Esta fotografia foi feita em 1912, numa manhã de domingo, diante de um sobrado na Rua da Aurora, no Recife.
O menino, de calças curtas e camisa engomada, se chamava Ernesto.
O cão, de pelo desgrenhado e olhos escuros como café forte, atendia por Juca.
Era um tempo em que se varria a calçada com folhas de palmeira, em que os lampiões a gás ainda eram acesos ao entardecer e os bondes cortavam as ruas com um barulho encantado.
Ernesto era filho de um tipógrafo. A casa cheirava a papel úmido e tinta fresca.
E Juca... bem, Juca apareceu certo dia, saído de algum beco da cidade, com a pata ferida e a barriga encostada no osso. O menino o achou atrás da Igreja da Boa Vista e, mesmo sendo apenas uma criança, decidiu levá-lo para casa — escondido, como se fosse um tesouro.
A mãe ralhou. O pai suspirou. Mas Juca ficou.
E, com o tempo, passou a ser parte do cotidiano como o relógio de parede ou o café da manhã.
Ia com o menino até a escola, esperando do lado de fora com paciência de monge. Às vezes latia baixo, como se dissesse: “tô aqui”.
Diziam que havia algo solene naquele cachorro.
Um jeito antigo de observar o mundo.
Ernesto, que era um menino de poucas palavras, falava mais com o cão do que com qualquer adulto.
Deitava no chão do quintal, contando estrelas, enquanto Juca dormia com o focinho sobre sua perna.
À noite, o cão ficava de guarda na porta do quarto. Como um cavaleiro silencioso.
A fotografia foi tirada pelo irmão mais velho, que havia ganhado uma máquina alemã de segunda mão.
Na imagem, Ernesto está sentado na calçada, o joelho ralado, o cabelo partido de lado.
Ao seu lado, Juca posa ereto, com a seriedade de um marechal.
Ao fundo, o ipê florido derrama sombras suaves sobre o chão de pedras.
Os anos passaram.
A escola virou trabalho. O sobrado, ruína.
Mas a lembrança de Juca seguiu viva.
Quando Ernesto, já homem feito, foi chamado para lutar na Revolução de 30, levou no bolso interno do paletó um pedaço da coleira do velho amigo.
Era só um couro gasto. Mas, pra ele, era escudo.
Dizem que, em seus últimos dias, já velho e cansado, Ernesto ainda murmurava o nome do cão ao cochilar na varanda.
E que, certa vez, quando uma bisneta lhe perguntou o que era “lealdade”, ele apontou para a foto em preto e branco na parede e disse:
“É aquilo ali. Um menino e seu cão. Nada mais, nada menos.”
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