quinta-feira, 19 de maio de 2016

Mal traçadas linhas 26


      Caráter e ortodoxia.

      Tudo a ver. Quer dizer, nada a ver. Tudo a ver, discutir isso. Nada a ver, porque ortodoxia não incute caráter. Inquisidores eram ortodoxos. Aliás, impunham aos outros ser como julgavam obrigatório ser, sob pena de tortura e morte, devidamente registradas em ata.

       Não acho negativo o papel e função dela. Na verdade, ortodoxia é método e organização. Quem crê, precisa de um corpo estruturado e de um sistema assim bem definido.

        Ora, isso é uma coisa: eu crer e ter organizada, inteligentemente, minha confissão de fé, rol de doutrinas e visão bíblica peculiar. Outra, diferente, seria eu impor a outros essas peculiaridades ou achar que somente por essa ótica é possível enxergar o mundo.

        E mais distintivo ainda é associar ortodoxia a caráter. Uma coisa não depende da outra. É possível encontrar canalhas plenamente ortodoxos, sobeja e suficientemente. Ocorre mais ou menos aquela máxima: não é que todo ortodoxo seja canalha, mas há canalhas ortodoxos.

        Caráter vem de outra raiz. Aliás, pode-se abusar da mesma fórmula rasteira de máximas, para dizer: quem tem caráter, terá chance de ser um saudável ortodoxo; mas nem todo ortodoxo tem chance de ter caráter. É matemático: se, e somente se for de caráter, será verdadeira e saudavelmente ortodoxo.

       A recíproca não é verdadeira. Há quem seja ortodoxo e não tenha caráter. Ortodoxia não depura o caráter. Este é construção à parte, tessitura de outro viés. Na Bíblia, é determinante e determinado por Deus, pessoal e impreterivelmente.

       No início das histórias do Livro, Deus interpela Caim, padrinho de todos os homicidas, para forjar nele caráter. Pelo menos, três aspectos foram sugeridos: (1) o homem é capaz de engendrar, por si, desejos que são contra ele e contra o próximo; (2) pode e deve desenvolver capacidade de dominar esses impulsos; (3) implícito ficou no diálogo, caso queira dominar-se, terá Deus como parceiro, caso não, seguirá seu rumo sozinho, entregue a si mesmo.

       Caráter, na Bíblia, para ser restaurado no ser humano, homem ou mulher, é obra de Deus. Fez-nos a Sua imagem e semelhança e, segundo escreveu Paulo Apóstolo, Deus nos refaz, poema de Sua autoria se, e somente se recriados em Cristo como matriz.

        Simplesmente, para a Bíblia, só tem um jeito para essa história de regeneração de caráter. O nome já indica: re + gerar significa "gerar de novo". Isso mesmo, Deus cria de novo, do zero, a partir e em Jesus. Deus o autor, o batismo em Jesus Cristo a raiz e caráter torna-se o resultado.

        Por isso a Bíblia apresenta nomenclatura variada, nenhuma delas indicando linguagem figurada, ou seja, metáfora: feição e formação de caráter na Bíblia é, literalmente falando, novo nascimento, morte/ressurreição em Cristo, regeneração.

         Nada a ver, tudo a ver. Venha com tua ortodoxia, que o Livro te confronta com a possibilidade de teres regenerado o teu caráter. Então, uma vez assim revestido, a chance de encarar ortodoxia do modo positivo, sadio e mediador de bênçãos será flagrante e único possível.

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