segunda-feira, 9 de maio de 2016

Filigranas de Memória 4


     Troca de eixo

     São José do Rio Preto, nossa visada, a partir de Santa Fé do Sul, era ponto de referência. Marcava uma curva, como que a última, para nós saída do eixo Norte-Sul para o eixo do Sudeste.

      Ali fazíamos o contorno do trevo para Mirassol, referência no Guia 95, trocando para a rodovia Presidente Wilson e deixando a Euclides da Cunha, que percorrêramos inteirinha, das margens do Paraná ao referido trevo.

       Saíamos da travessia numa balsa imensa, umas quatro vezes, se não fossem seis ou oito o tamanho daquela do rio Madeira, na foz do Abuña, em Rondônia. Aquela era a nossa primeira travessia ali naquele ponto da jornada, nos idos de 1995.

      Anoitecera. O eixo da Euclides da Cunha faríamos, Regina e Isaac pela primeira vez eu, pela segunda, estávamos em março e eu percorrera em jameiro, indo definitivamente para o Acre com o pastor Paulo Leite.

      Regina ficou dentro do Gol 1000. Enfrentáramos a fila de carros, que foram alinhados em forma de letra U, com vértices retos, é claro. Ficara um espaço apertado e comprido bem no meio, entre eles, depois descobri por quê. Estávamos, eu com Isaac ao colo, reparando essa arrumação e bem na proa reta da embarcação, mirando as águas escuras da travessia.

       Falava coisas de pai pra filho ao menino, nem sei se ele se lembra, quando nos voltamos para ver a acomodação, certamente, daquele último veículo que faltava: uma bruta carreta carregada, quem sabe umas 35.000 t, pelo menos.

      A dita era a última carga daquela partida. Entrou rangendo, esforços de sua tonelagem, na balsa que, monstro domesticado, nem se mexia. Eu, com o menino no colo, por detrás da fileira dos carros na popa, acompanhava a manobra.

      E veio o monstro mirim acomodando-se em meio a todos os carros. Os compressores do freio chiando, anunciavam as etapas da acomodação. Eu, Isaac ao colo, nós dois acompanhávamos. Foi quando, vindo ao nosso encontro, bem cara a cara em nossa direção, o truck deu o que parecia ser a última parada. Estacou.... shshsh...shshsh....shshs.

      Mas não era. Começou a recuar, de ré, após alguns giros de contato com gente lá de trás, não percebidos por nós. Pensei, ué, vai ficar de fora essa derradeira carga, por causa do peso? Mas não saiu todo. Foi quando. O monstrinho cresceu de tamanho, precisamente quando acelerou e, pior, precisamente em nossa direção.

       Arregalei olhões, Isaac nem era com ele, e o caminhão acelerou. Cara, é claro que o sangue ficou frio, mas a adrenalina deu sinal. Por que acelera desse jeito? E justo em nossa direção. Aumentava a velocidade e eu me perguntava, eu, hein, nunca vi isso.

       Foi quando entendi: desde que acelerou lá na entrada da balsa, aumentou o monstro a sua velocidade e, a uns três metros da linha de carros onde, entre eles, descansava o bólido Gol 1000, freiou bruscamente, enquanto, evidentemente, eu esperava por isso, mas ainda sem entender.

       Então todos os compressores deram, sincronizados, seu definitivo suspiro mas, desta vez, ruído monumental de ferros poderosos rangeram, orquestrados no mesmo solavanco, porque toda a balsa sacolejou e veio à frente num tranco, com todos e com tudo acima.

        Então entendi, princípios da física, com malícia e traquejo do mais recente passageiro de todos: a freada da carreta, por meio do atrito e da inércia, acabara de desencalhar a chata enorme, agora pronta para singrar as águas escuras daquela noite de março de 1995, primeira travessia da família pelo rio Paraná.

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