I
É
impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos
padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas
mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida. No entanto, ao formular
qualquer juízo geral desse tipo, corremos o risco de esquecer quão variados são
o mundo humano e sua vida mental. Existem certos homens que não contam com a
admiração de seus contemporâneos, embora a grandeza deles repouse em atributos
e realizações completamente estranhos aos objetivos e aos ideais da multidão.
Facilmente, poder-se-ia ficar inclinado a supor que, no final das contas,
apenas uma minoria aprecia esses grandes homens, ao passo que a maioria pouco se importa com eles.
Contudo, devido não só às discrepâncias existentes entre os pensamentos das
pessoas e as suas ações, como também à diversidade de seus impulsos plenos de
desejo, as coisas provavelmente não são tão simples assim.
Um desses seres excepcionais refere-se a si mesmo como meu amigo nas cartas que me remete. Enviei-lhe o meu pequeno livro que trata a religião como sendo uma ilusão, e ele me respondeu que concordava inteiramente com esse meu juízo, lamentando, porém, que eu não tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade. Esta, diz ele, consiste num sentimento peculiar, que ele mesmo jamais deixou de ter presente em si, que encontra confirmado por muitos outros e que pode imaginar atuante em milhões de pessoas. Trata-se de um sentimento que ele gostaria de designar como uma sensação de ‘eternidade’, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – ‘oceânico’, por assim dizer. Esse sentimento, acrescenta, configura um fato puramente subjetivo, e não um artigo de fé; não traz consigo qualquer garantia de imortalidade pessoal, mas constitui a fonte da energia religiosa de que se apoderam as diversas Igrejas e sistemas religiosos, é por eles veiculado para canais específicos e, indubitavelmente, também por eles exaurido. Acredita ele que uma pessoa, embora rejeite toda crença e toda ilusão, pode corretamente chamar-se a si mesma de religiosa com fundamento apenas nesse sentimento oceânico.As opiniões expressas por esse amigo que tanto respeito, e que outrora já louvara a magia da ilusão num poema, causaram-me não pequena dificuldade. Não consigo descobrir em mim esse sentimento ‘oceânico’. Não é fácil lidar cientificamente com sentimentos. Pode-se tentar descrever os seus sinais fisiológicos. Onde isso não é possível – e temo que também o sentimento oceânico desafie esse tipo de caracterização –, nada resta senão cair no conteúdo ideacional que, de forma mais imediata, está associado ao sentimento. Se compreendi corretamente o meu amigo, ele quer significar, com esse sentimento, a mesma coisa que o consolo oferecido por um dramaturgo original e um tanto excêntrico ao seu herói que enfrenta uma morte auto-infligida: ‘Não podemos pular para fora deste mundo.Isso equivale a dizer que se trata do sentimento de um vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo. Posso observar que, para mim, isto parece, antes, algo da natureza de uma percepção intelectual, que, na verdade, pode vir acompanhada de um tom de sentimento, embora apenas da forma como este se acharia presente em qualquer outro ato de pensamento de igual alcance. Segundo minha própria experiência, não consegui convencer-me da natureza primária desse sentimento; isso, porém, não me dá o direito de negar que ele de fato ocorra em outras pessoas. A única questão consiste em verificar se está sendo corretamente interpretado e se deve ser encarado como a fons et origo de toda a necessidade de religião.
Nada
tenho a sugerir que possa exercer influência decisiva na solução desse
problema. A idéia de os homens receberem uma indicação de sua vinculação
com o mundo que os cerca por meio de um sentimento imediato que, desde o
início, é dirigido para esse fim, soa
de modo tão estranho e se ajusta tão mal ao contexto de nossa psicologia, que
se torna justificável a tentativa de descobrir uma explicação psicanalítica –
isto é, genética – para esse sentimento. A linha de pensamento que se segue,
sugere isso por si mesma. Normalmente, não nada de que possamos estar mais
certos do que do sentimento de nosso eu, do nosso próprio ego. O ego nos
aparece como algo autônomo e unitário, distintamente demarcado de tudo o mais.
Ser essa aparência enganadora – apesar
de que, pelo contrário, o ego seja continuado para dentro, sem qualquer
delimitação nítida, por uma entidade mental inconsciente que designamos como id, à qual o ego serve como
uma espécie de fachada –, configurou uma descoberta efetuada pela primeira vez através
da pesquisa psicanalítica, que, de resto, ainda deve
ter muito mais a nos dizer
sobre o relacionamento do ego com o id. No sentido do exterior, porém, o
ego de qualquer modo, parece manter linhas de demarcação bem e claras e
nítidas. Há somente um estado – indiscutivelmente
fora o comum, embora não possa estigmatizado como patológico – em que ele não
se apresenta assim. No auge do sentimento de amor, a fronteira entre ego e
objeto ameaça desaparecer.Contra todas as provas de seus sentidos, um homem que
se ache enamorado declara que ‘eu’ e ‘tu’ são um só, e está preparado para se
conduzir como se isso constituísse um fato. Aquilo que pode ser temporariamente
eliminado por uma função fisiológica [isto é, normal] deve também,
naturalmente, estar sujeito a perturbações causadas por processos patológicos.
A patologia nos familiarizou com grande
número de estados em que as linhas
fronteiriças entre o ego e o mundo externo se tornam incertas, ou nos
quais, na realidade, elas se acham incorretamente traçadas. Há casos em que
partes do próprio corpo de uma pessoa, inclusive partes de sua própria vida
mental – suas percepções, pensamentos e sentimentos –, lhe parecem estranhas e
como não pertencentes a seu ego; há outros casos
em que a pessoa atribui ao mundo externo coisas que claramente se originam em seu próprio
ego e que por este deveriam ser reconhecidas.
Assim, até mesmo o sentimento de nosso próprio ego está sujeito a distúrbios, e
as fronteiras do ego não são permanentes.
Uma reflexão mais apurada nos diz que o sentimento do ego do adulto não pode ter sido o mesmo desde o início. Deve ter passado por um processo de desenvolvimento, que, se não pode ser demonstrado, pode ser construído com um razoável grau de probabilidade. Uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos. Ela deve ficar fortemente impressionada pelo fato de certas fontes de excitação, que posteriormente identificará como sendo os seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações a qualquer momento, ao passo que, de tempos em tempos, outras fontes lhe fogem – entre as quais se destaca a mais desejada de todas, o seio da mãe –, só reaparecendo como resultado de seus gritos de socorro. Desse modo, pela primeira vez, o ego é contrastado por um ‘objeto’, sob a forma de algo que existe ‘exteriormente’ e que só é forçado a surgir através de uma ação especial. Um outro incentivo para o desengajamento do ego com relação à massa geral de sensações – isto é, para o reconhecimento de um ‘exterior’, de um mundo externo – é proporcionado pelas freqüentes, múltiplas e inevitáveis sensações de sofrimento e desprazer, cujo afastamento e cuja fuga são impostos pelo princípio do prazer, no exercício de seu irrestrito domínio. Surge, então, uma tendência a isolar do ego tudo que pode tornar-se fonte de tal desprazer, a lançá-lo para fora e a criar um puro ego em busca de prazer, que sofre o confronto de um ‘exterior’ estranho e ameaçador. As fronteiras desse primitivo ego em busca de prazer não podem fugir a uma retificação através da experiência. Entretanto, algumas das coisas difíceis de serem abandonadas, por proporcionarem prazer, são, não ego, mas objeto, e certos sofrimentos que se procura extirpar mostram-se inseparáveis do ego, por causa de sua origem interna. Assim, acaba-se por aprender um processo através do qual, por meio de uma direção deliberada das próprias atividades sensórias e de uma ação muscular apropriada, se pode diferenciar entre o que é interno – ou seja, que pertence ao ego – e o que é externo – ou seja, que emana do mundo externo. Desse modo, dá- se o primeiro passo no sentido da introdução do princípio da realidade, que deve dominar o desenvolvimento futuro. Essa diferenciação, naturalmente, serve à finalidade prática de nos capacitar para a defesa contra sensações de desprazer que realmente sentimos ou pelas quais somos ameaçados. A fim de desviar certas excitações desagradáveis que surgem do interior, o ego não pode utilizar senão os métodos que utiliza contra o desprazer oriundo do exterior, e este é o ponto de partida de importantes distúrbios patológicos.Desse modo, então, o ego se separa do mundo externo. Ou, numa expressão mais correta, originalmente o ego inclui tudo; posteriormente, separa, de si mesmo, um mundo externo. Nosso presente sentimento do ego não passa, portanto, de apenas um mirrado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo – na verdade, totalmente abrangente –, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. Supondo que há muitas pessoas em cuja vida mental esse sentimento primário do ego persistiu em maior ou menor grau, ele existiria nelas ao lado do sentimento do ego mais estrito e mais nitidamente demarcado da maturidade, como uma espécie de correspondente seu. Nesse caso, o conteúdo ideacional a ele apropriado seria exatamente o de ilimitabilidade e o de um vínculo com o universo – as mesmas idéias com que meu amigo elucidou o sentimento ‘oceânico’.
Contudo, terei eu o direito de presumir a sobrevivência de algo que já se encontrava originalmente lá, lado a lado com o que posteriormente dele se derivou? Sem dúvida, sim. Nada existe de estranho em tal fenômeno, tanto no campo mental como em qualquer outro. No reino animal, atemo-nos à opinião de que as espécies mais altamente desenvolvidas se originaram das mais baixas; no entanto, ainda hoje, encontramos em existência todas as formas simples. A raça dos grandes sáurios se extinguiu e abriu caminho para os mamíferos; o crocodilo, porém, legítimo representante dos sáurios, ainda vive entre nós. Essa analogia pode ser excessivamente remota, além de debilitada pela circunstância de as espécies inferiores sobreviventes não serem, em sua maioria, os verdadeiros ancestrais das espécies mais altamente desenvolvidas dos dias atuais. Via de regra, os elos intermediários extinguiram-se, e só os conhecemos através de reconstruções. No domínio da mente, por sua vez, o elemento primitivo se mostra tão comumente preservado, ao lado da versão transformada que dele surgiu, que se faz desnecessário fornecer exemplos como prova. Quando isso ocorre, é geralmente em conseqüência de uma divergência no desenvolvimento: determinada parte (no sentido quantitativo) de uma atitude ou de um impulso instintivo permaneceu inalterada, ao passo que outra sofreu um desenvolvimento ulterior.
Esse fato nos conduz ao problema mais geral da preservação na esfera da mente. O assunto mal foi estudado ainda, mas é tão atraente e importante, que nos será permitido voltarmos um pouco nossa atenção para ele, ainda que nossa desculpa seja insuficiente. Desde que superamos o erro de supor que o esquecimento com que nos achamos familiarizados significava a destruição do resíduo mnêmico – isto é, a sua aniquilação –, ficamos inclinados a assumir o ponto de vista oposto, ou seja, o de que, na vida mental, nada do que uma vez se formou pode perecer – o de que tudo é, de alguma maneira, preservado e que, em circunstâncias apropriadas (quando, por exemplo, a regressão volta suficientemente atrás), pode ser trazido de novo à luz. Tentemos apreender o que essa suposição envolve, estabelecendo uma analogia com outro campo. Escolheremos como exemplo a história da Cidade Eterna. Os historiadores nos dizem que a Roma mais antiga foi a Roma Quadrata, uma povoação sediada sobre o Palatino. Seguiu-se a fase dos Septimontium, uma federação das povoações das diferentes colinas; depois, veio a cidade limitada pelo Muro de Sérvio e, mais tarde ainda, após todas as transformações ocorridas durante os períodos da república e dos primeiros césares, a cidade que o imperador Aureliano cercou com as suas muralhas. Não acompanharemos mais as modificações por que a cidade passou; perguntar-nos-emos, porém, o quanto um visitante, que imaginaremos munido do mais completo conhecimento histórico e topográfico, ainda pode encontrar, na Roma de hoje, de tudo que restou dessas primeiras etapas. À exceção de umas poucas brechas, verá o Muro de Aureliano quase intacto. Em certas partes, poderá encontrar seções do Muro de Sérvio que foram escavadas e trazidas à luz. Se souber bastante – mais do que a arqueologia atual conhece –, talvez possa traçar na planta da cidade todo o perímetro desse muro e o contorno da Roma Quadrata. Dos prédios que outrora ocuparam essa antiga área, nada encontrará, ou, quando muito, restos escassos, já que não existem mais. No máximo, as melhores informações sobre a Roma da era republicana capacitariam-no apenas a indicar os locais em que os templos e edifícios públicos daquele período se erguiam. Seu sítio acha-se hoje tomado por ruínas, não pelas ruínas deles próprios, mas pelas de restaurações posteriores, efetuadas após incêndios ou outros tipos de destruição. Também faz-se necessário observar que todos esses remanescentes da Roma antiga estão mesclados com a confusão de uma grande metrópole, que se desenvolveu muito nos últimos séculos, a partir da Renascença. Sem dúvida, já não há nada que seja antigo, enterrado no solo da cidade ou sob os edifícios modernos. Este é o modo como se preserva o passado em sítios históricos como Roma. Permitam-nos agora, num vôo da imaginação, supor que Roma não é uma habitação humana, mas uma entidade psíquica, com um passado semelhantemente longo e abundante – isto é, uma entidade onde nada do que outrora surgiu desapareceu e onde todas as fases anteriores de desenvolvimento continuam a existir, paralelamente à última. Isso significaria que, em Roma, os palácios dos césares e as Septizonium de Sétimo Severo ainda se estariam erguendo em sua antiga altura sobre o Palatino e que o castelo de Santo Ângelo ainda apresentaria em suas ameias as belas estátuas que o adornavam até a época do cerco pelos godos, e assim por diante. Mais do que isso: no local ocupado pelo Palazzo Cafarelli, mais uma vez se ergueria – sem que o Palazzo tivesse de ser removido – o Templo de Júpiter Capitolino, não apenas em sua última forma, como os romanos do Império o viam, mas também na primitiva, quando apresentava formas etruscas e era ornamentado por antefixas de terracota. Ao mesmo tempo, onde hoje se ergue o Coliseu, poderíamos admirar a desaparecida Casa Dourada, de Nero. Na Praça do Panteão encontraríamos não apenas o atual, tal como legado por Adriano, mas, aí mesmo, o edifício original levantado por Agripa; na verdade, o mesmo trecho de terreno estaria sustentando a Igreja de Santa Maria sobre Minerva e o antigo templo sobre o qual ela foi construída. E talvez o observador tivesse apenas de mudar a direção do olhar ou a sua posição para invocar uma visão ou a outra.
A
essa altura não faz sentido prolongarmos nossa fantasia, de uma vez que ela conduz a coisas inimagináveis e mesmo absurdas. Se quisermos representar a seqüência histórica em termos
espaciais, só conseguiremos fazê-lo pela justaposição no espaço: o mesmo espaço
não pode ter dois conteúdos diferentes. Nossa tentativa parece ser um jogo
ocioso. Ela conta com apenas uma justificativa. Mostra quão longe estamos de
dominar as características da vida mental através de sua representação em
termos pictóricos.
Há
outra objeção a ser considerada. Pode-se levantar a questão da razão por que
escolhemos precisamente o passado de uma cidade para compará-lo com o passado
da mente. A suposição de que tudo o que passou é preservado se aplica, mesmo na
vida mental, só com a condição de que o órgão da mente tenha permanecido
intacto e que seus tecidos não tenham sido danificados por trauma ou
inflamação. Mas influências destrutivas que possam ser comparadas a causas de enfermidade como as
citadas acima nunca faltam na
história de uma cidade, ainda que tenha tido um passado menos diversificado que
o de Roma, e ainda que, como Londres, mal tenha sofrido com as visitas de um
inimigo. Demolições e substituições de prédios ocorrem no decorrer do mais
pacífico desenvolvimento de uma cidade.
Uma cidade é, portanto,
a priori, inapropriada para uma comparação desse tipo com um organismo mental.
Curvamo-nos
ante essa objeção e, abandonando nossa tentativa de esboçar um contraste
impressivo, nos voltaremos para o que, afinal de contas, constitui um objeto de
comparação mais estreitamente relacionado: o corpo de um animal ou o de um ser
humano. Aqui também, no entanto, encontramos a mesma coisa. As primeiras fases
do desenvolvimento já não se acham,
em sentido algum, preservadas;
foram absorvidas pelas fases
posteriores, às quais
forneceram material. O embrião não pode
ser descoberto no adulto. A glândula do timo da infância, sendo substituída,
após a puberdade, por tecidos de ligação, não mais se apresenta como tal; nas medulas ósseas do homem adulto
posso, sem dúvida, traçar o contorno do osso infantil, embora este tenha desaparecido, alongando-se e espessando-se até atingir sua forma
definitiva. Permanecem o fato de que só na mente é possível a preservação de
todas as etapas anteriores, lado a lado com a forma final, e o de que não
estamos em condições de representar esse fenômeno em termos pictóricos.
Talvez estejamos levando longe demais essa reflexão. Talvez devêssemos
contentar- nos em afirmar que o que se passou na vida mental pode ser
preservado, não sendo, necessariamente, destruído. É sempre possível que, mesmo
na mente, algo do que é antigo seja apagado ou absorvido – quer no curso normal das coisas, quer como
exceção – a tal ponto, que não possa ser restaurado nem revivescido por meio
algum, ou que a preservação em geral dependa de certas condições favoráveis. É
possível, mas nada sabemos a esse respeito. Podemos apenas prender-nos ao fato
de ser antes regra, e não exceção, o passado achar-se preservado na vida
mental.
Assim,
estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento ‘oceânico’ existe
em muitas pessoas, e nos inclinamos a fazer sua origem remontar a uma fase
primitiva do sentimento do ego. Surge então uma nova questão: que direito tem
esse sentimento de ser considerado como a fonte das necessidades religiosas.
Esse
direito não me parece obrigatório. Afinal de contas, um sentimento só poderá
ser fonte de energia se ele próprio for
expressão de uma necessidade intensa. A derivação das necessidades religiosas, a partir do
desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta,
parece-me incontrovertível, desde que, em particular,
o sentimento não seja simplesmente prolongado
a partir dos dias da infância, mas
permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo
pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento
oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo
ilimitado, é deslocado de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude
religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de
desamparo infantil. Pode haver algo mais por
trás disso, mas, presentemente, ainda está envolto em
obscuridade.
Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. A ‘unidade com o universo’, que constitui seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo. Permitam-me admitir mais uma vez que para mim é muito difícil trabalhar com essas quantidades quase intangíveis. Outro amigo meu, cuja insaciável vontade de saber o levou a realizar as experiências mais inusitadas, acabando por lhe dar um conhecimento enciclopédico, assegurou-me que, através das práticas de ioga, pelo afastamento do mundo, pela fixação da atenção nas funções corporais e por métodos peculiares de respiração, uma pessoa pode de fato evocar em si mesma novas sensações e cenestesias, consideradas estas como regressões a estados primordiais da mente que há muito tempo foram recobertos. Ele vê nesses estados uma base, por assim dizer fisiológica, de grande parte da sabedoria do misticismo. Não seria difícil descobrir aqui vinculações com certo número de obscuras modificações da vida mental, tais como os transes e os êxtases. Contudo, sou levado a exclamar, como nas palavras do mergulhador de Schiller: ‘...Es freue sich, Wer da atmet im rosigten Licht.’
II
Em
meu trabalho O Futuro de uma Ilusão [1927c],
estava muito menos interessado nas fontes mais profundas do sentimento
religioso do que naquilo que o homem comum entende como sua religião – o
sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas
deste mundo com perfeição invejável, e que, por outro, lhe garantem que uma
Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência
futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui. O homem comum só pode imaginar essa Providência
sob a figura de um pai ilimitadamente engrandecido. Apenas um
ser desse tipo pode compreender as necessidades dos filhos dos homens,
enternecer-se com suas preces e aplacar-se com os sinais de seu remorso. Tudo é
tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa
que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que
a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida.
Mais humilhante ainda é descobrir como é vasto o número de pessoas de hoje que
não podem deixar de perceber que essa religião é insustentável e, não obstante
isso, tentam defendê-la, item por item, numa série de lamentáveis atos
retrógrados. Gostaríamos de nos mesclar às fileiras dos crentes, a fim de encontrarmos aqueles
filósofos que consideram poder salvar o Deus da religião,
substituindo-o por um princípio impessoal, obscuro e abstrato, e
dirigirmos-lhes as seguintes palavras de advertência: ‘Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão!’
E, se alguns dos grandes homens do passado agiram da mesma maneira, de modo nenhum
se pode invocar seu exemplo: sabemos por que foram obrigados a isso.
Retornemos
ao homem comum e à sua religião, a única que deveria levar esse nome. A
primeira coisa em que pensamos é na bem conhecida expressão de um de nossos
maiores poetas e pensadores, referindo-se à relação
da religião com a arte e a ciência:
Wer
Wissenschaft und Kunst besitzt, hat auch Religion; Wer jene beide nicht
besitzt, der habe Religion!
Esses dois versos, por um lado, traçam uma antítese entre a religião e as duas mais altas realizações do homem, e, por outro, asseveram que, com relação ao seu valor na vida, essas realizações e a religião podem representar-se ou substituir-se mutuamente. Se também nos dispusermos a privar o homem comum [que não possui nem ciência nem arte] de sua religião, é claro que não teremos de nosso lado a autoridade do poeta. Escolheremos um caminho específico para nos aproximarmos mais de uma justa apreciação de suas palavras. A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. ‘Não podemos passar sem construções auxiliares’, diz-nos Theodor Fontane. Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável. Voltaire tinha os derivativos em mente quando terminou Candide com o conselho para cultivarmos nosso próprio jardim, e a atividade científica constitui também um derivativo dessa espécie. As satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste com a realidade; nem por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao papel que a fantasia assumiu na vida mental. As substâncias tóxicas influenciam nosso corpo e alteram a sua química. Não é simples perceber onde a religião encontra o seu lugar nessa série. Temos de pesquisar mais adiante.
A
questão do propósito da vida humana já foi levantada várias vezes; nunca,
porém, recebeu resposta satisfatória e talvez não a admita. Alguns daqueles que a formularam acrescentaram que, se fosse
demonstrado que a vida não tem propósito, esta
perderia todo valor para eles. Tal ameaça,
porém, não altera nada. Pelo contrário,
faz parecer que temos o direito de descartar a questão, já que ela parece
derivar da presunção humana, da qual muitas outras manifestações já nos são familiares.
Ninguém fala sobre o propósito da vida dos animais, a menos, talvez, que
se imagine que ele resida no fato de os animais se acharem a serviço do homem.
Contudo, tampouco essa opinião é sustentável, de uma vez que existem muitos
animais de que o homem nada pode se aproveitar, exceto descrevê-los,
classificá-los e estudá-los; ainda assim, inumeráveis espécies de animais
escaparam inclusive a essa utilização, pois existiram e se extinguiram antes
que o homem voltasse seus olhos para elas. Mais uma vez, só a religião é capaz
de resolver a questão do propósito da vida. Dificilmente incorreremos em erro
ao concluirmos que a idéia de a vida possuir um propósito se forma e desmorona
com o sistema religioso.Voltar-nos-emos, portanto, para uma questão menos
ambiciosa, a que se refere àquilo que os próprios homens, por seu
comportamento, mostram ser o propósito e a intenção de suas vidas. O que pedem
eles da vida e o que desejam nela
realizar? A resposta mal pode provocar dúvidas. Esforçam-se para obter
felicidade; querem ser felizes e assim permanecer. Essa empresa apresenta dois
aspectos: uma meta positiva e uma meta negativa. Por um lado, visa a uma
ausência de sofrimento e de desprazer; por outro, à experiência de intensos
sentimentos de prazer. Em seu sentido mais restrito, a palavra ‘felicidade’ só
se relaciona a esses últimos. Em conformidade a essa dicotomia de objetivos, a
atividade do homem se desenvolve em duas direções, segundo busque realizar – de
modo geral ou mesmo exclusivamente – um ou outro desses objetivos.
Como
vemos, o que decide o propósito da vida é simplesmente
o programa do princípio do
prazer. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o
início. Não pode haver dúvida sobre sua eficácia, ainda que o seu programa se
encontre em desacordo com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas
do universo são-lhe contrárias. Ficamos inclinados a dizer que a
intenção de que o homem seja ‘feliz’ não se acha incluída no plano da
‘Criação’. O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito provém da
satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau,
sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica.
Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue. Somos feitos de modo a só
podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um
determinado estado de coisas.
Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes.
Não admira que, sob a pressão de todas essas possibilidades de sofrimento, os homens se tenham acostumado a moderar suas reivindicações de felicidade – tal como, na verdade, o próprio princípio do prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou no mais modesto princípio da realidade –, que um homem pense ser ele próprio feliz, simplesmente porque escapou à infelicidade ou sobreviveu ao sofrimento, e que, em geral, a tarefa de evitar o sofrimento coloque a de obter prazer em segundo plano. A reflexão nos mostra que é possível tentar a realização dessa tarefa através de caminhos muito diferentes e que todos esses caminhos foram recomendados pelas diversas escolas de sabedoria secular e postos em prática pelos homens. Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresenta-se-nos como o método mais tentador de conduzir nossas vidas; isso, porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo o seu próprio castigo. Os outros métodos, em que a fuga do desprazer constitui o intuito primordial, diferenciam-se de acordo com a fonte de desprazer para a qual sua atenção está principalmente voltada. Alguns desses métodos são extremados; outros, moderados; alguns são unilaterais; outros atacam o problema, simultaneamente, em diversos pontos. Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras pessoas. A felicidade passível de ser conseguida através desse método é, como vemos, a felicidade da quietude. Contra o temível mundo externo, só podemos defender-nos por algum tipo de afastamento dele, se pretendermos solucionar a tarefa por nós mesmos. Há, é verdade, outro caminho, e melhor: o de tornar-se membro da comunidade humana e, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência, passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade humana. Trabalha-se então com todos para o bem de todos. Contudo, os métodos mais interessantes de evitar o sofrimento são os que procuram influenciar o nosso próprio organismo. Em última análise, todo sofrimento nada mais é do que sensação; só existe na medida em que o sentimos, e só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo está regulado.O mais grosseiro, embora também o mais eficaz, desses métodos de influência é o químico: a intoxicação. Não creio que alguém compreenda inteiramente o seu mecanismo; é fato, porém, que existem substâncias estranhas, as quais, quando presentes no sangue ou nos tecidos, provocam em nós, diretamente, sensações prazerosas, alterando, também, tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade, que nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis. Os dois efeitos não só ocorrem de modo simultâneo, como parecem estar íntima e mutuamente ligados. No entanto, é possível que haja substâncias na química de nossos próprios corpos que apresentem efeitos semelhante pois conhecemos pelo menos um estado patológico, a mania, no qual uma condição semelhante à intoxicação surge sem administração de qualquer droga intoxicante. Além disso, nossa vida psíquica normal apresenta oscilações entre uma liberação de prazer relativamente fácil e outra comparativamente difícil, paralela à qual ocorre uma receptividade, diminuída ou aumentada, ao desprazer. É extremamente lamentável que até agora esse lado tóxico dos processos mentais tenha escapado ao exame científico. O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio desse ‘amortecedor de preocupações’, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade. Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos. São responsáveis, em certas circunstâncias, pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser empregada para o aperfeiçoamento do destino humano.
A
complicada estrutura de nosso aparelho mental admite, contudo, um grande número
de outras influências. Assim como a satisfação do instinto equivale para nós
à felicidade, assim também um grave sofrimento surge em nós, caso o mundo
externo nos deixe definhar, caso se recuse a satisfazer nossas necessidades.
Podemos, portanto, ter esperanças de nos libertarmos de uma parte de nossos
sofrimentos, agindo sobre os impulsos instintivos. Esse tipo de defesa contra o
sofrimento se aplica mais ao aparelho sensorial; ele procura dominar as fontes internas de nossas necessidades. A forma extrema disso é ocasionada pelo
aniquilamento dos instintos, tal como prescrito pela sabedoria do mundo
peculiar ao Oriente e praticada pelo ioga. Caso obtenha êxito, o indivíduo, é
verdade, abandona também todas as outras atividades: sacrifica a sua vida e, por
outra via, mais uma vez atinge apenas a
felicidade da quietude. Seguimos o mesmo caminho quando os nossos objetivos são
menos extremados e simplesmente tentamos controlar nossa vida instintiva. Nesse
caso, os elementos controladores são
os agentes psíquicos superiores, que se sujeitaram ao princípio da realidade.
Aqui, a meta da satisfação não é, de modo algum,
abandonada, mas garante-se uma certa proteção contra o sofrimento no sentido de que a não-satisfação não é tão
penosamente sentida no caso dos instintos mantidos sob dependência como no caso
dos instintos desinibidos. Contra isso, existe uma inegável diminuição nas potencialidades de satisfação. O sentimento de felicidade derivado da satisfação de um
selvagem impulso instintivo não domado pelo ego é incomparavelmente mais intenso
do que o derivado da satisfação de um instinto que já foi domado. A
irresistibilidade dos instintos perversos e, talvez, a atração geral pelas
coisas proibidas encontram aqui uma explicação econômica.
Outra técnica para afastar o sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso aparelho mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade. A tarefa aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração do mundo externo. Para isso, ela conta com a assistência da sublimação dos instintos. Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual. Quando isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós. Uma satisfação desse tipo, como, por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo às suas fantasias, ou a do cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades, possui uma qualidade especial que, sem dúvida, um dia poderemos caracterizar em termos metapsicológicos. Atualmente, apenas de forma figurada podemos dizer que tais satisfações parecem ‘mais refinadas e mais altas’. Contudo, sua intensidade se revela muito tênue quando comparada com a que se origina da satisfação de impulsos instintivos grosseiros e primários; ela não convulsiona o nosso ser físico. E o ponto fraco desse método reside em não ser geralmente aplicável, de uma vez que só é acessível a poucas pessoas. Pressupõe a posse de dotes e disposições especiais que, para qualquer fim prático, estão longe de serem comuns. E mesmo para os poucos que os possuem, o método não proporciona uma proteção completa contra o sofrimento. Não cria uma armadura impenetrável contra as investidas do destino e habitualmente falha quando a fonte do sofrimento é o próprio corpo da pessoa.Enquanto esse procedimento já mostra claramente uma intenção de nos tornar independentes do mundo externo pela busca da satisfação em processos psíquicos internos, o procedimento seguinte apresenta esses aspectos de modo ainda mais intenso. Nele, a distensão do vínculo com a realidade vai mais longe; a satisfação é obtida através de ilusões, reconhecidas como tais, sem que se verifique permissão para que a discrepância entre elas e a realidade interfira na sua fruição. A região onde essas ilusões se originam é a vida da imaginação; na época em que o desenvolvimento do senso de realidade se efetuou, essa região foi expressamente isentada das exigências do teste de realidade e posta de lado a fim de realizar desejos difíceis de serem levados a termo. À frente das satisfações obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores. As pessoas receptivas à influência da arte não lhe podem atribuir um valor alto demais como fonte de pra zer e consolação na vida. Não obstante, a suave narcose a que a arte nos induz, não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das pressões das necessidades vitais, não sendo suficientemente forte para nos levar a esquecer a aflição real.
Um
outro processo opera de modo mais energético e completo. Considera a realidade
como a única inimiga e a fonte de todo sofrimento, com a qual é impossível
viver, de maneira que, se quisermos ser de algum modo felizes, temos de romper
todas as relações com ela. O eremita rejeita
o mundo e não quer saber de tratar com ele. Pode- se, porém, fazer mais do que isso;
pode-se tentar recriar o mundo, em seu lugar construir
um outro mundo, no qual os
seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e
substituídos por outros mais adequados a nossos próprios desejos. Mas quem quer
que, numa atitude de desafio desesperado, se lance por este caminho em busca da felicidade, geralmente não chega a nada. A realidade é demasiado forte para
ele. Torna-se um louco; alguém que, a maioria das vezes, não encontra ninguém
para ajudá-lo a tornar real o seu delírio. Afirma-se, contudo, que cada um de nós se
comporta, sob determinado aspecto, como um paranóico, corrige algum
aspecto do mundo que lhe é insuportável pela elaboração de um desejo e introduz
esse delírio na realidade. Concede-se especial importância ao caso em que a
tentativa de obter uma certeza de felicidade
e uma proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da realidade, é efetuada em comum
por um considerável número de pessoas. As religiões da humanidade devem ser
classificadas entre os delírios de massa desse tipo. É desnecessário dizer que
todo aquele que partilha um delírio jamais o reconhece como tal.
Não pretendo ter feito uma enumeração completa dos métodos pelos quais os homens se esforçam para conseguir a felicidade e manter afastado o sofrimento; sei também que o material poderia ter sido diferentemente disposto. Ainda não mencionei um processo – não por esquecimento, mas porque nos interessará mais tarde, em relação a outro assunto. E como se poderia esquecer, entre todas as outras, a técnica da arte de viver? Ela se faz visível por uma notável combinação de aspectos característicos. Naturalmente, visa também a tornar o indivíduo independente do Destino (como é melhor chamá-lo) e, para esse fim, localiza a satisfação em processos mentais internos, utilizando, ao proceder assim, a deslocabilidade da libido que já mencionamos,ver [[1]]. Mas ela não volta as costas ao mundo externo; pelo contrário, prende-se aos objetos pertencentes a esse mundo e obtém felicidade de um relacionamento emocional com eles. Tampouco se contenta em visar a uma fuga do desprazer, uma meta, poderíamos dizer, de cansada resignação; passa por ela sem lhe dar atenção e se aferra ao esforço original e apaixonado em vista de uma consecução completa da felicidade. Na realidade, talvez se aproxime mais dessa meta do que qualquer outro método. Evidentemente, estou falando da modalidade de vida que faz do amor o centro de tudo, que busca toda satisfação em amar e ser amado. Uma atitude psíquica desse tipo chega de modo bastante natural a todos nós; uma das formas através da qual o amor se manifesta – o amor sexual – nos proporcionou nossa mais intensa experiência de uma transbordante s ensação de prazer, fornecendo-nos assim um modelo para nossa busca da felicidade. Há, porventura, algo mais natural do que persistirmos na busca da felicidade do modo como a encontramos pela primeira vez? O lado fraco dessa técnica de viver é de fácil percepção, pois, do contrário, nenhum ser humano pensaria em abandonar esse caminho da felicidade por qualquer outro. É que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor. Isso, porém, não liquida com a técnica de viver baseada no valor do amor como um meio de obter felicidade. Há muito mais a ser dito a respeito. [Ver [1]].
Daqui
podemos passar à consideração do interessante caso em que a felicidade na vida
é predominantemente buscada na fruição da beleza, onde quer que esta se
apresente a nossos sentidos e a nosso julgamento – a beleza das formas e a dos
gestos humanos, a dos objetos naturais e das paisagens e a das criações
artísticas e mesmo científicas. A atitude estética em relação ao objetivo da
vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, embora possa
compensá-lo bastante. A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de
sentimento, tenuemente intoxicante. A beleza não
conta com um emprego evidente; tampouco existe claramente qualquer necessidade cultural sua. Apesar
disso, a civilização não pode dispensá-la. Embora a ciência da estética
investigue as condições sob as quais as coisas são sentidas como belas, tem
sido incapaz de fornecer qualquer explicação a respeito da natureza e da origem
da beleza, e, tal como geralmente acontece, esse insucesso vem sendo
escamoteado sob um dilúvio de palavras tão pomposas quanto ocas. A psicanálise,
infelizmente, também pouco encontrou a dizer sobre a beleza. O que parece certo
é sua derivação do campo do sentimento sexual. O amor da beleza parece um exemplo
perfeito de um impulso inibido em sua finalidade.’Beleza’ e ‘atração’ são, originalmente, atributos do objeto
sexual. Vale a pena observar que os próprios órgãos genitais, cuja visão é
sempre excitante, dificilmente são julgados belos;
a qualidade da beleza, ao contrário, parece ligar-se a certos caracteres
sexuais secundários.
A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação, desde que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais. Existem, como dissemos, muitos caminhos que podem levar à felicidade passível de ser atingida pelos homens, mas nenhum que o faça com toda segurança. Mesmo a religião não consegue manter sua promessa. Se, finalmente, o crente se vê obrigado a falar dos ‘desígnios inescrutáveis’ de Deus, está admitindo que tudo que lhe sobrou, como último consolo e fonte de prazer possíveis em seu sofrimento, foi uma submissão incondicional. E, se está preparado para isso, provavelmente poderia ter-se poupado o détour que efetuou.
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