domingo, 30 de novembro de 2025

Hilário

 

 ELEGÂNCIA DE HILÁRIO E A ARTE DE SER FELIZ!*

Havia, na Primeira Igreja Congregacional de Niterói, um desses personagens que o tempo não apaga: Hilário. Negro, alto, esbelto e forte,

Hilário era gari, mas executava seu ofício com a alma de um artista.

Para ele, o asfalto e as calçadas não eram apenas lixo e sujeira, mas sim um palco onde ele exercia sua maestria.

Trabalhou por mais de quarenta anos nessa atividade, elevando a função à categoria de arte.

Quando eu chegava à igreja e o pátio estava impecável, eu sabia.

A limpeza de Hilário era meticulosa, tinha o toque de alguém que não apenas cumpria uma tarefa, mas que gostava de zelar.

Era uma diferença notável em relação ao zelador da igreja; o esmero de Hilário transformava o ato de varrer e limpar num ato de devoção ao serviço, como se fosse um engenheiro ou um médico cuidando da sua obra com precisão.

Mas o que mais me chamava a atenção em Hilário não era apenas a forma como ele trabalhava, e sim a maneira como ele celebrava a vida.

Solteirão convicto, no dia do pagamento, Hilário protagonizava um ritual de pura elegância: vestia um terno bonito, a calça perfeitamente vincada e um sapato tão lustroso que refletia a luz.

Assim paramentado, ele se dirigia a um restaurante no centro de Niterói, lá no Edifício SULACAP.

Pedia um prato especial e, sozinho à mesa, conduzia sua refeição com a solenidade de um presidente em um banquete de gala.

Eu gostava de contemplar a alegria de Hilário, a satisfação que ele tinha consigo mesmo.

Ele era a prova viva de que a felicidade reside na capacidade de curtir a própria companhia e valorizar o fruto do seu trabalho.

Hoje, almoçando sozinho, o cheiro de alguma especiaria ou talvez apenas o silêncio da mesa me trouxe a lembrança de Hilário.

E, de repente, entendi a essência de sua felicidade.

Quando estamos bem conosco mesmos, a melhor companhia é, de fato, a nossa.

O brilho no sapato e o vinco na calça eram a forma que ele encontrava de dizer a si mesmo: "Você merece este banquete. Você fez um bom trabalho."

Fico imaginando Hilário agora, em algum lugar no céu, desfrutando dos banquetes eternos.

De terno impecável, sapato espelhando a glória celestial, e com o sorriso sereno de quem soube dignificar cada dia de sua vida.

Saudades, Hilário.

Sua elegância de alma e seu contentamento comigo mesmo continuam a me inspirar.

Neucir Valentim

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