sexta-feira, 13 de maio de 2022

Questionamento Sinodal

1. Como sua denominação avalia a igreja católica na sua capacidade de dialogar com os membros de outras religiões? Minha denominação, União das Igrejas Evangélicas Congregacionais do Brasil, que representam a denominação evangélica mais antiga no Brasil, desde 1855, oficialmente, quer dizer, institucionalmente, não matém diálogo ecumênico ou inter-religioso. Portanto, em relação à iniciativa católica, considera ser específica de sua própria postura que, em nada, afeta ou requer uma opinião dela, como denominação evangélica, sobre esse assunto.

2. Que relacionamento sua denominação mantêm com os membros da igreja católica que convivem ao redor dela? (positivo negativo, indiferente). O relacionamento pode adquirir as três feições: Positiva, visto que os católicos são vistos com respeito e direitos iguais aos dos adeptos dela, de manter e praticar sua própria religião. Negativo, por avaliar os católicos, embora como partidários de uma religião cristã, não a praticam ou não seguem os preceitos bíblicos em relação a várias posturas de suas práticas, seja no âmbito doutrinário, seja no contexto litúrgico; 3. Indiferente, porque entendem que, em relação aos católicos, devem se converter, para as práticas corretas em acordo com as Escrituras, ou manter-se no seu espaço, enquanto os adeptos dela se mantém no seu, respeitando-se mutuamente, mas sem possibilidade de caminhar juntos.

3. Conhece algumas experiências de diálogo e de compromisso da igreja católica com as outras religiões? E com quem não crê? Na minha própria denominação evangélica, por ser de regime congregacional, ou seja, administração autônoma de cada igreja, há casos de pastores que matém diálogo ecumênico e inter-religioso. Quanto a conhecer casos destes tipos de diálogo, privo das experiências do Instituto Ecumênico Fé e Política, no Acre, Brasil, desde a sua fundação, em 2005, das experiências aprendidas no mestrado, na PUC/RJ, 1992-1995, e por formação desde criança porque, mesmo filho de um pastor batista (os batistas começam no Brasil em 1882), fui educado sem que houvesse barreira ou preonceitos em relação às demais religiões.

4. Já presenciou encontro ou cultos de oração e encontros ecumênicos e interreligiosos? Há algumas resistências? Já participei de várias celebrações ecumênicas, aliás uma delas, talvez a primeira ou segunda, na própria PUC/RJ. Também na prática ecumênica e inter-religiosa no Instituto Ecumênico, no Acre, por diversas vezes participamos de várias celebrações e encontros ecumênicos. Creio que a única ressalva diz respeito a tópicos isolados, relacionados às doutrinas ou rituais que, em cada religião, definem sua identidade mas que, nessas celebrações e encontros não devem ser compartilhados, mesmo porque correspondem a visões e práticas específicas de cada religião, sem que seja possível misturar ou fundir num ritual ou numa doutrina mista.

5. Já foram realizados trabalhos sociais entre a igreja católica com membros de diferentes denominações religiosas? Não posso responder pelos católicos, mas observo que há uma estrutura bem articulada por essa Igreja para exercer ação social e diálogo ou ação conjunta com outras religiões. Mas avalio que essas oportunidades de ação conjunta deveriam ser sempre maiores e mais atuantes, em vista das gritantes necessidades sociais e da quantidade efetiva de religiões que, juntas, deveriam prestar esse serviço.

6. Quais as maiores dificuldades ou resistências para realizarmos um caminho juntos? Há vários obstáculos que não permitem uma ação mais efetiva ou um diálogo mais franco entre as religiões: 1. Síndrome da hegemonia: a Igreja Católica, por seu tamanho e capilaridade, é sempre vista como quem deseja se autoafirmar como única e somente ela a verdadeira, o que afasta grupos menores de uma convivência mais próxima. Ainda porque a Igreja Católica é vertical, ou seja, burocrática e, portanto, o diálogo e a aproximação nunca se sabe se é franca ou simulada; 2. Discriminação e preconceito: há variados tipos e variadas manifestações. Por exemplo, aquele exercido desde a colonização do Brasil, quando religiões indígenas e as de matriz africana foram rechaçadas como heresia ou paganismo, e seus seguidores obrigados a se converter ao catolicismo. Ainda há preconceito hoje contra os adeptos dessas religiões. Também o preconceito atual contra evangélicos partidários do atual governo, quando se esquece, por vezes falsa e cinicamente, que o governo anterior, buscou apoio tanto entre evangélicos, quanto entre católicos, sem que isso fosse questionado. Se o Estado é laico, evangélicos hoje estão tão errados em buscar apoio junto ao governante de ocasião, tanto quanto os católicos, desde Constantino, no século IV, estiveram. Aliás, desde o Pajé e o Tuchaua, nenhuma religião deveria misturar-se ao Estado ou o Estado com ela. Essa promiscuidade afasta o diálogo ecumênico ou inter-religioso, e se torna disputa rasa pelo poder, em que religiões de caráter majoritário e viciadamente hegemônico nunca terão isenção necessária para propor diálogo e aproximação.

terça-feira, 10 de maio de 2022

ERRATAS em "Marcas do Evangelho"


1. Foto na página 306: legenda correta

De pé: Mário, irmão de Cid, noiva Ivar e Dorcas. Sentados: meu avô Antonio, Antonio, filho do segundo casamento com Antunília, ao lado.

2. Pag. 35 - 3a linha:
leia: "entender";

3. Pág. 43: 2o parágrafo:
leia: "Fazendo pausa com ênfase";

4. Pag. 53 - 7a linha
leia: "remorsos";

5. Foto pag. 18:
Na legenda, onde está escrito Cid e Nadir, serão, provavelmente, José e Dejanira, nascidos antes, ou Cid e Jani. 

6. Pag. 381 - 2o parágrafo, 1a linha
leia: "gorducha";

7. Pag. 379, 1a linha
leia: "borracha";

8. Pag. 67, linha 14:
leia: "exclamei";

9. Pag. 69, 2a linha:
leia: "enfatiza";

10. Pag. 73, 2a/3a linha
leia: "Eu vou passar fome"
e não "fora";

11. Pag. 83, 1a e 3a linhas:
Falta (?): "E a mãe? Pergunto".
E leia: "assassinando o idioma".

12. Pag. 113, 12a linha:
leia "o pai... mantinha";

13. Pag. 145, linha 5
leia: "...membro da 1a igreja";

14. Pag. 154, 8a e 18a linhas:
leia "improvisou" e "quarteto cantando";

15. Pag. 155, 11a e 15a linhas:
leia "Reconciliação" e "Francisco";

16. Na foto abaixo, pag. 258,
leia "Lizânias" (e onde mais houver)

17. Pag. 180, 1a linha
leia "desincumbiu-se";

18. Pag. 186, 9a linha, 2o 
parágrafo: leia "mencionou";

19. Pag. 216, última linha, e 217, 2a linha:
leia Rev. Sérgio Maranhão;

20. Pag. 217, 10a linha:
leia Rev. Cícero Siqueira;

21. Pag. 218, última linha:
leia "enfeites";

22. Na orelha da contracapa:
leia "Também em Copacabana...";

23. Pag. 229, 24a linha:
leia "deixar";

24. Pag. 230, 6a linha:
leia "entre as décadas";

22. Pag. 344, 8a linha:
leia "enlameada";

23. O nome de meu amigo
da foto das orelhas
do livro. Veja nas
páginas das legais do
livro:
Mardilson Gomes
(com /ar/).





Falta gente nessa rima

Azáfama, seria na certa,
Corre Lyndon, corre Márcia
Corre Bia, não era um dia qualquer,
Mas Lyndon marcou agenda
Com o Xavier.

Lu e Renata também corriam,
Doces e salgadinhos para o regalo
Mas isso elas fazem com prazer
Pelo gosto da data:
A biografia da família
Para todo mundo ler.

Cid Mauro vem do Acre,
Mais perto não poderia ser
E ainda coincidia com o aniversário
Ora, 65 anos, nem tão velho
Para lançar "Marcas do Evangelho".

Vieram de São Paulo quatro caixas
Resultado seleto da Garimpo
Entrega rápida e de bom preço
Com apreço na casa do primo.

Parceria formada com a Basileia
Por algum tempo, refletia-se bem
Escolhia-se o lugar do encontro
Acertadas as dependências do CIEM.

Busca banner, vê-se o som
Visita-se salão e cozinha
Para ver o que está bom
Corre que a data se avizinha
Que tudo se afine num só tom.

Programa pronto, mais uma do Lyndon,
Para dirigir, sugiro o Bernardino
Para pregar, convidado o Sarides,
Para declamar, a Valéria
Deixa com Joel tocar os hinos.

Põe freio na fala do Cid Mauro
Vai querer contar todo o livro
Desse jeito, satura a assistência
O povo fica aflito e com motivo.

Vão chegando os convidados
Helena, Heloísa, Paulo, Jucieu,
Leila e Gislaine, Gercina e sua irmã
Renata, Renato e seu clã.

Que inclui Ben-Hur, Tatiana e Maria Clara
Lindas mãe e filha e também Gabriela
Puxa vida, faltaram Daniel e Dirley
Mas vieram Derli, Elizabete e Cirlei

Quem veio, leva a quem não pode vir
Dalmi leva para Neuda e Marcos,
Elias para sua mãe Ivar e a irmã Eni
Ainda incluídos os irmãos Renato e Geni.

A turma antiga de Cascadura
Estava bem representada,
Paulo cunhado, João Marcos, Marcos e Rose,
Amaury e sua esposa Simone, Sandra Roger
A quem de longe logo vi.

Meio sumidas pela cozinha,
Gislaine, Luciane, Leila e Renata,
Belíssima mesa organizaram
Não só no gosto, bela proeza,
Com decoração de rara beleza.

Cantamos hino, ouvimos breve devocional,
Havia gente Batista e Congregacional,
Mas sem nenhuma barreira,
É família toda entrelaçada,
Misturada, amiga e amada.

Não pude dar atenção a todos
Estava autografando os livros,
Em meio a tantas fotos,
                                                         Sem nenhuma celeuma,                                                               Assessorado pelo Hélio Henrique
E por minha professora d. Cleuma.

Pastor Caria e família,
Julio César, mas não o imperador
Vieram do outro lado da baía
Com grata presença e prova de amor

Primo Jr em boa companhia,
Veio abrilhantar o encontro
                                                      Com sua tia, a minha sogra Lourdes                                                     Espalharam muita simpatia

Numa tarde tão agradável
Pela presença de todos, que medo
De cometer injustiça que doa
Por não fazer sua menção
Então, por favor, me perdoa

                                        Esquecer jamais deveria,                                              
                              Registro com especial alegria,                                 
       Supresa aguardada com certa ânsia,        
Shirley, minha amiga de infância.

E à gente que não pôde vir
Ora, famílias tão lindas,
Muita falta você fez,
Mas o encontro fica para outra vez.

Lima Mattos, Gonçalves de Oliveira,
Barcelos também de Oliveira
E Araújo, gente que foi (e é) raiz
Espalhando bênçãos por este País.

Repetimos que amor, gratidão
E exemplo de vida,
É a marca desse povo.
Ora, para muito breve,
A gente espera se encontrar de novo.

Singela homenagem minha
De quem não é mestre na rima,
Só nos faz aumentar muito a saudade
Do amado tio Onésimo Lima.



















segunda-feira, 9 de maio de 2022

Caminhos pela vida

  

 Caminhos pela vida. A Bíblia chama peregrinação. Abraão peregrinou pela terra que acreditava ter recebido, por Deus, como promessa. A gente também se acha peregrino.

    Eu, que pratico nostalgia, às vezes me reporto ao mais atrás de que me recordo, com sentido e tino, quando me dei comigo como gente. Um desses corredores de memória diz respeito à escola.

    O Jardim de Infância, em Nilópolis, com Dorcas indo à direita, para o Nilopilitano, Curso Normal dela, iniciado em 1965, quando tinha 35 anos. E eu, para a esquerda, no Instituto Filgueiras, o velho, para aquela geração, porque o novo beirava o muro defronte da linha férrea.

    Não me perguntem o nome da professora. Esqueci-me. Mas a imagem de seu rosto eu a tenho. Mas em 1966, já no, naquele tempo, 1o ano primário, era d. Rita. Atarracada, gorduchinha, metro e meio de altura.

    Além do magistério, eu a via à porta de um Mercantil, no Acre, as quitandas da década de 60/70, no Rio de Janeiro, porque há o Rio Branco. Essa quitanda, já há muito desaparecidas da paisagem carioca, pelo Império dos supermercados, d. Rita a tinha ali na Mena Barreto, reta para a Congregacional de Nilópolis, então indo para a escola dominical nós a víamos à porta, para atender a freguesia.

     D. Rita mandava-me à Coordenação, com certa frequência. Eu era meio danado, entendam bem, levado, no vocabulário carioca. Cid Mauro, já para a Coordenação. E me traga aprendida a tabuada de 7, 8 e 9. Não quero as outras não. Dorcas vinha me buscar, encontrava-me na Coordenação.

    Lembro de d. Rita por detrás daquela mesa imensa, ainda sobre um tablado, eu numa curvatura máxima de pescoço à nuca, d. Rita me perguntando 8 X 5, 8 X 6, 8 X 7 e por aí ia, quer dizer, ainda vai: trago esse trauma, ainda psicanaliticamente não resolvido, de ter aprendido toda a tabuada ainda na 1a série.

    Mas de um polo a outro, vamos à 6a série, de um curso primário de 6 anos. Eu até tentaria da 5a série para o 1o ginasial. Podia, naqueles idos. Tratava-se de um salto por cima do Admissão ou 6a série, praticamente repetição da 5a, uma espécie de cursinho pré-ginasial.

     Mas o trauma do atropelamento, na metade do ano de 1967, em 27 de junho, empurrou-me para o 6o ano. Sem mais traumas, por favor, deixa o menino fazer o 6o. Fiz.

     Ainda me lembro, gesso até metade da perna esquerda, altura do joelho, saltinho na sola, eu me deslocando da Mendes de Aguiar, em Cascadura, ao longo da Av. Ernani Cardoso, na direção da Escola Paraná, situada nessa avenida, na esquina com Pe Manso, ironia, onde fui atropelado.

    Subi e desci a escada central dessa escola um pedaço de tempo, para terminar a 5a série. E esse ano coincide com a mudança de Cascadura para o Meier, onde d. Rute, esposa do pr Amaury Jardim, arranjou para o menino uma escola U.I., Unidade Integrada que, além de ser contígua ao Colégio Bento Ribeiro, muro com muro, permitia a conexão com vaga garantida.

     Foi nessa escola de Unidade Integrada que conheci d. Cleuma. O melhor adjetivo para ela é baixinha arretada. Elétrica, fala 78 rpm, velocidade máxima da vitrolas da época, como  aquela que havia lá em casa. Reinava na turma.

    Aluno com ela não cortava volta. Dela trago comigo outro trauma pedagógico: ter aprendido dízima periódica no Admissão. E foi em aulas que ela, a preço módico, como explicadora, nos assistia em sua casa bem ali, na Carolina Santos, coladinha na Aquidabã.

    As tardes que passávamos ali eram uma agradável extensão da sala, com d. Cleuma, de mesma eletricidade, puro dinamismo e competência, aparando arestas. Os caminhos da vida não nos permitiram desencontros.

    Ela mesma lembra eu ter compartilhado que seu aluno terminara o bacharelado em teologia. Lá está d. Cleuma Brasil em minha formatura, em 1981, na Igreja Fluminense. Pronto. Custou, mas casou. Lá está d. Cleuma no casamento de seu aluno, em 1993. Puxa, mal deu dois anos ele sai do Campinho, no Rio (de Janeiro), para o Rio (Branco), no Acre.

    Ruptura? Não, porque nas reuniões de família, na Magalhães Couto, lá está d. Cleuma, já reconhecida como membro da família. O casal comemorou 25 anos: lá está d. Cleuma.

    Cleuma de Lourdes de Jesus Brasil, uma legenda. Ainda caminhando juntos. Já numa idade, minha e dela, que somadas vão a mais de 150 anos. E sua vida forma um arco de serviço, que passa pela escola pública, pelo Ministério da Educação, pela educação especial e pelo serviço social, outra especialidade dela.

    Um arquivo vivo. Uma memória super ativa. Causos e causos do Rio, como o carnaval nos bondes, especificamente o que vinha de Cascadura e circulava por ali, pelas quebradas do Engo de Dentro, onde ela residia, e subia num caixotinho para, literalmente, ver passar o bonde da folia.

     Pai pianista, artista da noite, mãe rigorosa, matriarca da família. Cleuma filha única, valendo por 10, na dedicação, cuidado e amor com que se devotou aos dois. E a toda a família. O caos recente foi o celular bugar. Porque perdeu todos os contatos. Alarmou.

     Eu, pelo pouco que sabia, e pela experiência de perda do meu, adverti que estavam "na nuvem", bastando sincronizar com o novo aparelho. Buscou assessoria. Como andarilha que é, conhece meio mundo e tinha a pessoa certa para efetivar o resgate.

    Sentiu-se recompensada no lançamento do livro que dediquei a ela. Muito feliz, na véspera, ter comemorado comigo meus 65 anos e presentear-me com a caneta com que assinei os autógrafos. Ligou-me para agradecer, como rotina que praticamos, pelo menos 15/15 dias.

     Nossos caminhos estão cruzados. Darmos as mãos pode significar essa transição, do tempo que dependi dela para avançar nos estudos, para esse tempo em que nos tornamos tão mais próximos. Ora, ironia, virei um professor, igualzinho a ela. Parceiros. Darmos as mãos significa sermos parceiros.

     Em todos os sentidos. No magistério, na amizade, enfim, nos caminhos da vida. Grato, Cleuma de Lourdes de Jesus Brasil.

sábado, 7 de maio de 2022

Marcas

    Poucas palavras, porque hoje aqui o alvo não é quem fala, mas a família. As duas famílias, representadas na união entre Cid e Dorcas, os protagonistas dessa biografia.

   Quando mencionamos no banner "amor, gratidão e exemplo de vida", é porque, já numa síntese, queremos reconhecer que fomos amados por nossa família, somos gratos a Deus e a eles por isso e nos legaram um exemplo de vida.

    Seja por genética ou pelo modelo de criação, a gente reproduz nossos pais, avós e bisavós. E até quem chega depois, tem afinidades com a família, porque, no casamento, os iguais se atraem. E quem chega depois é testemunha do que vê nas famílias.

    O falecimento de nossa avó Adalgiza, de que tanto prima Keila ouviu o pai mencionar, abre um vetor na família. O bebê é amamentado e criado pelos Macedo, vizinhos próximos de todo o socorro. No retorno, o menino já parrudo, nosso avô Tunico concorda em entregá-lo àquela família.

     Mas registra-o Isaías Barcelos de Oliveira, que junto com tio Mário, aqui representado pelo primo Elias, são os dois únicos Barcelos. Cid vai reencontrá-lo, segundo esse meu tio contou, nas gravações ali na casa do Fonseca, em Niterói, em Belford Roxo, no bar Domingos, Isaías próximo dos 19 anos.

    Coincide com o noivado de Cid e Dorcas. Ao mesmo tempo em que Isaías acerta com Cid não falarem em Bíblia, para o Isaías "história da carochinha". Para que a amizade fosse preservada, que não mencionassem esse assunto. Ficou acertado.

    Mas Isaías colou em Cid e Maninha, acompanhava-os na casa da Osvaldo Cruz 306, orações, breves cultos domésticos, até idas juntos a igrejas, uma delas do pr Gerson Costa que, como Isaías naquela época, no passado pertencera à Juventude Comunista.

    Portanto, necessária e pragmaticamente ateu. Esse pastor provocou Isaías, ora, você fala e fala contra a Bíblia, mas já leu? Isaías perguntou em quanto tempo se lia. Gerson Costa respondeu que havia um plano de leitura para 1 ano. Isaías replicou que leria em 6 meses.

    Foi o que bastou. Ao mesmo tempo que Cid e Maninha, esta indo à roça para conhecer a família daquele, Isaías vai reencontrar o pai e evangelizar os irmãos e cercanias do Farope, recanto em Itaocara.

    Nessa época Dercília, a mais velha de José, o mais velho de todos, ouve as mensagens de Dorcas e os cânticos infantis. Então, como me contou, junto com Dinair, sua irmã, creu no evangelho que tia Maninha levava consigo.

    Os irmãos e irmãs foram de convertendo ao evangelho pelas mensagens e testemunho de Dorcas e Isaías. Cid era o profeta da mesma terra. A simpatia de Dorcas a todos cativava. Com justiça, achavam-na linda, por dentro e por fora. Cid e Dorcas trocam entre si cartas, em 1951-1952, que denunciam e delineiam esse amor que aproximou as duas famílias.

    Tunico, nosso avô Antônio, numa dessas cartas, já revela o mal que não vai permitir que viva além do ano de 1957. Ainda tocou no meu pezinho de recém-nascido, falecendo aos cuidados de minha avó Eunice, mãe de tia Maninha, hospedado que estava na casa em Nilópolis.

    Tia Gislaine aqui presente conviveu com ele. E são essas e outras as histórias dos laços de amor, gratidão e superação que nos legaram como herança toda essa geração. Gente do interior, como dizia meu pai.

    Campos, Santa Maria Madalena, São Sebastião do Alto e Itaocara. Como diz a Bíblia, uma "nuvem de testemunhas", homens e mulheres dignas, num mundo indigno. Esse é o legado e a herança para nossos filhos, netos e quem mais chegar.
     

Barth e Gênesis 1,1-2

 Em §41.2 “A Criação como a Base Externa da Aliança” (III.1 A Doutrina da Criação na Dogmática da Igreja) Barth começa sua exegese com as primeiras palavras de Deus na Palavra de Deus.

A primeira palavra na Bíblia hebraica é bereshith, que se traduz aproximadamente como “início” ou “começo”. Em inglês, traduzimos isso como “No começo…”, mas para Barth a distinção é importante. A começar pelo “princípio” diz-nos “que esta história, e com ela a existência e o ser do mundo, teve um princípio, isto é, que ao contrário do próprio Deus não foi sem princípio, mas que com este princípio também procura um fim.”[1] Não há outra palavra que possa se comparar com aquela que inaugura a sagrada escritura de Deus. Desde o princípio de todas as coisas Deus criou um princípio para ter um fim. O Senhor não criou o mundo como um relojoeiro e depois deu um passo atrás para ver como ele funcionaria. Deus estava intimamente envolvido no ato criativo, sabendo muito bem que havia um fim ou conclusão necessária para o ato criativo. Ao contrário de um autor que começa uma história sem saber como terminará, Deus criou do princípio com o fim já definido.

Por anos eu li o relato da criação de Gênesis 1 e pensei exatamente assim: um relato da criação. As palavras estavam lá na página, embora dificilmente saltassem para mim. Como aqueles pastores em Bryson City, Gênesis 1 é um daqueles capítulos da Bíblia que não evitei tão sutilmente por causa da dificuldade de racionalizá-lo com a ciência moderna. E, no entanto, Barth escreve sobre os dois primeiros versículos das escrituras com tanta convicção que me desafia a me envolver novamente com o texto e ver a beleza do que Deus fez e está fazendo.

O versículo 2 (a terra era um vazio sem forma...) foi lido de forma semelhante com pressa e esquecido pela riqueza que contém. Todo o resto, ou seja, tudo neutro ou contra a vontade de Deus, deixou de existir quando o tempo começou com a ação e realização de Deus. Toda a criação foi trabalhada em ser e ordem por Deus no tempo. Na liberdade de Deus para criar, a terra foi trazida ao significado através da ação de Deus e através da palavra de Deus para criar.

   O desafio do versículo 2 tem irritado teólogos e cristãos por séculos em relação ao caos, se Deus o criou ou não, e se Deus quis que uma realidade de caos existisse. Isso, eu acho, contribuiu para o desaparecimento de Gênesis 1 dos púlpitos porque não temos certeza de como falar sobre o mal no mundo, e se Deus o ordenou ou não. A questão do papel de Deus no ato criativo que resulta ou pressupõe o mal geralmente se limita a duas respostas: Deus criou as trevas e o mal, ou Deus não os criou.

Barth rejeita totalmente essa presunção dualista. Em vez disso, Barth começa confrontando o que é realmente declarado: “No versículo 2 não há absolutamente nada como Deus quis, criou e ordenou de acordo com o versículo 1 e a continuação. Só existe “caos”. … o que é absolutamente sem fundamento ou futuro, escuridão total… De acordo com esta frase, a situação em que a terra se encontra é o oposto de promissor. É bastante desesperador.”[2]

Para Barth, a questão sobre o mal e se o estado violento e caótico do mundo é ou não auto-originado ou desejado por Deus empalidece em comparação com o fato de que a terra estava em uma situação desesperadora de escuridão total e Deus escolheu transformar a realidade através da Palavra. O versículo 2, portanto, postula um mundo no qual a Palavra de Deus não foi pronunciada. O “nada” da criação é totalmente destruído e tornado impossível pela possibilidade de Deus no ato criativo.

A feiúra da existência anterior à Palavra de Deus existia quase como uma sombra do ato criativo real de Deus. E porque era como uma sombra, na liberdade da humanidade podemos olhar para trás e retornar a esse passado e trazer a sombra do versículo 2. Ao fazê-lo, ao rejeitar a Palavra de Deus, o passado desafia sua própria natureza e se torna presente e futuro. No entanto, Deus total e totalmente rejeitou e rejeita a sombra e fala a Palavra para brilhar nas trevas.

A tentação da humanidade de retornar à sombra está sempre presente. Sempre que negamos misericórdia às criaturas de Deus, estamos recuando para o momento precisamente diante da Palavra de Deus. É em nossa natureza quebrada e pecaminosa que rejeitamos a Palavra de Deus e a substituímos pela nossa. A sombra da escuridão está ao nosso redor sempre que encontramos a morte e a destruição. Mas nenhuma sombra pode se comparar com a da cruz: “Este – este momento de escuridão em que Sua própria Palavra criadora, Seu Filho unigênito, clamará na cruz do Calvário: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” – será “o pequeno momento” de Sua ira em que tudo o que está indicado em Gênesis 1.2 se tornará real. Apesar de toda a analogia com outros tipos de escuridão, não há outro momento como este.”[3]

Na morte de Jesus Cristo, à sombra da cruz, a humanidade encontra a verdadeira e total escuridão anterior à Palavra de Deus. Mas é por meio de Jesus Cristo (como a Palavra) que Deus reconciliará a criação com o eu de Deus. Na criatura encarnada, naquele momento e tempo particular no cosmos, o Verbo se tornará novamente a Luz sobre toda a criação. O brilho do túmulo vazio brilha como a primeira luz pairando sobre as trevas em Gênesis 1.2.

As “coisas velhas” da criação anteriores à Palavra passaram radicalmente em um ato dinâmico e divino do Senhor falando a Palavra e através da morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Os dois primeiros versículos das escrituras contêm a plenitude de todas as escrituras de Deus. No começo vemos o fim. Na escuridão vemos a cruz. Na luz vemos o túmulo vazio e a ressurreição. O que Barth faz com as escrituras é como o que um músico de jazz faz com a forma de uma melodia; Barth improvisa sobre as linhas e traça conexões com melodias que mal imaginamos.

Recuperar o brilho de Gênesis 1, saltar para o estranho mundo novo da Bíblia como Barth, nos dará a força para encontrar a criação e acreditar que ela é digna de ser pregada e proclamada. Mas, mais do que tudo, nos dará a visão de ver a criação e declarar, como o Senhor, “é bom”.

https://thinkandletthink.com/2016/07/27/the-cross-in-creation-karl-barth-and-genesis-1-1-2/

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Barth - Gênesis 1 - Final

 The temptation of humanity to return to the shadow is ever present. Whenever we deny mercy to God’s creatures, we are retreating to the moment precisely before the Word of God. It is in our broken and sinful nature that we reject God’s Word and substitute our own. The shadow of darkness is around us whenever we encounter death and destruction. But no shadow can compare with the one of the cross: “This – this moment of darkness in which His own creative Word, His only begotten Son, will cry on the cross of Calvary: ‘My God, my God, why has thou forsaken me?’ – will be ‘the small moment’ of His wrath in which all that is indicated in Genesis 1.2 will become real. For all the analogy to other kinds of darkness, there is no other moment such as this.”[3]

In the death of Jesus Christ, in the shadow of the cross, humanity encounters the true and total darkness prior to God’s Word. But it is through Jesus Christ (as the Word) that God will reconcile creation to God’s self. In the one incarnate creature, at that particular moment and time in the cosmos, the Word will again become the Light over all creation. The brilliance of the empty tomb shines like the first light hovering over the darkness in Genesis 1.2.

The “old things” of creation prior to the Word have radically passed away in a dynamic and divine act of the Lord speaking the Word and through the death and resurrection of Jesus Christ.

The first two verses of scriptures contain the fullness of all God’s scripture. In beginning we see the ending. In the darkness we see the cross. In the light we see the empty tomb and resurrection. What Barth does with scripture is like what a Jazz musician does with the form of a tune; Barth improvises over the lines and draws connections to melodies that we have scarcely imagined.

To reclaim the brilliance of Genesis 1, to jump into the strange new world of the bible like Barth, will give us the strength to encounter creation and believe that it is worthy to be preached and proclaimed. But more than anything, it will give us the vision to see creation and declare, like the Lord, “it is good.”

 https://thinkandletthink.com/2016/07/27/the-cross-in-creation-karl-barth-and-genesis-1-1-2/