quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Repugnância

    Não é uma palavra boa para se terminar um ano. Re + pugna, seria juntar "voltar" (re) + pugna (lutar) que, por sua vez, vem de "pugnus", que significa "punho".

     Portanto, repugnância teria, agregada a si, como sinônimas, auxiliando compreender seu significado as palavras asco, nojo, aversão, antipatia, repulsa, falta (ou nenhum desejo por) de compatibilidade.

     Na verdade, seria bem íntima essa sensação, plenamente disfarçada pela hipocrisia social, cedo aprendida na cartilha do convívio. Diria eu, ensinada intuitivamente pelos pais, delicada e disfarçadamente, porque ninguém quer ser acusado de ser um repugnante praticante.

    Os disfarces para tanto são muitos. Assim como as razões por que repugnar. Existem as clássicas como, por exemplo, cor da pele ou nível social. Disfarçar a íntima repugnância pelo preto e pelo pobre.

    Trazem patente e flagrantemente suas características. Aliás, são transformados em discurso e tema de ideologia e movimentos sociais de denúncia e libertação. E, em muitos casos, à hipocrisia agora soma-se a demagogia.

    Não que não devam ser um constante tema para discussão. Mas o que se reclama aqui são as ações efetivas e que caminhos traçar na efetiva solução secular, senão milenar desses, pelo menos esses dois, fatores de repugnância social.

    Um outro fator, agora mais ligado à minha área de atuação, é como o disfarce da religião, mais um fator que promete e afirma praticar igualdade, é usado para disfarçar a repugnância. Vou falar da minha. Por entender um pouco mais sobre ela do que da dos outros.

    Definitivamente o evangelho iguala todos, no antes e no depois de se encontrar Jesus. Todos pecaram, afirmam as Escrituras, situados na condição de "destituídos da glória de Deus", ou seja, todos somos, por natuteza, repugnantes.

    Aqui talvez haja já um problema inicial de aceitação. Ou haja uma aceitação retórica dessa afirmação. Isso significa sentir asco, nojo de si mesmo. De início. Vamos especificar e generalizar.

    Diante de Jesus, somos educados a perceber, sentir e exercitar repugnância por nós mesmos. Todos estamos nessa mesma condição. Muito embora o processo de se encarar essa realidade, nua (literalmente, e fora do Paraíso) e crua seja doloroso e, muitas vezes, disfarçado por franca covardia.

    Então o verniz social e os já mencionados vícios intuitivos de formação podem ser uma tentação a se mascarar essa realidade ou a domesticar o "evangelho" que se vai aceitar (e praticar). Definitivamente, repugnância é um tema não autopraticável: somente praticado com os outros.

     Lembrei da parábola do bom samaritano, assim chamada. Jesus focou exatamente na crítica aos "religiosos" e sua hipocrisia. Seu legalismo transformado numa prática flagrante, por parte do primaz, o sacerdote, e seu aprendiz, o levita. Sim. Repugnância faz escola.

    Nesse ano que passa até o vírus se tornou pretexto. Se alguém não quiser ou não quer outros alguéns perto, ainda há a prevalência do omicron, entre outras variantes. Chance de se prorrogar o afastamento.

    Para terminar, quero lembrar mais dois personagens, que podem ser quaisquer uns, porque repugnância, embora seja delicado mencionar, afeta a todos. Jesus e Jonas. Ambos com "J". O primeiro, porque tem o remédio para esse mal. O segundo, porque quis levar ao extremo esse mesmo mal.

     Jesus ensina direcionar a repugnância para o lugar e pessoa certos: para você mesmo e o nojo que o teu pecado deve inculcar a você mesmo. Jonas ensina que a fuga à repugnância, sua generalização extrema e até a tentativa de suicídio, seja moral ou literal, não resolvem o problema.

     Para quem não acredita no peixe de Jonas ou não acredita num Deus capaz de deparar um peixe desse teor, pelo menos tenta acreditar num Deus que ressuscite defunto, mais especificamente aquele que as Escrituras dizem ter sido ressuscitado ao terceiro dia.

     Parece que nesse anônimo Jesus, mais para desconhecido, reside a cura ou, pelo menos, o correto direcionamento para a repugnância. Vamos entrar nesse novo ano pensando nisso.

     Repugnância dirigida somente às variantes do vírus. Ao próprio pecado individual pão nosso de cada dia. E a uma aceitação ainda mais plena do evangelho, mas sem domesticagem. Ele faz coisas que nem a ideologia sonha em fazer.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Missões - ano zero - 3

    Dia seguinte, o Rev. veio me cumprimentar, eu então lhe disse: "Eu tenho uma notícia para o senhor". Então contei-lhe a conversa havida com o meu primo. Ele replicou sobre a possibilidade dele aprender sobre todo o trabalho. Havia alguns detalhes administrativos, o Boletim da Catedral, a "menina dos olhos", para todos os membros, no Brasil e fora dele   "Você acha que ele aprende rápido?". Eu acho que sim, respondi. Em quanto tempo, ele perguntou. Uma semana, repliquei. Então fale para ele 15 dias. Notifiquei meu primo, por telefone, para comparecer lá. Ele se apresentou ao Rev. e começamos a ensiná-lo. Ele aprendeu muito rápido, com a prática que já adquirira no CAN, realizaram um culto de despedida e eu vim para a COMEC - Condecoração de Mocidades Evangélicas Congregacionais.

     Na COMEC, não havia um salário. Então, Marco Antônio, na época membro da Fluminense, e Maria Leopoldina, filha do pastor Ivaldo, da Congregacional de Nilópolis, e o pastor Ary Madureira, na época Conselheiro da COMEC, combinaram de cobrir, pela fé, o mais próximo possível do que eu recebia antes. A ideia era desfiar os jovens de forma a contribuir, para alcançar a maior parte do salário anterior, sem ideia do montante, para  mais ou para menos. Interpretei cono um teste de Deus para mim, agora engajada numa tarefa mais ligada a uma vocação ministerial.
       Mas o que, para mim, foi um desafio de fé, para eles, que me convidaram, era já um compromisso matemático. Marco Antônio se comprometera com 1/2 salário mínimo da época, Ma Leopoldina com 1 salário e o pastor Ary com outra metade, o que completava o que eu recebia na Catedral. Era uma cota para viagens e itinerância. Foi quando, numa conversa desse pastor com um seu amigo professor, este decidiu participar, e outra metade de salário passou a compor o total de 2,5.
     Até hoje nunca identifiquei esse quarto integrante que, dois meses adiante, complementou a quantia total. Veio, então, a primeira viagem, que foi a Caruaru, já no tempo de Leopoldina como Oficial de Justiça, quando uma diligência, nessa viagem dela a trabalho, coincidiu com uma preleção dela em um Congresso. Mas ela não pôde ir, então eu a substituí. Era a época saudosa do monobloco da Itapemirim, máxima economia de espaço, na antiga concepção de carroceria, para conter minha estrutura avantajada em altura.
     Após quase 3 dias de viagem, hospedei-me na casa dos pais do pastor Joseildo, irmãos Coreia e Leda, quando preguei no sábado à noite na 1a Igreja Congregacional em Caruaru e, no domingo pela manhã, em função da visita, sábado à tarde, de um senhor, deficiente visual, decidiu assistir ao culto, o que nunca antes fizera, mais ainda com a dificuldade de ter apenas uma das pernas. Pastor Correia exultou, devido a essa novidade, eu preguei em Ap 5, a respeito de céu, ter escrito o nome no livro da vida, foi quando o homem a todos surpreendeu, afirmando que queria ver seu nome nesse Livro.
     O argumento decisivo era que teria de receber Jesus. E o homem, em sua cadeira de rodas, então oramos juntos. Logo após, ele retirou do bolso um cheque, do que hoje, calculo, ter sido uns 300 reais, que, quando o pr Correia viu, admirou-se, porque o novo convertido tinha fama de avarento. Sorrindo, o pr Correia brincou, "mas o que houve?" E eu resojndi, Deus operando conversão e, ao mesmo tempo, confirmando o meu ministério.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Missões - ano zero - 2

     Cheguei com o aparato caseiro improvisado de beleza feminina, o mais que poderia, é lá chegando, o pastor orou por mim e já me presenteou com duas bolsas da São João Batista Modas, uma de calçados e outra com roupas, da parte de uma das irmãs peritas no assunto e de manequim igual ao meu.             Assim comecei na Catedral e, agora que dispunha de salário falei com o pastor Bequele, bem, pastor, agora que eu tenho salário, vou pagar o Seminário, e a igreja não vai precisar arcar com essa despesa. Ele me respondeu que não, que o trato era a igreja cobrir: faça com o seu dinheiro o que Deus lhes instruir fazer, seja oferta, seja dízimo.

     "Nós prometemos que seriam 4 anos, está na ata da igreja, e assim vai ser", concluiu Bequele. E eu, pelos dois últimos anos, decidi retornar o valor da mensalidade acrescido do meu dízimo. Nesse período, recebi muitas ofertas de livro, material didático, passagens de ônibus, enfim, certeira de trabalho assinada, um ou dois salários mínimos e comecei na Catedral.
     E seguia eu por lá, muito bem, querida por todos, recebia presentes e reconhecimento, muitos mimos para mim e minha outra colega, chegam, um dia, pastor Jair, Isabel Carvalho e Maria Leopoldina, e ainda acompanhados de Carmem, de Rio Doce, no Recife, time de (muita) responsa, desafiando-me numa visão nova, muito espiritual e inteligente: ser obreira da COMEC - Confederação de Mocidades Evangélicas Congregacionais.
      Titubeei, disse que iria orar, eles oraram comigo ali mesmo, na secretaria da Catedral. Eu teria de pedir demissão, logicamente, para desempenhar esse ministério. Orando, senti paz e procurei o pastor Guilhermino, comunicando que deveria retornar à minha denominação. Eu, que brincava com ele, de 2a a 6a, sou presbiteriana, sábado e domingo, sou congregacional, ele resistia. Até aquele momento, ele também brincava, dizendo me querer membro da Catedral.
      Não posso te demitir. Você me ajuda muito, são muitas viagens minhas, muitas ausências, muita responsabilidade. Era 1988, ele era o representante dos evangélicos na Constituinte, em Brasília, mas eu confirmei a decisão, dizendo que o Senhor assim me convocava e eu teria de ir. Então ele me deu um ultimato, por favor, arranje-me alguém igual a você. Rimos juntos, não dá, minha mãe só teve uma, mas foi taxativo: "Eu preciso de alguém igual", falou e encaminhou-se para o seu Gabinete.
     Ali mesmo, na secretaria, eu orei por uma pessoa que me substiuísse o que, para mim, seria um sinal de Deus. À tarde, chegou meu primo. Ele era da aeronáutica e trabalhava no aeroporto Santos Dumont. Estava sendo dispensado e muito pesaroso.  Ore por mim, porque estou carente de um emprego. O que você fazia lá, perguntei. Eu era secretário do CAN - Correio Aéreo Nacional.
    Amilson, atualmente pastor, naquela época foi a solução para ocupar o vazio que ficava com a minha saída, providência de Deus e descanso para o pastor Guilhermino. Propus, mas ele considerava-se menor para o cargo. "Não tem nada a ver". Porém contra-argumemtei: "Primo, é secretaria. O que for necessário suprir, eu ensino. É falar com o pastor, caso ele concorde, porque você já trabalha nessa mesma área".
     Cedeu. Está bem, prima. Então fale.
      

Artigos soltos 52

 "Replicou-lhes Pilatos: Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo". Mateus 27:22.


     Estimulante, por si, esta pergunta. Muito já se disse e escreveu sobre ela. Vai aqui mais um texto. Isso porque ela está implícita em qualquer atitude em relação a Jesus Cristo.

    Pilatos separou as duas pessoas, ou melhor, separou o título "Cristo" do nome "Jesus": "Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo".

    Na cultura judaica havia o costume de ungir com óleo o que fosse, pessoas, lugares, utensílios. Simbolizava sua consagração.

    Por exemplo, no ritual detalhado de ordenação sacerdotal levítica ungia-se com óleo. Na cerimônia ou fora dela, como ocorreu com Davi, um rei era consagrado ao seu ofício.

    Um profeta, como ocorreu com Eliseu, também levava óleo sobre sua cabeça. Porém, mais do que o óleo, simplesmente, que, por si, nenhum efeito místico possuía, valia a personalidade.

     Por exemplo, na comparação entre Saul e Davi, os dois levaram óleo sobre a cabeça, porém somente Davi honrou, em essência, o que o ritual significava.

     Já no caso de Elias, que ungiu Eliseu, os dois honraram a investidura. Aliás, a simbologia extrapolava a condição de ser apenas judeu, porque Elias ungiu Hazael, rei sírio.

     No caso de Jesus, a unção corresponde a uma tarefa específica dele, associada à marca distintiva de sua personalidade, daí o termo "Ungido", o mesmo que "Cristo" ou "Messias" ter se tornado seu sobrenome.

     A pergunta de Pilatos pergunta pelo personagem histórico "Jesus", associado ao título "Cristo" a ele atribuído. Por isso esse governador usou o terno "chamado". Para ele, tratava-se de uma alcunha.

    Quase certo afirmar que, como personagem histórica está garantida a existência do galileu Jesus. Embora até teólogos, assim chamados, tenham encetado uma busca pelo "Jesus histórico".

     Mas partindo-se da hipótese de que sua historicidade é incontestável, falta a outra parcela, o sobrenome Cristo e, nesse caso, o que significaria, que sentido e tarefa a ele designada representa a sua unção.

     De tão específica, por toda a argumentação e significado do termo "unção" aqui expostos, destaca- se o seu uso bíblico, aliás a razão por que aparece no relato do Evangelho, neste caso, Mateus, e a razão de ser da personalidade histórica Jesus.

     Uma tarefa e personalidade únicas: ser o salvador, aliás, o sentido hebraico de seu nome "Jesus", o único designado por Deus para essa tarefa. Portanto, a unção de Jesus é e está em função de todas as outras assim realizadas.

     Logo, a pergunta "Que farei, então, de Jesus, chamado Cristo?" se aplica a todos, tenham-na feito ou não. Porque primeiro, revela o grau de relevância dado à Pessoa. Porque é inadmissível desconhecer, totalmente, Jesus. Ou até seja admissível, porém não sem violência contra si mesmo.

     Refiro-me a Jesus, pessoa histórica. Avançando em direção à Jesus, agora como Cristo, sim, porque são a mesma Pessoa e a fala de Pilatos, supondo ser uma alcunha fraudulenta chamá-lo Cristo, é pura equivoco dessa outra histórica personagem.

     Jesus é o Cristo, como afirmou o apóstolo: "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo". Aqui como confissão de fé. Que é a única alternativa cabível na solução é resposta para essa questão. E a resposta dada a Pilatos representa uma resposta coletiva.

     E prevalece a pergunta. Ninguém se livrou dela. O que fazer, ainda hoje, de Jesus, chamado Cristo? Há algumas possibilidades a ser discutidas.

      

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Missões - ano zero.

 Você trabalhava no DERP?

      Sim, mas é que eu teria de vir, não é, a partir da Souza Cruz, de como o Senhor me tirou... Como Amós, tirado de após o gado. Mas qual foi esse ano? Pois é.... Cálculo, pelo falecimento de minha mãe, em 1981, entrei no Seminário em 1983, no externato, na Fluminense.  Nesse período, dois anos trabalhei na igreja, como Redatora de seu Boletim, assim como visitava com o pastor Constantino Bequele.
     Uma vez tendo saído da Souza Cruz, o pastor Bequele me chamou ao seu Gabinete e me perguntou, por três vezes: "Você tem chamado?" Buscaba ver em mim convicção, por isso insistia em sua indagação. Eu disse que sim, que antes, no emprego, eu tinha dinheiro, mas não tinha tempo. E agora, eu tinha tempo, mas não tinha dinheiro.
     Eu fizera um curso de secretariado e outro de inglês, mas a troca de horário nesse antigo serviço impossibilitara a continuação dos estudos. Trabalhava pela manhã, mas trocaram para a tarde, incluindo o sábado, o que inviabilizou a continuidade do curso Yes, no Meier, de inglês.
    Pastor Bequele, então, convidou-me a trabalhar como Secretária da igreja, redigindo o Boletim e me ajudando nas visitações, mas controle o seu horário e agenda para não se atrasar no Seminário. Então, a visitação era de 14 às 16h, para que então eu pudesse ir para casa, pegar o meu material e chegar a tempo ao Externato, no centro do Rio de Janeiro.
     A igreja, assim, prontificava-se a pagar os 4 anos de curso, condicionado à não reprovação. Avaliei que era justo, em função de um compromisso consciente. A igreja pagou os dois anos iniciais porém, no 3° e 4° anos, com o Rev. Guilhermino Cunha sendo meu professor de Seitas e Heresias, convidou-me para trabalhar como titular na secretaria da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro.
     Argumentei que, por várias razões, não me via capaz para essa tarefa. Avaliava ser acima de meu nível social, o que comentei com o pastor Bequele, mencionando o convite e dizendo que não aceitaria. Interessante que o pastor Guilhermino, que havia me dado 24h para decidir, argumentara: "Você toma decisões sem ouvir Deus? Ore e retorne amanhã". Então, eu fui à igreja, e meu pastor reforçou: "Mas é uma honra, minha irmã. Você não pediu, mas foi ele que te convidou. Deus que te escolheu. Eu acho que você deve aceitar".
     Meu pastor orou comigo e eu, no dia seguinte, munida da melhor roupa que eu tinha, rumei para a Catedral.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Apresentação

    Para mim constitui-se num grande  privilégio conhecer o trabalho do Prof. Maestro Afonso Portela denominado "SINGELAS CONTRIBUIÇÕES PARA A INTERPRETAÇÃO VOCAL DE CANÇÕES AMAZÔNICAS".

    Por múltiplas razões. Embora não seja, propriamente, alguém da área específica da música, senão um apreciador amador, tive o privilégio de ser aluno desse competente Artista, Maestro, Professor e agora também Escritor.

    E do mesmo modo e grau de importância, conhecê-lo, por assim dizer, considerando-me amigo. Conviver com o Maestro Afonso é gratificante. Porque sua postura em relação à arte da música constitui-se num grande incentivo a quem com ele convive.

    Consegue transmitir a seus alunos, entre os quais me incluí, independentemente do grau de seus conhecimentos musicais, da idade deles e atendendo, de modo peculiar, às suas dificuldades, os métodos, caminhos e o potencial da arte musical, numa linguagem ao mesmo tempo rica em detalhes técnicos e acessível à compressão de todos.

     O que demonstra sua competência e larga  experiência. E, particularmente, quando se lança à tarefa de registrar sua vivência com a música, demarcada em sua história com essa arte, torna-se possível então, como num diálogo, acompanhá-lo a cada etapa, constatando seu meticuloso senso de observação e o meticuloso cuidado com os pormenores.

     O Maestro Afonso Portela se revela em seu texto, não somente como legítimo integrante da cultura amazônica, porém como alguém que cultivou a percepção dos desdobramentos dela, assim como revela capacidade de reconhecer seu valor e demonstrar suas peculiaridades.

     Ler o seu texto é como assistir a suas aulas. O modo como discorre sobre suas experiências revela seu ponto de partida, que se delineia no conhecimento pormenorizado da arte do canto, o modo como se configura, como se aprecia, como se articula, no contexto cultural pesquisado e, finalmente, como se explica e se ensina.

     Maestro Afonso reúne, ao mesmo tempo, profundidade e simplicidade. Porque de nada adiantaria experiência, conhecimento e vivência, se não houvesse como expor suas conclusões num modo abrangente, claro e numa linguagem acessível, porém sem perda de conteúdo.

      Ainda que não  esteja na posição de um especialista na arte da música, incluo-me no grupo dos que apreciam, neste trabalho do Professor e Maestro Afonso Portela uma contribuição que reforça o valor da cultura local do Norte do Brasil.

     E o faz destacando a riqueza que há na poesia, no canto e no detalhe do modo como deve ser replicado, a partir da interpretação correta que se deve incorporar, na medida em que se propõe conhecer, apreciar e reproduzir, pela arte do canto, a música regional amazônica.

     Somente há uma maneira de fazê-lo, o que se torna bem claro por meio do laboratório de pesquisa executado por nosso caríssimo Maestro, que será por meio da técnica demonstrada de modo tão claro e meticuloso, bem ao gosto e ao exemplo do esforço pessoal que testemunhamos ser a conduta de nosso Professor.

     Congratulamo-nos com o Maestro Afonso Portela, porque sua obra ocupa um lugar de destaque pelo teor que revela, constituindo-se numa espécie de manual permanente, revelando a cultura amazônica do canto, o modo como ela retrata seu ambiente, assim como o modo como deve ser apreciada, experimentada e reproduzida.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021