quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Necrópole - IV

    Raul achava, por fim, que sim, vinha ali para encontrar-se com o pai. Naquela paisagem, naquele silêncio, naquela paz. Raciocinando sobre isso, foi que, certa vez, a irmã havia perguntado. Tu vai ao cemitério por causa da saudade de papai, é? Não. De estalo respondeu. E se for, emendou?

      Eram práticos, os três, a mãe, a irmã e o menino de 15 anos. Os dois filhos sabiam que haviam herdado dos pais toda essa praticidade. A relação do casal era prática. No sentido da resolução dos problemas mais intrincados, quando surgiam, entre os dois. Não no sentido da superficialidade. Não havia superficialidade entre eles. Ora bolas, diria a avó. Não havia, digo eu. Ponto.

       Ele deduzira que não precisaria ir a cemitério nenhum, principalmente ao que ia, para rememorar o que fosse. Mas ia, e estava acabado. A irmã não mais o importunou. Certa vez, viu a mãe chorando. Era um dia de chuva. Limpava as lágrimas. Ele se abraçou a ela. Ela lhe segurou os braços que a enlaçavam. Papai faz muita falta, ele disse. Pois é, ela falou. Para isso, ele não nos preparou.

     O menino queria dizer que ele os havia preparado para o que acabou por ocorrer, quer dizer, sua partida precoce. Mas para a falta que fazia, não tinha como. A mãe agachou-se e se abraçaram um ao outro. Raul era um homem raro. Você já visitou lá a cova dele, mãe? Não. Não é preciso, ela disse. Você quando vai lá, visita? Não, mãe, não é preciso. Riram os dois. 
      
      Um dia, à mesa, enquanto a mãe se servia, perguntara ao marido: o que você faz indo tanto a cemitério? Não vou tanto, ele disse, vou num só. A mãe fez cara de deboche. Ele riu. Sim, mas para fazer o quê? Andar, meditar, ver, observar. Falou aasim pausado. Parecia olhar através. Que mania besta. E para que leva o menino? Para que se acostume com o lugar onde, um dia, vamos todos estar. 

      Achavam no pai essa única excentricidade. Parceiro dele era o filho. Evidente que não associava à mania do pai qualquer despiste e não se esperava que fosse preparação para desfecho trágico. Nenhum deles assim interpretava, senão o menino. E nisso era intuitivo. Talvez fosse essa a razão por que, frequentando ainda o campo, poucas vezes se avizinhasse do túmulo do pai.

      Excentricidade. Toda a família absorveu igual a perda. Afagaram-se e se uniram em torno do colapso. É claro que a personalidade dele ajudou. E, no final das contas, sua intimidade com jazigos, tumbas e mausoléus, no campo dos idos, acabou por ajudar. Diante da morte, mesmo que diminuto, qualquer conforto ajuda.

      Mas não era o caso da família. Porque ele os preparara para qualquer trauma. A vida que viveram era um dom. Viviam uma vida que incluía o preparo para a morte. Não que fosse assim compassiva. Morte é sempre morte. Mas a intensidade com que viviam, compensava o incompensável.

     E todos os três lembravam que, em função disso mesmo, a morte dele foi menos dolorosa. Ficaram juntos o tempo todo. As pessoas vinham e os consolavam. Havia muitos amigos. Havia muitos parentes. Ele era um gerente de lojas. Seu jeitão o tornava essencial para a rede, amável com todos os colaboradores e clientes. Um achado para os patrões e chefes imediatos. 

     Sua genialidade, bom humor e criatividade eram seu principal trunfo. Meio atlético, futebol todo finalzinho de semana. Sexta à noite. Sábado e domingo eram exclusivamente da família. Shopping e piscina. Não necessariamente nessa ordem. Um dia, um tio convidou para irem a uma igreja. Era simpático a qualquer proposta familiar. Bastava representar agregação.

Necrópole - III

      Fascinara Laura. Mulher, de si, perspicaz, que poderia ter sido ou nascido desligada, como sua mãe, que era pessoa boníssima, mas desprovida de malícia, urgia ser como Jesus diz no Evangelho, "prudente como serpente, símplice como pomba", mas Meridiana era só símplice. Laura não.  Aprendera toda a sua sagacidade com o pai, filha única que fora. 


     Divertiam-se os dois, ela e o pai, Virgílio, com a distração inata da mãe. Mas, vigiada pelos dois, nunca se comprometeu por causa de sua inocência. Também, a época ajudava. Os contraventores do tempo eram românticos, muito diferente da malícia atual, pernóstica e cruel. Por causa dessa herança do pai, arguta, meticulosa e observadora, que Laura, uma única vez tendo posto os olhos em Raul, viu nele sua alma gêmea, por favor, aqui, mais uma vez, advertido ser força de expressão, nada místico. 

      Estavam no pré-vestibular, coisa daquele tempo. Laura já havia observado Rual, fala macia e silenciosa, como se fosse, em meio ao grupo barulhento de amigos, um ente à parte. Não entendia, ao mesmo tempo que passou a entender como que podia todo aquele refinamento de porte no meio de toda aquela algazarra e puerilidade.

     Mas de longe apreciava o modo como Raul geria tuďo a sua volta. O modo como interferia. Como ele ria. O sorriso dele era desenhado, calculado, como que se cada traço do produto final, do esgarçar final, completo, cada traço fosse estudado, meticulosamente, por um desenhista, um artista, alguém de fora, isso, o sorriso dele era como que um desenho de artista naquele rosto. E que rosto!

    Foi raciocinando assim que, pela primeira vez, ele cravou nela o olhar. Mostrou-se assustado. Ela embranqueceu e suou frio. Ele então, modulando para um meio sorriso, lábios entreabertos, deslocou-se do grupo e caminhou na direção dela. Olhos dele cravados no olhar dela que, ainda que tomada pelos humores de todas as emoções, por causa do flagrante de ter sido enquadrada por ele com olhar fixo nele, manteve seus olhos cravados no dele, como estratégia, desafio e defesa.

     Com licença, disse ele. Deslocara-se do espaço externo da sala, para entrar pela fileira de cadeiras, dessas de um só encosto para o braço, de antigamente, nos cursinhos pré-vestibulares. Pois não, fique à vontade. Sentou -se. Como é seu nome? Laura e o seu. Raul, muito prazer, disse estendendo a mão. Máscula, como o rosto, e enorme, não que fosse tão alto, quase que alguém poderia até considerá-la maior do que ele: não era. Ele era uns 2 cm mais alto.

      Ela olhou a mão antes de a tocar no aperto. Herdei do meu avô, disse ele, bem, assim dizia minha mãe. Eu não conheci meu avô. Ela assustou-se, como que se lhe adivinhasse o pensamento, observador, ela já sabia que ele era, não deixou de se arrepiar, muito de leve, porque junto com a observação do tamanho da mão, ela havia se imaginado totalmente tocada, tactilmente, por ela.

       Pensou que pensamento ele não poderia ler. Manteve o mesmo olhar. Você é observador. Nem tanto, custei a notar você, ele disse. Tocou um sinal. Movimentaram-se para entrar. Tem alguém aqui? Sempre tem, ela disse.  Sim, era muita gente, para pouco espaço. Sexta. Único dia de aula de Química. Ele reparou que não havia material especificamente naquela carteira ou, à volta, que caracterizasse ocupação. 

     Posso ficar aqui? Ela olhou sem alterar seu rosto. E o seu material? Acompanho com o teu. Olhou de novo, mantendo a mesma expressão neutra. E Laura copiava e anotava. Ele, sinceramente concentrado, acompanhava as explicações, qualquer hesitação de Laura ele interferia, explicando, olhavam-se de vez em quando, e assim foi. Não pararam mais de sentar-se juntos, já sorriam um para o outro, foram se tornando íntimos, andava mais com ela do que com o grupo, até o dia do primeiro beijo. 

      Ele demorou ali mesmo, dentro da sala, sentados juntos, com o dedo nas anotações dela, olhos na explicação do professor, aqui, ele disse, isso aqui que ele tá falando, ela olhou para a lousa, ainda de giz, naqueles idos, olhou para ele, olhou, nas anotações, para onde ele apontava, olharam-se de novo, desta vez, ela como que num sobressalto, prevendo, nessa demora de se encarar, ele ainda com o dedo nas anotações dela, indicando o lugar da dúvida, avançou de modo suave, alcançou os lábios dela, beijaram-se, ali mesmo, dentro da sala do cursinho, bem umidamente, fechando os olhos, nem muito e nem pouco tempo, mas o suficiente para perder a explicação do professor.  

Necrópole - II

       Naquela manhã sentado na tumba costumeira, embaixo da árvore que a abrigava, contemplava toda a extensão, até onde os olhos alcançavam. 

      Como se fossem domínios íntimos, reconhecia os estratos de ocupação de todo aquele espaço. Conhecido dos funcionários, sabia de todas as quadras, desde o sítio ocupado por restos de covas de escravos, pretexto de um cemitério ali, passando pela aristocracia do século seguinte, cantores famosos e artistas que se seguiram, até os menos interessantes por serem mais recentes e, por isso mesmo, desprovidos da criatividade, simbologia e arte dos anos idos.

     A parte preferida por ele era essa dos jazigos simétricos. A árvore era uma amendoeira imensa, pela expessura do tronco e altura da copa, quase centenária. Não sabia se vinha ali para se sentir próximo do pai, se bem que as memórias que nutria ali nem sempre se referiam a ele, com quem fora muito colado. Despertava até certo ciúme da irmã, crivo da mãe e observação atenta da avó.

     Mas sem dúvida sua presença ali tinha relação com o costume herdado. Era como que seu domínio. Tudo ali era conhecido por ele. Vielas, caminhos, pássaros, os micos eventuais nas árvores, os cahorros vadios, aos quais alimentava e batizava com nomes, a atividade e turno dos funcionários, incidência maior e menor dos féretros, bem como o seu nível social, religião, estilo típico e expressividade dos lamentos, enfim, conhecia tudo dessa cidade.

      Não procurava esse expediente. Mas sua ida eventual, sem que para isso houvesse previsibilidade, o fazia esbarrar, vez por outra, com toda a rotina. Observava de longe. Nessas horas era como se, no íntimo, viesse a imagem do pai. Era uma espécie de diálogo com ele, entenda bem, nada de místico aqui, que não que somente descobria um ponto de identificação ou, mais uma vez, vislumbrava os mistérios que envolviam sua memória do velho, numa maneira de se encontarem novamente. 

       Que não morrera velho. Casado aos 28, com sua mãe, dois anos depois nascera Rauana, mania de tentar assemelhar o nome da menina com o nome dele, quatro anos depois nascera ele, tinha 15, o pai morrera quando ele tinha 12, então, pela matemática antiga, como o pai dizia que o avô dizia, morrera aos 47 anos. Infarto fulminante. 

     A história que Meridiana, mãe da mãe, que morava com eles, contava era que ele tinha, na família dele, antecedentes com esse mesmo problema, diz que por parte de mãe, contava a avó materna a respeito das coronárias da avó paterna. Mas, ora bolas, costume frequente da avó mencionar, divertidamenete imitado por Rauana e Raul, "ora bolas", ele não se cuidava, ele nem ligava, não dava atenção ao que os próprios pais deles diziam, comentava, enfaticamente, a avó. 

     Tá bem, mamãe, tá bem. Já sabemos disso.  Ela não gosta que eu lembre isso, comentava, a respeito da filha. E acabava ali a conversa, apenas com mais um "pois é" da avó, que dizia arregalando olhos para um dos lados, homilética. Era uma família na qual todos reconheciam a economia da fala. Aliás, costume implantado pelo Raul.

    
       

      

Necrópole

   

        Uma brisa suavisava um brilho opaco do sol, nu'a manhã não tão quente de primavera, sobre a extensão dos jazigos, naquela quadra, dispostos simetricamente, como enormes tijolos maciços emergindo do chão, desenhando alamedas precisamente delineadas, a grande maioria deles com lápides de mármore negro bem polidas caracterizando, naquele ponto da enorme necrópole, uma fase bem definida no tempo de ocupação, exatamente pela exata semelhança deles todos entre si.

      O menino costumava vir sempre ali. Aliás, nem tanto menino, pois tinha lá seus 14 anos, corpo e compleição de 16, maturidade ainda mais à frente. Casa regida por mulheres, morava com avó, mãe e irmã maior, talvez fosse mesmo a mente precoce herdada do pai, que o fazia assim ter projetado para além de si o físico, o metafísico e o psicológico. Raul. O nome do pai. Aliás, não por coincidência, ali estava sepultado o primeiro Raul. 

       Nem tanto por isso, porque não estava próximo ao túmulo do pai. Era noutra parte, porque ali onde estava era o lugar no qual, de quando em vez, vinham os dois para as conversas, muitas outras do que somente as fúnebres, embora a visita, a pretexto, era didática, dizia o pai, para preparar o filho para aquela realidade, dizia ele. Nem tanto, porque seriam desnecessárias tantas e tão frequentes vindas, pois mais do que preparado o menino já se sentia. 

      E um dia havia argumentado exatamente assim com o pai, quando percebeu que a fluência dele nas conversas, a intimidade com as diferentes quadras, alamedas e jazigos, a visita às outras alas daquele campo santo, com as menções, por exemplo, ao mausoléu dos Alencastro, ali, dos Schneider, aquele mais antigo, dos Gouveia de Sá, esse mesmo aí, defronte de você, tudo arquivo seletivo de nenhuma visita anterior com ele, certamente de outras jornadas anteriores, com mais certeza ainda várias e muitas outras visitas anteriores. 

     O vô te trazia aqui? Não! Repondia o pai enfática e frisadamente. Não, absolutamente. Seu avô tinha um medo inconfessável da morte, sentia-se arredio a cemitérios, poucas vezes o vi em sepultamentos, fossem de parentes ou amigos íntimos. Não faltou ao de sua avó, com certeza, porque nesse eu vim com papai, e no dele mesmo, evidentemente. Fora isso, pouquíssimas vezes. 

      Então de onde vem esse seu apego por visitas a cemitérios? Perguntava ao pai ainda muito cedo na idade, porém já veterano nas visitas. O pai olhou para ele com olhos arregalados, como a surpreender-se com a lógica da indagação, para logo, refeito, responder não sei, nunca soube.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Jornada Teológico-Natalina 4 - Pecado individual e estrutural

      Definição de pecado é categoria bíblica.  Essencial para definir, como ficou claro no texto anterior, a necessidade primordial do homem de se converter, na relação com Deus. 

      Exatamente por causa do pecado, como o define as Escrituras, é que o homem necessita, no ato de sua conversão, aliás, o que a torna efetiva, sua morte/ressurreição em Cristo, ou circuncisão pela mão de Deus ou novo nascimento. 

      Paulo Apóstolo afirma, na sua Epístola aos Romanos: "todos pecaram e estão destituídos (ou carecem, dependendo da versão e tradução) da glória de Deus". O Deus da tradição judaico-cristã criou o homem a "sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou".

     Na conversão a Deus, são restituídos a sua condição perdida antes da queda. "Queda", como referencial teológico, está registrada na história do mito fundador, quando Adão e Eva, uma vez tendo desobedecido ao Criador, herdam o inverso de sua condição humana, destituídos da imagem e semelhança de Deus. 

      A partir de então perdem a opção de uma natural comunhão com Deus, passando a uma história de rebeldia, que afeta sua relação com Deus, a si próprios, e a relação com o outro. O pecado, como definido nas Escrituras, desagrega a relação com Deus, do homem consigo mesmo e dele com o outro.

     Portanto, o efeito do que vemos quando identificamos, no ser humano, operante nele uma força autodestrutiva, assim como destrutiva na sua relação inter-humana, é idicativo da mesma relação destrutiva com Deus, à qual a Bíblia define como pecado. 

     O Deus da tradição judaico-cristã se empenha, em Pessoa, para salvar o homem/mulher, criados a Sua imagem e semelhança, dos efeitos destrutivos do pecado. Só Deus, pessoalmente, pode realizar, por ato soberano dEle essa salvação. 

      Na tradição judaico-cristã, nas Escrituras, homem e mulher, criados à imagem e semelhança de Deus, não foram feitos para morrer. A morte é prescrita ao ser humano, antecipadamente avisados dela, como efeito imediato de sua desobediência ao Criador, seria por efeito e como antídoto ao pecado. Porque homens e mulheres defuntos não pecam.

      Homens e mulheres defuntos cessaram sua relação consigo mesmos, com o outro e, suposta e irremediavelmente, com o Criador. Portando, não mais pecam. Estão mortos. Mas a proposta das Escrituras é anunciar que há salvação para essa condição. Já afirmamos, em texto anterior aqui publicado, ser essa a principal mensagem das Escrituras.

       Em sua definição de pecado, as Escrituras ilustram certas situações que aqui vamos enumerar, num tour por suas páginas, porém não todas, evidentemente, mas algumas suficientes para que fique definido o que é pecado e, consequentemente, entendida, com propriedade, a principal função do Altíssimo, assim definida nas Escrituras da tradição judaico-cristã, qual seja, de início e prioritariamente, salvar do pecado homem e mulher criados a Sua imagem e semelhança.

       Logo na história do primeiro casal, quando o autor do texto enuncia o diálogo preventivo entre Deus e o homem, este fica, solenemente, avisado de que, hipoteticamente, imediatamente após desobedecer a ordem que lhe foi dada, certamente morreria. Linhas adiante, quando o autor enuncia o diálogo da mulher com a serpente, que aqui representa o Tentador, este afirma a ela: é certo que não morrereis, ou seja, nem ela e nem o homem. 

      Aqui, então, na economia deste texto, define-se a primeira característica do pecado: ele é o inverso da palavra de Deus. Se Deus diz "certamente morrereis" e a serpente, personificação do Tentador, diz "é certo que não morrereis", pecado é sempre o inverso do que Deus diz.

      Logo a seguir, na história de Caim e Abel, este assassinado pelo irmão, as Escrituras indicam outras características do pecado, desta vez expressas pelo autor do texto na conversa entre Deus e o assassino, antes do ato perpetrado, quando Deus faz  duas afirmações a Caim a respeito do pecado, essenciais ao trato com ele e sua definição: 1. É um desejo contra o ser humano; 2. Ao ser humano  cumpre, ou seja, sobre ele pesa a obrigação de dominar.

      Em nosso tour pelas páginas do Livro, uma vez já sendo prevenido que não será exaustivo, porém também não menos elucidativo e exato para a definição de pecado nele expressa, vamos às palavras de Jesus no evangelho de Marcos, quando ele afirma que, nada fora do homem contamina, mas de dentro do ser humano "procedem os maus desígnios".

      Interessante essa afirmação de Jesus pois, se a humanidade fosse exterminada, restando o que, ironicamente, chamamos animais irracionais e a natureza, sem a presença do animal racional e "top de linha" da evolução, o ser humano, todo o planeta, entregue à boa sorte da natureza e dos animais irracionais, não ocorreria nenhum risco de extinção: não haveria, por exemplo, nenhum risco de poluição degradante do meio ambiente ou guerras nucleares apocalípticas. Não  haveria oceanos estupidamente poluídos e florestas destruídas, assim como jamais existiriam as extensas listas de animais extintos ou em risco de extinção.

       E vale lembrar também a lenda genial sobre a Torre de Babel. Em oposição à orientação de Deus para que ocupassem o solo de modo inteligente, espraiando-se e interligando-se à natureza, mas, ao contrário, juntaram-se e inventaram a primeira cidade e, consequentemente, a primeira torre. Com a cidade, tudo o que as modernas metrópoles apresentam, agravado exatamente pela ocupação desregrada do solo, seus tamanhos absurdos, a poluição de rios e igarapés, derrubadas de matas ciliares, periferias e falta de saneamento, enfim, pérolas como resultado do chamado "pecado estrutural".

      Porque de dentro, do coração do homem (genericamente falando) é que procedem os maus desígnios. Portanto, os males que afligem a humanidade são decorrentes da condição humana, em suas relações consigo mesmos e com o outro. À medida que tais relações se tornam cada vez mais complexas, o ser humano carrega consigo no intrincado e ilógico dessas relações o seu próprio e individual pecado. A seguir, mais algumas definições de pecado, na continuação do tour pelos dois volumes da tradição-judaico cristã de escritos.

      Paulo Apóstolo caracteriza pecado como algo que, "para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno". Dois aspectos aqui apontados pelo apóstolo acima aqui mencionando: 1. O pecado, em sua constituição, sempre toma ocasião por meio de "coisas boas"; 2. O que denuncia o pecado como sobremaneiramente maligno é o mandamento. 

     Em sua sublime argumentação, Paulo enuncia que jamais haveria mandamentos para bons. Claríssima dedução. Porque os "Nãos", entre os 10 mandamentos, por exemplo, que indistintamente se aplicam a quaisquer de todos os seres humanos, são previdentes de desvios possíveis a qualquer um (e uma, caso exijam essa designação).

      E, por falar em mandamento, Jesus subiu o grau. Ao de "Não matarás", Jesus elevou ao nível da intenção onde, sem nenhuma dúvida, nascem todos os homicídios. Por isso o Mestre ilustrou, exemplificando que, se alguém chamar o vizinho de "Raca", "Tolo", já sujeita quem o fez à jurisprudência dos infernos. E o Mestre também elevou o grau de cobiça à intenção, no escondido, por detrás da máscara social, caso alguém olhe com intenção impura para uma mulher. Seria o "adultério no coração" onde, efetivamente, todos eles começam. 

      Voltando à brilhante definição de Paulo, tudo é bom, fora do homem, como Jesus já havia indicado. Mas o pecado, para revelar-se, insofismavelmente, como pecado, toma ocasião e perverte o que é, essencial e idealmente bom, num uso que condena o ator. Por exemplo, se quisermos retornar ao mito primordial, o problema não residia na degustação do "fruto proibido", mas em aprender a dizer "Não", quando Deus diz "Sim", ou vice-versa, dizer "Sim", quando Deus diz "Não".

      Por exemplo, vamos afirmar aqui, retomando o termo acima mencionado, "pecado estrutural", o modelo de relação que, oportunamente, tem lugar na estrutura das modernas metrópoles, a relação que se estabelece dentro dos aglomerados sociais, por todo o mundo, as relações econômicas entre as nações, o mercado e suas regras, enfim, tudo o que está relacionado ao dinheiro e ao poder político.

       Vamos usar "dinheiro", o papel moeda (já obsoleto, por causa dos expedientes digitais), a não ser no Brasil, para ser oculto nos aps ou dentro das peças íntimas, mas vamos citá-lo como exemplo de, se não algo bom, mas um expediente inteligente nas relações sociais, que substituiu o escambo e as moedas e pesos de ouro. Vamos indicá-lo como bom. Seria, então, inteligente afirmar, como se expressa na 2a Carta a Timóteo, seu autor, dizendo que o "amor ao dinheiro é a raiz de todos os males"?

       Pela regra de Paulo, coisa boa, externa ao homem e portadora de valor venal: dinheiro; coisa ruim, interna, própria e arraigada no ser humano: o pecado de amor ao dinheiro. Consequência: todos os males. Poderíamos, então, definir como "pecado estrutural" aquele que nasce das relações sociais injustas, turbinadas no contexto das sociedades modernas, assim como  as relações entre elas, tipificadas nas relações internacionais e consequentes injustiças decorrentes dos desequilíbrios assim verificados.

      Isso não quer dizer que nossos ancestrais, antes que residissem em modernas metrópoles, já não se destruíssem entre si por sua ganância herdada dos antepassados deles. Não existe nem o bom selvagem, assim como nunca existiu o bom escravo, o bom nômade ou o bom sedentário pastor ou agricultor. Não existe o bom opressor, mas também não existe o bom oprimido. Porque todos pecaram e ainda pecam. As relações humanas progressivamente se intrincaram, ao longo da história da humanidade, diversificando-se e se tornando cada vez mais complexas.

      Mas o pecado individual e seu desdobramento em suas relações, desde os irmãos Caim e Abel, como reflexo da não atenção à advertência divina, desdobrou-se e especializou-se, diversificando seus efeitos de maneira catastrófica e permanente em todas as relações humanas. E as Escrituras da tradição judaico-cristã são a única que lhe definem natureza e dano, indicando uma única Pessoa que lhe conceda, definitivamente, a cura. E, não por coincidência, no Livro, o agente dessa salvação é o Deus dessa referida tradição e dessas referidas Escrituras. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Jornada Teológico-Natalina 3 - Na suposição de um (D)deus à nossa imagem e semelhança

       Uma outra pergunta, em minha falsa modesta suposição, seria: que Deus queremos? Que homem somos?

     Ora, longa jornada nos separa e nos conduz já ao longo de uma extensa história, desde a era áurea da filosofia grega e suas revisões sucessivas, incluída sua redescoberta no Renascimento, todo o legado da modernidade e até da pós-modernidade

      Impossível que não tenhamos, atualizada, uma versão, pelo menos hipotética do homem ideal que queremos para este século. Sem contar o engajamento de múltiplos movimentos emancipatórios, de cunho social e político, reivindicando que seja veementemente rechaçado tudo o que pode contribuir para o aviltamento da condição humana.

     Portanto, temos um perfil de homem/mulher emancipado(a) no presente século, ainda que haja plena necessidade de que, em nenhum momento, haja descuido na vigilância e, por que não dizer, na militância necessária para que sejam preservadas todas as conquistas. 

      O homem/mulher que somos, o homem/mulher ideal que queremos está, mais do que poderíamos supor, plenamente reconhecido e definido. Falta-nos, evidentemente, para os que supõe possível que assim, efetivamente, ocorra, definir o Deus que queremos. E revela-se problemática essa definição, porque se for o Deus das Escrituras judaico-cristãs, de cara, para usar este termo, Ele requer conversão, para lidar no cara a cara com esse homem/mulher. 

     Portanto, elas supõem a existência de um Deus que, no contato a que se propõe com o homem/mulher, há a exigência de que se convertam a Ele. Converter-se ao Senhor é uma categoria bíblica, tanto do Antigo, quanto do Novo Testamento, unidades que perfazem as Escrituras, em sua concepção cristã. 

      Trata-se aqui da tradição judaico-cristã, tão escorraçada, quanto não compreendida ou irresponsavelmente interpretada. Desculpem, mas nela consta uma referência a um Deus ou ao Deus que aqui desejamos definir, pura pretensão, ou de Quem ao menos configurar, em tom de provocação, algumas pistas.

      E passam as Escrituras a dizer, seja pelos profetas do Antigo Testamento, seja pelos apóstolos, no Novo Testamento, da necessidade de conversão a Deus. Obviamente, se fica expressa uma necessidade de conversão, é porque a condição humana, anterior a ela, é de não conformidade, interesse ou comunhão com Deus.

      A necessidade de conversão a Deus era advertida pelos profetas do Antigo Testamento aplicada, especificamente, ao povo de Israel e, no Novo Testamento, pelos apóstolos, que passaram a aplicar genericamente, ou seja, tanto ao povo de Israel quanto a todos os demais povos nessa mesma condição.

   Jeremias, o profeta dizia "circuncidai o próprio coração". Esse ritual foi instituído ao patriarca Abraão e consistia em retirar, com uma lasca de pedra, o prepúcio que cobria o pênis do recém-nascido. Como aplicá-la ao coração? Era óbvio que Jeremias estava definindo uma mudança interna de caráter, unicamente possível por interferência divina direta. Esse profeta estava definindo conversão. 

     Joel dizia "rasgai o coração e não as vestes". Rasgar as vestes era uma reação radical, diante de um escândalo que envolvesse uma tremenda afronta, como procedeu o sumo-sacerdote, numa teatral hipocrisia, supondo estar  Jesus blasfemando, ao ter reafirmado sua intimidade com Deus. Rasgar o coração, impossível objetivamente, como provocação do profeta, mas tangível, por ação exclusiva de Deus, foi o modo de Joel definir conversão.

    Paulo Apóstolo, na carta aos Romanos, afirma que "circuncisão é a do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus". Desta forma o apóstolo define conversão, seguindo raciocínio idêntico ao dos profetas: ação divina no ser humano, mas não feita por mãos humanas. Uma cirurgia sem anestesia, digamos assim, por mãos divinas. Vede, pois que, não somente se instala neste texto a pretensão de definir Deus, mas também a indicação de Sua primeira e intransferível ação no Seu contato, seja com o homem, seja com a mulher. 
    
   O primeiro sermão pregado por Pedro Apóstolo no Pentecoste, festa anual, tradicional e internacional em Jerusalém, realizada 50 dias após a Páscoa da crucificação do Cristo, sinalizou para a internacionalização do evangelho quando, pela primeira vez, foi enunciado, após a ressureição de Jesus, e interpretado por tradução simultânea, como milagre do Espírito Santo, a todos que afluíram para ouvir os apóstolos. O final desse primeiro sermão expôs a imperiosa necessidade de conversão.  

      As Escrituras definem um Deus santo, que se revela amoroso e dadivoso, a ponto de se tornar homem, na encarnação do Verbo em Cristo Jesus. Mas, para acolher homem/mulher nessa conversão, opera neles, pelo Seu poder, uma mudança de condição tão radical que a ela as Escrituras chamam, literalmente, morte/ressurreição, circuncisão pela mão de Deus ou novo nascimento. 

     E na interpretação, como aqui já mencionamos que ocorre, da condição humana --- porque as Escriruras são dádiva aos homens, como menciona Esdras, foram prescritas ao ser humano, por isso, como resgatou Martinho Lutero na Reforma Protestante, devem estar na mão e ao alcance de todos ---, pois numa interpretação criteriosa dela, jamais de deve admitir que se considerem apenas "figuras de linguagem" esses três modos acima mencionados do sentido e definição de conversão, quais sejam: morte/ressurreição, circuncisão tangível por mãos divinas ou novo nascimento.

       São literais. Se admitirmos que os escritores bíblicos falam em nome de um Deus em que, sinceramente, creem, então anunciam literalmente que o homem/mulher, a fim de se tornar aptos a obter e manter comunhão com Deus, obrigatória e literalmente devem morrer/ressuscitar em Cristo, ou ter sido circuncidados pela mão de Deus ou ainda ter nascido de novo.
  
   A explicar: essas três descrições das Escrituras apontam para o milagre que somente Deus efetua no homem/mulher que, uma vez interpelados pela mensagem de conversão, essa mesma individualizada aos judeus, no Antigo Testamento, e agora, no Novo Testamento, coletivizada a todos os demais povos, incluídos os próprios judeus, optem por ver em si mesmos, desse modo específico, realizado.

      Todo homem/mulher, uma vez acolhida essa mensagem, interpelados e dispostos a converter-se ao Deus da tradição judaico-cristã, somente se assim, voluntariamente, o desejarem, só o serão se e quando Deus neles ou nelas operar o milagre da conversão.

      A conversão a Deus é livre e opcional, mas uma vez decidida, somente se torna realidade quando e se Deus a opera no homem/mulher que assim o decidir. Quem não deseja para si uma nova matriz como pessoa, segundo é indicado no escopo da proposta de conversão, seja no Antigo, quanto no Novo Testamento, não pense em se converter ao Deus das Escrituras. Assim está posto. 

       A não ser que se queira um deus a sua imagem e semelhança, outra maneira de se supor o que, teórica e praticamente, poderia ser chamado idolatria. Nunca pense em recorrer ao Deus das Escrituras, caso despreze essa condição da conversão, porque esse Deus tem personalidade própria e vai restaurar em você o projeto exclusivo dele para homem e mulher, segundo previamente definido que o faz, nas próprias Escrituras, porque criou homem/mulher  à  Sua imagem e semelhança. 

     Há uma matriz para homem/mulher nas Escrituras, ainda que homem/mulher desejem ser o que quiserem ser. Se a questão for conversão ao Deus da tradição judaico-cristã (e aqui, muito cuidado com o que você já ouviu alhures  --- como gosto deste termo machadiano --- sobre o exato, lato sensu, do sentido e significado de tradição judaico-cristã), somente morto/ressurreto em Cristo, cirurgiado pela mão de Deus ou nascido de novo.

      Fora essa hipótese, não será esse o homem/mulher que as Escrituras definem, nem aquele o Deus por ela indicado. Seja, então, um deus a sua imagem e semelhança.


        
     

Jornada Teológico-Natalina 2 - Fechado para balanço

    Partimos, no texto anterior, da premissa de que, uma vez que se altera a concepção do texto bíblico, como, por exemplo, negar a inspiração verbal-plenária ou dizer que não sabemos dizer se Abraão, Moisés e Davi são personagens históricas, mexemos também na concepção de Deus. 


     Ele vai mudar de personalidade, sua palavra vai ficar cambiável, sem a certeza de que seja ou não autêntica, e os crentes vão mudar sua identidade. Também mencionamos a capacidade de Deus realizar ou não milagres e, uma vez afirmativa a possibilidade, se aqueles descritos na Bíblia podem ser creditados na divina conta.

     Por exemplo, mencionamos Alfons Weiser e seu livro, Os milagres na Bíblia, autor que, por exemplo, desautentica que Jesus tenha ressuscitado alguém, para apenas mencionar a filha de Jairo ou o filho da viúva de Naim, mais absurdamente ainda o pobre Lázaro. Ainda bem que ele autentica o milagre da ressureição de Jesus, pelo menos, senão, sozinho, ele teria implodido todo o Cristianismo. Bem, seria uma proeza e tanto! Já dizia Nietzsche.

     Porque se supomos ser possível que Deus, sim, realize milagres, mas não atribuímos a Ele esses descritos nas Escrituras, há um problema com as Escrituras, que supõe milagres não realizados pelo Altíssimo. Portanto, nessa seleção dos possíveis milagres a ser autenticados ou na impossibilidade de se autenticar qualquer deles, não há então descrição confiável de milagres que o Altíssimo tenha realizado, como dizia meu pai, em Sua "revelação em marcha".

     Seria uma modalidade de idolatria, digamos assim, atribuir a Deus milagres que Ele não fez. Estaríamos agregando a Sua personalidade e ao Seu fazer, coisas que nunca fez. Portanto, longe de nós a Ele atribuirmos feitos que não são, absolutamente, de Sua autoria. Necessariamente, as Escriruras precisam desse saneamento, para usar o termo, despida, desmistificada dessas suposições, em certo sentido, fantasiosas.

     Mas vamos classificar como periféricos esses assuntos e essas questões. Se o peixe engoliu e vomitou Jonas, três dias depois, se o exército de Faraó, realmente, se afogou na travessia do Mar Vermelho ou se Elias, literalmente, subiu num disco voador, como dizia Raul Seixas, diante do olhar de Eliseu. Questões periféricas.

     Vamos focar, numa tentativa de resgatar a Bíblia e a personalidade de Deus, ou seja, o Livro, em seu conjunto, como uma fonte de Sua palavra ou de Sua revelação, verificando se o ponto principal nele focado condiz com sua proposta principal e com a suposta personalidade divina.

     Vamos então partir do centro para a periferia, do foco principal para o desfocado.  Vamos afirmar que as Escriruras têm um ponto central, insofismável, claro e acessível, que deve ser exposto acima de quaisquer outras modalidades de argumento. Podemos afirmar que as Escrituras revelam um Deus puro amor, Salvador que, para cumprir Seu principal desígnio se fez homem, encarnou, e não foi para jogar na cara desse homem/mulher o pecado deles, mas para aceitá-los reconciliados com Ele, numa mesma comunhão que tem com o Filho.

     Tudo o mais no livro seria periférico. Podemos até derivar desse suposto foco principal outros que, do mesmo modo, são essenciais à compreensão dessa mensagem principal como, por exemplo, a definição bíblica de pecado, a definição bíblica de fé, a história da (suposta, sempre suposta porque, afinal, nosso método é científico e não pode deixar de ser) profecia sobre a revelação de Jesus, seu nascimento, morte e ressureição, aqui socorridos por Weiser, que nos garante que ocorreu esse mijagre, pelo menos esse. Diga aleluia comigo, irmão. 

       Nessa gana pelo científico, como o último reduto possível para confirmar o que é autenticamente bíblico, do texto ao contexto, do gênero literário à história, do mítico e do literal, precisamos definir se a autenticidade ou inautenticidade do livro está sujeita à academia ou ao seminário de teologia. 

       Afinal, conceitos bíblicos como fé, pecado e milagre precisam ou não de confirmação da academia secular para, afinal, serem, de modo definitivo e esgotado, em termos epistemológicos, compreendidos? O seminário seria a academia da Bíblia, que a inscreveria, com esses seus conceitos, definitivamente, na galeria e status do conhecimento plausível com o nosso século ou, definitivamente, as Escrituras estão despojadas de identidade própria, mas são um campo neutro e aberto às variadas formas de ciências da academia e, por que não dizer, também aberta às variadas ideologias da história da humanidade.

      Campos diversos e multiformes poderão sugerir infinitas formas de compreendê-la, por exemplo e até mesmo no campo das religiões, no qual se oferece um mercado variado e variadas formas de deuses. Definitivamente, o século absorveria as Escrituras, acomodando-a e atualizando a sua visão, de modo a que, por exemplo, ela até cessasse de, insistentemente, afirmar que, vivo, só existe um Deus, porque todos os outros são falácia, inexistentes, são burla, pura invencionice. 

      Urge por uma Bíblia politicamente correta. Salve-nos a acedemia. A personalidade da Bíblia e, consequentemente, a do próprio Deus estão em revisão. Avisaram isso aos crentes?