terça-feira, 31 de março de 2020

50 anos de uma anágua

     As anáguas deviam ser eternas. As mães também.  Ora, quem não conhece Sepetiba?  Até meu amigo Manoel Pacífico, acreano autêntico, já veraneou por lá. 
      Nos anos 70, ah!, os anos 70. Aquelas mulheres, elameadas da ponta dos dedos dos pés até os cabelos, tratamento de pele e outros males diversos assim curados. 
   E quaradas ao sol. Nela, Sepetiba, não esqueça esse nome, e na vizinha Pedra de Guaratiba: o mesmo tratamento milagroso e o mesmo fundo de baía. 
    Nessa praia vizinha, a vista ao longe, linda, cobiçada e proibida da Restinga da Marambaia, com o acesso agora por Barra de Guaratiba, "Área Militar", acessível clandestinamente pelos barcos de pesca do camarão e outros em geral.
    Se você tomar banho de mar em Pedra de Guaratiba, água negra, daquela "lama medicinal", vai deparar camarões saltitantes ao seu redor.
   Pelo menos era assim, nos anos 70. Se você fosse pela manhã, ainda com água pela cintura, limite imposto pela previdência das mães, sentia a lama negra melada diluir-se por entre os dedos dos pés.
    Lanoso e nojento, você intuía que ela, a lama, era devassa: violava a intimidade dos teus pés, assim fazendo, parece que invadia você inteiro, como as madamas medicinais, na areia, uma lama imoral que inundava o seu ser.
    Era obrigatoriamente reflexivo caminhar pisando naquela lama. Era filosófico, até. Você se alçava, bioando, pensando ou tentando escapar. Para logo, criança, pôr o pé no chão do equilíbrio, para achá-la de novo.
    Imagina um mar desse gel ridículo que houve uma fase que inventaram como entretenimento para as crianças, um mar negro: era pior.
     Veja bem, entenda, aqui, este "pior": ninguém aqui está menosprezando Sepetiba. Mesmo porque nós e uma multidão conosco estávamos e estivemos lá. Filosófica é a lama e são as razões do afluxo mágico e veraneio dessa experiência.
      Se você fosse à tarde, maré cheia, a lama, com a areia, os tons de verde-sinistro, tudo em suspensão, mas sem a dita cuja no chão. Você pisava, era areia pura, água negra, verde-escuro, verde-musgo, verde-lama: paraíso!
    Afinal, era Sepetiba: o único afazer, no banho de maré-cheia, para a criançada, era cuspir a água areienta e elameienta que entrava na boca nos mergulhos suicidas. Com água até a cintura, somente, avisavam as mães. 
    Pois num desses dias armou o temporal, chuva de verão, daquelas imponentes e inesquecíveis. Fila quilométrica do ônibus Sepetiba-Santa Cruz. Aquele pessoal, é  claro, como desprezar uma ida a Sepetiba, num verão 70, pegando o Sepetiba-Santa Cruz? 
     Meu caro, de todo o ramal, por trem, até  Santa Cruz, de lá à orla, à barra. Era A praia. De Bangu acima, mermão, Padre Miguel que seja, Senador Camará, até Paciência, a penúltima, onde moravam meus primos, logo após Cosmos, onde residia outra irmã de meu pai, e vinha gente.
     A fila. O ônibus. Povo entrando pela janela. Eu, Dorcas, a Maninha, minha mãe, Leila, a caçula, irmã dela, com sua inseparável companheira, de sotaque e fenótipo nordestino, aguardando o típico escoamento lento e irregular de todo aquele povo bronzeado e cheirando a sal.
    Várias trovoadas já haviam avisado da borrasca, da "chuva torrencial", como dizia meu pai, que se avizinhava. Minha mãe já argumentara com Leila, mediante o quadro naquele ponto-final (parada-final, no Acre) que era melhor pernoitarem por ali mesmo, na casa emprestada, ao lado do terreno  que, até hoje, temos lá. 
     Mas a colega da Leila insistia, nada avisara à mãe, ela ficaria preocupada, o destino era Nilópolis. Sepetiba-Santa Cruz, trem até Deodoro, baldeação (que para acreano é usar balde na lavagem) em Deodoro, retornar pelo ramal de Japeri até o destino, "Cidade do Nilo".
    Anos 70. Não havia celular. Uma trovoada mais alta, decisiva, Maninha deu o ultimato, despediu-se, "Essa fila não tem boca", diria, se fosse no Acre, pegou do filho, com seus 10 anos, e pegou da estrada também.
    Ainda de asfalto mal feito, trechos de terra, ah, saudade da Sepetiba com ruas de terra, às vezes areia de praia mesmo, dunas e sítios aqui e ali. Caminhou com o menino até a entrada da rua do Clube do Recôncavo, referência para quem quisesse chegar à Alameda Sto Antonio, onde ficava a casa emprestada do vizinho.
    Não havia mais paciência, os fenômenos da natureza, em combinação, despencaram a chuva já prometida por relâmpagos, trovões e ventania. A poeirada que não ficava no chão, obrigando a virar o rosto, fechar boca e olhos e que as mulheres segurassem as saias, assentou com o despejar do dilúvio daquela tarde. 
     Foi quando. Dorcas, a mãe, apenas dobráramos na tal rua do Clube Recôncavo, chão de areia, agora sem poeira, com a chuva chovendo de todas e para todas as direções, desnecessário, porque até de baixo para cima vinha água, mas vá discutir com o instinto materno, habilíssima, Dorcas se deteve, e o menino junto a si, egueu primeiro uma perna, depois outra e sacou, incontinenti, de sua anágua.
    Com ela, envolveu minha fronte como num quadro de santa católica, instruiu que eu segurasse justo abaixo do queixo e tome chuva por todos os lados. Uns 350 m nesse estirão, varridos por vento e chuva de todas as direções, a mãe, o menino e a quase literalmente bendita anágua. 
    Santa anágua, Santa Mãe do Céu, como se diz, que temporalzão. Tão -zão assim que, daqui a pouco, chegam, mal haviam entrado mãe e menino pelo portão de madeira, ainda escancarado, vem Leila e a Marvel Vingadora Amiga inseparável, Valnira, a irmã do meio entre três, correndo, aflitas, Leila e ela, não só a chuva de todas as direções, pela ventania, não bastando relâmpagos e trovões, um estranho as perseguia.
    Pelo menos, ajudou na corrida de fundo das duas encharcadas. Mas que era estranho o homem, ele era, mas até hoje não se sabe se corria somente da chuva, fato este comemorando 50 anos de narrativa.
    E, para terminar, história neste blog já contada, por duas razões esse temporal dos anos 70, em Sepetiba, foi marcante: Leila voltou do ponto do Sepetiba-Santa Cruz, vencendo a amiga no argumento, com ajuda dos fenômenos da natureza, ao encontro de um raio, providência divina ao inverso.
     Neste país campeão de raios (que o partam), temos uma sobrevivente. Ainda bem que eu estive protegido pela anágua de Dorcas. Quem sabe, verdadeiro e legítimo para-raio de mãe.


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