quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Apresentação

    Para mim constitui-se num grande  privilégio conhecer o trabalho do Prof. Maestro Afonso Portela denominado "SINGELAS CONTRIBUIÇÕES PARA A INTERPRETAÇÃO VOCAL DE CANÇÕES AMAZÔNICAS".

    Por múltiplas razões. Embora não seja, propriamente, alguém da área específica da música, senão um apreciador amador, tive o privilégio de ser aluno desse competente Artista, Maestro, Professor e agora também Escritor.

    E do mesmo modo e grau de importância, conhecê-lo, por assim dizer, considerando-me amigo. Conviver com o Maestro Afonso é gratificante. Porque sua postura em relação à arte da música constitui-se num grande incentivo a quem com ele convive.

    Consegue transmitir a seus alunos, entre os quais me incluí, independentemente do grau de seus conhecimentos musicais, da idade deles e atendendo, de modo peculiar, às suas dificuldades, os métodos, caminhos e o potencial da arte musical, numa linguagem ao mesmo tempo rica em detalhes técnicos e acessível à compressão de todos.

     O que demonstra sua competência e larga  experiência. E, particularmente, quando se lança à tarefa de registrar sua vivência com a música, demarcada em sua história com essa arte, torna-se possível então, como num diálogo, acompanhá-lo a cada etapa, constatando seu meticuloso senso de observação e o meticuloso cuidado com os pormenores.

     O Maestro Afonso Portela se revela em seu texto, não somente como legítimo integrante da cultura amazônica, porém como alguém que cultivou a percepção dos desdobramentos dela, assim como revela capacidade de reconhecer seu valor e demonstrar suas peculiaridades.

     Ler o seu texto é como assistir a suas aulas. O modo como discorre sobre suas experiências revela seu ponto de partida, que se delineia no conhecimento pormenorizado da arte do canto, o modo como se configura, como se aprecia, como se articula, no contexto cultural pesquisado e, finalmente, como se explica e se ensina.

     Maestro Afonso reúne, ao mesmo tempo, profundidade e simplicidade. Porque de nada adiantaria experiência, conhecimento e vivência, se não houvesse como expor suas conclusões num modo abrangente, claro e numa linguagem acessível, porém sem perda de conteúdo.

      Ainda que não  esteja na posição de um especialista na arte da música, incluo-me no grupo dos que apreciam, neste trabalho do Professor e Maestro Afonso Portela uma contribuição que reforça o valor da cultura local do Norte do Brasil.

     E o faz destacando a riqueza que há na poesia, no canto e no detalhe do modo como deve ser replicado, a partir da interpretação correta que se deve incorporar, na medida em que se propõe conhecer, apreciar e reproduzir, pela arte do canto, a música regional amazônica.

     Somente há uma maneira de fazê-lo, o que se torna bem claro por meio do laboratório de pesquisa executado por nosso caríssimo Maestro, que será por meio da técnica demonstrada de modo tão claro e meticuloso, bem ao gosto e ao exemplo do esforço pessoal que testemunhamos ser a conduta de nosso Professor.

     Congratulamo-nos com o Maestro Afonso Portela, porque sua obra ocupa um lugar de destaque pelo teor que revela, constituindo-se numa espécie de manual permanente, revelando a cultura amazônica do canto, o modo como ela retrata seu ambiente, assim como o modo como deve ser apreciada, experimentada e reproduzida.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

A velha - 3

 

    A professora da escola irritadíssima. A escola do bairro. Sta Leocádia. A escola. Vocês tem de ser dar o respeito. Num respeita os outro. Tem de respeitá. Respeitar d. Maria, respeitar a religião e respeitar a si mesmo, o pai e a mãe de vocês. Cês têm tudo que se dar o respeito.

      Porque a criançada passava pela velha e falava Ave, Maria. Ela só olhava. Mas bastou. Cidade pequena, chegou nos ouvidos de alguns pais, algumas mães deram peia, a própria Diretora fez uma preleção no recreio da escola. Olha, isso é muito feio. Os pais de vocês vão ficar envergonhados. Vocês querem os pais de vocês envergonhados? Essa pergunta foi enfática.

     Eu não acredito que vocês queiram ver a vergonha, a vergonha, repetia, modulando a voz, es-tam-pa-da, falou, gesticulando uma imagem circular com as mãos, em forma de garras, estampada na cara, no rosto, melhor dizendo, de seus pais. Bastou. A velha superou mais essa e continuou plantada em seu perímetro.

     E foi nesse perímetro que Alfredo, esse, o motoboy das entregas, a viu plantada, quando virou a curva, para pegar a marginal, para pegar a autoestrada. Deu de cara, distraído, desligado, como sempre, e desprevenido que estava, com a estampa do rosto profético protocolar sombria da aparição. Como se fosse uma aparição.

     Desgovernou-se, na moto, como se fosse cair, a lado e outro, fez um 8 no chão, até que parou, como se fosse num cavalo de pau. Minha Nossa Sra, ele gritou. Que que isso, seu Alfredo, era Maria, a menina de bike, os três únicos, naquela hora, cedo no dia, ali naquela rotatória.

    Maria freou sua bike. Machucou-se, seu Álvaro? Falou assim mesmo, "machucoo-se", com o "se" depois do verbo. Era uma menina muito inteligente. Trabalhava e estudava, mas as duas coisas fazia, dando tudo de si. Não, é deslocou o olhar para a velha. Ia dizer alguma coisa. Mas os olhar da mulher o estatelou. Esgueirado pelo franzido da fenda que dissimulação os olhos.

     Dissimulada. Esse velha é uma Dissimulada isso que ela é. Mas não disse, pensou, enxergou o olhar dela fixado no seu, pela fenda dos olhos, e a imagem completa foi aumentando de tamaho, ganhando corpo e força, mateforfozeando-se, ou melhor, metaforizorceando-se diante dele. Seu Alfredo. Maria o chamava.

      Porque congelara. Ahn, sim. Oh, Maria. O Sr. está bem mesmo? Claro! Claro. Fez uma careta. A velha manteve os olhos de brecha cravados nele. Não tirava. Ele abaixou a cabeça, deu com duas vezes no pedal, a moto pegou, deu tchau para Maria, olhou de novo para a velha, ela com a lentidão de sempre acompanhou olhar e trajetória da moto.

     Ele ganhou, intrigado, seu rumo. Porque sua vontade mesmo era culpar a velha pelo transtorno da derrapagem. Que que ela tinha de estar ali, feito um poste. Caramba! Mas convencia-se de que a culpa era sua. A velha era um patrimônio e o lugar dela era ali. Definitivamente, não era para ele encarar a velha e se desgovernar. Caramba! E foi assim que deu mais uma olhadela atrás. E deu com o olhar da velha, 180⁰ mirando a cara dele. Deteve-se o suficiente para ouvir um buzinaço. 

     O cara da via de sentido contrário o alertara. Virou para ver, deu com a traseira do carro defronte, par de luzes de freio acesas, crescia, chamou para si a moto, freou amenizando, ganhou à direita, desviou, retomou o prumo, saiu da traseira do carro da pista da direita, ganhou o acostamento, viu areia no chão, chamou ameno no freio, a moto ainda dançou a lado e outro, agradeceu a Deus não ter ninguém nem nada naquele espaço, entre o caminhão que agora via a sua esquerda e a vala negra cheia de mato que via à direita.

     Noutros tempos, ainda solteiro, teria xingado, sonoramente, um nome. Mas lembrava da cara, desta vez de sua mulher, seu olhar reprovador. Tirou o capacete, rodando a cabeça para um lado, velha do caramba!

A velha - 2

    Fortuito aceno. Tarso naquele dia levantara cedo. Madrugou, hein, ironizou a mulher. Vou ao município. Ela remexia os ovos mexidos, remexendo estava, remexendo continuou. Sei...reagiu, irônica.

     Posso saber qual deles? Eram 22, ao todo, uns mais perto, no entorno da capital, outros mais isolados. Sim. Pode. Cruz Alta. Huuummm... Sei. Pertinho. Logo ali, agora foi ele o irônico.

    Não dava não, pra você me prevenir quando vai dar essas estiradas? Mulher, é meu trabalho. Tranquilo. Uma coisa não conflita a outra, ela respondeu. Que é seu trabalho, eu sei. Mas avisar à esposa, prevenir, e aí, já despejava no prato dele, gesticulando com o colher, avisar, prevenir, nada custa, você não acha?

      A mulher tinha razão. Ele que era o máximo desligado. Imagina que eu vou ali, digo ali, em Senador Caiara, aqui do lado, enfática, indicando pela colher, com uma circunferência no ar, você acordasse, altaneiro (gostava dessas palavras ditas do nada, desses adjetivos), acordava altaneiro e não me encontrava aqui, agora disse apontando, com ênfase, a colher para o chão, e nem seus ovinhos mexidos. Sabe o que ia acontecer: meu celular aqui ia tocar e, do outro lado, mulher, cadê você? Eu então ia dizer, estou aqui, benzinho, no Caiara. Apelido do município. Você ia dizer caramba! Que era a expressão de espanto dele, marca registrada.

      Ele já degustava os ovos mexidos. Já havia consumido o mamão. Agora ia degustar a tapioca. Por último, o café. Você é muito desligado. Aliás, desligado demais pro meu gosto. Vai desculpando, mulher. Partia a metade da outra tapioca, para terminar o café.

     Haviam se conhecido por puro acaso. Ela trabalhava de diarista na casa do advogado dr. Gonçalo. Ele um dia, parou a motinha em frente, para a entrega de um pacote. Buzinou. Não seu nem 1min, clicou de novo na buzina. Aquelas estridentes, de moto barata, irritantes.

     Já vai, estorvo, gritou lá de dentro uma voz, a dela. Caramba! Precisa chamar de estorvo. Ora, você não tem paciência. Pensa que estou brincando, aqui dentro. Tô trabalhando que nem você. Por isso mesmo, disse ele. Olha aqui, mostrou atrás o vagonete cheio de entregas para fazer. Também tô trabalhando. Então tenha educação e muita calma nessa hora.

     Ora, educação, educação, quem fala de educação. E já estendia a pranchetinha para ela assinar o recebimento, ela já abrira o portão, assinou, recebeu, grato, disse ele.  Seja mais prestativa. Ela olhou com indiferença, com cara de nojo, e disse seja menos pra frente.

      Ele acelerou, agora foi ele que olhou com cara de desprezo, ela manteve o mesmo olhar de nojo, até nunca mais, disse ele, até o dia do juízo, disse ela, e não se despediram. Dia seguinte, por pura e, literalmente, co-incidência, a buzina irritante tocou defronte da casa do dr Gonçalo, muito conhecido e querido na pequena capital. 

      Lá de dentro, ela. Não acredito não. Mais uma vez, a buzina, desta vez repetida com menos de 30 seg. Ela veio irritadíssima. Ele esperava com um sorriso debochado escancarado na sua cara. Foi decisivo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A velha

        A fama da velha era injusta. Nas redondezas, diziam, por pura implicância, que tinha 100 anos. Nem tanto. Alguma coisa entre 80 e 90. Ficava por ali, nas redondezas do bairro.

     A lenda urbana dizia que ela era onipresente e onisciente. Porque era uma das primeiras moradoras do bairro, diziam que  a invasão começara por ela, e que sabia tudo de todo mundo. Exagero.

    Mais pela figura, do que pela atividade. Porque tinha uma figura singular, num certo sentido, até meio sinistra, e estava sempre por ali, na calçada, cedo do dia, começo de noite, sim, porque tarde da noite apenas se via a lâmpada de sua casa, de matiz amarelado, dependurada, a partir do teto, pendida, presa num bocal envelhecido como ela, pendente do teto da casa, madeira escura pelo tempo, envelhecidos como ela, a casa e o tempo.

    Dava a impressão que, quem saísse cedo, pela manhã, para o batente, daria com ela ali, estratégica, rosto multiengilhado, quer dizer, com rugas mil, nariz bico de águia, queixo pronunciado, sem a característica verruga, conferindo um perfil vulgar, então, pela ausência dela, era portadora de uma feição solene.

    Sinistramente solene. Os olhos miudinhos, como se fossem dois rasgos na pele encarquilhada, duas rugas a mais num mar delas, nesse rosto amarrotado por elas, acentuavam o tom profético de seu prognóstico. Era possível entrever, dentro, na fresta dessas duas fendas, brechando, as pupilas baças, um desbotado que já havia sido negro.

     Diziam que dar com ela, pela manhã, assuntando, dava azar. Roupa para maior do que o seu tamanho. Blusa abotoada até a gárgula da garganta, gola imensa, pontuadas, angulares, que pareciam guarnecer todo o tórax, mangas que só deixavam ver as pontas dos dedos, com unhas distorcidamente aparadas.

    Saiote cumprido até o pé. Pontas dos dedos das unhas ainda mais brutas e endurecidas do que as das mãos. Chinelas. Rosto enorme. Rasgo de boca. Lábios finíssimos. Uma só menina das redondezas, chamada Maria, acenava para ela, todos os dias, em que saía com sua mochila às costas, montada em sua bike, caminho para o trabalho, caixa de supermercado. 'dia, d. Maria, ela dizia. A velha, lentamente, voltava o rosto, alteava, imperceptivelmente, a mão, afastando do vestido e da posição despencada, pendida, um átimo de distância. Era o aceno. Maria desenhava um lindo sorriso seu para Maria, a velha. Ganhava esse aceno. 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Inusitado 1 - Providência divina na BR

O que mais lembra o Gol 1000
quadrado Kodak que nos socorreu 

     Inusitado. Já seria navegar num Gol 1000 1995, aquele quadradinho mesmo, raiz de mais uma falcatrua das montadoras, desta vez ou, mais uma vez, a WV, que exigia, para vc "encontrar" o dito carro popular, comprar tapetes, peito de aço e um rádio-gravador, para fitas K7, lembram?

     Somente sair navegando, no Gol 1000 quadrado, a partir da colina da Floresta, nome de um bairro aqui, em Rio Branco, a caminho de 4.100 km, até o outro Rio, tudo foi inusitado. A parada na antiga WV, em Porto Velho, para trocar o morcego, nome do antigo 1/4 de vidro, de acabamento da porta, junto ao parabrisa dianteiro que, nesse Gol, era fixo.

     Retenção na estrada, impedindo de alcançar para além de Cacoal, que era sempre nosso plano, por causa de recapeamento. Mas como a memória falha, não sei se foi nessa primeira viagem, em março de 1995, para defender dissertação de mestrado na PUC, que houve essa retenção, ou que achamos o menino sumido, caído entre camas, ou no hotel de Cacoal ou já no de Rondonópolis.

     Já contamos o susto na curva de saída da 364, para atravessar Cuiabá e retomar para Rondonópolis, quando o choro de estresse do menino, injustamente no colo da mãe, no banco traseiro, o dia inteiro, obrigou-nos a parar num posto para, ao mesmo tempo, abastecer e verificar o tamanho do estrago no peito de aço, retorcido no imenso buraco que colhemos, quando, bem na curva, voltei-me para ver o garoto em seu choro.

     Carolina, desta eu me lembrei, a concessionária WV em Rondonópolis, para constatar que houve o milagre. Eu apalpei, no posto, por debaixo, para ver se havia óleo vazando, senti o peito de aço retorcido, mas não era possível deduzir o quanto perto da sucção interna da bomba de óleo havia ficado a parte interna do carter com o impacto.

    Foi uma expessura de folha de papel, segundo me mostrou o mecânico. Ficou num canto da loja o peito de aço retorcido e mais a tampa do carter de óleo. Rumamos para o sul, pela BR 364, para a cidade seguinte, que eu acho que foi São José do Rio Preto. Ali pernoitamos, temos uma foto do menino que, àquela altura, apenas cambaleava nos primeiros passos.

     Para alcançar o Rio no dia seguinte. E vir com Dorcas na volta. Emparelhar, aqui e ali, com um Gol 1000 de mesma carroceria, todo amarelinho, da Kodak, ora eu, ora ele me ultrapassava, até que, numa curva, peguei em cheio um buraco. Desci para trocar o pneu dianteiro. Ele logo parou atrás, que eu nem notara que, justo naquela altura, ele estava atrás.

      Quer ajuda, perguntou? Eu disse claro, toda a ajuda é bem-vinda. Mas ele deve ter notado que eu, realmente, não havia notado tudo. O pneu traseiro também estava furado. Ele me repassou seu estepe. Perguntou para onde eu ia. Quando disse Rio Branco, ele então deu um ih, de espanto, e pediu que eu deixasse o pneu num posto de um conhecido, mencionou o nome, de que não lembro, logo após Pimenta Bueno.

     Assim fizemos: ultrapassamos a cidade, fomos ao posto, deixamos o pneu como encomenda ao dono, voltamos para pernoitar nela. Aliás, mais uma dormida em Pimenta Bueno, favor anotar. Tudo isso após ouvir histórias dos buracos da 364, na época nomeados e reconhecidos por todos os caminhoneiros, cuja conversa sobre enguiços e acidentes, infelizmente até com mortes, pude ouvir, enquanto Regina e Dorcas lavavam o menino de suas emergências. Esse borracheiro foi indicado pelo amigo da Kodak, uns 40 km à frente do sinistro. 

sábado, 14 de agosto de 2021

Necrópole XII - Final

       Fechariam como numa pinça. Um arco, por dois lados, eram, pelo menos, meia dúzia deles. Pelo menos, dois estranhos havia, um totalmente, outro conhecido, pelo menino, só de vista. Agora desenhou-se um sorriso sinistro no rosto do líder.

    Súbito um redemoinho de vento, por detrás do menino, levantou poeira. Costumava vir assim, como que subindo a partir do descampado. Certa vez, o aviso da vinda do vento virou ventania, ele caminhou, atraído, para o beiral último que o muro representava, para assistir a uma evolução, belíssima, de chuva, temporal mesmo, vindo célere em sua direção, subindo o aclive do descampado.

    O redemoinho, como num recorte preciso, rodeou o menino, como que desenhando um círculo ao seu redor, levantado folhas secas da árvore ali pertinho, sombra solene e contínua companheira de nosso herói. Projetou poeira no grupo, como a se espraiar, como um leque, num vetor de direção de encontro a eles.

     O riso de deboche estava na cara dele, cerrou um pouco os olhos, como instintivamente, os outros bandearam ao lado os rostos, o menino olhou à volta, lado e outro, como num semicírculo, seu terreno, suas campas, seus túmulos e jazigos, sua área, seu vento. Agora cravou o olhar nos olhos do adversário de ocasião, sustentou nenhum medo, como que inquiria se havia compreendido.

     Compreendido o que o vento tinha a dizer. Nem tempo contado houve, leve, levíssima alteração, congelados riso e deboche, como a se perguntar por que e como, que queria dizer essa falsa segurança, essa comunicação do quê, se eles se fechavam como pinça. Sem tempo, dessa vez não foi brisa, mas como um tufão de força calculada, como se mãos invisíveis de vento avançassem contra e bloqueassem o avanço de cada um.

    Num ruído surdo. Como tufão contido. Surdo e forte. Como se fossem se fechar essas mãos de vento, ao redor, assim se sentiram eles, enquanto isso vinha um som, mais agudo, como de fosse ventania de longe, varrendo tudo, árvores onde houvessem, assobio onde nada houvesse, zoada típica de uma muralha que avança, no conjunto todo.

     Mais uma olhada do menino ao redor. Agora, sério, congelou o olhar, como se encarasse a todos e um a um ao mesmo tempo. Modulou, de leve, os lábios, como a advertir, é isso, e, agora com o olhar, como que fez menção do ruído atrás de si, cada vez mais perto e mais ameaçador, vindo a partir do descampado, por detrás do nosso herói, de frente para a malta.

     Agora o som era total, chegara a tormenta, a gang como que estatelara, parada, até os paus estavam no ar, também congelada a cena, foi quando reviveu-se atrás um som de chuva. Que chegou, em evolução maravilhosa, varrendo tudo, de trás para diante, lavando de toda a poeira, encharcando as folhas, agora grudadas ao chão, apenas movidas pela enxurrada que fazia regos nos desvãos das tumbas.

    A água, definitivamente, os fez parados, encharcados. O menino ergueu as mãos aos céus, como a louvar a tormenta. Todos os olhos voltados para o seu gesto. A chuva continuava, pelo vento, a bater-lhes o rosto, de frente, a encharcar o menino, pelas contas. Braços erguidos e olhar aos céus, olhos semicerrados, cheiro ameno da terra molhada.

      Todos como a não saber por que ou como, balançaram sem por que, nas mãos, os porretes, um a um largados ao léu da água que escoava no chão, matizada nos desvãos. Um ou outro porrete, que não travou naquele desenho, deslizou pelas vielas entre túmulos.

      Ninguém mais olhou para a cara de ninguém. Cada um tomou seu rumo. O líder não sabia o que fazer de seu cetro, se parecia que iria arremessar a qualquer quadrante, largou-o ali mesmo, emblematicamente. E menos simétricos do que na vinda, agora voltavam. O líder por último, em direção à elevação do cruzeiro, agora mais conduzidos pelas determinação natural da chuva torrencial, do que por mãos de vento invisíveis.

     O garoto mirava a debandada. Fechou os olhos, curtiu a água benta que o lavava. Quando os abriu de novo, a silhueta do líder se perdia descendo o aclive rumo ao portão de ferro. Junto ainda com a chuva, um raio de sol entre nuvens esbarrou no menino. De trás para a frente, do mesmo lugar de onde veio, a chuva foi indo, no mesmo sentido.

     Agora era um vento quente que vinha lá de trás. Morno. Contribuía para secar a roupa molhada. A sujeira estava toda lavava e levada. As nuvens se iam e um sol de entardecer despontava. E foi essa luz que trouxe, lá da direção do portão, despontando pelo alto do declive, ao lado do cruzeiro, pela via do meio, o contorno no negro Pedrão.

     Mãos enormes, braços quase na altura dos joelhos, ombros de laje. Sorriso alvo. Vinha ele. Costumavam, os dois juntos, e quantas vezes fizeram isso, em silêncio assistir ao sol se pondo. O pessoal em casa já sabia que, sol posto, a essa hora, ele chegava. Pedrão veio em sua direção. Ele deslizou da lájea ao chão. Também riu para ele.

     Não precisava dizer. Na chegada de seu plantão, havia cruzado com o bando disperso. O olhar duro que lançou a cada um, nunca mais esquecerão. O líder se deteve. O mesmo olhar, mas agora a menos de palmo, medido nas mãos do negro, de distância. O olhar do delinquente adolescente sabia que tinha que mirar no do outro. Ficaram assim, encarando-se, até que o rapaz entendesse o nunca mais.

    Os dois juntos, como sempre, em silêncio, agora quase totalmente secos, miravam o sol se pondo. A mão gigante esquerda do negro pousada no ombro esquerdo do menino. Cada anjo que aparece.