quarta-feira, 4 de maio de 2016

Filigranas de Memória 2

 
       Cálculos à parte

       Pensar alcançar Rondonópolis no segundo dia, a partir de Ji-Paraná, foi loucura. Cobrimos o, na época, ermo norte de Mato Grosso, horas e horas a 100, 120/h, quando muito 140 nas retas, à bordo do quadrado Gol 1000, sem ver vivalma.

        Íamos, é claro, genialíssima ideia, ouvindo fitas cassete no tocas-fitas moderno. Isso distraía, desconcentrava as tensões e inspirava a mente: louvores excelsos, dentre outros profanos.

       Irrompemos bem ali, na curva, em Cuiabá, que define quem vai prosseguir em direção à Rondonópolis, arredondados 200 km à frente. Isaac interpretou todo o estresse da jornada, visto que, se planejáramos para o dia cerca de, exageradamente, 1300 km, naquele ponto já passávamos de 1000: abriu o maior berreiro no colo da mãe.

        O instante que me virei para trás, para tomar altura e dimensão do desabafo do recém-nascido, foi suficiente para emplacar um buraco que cobria toda a via. Haja peito de aço, acessório que, na alvorada pátria daquele momento econômico, pós URV do FHC, alvíssaras do Plano Real, fui obrigado a amealhar junto com os tapetes do soalho e a maravilha tecnológica que era o toca-fitas: se não o fizesse, não retiraria o Gol 1000, por consórcio, da autorizada WV ali da Barra, Rio, RJ.

         Recuperamo-nos do susto, amansamos a fera neném e, logo à frente, paramos num posto. Pedimos completar o tanque e, prontamente agachei-me, a fim de apalpar o prejuízo, bem ali, por debaixo do cárter de óleo do motor.

         A anatomia da peça, assim denominada, refiro-me ao peito de aço, estava disforme e distorcida. Procurei, com a mão, sinal de bezuntar as mãos em óleo quente do motor. Nada. Constatamos, então, não ter rompido o depósito de óleo e, incontinenti, ao mesmo tempo ainda iludidos, partimos em direção a Rondonópolis.

       Falo assim porque, ainda ocorreria o incidente que nos ensinaria, como regra para todas as demais viagens a fazer, não empreender jornada nenhuma à noite, principalmente nas estradas do norte e centro-oeste percorridas repetida e insistentemente.

        Na subida da costumeira serra que liga Cuiabá a Rondonópolis, já após o trecho sempre horripilante de movimento de carretas e asfalto, retão que corta por fora o centro de Cuiabá, deformado exatamente pelo peso delas, esse penoso percurso jogou-nos à noite no início da subida.

       Desciam quatro faróis alinhados. E, antes que eu atinassse no sentido daquilo, que ser ou aberração das estradas mostra alinhados na horizontal quatro faróis, a mãe do menino, sentada atrás, alça de mira por entre os bancos, o que é aquilo, são duas carretas, uma cortando a outra.

         Bastou para eu me posicionar no miúdo acostamento, talvez 1 m deles, sentir a vegetação roçar na lataria do carro, o arquear do solo esburacado e o ameaçador deslocamento de ar da carreta, fazendo balouçar o Gol como uma caixa de papelão, a marca definitiva desse livramento e a lição para não mais, nunca mais estipular estirões que nos fizessem dirigir à noite.

        Chegamos à cidade. Tateando no Guia Quatro Rodas 1995, na época atualíssimo, encontramos dois hotéis modestíssimos. A ministra das finanças, mãe do bebê, certamente optaria pelo mais em conta. Eu já fechara questão sobre ficar em qualquer um, porque desde o estresse bebê, as emoções haviam sido marcantes.

         Mas sempre prevalece a orientação feminina, nessas horas: escolhemos o menos pior, porque o outro, além do odor característico, a luz mortiça e uma plataforma fixa de concreto com colchão por cima, como lápide de sala acadêmica de aula de dissecação, fechei questão: Regina, é no outro.

          Ufa! Pelo menos, duas camas de solteiro, o cheiro característico diferente, porém presente, luz ligeiramente menos amarela e, graças a Deus, apenas o grito da esposa quando deparou uma barata no banho. Dormimos uma boa noite, previamente decididos a procurar a Carolina, a autorizada WV da cidade, segundo nos indicava o manual do nosso novíssimo veículo.

       

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