domingo, 28 de março de 2021

Carta aos primos e primas.

 

     Virou mania eu escrever textos que refletem a experiência pessoal minha com fatos alegres ou tristes entre pessoas de nossa família.

    E que família. "Familhão", poderemos dizer, quando a língua pede dizer Familiona, sim, por parte de pai, o Cid, e por parte de mãe, Dorcas, mas conhecida como a tia Maninha.

        Já disse, do alto dos meus quase 64 anos, um dos filhos, neto e primo mais velho que, talvez, tenha ouvido mais histórias do que os outros mais novos, mas nem tantas ainda mais conhecidas pelos mais velhos.

     Este "texto do alvorecer", no Rio, ou da madrugada, aqui no Acre, é o segundo, por conta da triste partida de nossa prima mais velha, Dercília, quase 20 anos mais velha do que eu.

     Sou talvez um pouco mais novo, pouco mais velho do que meu primo Cláudio, filho mais velho dela. Filha de José, o primogênito de Adalgiza Barcellos de Jesus e Antônio Gonçalves de Oliveira.

    Nossos avós, caros primos e primas, bisavós para os filhos dos primos e primas e, quiçá, trisavós de tantos outros porque, por exemplo, Dercília já era bisavó, e não é a única.

     Para se ter ideia da ligação entre as famílias Araujo e Gonçalves, o meu avô paterno, esse que mencionei acima, de apelido Antunico ou Tunico, foi acolhido em Nilópolis, na casa de minha avó materna Eunice, falecido no ano de meu nascimento, em 1957.

    Não são somente esses laços que nos unem. Outros mais, que talvez a gente nem perceba, mas carrega com a gente. Para este texto não ficar enorme e menos motivado a ser lido, vou encurtar.

    Dizendo que no texto anterior escrevi sobre algo do que a vida da minha (linda) prima, melhor dizendo, nossa prima mais velha nos ensinou, em vida, para neste tentar escrever o que a morte dela nos ensina.

     O primeiro destaque é que, de Dercília, fica uma espécie de diálogo com o seu estilo de vida. As lembranças não são somente caprichos de memória. Ficam modos, jeitos e hábitos.

    Todos sabem minha religião, ou melhor, a nossa, espalhada entre tantos nas duas familionas, que acabam sendo uma só, que a nossa religião não é a que diz "falar com os mortos". Não é essa a nossa crença. Mas diálogo com o estilo de vida de nossos antepassados nós temos.

     Olhamos para nós e vemos na saudade e no nosso estilo, fenótipo, que é semelhança física, e genótipo, traços mais profundos de personalidade, enxergamos em nós esse diálogo com eles.

     E a gente se vendo neles, a gente percebe o legado que nos deixaram. Porque seu estilo de vida foi marcante. Tão marcante, que vivemos por meio dele, pois nos criaram, educaram, enfim, plasmaram, modelaram a gente nesse estilo.

     Vamos lá! Vamos ativar a memória. Até onde ela e, para não dizer, os olhos da memória nos levam? Ora, da parte de meu pai, levam à roça, como ele dizia, "sou do interior", município de Itaocara, do Valão do Barro. Da parte de minha mãe, à periferia do Rio de Janeiro, baixada fluminense da década de 1930, a Nilópolis.

     Em ambos os casos, pobreza, de vez em quando, falta, pouco para muitos filhos. Mas nunca desonestidade. Nunca covardia com a vida. E um tempero, que a própria Bíblia chama sal.

      Essa gente de onde eu vim, de onde viemos, temperava com esse sal a vida deles. Meu pai contava que na cozinha da tapera lá na roça, no Farope, havia uma Bíblia numa prateleira. Antunico chegava "bala" em casa com o menino Cid, meu pai, distraído demais no roçado.

      Adalgiza, então, dizia não adianta, Tunico, esse menino não vai ser roceiro: vai ser pastor. E foi. Gente pobre, que empurrou para frente os filhos. Como é bonita a minha família! Seja por parte de pai, quanto por parte de mãe.

    E os agregados? Chamo assim os que vieram casar por essas bandas. Que conheceram os primos e as primas e resolveram arriscar. Não digo que encontraram perfeição. Mas muita beleza acharam. E viram o mesmo filme.

    E o que mais acharam foi essa história das origens. A história da semente plantada pelos nossos antepassados. A marca plasmada em nossa vida. Esse diálogo que ainda temos com eles. Isso que trazemos, carregamos e reproduzimos.

     A morte de minha linda prima Dercília está me ensinando que não, ela não traiu sua herança. Guardou com ela, transmitiu e está aí, melhor, está aqui dentro. Dialogando conosco. Nesse sentido, dialogamos com eles.

     Não sou da religião que conversa com mortos. Mas sou daquela que reconhece que vivem. E estão junto daquele em quem esses nossos antepassados acreditaram e nos ensinaram a acreditar, Jesus, que ensinava a temperar com sal a vida.

     Melhor, ensinava a ser sal. Tunico e Adalgisa, no Farope, foram sal nessa vida. Tula e Eunice, de Nilópolis, foram sal nessa vida. Tantos outros que conhecemos foram sal nessa vida.

     Até já, prima. Fica a sua marca. Você temperou nossas vidas como tantos outros já fizeram. Resta a nós, enquanto aqui estamos, proceder assim. Sejamos sal, sejam sal nossos filhos, netos, bisnetos. 

      Ora, tenho certeza: os avôs e avós, da roça e da periferia, também fizeram essa oração. 

quinta-feira, 25 de março de 2021

Três aspetos da diversidade

 PROBLEMATIZAÇÃO


    A diversidade religiosa, em si, apresenta características que lhe são marcantes. A primeira delas é a necessidade permanente de se reinventar. Isso porque sua proposta, de aproximação e convivência respeitosa entre religiões, constantemente é questionada pelo risco e medo representados por uma equivocada compreensão de seus postulados.

     Portanto, a todo momento seus parâmetros precisam ser lembrados e a prática deles acompanhada de perto, de modo crítico e avaliativo, para que, no contexto de sua abrangência, perdas e erros sejam verificados, o que, certamente, promove afastamento e de novo o recomeço dos medos e das estranhezas.

      A segunda característica é a necessidade de que a concepção e prática dessa diversidade seja conjunta. De nada adiantará um "cânone" ou uma "dogmática" da diversidade religiosa, muitas vezes imposta por teóricos, sem o cuidado de que se reconheça plural em sua concepção e aplicação.

     O perigo de grandes religiões que, por sua antiguidade e quantidade de adeptos reúnem, unilateralmente, iniciativas e discursos de convívio plural reside na tentativa inconsciente ou, até mesmo, deliberada de definir diversidade a partir de sua visão supostamente abrangente.

    Essa prática assemelha-se a proselitismo doutrinal, quando ocorre, inclusive, a tentativa de enxergar a diversidade religiosa a partir dos valores de uma só religião. Por exemplo, o modelo de diversidade que Jesus respresenta para um cristão, ou o modo como é definido diverso e plural, não terá o mesmo efeito para um muçulmano, a não ser que ela procure em Maomé esses mesmos valores.

      O conceito do esvaziamento de Deus para assumir, no Filho, sua condição plenamente humana, para quem é cristão, ajuda na compreensão da necessidade do mesmo esvaziamento, de religião para religião, sem que esses dados de supremacia, sejam por que razões forem, postos em evidência, tornando o suposto diálogo uma imposição de pontos de vista, do "maior" para o "menor".

      Um terceiro aspecto associado à prática da diversidade religiosa é que ela, uma vez bem equacionada e vivenciada, contribuiu como modelo de prática social aplicada a outros segmentos da sociedade. O Brasil é um país classista. Há profundos veios abertos de preconceito e discriminação em meio à sociedade. O classismo religioso é apenas um deles.

     Num Estado que, nominal, jurídica e teoricamente se propaga laico, despudorada e cinicamente religiões de massa procuram espaço político, numa relação promíscua com o Estado, e ocorre mesmo disputa entre grupos religiosos por esse espaço conquistado ou a conquistar.

    O exercício franco, aberto e verdadeiro da diversidade religiosa jamais poderá prescindir da rejeição ao classismo religioso. Não pode haver "religião de elite" ou uma profunda brecha que separe liderança religiosa dos segmentos mais carentes da sociedade. Já a teologia da libertação contribuiu para que a ênfase ao pobre, em todos os sentidos, fosse priorizada.

     O exercício da diversidade religiosa, em seu modelo isento de distorções, contribui para que, primeiro no contexto das religiões, não haja o abismo que o próprio Jesus, em seus dias, denunciou entre os "religiosos" fariseus, em vício constante de proximidade com o poder político da época, colocados num abismo e numa posição de superioridade em relação à classe a que eles mesmo, pejorativamente, declaravam "pecadores".

     A eliminação desse abismo deverá ocorrer no contexto dos esforços das religiões, para que haja eco e modelo para fora do contexto religioso, de modo a positivamente contagiar os demais segmentos da sociedade. Sem esquecer que, nesses segmentos e nesses outros contextos estão o público-alvo da diversidade religiosa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

 Algumas versões traduzem “Beemote” como hipopótamo ou elefante, mas o animal aí referido não possui características nem de hipopótamo nem de elefante. A descrição bíblica indica que o animal possuía uma cauda grande e potente, pois é comparada com o cedro – árvore alta, forte e resistente. Ora, hipopótamos ou elefantes não possuem uma cauda como esta, descrita no v. 17. A declaração é que tal animal se alimentava em lugares altos, diferente do hipopótamo e do elefante. Juntamente com o v. 23 concluímos que se trata de um animal muito grande e pesado, pois não se alarmava com enchentes, mesmo de um rio como o Jordão, com um considerável volume de águas.

Além disso, o hipopótamo não é encontrado na região geográfica que descreve esse acontecimento bíblico. As particularidades deste animal apresentadas nesses versos são as de um dinossauro herbívoro, provavelmente um braquiossauro, que media aproximadamente 25 metros de comprimento, 15 metros de altura e pesava cerca de 90 toneladas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

 Disse Josué ao povo: Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós". Josué 3:5


"Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto.
Procederam corruptamente contra ele, já não são seus filhos, e sim suas manchas; é geração perversa e deformada". Dt 32:4,5

     Santidade e o agir Deus.

1. Nosso primeiro equívoco é imaginar que são nossas ações que desencadeiam o agir de Deus. Mas é o contrário: o agir de Deus que desencadeia em nós (ou não) o que é justo.

      Caim e Abel são exemplo da diferença entre ser, diante de Deus, santo ou não.

"Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, sobremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante". Gn 4:3-5

- Qual foi o agir de Deus em direção à proposta de santidade na vida de Caim (Abel tinha o que faltava ao irmão):

"Então, lhe disse o Senhor: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante?
Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo".
Gênesis 4:6,7

1. A santidade começa na conversão: esta começa no arrependimento:
"Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte". 2 Coríntios 7:10

Primeira lição a aprender: não é o nosso agir que desencadeia o agir de Deus, mas nos afastarmos do pecado para nos consagrarmos a Deus que permite a Ele usar-nos.

2. Nosso segundo equívoco é supor que maravilhas são feitos de Deus que se distinguem de quaisquer outros, pois todos os feitos de Deus são maravilhas.

"Ora, não tendes chegado ao fogo palpável e ardente, e à escuridão, e às trevas, e à tempestade,
e ao clangor da trombeta, e ao som de palavras tais, que quantos o ouviram suplicaram que não se lhes falasse mais,
pois já não suportavam o que lhes era ordenado: Até um animal, se tocar o monte, será apedrejado.
Na verdade, de tal modo era horrível o espetáculo, que Moisés disse: Sinto-me aterrado e trêmulo!
Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia
e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados,
e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel".
Hebreus 12:18-24

"Disse-lhe Deus: Sai e põe-te neste monte perante o Senhor. Eis que passava o Senhor; e um grande e forte vento fendia os montes e despedaçava as penhas diante do Senhor, porém o Senhor não estava no vento; depois do vento, um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto;
depois do terremoto, um fogo, mas o Senhor não estava no fogo; e, depois do fogo, um cicio tranquilo e suave.
Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. Eis que lhe veio uma voz e lhe disse: Que fazes aqui, Elias?".

1 Reis 19:11-13

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Carta 1995

               

 Prezado Rev. Cid Mauro Araújo de Oliveira:

   ___ É para mim um prazer escrever-lhe e o faço com grande alegria. Sempre o admirei profundamente. Peço-lhe permissão para citar alguns pensamentos... "uma viva inteligência de nada serve se não estiver a serviço de um caráter justo, um relógio não é perfeito quando trabalha rápido, e, sim, quando trabalha certo" --- Uma fábula oriental dava conta de um espelho que permanecia claro quando os bons se miravam nele e se embaciava quando os impuros o fitavam. Assim, podia o dono dele conhecer o caráter dos que dos que o utilizavam ---- Sem dignidade de caráter é impossível fazer-se caminho no mundo. ___ Quando de perde a riqueza, nada se perde; quando se perde a saúde, perde-se alguma coisa; mas quando se perde o caráter, perde-se tudo!" ___Quando o homem escuta, Deus fala. Quando Deus fala, os homens são transformados, o caráter das Nações é modificado. ____ Rev. Cid Mauro, citei estes pensamentos como uma homenagem ao seu caráter. Você herdou de seus pais um caráter adamantino. Sempre o admirei profundamente, pela tenacidade nos estudos, fez um grabde 2o grau na Escola Técnica Federal, um grande Curso de Bacharel em Teologia, Licenciado em Português-Hebraico, pela UERJ --- Mestre em Teolgia pela Pontifícia Universidade Católica. Foi professor de Hebraico em vários Seminários ---- além de outras atividades. E por grande capricho deixou para constituir a sua família, ainda jovem, mas com a idade bem madura, tudo para poder fazer cursos especiais na vida. --- Fez um excelente casamento. Já é pai de um lindo menino que vai alegrá-lo de uma maneira profunda (Isac). É casado com Regina Célia moça de valor, a gente nota, só em entrar em contato com ela, moça segundo o Coração de Deus. Você é um homem segundo o Coração de Deus casado com uma moça com as mesmas qualidades. Deus há de abençoá-los profundamente. Quero parabenizá-lo pela estada de seus pais em sua casa, respectivamente: Dorcas Lima Araujo de Oliveira e Pastor Cid Gonçalves de Oliveira, sendo que ele comemorou no dia 21 de agosto 77 anos de preciosa existência. Tive o oportunidade de orar por ele. Tenho uma dívida impagável para com ele, só  a eternidade poderá pagá-la. Ele sempre foi um homem especial. Toda a família Gonçalves e Barcelos o admiram pelo seu carinho e gentileza. Quero augurar-lhe muitos anos de vida.
     Rev. Cid Mauro que Deus o abençoe abundantemente. São os votos de Nair de Jesus Barcelos e de Isaías Barcelos de Oliveira e toda a família. Que Deus faça de você um instrumento poderoso de Sua paz.
     
     São os votos de:
Isaías Barcelos de Oliveira e
Nair de Jesus Barcelos. 



sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Jornada Teológica de Ano Novo - 5 - Final - Redução ao absurdo

    Em relação às Escrituras podemos fazer um arco de sentido único, a respeito da personalidade e ação do Deus, desse modo, hipotético, que a percorre do seu início ao fim. Ainda que se queira supor que se trata de um arranjo, há um distintivo na Bíblia que, ou a garante como verdadeira, ou a estigmatiza como um dos mais absurdos livros ou coleção deles. 

     Porque as Escrituras vão afirmar, uma vez que se conjugam Antigo Testamento, este equivalente à Tanach hebraica, livro-texto do judaísmo, com o Novo Testamento, parte cristã dessa reunião de tradições escritas, o Deus do Antigo Testamento se faz homem, encarnado no homem Jesus que, uma vez tendo sido morto, ressuscita de entre os mortos.

      Portanto, na encruzilhada dessas duas tradições, a tradição judaico-cristã, como são usualmente chamadas, se existe um Deus, este se revela no Antigo Testamento, escolhe um povo para se tornar conhecido a ele e por meio dele e, ao final, na história do Novo Testamento, esse Deus, ao se tornar homem, realiza a salvação, assim chamada, por representar o resgate do ser humano de sua condição de corrupção pecaminosa e mortal.

     Se existe um Deus, fez-se homem para assumir a minha culpa, reconciliar-me, quer dizer, unir-me a Ele em comunhão, por meio de Jesus. Se eu tenho pecado, que todos temos, o batismo, quer dizer, a união a Cristo e em Cristo me faz morrer e ressuscitar em Cristo, o que significa herdar uma nova vida, em condições de lutar contra o pecado interno e pesoal e vencê-lo. Essa salvação é eterna e garantida, já a partir desta vida, no ato da fé, sem retrocesso e caducidade.

     Esse é o ponto central das Escrituras. É a partir dele, ou seja, do centro para a periferia, para usar esse termo de expressão, que devem ser validadas. Sim, porque seu principal agente será o Deus criador que se lança ao resgate de sua principal, prioritária e amada criatura, não exitando em se fazer homem para, de uma vez por todas, tornar efetivo e possível esse resgate.  

      Esse, termo que, usualmente, empregava meu pai, é o "pano de fundo" das Escrituras. Qualquer e todas as demais histórias orbitam em torno dessa narrativa central, desse percurso que, por via do cristianismo, no Novo Testamento, ainda instiga a imaginação do leitor quando supõe que, para conseguir seu fim, sua principal finalidade, Deus fez-Se a Si mesmo homem, pois não haveria como superar as imperfeições humanas, a não ser por esse meio.  

      Assim como não haveria outra opção para que o homem Jesus assumisse em si mesmo as imperfeições humanas, já que não as possui, e pudesse purgar em si o pecado (termo técnico síntese de toda a maldade instalada no ser humano), basta que haja uma opção sincera e voluntária em aceitar e acolher esse ato propiciatório, quer dizer, em lugar, expiação e esgotamento da dívida humana para com Deus. 

  E o Novo Testamento ainda vai apresentar uma terceira Pessoa, a quem Jesus introduz na história da salvação de que falam as Escrituras, indicando que a obra que Ele realizou, embora suficiente, única, perfeita e definitiva, está fora do ser humano. Para que seja, voluntariamente para quem opta, aplicada ao que crer, somente pela ação, no(a) crente, do Espírito Santo. Quem crê é, pelo Espírito, batizado em Jesus, ou seja, unido a Jesus, de modo que a trajetória de Jesus seja a de cada um que crer.

     Assim como Jesus é, para Deus, assim se torna o que crê e, por sua fé, é batizado em Jesus. Como Jesus é para Deus, assim o que crer se torna, do mesmo modo. Com a garantia do Espírito Santo, chamado "selo para resgate da propriedade de Deus", que são todos os que creem, tendo em si habitando esse mesmo Espírito, porque, no Novo Testamento está confirmado que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. 

      Esse o Deus, essa a história das Escrituras. Na matemática existe uma modalidade de demonstração de teoremas denominada "redução ao absurdo". Existe exatamente para demonstrar uma modalidade de teorema que se revela impossível de demonstrar. A solução será demonstrar que o seu inverso é verdadeiro. Então, definitivamente, por indução e dedução, o outro estará comprovado. Para afirmar o Deus das Escrituras e, concomitantemente, as próprias Escrituras, basta provar o seu inverso, anulando sua história, no que tem de essencial. Estará terminado. Simples assim.

      

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Jornada Teológica de Ano Novo - 4 - Um Deus e seus planos?

      É radical e de uma vez por todas. Se a opção for por admitir que as Escrituras apresentam um Deus, que nela é único, e que se comunica com o ser humano, elas próprias são a primeira fonte de comunicação desse e com esse Deus. 

    Pelo modo como nela está expressa a história da revelação de um Deus, seriam as Escrituras fraude sistematicamente organizada, na concepção e autoria dos seus textos? Ou ainda uma reunião de lendas, literatura piegas ou construções mitológicas sobre a saga de um povo?

     Nosso objetivo não é discutir texto a texto, ou discorrer sobre o modo específico como tratam do Deus, de que modo a literatura nela exarada reflete sua cultura e época, porque isso já está exaustivamente feito. Mas, em linhas gerais, supor que a ideia sobre um Deus ali descrito fosse tal que se sobressaísse a qualquer outra, por outros meios, exposta. 

     E assim, de uma vez por todas, estaria definido se vale a pena considerar Deus esse das Escrituras ou negá-lo e, consequentemente, negá-las, e assim definir se vale a pena procurar outro ou achar Deus fora das Escrituras. Eventualmente, poderemos considerar que elas dão alguma pista sobre Deus, que seria, em alguma proporção, Aquele que aparece, em esboço, em suas páginas. 

     Então vamos, mais uma vez, anotado que será em linhas gerais, ao perfil do Deus delineado em suas páginas, quer dizer, nas páginas das Escrituras. Elas o indicam como criador, iniciando com uma descrição como tudo foi, por etapas, feito. Para logo indicar a relação pessoal desse Deus com o homem/mulher, segundo elas dizem, criados à Sua imagem e semelhança. 

    Mas para que essa "imagem e semelhança", por motivos óbvios, não seja indicada como um rascunho, devido ao vexame, para um Deus, que representaria a performance da condição humana, as Escrituras indicam logo a razão da distorção e incoerência verificada, descrevendo o modo como homem/mulher contradisseram sua origem.

     Homem/mulher, criados para viver num paraíso, o que combina, segundo as Escrituras, com o perfil do Deus nela descrito, resolvem contradizer Deus, desconhecendo-O como parceiro de suas próprias condutas. Portanto, são expulsos para o que se chama Terra, ainda que esta fosse criada, anteriormente, com essa ideia de ser um jardim paradisíaco. Pois o planeta se tornará, agora, à imagem e semelhança dos seres criados, sem nenhuma depreciação para eles, visto mesmo que, quer exista ou não exista um Deus, o planeta não deixa de ser à imagem e semelhança desses seres que nele habitam.

     Pulando por cima de duas histórias, a primeira indicando que, ao invés de seguir a sugestão do Criador, para que se espalhassem e ocupassem com inteligência o solo, resolveram amontoar-se no que inventaram e passaram a chamar "cidade", com torre e tudo. E a segunda, na qual Deus quase que se desconhece, porque notou duas coisas: 1. A maldade do homem/mulher aumentava, quer dizer, multiplicava-se na terra (ou Terra?); 2. E que isso era sem cura, quer dizer, era continuamente mal o principal desígnio do coração de homens/mulheres. 

     O que essas duas histórias apresentam em comum, segundo ilustram essas partes das Escrituras, é a disposição de não estar nem aí para o Criador, em Suas sugestões. Inventam o que hoje se chama cidade e definem fronteiras e brigam entre si, por nada, e, em termos de refinamento de maldade, esta só aumenta e continua aumentando, com ou sem motivo, se é que, para ser mal, seja necessário um motivo, essas histórias, com ou sem existência de um Deus, são um retrato da humanidade. 

     Respectivamente chamadas, essas duas narrativas, de Torre de Babel, palavra esta que significa "confusão", sendo a outra denominada de história do dilúvio, a narrativa seguinte vai apresentar um homem a quem Deus escolhe e separa, revelando a ele um plano de constituir um povo entre todos os outros povos, para que, ao final, possa reunir, de novo, junto com Ele e para Ele, toda essa turma, quer dizer, todos os povos como um só, os quais 1. espalharam-se pela terra (ou Terra) toda e 2. decidiram ser maus, multiplicado e continuamente, e maus cada vez mais. 

    Esse é o começo da história, em linhas gerais, das Escrituras.  Convenhamos: ainda que nesse comecinho, existindo ou não, já dá para simpatizar com um Deus desse, disposto a consertar com parceira o rascunho em que o pessoal transformou a coisa toda e ainda pretende reunir com Ele todo mundo junto, de novo.