sábado, 21 de maio de 2022

Teologia bíblica da vocação - Final

 Além disso, é preciso considerar que nem todos os que são chamados, são chamados para ser missionário. Há muitas outras chamadas. Chamada para pastor, chamada para evangelista, para professor, para ministro de musica, etc. A regra é que “todos os missionários são chamados, mas nem todos os chamados são missionários”. Eu costumo dizer, em minhas palestras sobre Vocação e Chamada, que o elemento chamado de modo específico, tem, na verdade, duas chamadas: Uma que acontece no tempo eterno, quando ele está ainda no ventre materno (ou antes), e outra que acontece no tempo e no espaço, como foram os testemunhos de Jeremias e Paulo, por exemplos, conforme os versículos já citados de Jeremias 1.5 e Gálatas 1.15,16.

Se o Senhor, contudo, o chamar, não tenha medo nem diga que não tem dom ou capacidade. Essa é a parte que cabe a ele. Também não precisa ter reserva de ir colaborar em qualquer campo missionário mesmo que seja por pouco tempo, conquanto que seja para fazer aquilo para o qual você tem certeza de que tem os dons apropriados. Lembro-me de uma moça que passou apenas algumas semanas entre os Xerente trabalhando com as crianças de lá. Ela era tão dotada para isso que as crianças da aldeia e até mesmo os adultos nunca mais se esqueceram dela.

Para concluir, veja, a seguir, como Deus chama os seus escolhidos e como é Ele quem se responsabiliza pela chamada, tanto quanto se responsabiliza pelo seu êxito e sua realização.

AS CARACTERÍSTICAS DA VOCAÇÃO E CHAMADA ESPECÍFICA

Nominal:
Quando Deus chama uma pessoa para um fim especial, ele costuma chamar sempre pelo nome, de modo inconfundível, e não admite substitutos. Quando Deus chama Abraão, Ló não serve; quando chama Jacó, Esaú não serve; quando chama Moisés, Arão não serve; quando chama Samuel, Eli não serve; quando chama Davi, Saul não serve; quando Deus chamou Barnabé e Saulo, na igreja de Antioquia, mesmo que a igreja fosse procurar outros, dos muitos bons que havia lá, não serviriam.

Específica:

Quando Deus chama alguém, ele diz por quê. Nem sempre ele diz o lugar, mas o motivo da chamada fica sempre bem claro. Deus chamou Abraão para ser o pai de uma grande nação; chamou Moisés para tirar o povo de Israel da escravidão do Egito; chamou Davi, para ser o rei de Israel, e assim por diante.

Soberana:

Deus chama quem ele quer. O esperado, segundo a cultura de Israel, seria Deus chamar Esaú, já que ele era o primogênito, mas Deus chamou Jacó. “…o mais velho servirá ao mais moço”. (Gênesis 25.23c). Quando Jesus subiu ao monte para orar e escolher, em seguida, os seus doze apóstolos, ele chamou, para subirem com ele, os que ele mesmo quis. (Marcos 3.13)

Coerente:

Coerente com os dons espirituais, com as habilidades pessoais, com a função no corpo de Cristo. “Não deixes de desenvolver o dom que há em ti, que te foi dado por profecia, com a imposição das mãos dos presbíteros” (1Timóteo 4.14)

Auto capacitadora:

Moisés: (Êxodo 3.10-12; 4.10-12) “… Eu nunca fui bom orador…” (4.10b) “… Respondeu-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem?…” (4.11a) “… Certamente eu serei contigo… ” (3.12a)

Gideão: (Juízes 6.11-16) “Então o anjo do SENHOR apareceu a Gideão e disse: O SENHOR está contigo, homem valente.” (v.12) “… Ah, meu senhor, com que livrarei Israel? A minha família é a mais pobre em Manassés, e eu sou o menor na casa de meu pai.” (v.15). “O SENHOR virou-se para ele e lhe disse: Vai nesta tua força e livra Israel das mãos dos midianitas. Não sou eu que estou te enviando?” (v.14)

Jeremias: “Então eu disse: Ah, SENHOR Deus! Eu não sei falar, pois sou apenas um menino. Mas o SENHOR me respondeu: Não digas: Sou apenas um menino; porque irás a todos a quem eu te enviar e falarás tudo quanto eu te ordenar” (Jeremias 1.5-7)

Paulo: “Não que sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se viesse de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus.” (2Coríntios 3.5)

A vitória, pois, é nossa! Deus pôs um Estandarte na mão dos chamados: “EU SEREI CONTIGO”!

Que o Senhor o abençoe em sua decisão!

Nota: Os textos bíblicos citados nesse artigo são da versão “A Bíblia Sagrada Almeida Século 21”

Por Rinaldo de Mattos

https://amtb.org.br/a-teologia-biblica-da-vocacao-e-chamada/

Teologia bíblica da vocação - 19

 Transpondo barreiras religiosas radicais – comunidades espíritas, esotéricas, católicas tradicionais e outras;

Transpondo barreiras de experiência de vida e de “mundos” inteiramente diferenciados – Pessoas portadoras de necessidades especiais como surdos, autistas, pessoas com síndrome de Down e outros;

Transpondo barreiras de desvio de comportamento social – dependentes químicos, alcoólatras, presidiários e outros;

Transpondo barreiras de classes sociais e profissionais – artistas de rádio e televisão, profissionais liberais, desportistas, estudantes, empresários, militares, favelados, meninos de rua e outros;

Transpondo barreiras de faixas etárias – crianças, adolescente, jovens, adultos, idosos.

Agora, se você quer evangelizar sua família, seus vizinhos, seus colegas de classe, seus colegas de trabalho, as pessoas da cidade com as quais você tem livre comunicação, você não precisa de uma chamada específica. Você já está chamado e convocado para isso, a partir da sua conversão. Para melhorar sua proficiência, talvez fosse bom ler algum tratado de “como ganhar pessoas para Cristo”, por exemplo, ou fazer um curso de Discipulado, assistir alguma conferência ou encontro sobre o assunto, etc. Mas, fique atento. Se você se sair bem no evangelismo caseiro é “perigoso” que o Senhor o chame, de forma específica, para um trabalho mais definido em sua seara. Deus não costuma chamar aqueles que não estão fazendo nada. Ele sempre chama pessoas ocupadas e aquelas que já demonstraram interesse pela promoção do seu reino aqui na terra.

Não tenha, entretanto, complexo, por não ter sido chamado para ser missionário. Nem pense que você, sendo fiel ao seu dom e servindo a Deus de coração no contexto de sua igreja, no contexto da sua profissão, na sua comunidade, é menor do que os missionários. Deus não olha o homem pelo lado de fora ele olha pelo lado de dentro. “o homem olha para a aparência, mas o SENHOR, para o coração (1Samuel 16.7c). Aqueles que servem ao Senhor, fielmente, no lugar onde Deus os colocou, seja perto ou longe, terão todos o mesmo galardão: “Quem concordaria com isso? A parte dos que ficaram com a bagagem será a mesma dos que foram lutar; todos receberão partes iguais”. (1Samuel 30.24)

No Velho Testamento, nem todos podiam ser sacerdotes, levitas, profetas e reis. Mas o número de destacados entre os fiéis é enorme. É fácil vir à mente nomes como Abel, Enoque, o próprio Noé, Ló, Ana, Rute, a moabita, e Raabe, a meretriz, que acabaram entrando na lista dos antepassados na genealogia de Cristo, Ester, e tantos outros mais. No Novo Testamento, também a lista é grande: Os irmãos Maria, Marta e Lázaro, Nicodemos e José de Arimateia, Dorcas, Priscila e Áquila e os demais da enorme lista de Paulo no capítulos 16 de Romanos: Febe, Epêneto, Maria, Andrônico e Júnias, Amplíato, Urbano, Estáquis, Apeles, Aristóbulo, Herodião, Narciso, Trífena e Trífosa, Pérsides, Rufo, Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Filólogo, Júlia, Nereu e Olimpas. Todos esses serviram a Deus com seus dons, bens e talentos e foram tão honrados como os especificamente chamados tanto no Velho Testamento como no Novo.

Teologia bíblica da vocação - 18

 Ela não tinha jeito algum para ensinar e discipular, mas ensinou muitas irmãs Xerente a ler e escrever em sua própria língua como também cuidou dos enfermos com sua profissão de enfermeira. Eu costumava brincar com ela dizendo: Um missionário não precisa saber nada de enfermagem, basta ele se casar com uma enfermeira. Ela retrucava: Uma missionária não precisa saber nada de Linguística, basta ela se casar com um linguista. Assim, juntamos nossos dons e deu para fazer o trabalho, pela graça de Deus.

SITUAÇÕES EM QUE UMA CHAMADA ESPECÍFICA E UM TREINAMENTO ADEQUADO SE FAZEM NECESSÁRIOS

Quando se fala de chamada específica, não se está falando necessariamente em missões no Exterior, missões nos Sertões do Brasil, missões longe de casa, etc. A chamada pode ser bem doméstica, dentro dos contornos da igreja. Chamada específica é para se trabalhar com pessoas específicas, grupos específicos, situações específicas, seja perto, seja longe. Deixem-me descrever as várias situações onde uma chamada específica, acompanhada de seus respectivos dons e de um treinamento apropriado, se faz necessária:

Transpondo barreiras geográficas, linguísticas e culturais, com povos de línguas ágrafas – Indígenas do Brasil e demais grupos étnicos minoritários ao redor do mundo;

Transpondo barreiras geográficas, linguísticas e culturais, com povos escolarizados – Trabalhos no Exterior em qualquer um dos países conhecidos;

Transpondo barreiras geográficas, no Brasil, e enfrentando diferenças regionais em termos de língua e costumes – Ribeirinhos do Amazonas, Quilombolas,

Comunidade de Pescadores, certas comunidades sertanejas mais isoladas e até municípios menos evangelizados;

Transpondo barreiras de herança histórico/cultural/religiosa tradicionais – Imigrantes estrangeiros como japoneses, italianos, pomeranos, judeus, árabes ciganos e outros (entre os ciganos os missionários estão também traduzindo a Bíblia para a língua Calon);

Teologia bíblica da vocação - 17

 A IGREJA E A GRANDE COMISSÃO

Que a Grande Comissão foi dada à igreja, é ponto pacífico. Porém, tal qual a chamada geral, a Grande Comissão pressupõe que a igreja é composta por pessoas dotadas. Pessoas que receberam, cada uma delas, os seus dons espirituais através dos quais servir a Deus, tanto quanto pressupõe também o envio de missionários.
Em Atos 1.8, por exemplo, “Mas recebereis poder quando o Espírito Santo descer sobre vós; e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra.”, a parte sobre receber o poder do Espírito Santo e a incumbência de ser testemunha de Jesus Cristo, se aplica a todos, tanto aos que ficam em Jerusalém como aos que vão para a Judéia, Samaria e Confins da Terra. Mas, o deslocamento geográfico, a partir de Jerusalém, ou mesmo da Judéia e Samaria, não tem como se aplicar a todos indistintamente. Não dá para a igreja mandar toda a sua membresia para os confins da terra. Ela só pode fazer isso através do envio de missionários.

Quando a igreja de Antioquia enviou Paulo e Barnabé para os gentios, por exemplo, ela estava cumprindo essa parte da Grande Comissão indo aos “gentios de longe” nas pessoas daqueles dois missionários.

Em Mateus 28.19,20 temos, em complementação, a tarefa de “fazer discípulos” tarefa essa expressa nas palavras de Jesus: “ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei;’”. Ora, fazer discípulos implica em dom de ensinar.

Se tomarmos 2Timóteo 2.2, a tarefa fica um tanto mais específica, porque o discipulador, ali, está sendo incumbido de ensinar outros que tenham também o dom de ensinar outros, formando, assim, uma cadeia de pessoas com dom de ensino: “O que ouviste de mim, diante de muitas testemunhas, transmite a homens fiéis e aptos para também ensinarem a outros’” Essa conjuntura, implica, no mínimo, que o missionário é um que precisa ter o dom de ensino. Em outras palavras, uma igreja que não leva em conta os dons espirituais de sua membresia e não exerce a prática de enviar missionários, não tem como cumprir a Grande Comissão.

Em nossa experiência como casal, no campo missionário, Gudrun e eu, aprendemos logo quais eram os dons que cada um tinha e os que não tinha. Gudrun tinha muitos dons que eu não tinha e vice-versa.

Teologia bíblica da vocação - 16

 Assim, o único evangelho que serve para o Xerente é o evangelho integral. Menos que isso, não teria sido aceito, como foi, mesmo que lá não se falem de pobres e ricos. Certos estavam, pois, os organizadores do I Congresso de Evangelização Mundial, de Lausanne, Suíça, 1974, ao colocarem como tema do Congresso, o slogan: “O evangelho todo, para o homem todo no mundo todo”.

Agora, se estamos falando de “Responsabilidade Social da Igreja”, isso é outro assunto. A preocupação e a responsabilidade social com os pobres, viúvas e outros, é um mandamento bíblico tanto no Velho Testamento como no Novo. Todo esforço que a igreja fizer para aliviar as dores daqueles que não somente carecem da mensagem da vida eterna, mas vivem miseravelmente neste mundo, sem as regalias dos demais, é pouco. Mas, priorizá-los, em detrimento dos demais, negando a esses as chaves que abrem as portas do reino de Deus, não é fazer missões, segundo a Bíblia. Aprendi, na minha experiência com os Xerente que “Missão Integral” é uma coisa e “Responsabilidade Social da Igreja” é outra. Assim, desafio aqui os teólogos para elaborarem estudos mais aprofundados sobre o assunto…

8.    Ações missionárias inspiradas em programas humanitários: Por fim, parece que muitos estão apenas imitando os movimentos de assistência social levados a efeito pelas emissoras de rádio e televisão, pelos empresários, desportistas e especialmente pela Rede Globo, movimentos esses muito bem divulgados pela mídia. Muitos dos trabalhos sociais de certas igrejas e movimentos missionários não diferem muito do que essas instituições vêm fazendo. Essa prática seria o resultado de falta de iniciativa, falta de uma visão mais ampla das Escrituras, ou seria mesmo só uma questão de ibope?… Outro dia eu estava pensando nas crianças indígenas que precisam ser preparadas para o contato com nossa civilização, que será tanto mais complexo quando elas chegarem à idade adulta. Falei isso com alguém e logo veio a pergunta: Mas não há ninguém pensando nisso? Respondi: Não há, mas eu garanto que se a Globo, por exemplo, iniciasse um programa com crianças indígenas, no Brasil, é certo que um número enorme de igrejas e de agências missionárias evangélicas iria correr atrás do assunto e fazer o mesmo…
Ora, o resultado de tudo que se disse acima, é que agências missionárias transculturais que precisam de missionários de carreira e bem preparados, como também as próprias escolas de preparo missionário sério, estão sentindo a falta de obreiros, estão sentindo a falta de candidatos. Com isso, trabalhos transculturais estão sendo prejudicados, o sustento dos missionários de campo tem diminuído, tanto quanto tem sido difícil mantê-lo e o número de missionários de carreira convocados é quase ínfimo, diante da convocação em massa de missionários temporários e de voluntários em missões. A pergunta é: Por que descurar de uma atividade missionária para incrementar outra? Não poderíamos fazer ambas as coisas ao mesmo tempo, com o mesmo enfoque e com a mesma intensidade?
Fazer missões é fazer missão no mundo todo, para todas as pessoas, independente de raça, cor, status social, poder aquisitivo, classe social ou de se considerar as pessoas integradas ou não à sociedade. Afinal, os bons cidadãos, as pessoas de bem, a classe média e os mais abastados (aqueles que levam a carga do desenvolvimento de seus países, que fabricam roupas pra gente vestir, comida pra gente comer, etc.), como bem todas as pessoas integradas em todas as nações e minorias étnicas do mundo, têm o direito de ouvir o evangelho da mesma forma que os pobres, os flagelados e aqueles que estão, como dizem, em situação de risco.

Teologia bíblica da vocação - 15

 Missões para as pessoas de bem, para os bons cidadãos, para os mais abastados, para aqueles que lotam nossos melhores restaurantes nos fins de semana, aqueles que enchem nossos lagos e litorais com seus barcos, iates e jet ski, missões para profissionais, artistas de rádio e televisão, desportistas, etc. está caindo em desuso. Até mesmo certas organizações que outrora exerciam papel preponderante no alcance dessas pessoas, estão hoje em declínio. Jesus não agiu assim. O mesmo Jesus que disse: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar boas novas aos pobres… (Lucas 4.18a), gastou também o tempo necessário com um homem rico, Nicodemos, para colocar os pés dele para dentro do reino de Deus. (João 3.1-21). O que Jesus nos ensina com isso? Ensina que todo aquele que tem seus pés fora do reino de Deus, seja pobre ou rico, “está em situação de risco”…

Não queria entrar muito nesse assunto, mas preciso dizer que alguns estão equivocados sobre o sentido de Missão Integral. Acham que Missão Integral é missão para pobres. Puro engano! A Missio Dei é integral da primeira à última página das Escrituras. E isso para todas as pessoas, em todos os lugares e em todas as situações, independente de raça, cor, status social ou poder aquisitivo. As Escrituras jamais ofereceram para alguém, um evangelho dicotomizado. É claro que Missão integral inclui os pobres, mas não preferencialmente e muito menos exclusivamente. Missão Integral é como bem colocou Valdir Steuenager:
“O evangelho falava de mim e do outro, especialmente do pequeno e do pobre. O evangelho falava do corpo, da alma e do espírito. Ele falava da pessoa e dos sistemas e estruturas onde elas vivem. Falava do passado e do presente e apontava para o futuro de Deus. O evangelho mostrava um Jesus que anunciava e vivia o reino de Deus, e me convidava a segui-lo nas sendas da esperança desse reino.” (A Missão Integral nem é tão integral assim!), ultimatoonline [ultimato@ultimato.com.br], edição de 25/05/2014).

Missão Integral, ou MI, como a trata Steuenager, inclui os pobres, sim, mas inclui muito mais do que isso. Tem a ver com a estrutura de sociedade em que as pessoas vivem, sejam elas pobres ou ricas. Tem a ver com a história, a cultura e as tradições das pessoas. Tem a ver com corpo, alma e espírito e tem a ver, em ultima análise, com a visão do reino de Deus e não com visões particulares.

Em Xerente, por exemplo, não existe palavra para pobre e rico. O colega que fez a tradução do Novo Testamento para a língua Xerente, Pr. Guenther Carlos Krieger, teve que “fabricar” juntamente com sua equipe de tradutores nativos, expressões descritivas na língua indígena para essas duas palavras: Pobre, ficou: rom kõ tdêkwa ‘aquele que não é dono de nada, e rico, ficou: rom zawre tdêkwa ‘aquele que é dono de muitas coisas’. Mas a sociedade Xerente é igualitária e sua estrutura é essencialmente integrada. Lá não se faz as tradicionais dicotomias que fazemos por aqui, como material versus espiritual, religioso versus profano, animado versus inanimado, corpo versus alma, e assim por diante. Em Xerente, a palavra para alma ‘dahêmba’ é usada também para corpo. Quando se quer fazer a diferença entre uma coisa e outra, tem-se que fazer uma “ginástica” linguística muito grande…

Teologia bíblica da vocação - 14

 6.    A restrição ideológica da Grande Comissão: Alguns não estão restringindo a Grande Comissão em termos geográficos, necessariamente, mas estão restringindo-a em termos ideológicos. Há igrejas e movimentos missionários que estão estabelecendo preferências quanto ao tipo de pessoas a serem alcançadas pelo evangelho. Ultimamente tenho consultado vários sites de igrejas, procurando neles a visão missionária de cada uma. Tenho descoberto que a maioria dos sites de igreja nada trazem sobre missões. Outros falam de missões, porém, com apenas alguns projetos restritamente selecionados, bem ao gosto da liderança da igreja. São poucas as igrejas que apresentam, em seu site, um Conselho Missionário e alistam, ali, os missionários adotados pela igreja. Vi apenas um (talvez haja outros) que apresentava seu Conselho Missionário, alistava todos os missionários adotados pela igreja e ainda postava as últimas cartas de notícia de cada missionário. Num determinado site, porém, lendo o link sobre “nossa missão”, percebi que os dois primeiros pontos estavam muito bem colocados. Mas o último dizia: “dando preferência aos que estão em situação de risco’”. Ora, a visão daqueles que estão em situação de risco, neste mundo, não obstante ser necessária, se for exagerada e, especialmente, se for exclusiva, tirará da igreja a visão do “todos” e a igreja deixará as demais pessoas do mundo fora do projeto missionário de Deus. Neste caso, onde ficam as pessoas sadias, as que estão em situação segura neste mundo, as pessoas mais abastadas, pessoas da classe média/alta, pessoas de bem, enfim. Elas também não estão incluídas no projeto missionário de Deus? A Grande Comissão não é para “toda criatura”, conforme (Marcos 16.15)?

Mais um exemplo: Certo pastor, questionado sobre a evangelização dos índios, respondeu a seu inquiridor: – Ah, os indígenas estão bem. Eles têm muita terra pra plantar, tem todo apoio do Governo, das ONGs, etc. Eu prefiro ir atrás dos flagelados, disse… Isso, como se os indígenas não estivessem inseridos no contexto da Grande Comissão – “panta ta ethne” – ‘todas as etnias’. (Mateus 28.19). Ora, um indivíduo, visto que ele não pode ir, pessoalmente, pelo mundo todo e em direção a todas as pessoas, ele tem que fazer opções quanto ao seu ministério. No meu caso, por exemplo, eu optei pelos indígenas, deixando os demais nas mãos de Deus. Mas, uma igreja, como agência, por excelência, do reino de Deus, na terra, não pode fazer opções ou determinar preferências. Sua visão deve ser a visão do mundo todo, de todas as pessoas, de todas as nações.

7.    A teologia da Missão Integral com ênfase exclusiva nos pobres: Ora, que Missão Integral é a missão bíblica, e que é a única que espelha a “Missio Dei”, não há a menor dúvida. Mas o evangelho integral é para todos, não somente para os pobres. Muitos, com a exagerada preferência para os pobres, estão como que criando uma nova Teologia da Libertação. Certa vez eu estava fazendo uma palestra sobre esse assunto para um grupo de alunos de missões indígenas e perguntei se eles achavam que eu estava exagerando. Imediatamente, levantou-se uma veterana missionária aos índios e contou que certa igreja que a adotava por muito tempo, suspendera a adoção porque foi desafiada, depois de um determinado seminário, a transferir a quantia que ela recebia, mensalmente, para a compra de cestas básicas para os pobres…

O enfoque hoje sobre evangelização de pobres, flagelados e aqueles que estão, como dizem, em situação de risco, é grande e quase que exclusiva. Quando se lê, no dia de hoje, periódicos missionários e se ouve de igrejas e entidades que estão fazendo missões, é quase certo que a maioria está fazendo missões entre as classes menos privilegiadas.