para o grande dia do seu afundamento, previsto para daqui a 40 dias, no início de março.


Neste momento, o navio está sendo dissecado, com a retirada de muitos equipamentos internos, lavado, lixado e esvaziado de todos os seus fluídos, para não contaminar o meio ambiente marinho, um processo lento, trabalhoso e meticuloso, que Mullane desempenha com extrema dedicação e visível prazer.


Sei que, no dia do afundamento, todo mundo que um dia navegou no SS United States sentirá um aperto no coração, e que essas pessoas devem nutrir sentimentos conflituosos sobre o trabalho que estou fazendo"   Tim Mullane

"Mas virar um recife, repleto de vida marinha, é um final bem mais digno do que o simples desmanche, para um navio com a história, beleza e relevância do SS United States", explica o americano.

Tenho muito orgulho de fazer parte desse projeto, e venho trabalhando com muito afinco para o que o afundamento dele seja um sucesso"

"Afundar direito"

Por "sucesso", no ramo em que Mullane atua, entenda-se fazer o navio afundar sem deixar nenhum vestígio na água — fruto do trabalho de limpeza que vem sendo feito no interior e no casco do SS United States, removendo, por exemplo, toda a sua pintura tóxica —, mas principalmente fazê-lo "afundar direito", ou seja, em posição de navegação, como se ainda estivesse na superfície, visando a satisfação dos mergulhadores que irão visitá-lo depois, no fundo do mar.

Esta é a parte mais delicada e técnica da operação coordenada por Mullane.

"O objetivo não é apenas que o SS United States afunde sem deixar consequências para o meio ambiente, mas que isso aconteça exatamente como planejado, de forma que ele continue imponente, mesmo debaixo d'água"  Tim Mullane


O especialista estima que o transatlântico levará algumas horas para inundar completamente, e 45 minutos para descer até o fundo do local escolhido para o afundamento, onde a profundidade é de 54 metros.

Como de hábito, Mullane ficará a bordo do navio a ser afundado até o último instante, controlando as válvulas que o encherão de água, e tal qual os capitães de embarcações, será o último a abandoná-lo.
"Será um momento histórico, também para mim", diz o especialista, e completa:

"O SS United States não foi apenas um grande navio de passageiros. Foi o mais luxuoso da história da indústria naval americana".

Um navio histórico

Apelidado de The Big Ship ("O Grande Navio", com capacidade de transportar quase 2 000 passageiros), o SS United States foi lançado em 1952 e navegou até 1969, fazendo regularmente a travessia entre a e Europa e os Estados Unidos.
Até que o crescimento do transporte aéreo — e a diminuição na quantidade de passageiros interessados em fazer esta mesma viagem pelo mar —, forçou a sua aposentadoria, embora ele ainda fosse o mais veloz de todos os transatlânticos do mundo.


Nele, viajaram personalidades como Bill Clinton, Marilyn Monroe, Salvador Dali, Judy Garland, Cary Grant e até Walt Disney.

Recordista até hoje

Até hoje, mesmo 57 anos depois de ter sido desativado, o SS United States ainda detém o recorde de velocidade da travessia do Oceano Atlântico, conquistado mais de 70 anos atrás.
Logo na sua viagem inaugural, em 1952, ele quebrou o recorde da travessia do Atlântico Norte, cruzando o oceano a uma velocidade média de 66 km/h — marca impressionante mesmo para os dias atuais.
O feito lhe rendeu o direito de usar a Blue Riband, a "Fita Azul", um prêmio criado no início do século passado para ser concedido ao navio de passageiros que atravessasse o Atlântico com a maior média horária de velocidade.
Como o SS United States foi um dos últimos transatlânticos a operar a rota de passageiros entre a Europa e os Estados Unidos (que não existe mais como linha regular), ele acabou ficando com o recorde — e a Fita Azul — para sempre.

A Blue Riband foi a mais alta honraria que um navio transatlântico podia receber no passado — um prêmio que, durante décadas, rendeu uma vibrante disputa entre as maiores empresas marítimas, com enormes transatlânticos participando de uma improvável corrida de navios em pleno oceano, como pode ser conferido clicando aqui:

Ver na net:

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