sexta-feira, 19 de dezembro de 2014


  Sim, mas, e eu?

            Radicalmente democrático o evangelho. A Bíblia costuma ser muito e variadamente mal lida. Descuido e relaxamento de quem se lança a essa aventura. Fosse leitor mais atento e sistemático, não teria tantas e tão recorrentes críticas a fazer. Pior é quando tais críticas são por pura má fé. Bom, então, não há o que fazer, senão lamentar.

                 Aliás, leitura recente comenta sobre o problema que foi para Lutero concluir que desencadeara um problemão ao supor que seria de nobre alvitre legar as Escrituras, democraticamente, à interpretação do leitor, fosse quem quer que fosse. Deu no que deu, ou seja, o carinha lê e diz o que quiser, sem nenhum ou vagos critérios. Mas democracia, nesse caso e mais desta vez, vale tudo e vale a pena.

                 Não há como e não considerar como definitivo, a Bíblia é um livro simples, escrito por pessoas simples, dirigido a pessoas simples, ora, é claro que escrevem desde pescadores até gente de calibre acadêmico, é verdade, mas o texto foi dirigido a gente simples, por isso mesmo com mensagem ao seu alcance. A mensagem principal, central do livro, é e está ao alcance de todos e quaisquer.

                   Pois trata-se do evangelho, que traduzido significa 'boas novas', 'boa notícia'. Qual? O homem, genericamente falando, ou seja, qualquer um ou qualquer uma, está convidado ao cara a cara com Deus. Sem mais delongas, enrolação ou vá lá o que seja que atrapalhe, este é o cerne da mensagem: por meio de Jesus Cristo o homem é chamado ao cara a cara com Deus.
                    
                    Cada um, cada uma, individualmente. E aí, democratizada a leitura e o acesso ao texto, abrem-se as possibilidades de interpretação, evidentemente, democracia, já mencionamos aqui. E o resultado? Ora, o resultado, o resultado é que o simples super complicou-se. Virou, no bom sentido, quer dizer, sem querer ofender (o carnaval) um carnaval. Virou uma bagunça geral. E a mensagem, que era para que fosse acessível, simples, clara, direta, amorosa, cheia da graça de Deus, virou uma confusão geral, como dizia Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, um Febeapá doutrinário.

                    Virou foi religião, teologia, doutrina, enfim, não que seja ruim isso tudo, mais uma vez invoquemos a democracia, tem mesmo é que variar e aparecerem todos esses enfeites e artefatos, mas é que, no contra-fluxo, mesmo que não fosse essa a intenção, a simplicidade da mensagem acaba por ser afetada e pronto, embola o meio-campo e atrapalha o acesso. Confunde mais do que esclarece.

                   O evangelho nos encontra nus, logo após a queda. Essa é a história lá do Gênesis, que pelo seu jeitão só deseja esclarecer algumas coisitas: o homem deu uma banana para o Altíssimo, mais ou menos significando meta-se com a sua divindade e me deixa, me erra, que eu vou seguir na minha humanidade. Sem essa de comunhão entre nós. Tudo bem, mas o Altíssimo, em sua paciência eterna, reconhecendo que isso era tremenda burrice do ser humano, que nada sabia e desejava dar uma de entendido, veio em seu (do homem) socorro.

                     Foi quando encontrou o homem nu, logo após a queda. É assim que nós ainda hoje nos encontramos, ou era para que fosse, que nos apresentássemos, diante de Deus, assim, nus, após a queda. Mas aí a gente inventa de se vestir. E o pior é quando nos vestimos do nosso discurso, quaisquer e muitos deles, mais ridiculamente quando nos vestimos de um discurso doutrinário. Pegamos, lançamos mão das Escrituras, isso mesmo, do livro-fonte, e construímos a nossa doutrina, ou um esboço mal acabado de roupa, na velha tentativa de cobrir (ou encobrir, o que é diferente) a nossa nudez.

                 O homem original fez vestimenta de folhas de figueira, Deus mandou que tirasse e foi providenciar as vestes que julgava mais apropriadas. Continuamos a nos maquiar, a nos encobrirmos com qualquer quê, até mesmo aos nossos próprios olhos, assim como socialmente, aos olhos dos outros, vamos nos sobrevestindo, para ver se a nossa nudez não se torna patente, o que sumamente vergonhoso seria para nós mesmos, ai, que medo. O famoso, batido termo, verniz social.

                 Supra-sumo da ironia, ao avesso, é usar das Escrituras para fazer vestimenta de ramagens, farrapos de parreira, quebra-cabeças, e vamos cobrindo de curativos mal feitos nossa cicatriz e nossas feridas, nosso pecado, aos olhos desavisados de quem e de quantos? Faltam lentes, a quem? Lentes, exatamente, para tornar translúcidos os olhares. Fora as lentes, virão as máscaras, sobrepondo-se pele sobre pele, pura hipocrisia, que acaba por se tornar um exercício contínuo, social, como já mencionado, vital, quem sabe, porque disso (sobre)vivemos socialmente.

                      Interessante. Quando Deus, fazendo de conta que não sabia por quê, pergunta ao homem por que se escondeu? E ele responde, porque estava nu, tive medo, e me escondi. Ora, Deus responde, não é porque estava nu, porque nu te criei, nu sempre foste, nu estavas, estiveste sempre. Perdeste a inocência? Nu sempre fomos, sempre somos, mas perdemos a inocência. Vamos às máscaras e, socialmente, o jogo, a berlinda da vida e o exercício da moda, para saber quais e quantas usamos.

             Sim, mas, e eu? O que fiz do evangelho, manipulado-o de modo a se encaixar em mim como máscara? Tira já essa roupa, artificial, mal ajambrada, posta de qualquer jeito, ou intencionalmente retocada, que vou te vestir com outra, diz o Altíssimo. Original. Vai que fica mais bonito, na fita. Fica. Original e bela.

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