sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Taxista herói - mais histórias

 

E tem o causo do antigo terraço, ali pelo Bosque, cruzamento de Mal Deodoro com uma outra rua, que não veio ao caso, por capricho da memória. Era lugar de tomar umas e rebolar alguns pagodes, vinham dois taxistas à frente de nosso herói, o primeiro não parou ao sinal do freguês, nem o segundo, nosso herói decidiu parar. “Pois é, eu disse, vou parar para esse abençoado, embora nem goste”, naquelas circunstâncias, é claro. Quais? Ainda não esclarecidas. Entrou e Baaahhhh, bateu a porta, olhei contrariado e perguntei “Para onde?” Papouco, ele disse. Para quem não sabe, Papouco ou Papoco é uma bairro, bem no centro da cidade, todo no barranco do Rio Acre, que começa e se estende além da curva que deu nome ao seringal Volta da Empresa. Para quem ainda não sabe, é um recanto onde beira rio, bosque de árvores e gente, vamos dizer, muito decidida, reside. Cheguei lá, ele desceu, eu tomei da tabela, sim, porque existe uma, e o dito cujo disse “Não vou pagar não”. Eu disse, está certo, ele abriu a porta do carro e saiu, eu pensei, meu Deus, que capeta é esse. Foi quando então puxei o freio de mão e saí do carro e me aproximei, peguei pelas golas da camisa, meio que o levantei, e lhe dei uma mãozada, que caiu meio atordoado tremendo no chão e logo perguntei: “Cadê o dinheiro que tem aí?” Ele pegou a carteira dele, assim, havia um bocado de dinheiro, eu torei o meu e lhe devolvi o restante: “Tome aí essa porcaria”. E foi ali, no Papoco, com ou sem todo esse perigo. Tomei da carteira, retirei minha parte, devolvi-lhe o restante. Como essa, há muitas histórias, muitas lembranças legais. A Praça é bom demais. Gostei muito de trabalhar na Praça. Essa e muitas outras histórias. Bom demais. Você conhece muitas pessoas, muitas amizades. Nos finais de semana, que havia festas, sexta, sábado, domingo, nos finais de semana, eu começava a trabalhar de manhã cedo, rodava até umas 12h, 1h da tarde, vinha a casa, almoçava e tirava um sono de 3h então sapecava dentro do carro e somente chegava no outro dia. Eu era de menor, por volta de 1982, nem carteira tinha quando comecei na Praça. Comprei o carro e fui trabalhar, naquele tempo, sem muita fiscalização. Havia um amigo no DETRAN, que eu conhecia, um negro todo cambota, jogador de futebol, eu lhe disse que queria tirar a carteira. Havia um teste, numa espécie de guincho, um caminhão para os testes. Naquele tempo, eram os Fuscas, os Opalas, o Corcel I, Chevette, Variant, Brasilia, os carros da época. Vieram depois o Corcel II, os Del Rei, lembra, ele perguntou? Ora, em 1982 eu tinha 15 anos. Embora meu forte não sejam marcas de automóvel o meu forte, eu lembro. Acompanhamos essa evolução. E o celular? Os tijolões, eu carregava um todo besta. A gente se amostrava, n esse tempo, eu estava no Ceará. Eram os anos 90. Era costume ver o pessoal se amostrando, andando de lá, para cá, com os tijolões na mão. E era caro. Chamadas tinham de ser rápidas, pá, pá, pá, pá, para não drenar os créditos. Perguntei por Sena, se fazia lotação. Tudo no barro, lembrou. “Sena Madureira, Deus me livre, era lama, meu irmão, tu é doido, é?”. Então, chegou a fazer? Muito, foi a resposta. São 140 km, naquela época, puro tabatinga, eu digo aqui. De primeiro, era assim: frete, caso quisesse, era frete. Sena, pediam. Eu dizia, rapaz, difícil, é x, é tanto, eu dizia. E para Xapuri, muitos advogados, quando era o caso. Havia o Jorge Nei, eu acabava por reunir uma nata de gente que queria ir só comigo. Os colegas ficavam enciumados. Mas porque o meu carro, ainda que sujo e empoeirado por fora, era, por dentro, um luxo só. Cheiroso, limpinho, gostoso: até as mulheres o priorizavam. Havia quem andava igual a um colonheiro, chapéu véio na cabeça, não levando a sério a coisa, sem um diferencial. Eu chegava com meu carro, já muito conhecido, havia uma fila de gente para entrar. Ficava chapado comigo. Eu chegava assim, nesses forrós por aí, parava meu carro, eu tinha uma Parati(zona), quando lançaram esses carros, eu a comprei, fazendo Praça, aí logo depois do IML, na Av. Antônio da Rocha Viana havia uma churrascaria, Zebu, lembra-se, da Zebu, não, não lembro (talvez nem seja do meu tempo), sim, anos 90, passando do IML, numa entradinha, assim, na esquina (um terreno hoje baldio, eu acho até que constroem algo por ali). Pois havia lá, à noite, um forró, era festa, e tal, vinham os peões, no balde, e se ganhava muito dinheiro. Aí, eu parei a minha Parati lá, os outros taxistas também, eu parei a minha Parati, assim, e por detrás havia um monte de areia. Então veio um cara, parou a moto dele perto da minha Parati, e tal, e o movimento, ele foi ver, apareceram umas gatinhas, assim, então ligou a moto. E, para se mostrar, para cima dela, para se mostrar, acelerava, nhém-nhém-nhém-nhém-nhém, rodopiava, levantava uma tantão de areia, toda por cima de meu carro. E meu carro bem limpinho, agora ficou coberto de areia. Ara, quando eu vi aquilo ali, eu era meio arrojado. Quando eu vi aquilo ali, cheguei assim pisei no pé dele e desliguei a moto. E disse: “Olha, se tu quiser sair daqui numa boa, está aqui a flanela, vai limpar meu carro”. Muitos risos. “Vai limpar meu carro, mermão. Não pensa que vai fazer essa babaquice aqui não, ficar se amostrando aqui, olha aí o meu carro”. Eu acho que ele se sentiu humilhado, porque eu pisei em cima do pé dele, assim, o pé de apoio. Ele não tinha como sair para nenhum canto, pisei e tirei a chave, desligando. “Pois é, se quiser ir embora numa boa, vai e limpa meu carro. Ele foi, limpou, numa boa, e foi embora.” Tô lhe falando, o pessoal era gaiato. Outra vez, eu havia comprado um Vectra e dei para um motorista, para um menino trabalhar. Então, por ali, lá no 6º DP, na (Baixada da) Sobral, eu nem sei o que o cara fez por lá, o cara abriu a porta de trás, vinha um policial, numa moto, bateu no carro e o motorista ligou para mim. Aí, eu fui lá, cheguei, o cara era da Polícia, eu cheguei assim, e ele queria sair fora, eu também pisei no pé dele, não dava para sair, tirei a chave, e disse “Ninguém vai sair daqui não, vamos acertar essa coisa”. Não, eu sou polícia, e tal, eu disse, pode ser até o capeta, polícia, você está errado, é um cidadão igual a mim, está entendendo? Era do 2º DP, chegaram por lá uns policiais, pois, eu disse, vamos resolver, tem de resolver. Eu era sem papa na língua, eu resolvia mesmo. Eu, antes do evangelho, era meio doido. Hoje, em comparação, sou bom demais. Mas não deixava chance para vagabundo, não: metia a peia mesmo. E carregar bêbado? Ninguém gostava. É bicho enjoado mesmo. Um deles bateu a porta do carro me saiu andando. Foi esse do Papouco. Aqui retornamos ao início, nessas histórias do taxista herói.

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