Por Silvio Essinger — Rio de Janeiro -
No livro 'Tempo feliz', jornalista Renato Vieira conta história dos sócios Wadi Gebara e Roberto Quartin, que queriam montar no Brasil uma gravadora nos moldes da jazzística Impulse!, do produtor americano Creed Taylor.
- Jack Kerouac, 100 anos: Como o autor de 'On the Road' influenciou artistas brasileiros
- https://oglobo.globo.com/cultura/livros/jack-kerouac-100-anos-como-autor-de-on-the-road-influenciou-artistas-brasileiros-25429328
- Renato Janine Ribeiro: 'Instituições brasileiras são incapazes de controlar a irracionalidade de seus protagonistas'
- https://oglobo.globo.com/cultura/livros/renato-janine-ribeiro-instituicoes-brasileiras-sao-incapazes-de-controlar-irracionalidade-de-seus-protagonistas-25388873
— É uma história bem brasileira, de dois jovens que gostavam de música e queriam ter uma gravadora, mas não eram caras de disco. Eles investiram naquele sonho. O Quartin era o mentor intelectual e tinha o desejo de ser reconhecido como um produtor — conta Renato, que autografa exemplares de “Tempo feliz” no dia 17, a partir das 19h, na Livraria da Vila, em São Paulo.
Trilha de Glauber
Numa época em que o selo Elenco, do produtor Aloysio de Oliveira,
empacotou a nata da bossa nova em LPs com capas minimalistas e chiques do
designer César Villela, o que coube à Forma foi apostar no luxo de capas
duplas, ilustradas com obras de arte, em discos de artistas novos ou já
reconhecidos, mas que ainda não tinham tido a chance de gravar seus projetos
autorais, ou ainda em trilhas sonoras para cinema (como a de Sérgio Ricardo
para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, filme de Glauber Rocha).
'O
pomar das almas perdidas': Quem é a escritora Nadifa
Mohamed, a primeira somali a concorrer ao Booker Prize
— Você vê que a maioria dos discos da Forma é o de estreia dos artistas,
como os do Moacir Santos, do (pianista) Luiz Carlos Vinhas e do Quarteto em Cy.
Era uma gravadora muito ousada, mas, como negócio, foi deficitária o tempo
inteiro. O disco que mais vendeu foi o “Som definitivo”, do Quarteto em Cy com
o Tamba Trio: duas mil cópias, quase nada — revela Renato, acrescentando que os
LPs da Forma custavam quase duas vezes mais do que um de Roberto Carlos e não
foram distribuídos fora do Rio de Janeiro.
O maestro Moacir Santos em foto do livro "Tempo feliz", do
jornalista Renato Vieira, sobre a gravadora Forma — Foto: Divulgação
Definitivamente, a Forma era a cara de Roberto Quartin (1942-2004), um
filho de diplomata que perdeu o pai cedo e encontrou companhia nos discos de
Frank Sinatra presenteados pela avó. Um sonhador, mas também um sujeito com
muita lábia, dado à mitomania, que conseguiu convencer Wadi (herdeiro da Casa
Gebara, popular rede de lojas de tecidos) a investir numa gravadora de
excelência artística, sem concessões, e depois, quando a falência batia à
porta, ainda vendeu a Forma para o sócio.
— Enquanto o Quartin era o cabeça artístico, o Wadi era quem fazia a
roda girar financeiramente, e ele só continuou com a Forma porque as dívidas
estavam todas em seu nome. Wadi entrou rico e saiu pobre, mas ele tinha muito
orgulho de ter financiado isso — diz Renato, que conseguiu com o empresário
(morto em 2019) toda a documentação relativa à gravadora.
Elis e Chico Buarque
Depois de uma extensa pesquisa em jornais e de entrevistar “praticamente
todo mundo que estava vivo” e que podia contar a história da Forma (entre eles,
Wadi Gebara, Sérgio Ricardo e a cantora Dulce Nunes, que acabaram morrendo até
2020), Renato Vieira chegou a algumas histórias muito pouco conhecidas da
gravadora. Como a de que jovens talentos do naipe de Elis Regina e Chico
Buarque estiveram na mira da Forma. E a de que o saxofonista Stan Getz (que
estourara a bossa nova nos Estados Unidos em disco com João Gilberto) chegou a
começar a gravar um LP com Baden Powell e uma banda de brasileiros. A história
poderia ter sido outra, mas, para Renato, havia sempre um obstáculo
intransponível:
— Quem acabou com a Forma foi a realidade brasileira.



Nenhum comentário:
Postar um comentário