terça-feira, 25 de julho de 2023

Combinado: conto curtíssimo

    Irritadíssima estava. Apressada, naquela manhã, tanto quanto nas outras, porque era hiperativa, cortara, pela direita, o carro de um desavisado.

   Grosso. Grosso, aumentou o tom, você é um Grosso. Estúpido. Meu Deus! Ai, meu pé. E olhou de novo para o rapaz. Não enxerga, comprou essa carta?

   O rapaz era calmo. Vamos resolver, vamos resolver. Na calma, tudo se resolve. Calma! Calma! Já ela, gritava. Porque não é o senhor. Eu vou retirar sua Biz. Já chamei o SAMU... Quem mandou, pra que SAMU?

   O seu tornozelo está luxado. Vamos liberar o trânsito aqui e aguardar o socorro. Posso ajudá-la? Tira a mão! Tira a mão! Ele ia dizer então vire-se. Mas disse só com o rosto, fazendo uma cara de desagrado. Ela notou.

   Levantou-se num pé só. Ele foi ajustar o carro à frente. Ela quase cai. Amparada por um popular. Rosto de dor. Ele empurrou a porta do carro. Veio ver. O cara que a amparava olhou para ele, como que reprovando, que fosse ajustar o carro, largando a moça ao solo.

   Ele justificou-se, ela não quis minha ajuda. Ela fez cara de contrariedade de novo. O rapaz a amparou, para sentar-se ao meio fio. Ela tonteou. Mais do que depressa, ele correu, sentou antes, amparou-a ao colo.

   E ficou assim, esperando a ambulância. Chegaram. Os socorristas foram reanimá-la. Ela assustou-se, viu o rosto do homem. Calma, disse a socorrista. Ela fez feição de incômodo. O outro já dizia houve fratura.

   Ela olhou os rostos, encontrou o do homem, fez cara raivosa de novo. Ia dizer alguma coisa, mas os atendentes já a recolhiam para pôr na maca. Fique tranquila. Cuido de sua moto. Foi o que ouviu por último, ainda meio atordoada.

[...]

   No hospital ele encontrou as duas. O mau humor dela foi patente. Meu Deus do céu. Eu mereço. A amiga ouviu, então olhou na direção de quem vinha, era ele. Gostou do serviço?

    Que isso, Nita? Que isso o quê? O responsável por isso é ele. O homem estatelou e, a princípio, ficou calado e sério. Foi sua forma de demonstrar o desagrado.

   Para logo emendar. Sua Biz está na oficina de um amigo meu. Você tem previsão de alta? Ele apronta em três dias. Por causa do movimento. É a melhor da cidade.

   A amiga olhou para ela e voltou o olhar ao outro. Acho que esperava uma manifestação da outra. Não houve. Então, melhoras, ele disse. A amiga sussurrou agradece. Agradecer o quê? Ter estragado meu dia? Meu dia não, minha semana.

   O homem, que já fazia menção de sair, voltou, para dizer: Mocinha, você não sabe de nada. Ia ser uma colisão frontal. A caminhonete, que vinha de frente, gesticulou, didaticamente, com a mão, desviou sei lá do quê, na nossa direção. Eu tive de sair do curso dela.

    E cegueta que é, não me viu, esbravejava. Você não tinha nada que ultrapassar pela direita e sabe disso, espertinha. Ele ia continuar. Mas o espertinha depois do mocinha a irritou muito.

   Pois é, "espertinho", falou, com afetação, você é um grosso na direção. Comprou a carta, só pode ser. Ou vive no mundo da lua. Do que a caminhonete desviou? Ora eu sei lá, aí quem se encrespou foi ele.

   Menina, o lado direito fica livre para esse tipo de manobra de emergência, entendeu? Não era para estar ocupado por você com sua motinha. Isso ele falou com tom elevado.

    Vocês tem mania... Vocês tem mania, ela repetiu com deboche. Estou perdendo o meu tempo. Vou deixar no posto de enfermagem o número de meu amigo. A culpa da colisão foi sua, mas os prejuízos, na sua  moto e no meu carro, aliás, acima dos seus, já estão assumidos por mim. Eu só passei aqui para ver como você estava e para dizer isso. Passar muito bem. E adeus.

    Virou-se e saiu. E o acréscimo, desnecessário, desse "muito", que ele pronunciou, fez com uma modulação que expressava toda a sua irritação. Puxa, Nita, a amiga comentou. Puxa, o quê? Puxa, o quê? É um grosso.

   Educadíssimo. Veio saber como você estava e ainda dizer que assumiu... Não deixou a amiga terminar. Consciência pesada. Sentimento de culpa. Olha, Nita, eu acho que ninguém quer colisão, como ele falou. Nem você e nem ele.

   Mas ele assumiu porque sabe que o erro foi dele. Não me viu. Por isso, imprensou na calçada. Ele não tinha jeito, Nita. Não viu ele dizer? Que não tinha, que não tinha. Depois que fez a besteira, vem se justificar.

   Bem. Não vou discutir com você. Vou pro trabalho. Algum recado para a chefe? Não. Agradece a ela a atenção. Aqui não sei quanto tempo vai demorar. Eles dizem que pode até ter cirurgia. Pra encanar direito esse osso aí, terminou, apontando a extremidade do pé direito.

    Está bem então. Tá. Desculpe qualquer coisa. Estou irritada com tudo isso. Está mesmo. Estou te desconhecendo. Vê se depois liga para o rapaz e se desculpa. Ah, sim, eu, euzinha vou me desculpar. Ele que tinha...

    A colega interrompeu: Vocezinha nem deu tempo para ele falar nada. Foi grossa o tempo todo. Um rapaz simpático como aquele. Você só deu bordoada. Ah, estou revoltada. Não era para ele fazer essa besteira.

   Eu acho, querida, que você está é mesmo chateada sabe com o quê? Com o teu erro de cálculo. Como assim, a outra interveio? Você não quer admitir que foi um erro de cálculo seu. Que a sua manobra, queridinha, que a sua iniciativa, você, toda despachada, não deu certo. Quer dizer, não era para ele guinar desse jeito, mas ele guinou. Foi a emergência que ele falou.

   Ah, vá. Beijo, amiga. Você quer que eu pergunte alguma coisa ao médico? Hum, nem vai estar aí. Falaram que vão radiografar. Para depois dizer se vão fazer cirurgia. Ah, só pega o telefone do dito cujo, falou por último com modulação.

   A amiga sinalizou, ah, ainda bem. Se desculpa com o rapaz. Vou pegar. Passou no posto, pegou o número, retornou ao quarto, repassou à amiga. Estressadinha. Nem me fala em diminutivos. Ele me irritou! Riram a duas. Trata ele direitinho. Aaaannnnhhh. Fez uma careta. A amiga deu adeuzinho e sorriu.

[...]

    Ligou. Ademar, boa tarde. Nome horrível, de velho, ela pensou. Boa tarde. Aqui é Nita, quer dizer Anita, a garota que você atropelou. Silêncio do outro lado. Ela também hesitou. Esperava reação. Não veio. É que eu queria te agradecer. Ah, sim. Certo. Não tem de quê. Silêncio. Por favor, seu Ademar, eu também queria lhe pedir desculpas por minha reação. Mas o Sr vai compreender minha situação. Estressei legal. Perdi uma semana de trabalho. Eu ganho por entrega feita. O Sr...

   Ela ia continuar, dizendo que ele estava com o carrinho dele, numa boa, arranhadinho, mas trabalhando normal. Enquanto que ela, ali, de molho. Mas só pensou. Não falou. Lembrou da amiga. Sim? Ah? A senhoria estava falando. Eu? Sim. Ah, sim, é... me desculpando.

   Senhorita Anita, a Sra tem razão em estar  chateada, isso é evidente. Eu também estive e estou. Mas eu acho que devemos superar. Já discutimos o suficiente. E a senhorita pode continuar a contar comigo em todo o tipo de ajuda. Já tenho feito, e vou continuar fazendo.

   Ela ia dizendo, de novo, que era problema dele terem se chocado um com o outro daquela maneira. Lembrou-se de novo da amiga. Muito grata. Nem sei como lhe agradecer. Silêncio. Bem, senhorita. Por favor, interrompeu ela: vamos parar com esse lance de senhorita? Certo. E você para com o lance de senhor. Está combinado.

    Despediram-se. Ufa! Ela falou. Mas, mais tarde, quando contou para a amiga, ela comentou que bom que estavam se entendendo. Trocaram informações sobre o trabalho de uma, os resultados do exame da outra. Não seria necessária a cirurgia. Apenas mudariam o tipo de imobilização.

   Fizeram assim. Ela penou de dor. Chorou. E por acaso, a amiga havia cruzado com o homem na rua. Cidade pequena. Trocaram ideias. Sua amiga é geniosa. Ela riu. Anuiu, mas replicou que tinha bom coração. Magnânima.

   E notificou que a amiga não precisaria de cirurgia. Que talvez saísse ainda hoje do hospital. E se ele não poderia levá-la a casa. Deu o endereço. Explicou onde ficava. Ele sabia mais ou menos. Ficou combinado.

   Pelas 14h ele chegou à enfermaria onde Anita não o esperava. Ué! Ela exclamou. Ah, não: não acredito que aquela cretina fez isso comigo. O homem apenas deu de ombros com uma careta no rosto.

    Ela me paga. Mas não vou mesmo incomodar o se... você. Não faz sentido. Calado estava, calado ficou. Posso ajudar? Ela fez cara de dor. Justificou. Põe pra baixo, ele dói. Está inflamado.

   Ele se aproximou para ver. Ela, pela primeira vez, viu-o assim perto. E leu, na expressão da face, descontentamento dele por toda essa situação dela.  Então, ela como que se assustou. Talvez com ela mesma, que não havia notado toda a complacência dele.

   Posso amparar você? Então se olharam, cara na cara, pela primeira vez. E demoravam mais do que o habitual, nessas horas. Ela então falou, olho no olho, está doendo muito. Ele ajudou, ela recostou na cama, ele, com todo o cuidado, repôs o tornozelo fraturado de volta.

   Vou falar com o médico. Acho que não vai encontrar, ela disse. Saiu. Demorou. Retornou com um enfermeiro. Fez perguntas sobre dores. Disse que elas cessariam com os remédios. Mas o homem argumentou que, com esse grau de dor, não havia nem como transportar.

   O enfermeiro então saiu. Ele perguntou pelas dores. Estou te incomodando e te ocupando. Aquela lesada da Tina me paga. Não tinha de mandar você vir aqui. Ela que está te explorando. O se... você tem responsabilidade.

   D. Anita, no momento, minha prioridade é você. Ela fixou os olhos nele, como que para entender direito o sentido dessa afirmativa, mantiveram-se olhar fixo os dois, para ela logo emendar muito grata.

   Para logo entrar o enfermeiro, caso o médico passe agora, pela noite, ele avalia, caso não, você pernoita e amanhã ele vê. O homem havia se voltado para ouvir, agradeceu, ela junto, o enfermeiro voltou da porta.

   Ele estendeu a mão, oferecendo-a a ela, que correspondeu, estendendo a sua, ele a tomou, apertou com suas duas mãos e, antes de devolver, levou aos lábios e deu um beijo, nem rápido e nem demorado, suficientemente significativo.

   Suavemente lhe devolveu a mão. Amanhã venho te buscar. Ela demorou olhando. Para logo dizer: eu espero. Riram um para o outro. Era a primeira vez que sorriam um para o outro.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Resignação: conto curtíssimo

 Saiu à sacada. Foi fumar. Dizia que havia largado: "Não. Larguei o cigarro". Dizia. Mas havia pedido um no corredor, ao colaborador da faxina.

   Havia uma varanda contígua à enfermaria. Portanto, saiu a fumar nela. Olhava à frente, noite alta, olhava a brasa do cigarro, expelia e também via a fumaça.

   A irmã era terminal. CA. Trabalhara a vida toda. Cargo na justiça. Salário bom. Por isso, podia pagar plano de saúde robusto. Estavam ali.

   Família muito unida. Os dois, único casal de filhos, solteiros. Melhor, solteirões. Ele já tivera uns casos. Mas concluiu que nem para casos servia. Era raro, não, raríssimo procurar mulher.

   Não ligava para isso. E de tão reservado que era, nem círculo de amizade, direito, tinha, para que houvesse gozações sobre isso. Era problema dele.

   Gerente de uma loja de peças. Humano. Mas na dele. Então, não havia espaço, nem dava pé para essas brincadeiras. Já a irmã tivera um grande amor. Único. Mal sucedido.

   Ela deduziu que ele só lhe queria o corpo. Não deu. Não compartilhou. Muito inteligente, fez e foi o que quis. Faculdade. Tradutora e até bico como dubladora. Concurso. Justiça do trabalho.

   Ele, sempre brigado com a escola, lutou muito até o Clássico, assim chamavam na época. Quase não termina. Terminou a custo. Começou administração e parou, nem no meio, no início mesmo.

   Foi trabalhar como balconista nessa loja. Cedo revelou percepção, compromisso, diplomacia, logo foi subindo, até essa gerência. Estava por lá. E a irmã estava por ali.

   Muito amigos. A irmã, no leito, plenamente consciente, sorria para ele. Mais preocupada com ele, do que com ela mesma. Não abordavam, diretamente, o mal que a acometia.

   De tudo falavam, lépidos e práticos em tudo o que se referisse aos cuidados hospitalares com ela: banhos, medições, medicamentos, visitas, que eram raras, incômodos, remédios, enfim.

  Agora estava ali. Era noite. Olhava a brasa do cigarro, cuspia a fumaça para cima, via a evolução dela, refletia: "Droga, voltei para essa merda".

   Os pais haviam falecido quase que juntos. Os filhos cuidaram deles o tempo inteiro. Talvez, por isso, não tenham tido tempo para si. A amizade dos dois, Walter e Isadora, talvez mais ainda fosse assim tão forte, pela parceria que tiveram no ombro a ombro com que cuidaram dos velhos.

   Riam um para o outro, os dois irmãos, divertindo-se com as manias dos pais. Sofreram juntos a perda. Mas gratos, os dois, pelos pais que tiveram, super amorosos. Quem mais se preocupava se iriam casar ou não era a mãe.

   Sempre se divertiam e riam muito quando o assunto entrava nessa temática. O pai ria com os olhos. Era de falar pouco. A mãe não, era faladeira. Mas do jeito manso, sutil, silencioso, que não fazia algaravia.

   Ela dona de casa. Ele carpinteiro. Entendia tudo e muito de madeiras. Colocasse uma casa inteira aos seus cuidados. Punha de pé. Ela, receiteira de mão cheia. Luna, conhecido pelo sobrenome, Aldenora, uma rainha na vizinhança.

   A rua toda parou quando ela faleceu. 88 anos. Mansa, como um passarinho. Bem cuidada. Morreu dormindo. Por volta do amanhecer, umas 4h10min, ela percebeu a mãe dar um suspiro mais profundo. Era o passamento.

   Ele, o velho, enfrentou com galhardia. Viam-se os olhos umedecidos. Sorria espremido, a cada manifestação de pesar, e foram muitas. Os dois filhos, então, redobraram os seus cuidados com ele. Um dia, todos se reuniram para distribuir os pertences dela.

   "Papai, dizia a filha, eu sei que é doloroso, mas a gente vai ter de se reunir, um dia, para ajeitar as coisas da mamãe". O pai respondia, "Ora, está bem: é só marcar". Era prático. Marcaram.

   Mais riram, lembrando o jeito da mãe, do que choraram. Abraçavam-se, o filho era de rir menos, mas a muher ria fácil, como a mãe. E com o rosto inteiro, como o pai.

   Ela era uma muher bonita. Porte alto, clara, como a mãe. O pai era mais moreno. O filho puxara a sua cor. Era daquelas mulheres que não são belíssimas, mas reunia tudo o que, na verdade, embeleza, com valor agregado, uma mulher.

   Inteligente. Falar oportuno e moderado. Tom de meia voz. Personalidade. Presença. O imbecil que a quis só para consumo, era vil. Só por esse expediente. Porque tinha ela consigo que somente acolheria para si um modelo de relação se fosse idêntico ao dos pais.

   Coisa de décadas atrás. Não consentia que fosse como essa modernidade consentia. Foi rápido. Bastou ela perceber as intenções do dito cujo, com muita elegância, descartou. Ele ainda regateou, para somente parecer ridículo para ele. Dispensado.

   O irmão ainda fez menção das intenções dele com a irmã. Ganhou um tapa no ombro e um sorriso malicioso dela. Riram juntos. Aliás, ele somente ria com a irmã. Reconhecia que tinha uma melancolia existencial.

   Um dia, a mãe o interpelou: "Meu filho, esse jeito pensativo você herdou de seu avô. Papai era assim. Você é igualzinho a ele. Mas olha bem: ocupe-se, que sua mente desencanta".

   Pronto. Essa versão de sua mãe para o jeito herdado do avô, um encanto, grudou nele. Por isso, sempre que fumava e, quando o fazia, nos intervalos de suas ocupações, lembrava que estava dando espaço aos encantos que herdara do avô. Belíssima solução de sua mãe para essa sua modorra, ele pensava.

   Cuspiu fumaça. Estava na metade do cigarro. Olhou dentro, no leito, a irmã. Dormia pálida. Lembrou da morte da mãe, feito passarinho. Olhou a brasa. Havia parado, lá atrás, porque cismara que estava preso ao vício por causa do encanto herdado.

   Havia parado, porque havia lembrado da mãe, para que desencantasse, e resolveu não mais vincular seu azedume existencial ao fumo. Havia parado mesmo. Esse ele pegou de raiva, porque estava pensando no que seria a vida sem a irmã.

   Ficaria ele só. Cuspiu a última baforada. Olhou a guimba pela última vez. Cachuletou-a por cima do parapeito. Repetiu o xingamento, logo que deu conta. A mãe havia ensinado a não se jogar lixo alhures.

   Olhou mais uma vez a irmã. Lembrou do pai, chorando mansinho, quase imperceptível, esquanto recolhia os pertences da falecida.

domingo, 2 de julho de 2023

Tantas e uma só

Essa, no céu, é a lua
Lua linda, alva
Tanta coisa já viu
Uma e muitas, ao mesmo tempo

Uma e única, porque só ela
Este planeta somente tem uma
Solitária
Há outros planetas com outras
Tantas

Muitas, porque muitos olhos a veem
Já a viram
Muito a lua viu, testemunhou
Há a minguante🌖 e a crescente🌙
Há a nova, a cheia, a gigante

Há a lua de sangue
De tanto sangue visto
Desde que o planeta é planeta
Desde o justo Abel,
Como dizem as Escrituras

Tantas guerras, tantos crimes
Lua alva, manchada de sangue
Testemunha triste da humanidade

Mas há romance que ela inspira
Por ser, de si, muito bela
Nunca perde seu charme
E sua beleza

Uma dia, com meu filho no colo
Mostrei-a pela primeira vez
Tantas vezes a vi, tenho saudades

Lá na roça, no sítio
Na chácara
Na estrada
Inspirando amor

Regendo a noite,
Como dizem as Escrituras
O que dizem as Escrituras
Talvez, com elas,
Mais linda ainda seria a lua.


sexta-feira, 30 de junho de 2023

É brincando que se aprende - Rubem Alves

 O professor Pardal gostava muito do Huguinho, do Zezinho e do Luizinho e queria fazê-los felizes. Inventou, então, brinquedos que os fariam felizes para sempre, brinquedos que davam certo sempre: uma pipa que voava sempre, um peão que rodava sempre e um taco de beisebol que acertava sempre na bola. Os três patinhos ficaram felicíssimos ao receber os presentes e se puseram logo a brincar com seus brinquedos que funcionavam sempre.


Mas a alegria durou pouco. Veio logo o enfado. Porque não existe nada mais sem graça que um brinquedo que dá certo sempre. Brinquedo, para ser brinquedo, tem de ser um desafio. Um brinquedo é um objeto que, olhando para mim, me diz: "Veja se você pode comigo!". O brinquedo me põe à prova. Testa as minhas habilidades. Qual é a graça de armar um quebra-cabeça de 24 peças? Pode ser desafio para uma criança de 3 anos, mas não para mim. Já um quebra-cabeça de 500 peças é um desafio. Eu quero juntar as suas peças! Para isso, sou capaz de gastar meus olhos, meu tempo, minha inteligência, meu sono.

Qualquer coisa pode ser um brinquedo. Não é preciso que seja comprado em lojas. Na verdade, muitos dos brinquedos que se vendem em lojas não são brinquedos precisamente por não oferecerem desafio algum.

Que desafio existe numa boneca que fala quando se aperta a sua barriga? Que desafio existe num carrinho que anda ao se apertar um botão? Como os brinquedos do professor Pardal, eles logo perdem a graça. Mas um cabo de vassoura vira um brinquedo se ele faz um desafio: "Vamos, equilibre-me em sua testa!". Quando era menino, eu e meus amigos fazíamos competições para saber quem era capaz de equilibrar um cabo de vassoura na testa por mais tempo. O mesmo acontece com uma corda no momento em que ela deixa de ser coisa para se amarrar e passa a ser coisa de se pular.

Laranjas podem ser brinquedos? Meu pai era um mestre em descascar laranjas sem arrebentar a casca e sem ferir a fruta. Para o meu pai, a laranja e o canivete eram brinquedos. Eu olhava para ele e tinha inveja. Assim, tratei de aprender. E ainda hoje, quando vou descascar uma laranja, ela vira brinquedo nas minhas mãos ao me desafiar: "Vamos ver se você é capaz de tirar a minha casca sem me ferir e sem deixar que ela arrebente".

Para um alpinista, o Aconcágua é um brinquedo: é um desafio a ser vencido. Mas um morrinho baixo não é brinquedo porque é muito fácil —não é desafio. Ao escalar o Aconcágua, ele está medindo forças com a montanha ameaçadora! Pelo desafio dos picos, os alpinistas arriscam as suas vidas, e muitos morrem. Parodiando o Riobaldo: "Brincar é muito perigoso...".

Há brinquedos que são desafios ao seu corpo, à sua força, à sua habilidade, à sua paciência. E há brinquedos que são desafios à inteligência. A inteligência gosta de brincar. Brincando, ela salta e fica mais inteligente ainda. Brinquedo é tônico para a inteligência. Mas se ela tem de fazer coisas que não são desafio, ela fica preguiçosa e emburrecida.

Todo conhecimento científico começa com um desafio: um enigma a ser decifrado! A natureza desafia: "Veja se você me decifra!". E aí os olhos e a inteligência do cientista se põem a trabalhar para decifrar o enigma. Assim aconteceu com Johannes Kepler (1571-1630), cuja inteligência brincava com o movimento dos planetas. Assim aconteceu com Galileu Galilei (1564-1642), que, ao observar a natureza, tinha a suspeita de que ela falava uma linguagem que ele não entendia. Pôs-se, então, a observar e a pensar (ciência se faz com essas duas coisas, olho e cérebro!) até que decifrou o enigma: a natureza fala a linguagem da matemática! E até hoje os cientistas continuam a brincar o mesmo brinquedo descoberto por Galileu.

Aconteceu assim também com um monge chamado Gregor Johann Mendel (1882-1962). No seu mosteiro havia uma horta onde cresciam ervilhas. Os outros monges, vendo as ervilhas, pensavam em sopa. Mas Mendel percebeu que elas escondiam um segredo. E ele tanto fez que acabou por descobrir o segredo que nos revelou o incrível mundo da genética. E não é esse mesmo jogo que faz a criança que está começando a aprender a ler? Ela olha para as letras-ervilhas e tenta decifrar a palavra que elas formam. Tudo é brinquedo!

Congressos de educação: a gente pensa logo em professores, psicólogos, "papers" científicos, filósofos... Estive em um, na Itália, diferente, em que havia muitas crianças. E havia uma oficina em que um "mestre" ensinava às crianças a arte de fazer brinquedos. Um deles era um par de pregos grandes, tortos, entrelaçados, que, se a gente fosse inteligente, conseguia separar. Gastei uns bons dez minutos lutando com os pregos, absorvido, inutilmente. De repente me perguntei: "Por que estou assim, gastando o meu tempo com um par de pregos?".

Eu lutava com os pregos pelo desafio. Eu queria provar que eu podia com eles. Repentinamente, percebi que a primeira tarefa do professor é, à semelhança dos pregos, entortar a sua "disciplina" (ô, palavra feia, imprópria para uma escola!) e transformá-la num brinquedo que desafie a inteligência do aluno. Pois não é isso que são a matemática, a física, a química, a biologia, a história, o português? Brinquedos, desafios à inteligência. Mas, para isso, é claro, é preciso que o professor saiba brincar e tenha uma cara de criança, ao ensinar. Porque cara feia não combina com brinquedo...

Saúde Mental - Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.

Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa…

Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. É claro que nenhuma mamãe consciente quererá que o seu filho seja como van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil ou da CPFL. Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político que tivesse stress ou depressão, com excessão do Suplicy. Andam sempre fortes e certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente coisa dura e a outra se denomina software, coisa mole. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais – símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes.

Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.

Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o software, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.

A beleza pode fazer mal à saúde mental. Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom trabalho.

Dadas essas reflexões científicas sobre a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no início, evitando assim o triste fim que tiveram.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente perigosos. Já o roque pode ser tomado à vontade, sem contra indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do Dr. Lair Ribeiro, por que arriscar-se a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa saúde mental têm sempre as mesmas idéias. Essa cotidiana ingestão do banal é condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde mental. E, aos domingos, não se esqueca do Sílvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá como eles eram.

(Rubem Alves)

terça-feira, 20 de junho de 2023

Neuróticos Anônimos - Origem

      Existem hoje no Brasil quase 5.000 “Grupos Anônimos”. Sua imensa maioria se fundamenta no programa sugerido por “Acoholics Anonymous” – o A.A., composto de 12 passos que levam o indivíduo à recuperação; 12 tradições que orientam os grupos e garantem sua unidade e o anonimato individual; 7 Lemas que norteiam o dia a dia dos participantes e 3 Legados, que assumidos garantem a continuidade dos Anônimos e a estabilidade de cada membro.

   Com autorização de A.A., seu programa têm sido adaptado para outras finalidades. Dessa forma surgiram os Neuróticos Anônimos – N/A.; os Dependentes de Amor e Sexo Anônimos – D.A.S.A.; os Narcóticos Anônimos; os Comedores Compulsivos Anônimos; Consumidores Compulsivos Anônimos e muitos outros.

O Fundamento dos Anônimos e o início de A.A.

     O A.A. nasceu em 10 de junho de 1935, quando um corretor – Bill W. e um médico – Dr. Bob – dependentes do álcool, abandonaram a bebida graças após uma série de conversas, baseadas e uma idéia simples: como um alcoólatra não têm forças para ajudar a si próprio, e que poderia entender profundamente um outro alcoólatra e, com esse entendimento profundo, ajuda-lo.

   Imagine isso em larga escala: uma alcoólatra ajudando outro alcoólatra a evitar o álcool. E sendo por ele ajudado. Uma espécie de auxílio mútuo. Há, por força da semelhança dos problemas, uma afinidade natural, uma identidade.

O nascimento de Neuróticos Anônimos

    Em 1964, Grover B., um alcoólatra recuperado em A.A., tomou consciência que sua dependência pelo álcool era fruto de graves problemas emocionais anteriores.

  Com autorização de A.A. promoveu uma adaptação do Programa sugerido, para aqueles cujas emoções descontroladas interferiam em seu comportamento, de qualquer forma e em qualquer grau, segundo elas mesmas o reconhecem.

     Hoje funcionam no Brasil, mais de 380 grupos de N.A. que auxiliaram, através da prática de seu programa, milhares de pessoas a vencerem suas emoções descontroladas, e terem vidas normais e serenas.

    Importante: Para Neuróticos Anônimos, neurótica é qualquer pessoa cujas emoções interferem em seu comportamento, de qualquer forma e em qualquer gráu, segundo ela mesma o reconheça.

   Outro grupo, Emocionais Anônimos, herdaram dos NA os mesmos 12 passos, formando-se de modo independente, em 6 de julho de 1971, em Minnesota, EUA, a partir de suas pequenas diferenças do NA.

   E solicitaram a mesma permissão aos AA para usarem os mesmos 12 passos, e oficialmente iniciaram suas atividades em 22 de julho desse mesmo ano. Podemos escolher entre uma e outra denominação, como NA ou EA.

Narcóticos Anônimos - NA

 A ORIGEM

    Narcóticos Anônimos derivou do movimento de Alcoólicos Anônimos no final dos anos 40, com suas primeiras reuniões na área da cidade de Los Angeles, Califórnia, EUA, no início dos anos 50. Por muitos anos, a associação cresceu vagarosamente, espalhando-se de Los Angeles para outras grandes cidades norte-americanas e para a Austrália no final dos anos 70. Em 1983 Narcóticos Anônimos publicou seu livro intitulado Texto Básico e as taxas de crescimento, desde então, subiram vertiginosamente. 

   Grupos se formaram rapidamente no Brasil, Colômbia, Alemanha, Índia, República da Irlanda, Japão, Nova Zelândia e Reino Unido. Nos três anos seguintes à publicação do livro Texto Básico de NA, o número de grupos de Narcóticos Anônimos quase triplicou.

ABORDAGEM - O PROGRAMA

   O primeiro folheto de NA, o ‘Livro Branco’, define NA como uma “irmandade” de homens e mulheres, sem fins lucrativos, para quem as drogas se tornaram um problema maior.

  Adictos em recuperação que se reúnem para ajudar uns aos outros a se manterem limpos.” A afiliação à Narcóticos Anônimos é aberta a qualquer adicto a drogas, independente do tipo ou combinação de drogas usadas. 

 Não existem restrições sociais, religiosas, econômicas, raciais, étnicas, de nacionalidade, gênero ou status social. A afiliação à Narcóticos Anônimos é inteiramente voluntária e a base do programa de recuperação de Narcóticos Anônimos é uma série de atividades pessoais conhecida como Doze Passos, adaptados de Alcoólicos Anônimos. 

    Esses “passos” incluem a admissão de que existe um problema, a busca de ajuda, auto avaliação, partilha em nível confidencial, reparar danos causados e trabalhar com outros adictos a drogas que queiram se recuperar. 

   O programa dá ênfase no que é chamado “despertar espiritual”, ressaltando o seu valor prático e não sua importância filosófica ou metafísica, o que facilitou a tradução do programa, mesmo considerando-se barreiras culturais. NA em si, não é um programa religioso e encoraja cada membro a cultivar um entendimento pessoal, religioso ou não, desse “despertar espiritual.”

   Narcóticos Anônimos acredita que uma das chaves do seu sucesso seja o valor terapêutico de adictos trabalhando com outros adictos.

  O principal serviço oferecido por Narcóticos Anônimos é a reunião em um grupo de NA.
As reuniões podem ser “abertas”, o que significa que qualquer um pode participar, ou ‘fechadas”, quando somente pessoas que estão lá para tratar de seu próprio problema com drogas podem participar. As reuniões são conduzidas por membros de NA e outros membros participam partilhando suas próprias experiências na recuperação da adicção às drogas.

    Apesar de não serem termos de uso muito comum, NA utiliza os termos “adicto” e “adicção” principalmente porque são termos que melhor expressam sua visão de que a adicção a drogas é uma doença que afeta o indivíduo em todas as áreas de sua vida e para evitar qualquer confusão inicial, quanto à compreensão da natureza e do propósito de NA, por parte de adictos que buscam ajuda para seu problema com drogas.

    Narcóticos Anônimos encoraja seus membros a se manterem abstinentes de qualquer droga, inclusive o álcool. A experiência de membros de NA tem mostrado que a completa e contínua abstinência é a melhor base para a recuperação e o crescimento pessoal. O NA não tem qualquer posição quanto ao uso de medicação prescrita e entende que estes são assuntos de decisão pessoal e encoraja seus membros a consultar sua própria experiência, a experiência de outros membros e profissionais de saúde qualificados, para tomar decisões sobre estes assuntos.