domingo, 2 de agosto de 2026

PEQUENA PLACA, GRANDES HISTÓRIAS

 

Esta pequena placa, na esquina entre a Ladeira do Vicente e a Praia dos Tamoios, conta histórias importantes sobre a ilha de Paquetá e a própria cidade do Rio de Janeiro — é só saber lê-la de acordo com as informações corretas. Corta do ano de 2026 para o longínquo 1555, quando uma expedição francesa adentrou a Baía de Guanabara e tomou posse, na maior cara dura, das terras portuguesas na região. Instalada na ilha de Serigipe — hoje, Villegaignon —, a França Antártica estendeu seus domínios e ocupou, também, Paquetá, localidade já conhecida pelos tupinambás, que habitavam a baía e seu entorno na pré-história brasileira. Aliás, o primeiro registro da ilha foi feita por um francês, o frade franciscano André Thevet. Cartógrafo, ele mencionou a localidade insular em sua obra "Les singularitez de la France Antarctique", publicada em Paris com importantes relatos sobre a natureza e os povos originários destas bandas.

Foi um custo expulsar os franceses daqui, o que só aconteceu a partir da fundação da cidade do Rio de Janeiro, em 1º de março de 1565. Nas várias escaramuças entre os portugueses e seus aliados temiminós contra a aliança franco-tupinambá, o capitão-general da cidade, Estácio de Sá, contou com o apoio de compatriotas como Ignácio de Bulhões e Fernão Valdez. Como era costume naqueles tempos bravios, outorgavam-se terras nas colônias a dignitários, como gratificação por serviços prestados à Coroa; assim, ambos receberam sesmarias em Paquetá. Bulhões ficou com a parte norte da ilha, e Valdez ocupou a metade meridional. As duas propriedades eram separadas exatamente neste ponto, como a placa registra.

Dali em diante, e ao longo das décadas seguintes, as duas metades da ilha assumiram características próprias. A parte norte foi transformada em uma extensa fazenda, chamada São Roque, com produção pecuária e de gêneros hortifrutigranjeiros que abasteciam a Corte — daí, ter sido chamada de Campo, denominação que persiste até hoje. Já a banda inferior de Paquetá, dada originalmente a Fernão Valdez, acabaria dividida em pequenas propriedades, várias delas dedicadas à pesca e à extração de cal, insumo importante para as construções da época. A região também abrigava o atracadouro da ilha — aliás, a estação das barcas ainda fica no mesmo local —, o que gerou o nome de Ponte, pela qual aquela parte ainda é conhecida. Viram só, como uma simples e pouco percebida placa pode conter muita história?

A fábrica de Noel, uma célebre cantada (literalmente)

 

ANTIGA FÁBRICA CONFIANÇA (O BOULEVARD)

Rua Maxwell 300
Vila Isabel, Rio de Janeiro

"Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos,
Eu me lembro de você..."


A famosa canção "Três Apitos" composta em 1933 por Noel Rosa faz referência à antiga Companhia de Fiação e Tecidos Confiança Industrial, inaugurada em 1885, em Vila Isabel.



A fábrica contava com duas vilas operárias, açude, escola para os filhos dos funcionários e até um clube (o extinto Confiança Atlético Clube).





Com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, a Companhia sofreu forte queda nas vendas e demitiu muitos funcionários.


Em 1933, a fábrica foi adquirida pela família Menezes, que a transformou em uma das mais importantes do país. A Companhia Confiança, inclusive, forneceu tecidos dos uniformes das Forças Armadas brasileiras durante a Segunda Guerra Mundial.




Após 85 anos de funcionamento, a Fábrica Confiança encerrou as atividades em 1970. Em 1979, o imóvel passou a abrigar o Centro Comercial Boulevard, sendo ocupado pela rede de supermercados Disco. O espaço marcou época por possuir padaria, papelaria, loja de discos, loja de móveis, além de praça de alimentação. Posteriormente, foi ocupado pelas redes Paes Mendonça, Extra, e atualmente pelo grupo Assaí.


O conjunto arquitetônico da fábrica foi tombado pelo município em 1985. Seis anos depois, a proteção foi ampliada para as casas remanescentes da antiga vila operária.

Quem visitar o edifício histórico poderá apreciar elementos originais da construção, representativa da arquitetura industrial inglesa do século XIX, como as fachadas, a cobertura, elementos estruturais e a velha chaminé.





No interior do edifício, os visitantes podem conferir uma exposição que conta a trajetória da fábrica. O espaço também faz uma homenagem a Noel Rosa.

➡️ Não vimos todas as casas das vilas operárias da fábrica, mas as poucas que pudemos observar apresentam estado de conservação precário. Uma pena, até por serem imóveis tombados justamente para escapar da especulação imobiliária.

🫵🏻 E você? Tem memórias desse importante espaço da cidade?

📍Rua Maxwell, 300 - Vila Isabel.
📸: Leo Ladeira
Olhos de Ver - Patrimônio Histórico Rio de Janeiro

💌 Seja um apoiador do nosso projeto!
Pix: ladleo@gmail.com

Na época das locomotivas

 
https://www.facebook.com/share/v/1EXkVhq9Sz/

IMPORTANTE: Durante a gravação, menciono que o acidente ocorreu no dia 27 de dezembro de 1954. Na verdade, a tragédia aconteceu no domingo, 26 de dezembro de 1954. A referência ao dia 27 se deve ao fato de que os principais jornais publicaram a notícia na edição de segunda-feira, 27 de dezembro.

Neste vídeo, você conhecerá a história de uma das mais marcantes tragédias ferroviárias da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil. O acidente ocorreu entre as estações de Engenheiro Adel e Arcádia, quando dois trens de passageiros que seguiam em direção ao Rio de Janeiro envolveram-se em um grave engavetamento, deixando mortos e dezenas de feridos.

Mais do que relembrar uma tragédia, este vídeo busca preservar a memória ferroviária e contar, com base em registros históricos, um episódio que marcou a região e a história das ferrovias brasileiras.

Você já conhecia essa história? Já tinha ouvido falar do acidente de Arcádia? Conhece alguém que tenha vivido essa época ou ouvido esse relato de familiares? Deixe seu comentário.

Se você gosta de conteúdos sobre história, ferrovias, patrimônio e memória, inscreva-se no canal, curta este vídeo e compartilhe com outras pessoas. O seu apoio é fundamental para que possamos continuar pesquisando e produzindo novos conteúdos sobre a nossa história.

Produção: Eu Tenho historia

RELATOS:

Eu não tinha conhecimento dessa história! Estou buscando algumas informações e me aprofundando um pouco mais desde que soube desse acidente. Nunca tinha ouvido falar. Não sei se você já ouviu falar... Alguém comentou com você ou já tinha conhecimento desse episódio? Se você tiver mais informações, relatos de conhecidos ou detalhes da época, coloque aqui nos comentários. É muito importante, até para o nosso conhecimento, pra gente entender juntos um pouco mais sobre essa história!

Inclusive, tentei traçar a rota pelo mapa para ver se encontrava algum vestígio dessa antiga linha férrea. No último final de semana, estive em Paty do Alferes e percebi que ainda existem marcas dos trilhos pelo centro da cidade, mas não sei como está a situação pelas áreas dos distritos.

Eu tinha 8 anos me lembro perfeitamente, eu morava em Arcádia éra um Domingo após o Natal ,nos domingos tinham 2 SA9, o primeiro parador, logo após o segundo éra direto saia de Miguel Pereira não parava nas próximas Estações direto a Japeri,o parador enguiçou entre Engenheiro Adel e Arcádia o maquinista avisou ao conferente da Estação Engenheiro Adel que segurasse o segundo trem que éra o direto, o conferente esqueceu e deu a licença quando lembrou saiu como louco de linha abaixo, já éra tarde o direto entrou no parador que estava enguiçado, não teve tantos mortos assim não, me lembro de um menino de 13 anos de nome Elenir em um colchão na Estação de Arcádia na parte onde éram colocadas mercadorias, minha mãe ajudando a mãe dele a abana-lo,a máquina do acidente ficou no desvio em Arcádia nós brincávamos néla, lembro até do número.1919.
Eu ouvi de um professor no ano 1960 quando fazia o 1° ano do antigo curso ginasial, no extinto colégio n.s.do Brasil na av Braz de pina, na Penha rj

Meu saudoso avô Manoel de Freitas (falecido em 2010 aos 96 anos) era ferroviário da RFFSA lotado em Gov. PORTELA. Ele nos contava sobre esse acidente km 95. Nao lembro bem, mas acho que o trem já havia passado pela curva do Monte Líbano, antes da colisão. Ele relatava com lágrimas o falecimento de um colega foguista chamado Eudálio, que morava no Rio Douro e havia trocado escala neste dia. Disse q com o impacto ele foi atingido diretamente pelo vapor pressurizado da caldeira. Muito triste.
Sobre a causa ele comentou que tentaram fazer comunicação via telégrafo, haviam estações que funcionavam como repetidoras de sinal para receber msg, porém nao houve tempo hábil na transmissão e decodificação. Que eu me recordo foi isso q ele nos contou.

Arcadia pra cima, essa estação citada deve ser antes de Fragoso, se for de Arcádia pra baixo já não é mais serra e pode ser uma área próxima da antiga reta do assalto do trem pagador ( que é após) do resquício e algumas casas que ainda existem ali no leito do antigo leito ferroviário

Maiquel Rocha, conta mais, histórias sobre a rede ferroviária, meu Pai pertenceu a rede, foi um dos ferroviária, más nunca contou nada a respeito! gostaria de saber mais!!

Praça XI, o filme Na onda do Iê-Iê-Iê (ou seja, Yeah-Yeah-Yeah) e o velho Jardim de Infância

 

https://www.facebook.com/share/v/14n3HmKNGJo/

Na onda do iê iê iê, com participações de SILVIO CÉSAR, CHACRINHA, PAULO SÉRGIO, CLARA NUNES. Obs.: nesse período, ela cantava boleros, WILSON SIMONAL, ED LINCON, RENATO E SEUS BLUE CAPS, THE FEVERS, THE BRAZILIAN BITLES, OS VIPS, ROSEMARY, WANDERLEY CARDOSO. O filme retrata um periodo efervescente da música jovem de então, com números musicais de artistas que estavam emergindo e que logo seriam sucesso em todo o país.

MUITO BOM, rsrs: sou suspeito, pois sou fã dos Trapalhões e APAIXONADO PELA JOVEM GUARDA.

Tinha patrocínio da fábrica da Willys Overland do Brasil, filme exibindo um Gordini e um Interlagos, de sobra um Aero Willys, atrás do Interlagos. Alguém sabe o nome do filme?

Mario Lago e o outro ator é José Augusto Branco, participou depois de novelas da globo, que já passou dos 80...

Eu tenho 66 e tô aparentando mais novo que um homem de 55 anos dos anos 60. As pessoas chegavam aos 40 com perfil de velhos.

Ele nasceu em 1911. Você viu um táxi Gordine e, na sequência, um Interlagos conversível! Os dois fabricados em São Bernardo do Campo, pela Willys-Overland do Brasil.

Uma época em que o Rio era uma cidade realmente maravilhosa. Andávamos pelas ruas sem medo, pois não existia a criminalidade de hoje.

Cena do filme "Na Onda do Iê-Iê-Iê", 1966. Correção: o primeiro filme de Didi e Dedé foi A Pedra do Tesouro, um curta-metragem de 9 minutos, que não foi lançado comercialmente.

Jesus! Nas novelas em Casarão, Dancy Days e Elas por Elas, Mário Lago tinha a mesma aparência.

Eu acho que o Mário Lago já nasceu idoso kkkk
 
Uma babado com Mário Lago: certa vez, Noel Rosa insistiu com sua amada que abrisse a porta, mas ela não queria: estava acompanhada. E quem era? Mario Lago. Daí, surgiu a melancólica melodia abaixo: https://youtu.be/SuI4REDxzn0?is=Mcbpr83oM2y0CTFJ

Praça XI


Nossa saudosa Praça Onze antes do desmanche para a construção da Av. Presidente Vargas!
Ao fundo a Escola Benjamin Constant, antiga Escola de São Sebastião.
Praça 11, onde estava localizada a casa de Tia Ciata: o berço do samba carioca.


"À Fortuna", localizada na Praça 11 de Junho.
Revista "O Malho", 25.09.1920.

E mais este como brinde: A última dozela, 1969



Bom dia! Fiz o Jardim de Infância e o Primário ! Escola Celestino da Silva, 2.2.1, rua do Lavradio ! Diretora Tomásia, professoras Arlete e Juranda! Muito bom ensino! Merenda farta, macarrão e feijão! Pão com banana d'água!; Banana d'água com melado! Descia o corrimão sentado! Antes do início das aulas, formatura e hino nacional!

Eu também estudei aí muito boa a escola tinha uma diretora muito severa que se chamava
DNA TOMAZIA. Não era fácil não.
Tenho saudades do lanche quando era pão com ensopado de vagem e suco de limão kkkkkkk

Escola Celestino da Silva. Estudei aí quase todo o Primeiro Grau. Tínhamos que formar no pátio pra cantar o hino e ouvir discursos políticos defendendo a ditadura.

Estudei aí com minhas amigas Nanci (paulista)que era criada por uma tia e Ana Maria que na época tínhamos 10 anos ela infelizmente foi pega pra ser escrava branca só depois que ficamos sabendo eu como era muito criança não entendi nada!! Tbm tive uma amizade com um garoto chamado Leslie nenhum deles lembro o sobrenome!!! Estudei no Celestino da Silva meu primário.

Adoraria poder rever as alunas Sônia que estudei na sala 5, última do andar térreo em 1969, eu com 10 para 11 anos, e Elizabeth Daniel Soares de1974 na época de 14 para 15 a.

Construído originalmente para abrigar o Teatro Apolo, o qual foi inaugurado em 1890 e funcionou até o ano de 1916; o proprietário ainda em vida fez a doação à prefeitura com cláusula de que se destinasse a uma escola!

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Os discípulos: Judas Iscariotes - 11

  Judas de Queriote

 Judas, o outro, sim, porque eram dois.  Chamado Iscariotes, para distinguir do seu homônimo, igual no nome, mas tão diferente deste.

   Esse título pode significar ish Queriote, ou seja, homem de Queriote, sua vila de origem. Porém, pela má fama que herdou, pelo equívoco da escolha em negar Jesus, não é justo transferi-la ao lugar.

   Todos somos Judas, até optar por Jesus. Traidores de nossa origem somos todos nós. Portanto, ao lembrar Judas, lamentamos sua escolha errada, mas o que nos diferencia dele é termos acolhido a escolha de Jesus por nós.

  Jesus não escolheu errado o Judas de Queriote. Porque Jesus escolhe a todos, sem exceção. Ele que não escolheu Jesus.  E não foi porque pesava sobre ele maldição.  Não.

   A maldição pesa sobre todos nós. Jesus, que se fez maldição em nosso lugar, uma vez tendo optado por ser salvos por Ele, herdamos Sua bênção. Judas desprezou, para si, essa bênção. A maior bênção, primeira de todas as outras, a salvação do pecado.

   Jesus lhe deu todas as chances. Nem precisava João ter denunciado, indignado, em seu Evangelho, que Judas metia, literalmente, a mão na bolsa. Perguntaríamos, ora, por que Jesus não pôs na tesouraria o fiscal de renda Mateus?

   Jesus não faz as escolhas que fazemos, do que avaliamos ser prioridade. Nós é que devemos fazer as escolhas dEle. Jesus amou Judas, este Judas, todo o tempo. Não foi jogo para a torcida, hipocrisia de ocasião Jesus, na última Páscoa, primeira Santa Ceia, dar a Judas o primeiro pedaço de pão.

   Foi gesto de amor. E Judas não estava e não foi predestinado a trair. Aliás, é chamado "filho da perdição" não por isso: mas porque não houve arrependimento. Ainda quando Jesus lhe denuncia, no momento do beijo traidor, não se sensibilizou: trancou-se para a ação do Espírito.

    Mesmo assim, até suicidar-se, antes deste gesto, haveria salvação. O Evangelho narra que Tomé chega atrasado ao encontro com Jesus ressurreto. Ora, caso Judas não lançasse mão de sua vida e chegasse, para buscar arrependimento, ainda depois de Tomé, haveria plena alegria e salvação.

   Jesus ama todo o tempo. Jesus concede todas as chances. Traidores somos todos nós, até que o arrependimento, a "tristeza segundo Deus", como diz o apóstolo Paulo, alcança-nos. Sejamos a ela receptivos porque, de nós mesmos, não produzimos essa tristeza.

    O remorso de Judas, a tristeza do mundo, produz morte. Judas nos ensina que nunca se pode negar o que Jesus oferece. Como Ele mesmo afirmou, todos os discípulos foram peneirados por Satanás, mas somente Judas deixou-se subverter.  Serve-nos de advertência.

domingo, 26 de julho de 2026

Príncipe da Beira - Guaporé, RO

 Uma fortificação cercada por muralhas de sete metros de altura se torna protagonista em meio ao verde amazônico, como se tivesse sido deslocada por outro continente. E do lado de fora do perímetro, circundam florestas contando com a presença de um rio. Em seu interior, jazem ruínas de alojamentos, depósitos e outras estruturas que um dia já formaram uma pequena cidade militar.

É o real Forte Príncipe da Beira localizado em Costa Marques, na margem do Rio Guaporé e diante da fronteira com a Bolívia. Erguido no século 18, o conjunto é reconhecido pelo Iphan como a maior edificação militar portuguesa construída fora da Europa e guarda quase 250 anos da histórica ocupação do território brasileiro.

A grandiosidade chama atenção, mas a história não é escrita apenas nas pedras. O forte também carrega as marcas da mão de obra escravizada usada em sua construção, do longo período de abandono e da comunidade quilombola que vive em seus arredores há mais de dois séculos.

Fortificação e uma fronteira em disputa

A decisão de erguer o forte começou longe da Amazônia. Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o tratado de Madrid, que reorganizou as fronteiras de suas colônias na América do Sul. A posse passou a depender completamente, em grande parte, da ocupação  efetiva do território.

Para Portugal, manter homens e estruturas às margens do Guaporé era uma forma de provar domínio sobre aquela faixa da região. O antigo Forte de Nossa Senhora da Conceição já cumpria essa função, mas uma enchente destruiu a construção em 1771. 

Cinco anos depois, a Coroa escolheu outro ponto, cerca de 1,5 quilômetro adiante. A pedra fundamental do novo forte foi lançada em 20 de junho de 1776.

As obras avançaram em uma região isolada, marcada por calor, umidade, doenças e dificuldades de transporte. O engenheiro italiano Domingos Sambucetti, responsável pelo projeto inicial, morreu de malária antes de ver a fortaleza concluída. A inauguração ocorreu em 20 de agosto de 1783.

Uma cidade atrás dos muros da fortificação

O tamanho do Real Forte Príncipe da Beira impressiona até hoje. A estrutura possui cerca de 970 metros de perímetro e quatro baluartes, batizados com nomes de santos católicos.

Cada Canto foi planejado para receber canhões e permitir a defesa de diferentes direções. Um fosso cercava a construção, enquanto o acesso principal ocorria por uma passagem controlada na muralha norte.

Por dentro, o conjunto funcionava como uma pequena cidade militar. Havia alojamentos para soldados, residências de oficinas, capela, prisão, armazéns, depósitos e um poço.

Pedras extraídas da própria região formaram boa parte das muralhas. Outros materiais precisaram percorrer longas distâncias até chegar ao canteiro de obras, em uma época sem estradas, tendo um rio como principal caminho.

Portugueses, indígenas e pessoas escravizadas participaram da construção. Pesquisas históricas apontam que muitos trabalhadores morreram durante o serviço, principalmente em razão da malária e das duras condições encontradas na região.

A mata fechou as portas da fortificação

Com o passar das décadas, a fortaleza perdeu sua importância estratégica, suas tropas diminuíram, estruturas ficaram sem manutenção e a vegetação começou a avançar sobre o interior, fazendo com que a antiga cidadela desaparecesse aos poucos sob a mata.

Em 1914, uma expedição comandada por Cândido Rondon encontrou o forte abandonado e coberto por plantas. O que antes servira para afirmar o poder português na fronteira havia se transformado em um conjunto de ruínas isolado na floresta.

Anos depois, trabalhos de limpeza devolveram parte da construção à paisagem. O Exército voltou a ocupar a região e instalou nas proximidades o Pelotão Especial de Fronteira, conhecido como Sentinela do Guaporé.

O tombamento federal ocorreu em 1950, quando o forte passou a ser reconhecido oficialmente como patrimônio cultural brasileiro.

Objetos que contam outras histórias

O chão do Real Forte Príncipe da Beira também guarda informações que não aparecem nas muralhas. Pesquisas arqueológicas iniciadas em 2008 encontraram louças portuguesas, fragmentos de vidro, metais, cerâmicas indígenas e estruturas relacionadas ao funcionamento cotidiano da fortaleza, como paiol e estábulo.

Os vestígios revelaram uma ocupação mais complexa do que a narrativa estritamente militar. Há sinais de presença humana anteriores à chegada dos portugueses, além de materiais ligados às populações indígenas e afro-brasileiras que viveram ou trabalharam na área.

Uma pequena peça de cerâmica pode indicar hábitos alimentares. Um fragmento de vidro ajuda a reconstruir rotas comerciais. Restos de construções mostram como soldados, trabalhadores e famílias organizavam a vida dentro e fora dos muros. Por esse motivo, objetos encontrados no local não devem ser retirados pelos visitantes.

Memória sobrevive ao redor

A fortificação não está cercada apenas por mata. Nos arredores vive a Comunidade Quilombola Forte Príncipe da Beira, formada por famílias ligadas à história da região há gerações.

Parte dos moradores descende de pessoas escravizadas que trabalharam na obra ou permaneceram no Vale do Guaporé depois do período colonial. Atualmente, integrantes da comunidade atuam no turismo e ajudam a apresentar o monumento a quem chega a Costa Marques.

A presença quilombola muda a forma de compreender o lugar. O forte não representa somente uma obra de engenharia militar portuguesa. Suas pedras também carregam a história de quem foi obrigado a erguê-las e de famílias que continuaram vivendo naquele território muito depois da retirada das tropas.

Durante a época de seca, quando o nível do Guaporé baixa, inscrições rupestres aparecem em pedras próximas às margens. Os sinais acrescentam outra camada ao passeio e mostram que a ocupação humana da região começou muito antes das disputas entre Portugal e Espanha.

Quase 250 anos de resistência

O Real Forte Príncipe da Beira integra a lista indicativa brasileira para uma futura candidatura a Patrimônio Mundial da Unesco. O título ainda não foi concedido, mas a inclusão reconhece a importância histórica e arquitetônica do conjunto.

Visitar o forte significa caminhar por diferentes tempos no mesmo espaço. As muralhas lembram a disputa colonial. As ruínas revelam os anos de abandono. Os achados arqueológicos mostram uma história mais antiga e diversa, enquanto a comunidade quilombola mantém viva a ligação humana com o território.

No meio da Amazônia, a construção continua cercada pela floresta que quase a fez desaparecer. O que sobreviveu não foi apenas uma fortaleza portuguesa, mas um lugar onde quase três séculos de histórias ainda permanecem gravados na pedra.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Mansão dos Matarazzo

 Mansão da Família Matarazzo: Um dos maiores crimes contra o patrimônio arquitetônico brasileiro.

Durante quase um século, a Mansão Matarazzo, localizada na Avenida Paulista, nº 1230, na esquina com a Rua Pamplona, foi um dos símbolos da riqueza, da elegância e do desenvolvimento industrial de São Paulo. Sua demolição, em 1996, provocou enorme comoção e até hoje é lembrada como uma das maiores perdas do patrimônio arquitetônico brasileiro.
A construção da mansão - A primeira residência foi construída em 1896, poucos anos após a inauguração da Avenida Paulista, a pedido do Conde Francesco Matarazzo, o imigrante italiano que fundou o maior complexo industrial da América Latina no início do século XX.
Projetada pelos arquitetos italianos Giulio Saltini e Luigi Mancini, a mansão possuía características do ecletismo europeu, inspiradas nos palácios renascentistas italianos. Cercada por jardins, esculturas, fontes e um luxuoso mobiliário importado, tornou-se uma das residências mais sofisticadas do Brasil.
A nova Vila Matarazzo - Na década de 1930, parte do conjunto foi profundamente remodelado para atender às necessidades da família. O arquiteto italiano Tomaso Buzzi projetou uma nova residência conhecida como Vila Matarazzo, incorporando elementos do classicismo italiano e da arquitetura palaciana europeia, sem perder o caráter monumental do conjunto.
Um símbolo da Avenida Paulista - Durante décadas, a Mansão Matarazzo foi uma das construções mais fotografadas da Avenida Paulista, numa época em que a avenida era ocupada por grandes casarões pertencentes às famílias mais influentes de São Paulo.
Enquanto quase todos esses palacetes desapareceram entre as décadas de 1950 e 1980, a Mansão

Matarazzo resistiu por mais tempo, tornando-se um verdadeiro marco da memória paulistana.
A batalha pelo tombamento - Em 1989, o imóvel foi tombado pelo município de São Paulo, numa tentativa de impedir sua destruição. A medida, entretanto, foi contestada judicialmente pelos proprietários.
Após anos de disputa, a Justiça anulou o tombamento em 1994, permitindo que a família retomasse o controle do imóvel. A decisão gerou intensa reação de arquitetos, historiadores, urbanistas e entidades de preservação do patrimônio.
O desabamento e a demolição - No início de 1996, parte da estrutura da mansão desabou. A Prefeitura interditou o imóvel por questões de segurança, mas investigações posteriores concluíram que o colapso não havia sido apenas consequência da falta de manutenção: um laudo do Instituto de Criminalística apontou indícios de escavações intencionais em colunas estruturais.
Pouco depois, iniciou-se a demolição completa do casarão, justamente no ano em que ele completava 100 anos de existência.
O que existe hoje no local? Após a demolição, o terreno foi vendido para incorporadoras imobiliárias. Atualmente, o espaço é ocupado pelo Shopping Cidade São Paulo, inaugurado em 2015, além de edifícios comerciais que transformaram completamente a paisagem da antiga propriedade.
Um patrimônio perdido - A destruição da Mansão Matarazzo tornou-se um dos casos mais emblemáticos da história da preservação do patrimônio brasileiro. Pesquisadores apontam esse episódio como exemplo da dificuldade de conciliar interesses econômicos com a conservação da memória arquitetônica das grandes cidades.
Fotografias históricas - As imagens acima mostram diferentes momentos da história da Mansão Matarazzo:
a residência ainda preservada, cercada por seus jardins na Avenida Paulista;
registros das décadas de 1940 e 1950, quando era um dos mais belos palacetes da cidade;
fotografias das ruínas durante a demolição, em 1996;
imagens que documentam um dos episódios mais controversos da preservação do patrimônio arquitetônico paulista.
A Mansão Matarazzo simbolizava a época em que a Avenida Paulista era formada por elegantes palacetes cercados por jardins. Sua demolição, em 1996, representou não apenas a perda de uma obra-prima da arquitetura eclética paulista, mas também o desaparecimento de um importante capítulo da memória urbana de São Paulo, lembrado até hoje como um dos maiores atentados ao patrimônio histórico brasileiro.


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Guia Escolar Positivo - síntese

 







PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE GESTÃO 
PARA MELHORIA DO CLIMA ECOLAR


quarta-feira, 8 de julho de 2026

Proficiência - Acre

 Proficiência do Acre em alfabetização

O Acre avançou muito na educação. O estado tem hoje 68% de crianças alfabetizadas na idade certa (até o final do 2º ano), superando a média nacional de 66%. Isso coloca o estado em 2º lugar no país em crescimento na alfabetização infantil. [1]
Esse sucesso tem motivos claros:
• Metas superadas: O Acre atingiu a meta de alfabetização projetada para 2027 com dois anos de antecedência.Destaque municipal: Municípios como Feijó lideram o ranking estadual com saltos de até 26% na taxa de alfabetização. A capital, Rio Branco, também é premiada regionalmente pelos avanços na área.


Proficiência em Língua Portuguesa

O Acre lidera o Ideb na Região Norte. Em níveis de proficiência em Língua Portuguesa (avaliados pelo Saeb), o estado obteve média de 212,32 nos anos iniciais e 269,17 no Ensino Médio, ficando no ranking nacional um pouco abaixo da média brasileira. [1, 2, 3, 4]
Os dados revelam que o cenário varia bastante de acordo com a etapa de ensino:
• Ensino Fundamental (Anos Iniciais): O estado alcançou nota de 6,07 em proficiência padronizada (junto com matemática), um bom resultado.


Proficiência em matemática

O Acre geralmente ocupa posições intermediárias no ranking nacional de proficiência em matemática. Contudo, o estado lidera o ranking da Região Norte em avaliações do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). [1, 2]
Dados Recentes da Educação no Acre
Os últimos resultados oficiais mostram os desafios e as conquistas no estado.

terça-feira, 7 de julho de 2026

A Rainha D. Maria Amélia


 Em 1945, a Rainha Dona Maria Amélia regressou a Portugal pela primeira vez desde o exílio de 1910, na sequência de um convite formulado por António de Oliveira Salazar. Aos 80 anos de idade, a antiga soberana percorreu de comboio o trajeto até Lisboa, evocando a viagem realizada 59 anos antes, quando chegara ao país para contrair matrimónio com o Rei D. Carlos. Durante essa viagem, conservava consigo o colar de 661 pérolas oferecido pelo monarca, uma das mais simbólicas recordações da sua vida em Portugal.

À chegada à capital, desembarcou deliberadamente com o pé direito, num gesto de forte significado pessoal e simbólico. No encontro com Salazar, descreveu-o como correspondendo à imagem que dele formara: um homem austero, reservado, de traços vincados, nariz aquilino, gestos contidos e discurso sóbrio.

No decurso da visita, deslocou-se ao Palácio Nacional da Pena, em Sintra, mas o itinerário excluiu propositadamente Vila Viçosa e a Igreja de São Domingos, em Lisboa, onde se realizara o seu casamento real. A decisão do Governo inseria-se na preocupação de evitar quaisquer manifestações que pudessem ser interpretadas como uma evocação pública ou um incentivo à restauração da Monarquia, preservando o enquadramento político do Estado Novo.

Manga, o goleiro

 MANGA: O GOLEIRO QUE DESAFIOU O TEMPO E SE TORNOU UMA LENDA DO FUTEBOL SUL-AMERICANO

Entre os maiores goleiros da história do futebol brasileiro, poucos construíram uma carreira tão longa, vitoriosa e respeitada quanto Haílton Corrêa de Arruda, eternizado como Manga. Dono de reflexos extraordinários, coragem impressionante e uma personalidade tranquila, tornou-se ídolo do Botafogo, do Nacional do Uruguai e do Internacional, conquistando títulos históricos em três países. Sua imagem também ficou marcada por uma característica incomum: enquanto a maioria dos goleiros passou a utilizar luvas, Manga preferia atuar com as mãos enfaixadas ou praticamente nuas, acreditando que assim tinha maior sensibilidade e controle da bola.

Manga nasceu em 26 de abril de 1937, no bairro da Boa Vista, em Recife, Pernambuco. Filho de uma família humilde, cresceu jogando futebol nas ruas da capital pernambucana. Começou como jogador de linha nas peladas de infância, mas acabou assumindo o gol por necessidade da equipe. O improviso revelou um talento natural.
Sua carreira profissional começou no Sport Club do Recife, onde estreou em 1955. Em pouco tempo, tornou-se um dos principais goleiros do futebol nordestino, despertando o interesse dos grandes clubes brasileiros.

Em 1959, foi contratado pelo Botafogo, iniciando uma das passagens mais brilhantes da história do clube. O Alvinegro vivia uma geração de ouro, com craques como Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo, Quarentinha, Jairzinho, Gérson e outros. Em meio a tantos talentos ofensivos, Manga se consolidou como a grande referência defensiva da equipe.

Durante dez temporadas em General Severiano, disputou 442 partidas oficiais, tornando-se um dos goleiros que mais vestiram a camisa botafoguense. Conquistou os Campeonatos Cariocas de 1961, 1962, 1967 e 1968, além dos Torneios Rio-São Paulo de 1962, 1964 e 1966.

Seu estilo era marcante: excelente posicionamento, explosão nas defesas, segurança nas saídas de gol e a rara habilidade de não espalmar bolas para a frente. Sua coragem impressionava, especialmente numa época em que os goleiros recebiam pouca proteção da arbitragem.

As grandes atuações renderam convocações para a Seleção Brasileira. Participou da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Reserva de Gilmar nas duas primeiras partidas, assumiu a meta no jogo decisivo da fase de grupos contra Portugal, de Eusébio. O Brasil foi derrotado por 3 a 1 e eliminado precocemente. Apesar da campanha ruim, Manga não foi apontado como o principal responsável.

Em 1968, transferiu-se para o Nacional, do Uruguai, onde viveu um dos capítulos mais importantes de sua carreira. Rapidamente conquistou a torcida com defesas espetaculares e liderança em campo. Entre 1969 e 1974, conquistou quatro Campeonatos Uruguaios, a Copa Libertadores da América de 1971 e a Copa Intercontinental, ao derrotar o Panathinaikos, da Grécia. Suas atuações o fizeram ser considerado por muitos o maior goleiro da história do Nacional — reconhecimento raro para um estrangeiro.

Em 1974, retornou ao Brasil para defender o Internacional, justamente no início da era mais vitoriosa do clube gaúcho. Sob o comando de Rubens Minelli, foi peça fundamental na conquista dos Campeonatos Brasileiros de 1975 e 1976, os dois primeiros títulos nacionais da história colorada.

Mesmo veterano, manteve excelente forma física e reflexos impressionantes. Depois do Inter, ainda defendeu o Operário de Mato Grosso do Sul, o Coritiba, o Grêmio e encerrou a carreira no Barcelona Sporting Club, do Equador, em 1982, aos 45 anos, após sagrar-se campeão nacional equatoriano em 1981.

Curiosidades históricas

As mãos nuas:

Manga ficou famoso por atuar sem luvas. Preferia as mãos enfaixadas com esparadrapo, alegando maior sensibilidade. Isso lhe rendeu dedos deformados e uma imagem de grande bravura.

Dia do Goleiro:

Desde 1976, o “Dia do Goleiro” é comemorado no Brasil em 26 de abril, data de seu nascimento.

Longevidade:

Atuou profissionalmente por quase três décadas, mantendo alto rendimento até os 45 anos.

Tríplice coroa sul-americana:

Um dos poucos goleiros a conquistar títulos nacionais importantes no Brasil, Uruguai e Equador.
Origem do apelido: A versão mais aceita é que recebeu “Manga” na infância devido aos braços longos e finos, comparados às mangas de uma camisa.

Pós-carreira e legado

Após encerrar a carreira, radicou-se por muitos anos no Equador, onde trabalhou como preparador de goleiros e viveu de forma modesta. Enfrentando dificuldades financeiras e problemas renais, recebeu apoio de torcedores (especialmente do Nacional) e retornou ao Brasil, onde viveu seus últimos anos no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro.

Ao longo da aposentadoria, foi constantemente homenageado pelos clubes que defendeu. Nos últimos anos, enfrentou problemas de saúde e foi diagnosticado com câncer de próstata. Após dias internado no Hospital Rio Barra, Haílton Corrêa de Arruda faleceu em 8 de abril de 2025, aos 87 anos.
Sua morte provocou grande comoção. Clubes como Botafogo, Sport, Internacional, Nacional, Coritiba, Grêmio, Barcelona de Guayaquil, além da CBF e da CONMEBOL, prestaram homenagens oficiais.

Manga deixou um legado que vai além de números. Ídolo eterno do Botafogo, campeão da Libertadores e do Mundo pelo Nacional, bicampeão brasileiro pelo Inter e símbolo de coragem por atuar de mãos nuas, ele se consolidou como um dos maiores ícones do futebol sul-americano.