Sr. Presidente Lula da Silva:
Não votei no Exmo Sr. Desta vez, e mais uma vez, não. Mas já votei outras vezes. Porque o Sr. me decepcionou. Aliás, se não houvesse decepcionado a tanta gente, teria, como foi sua expectativa, ganhado no turno passado.
Porque há algumas coisas óbvias. Uma delas é que o Outro, a quem o Sr. chamou miliciano, o Sr. mediu-se por ele, no voto, e sua medida diante dele, na métrica do voto, foi difícil superar. E não ponha, Sr. Presidente, nos eleitores dele a culpa. Porque o Exmo Sr. não é mais uma unanimidade como antes já foi.
E o fracasso do seu partido se mede pela mesma métrica. Porque um obscuro capitão, que tinha um nicho fixo de votos, foi alçado à presidência deste país pela medida desse mencionado fracasso. E nessa eleição ainda muita gente boa e competente desse partido nem decolou.
Então a medida é essa, de um pelo outro, com um país dividido. Mas Sr. Presidente, foi surpreendentemente linda a sua vitória. Como também foi lindo o esforço e a tentativa do outro lado. Se vencessem, a festa deles seria também linda e a sensação de vocês, como está sendo a deles.
O nome disso, Sr. Presidente, é democracia. O Sr. já ficou conhecido pela frase que, de vez em quando repete, "nunca antes neste país". Eu vou inventar a minha, ao inverso: "Sr. Exmo. Lula da Silva: pela última vez neste país".
Sim, será sua última chance para se superar. Para deixar de ser uma unanimidade somente entre o seu time, para ser o que o cargo para o qual foi eleito pede, usando tudo o que já reuniu em sua biografia e experiência.
Seja, Sr. Presidente, verdadeiro para si mesmo. Este povo, carente de unificação de uma polarização tão estúpida, precisa de uma política que seja, em essência, o que a grande maioria dos políticos não pratica.
Porque foi isso que esperavam e não viram na vigência do seu partido, no poder, motivo que o mergulhou no fracasso. Lembre-se que mais foi mérito a rejeição de seu oponente, em 2022, como agora o medo de seu retorno, retratado no filho, que rendeu ao Sr. a diferença que virou vitória.
Transforme as duas expectativas a seu favor: a de seus próprios eleitores e a dos não eleitores mas que, certamente, ainda que não admitam, surpreenderam-se com tamanha façanha. Mas seja sábio e humilde, Sr. Presidente.
Sábio para fazer valer a democracia e cercar-se de conselheiros de seu time e do outro também. Estabelecendo a amplitude de governo que não fez no mandato anterior. E humilde para aumentar o seu tamanho. O Sr. não é mais a unanimidade que lhe concedeu, no passado, quatro mandatos, de 2003 até o impeachment.
Mas pode voltar a ser. Tem sua última chance. E não precisa de uma LavaJato 2 para, por si mesmo reconhecer que um dos cânceres da má política neste país é a roubalheira. A malversação do erário. A sua experiência, Sr. Presidente, a sua história e a sua biografia bem conhecem o bem e o mal que, no Brasil, a política pratica. Ah, sim: contas públicas serão neste próximo mandato item sensível.
Nunca mais vou votar no Exmo Sr. Já votei duas vezes no passado. Digo que não mais votarei, porque é bem provável que o Exmo Sr. não mais concorra a cargos públicos. Mas surpreendeu-me sua vitória. Então agora, Exmo Sr. Lula da Silva, surpreenda-nos, tornando-se ainda tão maior.
De um modo como essa estrondosa vitória proporcionou o Exmo Sr. ser visto, com certeza, ainda que não admitido, surpreendendo o outro time. Mas o Sr ainda é metade, meio aceito e meio rejeitado. Tem a última chance de ser inteiro e grande. Para isso, essa nação o elegeu. Honre esse cargo mais uma vez recebido. Torne-se uma referência, não somente entre os seus correligionários. Mas também e até entre opositores, ainda que não queiram admitir.
A não ser, Exmo Presidente, que o Sr, sem acreditar em si mesmo e no mérito de mais esta vitória, quem sabe a última, decida continuar colocando nos outros a culpa do mesmo modo que essa polarização estúpida vem fazendo. Os dois lados querendo um anular o outro, julgando a si mesmo dono da verdade.
Isso não é democracia. Não basta dizer que, de si mesmo, se é democrático: é necessário promover democracia. E o diálogo se torna essencial. Alianças serão necessárias. Que sejam menos, muito menos pelo suborno que, neste país, deixou de ser bastidor e se tornou flagrante, mas sejam por virtude. E Sr Presidente, sejamos verdadeiros, vícios e virtudes há de ambos os lados.
Não é necessário ensinar ao Exmo Sr praticar política. Neste momento é sadio depositar no Sr. esperança. Quem sabe, virtudes não vistas e ainda por se promover poderão ser constatadas, resgatando até a história de seu partido. A mobilização dessa campanha, creio, também move essa outra expectativa.
Surpreenda-nos, Sr Presidente. Mais uma vez lhe concederam esse crédito. Seja então reconhecido para além de suas próprias fronteiras. Eu diria que até fora do Brasil assim se espera. Em certo sentido, seja igual, porém junto e também noutro sentido, seja bastante diferente. Ser reconhecido apenas por seu time continuará sendo polarização estúpida. O Exmo Sr poderá ser ainda maior.
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