quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Desbravadores 2

 

      O livro “Desbravadores do sertão: gringos e sertanejos – a inserção do Protestantismo no Nordeste do Brasil” cobre 80 anos em três Estados, retratando arrojo, desafio e inevitável desejo de imitar a história. Somos colocados dentro da narrativa, como em Atos, pelas "testemunhas oculares", pela vivacidade e realismo com que nos é apresentada. 

 

     Pastor Bernardino percorreu o cenário da ação, entrevistando descendentes desses heróis de fé, correspondendo-se com d. Brenda Forsyth, do outro lado do Atlântico, como num diálogo, do qual também participamos. Ampla bibliografia e notas são uma coletânea à parte, de rica informação, indicando os fatos históricos associados a essa epopeia sertaneja.

 

        Vamos conhecer Andrade, da geração de Kalley, na origem da igreja Pernambucana, os Kingston, no final do séc. XIX, os que vieram, no início do séc. XX, pela Help for Brasil, fundada por d. Sarah, e a turma posterior que a UESA enviou.

 

       Nomes como Briault, Haldane, Glass, Belah, Davidson enfrentaram risco de vida, com os parceiros sertanejos, como Antônio Neto, José Doroteia e Sifrônio, a quem falaram de Jesus, em pregação pioneira do evangelho. A saga dos Forsyth é contada por eles mesmos, com entrevistas, cartas e relatos.

 

        Vamos entrar na Igreja depredada em pleno culto, saber do patrício morto pelo golpe que mataria o gringo e do industrial alemão que prendeu os panfleteiros do evangelho. E andar num Ford 1930, no agreste nordestino, em estradas que só existiam no mapa, além de aprender como descansar no lombo das montarias, dentro de um alagado. 

 

         E o mais relevante, o evangelho no cara a cara, atrasando o almoço: o patrão inglês, absorto e esquecido, falava de Jesus a um grupo, na feira nordestina. A leitura de Desbravadores, certamente, terá um efeito colateral, sinceramente esperado, por relatar uma história viva, de um evangelho sempre atual e renovador.

 

        É certo que vai despertar novas vocações, porque o Senhor de todos esses caminhos e da obra a ser realizada carece de vocacionados, pedindo que participemos orando por obreiros, mas também indo, desprendidos, trilhando esses mesmos caminhos

O Apocalipse de cada um: manual e guia da viagem final

       Na minha, com muito custo, humilde opinião, o texto bíblico se caracteriza por sua simplicidade. O que não quer dizer que seja um texto simplista.

       Não foi escrito para uma aproximação iniciática, na qual somente "gurus" previamente dotados, seriam capazes de transmitir seus "mistérios".

      Afinal, o livro mesmo, a Bíblia, define origem, autores e finalidade, bastando crer ou não em seu conteúdo: "homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo".

      Crer ou não é outro capítulo da história. Assim como, a partir do que vai escrito, formar teologia. Porque outro equívoco muito frequente é dizer que se pode lê-la desprovidos de suporte teológico. 

      Bobagem. Qualquer afirmação do livro será especificamente teológica. Incluída a que foi escrita aqui. Homens (e mulheres) escreverem, todos temos uma ideia do que seja. Agora, "movidos pelo Espírito Santo" é tanto uma afirmação teológica, quanto dizer "falaram da parte de Deus".

      Quando eu afirmo que o Apocalipse é de cada dia e de cada um é porque, se há alguma dificuldade para compreender, a culpa não é de João. Para seus primeiros destinatários, era muito claro de ser compreendido. 

    Porque João jamais escreveria algo supérfluo ou enigmático em plena era de perseguição, para um povo não facilmente alfabetizado e que necessitava de uma mensagem de ordem prática e direta.

     Foi fácil para eles discernir aquelas imagens e o suporte utilizado, que lhes era familiar, que foi a literatura apocalíptica. Empolgaram-se, certamente e, entre si, decifraram e viram descortinar-se, diante dos olhos, um desfile de imagens que lhes deixou animados e imediatamente esclarecidos.

      Complicar o Apocalipse, tentar alçar-se a uma posição dogmática unilateral ou perder-se em meio ao seu linguajar e arcabouço, como se diz, no vulgo, não é de Deus. De Deus será proveniente o bom senso, o afinco no preparo e a simplicidade em desvelar o livro.

       Por isso, é Apocalipse de cada um e para cada um. Como texto bíblico, precisa de contextualização, talvez mais cuidadosa do que outras partes do livro inteiro, por exemplo, comparado, dentro das mesmas Escrituras, aos outros textos apocalípticos que contribuem, em conjunto, para a sua compreensão.

      Mas nos é dado. E seus pontos principais devem ser postos como axioma para entender todo o restante. A revelação do Cordeiro de Deus glorificado, a urgência, por meio da igreja, da pregação do evangelho e a missão permanente dela de aviso ao mundo sobre a brevidade do tempo. 

      Lá mesmo está um texto que indica "o testemunho de Jesus é o espírito da profecia". E a missão da igreja é "ser testemunha de Jesus" e, para isso, "receber poder do Espírito Santo". Quem primeiro anunciou o evangelho e indicou que o tempo do fim estava às portas foi o próprio Jesus.

      Marcos, o primeiro  evangelista e que fez escola, assinala na profecia de Isaías sua base de argumentação. Ele marca a primeira vez em que o evangelho foi pregado, e foi Jesus quem o fez, dizendo: "O tempo está cumprido, o reino de Deus está próximo, arrependei-vos e crede no evangelho".

      A era do Apocalipse foi inaugurada por Jesus, advertindo o que, nas páginas do livro, a cada passo, está urgente como advertência. 1. O tempo cumprido; 2. A proximidade do reino de Deus; 3. A urgente necessidade de arrependimento e fé no evangelho.

      A livro é síntese da Bíblia inteira. Remete, a todo momento, às imagens e profecias do Antigo Testamento, que era a Bíblia de João, seu autor. Para compreender o livro, impossivel sem conhecer a profecia do AT e os "apocalipses" dentro delas, sejam imagens, clichês ou referenciais.

      Exemplos são a expressão "dia do Senhor", nos profetas menores, as duas oliveiras em Zacarias, equivalentes às duas testemunhas, em Ap 11, e a descrição da cidade e do santuário restaurados, a partir de Ez 44, associados à descrição da cidade que desce do céu, em Ap 21-22.

       Aparelhamento mal feito no trato com o texto, vaidade pessoal em se imaginar um "guru escatológico" ou mania por "mistérios" e decifração de "enigmas" é que podem forjar, literalmente, enganos ou síndromes de empecilhos em relação ao Apocalipse. 

     Fora isso, será a desfiguração de algo essencial no trato com o gênero literário dos livros bíblicos: sua simplicidade e dedicatória específica aos símplices de coração. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Desbravadores

     O livro Desbravadores do sertão: a saga de gringos e nordestinos na evangelização do interior do Nordeste do Brasil, encruzilhada de 4 estados, desperta em nós um sentimento de arrojo, urgência  para conhecer sua história, depois por imitar. 

    Como se fosse uma inveja santa. Porque desejamos que fosse conosco, pois ainda mais perto nos vemos, dentro mesmo de cada acontecimento, em função dos depoimentos, cuidadosamente coligidos, a partir das "testemunhas oculares". 

    Usamos propositalmente o termo de Lucas, visto que a narrativa nos desperta para uma história em tudo intensa e idêntica a de Atos dos Apóstolos, por sua vivacidade e pela parcela de realismo com que nos é apresentada. 

     Estamos sendo conduzidos à geração seguinte ao ministério de Kalley, aliás, somos apresentados a heróis de fé que conviveram com ele, na origem da igreja Pernambucana. E ainda a um grupo de missionários estrangeiros que aqui chegaram por influência de d. Sara Kalley e da agência missionária Help for Brasil, por ela mesma fundada, e sua continuadora UESA, que envia um grupo posterior.

     Vão se familiarizando com nomes como os Kingston, chegados ao Brasil ainda no final do séc XIX. E outros seus companheiros que darão sequência a essa história, enfrentando resistências que punham em risco suas próprias vidas.

      Fizeram o percurso inverso do colonialismo, porque sua vocação era autêntica e a parceria com os sertanejos, a quem vieram falar de Jesus, tornou-se pioneira na pregação do evangelho naquelas paragens. 

     Patrícios com os quais vamos com eles também nos identificando, nome a nome, enquanto conhecemos a saga dos Forsyth, e seus conterrâneos anglo-saxões, que enfrentaram perigos de morte, em nome do evangelho. 

      Vamos percorrer, por depoimentos deles mesmos, entrevistas pormenorizadas, cartas com eles posteriormente trocadas, relatos detalhados por esses homens e mulheres escritos, caminhos que nos fazem conhecer a Igreja que foi invadida e depredada, o patrício que se impôs entre o golpe fatal que o matou, mas era destinado ao gringo, o industrial alemão que mandou prender os panfleteiros do evangelho.

      Como percorrer, num carro modelo 1930 estradas inexistentes, em meio ao agreste nordestino. Como descansar, com o patrício nordestino e esposa, no lombo das montarias, mesmo dentro de um alagado. 

     E o mais relevante, como pregar o evangelho cara a cara. Como sair de casa para garantir o almoço, mas a secretária do lar sair hora depois, para encontrar o patrão inglês absorto, no meio de um círculo de gente, na feira, falando de Jesus.

       De que modo uma igreja, neste ano centenária, foi fundada, e como enviou missionários para recuperar pontos onde houvera perseguição implacável contra os crentes. Pastor Bernardino provém desse cenário. Percorreu, no sentido inverso, com guias desse mesmo sertão, os lugares onde toda essa notável história aconteceu.

      Pôde sentar na mesma pedra onde o desbravador descansava. Entrevistou descendentes desses heróis de fé. Correspondeu-se com d. Brenda Forsyth do outro lado do Atlântico. Sua narrativa é um diálogo com eles, nos colocando dentro desse mesmo diálogo, fazendo-nos trilhar os mesmos meandros e anelar imitar essa mesma história.

     O resultado é um relato pormenorizado de uma época que se inicia ainda na virada de século, percorre as décadas iniciais do século XX e nos contextualiza em relação ao momento atual de cada um dos pontos desse roteiro. 

       As notas são uma coletânea à parte de rica informação, indicando o modo como lideranças políticas da época, entre outros dados essenciais à contextualização da narrativa, entrecruzam-se com os fatos descritos.

     A leitura de Desbravadores, certamente, terá um efeito colateral, sinceramente esperado. Por relatar uma história viva, de um evangelho sempre atual e renovador, é certo que vai despertar novas vocações. Porque o Senhor de todos esses caminhos e da obra a ser realizada carece de vocacionados. 

     E pede que participemos orando pedindo obreiros. Mas também que vamos, trilhando esses mesmos caminhos.

sábado, 26 de setembro de 2020

O clã dos Loureiro - a verdadeira história

 Bem, falar sobre os Loureiro é muito gratificante. Cada membro da família, individualmente, assim como todo o conjunto da obra.


     Miriam, a matriarca (e põe matriarca nisso!) eu já conhecia antes dela ser Loureiro. Foi nossa professora, na classe de crianças, no porão da Congregacional de Cascadura. 

    Foi muito divertido. Aliás, Miriam é festeira. Deve ter herdado isso da original, irmã de Moisés que, bastou saírem fora do Mar Vermelho, caíram na maior festa, com dança e tudo. 

    As aulas dela eram com muito bom humor. A gente se divertia muito, achando-a fora do protocolo, do tradicional das outras, daí a nossa pândega carnavalesca divertidíssima em classe. 

     Mas com ela não tinha algazarra não. Botava moral mesmo. Era o lado nordestino da genética. Com ela não tinha esse negócio de filho de seu fulano não. Mexeu, o pau comeu. Pena que eu acho que foi um ano só. E até, se não me engano, saiu por causa dos preparativos do casamento. 

      E para casar também dizem por aí que a decisão foi dela. Os pais, numa de saber se devia ou não devia. Ela logo ajudou na decisão. Rola uma porção de versões, mas a história é esta:

      Loureiro vem de uma família de cavaleiros medievais europeus. Ele já chegou dizendo, ou vem ou racha. E imagina o tamanho da armadura, para a envergadura do cavaleiro! E Miriam? Claro que ela topou. 

    E avisou os pais. Seria uma liça nordestino-lusitana. A coisa saiu pelo lado diplomático e, desta forma, pelo signo da Santa Cruz, surge o novo clã dos Loureiro. 

     Pronto, fez-se a paz. E Miriam, a caçulinha abriu, na família, a temporada dos casamentos.

     Uma linda história de amor. Casal padrão, dele nasceu um casal de filhos. Magistral. A menina, com o temperamento ainda a se revelar, até pretendeu, um dia, por dizer, pôr as manguinhas de fora. Deixa de ser bobinha. 

    A matriarca pôs freio. A coisa era mais ou menos assim: batimentos com Mirinha, rebatimentos com o José, o cavaleiro de estirpe europeia. E haja coração. Houve. Estão chegando aos 50 anos de batidas, com esse mesmo coração, só por esse amor. 

     Imaginem a estrada percorrida. Não.  Não precisou raptar a dama e atravessar oceano, na rota inversa do descobrimento. Ficaram por aqui mesmo, espalhando bem querer, amizade, cuidado, atenção, carinho e amor, principalmente aos filhos, e a tanta gente à volta. 

     Eu sou testemunha e dou o testemunho. Meu filho nasceu em 21 de abril de 1994. Temia-se, não sei por quê, pela sobrevivência do menino. Mas a divina providência (seja louvado!) colocou o jovem casal a 5 min de carro ou 20 min de caminhada da Vila Valqueire, Poços de Caldas 200, o castelo da dinastia.

     O estágio do menino por lá nivelou, por cima, todas as calorias suficientes pelos próximos 25 anos. Agora, com 26, ameaçando casar, é que está sendo necessária uma reposição ocasional. 

     Tive o prazer de ser pastor da menina deles, por um tempo. Aliás, foi num dos retiros, no famoso Sítio Bom Pastor, na Estrada do Caçador, em Seropédica (veja que nome!) que as duas, ela e a prima, que a 1/4 de século e mais 2 anos é minha esposa, combinaram um trajeto mais longo, por uma tal cachoeira, e data dessa época a minha sedução.

     Eu, pastor das duas, nunquinha me passaria pela cabeça uma situação dessas. Pois é. Essa é a história. Mas o que prevalece, são as versões. Como aquela quando, um dia, em Cascadura, cheguei com uma eventual namorada, por assim dizer, a primeira. 

    Quem vinha pela passarela central do templo, ela e sua filha de 9 anos? Ela mesmo, Lourdes Benevides, a mana primogênita e conselheira vitalícia de todos os demais irmãos. Claro que eu, educada e, nessa altura, já coincidentemente, apresentei minha namorada.

      A sogra, quer dizer, a Conselheira disse muito prazer, para logo emendar a frase magistral que, sem me falhar a memória, tem 41 anos decorridos: "Prazer, mas não é você que vai casar com ele não, quem vai casar com ele, disse apontando, para baixo, é minha filha".

      Sorrisos amarelos. Cara emburrada da menina de 9 anos. E eu despistando a menina com um tapinha no ombro, liga não, Regina, brincadeirinha de sua mãe. E ela sorriu. Pois foi esse sorriso, 10 anos depois, o culpado de tudo. 

       Entrei para a família. E ainda tive o privilégio de casar Patrícia e Mário. Mais um filho na conta. Ele e o cunhado-irmão, Júnior Loureiro, não medem esforços nos cuidados com seus pais. Júnior é um presente de Deus.

      Destaca-se por sua diligência. Aquele tipo que adivinha a necessidade premente, atira-se a resolver e só descansa ao ter resolvido. Se para Deus o maior distintivo é a prestação se serviço, Júnior imita. Grande privilégio, tranquilidade e paz é tê-lo por perto.

     Loureiro, vocês são uma família linda, de todas as formas e por todos os lados. Nossa maior alegria é partilhar com vocês esses momentos. Eu, por exemplo, que acompanho a família Celestino, desde 1966, quando chegamos a Cascadura, reconheço toda a trajetória de bênçãos. 

      E bênção maior foi entrar na família. Fã de meu conselheiro na adolescência, o presbítero Jeconias, eu fui desde sempre. Fui acolhido, primeiro por Deus, como todos nós somos, e depois pela família que muito tem de especial, basta conferir por minha amada esposa Regina e os filhos que Deus nos deu.

      Linda história de amor! Parabéns ao Super-Herói transoceânico, Super-Loureiro, que não é Marvel, mas venceu todas as batalhas da vida.  A gente precisa do tipo de pessoa que você é, assim,  carne e osso, real e veridico, não imaginário. 

      Feliz meio século. Parabéns e grande abraço. Acreanos também vos saúdam. 

             

sábado, 19 de setembro de 2020

Naura - Depoimento - Parte 2

Nossa querida Naura, membro fundadora e organista da Congregacional de Cascadura por quase 40 anos seguidos. 

Aos 12 anos, fui para o Ginásio em outro colégio. Nova recomendação: ela tem um defeito, pode impressionar os colegas, em todo o caso, ela fica em experiência. Para surpresa minha e da diretora do Colégio, logo no primeiro dia de aula, uma das colegas pede para sentar-se ao meu lado, "posso, Naura?". "Claro que pode", respondi. Novos colegas, novos professores, todos amigos, sem nenhuma queixa deles. Embora com esses contratempos, consegui passar para o terceiro ano ginasial, sempre tirando 8, 9, 10. Era um orgulho, como dizia o Rev. Amâncio de Campos Cardoso, membro da Igreja Metodista de Cascadura: "escrever nesse caderninho de notas, só dá notas 8, 9, 10, não consigo dar um 0 zero". Passei o 1° e 2° ano ginasial com 10, distinção e louvor. Primeira aluna da classe, primeiro nome na lista dos que passaram. Fui levada nos braços do Diretor, do portão à sala de aula, onde a Diretora D. Maria José Cardoso me esperava de braços abertos. Essa mesmo que, ao princípio, dizia: "Ela tem um defeito, vai impressionar aos colegas". A quem devo essas vitórias todas. Em primeiro lugar, a esse Deus Maravilhoso. Este Deus que sempre esteve e está ao meu lado. Aos 13 anos, eu me abraço com minha avó e digo: "O que eu posso fazer para trabalhar na igreja? Eu quero trabalhar, fazer alguma coisa para Jesus". Ela responde: "Conversa com o Pastor e ele te diz". "Que surpresa agradável!", disse o Rev., de trabalhar para Jesus, como eu e a Igreja vamos impedir". Assim, fui levada à reunião de Presbíteros para algumas perguntas, das quais eu respondi satisfatoriamente. No dia 11 de setembro de 1932, para a minha maior alegria e de toda a Igreja, eu fiz a minha profissão de fé e batismo, dizendo que aceitava aquele mesmo Jesus que minha avó e minha mãe me ensinaram. Não me arrependo nunca de ter escolhido esse Meigo e Terno Jesus, que tem guiado os meus passos nessa dura jornada. No meio do ano do 3° ano ginasial eu desejei estudar música para tocar na Igreja. Mas como? Pagar o ginásio e piano não dava. Foi então que eu resolvi desistir do ginásio e passei a estudar piano. Com muitos contratempos, doença na família e outros motivos, consegui fazer 2 anos interrompidos. Em 9 de agosto de 1942, Piedade, por falta de organista, comecei a tocar. Permaneci nesta Igreja até 1952, saindo com um grupo de irmãos para fundarmos hoje a Igreja Evangélica Congregacional de Cascadura, onde permaneço, com a Graça de Deus. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

1982 - era misto o grupo

 1982

     Para quem tinha dúvidas atrozes quanto a ser pastor, o modo como me atirei e reagi aos desafios que se apertaram, mais tarde seria um dos fatores que confirmaram a vocação. 
    Era um grupo em tudo excelente. Até sou suspeito para falar, por pelo menos três razões: 1. óbvio, primeira igreja, primeiro amor; 2. conhecia a todos, pois vivia entre eles, então aprendi a amá-los; 3. pelas duas razões anteriores, sou muito próximo para avaliar de modo isento.
    Deixa para lá: eram maravilhosos e pronto. Mas era um grupo misto. Explico. Vivíamos, na denominação, particularmente no contexto das igrejas do que a gente chamava Junta Regional da 2a RA (Região Administrativa), vamos chamar assim, um surto neopentecostal.
     Portanto, tínhamos representantes, no grupo da Congregação, dos que eram chamados "crentes tradicionais" e "crentes renovados". E o perfil deste que vos fala era taxado de tradicional. Eu me dizia nem um, nem outro. Como dizia Paulo, sou o que sou (ou tentava ser). Mas valia, na época, a carapuça.
     Então, havia uma reunião na semana em casa de uma das irmãs que seria classificada como renovada. Que convidava pregadores desse perfil e dirigia um culto desse perfil. Nesse dia, eu tinha aula na faculdade. O dia que consegui ajustar o horário para sair cedo,  pegar o Fusca azul céu, RV 2644, saindo da UERJ, subir a Grajaú-Jacarepaguá e desaguar, pela Freguesia, no Largo da Taquara, para tomar o rumo do Guerenguê, esse recanto de Curicica, esse dia era outro. 
      Conversei com a irmã, aliás, toda a família, aliás, de novo, foi a primeira vez que um aconselhamento durou uma noite inteira, e se confirmou a promessa da troca de dia: ela colocaria o culto num outro dia da semana, no dia que eu folgava eu estaria com eles, no estudo bíblico, e poderia, até, vez ou outra, dependendo da disponibilidade de horário na UERJ, comparecer ao culto em sua casa.
     Ficou acertado. Haveria mudança. Havíamos combinado um mês para dar tempo de que todos se acostumassem com a troca. Eu até acho que seria uma quarta por sexta-feira. Primeiro veio a promessa que sim. Mas uma semana antes veio o aviso que não. 
     Comecei, então, tendo 2/3 do grupo comigo, 1/3 ficou no outro culto de mesmo horário. Os "tradicionais" comigo, na Rua Aralia, no Pque Curicica, os "renovados" em Cascadura, numa vila por ali, na Ernani Cardoso. 
     O problema é interpretar diferente o evangelho que é um só, de modo a levantar barreiras onde Jesus as desmoronou.
      

1982 - apenas o começo

 1982

   Tornou-se um ano decisivo por duas razões: definiu carreira e vocação. A princípio, eu não sabia. Mas as decisões se revelaram acertadas a posteriori, como se diz.
    Quem havia feito vestibulares unificados para engenharia, teria pontos de sobra para outro na área de letras. Não que esteja diminuindo o valor desta área que, afinal, foi a que, conscientemente, escolhi e com a qual contribuí para o sustento de minha família. 
    Ressalto a realidade. Por isso, sem mérito, faturei o 1o lugar em Português-Hebraico para iniciar, nesse ano, na UERJ. O amigo Paulo Leite continuaria a ser colega de turma. 
    No outro canto do ring, na igreja, o pastor Maurilo, que me batizou, pediu que eu ajudasse o grupo de 11 irmãos que haviam sido deslocados da igreja-mãe, congregacional de Cacasdura, para a Congregação de Parque Curicica, num loteamento na Estrada do Guerenguê, no bairro de mesmo nome.
    O que me fez optar pelo curso, na UERJ, foi o fato de, acabado o seminário, recém-formadíssimo, pedirem que eu e Paulo Leite déssemos aula de língua hebraica. Argumentei que um bacharel não poderia dar aulas a bacharéis.
    O contra-argumento era que d. Beth Bacon se aposentaria, escolhendo residir em Guarapari, onde a visitei em 2007 e de onde ela saiu para o céu, em 2019, e que éramos alunos de 8, 9 ou 10 na disciplina, sendo difícil encontrar, com facilidade, professor nessa área. 
    Na outra parte,  achei que o fato de conhecer os irmãos da Congregação e ter intimidade com todos facilitaria o trabalho naquele campo, faria o que já havia feito, uma pregação aqui, outra ali, escola dominical, estudo bíblico, um aconselhamento ou outro, entre os mesmos, porém pastorado, jamais. 
     Passaria incógnito, poderia ajudá-los enquanto e o quanto quisessem, e ficaria tudo por tudo. Mas não contava que queriam se emancipar para ser igreja e, portanto, convidaram-me para ser o pastor. Claro que eu iria despistar. E já comecei com aquela história "vou orar", "preciso conhecer a Congregação", essas coisas, ora, conhecer? O que havia lá que eu já não conhecesse de sobra? 
     Fui lá. Preguei. Perguntaram sobre a decisão. Marquei semana seguinte como prazo. Nem dei sinal. Foi quando, no primeiro dia da semana seguinte, mais exatamente num domingo à noite, sentado de frente para a assistência, porque o coro se posicionava atrás do pastor, vi entrarem pelo portão Gerson, o diácono, e Valdemir, um dos colunas numa Congregação onde todos eram colunas. 
     Esboçou-se a armadilha. Encurralei-me. A mim mesmo disse que seria paliativo, seria só encaminhar a emancipação, tchau e bênção. Seria um pastor com prazo de validade. Fiz de conta que não era comigo. Os dois se acercaram.
    Queriam saber de minha decisão. Ouviram um sim. Devem ter notado o meu constrangimento. Estava selado.