sábado, 31 de janeiro de 2026

𝑼𝒎 𝑩𝒂𝒊𝒓𝒓𝒐 𝑺𝒐𝒃𝒓𝒆 𝑻𝒓𝒊𝒍𝒉𝒐𝒔❗

 

Os bondes de Santa Teresa não nasceram como transporte; nasceram como gesto. Um gesto do Rio de Janeiro de fins do século XIX, quando a cidade ainda acreditava que subir morros era sinal de progresso e não de pressa. Foi em 1896 que eles começaram a riscar o cotidiano do bairro, implantados pela então Companhia Ferro-Carril Carioca, num tempo em que eletricidade ainda soava como promessa futurista. O responsável não foi um homem apenas, mas uma ideia coletiva: ligar o centro que mandava ao alto que observava.
.
Antes deles, Santa Teresa era quase um retiro. Caminhos íngremes, carroças ofegantes, moradores que mediam a distância em esforço. Os primeiros bondes eram simples, de madeira, abertos nas laterais, mais parecidos com varandas móveis do que com veículos. Tinham bancos retos, teto alto e um ritmo próprio, como se respeitassem a geografia em vez de desafiá-la. No início, a tração não era elétrica: usavam tração animal, puxados por burros pacientes que conheciam cada curva como quem conhece um velho amigo. Só depois, já nos primeiros anos do século XX, vieram os bondes elétricos, inaugurando um novo som para o bairro — o zumbido discreto dos fios e o ranger metálico sobre os trilhos.
.
O trajeto inicial ligava o Largo da Carioca ao alto de Santa Teresa, atravessando os Arcos da Lapa. Não foi escolha estética, embora tenha se tornado. Os arcos eram o antigo aqueduto da cidade, uma obra sólida, elevada, capaz de vencer o desnível entre o centro plano e o morro inclinado. Usá-los foi solução prática e engenhosa: o bonde não precisava contornar ladeiras intermináveis, bastava atravessar o céu por alguns metros. Assim, o transporte ganhou vista e a cidade ganhou símbolo.
.
A importância dos bondes para a mobilidade do bairro foi imediata. Santa Teresa deixou de ser distante para se tornar possível. Artistas, funcionários públicos, estudantes, boêmios e famílias passaram a subir e descer com regularidade. O bonde organizou horários, criou encontros, fundou atrasos justificáveis. Mais do que levar pessoas, levou hábitos: o ir ao centro deixou de ser evento e virou rotina.
.
Com o tempo, os bondes foram modernizados. Receberam motores mais potentes, freios melhores, iluminação elétrica. Ainda assim, mantiveram algo de artesanal, uma recusa silenciosa à pressa. Não eram rápidos, nunca quiseram ser. Eram confiáveis como um relógio antigo, desde que ninguém tivesse muita urgência.
.
A história, porém, não foi feita apenas de poesia. Alguns acidentes marcaram profundamente a memória da cidade, especialmente os descarrilamentos, que revelaram a fragilidade de um sistema antigo convivendo com exigências modernas. O mais traumático deles, já no século XXI, expôs feridas abertas: manutenção negligenciada, estruturas cansadas, decisões adiadas. O bonde, que sempre fora símbolo de delicadeza, tornou-se também lembrança de responsabilidade.
.
Havia detalhes que não apareciam nos relatórios, mas ficaram na crônica oral. O ponto final no Hotel Silvestre, por exemplo, não era apenas geográfico. Era quase uma pausa elegante, um lugar onde o bonde parecia suspirar antes de voltar. Ali, turistas desciam com olhos curiosos e moradores seguiam como quem chega em casa.
.
Em horários específicos, surgia o reboque: um segundo carro acoplado ao primeiro, usado quando a demanda aumentava. O bonde crescia como quem improvisa uma solução sem alarde, esticando sua capacidade sem perder o equilíbrio.
.
Dentro dele, reinava uma pequena coreografia social. O motorneiro, atento aos trilhos e aos sinais invisíveis da cidade, conduzia com firmeza e gentileza. O cobrador, figura inesquecível, segurava as notas de dinheiro entre os dedos, dobradas, organizadas por valor, como um truque de mágica aprendido na prática. Não havia pressa: o troco vinha, o bilhete era entregue, tudo no tempo certo.
.
E havia a viagem no estribo. Meio infração, meio ritual. Passageiros pendurados do lado de fora, sentindo o vento, confiando no corpo e no equilíbrio. Hoje pareceria absurdo; naquele tempo, era apenas mais uma forma de estar na cidade, um pacto silencioso entre risco e costume.
.
O bonde atravessando os Arcos não transportava apenas moradores. Levava histórias, olhares, silêncios. De cima, o centro parecia outro — menor, menos urgente. Talvez por isso Santa Teresa tenha preservado esse jeito de vila suspensa, esse atraso deliberado no relógio da modernidade.
.
Ao longo das décadas, o bonde sobreviveu a ameaças, interrupções, nostalgias. Tornou-se patrimônio, não por decreto apenas, mas por insistência afetiva. É um transporte que não se explica só pela função. Ele existe porque a cidade decidiu lembrar.
.
E quando o bonde passa, ainda hoje, não é apenas um veículo cruzando trilhos. É o Rio antigo conversando com o Rio presente. Um diálogo lento, rangente, elétrico — como toda boa memória que se recusa a andar rápido demais.
.
👉 Esse texto está na minha Página de escritor. Sua participação me ajuda, clique no post original, siga, curta e comente lá — isso me ajuda muito a continuar escrevendo 🙏.
.
__ Todos os livros disponíveis em e-book e impresso.








__ Você que gosta de histórias e literatura de qualidade se inscreva no grupo “Crônicas Que Tocam”, e além disso ganhe livros grátis e descontos por menos que um cafezinho por mês - link nos comentários do meu perfil.
.
.
#cronicasquetocam #carlosacoelho #ApoieALiteratura #cronicas #literatura #livros #editorauiclap #amazonbooks




Ver na net:

Nenhum comentário:

Postar um comentário