quarta-feira, 22 de abril de 2026

Forma: gravadora durou apenas 2 anos e deixou obras-primas de Vinicius, Baden e Moacir Santos

Por Silvio Essinger — Rio de Janeiro -  

No livro 'Tempo feliz', jornalista Renato Vieira conta história dos sócios Wadi Gebara e Roberto Quartin, que queriam montar no Brasil uma gravadora nos moldes da jazzística Impulse!, do produtor americano Creed Taylor.


Primeiro time. Baden Powell, o produtor Roberto Quartin e o saxofonista Stan Getz — 
Foto: Divulgação

Uma gravadora que durou apenas dois anos (entre 1964 e 66), durante os quais foram editados apenas 22 LPs. Mas, entre eles, ao menos duas reconhecidas obras-primas da MPB: “Coisas”, do maestro Moacir Santos, e “Os afrossambas”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Esta foi a Forma, que tem agora sua história traçada pelo jornalista mineiro Renato Vieira, de 35 anos, em “Tempo feliz” (Kuarup). O livro foi o resultado do encontro de Renato, em 2014, com o empresário Wadi Gebara, sócio capitalista que o produtor Roberto Quartin encontrou para levar adiante o sonho de montar, no Brasil, uma gravadora nos moldes da jazzística Impulse!, do produtor americano Creed Taylor.

— É uma história bem brasileira, de dois jovens que gostavam de música e queriam ter uma gravadora, mas não eram caras de disco. Eles investiram naquele sonho. O Quartin era o mentor intelectual e tinha o desejo de ser reconhecido como um produtor — conta Renato, que autografa exemplares de “Tempo feliz” no dia 17, a partir das 19h, na Livraria da Vila, em São Paulo.

Trilha de Glauber

Numa época em que o selo Elenco, do produtor Aloysio de Oliveira, empacotou a nata da bossa nova em LPs com capas minimalistas e chiques do designer César Villela, o que coube à Forma foi apostar no luxo de capas duplas, ilustradas com obras de arte, em discos de artistas novos ou já reconhecidos, mas que ainda não tinham tido a chance de gravar seus projetos autorais, ou ainda em trilhas sonoras para cinema (como a de Sérgio Ricardo para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, filme de Glauber Rocha).

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— Você vê que a maioria dos discos da Forma é o de estreia dos artistas, como os do Moacir Santos, do (pianista) Luiz Carlos Vinhas e do Quarteto em Cy. Era uma gravadora muito ousada, mas, como negócio, foi deficitária o tempo inteiro. O disco que mais vendeu foi o “Som definitivo”, do Quarteto em Cy com o Tamba Trio: duas mil cópias, quase nada — revela Renato, acrescentando que os LPs da Forma custavam quase duas vezes mais do que um de Roberto Carlos e não foram distribuídos fora do Rio de Janeiro.

O maestro Moacir Santos em foto do livro "Tempo feliz", do jornalista Renato Vieira, sobre a gravadora Forma — Foto: Divulgação

Definitivamente, a Forma era a cara de Roberto Quartin (1942-2004), um filho de diplomata que perdeu o pai cedo e encontrou companhia nos discos de Frank Sinatra presenteados pela avó. Um sonhador, mas também um sujeito com muita lábia, dado à mitomania, que conseguiu convencer Wadi (herdeiro da Casa Gebara, popular rede de lojas de tecidos) a investir numa gravadora de excelência artística, sem concessões, e depois, quando a falência batia à porta, ainda vendeu a Forma para o sócio.

— Enquanto o Quartin era o cabeça artístico, o Wadi era quem fazia a roda girar financeiramente, e ele só continuou com a Forma porque as dívidas estavam todas em seu nome. Wadi entrou rico e saiu pobre, mas ele tinha muito orgulho de ter financiado isso — diz Renato, que conseguiu com o empresário (morto em 2019) toda a documentação relativa à gravadora.

Elis e Chico Buarque

Depois de uma extensa pesquisa em jornais e de entrevistar “praticamente todo mundo que estava vivo” e que podia contar a história da Forma (entre eles, Wadi Gebara, Sérgio Ricardo e a cantora Dulce Nunes, que acabaram morrendo até 2020), Renato Vieira chegou a algumas histórias muito pouco conhecidas da gravadora. Como a de que jovens talentos do naipe de Elis Regina e Chico Buarque estiveram na mira da Forma. E a de que o saxofonista Stan Getz (que estourara a bossa nova nos Estados Unidos em disco com João Gilberto) chegou a começar a gravar um LP com Baden Powell e uma banda de brasileiros. A história poderia ter sido outra, mas, para Renato, havia sempre um obstáculo intransponível:

— Quem acabou com a Forma foi a realidade brasileira.

Ver na net: https://oglobo.globo.com/cultura/musica/noticia/2022/05/forma-gravadora-durou-apenas-2-anos-e-deixou-obras-primas-de-vinicius-baden-e-moacir-santos.ghtml

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