sábado, 30 de maio de 2015


  Minha alma tem sede de Deus

              Pelos menos, três aproximações: (1) quem fala, (2) o que fala e (3) de quem fala. Homem, a sede e Deus. O salmista, confira lá, no Livro dos Salmos, nº 42, diz que tem sede de Deus. Qual a natureza dessa sede? Quem diz que nutre essa sede? Que Deus?

              Bem, com relação a quem fala, quantos se identificariam com ele? Quantos há que podem dizer, com o salmista, "minha alma tem sede de Deus"? Problemático, porque para cada um que fala, será um deus diferente. A não ser que ocorra uma combinação, o grupo partilhe de uma mesma crença porém, mesmo assim, a ideia de Deus será distinta para cada um.

             Que celebrem, entre si, um credo, que combinem, entre si, uma doutrina, quem sabe, então, será possível estabelecer uma mesma crença para o mesmo deus. Mas, falando de Deus e não de deus(es), como cada qual que assim se expressa, dizendo ter sede, o deus em questão terá um critério definido ou, falando de outro modo, esse deus será definido de modo específico, para que todos, com relação a ele, assim se expressem?

               Sede. O que fala de Deus? Tem sede. Evidentemente, sentido figurado, que será entendido por uma ânsia, vamos usar esta palavra, por algo vital, no caso, comparado à água, indique que, com relação a Deus, não se pode prescindir, do mesmo modo que água e que, caso não seja satisfeito, mantém essa mesma ansiedade em qualquer que, desse modo se manifesta.

            Deus. Que Deus? O Deus que a Bíblia define? Salmo 42 é texto da Bíblia. Seria o Deus imaginado no Salmo, especificamente? O Deus do Livro dos Salmos? O Deus do Antigo Testamento? No caso, encarado como Deus o da Bíblia, complementariam-se Antigo e Novo Testamentos, para apresentar uma identidade de Deus? 

               De qualquer modo, sede desse Deus, assim definido, assim exposto nos texto referenciais do Livro. Como cada qual que lê, explicita esse Deus? Como o salmista se expressa quando define o que sente e que imagem reflete ao leitor? Pelo menos três coisas ele afirma.

             Primeira: sente sua alma abatida, por isso vem a sede de Deus. Segundo, sente saudade da multidão de povo, com a qual se identificava, quando iam todos juntos à Casa do Deus. Terceiro, na calada da noite ele dirige uma oração a Deus, ele fala com Deus.

              Abatimento da alma, comunhão com iguais e fala pessoal, num boca a boca, num cara a cara com Deus. Visto por um ateu, permitam-me buscar tal viés ou esse ponto de vista da narrativa, essas três razões são típicas ou lugares comuns para que fique clara a dependência, carência emocional do ser humano por uma figura, digamos, divina.

           O conjunto das mazelas humanas, que findam por provocar abatimento ao ser humano, por causa de sua inconformidade frente a sua fragilidade; o conjunto de iguais que decide, entre si, fechar questão em torno de uma religião ou doutrina, todos combinados em aceitar rituais, fixar liturgia e estabelecer simbologia sobre o deus no qual afirmam crer; e, por fim, a solidão existencial do homem, todos à parte, quando mergulha dentro de si, num momento em que ninguém pode socorrê-lo em seu medo ou com ele se identificar, nesse momento extremo, fala com seu deus.

             


     
   

domingo, 24 de maio de 2015

Conta-me a velha história


 Por que crianças?


                    Por que, há 160 anos atrás, Sarah Kalley iniciou, com crianças, a Escola Dominical no Brasil? Esta pergunta pode suscitar outras duas, que são: (1) É possível, ainda hoje, de novo, iniciar com crianças? (2) É possível, ainda hoje, Escola Dominical?

               129 anos depois do casal Kalley, Nelson e Josilene Rosa inciaram, no Acre, com crianças, uma Escola Dominical. Faziam uma classe de crianças em sua casa no bairro do Bosque, na capital, em Rio Branco. Posteriormente, quando se mudaram para o Conjunto Tancredo Neves, uma invasão na saída para Porto Acre, continuaram com crianças. Iniciaram, também, com crianças, uma Congregação no bairro Estação Experimental, onde hoje está a 2ª Igreja Congregacional, organizada em 1998.

             Quando cheguei ao Acre, 11 anos depois deles, em 1995, com a continuidade de meu ministério oficiei, pelo menos, 5 casamentos, no total 10 daquelas crianças de 11 anos antes que, até hoje, estão firmes na igreja, criando seus filhos no caminho do Senhor. Atualmente o casal Rosa está atuando numa Congregação no bairro Ilson Ribeiro, predominantemente constituída por crianças.

                  Atualmente dirijo uma Congregação no bairro Manoel Julião, a qual adquiriu uma chácara para desenvolver o Projeto Chácara Jesus, o Bom Pastor (acompanhe pelo Facebook) que visa crianças do entorno, um bairro situado no município de Senador Guiomard, a 30 km de Rio Branco. Que necessidades, em 1855, Sarah identificou, que pudesse despertá-la para iniciar seu ministério com uma Escola Dominical para crianças?

                Todos consideram que escola é uma necessidade. E que, se escola necessita de reforma, de modificações que possam adequá-la aos tempos (pós)modernos, talvez seja uma boa ideia iniciar mudanças a partir de dois princípios básicos: (1) mudar escola (2) a partir de crianças. A ideia é sugerir que, se crianças estão no começo de seu desenvolvimento como pessoas, valerá a pena pensar numa escola nova e diferente, a partir da percepção e necessidades dos pequeninos.

           Quais são essas necessidades? Qual seria essa percepção? Jesus disse que não devemos embaraçar o caminho dos pequeninos, mas conduzi-los a ele: "Deixai vir a mim os pequeninos". Quando falou isso aos discípulos, o que teria Jesus para dizer às crianças? Que estratégias ele planejava utilizar para satisfazer as necessidades das crianças ou motivá-las em sua percepção? O que temos nós a falar, em nome de Jesus, às crianças, atentos a sua capacidade de percepção?

             Do que tem sido alvo as crianças em nossos dias? Quanto tempo mais cedo na vida delas os desvios que, antigamente, somente entre os adultos eram, lamentavelmente, verificados, alcançam-nas hoje? Prostituição infantil, uso de drogas lícitas ou ilícitas, abuso sexual, exposição na mídia, evasão escolar, trabalho infantil, mendicância, criminalidade, enfim. O que a igreja evangélica está se propondo a realizar especificamente nesse campo? O que mais precisa acontecer para nos sensibilizar?

             Quem sabe as Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil, que a si mesmas se declaram originárias da classe de Escola Dominical de Sarah Kalley - e as demais igrejas evangélicas, também devedoras do ministério do casal Kalley - pudessem refletir sobre a escolha feita há 160 anos atrás por essa mulher: iniciar, com e para crianças, Escolas Dominicais. Mas, para que mesmo? Para ensinar o quê? Que tal ensinar a Bíblia? Que tal utilizar a inteligência da sugestão de Jesus e pensar em recursos que satisfaçam a percepção dos pequeninos, conduzindo-os ao Mestre, sem embaraçar o caminho deles?

             Sarah Kalley, uma mulher que fez um boa escolha, uma atual escolha: resgatar pequeninos, ensinar a Bíblia, formar uma nova Escola Dominical. O velho Livro, "Conta-me a velha história do grande Salvador, de Cristo e Sua vida, de Cristo e seu amor", com inteligência de recursos novos, a fim de satisfazer uma velha necessidade.

segunda-feira, 18 de maio de 2015


  Um dia, em Petrópolis

        Cidade de Pedro, o sentido desse nome. Pedro, aquele que foi filho de Pedro e, por isso, chamam um de Pedro I, o pai, e Pedro II, o filho. Favor ler "primeiro", para I e "segundo", para II. Por isso é que essa tal Cidade, "pólis", de Pedro, "petro" tem o charme do antigo por todo o lado. 

        Quem circula por suas ruas lendo, mesmo amadoristicamente, os perfis de seus prédios, discerne camadas de tal ou qual período ou época, se há décadas, quantas são elas e, eventualmente, se já passou foi mesmo um século ou século e meio, dependendo de qual casarão está em questão.

         História: andando por suas ruas, tem-se vontade de conhecer a história revelada a cada esquina, diante de cada fachada, a cada ladeira, travessa, beco ou curva. Grupo seleto, umas cento e poucas pessoas esteve, nesta sexta e sábado últimos recentes, por lá, para rever história.

           Certo dia, em Petrópolis, lá chegou um casal que, pelo que parecia, além de buscar o ameno clima serrano, parecia que Robert e Sarah tinham outras intenções. Ele, médico escocês, ela, poetisa e musicista, de origem britânica. Ambos de fé protestante.

           Ele, além de propagandista de sua própria fé, era médico, muito interessado em ajudar a sanar sérios problemas de saúde pública, em meados do século XIX, quando chegou o cólera à sede da Corte, provavelmente trazido de Belém, pela navegação costeira, único caminho de acesso ao Rio de Janeiro na época.

          Aula de história. Para aficionados, há todo um charme em ouvir aulas de história em Petrópolis. Aula de história ensina a ser inteligente com relação ao que envelheceu. É indispensável à qualidade de vida refletir sobre o passado, ponderando o presente, para projetar um futuro melhor. De um modo geral, é o que menos faz o ser humano no planeta.

            O imediatismo comanda as escolhas. Então, há total desinteresse pelas lições do passado, valores quetionáveis determinam as escolhas no presente e o futuro se afigura sombrio. Nas aulas de história desse dia e meio em Petrópolis, procurou-se focar nas escolhas desse casal, as escolhas que decidiram fazer e sua vontade de transmitir suas lições de vida.

              Residiram em dois lugares, em Petrópolis, na metade final do século XIX. O grupo presente nas aulas de história visitou um desses lugares. Faça suas contas, e deduza, lembrando suas aulas de história, que o período coincide com a parte final do Império, antes do colapso em 1889. O médico foi amigo pessoal do Imperador.

           Consta até, entre as histórias, o dia em que o Imperador decidiu visitar o médico em sua casa. O mensageiro imperial avistou-se com a esposa, d. Sarah, que informou estar gripado o marido. A visita foi, portanto, adiada. Conversavam, entre outros assuntos, sobre a viagem do médico à Palestina, nos idos de 1849-1850, e o desejo do Imperador visitar aquelas paragens. Aliás, foi nessa viagem onde o casal se conheceu e, posteriormente, casaram-se.

         Sarah interessou-se em abrir em sua casa uma classe de ensinamentos bíblicos para crianças. Contava histórias, entre elas a do profeta Jonas, para filhos de imigrantes ingleses e alemães e, posteriormente, crianças brasileiras. Era empolgada com o movimento com crianças iniciado por seu contemporâneo, Raikes, o movimento de Escola Dominical, a partir de 1780, na Inglaterra.

         Assim começou o movimento igual no Brasil, em 19 de agosto de 1855, com d. Sarah, em Petrópolis. O grupão ouviu esta e outras histórias sobre o casal. E visitou o segundo lugar onde residiram. Também recordaram de seu trabalho no Rio de Janeiro onde, em 1858, começaram uma igreja evangélica, a mais antiga em estado permanente no Brasil, com cultos em língua portuguesa.

           Histórias. O grupo teve chance de refletir sobre o passado. Como que um casal pode ser útil a tanta gente, caso se empenhe num projeto pessoal, avaliando que suas energias podem ser potencializadas por sua fé. Há tanto a fazer nesse tão cansado, sobrecarregado e desiludido mundo. Caso olhemos à volta, ao redor, e nos lembremos do casal Kalley de imigrantes ingleses, que optaram pelo Brasil do século XIX, quem sabe possamos realizar outro tanto, ainda neste século, enquanto houver fôlego de vida porque, um dia, vamos virar história que, por favor, não seja medíocre.

              

     

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Talvez, sede.
        
         Sede, aperto humano sensível e alarme constante que requer satisfação imediata. Sede de água, por exemplo, mais radical do que sede por pão, visto que menos se demora vivo quando se desidrata, do que quando se definha por fome.
        Há sede que se torna doentia, acho que nem cabe definir por esse mesmo termo. Por exemplo, a ânsia do viciado que, dependendo do apelo pelo vício, ocorre até desvio de conduta. Quem rouba ou agride por drogas ilícitas, de dependência mais forte, diferente de quem, outro exemplo, é um comedor compulsivo.
        Vício por bebida, droga lícita, ou cigarro, célebre cancerígeno, ou mesmo pelo jogo, aqui encarando sede já como termo metafórico. Há outros sintomas ou tipos de sede que os viventes nem, de longe, reconhecem ou admitem que dela sofram.
        Sede pela palavra. A metáfora, aqui, é que a palavra se constitui num alimento necessário à sobrevivência, vital num outro sentido.  A Bíblia aplica essa metáfora por ocasião da tentação de Jesus, quando lhe é oferecida a chance de transformar pedra em pão. Ele respondeu que, nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.
         A resposta de Jesus é que palavra é vital. Ele mesmo, certa vez, disse que sua comida era fazer a vontade do Pai, no caso, Deus. Assim como disse, em outra oportunidade, numa polêmica férrea com os judeus, que o seu (dele) corpo se constituía em verdadeira comida e seu (dele também) sangue se constituía em verdadeira bebida. Para mostrar como se constitui vital crer nEle.
        Declara também, a Si mesmo, ser o pão que desceu do céu: “Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu; o verdadeiro pão do céu é meu Pai quem vos dá. Porque o pão de Deus é o que desce do céu e dá vida ao mundo. [...] Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede.”
         Para esse tipo de sede não há alarme da parte dos homens. Eles não sabem o quanto é vital e, por isso, não reconhecem a necessidade crucial de satisfazer tal sede. É urgente fazê-los enxergar, perceber, sentir essa carência, confrontando-os com os danos causados pela recusa da palavra, como alimento vital.
          No caso, é a própria palavra que esclarece e diagnostica essa carência, em que sentido e para o que ela mesma se destina e para quem aponta. A palavra aponta para Jesus, que a Bíblia indica como Logos, palavra viva, de Deus. A sede é por Jesus, pão dos homens, água da vida.
         Quem já saciou sua sede e sua fome pertence ao grupo dos que podem tornar claro aos demais, por meio de seu testemunho, que necessitam beber dessa mesma água e comer desse mesmo pão. Identificar tal carência e demonstrar, por diagnóstico, a real necessidade àqueles que, sem saber, sofrem pela falta de água da vida e de pão do céu é a missão dos que dela já beberam ou do pão já se alimentaram.
           Isaías define os antecedentes desses que já encontraram Jesus: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos.” Aqui se deve entender qual é a relação entre, de um lado, andar desgarrado como ovelhas/desviar-se pelo caminho e, de outro, fazer cair sobre "ele" a iniquidade de nós todos. Quem é "ele"?
           O vocábulo “todos” é disposto estrategicamente nesse texto, no início e no fim, e se refere a todos os homens e mulheres. Atribuído a esses, o “andar desgarrado”, o “desviar-se pelo caminho” e a “iniquidade”. Atribuído a Jesus, o “ele” do texto, a carga: andar desgarrado e desviar-se pelo caminho corresponde, na terminologia bíblica, à iniquidade.
           Em que sentido, pode-se perguntar, o texto afirma que “fazer cair a iniquidade sobre ele” faz converter o rumo de quem “anda desgarrado” ou se “desvia pelo caminho”? Somente uma palavra explica essa associação. Fazer cair sobre Jesus é um ato divino, segundo o texto indica. Andar desgarrado e desviar-se pelo caminho é labor humano e incorre num preço a ser pago.
          O que faz alguém se desviar pelo caminho ou se desgarrar de um rumo definido é uma equivocada filosofia de vida. Certamente, há um padrão e um caminho, uma "vereda de justiça, por amor do Seu nome" e os que se desgarram, ou seja, todos, pois todos se desgarraram, saíram do padrão, carregam sobre si iniquidade. A conduta se torna, então, laborar em iniquidade, dissidente, fora e iníquo, in (não) + aequus (igual, parelho), não igual, não condizente, não concernente ao padrão.
           Que padrão? Padrão da vida, padrão de Deus. O preço a ser pago, diante de Deus, pela fuga ao padrão e incursão em iniquidade, conduta não aprovada por Deus, esse preço é que Jesus pagou, carregando sobre si a iniquidade de nós todos. E o homem precisa saber que nutre uma fome de Deus, fome e sede pela palavra que o reconduz ao caminho de Deus, à conversão de rumo, a voltar-se para o frente a frente com Deus.
           E só a palavra pode convencer quem está nesse desvio, que são todos, demonstrando como ocorre essa troca, do desvio para o caminho de Deus, que é Jesus, argumentando de que modo, pela palavra, alguém se convence dessa necessidade.
          Talvez, sede. Certamente, sede. O homem nem sabe que tem sede por Deus e por trilhar, em Jesus, o caminho. Éramos desgarrados e nos desviávamos pelo caminho, mas Deus fez cair sobre Jesus essa iniquidade. Portanto, essa sede é de se alimentar da palavra de Deus e reconhecer ser melhor, muito melhor trilhar o Caminho. Sede do pão e da água da vida. Sede de Deus, satisfeita em Jesus. 
          


         

terça-feira, 28 de abril de 2015


  Ponha-se no seu devido lugar.

            Se alguém já ouviu isso, fora uma piada ou brincadeira, ficou cismado, pelo menos. Essa expressão não costuma vir seguida (ou precedida) de luva de pelica. Costuma ser ofensiva, intimidante ou, pelo menos, uma trava para que quem ouve fique na sua, muito na sua e cesse todo litígio.

              Mas não. Essa expressão, longe de ser um recurso, eventualmente, muito utilizado, com o intuito de prender o outro na sua insignificância, postá-lo, digamos, no seu devido lugar, é genérica e assim deve ser compreendida. Ninguém pode prescindir ou presumir que não deve ser alvo dessa fala. Isso porque Jesus põe a cada um de nós no nosso devido lugar.

              Se alguém disse a você que um encontro com Jesus no meio do caminho será, sempre, suave e somente alvissareiro, enganou você. Isso porque, num primeiro momento, subitamente, o encontro com Jesus mata. Pelo menos, de novo, três figuras bíblicas que hora me ocorrem indicam que ninguém segue caminho com Jesus se não passar por morte, perda total ou cirurgia sem anestesia.

            Para ser radical, no contato com Jesus no meio da estrada da vida, para ser radical, aqui, no sentido de raiz, você morre. Literalmente. Não se trata de figura de linguagem. Isso aqui não é uma metáfora, lembra, da antiga 8ª série, agora 9º ano, quando aprendeu o que é metáfora? Não, não se trata de metáfora, aqui.

             Não estamos comparando com morte a profunda mudança, guinada, conversão na vida de quem bate de frente com Jesus, em todos os sentidos. É literal. Morre o eu. Viva, a pessoa se percebe, se vê morrendo, acordada, com todos os sentidos postos nessa transformação. Ou isso, ou tudo o que segue é falso. Ou morremos em Cristo, batizados nEle, para que Ele implante em nós uma nova vida, crie a partir do zero uma nova criatura, para que tudo se faça novo, ou será falso o que virá depois.

            Perda total. Um dos textos mais expressivos que definem conversão, na Bíblia, é aquele em que Paulo afirma que, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, por amor a ou pelo amor de Cristo, ele perdeu todas as coisas e as considera como refugo, para ganhar a Cristo, sendo nEle achado com a justiça que vem de Cristo e não outra qualquer, mesmo uma que proceda de texto legitimamente judicial ou jurídico.

            Cirurgia sem anestesia, sim, não é metáfora, mas é o que dói ser circuncidado pela mão de Deus. Paulo polemizava com os judeus que queriam forçar os novos crentes gentios, os não judeus, a submeter-se ao ritual judaico da circuncisão. O apóstolo disse que os novos e verdadeiramente convertidos já haviam sido circuncidados pela mão de Deus, textualmente, no despojamento do corpo da carne, escreve Paulo, que é a circuncisão de Cristo. Sem anestesia. Cirurgia de olhos abertos, sentidos nos nervos e lucidez total, para a troca do homem, o eu que se corrompe continuamente, sem freio e remédio, amputado, em Cristo, como despojo, substituído pelo novo eu, que se refaz à imagem e semelhança de Jesus Cristo, como a Bíblia ensina.

              Enganaram você quando disseram que, do encontro com Cristo, a gente sai alvissareiro. Num primeiro momento, não. O exemplo bíblico é o daquele jovem, sobre quem os três evangelhos narram sua aproximação de Jesus. Este remeteu o jovem a um confronto consigo mesmo e com a verdade, ela mesma, aquela do texto jurídico, que o jovem afirmou conhecê-la toda e praticar. Jesus propôs a perda total, simulando que ele devesse dar toda a sua riqueza a outrem.

              E o texto, típico em Marcos, enquadra, mais uma vez, um sentimento de Jesus, textualmente: "E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo o quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me."

                   Jesus simulou,  sem internet, perda total para o jovem. Na verdade, queria somente medir a reação dele. Foi um teste de prejuízo pecuniário total. Uma troca, inversa, de perder tudo aqui e ganhar tudo lá, troca do objetivo e concreto pelo subjetivo e suposto. Ainda Jesus acrescentou o que deveria soar como um modelo de calamidade no estilo de vida da época, que seria viver tomando sua própria cruz pessoal. E o resultado foi, textualmente, que o jovem "pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades." Não escolheu perda total. Perdeu Jesus. Ponha-se no seu devido lugar.

                 Foi demais para o jovem. Mas Jesus não poderia oferecer outra opção. Se o fizesse, não seria Jesus. Por isso está escrito que essa oferta foi feita por amor. Morte, perda total, cirurgia sem anestesia. Tome essa cruz. Ponha-se no seu devido lugar. Antes de encontrar Jesus pelo meio da estrada, estamos na condição de caminhar, pela estrada da vida, sem Cristo. Uma vez que o encontramos, se assumirmos o trauma, vamos passar à condição de caminhar pela estrada da vida com Jesus, até a (nossa) morte. Mas, pensem, se Jesus morreu essa mesma morte e ressuscitou, em Cristo, aguardamos também ressurreição. Estaremos batizados em Cristo, caso assumamos o trauma.

                De um jeito ou de outro, ponha-se no seu devido lugar.

   Por esta causa II

         Voltando ao texto da Bíblia. Aliás, voltando ao mesmo texto da Bíblia. Alguém diria, poxa, de novo? Sim, a vida é feita de voltar ao texto da Bíblia, ainda que seja o mesmo texto. Melhor ou lamentavelmente dizendo, a vida deveria ser feita de voltar, continuamente, ao texto bíblico. Trata-se de um livro referencial, ao qual chamamos "Palavra de Deus". Para nós, se Deus fala, fala por meio desse Livro. Daí essa necessidade diária, de voltar, de novo, ao Livro.

         Paulo, nessa oração, escrita no texto de sua carta aos Efésios, justifica por que a faz. Costumo tentar entender o efeito didático dessa oração de Paulo. Porque ela está aí, há, pelo menos, quase 20 séculos. Feita, pronta, então, o que ela deseja ressaltar? Eu costumo me deter nesse ponto de partida, "Por esta causa", exatamente porque é o ponto de partida e chama a atenção para o conteúdo da oração.

         Aí, eu volto no texto, linhas atrás, tentando localizar ao que Paulo se refere, exatamente quando diz "causa". Saio à procura da causa. E aí, aleatoriamente, neste texto, eu pretendo destacar o que seriam três causas. Talvez seja uma só, a causa, mas eu desejo desdobrá-la em três causas ou em três modos de atinar com essa causa fundamental.

          Primeiro, Paulo diz que, de um modo especial, ele atribui a uma revelação específica, a um privilégio seu, ter recebido de Deus a indicação de que se tratava de uma "dispensação" especial, com origem na graça de Deus, confiada a ele, mas a ser distribuída a todos. Seria essa revelação um "mistério" ou o "mistério de Cristo".

             E creio que, se aqui, falei três causas, ou da reunião de três tópicos de uma mesma causa, a primeira é que Paulo afirma que Jesus termina com todas as barreiras e reúne, em si, todos e quaisquer homens, mulheres, raças, enfim, como o próprio Paulo disse aos Gálatas, para Deus, "não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos (vós) sois um em Cristo Jesus."

              Texto de Efésios, Cristo derrubou a parede de separação que estava no meio, a inimizade. Texto de Gálatas, quem reconstrói essa parede de separação, edificando aquilo que (Cristo) destruiu, a si mesmo se constitui transgressor. Essa é a primeira, na economia deste meu texto, afirmação que desejo ressaltar, nessa fala de Paulo, nesse trecho da carta aos Efésios: Jesus derrubou toda e qualquer parede de separação entre homens, não importa de que categoria ou em que categoria (não interessa mesmo) sejam classificados.
           
                Segundo ponto, esse ato de Deus, em Cristo, transparece, faz aparecer aos homens a multiforme sabedoria de Deus. Isto é, a assembleia, a eclésia, a igreja, a comunhão de pessoas que desse ato de Deus resulta, essa comunidade sem fronteiras indica, permanentemente, a homens e até a anjos, a multiforme sabedoria de Deus. E falar "multiforme sabedoria", em certo sentido, é pouco. É necessário (e urgente) definir do que se trata. Mas, para economia, de novo, destas linhas, basta dizer, procure maiores informações no conteúdo da mensagem do evangelho.

                 E, em terceiro, Paulo aponta para uma expressão ou limites aonde chegar, quando se trata de alcançar compreensão a respeito dessa ação de Deus ou aonde Ele pretende chegar com Seus, digamos assim, propósitos. Ele diz, em sua oração, que pretende, entre aqueles que foram alcançados pelo que ele chama (essa) "graça de Deus", que cheguem aos limites da largura, comprimento altura e profundidade, diz o apóstolo, sem esclarecer quais são. Não é tão exato como pretendemos que seja alguém, ao certo, quando fala de medidas.

               Somente conclui dizendo que se deve conhecer o amor de Cristo que, segundo ele, "excede todo o entendimento"  e arremata que isso é para que "sejais tomados de toda a plenitude de Deus". Aliás, arremata, não, porque faz a ressalva de que pode haver algo a mais, porque Deus é "poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos". Acho que aqui ele disse isso, no caso de avaliar sua oração como nem tão exata assim, com alguns pontos em que Deus poderia, ainda, completar.

               Resumindo, uma oração em que a causa é a obra que Deus realiza entre os homens, derrubando todas as barreiras entre Ele mesmo, Deus, e o homem, assim como as barreiras entre os homens, formando uma comunidade na qual Ele, Deus, pretende que alcancem, sem limites, medidas do amor de Cristo que, de si mesmo, excede todo o entendimento e que, ao final, sejamos todos tomados, vejam bem o termo, tomados de toda a Sua plenitude, da plenitude de Deus.

                Creio que, sem cerimônia nenhuma, estamos diante do despojamento de Deus. E de Sua bem sucedida tentativa de realizar comunhão com o homem. 

segunda-feira, 27 de abril de 2015


     Por esta causa

            Paulo decidiu orar e expôs a causa por quê. Poderíamos deduzir, a partir desse texto, que toda oração tem ou deve ter uma causa. E, para que se constituísse numa oração de alto nível, vamos usar tal termo, de total credibilidade e grandeza de conteúdo, uma causa plena e justificável.

            Mas, na verdade, como recurso último, ao alcance de quem é único em seu uso, o ser humano, sim, porque anjos não oram, a oração não exige tais requintes. Claro que a Bíblia a apresenta, como vamos dizer, portadora de certos padrões, certa normas, certo controle de qualidade, instruções, enfim, para que seja coerente levá-la a efeito.

           Na aula que Jesus ministrou por ocasião do Sermão do Monte, assim chamado, ensinou que devemos nos dirigir, também único a quem encaminhar uma oração, ao Pai. Revolucionário, sim, porque chamar Deus de Pai, partindo da boca de qualquer homem (ou mulher, principalmente), na mentalidade judaica da época, era pura blasfêmia. Total blasfêmia.

            Era intimidade demais. Mas é este o ponto de partida de qualquer oração, intimidade para dirigir-se a Deus como Pai. No mesmo sermão, Jesus dá outras instruções sobre oração. Evitar exibição, fala rebuscada, como se quisesse ser visto, ouvido, dignificado, orações públicas, de efeito, só para aparecer, usando este termo coloquial. Pura vaidade, não pense que haverá efeito, para Deus, haverá, apenas, falsidade e engano para ouvintes desavisados. Hipocrisia, que é máscara.

             Orações quilométricas, Jesus desaconselha, pelo muito falar pensam que vão ser ouvidos. Vão cansar Deus. Pelo caráter daquele a quem são dirigidas, as orações não precisam ser longas, nem cheias de floreio, requintes, tentativa de ouvir de si para si, com o intuito de autoavaliar-se um orante de alto nível. Como diz Jesus, já recebeu a recompensa, ou seja, alimentou-se da própria soberba, viu-se a si mesmo no espelho, como diz Tiago, para logo esquecer-se.

             Orações repetitivas, por razões variadas, que podem ser de uma insistência em obter algo que muito se deseja, mas que não convém ou não é urgente ou inteligente pedir. Fundamental é o que Jesus ensinou pedir na chamada Oração do Pai Nosso. Ali está o fundamental, e ainda se torna necessário refletir sobre que meios são necessários ao homem para que se cumpram ou sejam acertadas, no dia a dia, a ocorrência daquelas principais necessidades ali expostas.
   
             O que a mim cabe para que seja santificado o nome do Pai? E para que venha o Reino, a cada dia, visto, enxergado em mim e aberta a porta para que outros nele entrem. Ah, o mais difícil, o que cabe a mim para que a vontade do Pai seja feita na terra? Para que seja feita no céu ou, uma vez feita no céu, está posto o padrão para que se faça na terra. E para que o pão nosso de cada dia chegue a nossa mesa, sim, e para que chegue à mesa de quem falta?

            Depois de que a vontade seja feita, aqui embaixo, no mesmo modelo de como é feita lá, em cima, esta agora é a mais difícil, tão ou mais do que essa outra, que é perdoarmos como Deus perdoa. Está posto que a condição de crente está restrita a certos indicadores dos quais não podemos fugir ou negar, se praticamos ou não praticamos. Perdoar-se, ou não, na proporção idêntica do modo como Deus perdoa, e isso se chama amor: ou se perdoa assim, ou não se perdoa. Soa falso.

             E o que devo fazer para não me deixar cair em tentação? Deus sempre está disposto a livrar-me do mal (ou livrar-me de ser ou tornar-me mal, agora que me converteu a Si), sim, mas como vou me colocar, diante de Deus, na condição de ser livrado do mal? Jesus sempre se colocou em condição de ser livrado do mal. Na tentação, primeiro, colocou a palavra de Deus acima da intenção de satanás de ordenar a ele o que deveria fazer.

            Em segundo, Jesus não duvidou das intenções do Pai a seu respeito, quando satanás quis supor ou induzi-lo a supor que Deus, apenas por um momento que fosse, faltaria em guardá-lo. Jesus não precisava colocar o Pai em prova, como nenhum de nós precisa ou vai duvidar que Deus, permanentemente nos guarde. E, em terceiro, satanás não desviou de Jesus a exclusiva atenção que concedia a si mesmo de somente adorar o Pai. Uma vida de adoração, para que seja autêntica, pressupõe santidade. Jesus se comprometeu com o Pai em preservar sua santidade, negando-se a adorar qualquer outro e repreendendo satanás, adorador de si mesmo.

              Jesus é meu modelo de oração. Repita isso para você mesmo. Não que a repetição mecânica vai virar um mantra e te fazer maduro em oração, mas que pratiquemos isso, ou seja, pratiquemos as instruções de Jesus para aprender a orar. Jesus orou publicamente, diante de Jerusalém, quando chorou porque a cidade recusou crer. Orou publicamente, também, diversas vezes, quando invocou o Pai para efetuar, em nome do Pai, em obediência ao Pai e invocando o nome do Pai, os milagres que o confirmavam como Filho de Deus e salvador dos que creem. Jesus orou com os discípulos, orou sozinho, reservado, à parte, orou no Getsêmani, sozinho, quando desejava orar em comunhão. Jesus é meu modelo para a oração.

             Frágeis como somos, muitas vezes nossa oração tem uma causa que até pode mesmo ser infantil. Ou uma causa deslocada de importância, esta, quando deveria ser aquela. Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai. Creio que a melhor maneira de, digamos assim, selecionar a causa certa, bem centrada, para uma oração qualquer, é treinar. Orar muito e orar sempre. Porém, adquirindo certo traquejo para fazer um controle de qualidade, como diz Paulo, para não sermos como meninos, levados ao redor por qualquer vento ou artimanha de homens. Enganado-nos a nós mesmos (ou sendo enganados).

              Orar como Jesus orou. Folhear a Bíblia, não displicentemente, mas com fome e sede dessa Palavra, que vai nos ensinar modelos de oração. Salmos, quantas orações nesse livro! As orações de Abraão, o crente mais citado na Bíblia. As orações de Eva. Orações de Abel, de Daniel, de Neemias, de Jeremias. Modelos de oração, meditar neles e pedir a Deus que, por meio de seu Espírito, nos instrua, para que sejamos lúcidos, que nos permita enxergar, para dentro de nós, assim como para fora de nós, situações que nos amadureçam em nossa conversa e relação com o Pai. 

              Como disse o próprio Jesus, vós orareis assim, assim devemos orar, para aprender a enxergar o mundo com outros olhos, pressentindo, como Jesus, tendo as mesma motivações que Ele teve, quando sentia necessidade de orar. Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai.