quarta-feira, 22 de abril de 2026

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Fake news de Pindorama: como Caminha espalhou desinformação sobre o Brasil

No ano de 1500, apenas dez dias bastaram para um europeu descrever os povos indígenas e seu território, Pindorama (nome ancestral do Brasil), que contava então com cerca de cinco milhões de habitantes. A carta escrita por Caminha, funcionário da Coroa Portuguesa, que é considerada um relato inaugural, apresenta corpos, costumes e o território a partir da lógica colonial, projetando como esse mundo deveria ser visto.

A invasão branca trouxe embutida a crença de que esse novo mundo precisava ser esclarecido por pessoas superiores, como disse o líder indígena Ailton Krenak em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo.

O pouco tempo de contato e, principalmente, a cosmovisão eurocêntrica, foram suficientes para que a Carta fosse um instrumento de propagação de informação errada, enganosa ou incorreta (misinformation); falsa, fraudada ou mentirosa (disinformation); descontextualizada, distorcida ou enviesada (malinformation); e pouca, escassa ou silenciada (silencing).

Hoje, de forma anacrônica, podemos chamar isso tudo de desinformação ou desordem informacional.

Neste artigo, minha intenção é percorrer trechos da Carta de Caminha mencionados pela antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, referência no estudo sobre povos indígenas brasileiros, para evidenciar que, nesse documento fundador da colonização portuguesa, o que se apresenta como descrição direta é seleção, omissão e hierarquização.

Como diz a antropóloga:

"Essa ideia de não domesticação dessa gente que nada domestica — nem plantas nem animais — é, em Caminha, tão poderosa, que o leva a ignorar a agricultura dos índios, a não dar realce às redes e jangadas que menciona, e a presumir, só para ser desmentido no dia seguinte, que eles sequer tenham casas onde se abriguem (...) não têm chefe ou principal (...) não têm nenhuma idolatria ou adoração".

Caminha institui um modo de narrar que nega a alteridade indígena: ao descrever, reduz. Ao classificar, hierarquiza. Ao nomear, apaga, convertendo diferença em déficit, complexidade em simplificação e presença em ausência.

É menos um documento sobre o início da história do Brasil e mais um marco inaugural de uma longa tradição de desordem informacional, cujos ecos — reiterados, atualizados e naturalizados — continuam a organizar o modo eurocêntrico como se fala dos povos originários e o silenciamento das suas questões.

Violência no primeiro avistamento

A invasão portuguesa de Pindorama iniciou-se em 22 de abril de 1500, no lugar que hoje conhecemos como Porto Seguro, Bahia, e a desinformação começou ainda antes desse momento. Antes mesmo de ser pisada pelos forasteiros, Pindorama foi nomeada ilha, informação errada e propagada já na primeira violência, destituindo a identidade do território ancestral.

Foram quase 45 dias de viagem para que os portugueses se apossassem de uma terra que não lhes pertencia em nome do Rei D. Manuel I, como se ela esperasse pelo "achamento desta vossa terra nova".

Em 23 de abril, um dia após avistarem a terra brasileira, os portugueses encontraram os primeiros indígenas. O juízo de valor aparece à primeira vista, sendo a nudez citada em diversos momentos com a percepção enviesada de quem professa a fé cristã.

Gente bestial

Quando Caminha passa a interagir com os nativos, instaura-se uma sequência de informações desordenadas, registradas sob o prisma do exótico. O olhar europeu fixa-se nos apetrechos (bicos de osso e paus nos "beiços") e nas pinturas corporais ("quartejado de cores").

O narrador alia, mais uma vez, pouca informação e distorção na descrição da convivência com os indígenas para obter sua cooperação, ainda que ocultando a intenção principal dos europeus, que era obter metais. "E tudo se passa como eles querem por os bem amansar".

Era necessário falsear as intenções porque, mesmo não violentos, eram esquivos, "gente bestial e de pouco saber". E conseguiram o objetivo, algo percebido já em 28 de abril, terça-feira, pois se aproximavam "sem se esquivarem". Depois, disse o escriba que "andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles", criando uma amizade unilateral: "são muito mais nossos amigos que nós seus".

Os portugueses sabiam que a compreensão entre as línguas era tão importante que deixaram europeus entre os indígenas, já que "nem eles tão cedo aprenderiam, a falar para o saberem tão bem dizer". Essa visão estava alinhada a outro processo de desordem informacional, o discurso de mansidão e domesticação. Se levassem alguém à força até o rei, haveria "escândalo" e seria difícil de "amansar e apacificar".

Narrativas desordenadas

As trocas também foram descritas com escassez de informação. Como estavam focados em ouro e prata, os portugueses não conseguiram ou não quiseram entender, em certo momento, se os nativos diziam que naquela terra existiam esses metais ou se queriam esses objetos. Ademais, não entendiam se um objeto de escambo seria interessante ou não para aquele povo, desconsiderando as suas necessidades e as apropriações realizadas. Os nativos distribuíam e trocavam arcos e flechas, algo que tinham aos montes, por objetos que não eram "qualquer cousa", mas agiam como "se tivera uma grande joia"_.

Entre diversos relatos enganosos, Caminha conta que não existia cortesia e tampouco hierarquia entre os nativos, desconsiderando a organização das comunidades, em razão do modo como lidavam com o capitão, Pedro Álvares Cabral. Tratavam-no como aos demais navegantes. _"Não entendem nem tomavam disso conhecimento".

Quanto à agricultura e às criações dos povos originários, mesmo percebendo a relação com o inhame e outras sementes, Caminha desconsidera o que vê por não ser igual ao modo europeu.

"Eles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse inhame que aqui há muito e dessa semente e fruitos que a terra e as árvores de si lançam".

Sobre a fé, a Carta negligencia o sistema de crenças e espiritualidade dos povos originários. "Parece-me gente de tal inocência que, se os homens entendessem a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece".

A mensagem a Portugal

No início de maio de 1500, quando um navio partiu do litoral brasileiro rumo a Portugal levando a Carta de Caminha, mais de cinquenta indígenas imitaram os gestos de uma oração, de joelhos e apontando para o céu diante da cruz. O episódio levou o narrador a reforçar a ideia de uma conversão descomplicada — ainda mais com alguns já usando crucifixos —, sendo o único empecilho o entendimento, já que "nenhuma idolatria nem adoração têm", e cabia aos portugueses "salvar esta gente".

Essa leitura parte de um enquadramento que não reconhece outros sistemas de pensamento. À luz dos conceitos de "perspectivismo ameríndio" e dos "pronomes cosmológicos", do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, trata-se de um mundo de múltiplos sujeitos e naturezas.

Todo esse processo de desordem informacional está longe de ter acabado, sendo iniciado antes mesmo de os portugueses pisarem de fato nessa tera. Para enfrentá-lo, é preciso reconhecer que se trata de múltiplas nações originárias, com identidades próprias. Não são culturas estanques, mas dinâmicas, que projetam um futuro ancestral.

O modo de vida indígena não está congelado, ainda mais na descrição preconceituosa e estereotipada feita por Caminha, como enfatiza a indígena heteroidentificada Andrielle Guilherme em sua tese. Enfrentar essas desinformações -- assim como outras mais recentes -- implica disputar a narrativa. É tempo de uma contra-história de retomada, como propõe a escritora e pesquisadora indígena Trudruá Dorrico.The Conversation

Allysson Viana Martins, Professor dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (PGDRA), Universidade Federal de Rondônia (UNIR)

Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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