sexta-feira, 24 de março de 2023

Sem escrúpulos

    Desde muito cedo na história deste país o dinheiro público é malversado. E quem cria as leis, neste país, estabeleceu instâncias de vários graus, para que até que o bandido bem nascido as percorra todas, o crime já tenha prescrito.

    Sempre lembrando que crime prescrito não sigjfica que não tenha existido. Recentemente, na história deste país, foram percorridas todas as instâncias de condenação para um notável criminoso.

    Porém na última, por puro casuísmo, que é quando se tem em mente o que se deseja, efetivamente, realizar, mas se vão aos compêndios legais, para preencher o blefe com verborragia jurídica, foram anuladas todas as instâncias inferiores.

   Polis é tradição assaltar cofres públicos, de todas as maneiras, a mais frequente delas por meio de verbas para obras fictícias, faraônicas e intencionalmente mal planejadas ou efetuadas a muito menos do que foi orçado, para surrupiar-se uma porção maior.

   Uma destas obras, entre muitas outras em todo o Brasil, chama-se anel viário ou Arco Metropolitano, no Rio de Janeiro, cuja intenção seria desafogar as principais vias de acesso à cidade, desviado o tráfego por esse entorno.

   Frações da BR 116 e da 493 estariam paralelas a seu percurso. Parte da ideia original desse percurso viário, que na verdade incluiria acesso desde o término da Rio Santos, em Itaguaí, terminou.

   Mas a parte que inclui a que atualmente se chama Rodovia Raphael de Almeida Magalhães empacou ainda em 2014, ora, vai fazer 10 anos. Mas esse crime é antigo e se espalha por todo o Brasil, que é superfaturar orçamentos, executar a menos e, a meio caminho, turbinar, novamente, o preço previamente indicado.

   Já viajei por este país, entre os anos de 1995 e 2013, atravessando por 15 vezes três estados, Rondônia, Mato Grosso do Sul e São Paulo, cortando trechos de Mato Grosso e Goiás, na conexão entre Rio Branco, AC, e o Rio de Janeiro, estado e cidade. Esse percurso que sempre fiz uma vez a cada ano, com mais os circuitos extras, deu a mim e à minha família uma experiência e uma exposição a, pelo menos, 150.000 km.

   Portanto, sei o que são estradas estreitas, sem acostamentos, expondo ao risco todos que por elas trafegam. Portanto, muitas vezes em que se divulga que o motorista brasileiro é incauto, e sem dúvidas existem, porém nas emergências, numa estrada sem acostamentos, ou não duplicada, quando deveria ser, esse risco quadruplica.

    Vítimas desse descaso com a vida humana, institucionalizado neste país, mais uma vez de tantas outras, foi toda uma família que se deslocava de Santo Aleixo, onde residiam, a Niterói, para um aniversário com demais familiares. Morreram Jonatam Guimarães Corrêa, 35 anos, sua esposa Letícia Gabrielle Fernandes de Lima, 32, e os cinco filhos: Gabrielle Lima Corrêa, 10, Enzo Gabriel Lima Corrêa, 5, Izaque Lima Corrêa, 8, Larissa Lima Corrêa, 2.

   Esta mais nova, o irmão Guilherme Lima Corrêa, 14 anos, e o mais velho Christian Lima Corrêa, 16, foram conduzidos a dois hospitais, Adão Pereira Nunes, o Christian, e seus irmão e irmã no Alberto Torres, em São Gonçalo. Mas Larissa logo faleceu e seu irmão, Guilherme, dois dias depois.

    Descaso com a vida humana. A marca da administração política no Brasil é esta. Nenhum escrúpulo. Esta não foi a primeira família. Não será a última. Triste país. Todos que temos algum escrúpulo e também temos família, eu, particularmente, que expus a minha durante todo esse tempo e percorrendo esses tantos quilômetros, ainda tenho muito medo quando dirijo veículos.

    E não sei que solução há para a cura desse mal neste país, o principal deles, a prática renovada da dilapidação de recursos públicos em benefício da corrupção, ao preço do sangue das dezenas de milhares de mortes nas estradas do Brasil.

HISTÓRIA DO ANEL VIÁRIO:

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