quinta-feira, 23 de abril de 2026

"O correr da vida embrulha tudo”: 70 anos de Grande sertão: veredas.

18 mar 2026

Adentrar o grande sertão não é fácil. A concentração tem que ser total. Deve-se cumprir um trajeto inóspito, desses onde a violência, a miséria e o sol inclemente dão o ritmo. Riobaldo, o sujeito que ali nos acompanha, pode até estar armado, mas sua presença demanda fôlego: fala pelos cotovelos, contando sua vida quase inteira. Homem do povo e dos confins, não parece se comunicar em português, mas num dialeto mineirês-sertanejês, e ainda por cima de época. E no entanto, é como se cada parágrafo da transcrição de sua fala encerrasse uma preciosidade literária, trabalhada à perfeição. De fato, valendo-se de muita observação de campo, João Guimarães Rosa demorou dez anos para escrever esse monólogo: trata-se de sua obra de maior expressão, Grande sertão: veredas, publicada em 1956. Hoje visto como referência maiúscula na literatura brasileira, o romance chega a intimidar alguns. Dura quase seiscentas páginas, sem divisão por capítulos. Mesmo aqueles que o encaram enroscam-se aqui e ali em profusas palavras espantosas, ou acabam perdidos. Mas uma hora o leitor perseverante acha a sua bússola. E quando acha, o caminho é sem volta.


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Grande sertão: veredas é um incomum exemplo de livro com data e hora de nascimento. Coisa de seu autor, mineiríssimo de Cordisburgo, que deixava tudo registrado em cartas: foi aos 32 minutos após a meia-noite do dia 23 de novembro de 1955 que o original provisoriamente chamado de “Segundo rascunho” foi finalizado. Originalmente o romance de Guimarães Rosa se chamaria “Veredas mortas”. Era um calhamaço de 461 páginas datilografadas e salpicadas por correções e inserções feitas à mão, com cópia em papel carbono. Foi esse o texto enviado na semana seguinte à editora José Olympio, hoje mantido como joia rara no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP).

Naqueles idos Guimarães Rosa já havia publicado seu volume de contos Sagarana há nove anos, estando então na terceira edição, depois de muitas loas na imprensa. O literato já era uma figura digna de nota, e não apenas pela literatura. Diplomata, esteve no consulado brasileiro na Alemanha no pior momento possível: o início da Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito, ele e a paranaense Aracy de Carvalho, que viria a ser sua segunda esposa, foram reconhecidos oficialmente pela concessão de vistos a judeus e outras comunidades perseguidas pelo nazismo, mesmo desobedecendo as diretrizes da política imigratória em vigor no Estado Novo. No Brasil do pós-Guerra, depois de curtos períodos na Colômbia e na França, em março de 1955 havia sido indicado como representante do Itamaraty na Assistência Técnica em Educação e Cultura do então Ministério da Educação e Cultura, o MEC. Rosa já atuava no Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas do Brasil, este no Ministério da Agricultura. E ainda assim teve tempo de entregar, em abril, pouco antes de “Veredas mortas”, os originais de Corpo de baile à José Olympio.

Distribuído às livrarias cariocas a partir de 29 de fevereiro de 1956, Corpo de baile não ficava muito atrás de Grande sertão, em termos de grandiosidade: trata-se de um ciclo de sete novelas, dividido em dois volumes com capas e contracapas ilustradas originalmente por Poty Lazarotto. No mesmo dia a José Olympio aproveitava para lançar a quarta edição de Sagarana, revista e tida como “definitiva”. Apesar da sustância, isso seria apenas um aperitivo: em 16 de julho Grande sertão: veredas era disponibilizado aos leitores. Também acompanhada por desenhos de Poty, a primeira edição da obra vinha dedicada a Aracy, a quem haviam sido transferidos os direitos comerciais do livro no Brasil e no exterior. Nas orelhas dos exemplares, um curioso texto do próprio autor, não assinado, fazia um apelo a todos os que travavam (ou eram travados pelo) contato com esse “livro diferente, terrível, consolador e estranho”: “Aos leitores, e aos que escreverem sobre este livro, pede-se não revelar a sequência de seu enredo, a fim de não privarem os demais do prazer da descoberta” (Rosa, 2019, p. 531). E aqui vai uma piscadela aos entendedores.

Em carta datada do início de 1956 a Azeredo da Silveira, Rosa, que no mais passava naquele momento por outras duas robustas nomeações no Itamaraty, discorria sobre o que realmente interessava: seus últimos momentos antes da entrega dos originais de Corpo de baile e Grande sertão. Nela, o autor vinha com um discurso que aproximava o gênio literário a qualquer estudante em tempos de entrega de TCC:

(...) passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado - só lucidez e angústia. (...) Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente. (Rosa, 2019, p. 530)


Aflições à parte, os louros. A recepção da crítica a Grande sertão foi majoritariamente positiva, apesar do alto teor de experimentação no romance: houve quem estranhasse as inovações linguísticas promovidas pelo autor, em sua escrita “oralizada”, natural pela construção da fala do protagonista Riobaldo. Por vários meses o livro apareceu nas listas de mais vendidos, na imprensa. “Sou essencialmente um homem do sertão”, dizia Rosa a Paulo Dantas, em entrevista publicada na Tribuna da Imprensa de 19 de setembro de 1956: “Todos os meus personagens existem e são todos meus amigos. (...) Quando escrevo, como que sou tomado pelos caboclos de Minas”, completava (veja a entrevista nos links ao fim deste texto).

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“Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava” (Bandeira, 1957). E foi assim, com estas palavras, que Manuel Bandeira saudou Guimarães Rosa por sua obra-prima, em carta ao colega publicada em sua tradicional coluna no Jornal do Brasil de 13 de março de 1957 (veja também esse texto, na íntegra, nos links abaixo).

Exatamente um mês antes da publicação dessa correspondência, em 14 de março daquele ano, momento em que Rosa ocupava-se em visitar o canteiro de obras de Brasília, Grande sertão: veredas ganhava o seu primeiro prêmio: o Carmen Dolores Barbosa, por unanimidade, como melhor livro de 1956. Feito que seria logo ofuscado: a 18 de junho o Prêmio Machado de Assis, a maior láurea literária do país, promovida pelo Instituto Nacional do Livro (do MEC), também considerava o romance como a melhor obra de ficção do ano passado. Alceu Amoroso Lima, Lúcia Miguel Pereira, Valdemar Cavalcanti, Manuel Cavalcanti Proença e Aníbal Machado, os jurados do último, também foram unânimes. Outros prêmios ainda viriam, como o Paula Brito.

Sucesso a galope, ato contínuo Guimarães Rosa se sentiu à vontade para se candidatar à sucessão de José Lins do Rêgo na cadeira 25 da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 24 de setembro de 1957. Mas acabou derrotado por Afonso Arinos de Melo Franco, por 27 votos contra 10. Em compensação, em 5 de maio de 1958 o autor alcançaria o topo de sua carreira diplomática, sendo promovido a ministro de primeira classe (ou seja, embaixador), com direito a telefonema do amigo Juscelino Kubitschek de Oliveira, um conterrâneo que por acaso estava presidente da República. No mais, 1958 terminou com Rosa sofrendo um infarto. O escritor foi obrigado a reduzir o ritmo para o ano seguinte, que prometia: entre fevereiro e março de 1959 assinava seus primeiros contratos para as traduções de Grande sertão para o francês e o inglês. Os para o italiano e o espanhol viriam apenas em 1964. O que não é nada mal para uma obra “intraduzível”.

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Em 29 de junho de 1961 Rosa recebeu outro Prêmio Machado de Assis, o da ABL (que não deve ser confundido com o homônimo do Instituto Nacional do Livro), pelo conjunto de sua obra. No início da nova década o escritor vivia entre solenidades literárias, assinaturas de contratos para tradução, publicações de trechos de obras na imprensa e participações em comissões e eventos diplomáticos - isso quando não era nomeado para qualquer coisa de vulto, como para a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras do Itamaraty.

No início de abril de 1963, todavia, Rosa decidiu tentar de novo um merecido posto: uma cadeira na ABL, no caso, a de número 2, vazia desde a morte de João Neves da Fontoura em 31 de março. Antes mesmo a imprensa já implorava: que botassem o bom Guima na primeira que vagasse. E dito e feito: na ocasião, Marques Rebelo e Guilherme Figueiredo chegaram a desistir do pleito, em favor da unanimidade. Só para não dizer que não houve disputa, o romancista potiguar José Bezerra Gomes manteve candidatura. Mas foi de lavada: a 8 de agosto o mineiro foi eleito, por 34 votos e apenas duas abstenções, atribuídas a Aurélio Buarque de Holanda e Álvaro Lins.

A trajetória meteórica e intensa de João Guimarães Rosa, seja como literato ou funcionário público, acabou cobrando seu preço ao final de 1968: às 20h45 de 19 de novembro um outro infarto pegou o escritor, e dessa vez em definitivo. Edições póstumas de obras como Estas estórias e Ave, palavra saíram já no ano seguinte pela José Olympio, o primeiro com o prefácio “Apenas saudade”, assinado pela filha Vilma Guimarães Rosa. Reedições e adaptações de textos rosianos para o cinema e a televisão viraram rotina, ao longo dos anos seguintes. E não apenas na teledramaturgia o autor pode ser, também, encontrado.

Em dezembro de 1969, o ponto mais alto da cordilheira Curupira, com 2.105 metros de altitude, localizado no município amazonense de Santa Isabel do Rio Negro, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela – a nuca da “Cabeça do Cachorro”, em alusão à área no extremo noroeste brasileiro –, foi batizado como Pico Guimarães Rosa: uma singela homenagem aos esforços do diplomata na demarcação do Pico da Neblina. Já numa região mais próxima à realidade pintada na prosa rosiana, o cerrado, em 1989 foi criado o Parque Nacional Grande Sertão: Veredas, numa área de 230 mil hectares na fronteira entre Minas Gerais e Bahia, com sede na cidade de Chapada Gaúcha (MG). Bem pelas bandas onde andaram Riobaldo, Diadorim, Hermógenes, Joca Ramiro, Zé Bebêlo e outros tantos imortais da obra maior do velho Guima.

Em relação às trilhas e percursos rosianos em letra, sobretudo àqueles empreendidos por pesquisadores interessados no universo de João Guimarães Rosa, resta um dado importante: o IEB da USP, a mesma instituição que guarda os originais de Grande sertão: veredas, adquiriu junto à família do escritor, em 1973, todo o seu arquivo. Somando cerca de vinte mil documentos, lá estão cadernos manuscritos de Rosa, fotos de viagens, recortes de jornal, correspondências. Sem contar os mais de três mil livros. São por essas prateleiras que os estudiosos devem embrenhar.

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Em carta ao tradutor italiano Edoardo Bizzarri datada de 25 de novembro de 1963, João Guimarães Rosa explicava que seus livros “em essência, são anti-intelectuais (...). Por isto mesmo, como apreço de essência e acentuação, assim gostaria de considerá-los: a) cenário e realidade sertaneja: 1 ponto; b) enredo: 2 pontos; c) poesia: 3 pontos; d) valor metafísico-religioso: 4 pontos” (Rosa, 2019, p. 537). Foi no último tópico que Antonio Candido, um dos primeiros e maiores estudiosos da obra rosiana, se deteve.

A observação atenta do autor à realidade sertaneja contribuiu para elevar seu romance a um desses “raros  momentos  em  que  a  nossa  realidade  particular  brasileira  se  transforma  em  substância  universal” (Candido, 2002, p. 192). É que, embora tratasse da violência e da desigualdade estruturais que atravessavam a formação da realidade brasileira, notadamente no meio rural, oligárquico e patriarcal, Grande sertão não dava menos atenção a questões e dilemas que assolam a condição humana em geral: o amor inalcançável, a falta de aceitação à homoafetividade, a guerra, o bem contra o mal, a vingança e a justiça, etc.

Por essas e outras, já em 1957, no ensaio basilar “O homem dos avessos”, Candido afirmava que Rosa havia transcendido o regionalismo característico da chamada segunda fase do modernismo na literatura: “A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e pelo nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico”, todos esses elementos não deixaram de subscrever Grande sertão a um desses “[...] grandes lugares comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, – para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e que na verdade o Sertão é o Mundo” (Candido, 2000, p.122).

Desses valores universais o crítico literário pensava a relação dialética entre o homem sertanejo e seu duro cenário, uma lógica de reciprocidade que pautou diversas interpretações posteriores da obra de Rosa. O homem responde à brutalidade de seu meio, que o molda, à força da necessidade:

Estas considerações sobre o poder recíproco da terra e do homem nos levam à idéia de que há em Grande sertão: veredas uma espécie de grande princípio geral de reversibilidade, dando-lhe um caráter fluido e uma misteriosa eficácia. A ela se prendem as diversas ambiguidades (...) um deslizamento entre os pólos, uma fusão de contrários, uma dialética  extremamente viva (Candido, 2000, p. 129)


“É pelo avesso que se chega ao direito”, diria com sábia simplicidade o heroi Riobaldo. Pois sim. Grande sertão: veredas é denso, intricado, tanto por sua riqueza vocabular quanto pelas idas e vindas na cronologia dos fatos. Em frases curtas e ritmadas, entre tiradas que vão num mesmo parágrafo do corriqueiro ao sertanejo a verdadeiras epifanias, Riobaldo narra sua vida como qualquer bom proseador: a memória o faz falar, sem se importar com encadeamentos cronológicos claros e lógicos. Um assunto puxa o outro, que puxa um causo daqui, outro dali. O personagem, assim, narra a sua vida a um visitante parecendo querer ele próprio passá-la a limpo. Entende-se daí seu modo de ser jagunço, acima de qualquer maniqueísmo:

O jagunço, sendo o homem adequado à terra, (“O  Sertão  é  o  jagunço”) não poderia deixar de ser como é; mas ao manipular o mal, como condição para atingir o bem possível no Sertão, transcende o estado de bandido. Bandido e não-bandido, portanto, é um ser ambivalente, que necessita revestir-se de certos poderes para definir a si mesmo. O pacto desempenha  esta função na vida do narrador, cujo Eu, a partir desse momento, é de certo modo alienado em benefício do Nós, do grupo a que o indivíduo adere para ser livre no Sertão, e que ele consegue levar ao cumprimento da tarefa de aniquilar os traidores, os “Judas”. Graças a isto é vencida, pelo menos na duração do ato, a ambiguidade do jagunço, que se fez integralmente paladino. (...)


Renunciando aos altos poderes que o elevaram por um instante acima de sua própria estatura, o homem do Sertão se retira na memória e tenta laboriosamente construir a sabedoria sobre a experiência vivida, porfiando,  num esforço comovedor, em descobrir a lógica das coisas e dos sentimentos. “E me inventei neste gosto, de especular idéias”. (Candido, 2000, p. 137-139)


Tamanho jeito de ser exigia um determinado jeito de se expressar: qualquer linguagem que não fosse a do jagunço, de fato, não interessava a Guimarães Rosa. Daí sua demora a parir a obra-prima, que o levou a um trabalho de pesquisa (sócio-linguístico-antropológico?) sem precedentes. A ensaísta e crítica literária Walnice Nogueira Galvão, outra potente voz em torno de Rosa, ressalta que o escritor foi buscar a linguagem de seu protagonista direto na fonte: o sertão.
É de lá que vêm os torneios de frase, os regionalismos e os arcaísmos resgatados. Como se sabe, o idioma conserva-se melhor longe dos centros urbanos, onde o isolamento o protege das inovações trazidas pelas correntes migratórias, pelo jargão da mídia e pela gíria. Os dois traços básicos da linguagem empregada por Riobaldo são, por isso, os regionalismos e os arcaísmos.
Mas não só, o que seria demasiado simples para um escritor tão requintado. Nem tudo o que seu protagonista profere é preexistente na língua portuguesa do Brasil: boa parte do vocabulário é constituído por neologismos. Saídos da oficina verbal do autor, dão brilho e graça à fala de Riobaldo. (Galvão, 2008, p. 248)

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Uma das frases mais reproduzidas de Riobaldo, fazendo as vezes de um aforismo rosiano, é a instagramável “No viver tudo cabe”. Pois parece que no Grande sertão também cabe de tudo: contabilizando uma fortuna crítica extensa, o romance sempre parece disposto a um novo olhar, em incontáveis linhas de abordagem. Já no primeiro parágrafo de seu ensaio basilar sobre a obra, Antonio Candido dizia que nela “há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício; mas em cada aspecto aparecerá o traço fundamental do autor: a absoluta confiança na liberdade de inventar” (2000, p. 121). A última frase do texto não poderia ser outra que não “O Sertão é o Mundo” (2000, p. 139), que bem poderia ter saído da pena de Guimarães Rosa.

Pode-se estudar o romance pela boa e velha crítica literária, estritamente preocupada com a forma textual, ou pelo viés da linguagem e da cultura popular. Mas também por perspectivas sociais, de raça, classe e/ou gênero. Leituras históricas e políticas aparecem às pencas quando se fala da dura realidade sertaneja, entre a violência e a pobreza, e do jagunço, em particular, envolto num complexo jogo de relações de dominação ditadas pela força, pela autonomia do poder privado frente à ausência do poder público e pela preponderância tácita da tradição e da honra sobre as instituições. O sistema jagunço pode, aliás, ser analisado do ponto de vista do Direito. Existe ainda o lado naturalista e geográfico nos textos do velho Guima. Não são poucas as leituras psicanalíticas, onde Riobaldo deixa a pistola de lado e é metido num divã. Nem as filosóficas, como a de Antonio Candido. E quantas e quantas laudas acadêmicas foram gastas para se discutir a relação entre deus e o diabo no Grande sertão. É por aí, nesse campo mais amplo do que as Gerais, que se entende que o livro é muito mais do que esse objeto paginado, recheado de palavras que contam uma história: é uma referência e uma reverência à vida. Pois: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Palavras cabíveis a quem encara o desafio de adentrar o Grande sertão.

Se entre as veredas o que não falta é estrada, trilha batida, atalho ou picada, seja como for, o jeito é aproveitar o caminho. “Meus livros não são feitos para cavalos, que vivem comendo a vida toda, desbragadamente”, dizia Rosa ao Jornal do Brasil, em entrevista publicada em 15 de março de 1960 (leia mais nos links abaixo). “São livros para bois. Primeiro o boi engole, depois regurgita para mastigar devagar e só engole de vez quando tudo está bem ruminado. Essa comida vai servir, depois de tudo, para fecundar a terra”. A melhor definição para a prosa rosiana vinha assim, também rosiana: no melhor estilo campeiro.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

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Fake news de Pindorama: como Caminha espalhou desinformação sobre o Brasil

No ano de 1500, apenas dez dias bastaram para um europeu descrever os povos indígenas e seu território, Pindorama (nome ancestral do Brasil), que contava então com cerca de cinco milhões de habitantes. A carta escrita por Caminha, funcionário da Coroa Portuguesa, que é considerada um relato inaugural, apresenta corpos, costumes e o território a partir da lógica colonial, projetando como esse mundo deveria ser visto.

A invasão branca trouxe embutida a crença de que esse novo mundo precisava ser esclarecido por pessoas superiores, como disse o líder indígena Ailton Krenak em seu livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo.

O pouco tempo de contato e, principalmente, a cosmovisão eurocêntrica, foram suficientes para que a Carta fosse um instrumento de propagação de informação errada, enganosa ou incorreta (misinformation); falsa, fraudada ou mentirosa (disinformation); descontextualizada, distorcida ou enviesada (malinformation); e pouca, escassa ou silenciada (silencing).

Hoje, de forma anacrônica, podemos chamar isso tudo de desinformação ou desordem informacional.

Neste artigo, minha intenção é percorrer trechos da Carta de Caminha mencionados pela antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, referência no estudo sobre povos indígenas brasileiros, para evidenciar que, nesse documento fundador da colonização portuguesa, o que se apresenta como descrição direta é seleção, omissão e hierarquização.

Como diz a antropóloga:

"Essa ideia de não domesticação dessa gente que nada domestica — nem plantas nem animais — é, em Caminha, tão poderosa, que o leva a ignorar a agricultura dos índios, a não dar realce às redes e jangadas que menciona, e a presumir, só para ser desmentido no dia seguinte, que eles sequer tenham casas onde se abriguem (...) não têm chefe ou principal (...) não têm nenhuma idolatria ou adoração".

Caminha institui um modo de narrar que nega a alteridade indígena: ao descrever, reduz. Ao classificar, hierarquiza. Ao nomear, apaga, convertendo diferença em déficit, complexidade em simplificação e presença em ausência.

É menos um documento sobre o início da história do Brasil e mais um marco inaugural de uma longa tradição de desordem informacional, cujos ecos — reiterados, atualizados e naturalizados — continuam a organizar o modo eurocêntrico como se fala dos povos originários e o silenciamento das suas questões.

Violência no primeiro avistamento

A invasão portuguesa de Pindorama iniciou-se em 22 de abril de 1500, no lugar que hoje conhecemos como Porto Seguro, Bahia, e a desinformação começou ainda antes desse momento. Antes mesmo de ser pisada pelos forasteiros, Pindorama foi nomeada ilha, informação errada e propagada já na primeira violência, destituindo a identidade do território ancestral.

Foram quase 45 dias de viagem para que os portugueses se apossassem de uma terra que não lhes pertencia em nome do Rei D. Manuel I, como se ela esperasse pelo "achamento desta vossa terra nova".

Em 23 de abril, um dia após avistarem a terra brasileira, os portugueses encontraram os primeiros indígenas. O juízo de valor aparece à primeira vista, sendo a nudez citada em diversos momentos com a percepção enviesada de quem professa a fé cristã.

Gente bestial

Quando Caminha passa a interagir com os nativos, instaura-se uma sequência de informações desordenadas, registradas sob o prisma do exótico. O olhar europeu fixa-se nos apetrechos (bicos de osso e paus nos "beiços") e nas pinturas corporais ("quartejado de cores").

O narrador alia, mais uma vez, pouca informação e distorção na descrição da convivência com os indígenas para obter sua cooperação, ainda que ocultando a intenção principal dos europeus, que era obter metais. "E tudo se passa como eles querem por os bem amansar".

Era necessário falsear as intenções porque, mesmo não violentos, eram esquivos, "gente bestial e de pouco saber". E conseguiram o objetivo, algo percebido já em 28 de abril, terça-feira, pois se aproximavam "sem se esquivarem". Depois, disse o escriba que "andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles", criando uma amizade unilateral: "são muito mais nossos amigos que nós seus".

Os portugueses sabiam que a compreensão entre as línguas era tão importante que deixaram europeus entre os indígenas, já que "nem eles tão cedo aprenderiam, a falar para o saberem tão bem dizer". Essa visão estava alinhada a outro processo de desordem informacional, o discurso de mansidão e domesticação. Se levassem alguém à força até o rei, haveria "escândalo" e seria difícil de "amansar e apacificar".

Narrativas desordenadas

As trocas também foram descritas com escassez de informação. Como estavam focados em ouro e prata, os portugueses não conseguiram ou não quiseram entender, em certo momento, se os nativos diziam que naquela terra existiam esses metais ou se queriam esses objetos. Ademais, não entendiam se um objeto de escambo seria interessante ou não para aquele povo, desconsiderando as suas necessidades e as apropriações realizadas. Os nativos distribuíam e trocavam arcos e flechas, algo que tinham aos montes, por objetos que não eram "qualquer cousa", mas agiam como "se tivera uma grande joia"_.

Entre diversos relatos enganosos, Caminha conta que não existia cortesia e tampouco hierarquia entre os nativos, desconsiderando a organização das comunidades, em razão do modo como lidavam com o capitão, Pedro Álvares Cabral. Tratavam-no como aos demais navegantes. _"Não entendem nem tomavam disso conhecimento".

Quanto à agricultura e às criações dos povos originários, mesmo percebendo a relação com o inhame e outras sementes, Caminha desconsidera o que vê por não ser igual ao modo europeu.

"Eles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra nenhuma alimária, que costumada seja ao viver dos homens; nem comem senão desse inhame que aqui há muito e dessa semente e fruitos que a terra e as árvores de si lançam".

Sobre a fé, a Carta negligencia o sistema de crenças e espiritualidade dos povos originários. "Parece-me gente de tal inocência que, se os homens entendessem a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece".

A mensagem a Portugal

No início de maio de 1500, quando um navio partiu do litoral brasileiro rumo a Portugal levando a Carta de Caminha, mais de cinquenta indígenas imitaram os gestos de uma oração, de joelhos e apontando para o céu diante da cruz. O episódio levou o narrador a reforçar a ideia de uma conversão descomplicada — ainda mais com alguns já usando crucifixos —, sendo o único empecilho o entendimento, já que "nenhuma idolatria nem adoração têm", e cabia aos portugueses "salvar esta gente".

Essa leitura parte de um enquadramento que não reconhece outros sistemas de pensamento. À luz dos conceitos de "perspectivismo ameríndio" e dos "pronomes cosmológicos", do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, trata-se de um mundo de múltiplos sujeitos e naturezas.

Todo esse processo de desordem informacional está longe de ter acabado, sendo iniciado antes mesmo de os portugueses pisarem de fato nessa tera. Para enfrentá-lo, é preciso reconhecer que se trata de múltiplas nações originárias, com identidades próprias. Não são culturas estanques, mas dinâmicas, que projetam um futuro ancestral.

O modo de vida indígena não está congelado, ainda mais na descrição preconceituosa e estereotipada feita por Caminha, como enfatiza a indígena heteroidentificada Andrielle Guilherme em sua tese. Enfrentar essas desinformações -- assim como outras mais recentes -- implica disputar a narrativa. É tempo de uma contra-história de retomada, como propõe a escritora e pesquisadora indígena Trudruá Dorrico.The Conversation

Allysson Viana Martins, Professor dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (PGDRA), Universidade Federal de Rondônia (UNIR)

Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.


As bossas modernas de João Donato, Eliana Pittman e Roberto Quartin

Roberto Quartin e Tom Jobim em registro dos anos 1960. Foto: Acervo do Instituto Antonio Carlos Jobim

 Desde o último dia 9 de julho, o editor deste blog iniciou parceria que soma forças de sua página no Facebook Quintessência – Música Atemporal Brasileira às pesquisas musicais apresentadas pelo amigo DJ Paulão, timoneiro do bravo programa “Hérnia de Discos”.

Semanalmente, este repórter e o anfitrião Paulão pretendem trazer à tona histórias que não podem ser esquecidas e repertórios musicais que precisam ser reverenciados. Encontro marcado sempre às quintas-feiras (das 14h às 16h) – como, aliás, era o dia da veiculação da coluna Quintessência, que, entre 2012 e 2014, contou, no site da extinta revista Brasileiros, a história de 50 álbuns de música popular brasileira, das cepas cancioneiras e instrumentais, lançados entre 1960 e 1980.

Nesta quinta-feira (13), celebramos os 75 anos da cantora Eliana Pittman, os 77 do saudoso Roberto Quartin, produtor que criou, em 1964, a emblemática gravadora Forma. Antecipamos também a homenagem aos 86 anos do mestre João Donato, que serão completados na próxima segunda-feira (17).

Leia, a seguir, os depoimentos divulgados durante a transmissão do programa.

Depoimentos de (e sobre) Eliana Pittman

“Comecei a cantar por necessidade. Em abril de 1961, ia acontecer um evento aqui no Rio de Janeiro e meu pai, por ser um músico famoso americano, faria o som da embaixada norte-americana. Teria um grande evento comemorativo, ia vir a Banda dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos para fazer esse evento, e o embaixador comentou que queria uma figura feminina para cantar e que ela tivesse alguma postura. O Booker tinha uma cantora da orquestra dele, mas ela era mal comportada, dava uns desvios no meio das festas, namorava o dono da festa, uma confusão danada, e então o Booker me ensaiou, uma música americana chamada ‘Mama Don’t Allow No Music Playing Here’, pra cantar com ele nesse evento.”

Em entrevista à TV Alerj, em 2014, Eliana Pittman lembra de seu quase batismo no palco. O evento, na verdade, seria realizado em 2 de fevereiro de 1960. No entanto, uma tragédia ocorreu. Dois aviões, um brasileiro e a aeronave que trazia os fuzileiros navais dos EUA, colidiram na Baia da Guanabara, deixando 64 mortos. Eliana, no entanto seguiu adiante sua carreira musical, incentivada por seu pai, Booker Pittman.    

“Sabe, eu agrado porque sou o tipo autêntico de brasileira: mulata e com jeito de baiana. Canto a música nacional que é bem aceita lá fora. Isto é importante, porque os gostos dos estrangeiros nunca são iguais aos dos brasileiros. A música de Geraldo Vandré, por exemplo, jamais seria entendida. Entretanto, a de Chico Buarque comunica-se rapidamente com qualquer público.”

Excerto da reportagem “Eliana Pittman: a jovem canção no VElho Mundo”, de Etevaldo Dias, publicada na edição de 9 de janeiro de 1969 da revista “O Cruzeiro”.  

Eliana Pittman e Luiz Gonzaga interpretam, na Rede Globo, Forró de Mané Vito, parceria de Mestre Lua com Zé Dantas.

Veja: https://youtu.be/86PjROpzAQM?si=muTZHq5RA9HVIQq4

para lançar a Forma no final de 1963.

Já no primeiro ano de mercado, cinco títulos diziam, a plenos pulmões, a que veio o pequeno selo: Inútil Paisagem, do pianista e arranjador Eumir Deodato; Novas Estruturas, o primeiro álbum solo do pianista e líder do Bossa Três, Luis Carlos Vinhas; Deus e o Diabo na Terra do Sol, trilha sonora original do filme de Glauber Rocha, assinada por Sérgio Ricardo; o álbum de estréia do grupo vocal baiano Quarteto em Cy; e Esse Mundo É Meu, trilha do longa dirigido pelo compositor Sérgio Ricardo, assinada por ele e arranjada pelo maestro Lindolfo Gaya. Estabelecendo um primor estético presente em todos os títulos, além das experimentações sonoras, os álbuns traziam capas duplas, pinturas e ilustrações de forte acento modernista.

Ouça o álbum Novas Estruturas, de Luiz Carlos Vinhas, um dos clássicos da gravadora Forma, lançado em 1964.

Veja: https://youtu.be/4IU5BlN7lrE?si=ndwwnWSd83iliQZU

Forma: gravadora durou apenas 2 anos e deixou obras-primas de Vinicius, Baden e Moacir Santos

Por Silvio Essinger — Rio de Janeiro -  

No livro 'Tempo feliz', jornalista Renato Vieira conta história dos sócios Wadi Gebara e Roberto Quartin, que queriam montar no Brasil uma gravadora nos moldes da jazzística Impulse!, do produtor americano Creed Taylor.


Primeiro time. Baden Powell, o produtor Roberto Quartin e o saxofonista Stan Getz — 
Foto: Divulgação

Uma gravadora que durou apenas dois anos (entre 1964 e 66), durante os quais foram editados apenas 22 LPs. Mas, entre eles, ao menos duas reconhecidas obras-primas da MPB: “Coisas”, do maestro Moacir Santos, e “Os afrossambas”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Esta foi a Forma, que tem agora sua história traçada pelo jornalista mineiro Renato Vieira, de 35 anos, em “Tempo feliz” (Kuarup). O livro foi o resultado do encontro de Renato, em 2014, com o empresário Wadi Gebara, sócio capitalista que o produtor Roberto Quartin encontrou para levar adiante o sonho de montar, no Brasil, uma gravadora nos moldes da jazzística Impulse!, do produtor americano Creed Taylor.

— É uma história bem brasileira, de dois jovens que gostavam de música e queriam ter uma gravadora, mas não eram caras de disco. Eles investiram naquele sonho. O Quartin era o mentor intelectual e tinha o desejo de ser reconhecido como um produtor — conta Renato, que autografa exemplares de “Tempo feliz” no dia 17, a partir das 19h, na Livraria da Vila, em São Paulo.

Trilha de Glauber

Numa época em que o selo Elenco, do produtor Aloysio de Oliveira, empacotou a nata da bossa nova em LPs com capas minimalistas e chiques do designer César Villela, o que coube à Forma foi apostar no luxo de capas duplas, ilustradas com obras de arte, em discos de artistas novos ou já reconhecidos, mas que ainda não tinham tido a chance de gravar seus projetos autorais, ou ainda em trilhas sonoras para cinema (como a de Sérgio Ricardo para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, filme de Glauber Rocha).

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— Você vê que a maioria dos discos da Forma é o de estreia dos artistas, como os do Moacir Santos, do (pianista) Luiz Carlos Vinhas e do Quarteto em Cy. Era uma gravadora muito ousada, mas, como negócio, foi deficitária o tempo inteiro. O disco que mais vendeu foi o “Som definitivo”, do Quarteto em Cy com o Tamba Trio: duas mil cópias, quase nada — revela Renato, acrescentando que os LPs da Forma custavam quase duas vezes mais do que um de Roberto Carlos e não foram distribuídos fora do Rio de Janeiro.

O maestro Moacir Santos em foto do livro "Tempo feliz", do jornalista Renato Vieira, sobre a gravadora Forma — Foto: Divulgação

Definitivamente, a Forma era a cara de Roberto Quartin (1942-2004), um filho de diplomata que perdeu o pai cedo e encontrou companhia nos discos de Frank Sinatra presenteados pela avó. Um sonhador, mas também um sujeito com muita lábia, dado à mitomania, que conseguiu convencer Wadi (herdeiro da Casa Gebara, popular rede de lojas de tecidos) a investir numa gravadora de excelência artística, sem concessões, e depois, quando a falência batia à porta, ainda vendeu a Forma para o sócio.

— Enquanto o Quartin era o cabeça artístico, o Wadi era quem fazia a roda girar financeiramente, e ele só continuou com a Forma porque as dívidas estavam todas em seu nome. Wadi entrou rico e saiu pobre, mas ele tinha muito orgulho de ter financiado isso — diz Renato, que conseguiu com o empresário (morto em 2019) toda a documentação relativa à gravadora.

Elis e Chico Buarque

Depois de uma extensa pesquisa em jornais e de entrevistar “praticamente todo mundo que estava vivo” e que podia contar a história da Forma (entre eles, Wadi Gebara, Sérgio Ricardo e a cantora Dulce Nunes, que acabaram morrendo até 2020), Renato Vieira chegou a algumas histórias muito pouco conhecidas da gravadora. Como a de que jovens talentos do naipe de Elis Regina e Chico Buarque estiveram na mira da Forma. E a de que o saxofonista Stan Getz (que estourara a bossa nova nos Estados Unidos em disco com João Gilberto) chegou a começar a gravar um LP com Baden Powell e uma banda de brasileiros. A história poderia ter sido outra, mas, para Renato, havia sempre um obstáculo intransponível:

— Quem acabou com a Forma foi a realidade brasileira.

Ver na net: https://oglobo.globo.com/cultura/musica/noticia/2022/05/forma-gravadora-durou-apenas-2-anos-e-deixou-obras-primas-de-vinicius-baden-e-moacir-santos.ghtml