sábado, 15 de novembro de 2025

Menino não protegido

 

Auschwitz, novembro de 1942 — Polônia

O menino que o mundo não conseguiu proteger

Antes que o inverno endurecesse as ruas da Holanda, antes que a fumaça dos trilhos apagasse a infância, havia apenas um menino chamado Benjamin Raphaël Pais. Ele nasceu em 8 de novembro de 1934, em Harlingen — uma cidade pequena o bastante para que todos conhecessem o riso de uma criança, grande o suficiente para que o futuro pudesse parecer seguro.

Benjamin corria pelas calçadas com sua irmã Jansje, as mãos sujas de giz, os sapatos gastos de brincar. Sua mãe, Roosje, guardava um amor silencioso e profundo, desses que compensam todas as tristezas do mundo. À noite, ela lhe contava histórias de luzes que nunca se apagavam, de anjos que caminhavam ao lado dos vivos. Benjamin acreditava. Era fácil acreditar quando se tinha apenas oito anos e o mundo ainda parecia inteiro.

Mas em 1942, nada permaneceu inteiro.

Quando bateram à porta, não foi o destino — foi o Estado. E não vieram buscar apenas pessoas, mas futuros. Terrivelmente calados, Benjamin, sua irmã e a mãe foram colocados em um trem rumo ao leste. O ar era frio, cortante. As janelas eram grades improvisadas. O vagão, uma prisão que avançava sobre trilhos.

Benjamin segurou a mão de Roosje com tanta força que seus dedos ficaram brancos. Ele não entendia por que outros choravam, por que ninguém podia sair, por que as histórias da mãe não impediam a escuridão de avançar.

Quando chegaram a Auschwitz, nada fazia sentido. Filas, gritos, separações. A infância de Benjamin terminou ali — não por escolha, mas por decreto.

A fila de seleção era uma sentença pronunciada sem palavras. Um gesto de cabeça, uma mão erguida. À esquerda: trabalho. À direita: morte. Para crianças, quase sempre, a direita.

Benjamin foi levado com a irmã e a mãe. Não houve despedida. Não houve explicação. A câmara de gás apagou três vidas que deveriam ter florescido — vidas cheias de páginas em branco.

Mas o que não pôde ser vivido permanece na memória dos que testemunham.

Benjamin não teve adolescência, nem primeira queda de dente guardada numa caixa, nem as histórias que inventaria aos próprios filhos um dia. Ainda assim, o mundo se recusa a deixá-lo desaparecer. Ele vive nas fotos em preto e branco, nos registros preservados, na lembrança daqueles que recusam o esquecimento.

Lembrar Benjamin é reconstruir, por um instante, o que o ódio tentou destruir.
É dizer ao tempo que ele não venceu.
É afirmar que nenhuma criança — jamais — deveria ter seu destino decidido por mãos que negam a humanidade.

A história de Benjamin Raphaël Pais continua.
Porque toda vez que seu nome é dito, ele volta a existir.

E na vastidão silenciosa de Auschwitz, entre as ruínas e o vento que passa, sua memória ainda brilha — frágil, breve, mas eterna.

Ver na net:

Nenhum comentário:

Postar um comentário