terça-feira, 3 de setembro de 2024

Estudos sobre Karl Barth e teologia pública - Studies on Karl Barth and public theology - 1

 

Resumo: Karl Barth (1886-1968) foi um dos mais destacados teólogos do século XX. Sua vasta obra tem sido revisitada por diversos olhares. A teologia pública, nomenclatura que começa a ser utilizada em meados da década de 1970, e ainda em desenvolvimento, oferece espaço para uma releitura de complexos teológicos de outrora. No Brasil, as relações entre teologia e espaço público, bem como a demanda por um discurso público da teologia no âmbito acadêmico, são características que marcam as pesquisas recentes na área. Neste texto, por meio de uma análise bibliográfica, analisam-se diferentes propostas de relação entre Karl Barth e teologia pública, o que resulta na percepção tanto de uma pluralidade de formas de desenvolver essa conexão, quanto de compreensões sobre aquilo que se denomina de teologia pública. Abordar a relevante atuação histórica do teólogo de Basileia, lê-lo como um clássico, ou ainda a emergência de uma tradução pública de elementos ligados à sua base cristocêntrica são modos de atualização do legado teológico barthiano.

Palavras-chave: Teologia Pública. Teologia Política. Karl Barth. Ética teológica.

Abstract: Karl Barth (1886-1968) was one of the main theologians in the 20th century. His vast works have been revisited by various places. Public theology, terminology that started to be used in the 1970’s, and still in progress, offers space for a new reading of yesteryear theological approaches. In Brazil, the connections between theology and public space, as well as the demand for a publica theological discourse in the university are some characteristics that mark recent researches in this study field. The present text, through a bibliographical analysis, explores different ways to relate Karl Barth and public theology, resulting in the understanding that there is a plurality of manners to develop that relationship, and that the works vary on their comprehension of public theology. To investigate Barth’s relevant historical actions, reading him as a classic, and the emergency to translate his Christocentric approach in a public language are some ways to update Barth’s theological legacy.

Keywords: Public Theology. Political Theology. Karl Barth. Theological Ethics.

Introdução [1]

Um olhar da atualidade para o período de Karl Barth (1886-1968) pode resultar na percepção desse importante pensador cristão como um teólogo público ou teólogo político, tanto por sua elaboração teológica quanto por sua atuação pública. Sem pretender estabelecer anacronismos, o que se tem em mente é que a vida e a teologia de Barth podem servir de impulso para se pensar uma teologia pública na atualidade. Efetivamente, esta relação já foi desenvolvida por outros autores. Rasmusson (2005) se ocupa do pensamento de Barth à luz de seu contexto histórico, em específico sua reação ao que chama de teologia de guerra alemã como uma teologia pública. Thiemann (1991), também considerando aspectos históricos, pensa a relação entre fé cristã e racionalidade moderna. Weaver (1998) propõe uma teologia pública que, simultaneamente, possa dar um testemunho missionário a não cristãos e esteja aberta para receber de não cristãos um testemunho acerca do que entende como parábolas do reino. O texto de Laubscher (2007) trata da relevância de Barth enquanto teólogo público para o processo de redemocratização pós-Apartheid na África do Sul, intento também realizado por Senokoane e Kritzinger (2007). Alexander Massmann (2011, 2015), alocado no âmbito das discussões sobre ética barthiana, com ênfase no aspecto da precedência do evangelho conjuga ética e atuação política. Após a análise destes textos elabora-se uma síntese, à guisa de conclusão, acerca do estado da discussão no que tange a relação entre Karl Barth e teologia pública.

A teologia de guerra alemã como teologia pública: os estudos de Rasmusson

O teólogo sistemático sueco, Arne Rasmusson, trata do pensamento de Karl Barth em relação com os movimentos teológicos do início do século XX. Ao comentar acerca da impressão gerada em Barth dos eventos de 1914, em especial que teólogos tenham apoiado a política belicista germânica, Rasmusson destaca que “[...] se alguém ler o que ele [Barth] escreveu naquele tempo, se perceberá que o que ele achou mais ultrajante foi a forma como teólogos usaram Deus para suportar a política de guerra” (RASMUSSON, 2005, p. 512). Nesse contexto, Rasmusson destaca o pensamento de Troeltsch que chega a enxergar o exército alemão como ferramenta de Deus na história, afora o nacionalismo suportado com princípios de fé e a ideia da nação alemã compreendida como encarnação do Espírito (Hegel) na história (RASMUSSON, 2005, p. 512). Compreende Rasmusson, portanto, que é a este tipo de liberalismo que Barth se oporia e procuraria desenvolver uma alternativa (RASMUSSON, 2005, p. 513). Também o apoio à teologia de guerra alemã de Adolf von Harnack, mas principalmente o de Wilhelm Hermann tiveram grande impacto em Barth (RASMUSSON, 2005, p. 514). O nacionalismo era compreendido por Troeltsch como princípio para a ética, e para Herrmann ele teria precedência em relação ao cristianismo. “O evangelho original não tem nada a ver com o mundo da política, ele é sobre Deus e a alma e sobre um reino escatológico”. Desta forma, “ao invés do reino veio a igreja e seu compromisso com a realidade mundial. Na modernidade, este compromisso é uma coisa do passado e cristianismo se tornou um aspecto da vida íntima pessoal” (RASMUSSON, 2005, p. 516). Sobre esses autores, Rasmusson afirma o seguinte:

Ademais, teólogos como Hermann e Troeltsch foram responsáveis por este estado das coisas enquanto fortemente suportaram e desenvolveram estas visões e trabalharam contra qualquer forma de igreja e teologia que poderia ser uma fonte de oposição. Teólogos, neste período, desempenharam um importante papel na discussão pública. Faziam o tipo de teologia pública de influência que hoje sonham os teólogos (RASMUSSON, 2005, p. 517).

É neste contexto, portanto, que deve ser avaliada a reação de Barth ao liberalismo teológico. Assim, “a teologia de Barth depois de 1914 é sua tentativa de compreender-se fora desta desastrosa compreensão de cristianismo” (RASMUSSON, 2005, p. 517). Em última análise, a principal diferença entre Barth e aqueles teólogos são seus pontos de partida para compreender a realidade, enquanto o primeiro pensa a realidade a partir da cristologia, os outros a pensam em chave política (RASMUSSON, 2005, p. 521). Em sua conclusão Rasmusson afirma:

Este debate acerca da natureza da teologia e da teologia pública continua hoje. A maioria das autodenominadas teologias públicas, inclusive algumas barthianas, continuam de alguma forma a teologia representada por Troeltsch, Herrmann e Rade. O ponto de partida implícito ou explícito para eles é uma dada imaginação sócio-cultural, uma narrativa assumida que define a natureza das realidades social e política e providencia descrições e possíveis soluções a problemas. Teologia pública se torna um projeto de mediação, mediando teologia cristã e esta imaginação sócio-cultural (geralmente descrita apenas como “realidade”). Quando se questiona como a teologia pode contribuir na discussão política e social esta imaginação sócio-cultural é assumida. A responsabilidade é vista como ser responsável pela realidade assim descrita (RASMUSSON, 2005, p. 521).

Por fim, Rasmusson compreende que talvez a resposta barthiana não seja decisiva, mas certamente ajudou a pensar a questão. Contudo, para ele, não são os assim chamados teólogos públicos que auxiliam no processo de leitura da atual realidade, “[...] mas pessoas que, da forma mais ampla possível, começam por uma teologia trinitária eclesialmente baseada [...] que Barth auxiliou a renovar” (RASMUSSON, 2005, p. 522).

Certamente a contribuição de Rasmusson ajuda a compreender melhor as razões do radical cristocentrismo barthiano, mas isto não quer dizer que a alternativa encontrada por Barth para a tensão entre teologia e espaço público seja a única possível, como o próprio Rasmusson reconhece. A via eclesial proposta por ele tampouco parece ser a única via possível ou sequer a mais adequada. O liberalismo protestante que reduziu a fé cristã a dado privado, contudo, também se mostra inapropriada aqui. Vale dizer, que ainda menos adequada seria uma teologia de caráter belicista que legitima o que quer que seja a partir de uma narrativa como o nacionalismo. A fé cristã representada na proposta cristocêntrica barthiana, pode ser desenvolvida por outras vias. Os elementos cristocêntricos e trinitários assumidos por Barth podem ser traduzidos em linguagem pública, doando-se ao pensamento acerca da condição humana na atualidade.

A relação entre teologia e cultura a partir de Thiemann

É interessante que o teólogo norte-americano e luterano, Thiemann, em sua obra sobre a construção de uma teologia pública, intitula o capítulo dedicado a Barth da seguinte maneira: Karl Barth and the task of constructing a public theology (Karl Barth e a tarefa de construir uma teologia pública) o que imediatamente remete o leitor à versão inglesa da Kirchliche Dogmatik (Dogmática Eclesial = KD) em que os editores traduzem na KD II e III a ética como tarefa (task) da teologia.

Thiemann se dedica a examinar a teologia barthiana diante do seu contexto histórico, pensando algumas contribuições à teologia contemporânea (THIEMANN, 1991, p. 75). Indica o autor que “para Barth, a fala adequada sobre Deus e a ação política apropriada andam de mãos dadas. Pois, Barth desenvolveu as implicações teológicas de sua visão de revelação em maior detalhamento do que as implicações políticas” (THIEMANN, 1991, p. 82-83). Isto já demonstra o viés de argumentação barthiano da precedência da fé. O que é corroborado, segundo Thiemann, pela rejeição barthiana de um “[...] pacto eterno entre a fé cristã e a cultura moderna”. O que Barth baseia em seu conceito de revelação (THIEMANN, 1991, p. 83). Thiemann toma em alta conta a noção de revelação do teólogo suíço. “[...] Barth não concebe a revelação primariamente como processo pelo qual conhecemos a Deus. Para Barth, revelação denota o conteúdo de nosso conhecimento de Deus” (THIEMANN, 1991, p. 84). Aqui aparece o primeiro ponto humano do desenvolvimento barthiano apresentado por Thiemann, a saber, a revelação enquanto compreensão humana de Deus.

Adiante, Thiemann argumenta que “para Barth, a categoria da revelação não pode ser separada da identidade de Deus, pois a revelação não é nada além do que o ser Deus em forma verbal [...] isto é, o ser interno-trinitário de Deus tornado disponível em palavra e história”. Mais, “se Deus é identificado apenas por meio da revelação, então a teologia deve começar pela reflexão acerca da identidade de Deus, em cristianismo isto significa começar com a doutrina da Trindade” (THIEMANN, 1991, p. 84). Desta forma, há uma proposição de que a porta de entrada para a fala humana sobre Deus seja a doutrina da Trindade. Nota-se cada vez mais que o espaço humano no fazer teológico corre risco de diluição na medida em que se compreende que, em Barth, “[...] a revelação de Deus provê a única base possível para um discurso adequado sobre Deus, pois Deus se tornou disponível a nós em sua una Palavra, Jesus Cristo, nós agora podemos empreender uma interpretação desta revelação” (THIEMANN, 1991, p. 85). Isto é, há uma ação humana na compreensão da revelação, mas está totalmente subordinada às doutrinas trinitária e cristológica. Assim, “a teologia é, para Barth, atividade hermenêutica na qual o teólogo, no contexto da comunidade cristã, busca dar [...] uma fiel redescrição da narrativa bíblica. Teologia é atividade humana por meio da qual a revelação de Deus se manifesta em discurso humano” (THIEMANN, 1991, p. 86). Nesse sentido, a teologia deveria se conformar àquilo que é possível conhecer de Deus, não sendo outra coisa senão intento tutelado de lá para cá. (THIEMANN, 1991, p. 86-87).

A revelação se dá, de acordo com Thiemann, no encontro da auto-interpretação de Deus e na interpretação humana de Deus à luz da tradição bíblica. Apesar dessa decisiva postura de cima para baixo do complexo barthiano, o contexto hermenêutico é salvaguardado. “Para Barth, a teologia é tarefa hermenêutica que começa com um texto que precisa ser interpretado no contexto de uma tradição viva” (THIEMANN, 1991, p. 88). O elemento humano, mesmo que em segundo plano, não deixa de estar presente, e pode ser resgatado numa atualização do pensamento barthiano. Thiemann desenvolve que “ao escolher a humanidade de Jesus, Deus providenciou um acesso sacramental e, em virtude disso, indireto à realidade divina”. Entretanto, “[...] mesmo essa presença sacramental não pode ser conhecida diretamente, pois Deus é conhecido em Jesus Cristo apenas por meio do testemunho da narrativa bíblica” (THIEMANN, 1991, p. 87). Este acesso não direto à realidade divina merece destaque: “Mas este conhecimento é sempre indireto e, em virtude disso, a teologia deve sempre fiar-se nos demasiadamente humanos traços de imaginação, intelecto, e sabedoria enquanto labutamos para oferecer uma fiel representação da revelação de Deus em Jesus Cristo” (THIEMANN, 1991, p. 87). Isto é, não se pode negligenciar o humano na interpretação daquilo que se chama de divino. Assim, “precisamente porque o conhecimento de Deus é indireto que se abre um espaço que pode apenas ser preenchido pelo ato imaginativo do teólogo” (THIEMANN, 1991, p. 88). De forma sintética, afirma Thiemann:

É esta visão da teologia que, creio eu, torna Karl Barth uma figura tão importante para a tarefa contemporânea da teologia. Sua visão do teólogo como alguém que responde fielmente à graça reconciliadora de Deus, sua concepção da teologia como fé em busca de compreensão, sua rejeição de qualquer forma de pacto eterno: estas são as qualidades que estabelecem a contínua relevância da teologia de Barth. As razões para a continuada relevância de Barth são perenes e contemporâneas (THIEMANN, 1991, p. 89).

Thiemann sustenta a relevância de Barth para a atualidade ao compreender que as teologias contemporâneas partem do pacto eterno (eternal covenant) entre fé cristã e razão moderna. Também aos que julgam existir um elemento religioso inerente ao humano compartilhariam desta noção de pacto eterno. Para ele, é necessário que haja uma precedência da graça de Deus (THIEMANN, 1991, p. 89-91). Para Thiemann, mesmo com Barth, se pode notar que o método teológico não representa uma dicotomia entre cultura e fé cristã. O evangelho, isto sim, oferece uma chave de leitura da cultura (THIEMANN, 1991, p. 92). 

O então Professor de Harvard, Ronald Thiemann, apresenta um Barth confessional e eclesial, cuja compreensão de teologia não é outra coisa senão intento à luz da realidade divina que permite ao humano alguma interpretação dela. Tanto a noção de realidade divina quanto a de humano são lidas em chave cristocêntrica, a ponto de que se questione que humano é esse, uma vez que a via de contato pensada está totalmente dependente da noção da humanidade de Cristo. Apesar disso, a partir da proposta de Thiemann, mesmo que em direção diversa, destacam-se três elementos que podem servir para ajudar a pensar um desenvolvimento teológico público: 1. A revelação como compreensão humana (THIEMANN, 1991, p. 84); 2. A teologia como hermenêutica (THIEMANN, 1991, p. 87-88); 3. A imaginação humana como elemento fundamental para o discurso sobre Deus (THIEMANN, 1991, p. 87-88). Estes três pontos levam a pensar um fazer teológico que parte de um corte antropológico; ocupa-se das tradições teológicas escritas (textos sagrados) e não escritas; além de perceber que discurso teológico é sempre discurso criativo e imaginativo.

https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/51826/41035

Dez teses sobre criação e evolução que evangélicos podem apoiar - 2

 

6. Os seres humanos são criados à imagem de Deus e, portanto, são únicos entre as criaturas de Deus. Eles possuem dignidade especial dentro da criação.


A ciência moderna demonstrou que há uma forte continuidade biológica entre os seres humanos e todos os outros animais. Os seres humanos, por exemplo, compartilham 98,5% de seu DNA com os chimpanzés. É cada vez mais difícil, então, afirmar que os seres humanos são qualitativamente distintos do reino animal.

De fato, é surpreendente notar quanta ênfase o relato da criação de Gênesis coloca na continuidade entre os seres humanos e outras criaturas. Quando Deus criou os seres humanos, ele não os fez cair do céu, mas os formou a partir do pó da terra.

E, no entanto, as Escrituras claramente pretendem dizer que algo especial aconteceu no sexto dia da criação, quando Deus criou os seres humanos. A mudança de linguagem é indicação suficiente: de “Produzam as águas abundantemente…” (Gen. 1:20) e “Produza a terra…” (Gn 1:24) para “façamos” (Gn 1:26). Aqui a criação atinge um novo estágio, um ponto alto, e Deus se inclina para a criação da humanidade de uma maneira que é distinta do que foi antes.

A tradição cristã tendeu a localizar essa singularidade na doutrina da Imago Dei, ou imagem de Deus. Definir precisamente o que esta imagem de Deus envolve tem sido uma árdua e maçante tarefa para os teólogos. Mas o ponto básico é bastante simples – a humanidade é dotada por Deus com uma dignidade especial. Embora haja continuidade entre os seres humanos e o resto dos animais, essa criação do sexto dia chamada “humanidade” é única.

7. Não há conflito final entre a Bíblia corretamente entendida e os fatos da ciência corretamente entendidos. Os dois livros de Deus, escritura e natureza, finalmente concordam. Portanto, os cristãos devem abordar as alegações da ciência contemporânea com interesse e discernimento, confiantes de que toda a verdade é a verdade de Deus.


Alguns discordam da noção dos “dois livros” de Deus, o livro das Escrituras e o livro da natureza. Mas a metáfora remonta pelo menos a Agostinho e pode ser encontrada em lugares estimados como a Confissão Belga.

O ponto é que esses dois livros, Escritura e natureza, em última análise, concordam. Às vezes, na história, pensamos que eles discordaram ou estavam em conflito. Isso ocorre porque tanto o livro das Escrituras quanto o livro da natureza requerem interpretação. Hoje queremos afirmar que toda verdade é verdade de Deus – onde quer que você a encontre, seja na Bíblia ou na criação.

Um corolário disso é que os cristãos devem abordar as alegações da ciência contemporânea com interesse e discernimento. Infelizmente, pelo menos na imaginação popular, os cristãos são menos conhecidos por entusiasmo e mais por seu ceticismo em relação à ciência. Mas a verdade é que os cristãos não precisam ficar nervosos com as descobertas da ciência contemporânea – como se a ciência pudesse desenterrar um “invalidador” da fé cristã. Não vai. Não pode.

Talvez tenhamos que conviver com alguma tensão entre o que acreditamos que as Escrituras ensinam e o que entendemos que a ciência está dizendo. Mas os cristãos, enraizados na harmonia final desses dois livros, devem cultivar uma paciência confiante. Lembre-se, agora “vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho…” (veja 1 Coríntios 13:12, NVI). Um dia, tudo ficará claro. Então esperamos, na esperança.

8. A fé cristã é compatível com diferentes teorias científicas sobre as origens, do criacionismo da Terra jovem ao criacionismo evolutivo, mas é incompatível com qualquer ponto de vista que rejeite a Deus como o Criador e Sustentador de todas as coisas. Os cristãos podem diferir (e o fazem) em sua avaliação dos méritos de várias teorias científicas das origens.


A afirmação neodarwiniana de pessoas como Richard Dawkins, de que mutações são aleatórias e que a evolução é, portanto, necessariamente não-guiada ou cega, é um adendo metafísico para a teoria científica da evolução, não uma parte da própria teoria. É uma suposição derivada não da ciência, mas de uma cosmovisão naturalista, que lamentavelmente é considerada por muitos como inseparável da ciência da biologia evolutiva. Os cristãos alegam justificadamente que a ciência evolucionista está sendo usada como pretexto para fazer grandes afirmações filosóficas sobre a inexistência de Deus ou sobre a natureza do mundo ou o que significa ser humano. Além disso, os cristãos estão certos em se opor quando as aulas de ciências são usadas como um púlpito para o naturalismo.

A ideia de evolução “não-guiada” é incompatível com o teísmo cristão. Dentro da cosmovisão bíblica, nada é aleatório. Nem mesmo um pardal cai no chão à parte da vontade de Deus (Mt 10:29). Se, de fato, Deus criou a diversidade biológica que vemos através da mutação e seleção natural, então ele supervisionou o processo a cada passo do caminho. A evolução seria, portanto, um processo completamente direcionado, o meio pelo qual Deus escolheu produzir vida através da história.

No entanto, devemos entender que o suposto conflito entre o cristianismo e a evolução é mais aparente do que real. A fé cristã, em princípio, não está em desacordo com a evolução como ciência, mas com a evolução como visão de mundo. Os cristãos podem e, de fato, avaliam os méritos da ciência da evolução de maneiras diferentes. Tudo bem. Mas a alegação de que a evolução é, por sua própria natureza, oposta ao cristianismo, é simplesmente excedida – não é defensável filosófica ou teologicamente.

Alguns cristãos acreditam que Deus criou o mundo há vários milhares de anos. Eles veem isso como a leitura clara das Escrituras e o que os cristãos acreditaram por séculos. Há outros que levam a Bíblia tão a sério quanto esses, mas veem as evidências científicas um pouco diferente e acham que o mundo é muito antigo – vários bilhões de anos. Aqui está o ponto crucial: os cristãos podem e de fato diferem em sua avaliação dos méritos da ciência contemporânea. Não há problema nisso. O que não está certo, ou o que não é uma visão cristã, é excluir Deus do processo de qualquer forma. Se a Terra é jovem, então Deus a fez jovem. Se a terra é antiga, então Deus a fez antiga. Se os seres humanos vieram de poeira literal, então Deus fez isso. E se os seres humanos compartilham ancestralidade comum com outras espécies, então Deus também assim o fez.

9. Os cristãos devem estar bem fundamentados no ensino da Bíblia sobre a criação, mas devem sempre manter seus pontos de vista com humildade, respeitando as convicções dos outros e não defendendo agressivamente posições em que os evangélicos discordam.


À medida que crescemos na profundidade de nossa compreensão dessas questões importantes, devemos amadurecer em nossa capacidade de nos engajar com aqueles que têm visões opostas. É um sinal de maturidade cristã poder viver com esse tipo de tensão; é um sinal de infância ou adolescência ficar agitado por um mundo que não é assim tão preto ou branco.

Fundamental para isso é a virtude cristã da humildade. Às vezes falamos sobre “precisar de humildade”, como se pudéssemos ligar a humildade como um interruptor de luz. A verdade é que a humildade é uma virtude que só é cultivada com o tempo e com muita paciência e intencionalidade. Também é cultivada apenas em comunidade, com a ajuda e encorajamento de outros. É por isso que o apóstolo Paulo convidou os cristãos a trabalhar arduamente “para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4: 3, NVI).

Na prática, a humildade e o desejo de preservar a unidade eclesial significam respeitosamente ouvir as opiniões dos outros. Isso também significa não agitar pela mudança ou tentar impressionar os outros com suas próprias opiniões. Em uma questão complexa, sensível e contenciosa como as origens, é melhor para os evangélicos de boa vontade não advogar agressivamente por posições sobre as quais os evangélicos discordam.

10. Tudo na criação encontra sua fonte, objetivo e significado em Jesus Cristo, em quem toda a criação um dia alcançará a renovação e a redenção escatológicas. Todas as coisas estarão unidas nele, coisas no céu e coisas na terra.


A criação, em última instância, existe para Cristo. Ele é sua fonte, seu objetivo, seu significado. As Escrituras descrevem Jesus com estas palavras elevadas: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste” (Col 1: 15-17, NVI).

Como Mark Noll argumentou, a pessoa de Cristo fornece motivos para um aprendizado sério, e não menos nas ciências. Existe uma base cristológica para o nosso engajamento com a doutrina da criação e com o mundo natural.

Mais do que isso, confessamos que Cristo é também o telos desta criação. Não apenas seu significado, mas seu objetivo – seu redentor e a fonte da resolução apoteótica da criação. Ou, como a escritura tão enfaticamente diz, a vontade de Deus foi estabelecida “em Cristo, isto é, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos” (Ef1: 9-10, NVI).

 https://cristaosnaciencia.org.br/teses-criacao-evolucao/

Todd Wilson é o presidente e co-fundador do Center for Pastor Theologians. Este artigo é adaptado de seu capítulo, “Mere Creation”, em Creation and Doxology: The Beginning and End of God’s Good World (IVP Academic), que ele co-editou com Gerald Hiestand.

Dez teses sobre criação e evolução que evangélicos podem apoiar - 1

 Por Todd Wilson, Cristianity Today, 4 de janeiro de 2019.

Não muito tempo atrás, um amigo pastor ligou pedindo ajuda. “Estou pregando sobre Gênesis 1-11”, disse ele, “e eu preciso de alguns conselhos sobre toda aquela coisa de criação e evolução”.  Havia ansiedade em sua voz. Ele não tinha certeza de como ia ser pregar sobre as origens no contexto de sua igreja – ou se ele sobreviveria! E dá pra entender o porquê. Provavelmente não há nenhum assunto mais controverso entre os cristãos evangélicos do que esse.

Vários anos antes deste episódio, circulou um boato em minha congregação que dizia mais ou menos assim: “O pastor Todd acha que viemos dos macacos!.” Minha congregação estava, historicamente falando, do lado conservador em muitas questões teológicas, inclusive essa. Em seu passado não muito distante, a igreja havia abraçado o criacionismo de seis dias da Terra jovem como sua posição de ensino (não oficial). Não é nem necessário dizer que o fato de que seu relativamente novo e jovem pastor defendia uma versão de criação evolutiva causou um certo desconforto congregacional.

Essa temporada cheia de tensões na vida de nossa igreja proporcionou uma boa ocasião para nos envolvermos em conversas sérias sobre as origens. Nós tivemos que lidar com nossos limites doutrinários como uma igreja local: que grau de diversidade permitiremos? E dada a nossa diversidade, o que ainda podemos afirmar juntos como um núcleo doutrinário unificador?

O resultado foi o desenvolvimento de uma série de dez teses sobre criação e evolução que acreditamos que (a maioria dos) evangélicos podem (em sua maior parte) afirmar. Nós não estávamos procurando por perfeita unanimidade. Nosso objetivo final era manter a “unidade do Espírito através do vínculo de paz” (Ef. 4: 3) e priorizar o evangelho como “de primeira importância” (1 Co 15: 3). Era importante para nós chegarmos a uma posição sobre criação e evolução que estivesse de acordo com aquele velho ditado cristão que diz: “No essencial, unidade; no não-essencial, liberdade; em todas as coisas, caridade.”

Neste ensaio, compartilho nossas dez teses sobre criação e evolução – ou o que chamamos de “Mera Criação”. Isso não é o que criacionistas da terra jovem acreditam ou o que criacionistas da terra antiga acreditam ou o que os defensores do design inteligente acreditam ou o que os criacionistas evolucionistas ou evolucionistas teístas acreditam, mas sim o que a maioria dos cristãos (evangélicos), ao longo da maior parte do tempo, tem acreditado ou deveriam crer a respeito da criação.

1. A doutrina da criação é central para a fé cristã.

Historicamente falando, os evangélicos têm tido dificuldades para levar a doutrina da criação a sério. Nosso amor tem sido soteriologia e cristologia, não criação. Mas nossa negligência da doutrina da criação não é apenas porque nossa atenção esteve em outro lugar. Por vezes, minimizamos a doutrina da criação em prol da coesão eclesial. Classificamos a doutrina como uma questão “secundária” ou “terciária”, na tentativa de preservar a unidade da igreja. Por que romper a comunhão sobre uma questão não diretamente relacionada à missão da igreja ou à salvação das almas?

Um dos pontos fortes do evangelicalismo é sua capacidade de forjar uma causa comum a partir da diversidade teológica. E, no entanto, o perigo é que nossa tolerância pelas diferenças doutrinárias se torne uma indiferença à doutrina. Naturalmente, algumas doutrinas estão mais próximas do núcleo ou mais próximas da periferia do que outras. A angelologia não é central. Tampouco certos aspectos da escatologia. Mas a doutrina da salvação é; da mesma forma, a doutrina de Deus, a doutrina do Espírito e a doutrina de Cristo.

Devemos acrescentar nesta lista a doutrina da criação pela simples razão de que ela aborda alguns dos fundamentos de nossa fé – a razão pela qual e a natureza do mundo que Deus criou, bem como a razão pela qual e a natureza das criaturas que Deus criou, incluindo aquelas criaturas feitas à imagem de Deus.

2. A Bíblia, tanto o Antigo como o Novo Testamento, é a Palavra de Deus, inspirada, dotada de cabal autoridade e sem erro. Portanto, tudo o que a Escritura ensina é para ser acreditado como a instrução de Deus, sem negar que os autores humanos das Escrituras se comunicaram usando as convenções culturais de seu tempo.

Em discussões sobre as origens, eu tenho achado muito útil começar com uma defesa a plenos pulmões da inspiração, autoridade e inerrância da Bíblia. Isto é especialmente verdadeiro para aqueles que são simpáticos à criação evolutiva, já que às vezes eles são injustamente acusados de não levar as Escrituras a sério o suficiente.

Eu também descobri que os cristãos que rejeitam um relato evolutivo das origens não o fazem principalmente porque acham a ciência pouco convincente, mas porque chegaram à conclusão de que tal visão inevitavelmente enfraqueceria a autoridade da Bíblia. O medo é que abraçar a evolução leve a comprometer a autoridade bíblica.

A força desta tese é que, qualquer coisa que a Bíblia ensina, Deus ensina. Tudo o que a Escritura asserta (afirma como assertiva, assevera, diferentemente do que a Escritura meramente “diz”) deve ser acreditado como o que Deus pretende dizer. Não é uma opção viável para aqueles comprometidos com a autoridade das Escrituras dizer: “Eu sei que a Bíblia ensina isso, mas eu não acredito nisso”.

Em dizendo isso, no entanto, não queremos dizer que Deus “driblou” ou “evitou” os autores das Escrituras. Nenhuma ênfase em uma “visão elevada” da Bíblia deve nos levar a subestimar inadvertidamente o lado humano da equação. Como bem diz D.A. Carson, “A Bíblia é um documento surpreendentemente humano”. Também não queremos sugerir que uma visão robusta das Escrituras não deixa espaço para os autores comunicarem as verdades divinas através das convenções culturais de seu tempo.

Quando lemos a Bíblia, e não menos quando lemos os relatos da criação em Gênesis 1–2, queremos conhecer a intenção do autor expressa no texto escrito, mesmo que isso não esgote um tratamento fiel das Escrituras. No fundo, queremos saber o que esse autor específico quis dizer, nesse momento específico, com essas convenções culturais específicas.

3. Gênesis 1-2 é de natureza histórica, rico em arte literária e teológico em propósito. Esses capítulos devem ser lidos com a intenção de discernir o que Deus diz através do que o autor humano disse.

A partir daqui saímos do que as Escrituras são em direção ao que as Escrituras dizem. É aqui que os clássicos problemas começam a aparecer.

Naturalmente, há muito o que debater sobre como interpretar Gênesis 1–2. Com demasiada frequência, a questão é colocada como um “ou-ou”. Gênesis é fato ou ficção? É histórico ou teológico? Revela arte e composição literária ou está descrevendo eventos históricos reais?

Precisamos de uma abordagem equilibrada para a questão do gênero literário de Gênesis 1–2. Isso significa considerar o fato de que o texto é uma composição cuidadosamente elaborada, com todos os três elementos – literário, histórico, teológico – presentes.

Claramente, o texto tem a intenção de ser lido como um relato histórico, pelo menos em algum nível. Não se trata de mitologia antiga nem folclore. Tem mais coisas acontecendo ali. No entanto, uma leitura mais atenta desses textos revela uma rica arte literária. Este não é o tipo de reportagem de “apenas os fatos” que você encontra em um jornal.

Contudo, parece claro que o objetivo do autor é, em última análise, teológico – dizer algo sobre Deus, a natureza do mundo, a identidade e o destino dos seres humanos criados à sua imagem (Gn 1:27). O ponto não é, em última análise, sobre supernovas ou gases de efeito estufa ou horticultura, mas sobre “Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra”, como o Credo Apostólico coloca.

É claro que afirmar que Gênesis 1–2 é de um gênero composto não resolve imediatamente questões de interpretação. Os estudiosos, sem dúvida, continuarão a debater o significado desses capítulos. Mas ao buscarmos um terreno comum, deveríamos pelo menos começar compartilhando um compromisso com a intenção autoral e com um acordo de que o gênero de Gênesis 1-2 é complexo e possivelmente múltiplo (combinado).

4. Deus criou e sustenta tudo. Isso significa que ele está tão envolvido em processos naturais quanto em eventos sobrenaturais. A própria criação fornece evidências inequívocas da obra de Deus.

Qualquer conversa sobre origens envolve pressuposições ocultas sobre quem é Deus, como é o mundo que ele criou e como Deus interage com esse mundo. Por exemplo, nossa visão de Deus é frequentemente mais deísta que teísta. Em nossa era secular, até mesmo os cristãos estão acostumados a ver o mundo de maneira mecanicista ou materialista – achamos fácil afirmar que Deus está envolvido em ressuscitar alguém dos mortos, mas nós também facilmente escorregamos em padrões de pensamento que excluem Deus do funcionamento rotineiro da natureza, como a rotação das estrelas, a formação de nuvens ou a grama à medida que cresce. Isso é “apenas a natureza fazendo as suas coisas.”

Esse naturalismo implícito limita nossa imaginação teológica de maneiras que não ajudam. Precisamos evitar ser essencialmente ateístas na forma como vemos o mundo “natural”, como se Deus não estivesse envolvido em todos os processos que os cientistas gostam de estudar – coisas como divisões celulares, fotossíntese ou condensação. Como Karl Barth diz da interação providencial de Deus com sua criação, “Ele coexiste ativamente com ela, em uma ação que nunca cessa e não deixa quaisquer brechas”. Ou considere o Salmo 104, que celebra Deus trabalhando em praticamente tudo.

Um resultado disso é que a própria criação fornece evidências inequívocas da obra de Deus. Como o salmista declara: “Os céus declaram a glória de Deus” (Sl 19: 1, NVI). Ou, como o apóstolo Paulo coloca, os “atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Romanos 1:20, NVI).

5. Adão e Eva eram pessoas reais em um passado real, e a queda foi um evento real com consequências reais e devastadoras para toda a raça humana.

Este é provavelmente um ponto de discórdia para alguns. Um número crescente de criacionistas evolutivos evangélicos está desistindo da crença em Adão e Eva como pessoas reais em um passado real. A evidência genética, pelo menos como agora a entendemos, torna a crença em um par humano original duvidosa, se não impossível.

Eu suspeito que em 20 anos, o apoio para Adão e Eva como pessoas reais em um passado real será uma visão minoritária mesmo dentro do evangelicalismo. Se isso acontecer, continuo confiante de que a fé cristã sobreviverá, embora isso exija alguma reconfiguração de nossas mais profundas convicções.

Dito isso, eu pessoalmente não acho a evidência genética convincente o suficiente para rejeitar a crença em um Adão e Eva reais em um passado real. Admito que a evidência está aumentando e, nesse estágio, parece (para meu olhar destreinado) impressionante. Mas duas convicções bíblicas me mantêm amarrado à histórica convicção cristã sobre o par humano original. O primeiro é o testemunho da Escritura, especialmente a presença de Adão nas genealogias (Gênesis 5; Lucas 1) e na tipologia de Adão-Cristo de Paulo em Romanos 5. Ainda mais convincente é a ideia de que a visão cristã da salvação parece depender da doutrina do pecado original e da queda como um evento, o que por sua vez requer que uma pessoa real tenha transgredido e assim mergulhado a humanidade em um estado de pecado do qual ela precisa de redenção.

Pode ser que cristãos fiéis desenvolvam maneiras bíblicas legítimas e teologicamente sensatas de explicar o evangelho à parte de um Adão e Eva reais. Mas até lá, a sabedoria está em manter um espírito de conversa engajada sobre esta questão.

 https://cristaosnaciencia.org.br/teses-criacao-evolucao/

domingo, 28 de julho de 2024

Erundina e suas virtudes

 MUDANÇA

Ex-prefeita paulistana escolhe até início de outubro o novo partido
Erundina decide deixar o PT e pode entrar no PSB

CARLOS EDUARDO ALVES
da Reportagem Local


A ex-prefeita paulistana Luiza Erundina está deixando o PT. O anúncio deve ser feito nos próximos dias.
Erundina ainda não decidiu qual será sua nova legenda. Se quiser disputar algum cargo nas eleições de 98, será obrigada a optar por um partido até 3 de outubro próximo.
O caminho mais provável de Erundina é o PSB. Lá já está o deputado estadual paulista Pedro Dallari, um dos seus homens de confiança. Dallari trocou o PT pelo PSB recentemente.
A ex-prefeita praticamente abandonou as atividades petistas depois de sua campanha derrotada à Prefeitura de São Paulo. Era membro da Executiva do partido, licenciou-se e não mais mostrou interesse em voltar.
Na convenção nacional do PT encerrada no último fim-de-semana no Rio, Erundina foi a única estrela do partido a não comparecer. Na ocasião, começaram a circular rumores de sua saída.
Os problemas de Erundina com o PT remontam à sua administração municipal (89 a 92) e se agravaram com a sua ida para o ministério de Itamar Franco, quando teve seus direitos políticos suspensos no partido.
A condução da última campanha de Erundina foi criticada por Luiz Inácio Lula da Silva, o que elevou em mais um tom a reconhecidamente tensa relação entre ambos.
Hostilizada pela ala esquerda do petismo, que não perdoou a campanha de 96 pelo slogan "O PT que diz sim", e sem disposição para participar da luta interna ao lado do setor moderado, Erundina chegou à conclusão de que não mais teria espaço na legenda.
O PT trabalhava com a idéia de uma candidatura da ex-prefeita à Câmara dos Deputados em 98.
Nos planos da cúpula, ela seria a "puxadora" de votos da lista que o partido vai apresentar para as vagas na Câmara.
Nos últimos meses, quando ficou evidente que o divórcio com o PT era inevitável, Erundina passou a ser assediada por PSB e também pelo PPS.
O senador Roberto Freire (PPS-PE) várias vezes citou o nome da ex-prefeita como dona do perfil ideal para comandar a implantação em São Paulo de um sonhado partido da chamada "esquerda moderna".
O resultado da convenção petista, em que ficou claro que nenhuma alteração profunda vai ocorrer no PT sem o aval da ala radical, sepultou a esperança de Erundina de "oxigenar" a legenda.
Com a saída da ex-prefeita, o PT perde seu segundo nome de expressão em menos de um mês.
O primeiro cacique a abandonar o barco foi o governador do Espírito Santo, Vitor Buaiz, que se mantém sem partido.
Na prática, o PT perde também uma das suas duas únicas lideranças "boas de voto" na capital paulista. A outra é o senador Eduardo Suplicy.

Ver na net:

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Ícones 90tões

   

Arsylene, entre eu e minha esposa
e Isis, que já está em casa.

   Ícone. É uma marca indelével. Isso mesmo. Vou carregar nos termos arcaicos. Isso porque lá vão 90 anos. Fazendo a conta, vai dar na década de 30 do século passado.

 Minha mãe nasceu em 1930. Viva, hoje, seriam 94 anos. Poderia ser, visto que sua mãe, minha avó Eunice, partiu para casa aos 96 anos.

  Este três que aqui menciono são ícones. Chegaram aos 90 anos, marcando a vida de muitos. Principalmente, a minha. Arsylene, minha professora de igreja.

  Com ela, além das lições bíblicas, já aos 13 anos eu participava do coral dos Juvenis. Era a União Juvenil da Igreja Evangélica Congregacional de Cascadura, da qual ela foi membro fundadora, desde 1953.

   Outra mulher é d. Cleuma, essa a minha professora do Admissão, minha 6ª série primária, em 1968, na escola da Rua Cônego Tobias, no Meier. Aquilo que era escola e aquela que era uma professora.

   E por último, last, but not least, o digníssimo diácono Isaías, um marco na Igreja Evangélica Congregacional de Cascadura, onde está firme, até hoje, mesmo após as mudanças que houve desde que encerrei, em 1994, meu pastorado ali.

   Não é qualquer tempestade que assuta esse três ícones. Isaías Silva, Arsylene Jardim e Cleuma Brasil. 90 anos. Marcas potenciais. Já sentei com os três, para contar pérolas da existência deles.

   Há textos sobre cada um deles neste blog. E outros mais. Porque esse tesouro não se limita somente aos três aqui mencionados. Mas menciono, pela relevância que têm, juntamente com esses outros, na minha vida.

  Isaías muito me ajudou deslocando-se de Jacarepaguá, onde reside, até Copacabana, onde pastoreei, juntamente com Cascadura, entre 1992 e 1994. Aliás, Largo do Pechincha-Copacabana não era nada, em distância, para esse easy rider (sem/com destino), em suas viagens de fusquinha.

    E não há como falar dele, sem mencionar seu poder cativante de amizades. Com meu pai Cid, com Heraldo, meu sogro, e com outro herói de fé, o Dagoberto. Ter Isaías como amigo, ouvir suas histórias e partilhar de suas conversas, nada mais gratificante nesta vida. 

   Enquanto eu ocupava o púlpito nesta, ele se deslocava até àquela, para compensar a ausência do pastor. E que conteúdo. Isaías é bom de ouvir, sejam que histórias contar, que sermões pregar, que conselhos, de sabedoria, conceder.

   Cleuma, nas idas Rio Branco, AC, ao Rio de Janeiro, RJ, entre os anos de 1998 e 2013, quinze vezes, pelo menos, de carro, percorrendo cerca de 4.200 km, às vezes mais, às vezes menos, eu achava Cleuma e a convocava para as reuniões de família, no Meier.

Eu e minha querida professora
do Admissão Cleuma Brasil

   Sua vida dá um livro. Mulher de valor, trabalhou em meio mundo, fosse em cargos federais ou estaduais, formada como professora e assistente social, mulher negra de fibra, destemida, inteligente e sagaz, marca por onde passa.

   Você a encontra pelo Meier, acessando toda a terça-feira, a feira livre da Galdino, bem defronte ao prédio onde minha mãe residia e onde havia esses encontros de finais de ano, nas confraternizações em que seria possível encontrar Cleuma e Isaías reunidos.

   Arsylene visito também sempre que apareço pelo Rio. O sorriso é de menina, nunca mudou. Daquele tipo de pessoa que atravessa a existência enfrentando o que der e vier. Se forem provações, vai superar e ensinar como vencê-las.

   Caso seja no intervalo entre elas, vai reger a vida como fazia em nosso coral de juvenis, na década de 70 do século passado. Essa garotada hoje já é de avó, mas sorte se, em sua vida, não esqueceram nem dos cânticos, nem das lições de d. Arsylene na antiga igrejinha de infância.

   Por falar nela, eu peço desculpas, se alguém daquela geração ler e, por engano, pensar que esqueço alguém aqui ou peco em não mencionar. Mas esperem. A própria irmã Arsylene listou todos.

   Isso mesmo: tenho uma relação, com a caligrafia dela, mencionando os membros de Cascadura, pelo menos nesse período de 1953 a 1994. Pela boa matemática, são 41 anos. E contando com o ano derradeiro, quando meu filho Isaac nasceu, tendo eu vindo para o Acre um ano depois, são 42 anos de história.

   E eu acho que sou um dos mais antigos, tendo lá chegado em 1966. Talvez tenha sido, naquele coral da União Juvenil, o mais velho, a não ser que Roberto, o mais velho de Isaías, me tenha ultrapassado.

   Esperem, porque a lista de ícones é maior. Alguns já em casa, como minha própria mãe, e até mesmo pais meu e de outros irmãos. Todos ícones. Fico devendo um texto sobre eles.

   Porque desfilam em nossa memória. E que memórias suaves. Foram nossos pais, além de alguns deles biológicos, também o foram na fé. Não. Não eram, como nos mesmos não somos, perfeitos. Não eram. Não somos. Por isso mesmo são nossos autênticos pais na fé.

   Exatamente porque a fé existe e tem um autor, que é Jesus, para ser compartilhada. E a nós ser aplicada a perfeição de Deus. Ele deseja que sejamos imitadores dEle, como filhos amados, e andemos em amor como Jesus, o Filho, andou.

   Saúdo, neste texto, esses meus três ícones: Arsylene, Cleuma e Isaías, noventões amados. Grato a vocês, por ser dádiva de Deus e por marcar tanto e tão positivamente a minha vida e tantas outras. 

 Diácono Isaías em Cascadura, dia de Santa Ceia, 
com o Pastor Maurillo Neves Moreira.

sábado, 13 de julho de 2024

Simplesmente e tremendamente Dora

 

¹² "Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio." Sl 90.

    Uma oração. Deus atendeu essa petição na vida de nossa querida chefe. Carinhosamente assim chamada e assim amada.  Você é uma mulher sábia.

  Creio que gratidão é outra palavra essencial, que todos nós colocaríamos na frente. Porque nossa dívida de gratidão com você é enorme.

  Porque cumpre suave o seu modo de liderar. Não quer dizer que fuja a sua tarefa, não, porque é enérgica sempre que necessário. Porém nunca ofensiva.

   Valente. Corajosa. Lutadora. Defende Anos Finais como leoa. E seu jeito é que cada um seja regente de si. Não há modo mais efetivo de delegar responsabilidades.

  Creio que sua origem, da qual fala com tanto orgulho, é raiz de seus principais valores. Beira rio, sombreado de mata, casa acolhedora, família. De lá traz suas sementes.

   Não poderia ser outra que não Mestra. Porque sonha transmitir a tantos, a muitos tudo que aprendeu. Não só da ciência, que também é essencial, mas dos valores, sem o que nenhuma ciência prospera.

   Esses valores ela põe na frente. E aplica em sua vivência. Dora não tem meias palavras, somente inteiras. Nunca saberemos o que já fez em nossa defesa.

  Você transforma em vivência prática, com extrema competência tudo o que a academia te deu. É uma virtude de poucos assim proceder.

   E temos aprendido com você não ser pedantes, mas reunir tudo o que sabemos e aprendemos, para pôr, com efeito e propriedade, no modo como vamos compartilhar.

  Educação precisa ser assim, o máximo proveito com simplicidade, humildade e eficácia. Desafio e dinâmicas constantes. E muito sonho.

   Não vai dar para dizer tudo. Os nosos amigos vão acrescentar. Mas encerro destacando uma época triste e traumática de 2020-2021. A sua coragem sobressaiu.

   Você é fibra. Veia pulsante. Enfrentou e venceu. Você se pôs em risco. Regeu e liderou via net, zap e todas as mídias. Foi um tremendo salto de qualidade.

  Em meio a uma situação tão aflitiva e alarmante, houve chance de espalhar esperança. E Dora venceu. Você é a nossa medalha.