sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Copacabana - 3

Rua Inhangá, bem defronte à Igreja  

Copacabana e uma varanda sobre o resto de nossas vidas. Não sei se foi a primeira impressão. Mas ver, da janela do kitnet da Congregacional de Copacabana, a avenida lá embaixo, imaginando seu curso e sua movimentação, fazia imaginar um arco.

Um arco a um lado e outro da Avenida e da história do bairro

   Como se fosse uma conexão com as origens do bairro, sua história, estrato social, sua conexão com as décadas de 50 a 70, minhas referências, ainda que intuitivas, e as perspectivas de uma pastor protestante evangelical.

Morro do Inhangá virando avenida em Copacabana

   Um bairro impermeável ao evagelicalismo. Mas havia um link permanente de acesso, Eunice Spiller, nova rica, que, junto com toda a família, haviam se deslocado de São Mateus, município de São João de Meriti, onde trabalhavam com ouro, posteriormente marcassita.

   Eu visitei o apartamento da Tonelero, várias vezes, e o do filho, na Av. Atlântica, umas duas vezes. Eunice tinha penetração livre, acesso a todas as camadas do bairro. Copacabana sem segredos. Amigas em todos os quadrantes.


   Lembro de um daqueles terraços, tipos jardim de inverno, que se projetam para fora do alinhamento do edifício. Deve ser num desses dos anos 50. Numa outra reunião, essa com um grupo maior de mulheres, a anfitriã deu testemunho de suas encarnações anteriores.

   Descobriu que sua asma estava associada a uma vida pregressa, relacionada à uma escrava que havia morrido acorrentada, no porão de um navio negreiro afundado. Foi bastante para sua cura ter descoberto esse fato.

   E as visitas recorrentes às duas irmãs do Posto 6. Eram filhas de um notável pastor presbiteriano. Moravam juntas e cuidavam de si, uma da outra. A quem mais dependia da irmã, acamada, mais dependente e debilitada, era a mais comunicativa das duas.

   A outra, certa vez, mostrou-me e franqueou a biblioteca de seu pai. Eu, tímido, avaliei, erroneamente, que seria uma invasão insólita me aproveitar dessa oportunidade. Herdei apenas os três volumes das Institutas de Calvino. Lembro-me, curiosamente, de uma gramática da língua russa que lá deixei.

    No salão do kitnet reunimos dois grupos notáveis. Um deles, curiosa e inintencionalmente ecumênico, reunia mulheres católicas e judias, estas em maioria, interessadas em conhecer a Bíblia, no caso, o Antigo Testamento.

   Ficaram sabendo, por meio do grupo especial que ali se reunia, a que chamavam Neuróticos Anônimos, posteriormente, segundo fui informado, sabiamente agora reconhecidos como Emocionais Anônimos, esta designação menos associada a piadas de mau gosto, que eu era pastor protestante e ali, naquele espaço, assistia.

    Pois juntos estudamos, nas tardes de Copacabana, profetas maiores e menores do Antigo Testamento, Provérbios e Eclesiates, por curiosidade delas, alguns dos Salmos, enfim, como diziam, sem nenhum risco de por mim serem convertidas, como diziam, jocosamente.

   Eu a elas dizia que nem a mim eu convertera e, para as judias, apenas acertei com elas que, caso encontrasse textos messiânicos, nesse nosso percurso pelo AT, eu o denunciaria como profecia a respeito de Jesus. Assim combinado, assim feito, para efeito.

   Os Emocionais Anônimos - EA, portanto, foi oportunidade desse estudo bíblico, em anexo, segundo ensejou, assim como outros encontros para aconselhamentos pastorais, sempre sem o compromisso de "converter", ou seja, sem proselitismos, mas com a certeza de mediação corriqueira do Espírito.

    Desse contato com os EA, saiu a amizade com Eneas e Urias, este um garotâo copacabanense de 60 anos. O espírito ele insistia manter, deslocado, nessa tentativa de não sair dos 20 anos, o que fazia Eneas e eu nos divertirmos com suas pretensas estripulias, principalmente se incluíssem as meninas.

   Ele era alvo forte de nosso aconselhamento. Não existe mais o presídio da Frei Caneca, foi implodido em 2010, para onde eu e Eneas nos abalávamos, eu no anexo, com policiais apenados, ele com um grupo do segundo andar, onde certa vez estive, recitando com ele, ao final de nossa sessão de aconselhamento, a famosa oração da serenidade.

  "Deus, concedei-nos a serenidade
para aceitar aquilo que não podemos mudar,
a coragem para mudar o que nos for possível
e a sabedoria para saber discernir entre as duas opções". Eneas acrescentava, para minha surpresa, uma intervenção da "chama violeta", que nunca entendi direito o que significava.

    Isso tudo dentro do presídio da Frei Caneca, que não mais existe, construído a partir de 1950. Ali dentro conheci um grupo de ex-policiais, que me contaram suas aventuras nas antigas Patamo, as veraneio do policiamento ostensivo, acho que abreviatura de Patrulhamento Tático-Móvel. De três deles guardo referências de parte de sua história e de outros a tênue memória de sua feição.

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