domingo, 26 de julho de 2020

A casa da avó (e do avô).


Casa de nossa avó.

                Casa de vó é uma coisa que carregamos dentro de nós, ao longo da vida. Mas, já dizia meu velho, e já ido, pai: o tempo é inexorável. Mas nunca vai apagar a casa da vó de dentro de mim. O que me lembra a casa da vó? Ora, vai depender muito da ótica com que se olha. Pois aí vai a minha, muito pessoal. Ou, dependendo desta vírgula, vai muito, pessoal!

              O evangelho. Outros mais, outros menos, a vó Eunice levou todos os netos que pôde levar, que o tempo lhe permitiu levar à Igreja Congregacional de Nilópolis. Uns mais, quando os pais desses meninos ou meninas eram mais descuidados, não dando a esse mister a máxima importância. Pois Eunice assim acreditava, que deveria ser dada a máxima importância. Hoje, os netos e netas são pais e mães, aliás, Eunice tem neto que já é bisavô, mais exatamente o Rúbio, que chamamos Rubinho, mais exatamente ainda, biavô do único trineto que alcançou Eunice viva. Pois tais netos e netas nunca poderão dizer que, por ela, não foram conduzidos à máxima importância. Se deram à essa máxima importância a importância devida, só eles podem responder. Mas nunca poderão dizer que não foram, da casa da vó, conduzidos, por mão dela, à igreja.

          Eu, por ser, dos netos, o mais velho, com apenas duas lindas primas à minha frente, nesta vida, por míseros dois, um ano de dianteira, ainda lembro o avô que tinha na casa da vó. Tula, o avô e seu apelido, tinha uma oficina para reparos dos artefatos daqueles idos como, por exemplo, rádios à válvula. Rsrsrsrsrsrs. Eram aqueles dispositivos que variavam no tamanho e na forma, parecendo lâmpadas, com placas, dutos e filamentos internos, que acendiam ao serem ligadas, produzindo um barulho característico, um zunido resultante do efeito do caminho percorrido pela corrente entre elas: Vzuuuummm. Eram montadas, encaixadas em soquetes, em cima de um chassi, por debaixo do qual se podia ver o emaranhado do circuito, já agora repleto de caminhos e contatos de resistências multicoloridas, com código de cor indicativo do valor em ohms, entre outros elementos desse circuito em evolução.

        Homem de poucas palavras, o Tula, pelo menos com crianças, mas de um sorriso inesquecível. Sem sombra de dúvida, desculpada a ausência de meu pai e a presença de meu filho, nunca encontrei um homem que tivesse um sorriso tão lindo! Uma vez, apontando com o dedo médio da mão direita, porque perdera o indicador, num labor qualquer da vida, conversamos, eu e ele, numa noite também inesquecível. Ali mesmo, no portão da casa à venda, cada tijolo e cada reforma feita com aquelas mãos de dez, mas agora nove dedos: lembrem daquele portão de ferro embrutecido, nem tão grande, mas que achávamos mal acabado, as duas pilastras que o guarneciam, de lado e outro, o canteiro de plantas à esquerda, com aquele pé de café, de onde ele colhia as frutinhas para deixar secar ao sol, ali mesmo, ao pé da escada da frente, torrar, moer e fazer a bebida, e mais o pé de ameixeira, aquelas bem amarelinhas e azedinhas, no qual subi algumas vezes.

       Tula apontava para as serras de Mesquita e falava, trai-me a memória, mas a imagem daquele entardecer, tarde-noite, caminha e vai comigo ao longo da vida, inexorável, dizia o Cid, meu pai, o tempo. E os dentes de Tula, que ele areava, como se dizia, ao longo do L que formava a lateral e o canteiro da frente da casa da vó, conferindo o estado das plantas, escovando, escovando, escovando. Dorcas, a mais velha das cinco filhas, diz que, inexoravelmente, quando testemunhou o traslado de seus ossos, conferiu que, da arcada, nenhum dente faltou. O que mais? Muito, pessoal, já disse.

      Leila, a caçula, e isso meus primos mais novos não vão lembrar, ou só agora saber, confeccionava barquinhos de papel, para colocar nos córregos formados na sarjeta das calçadas, nos dias de chuvaradas de verão. Saíamos, eu e ela, para essa peraltagem. Não havia calçamento na Av. Oswaldo Cruz onde, no 306, ainda está a casa. Serpenteávamos, escolhendo o melhor chão, contornando as poças, como no dia em que vim sozinho, do Instituto Filgueiras onde fazia, o ainda assim, na época chamado, Jardim de Infância, atravessando a cancela da REFFSA, como eu lia nos vagões de trem, por cima dos dormentes que, durante anos, Tula assentou, trabalhando na turma de linha ou de campo na Central do Brasil, e prossegui, com aquele uniforme, farda, como chamam no Acre, ridículo, com babadinhos fofos, elástico na coxa e ainda suspensórios (lembra para que serviam?), pisando lama.

       Os cachorros da casa da avó. Poucos primos, acho que só aquelas primas bonitonas de que falei, as únicas duas netas que chegaram antes de mim, lembram do Blaike (vou grafar assim, para não confundir com black), o único cachorro que, até hoje, devo completar 58 anos, conheci que tinha, ora vejam só, lábio leporino. Bom, não sou veterinário, mas o primo Erlon Campello, o irmão da linda Bela (leia com  ∕ ê ∕), pode dar o termo correto, mesmo porque Blaike não tinha lábios, mas tinha uma fenda em seu focinho. Era meio caramelo, no pelo. Duque e Peralta, ele e ela, o macho meio grande, branco encardido e vistoso, ela, mais baixinha e malhada. A vantagem dela era que cantava, melhor, uivava, toda vez que Onésimo pegava seu xilofone e se punha a tocar um hino qualquer. Talvez, baseando-se no Salmo "todo ser que respira, louve ao Senhor". Só na casa da avó vai haver uma cachorra solista lírica.

      Almoços de domingo na casa da avó. Concorridíssimos. Um panelão de sopa. Uma mesa imensa e farta, em torno da qual todos sentávamos. E a disputa pelos jilós? Tão característica era que eu mesmo decidi, a partir dos 14 anos, não disputar o butim daqueles dias, mas comer jiló, até hoje, garimpado por mim aqui nos mercados de Rio Branco, AC. Abalávamos de Cascadura, onde morávamos, para Nilópolis, eu e Dorcas: Escola Dominical e culto na igreja em Cascadura, almoço na vó Eunice, Silvio Santos, das 8 às 18 h, na TV preto e branca (à válvula, evidentemente) em Nilópolis, piadas do Dante Santos, o tempo todo, disputa entre lacerdistas e getulistas, e pão com carne assada para levar como merenda, à noite, de volta à igreja. Legal mesmo era quando Marisa França Costa passava por lá: a estripulia era completa.

      Casa da avó. Há muito, em quantidade, a dizer, e em tempo decorrido. Têm mais de 55 anos essas recordações. Ia esquecendo de falar da avó. Posso começar pelo sorriso que, quando se abria, os olhos dela se fechavam, lembram? 96 anos muito bem vividos. Cuidada, nos momentos finais, pela dupla de netos médicos, Gisley e Alexandre. Essa avó e esse avô deixaram foi a gente atrás de si. É claro que outros avôs e avós há nessa família, nessa família enorme, nesse familhão, opa, inexistente a palavra, mas sintética o bastante. Cada avô e cada avó trazem esse mesmo charme. As casas deles têm esse mesmo grude. E tais lembranças enchem a nossa vida e mexem com nossa imaginação. A casa dos avós é esse tipo de museu permanente. A gente roda esse filme e enxerga as cenas que se sucedem.

     Vamos nos encontrar ainda por mais algum tempo. Inexorável. Vamos nos recordando, comentando com filhos e netos o quanto faltou contar. A casa da avó nunca mais vai sair de dentro da gente. Mas, para terminar, já que comecei falando em igreja, nasceu uma na casa da nossa avó. Aquela área externa nem era tão grande. Parece que as coisas, com o tempo, diminuem. Caramba, como havia espaço ali para surgir uma igreja? Era outro avô o pastor, avô da outra prima bonita, a que nasceu primeiro, a Ruth, carinhosamente chamada Rutinha. O avô dela era o pastor da igreja nascida na casa da avó. Era tão apertadinho, mas tão apertadinho, mas tão bem utilizado o espaço útil da área dos fundos, que roubava um tantinho do local dos cachorros. Por isso, só podia vir da cabeça dele, Onésimo resolveu chamar uma das Classes da Escola Dominical de "Carrapatos de Cristo". Hahahahaha.

       Termino aqui. Mas resolvo fazer uma advertência, tomando essa liberdade, para dizer àqueles primos e primas que, junto comigo, carregam dentro de si a casa da avó: carreguem também dentro de si algo que a avó Eunice tinha como bem mais precioso: a igreja. Como Jesus pensou, igreja é como uma tenda, um tabernáculo que a gente carrega dentro de nós. Sabe para quê? Para Jesus residir dentro. Todo o povo que está nela, cada um, individualmente, nem mais, nem menos, nem pior, nem melhor, todos iguais perante Deus, devem entender igreja assim, desse jeito. Então, aonde a gente vai, a gente monta e desmonta, mas nunca larga de mão essa tenda. Foi isso que a vó nos quis transmitir. E conseguiu.

Antigos circuitos de chassi e as notáveis válvulas. 

Universidade onde o vô Tula apreendeu a engenharia dos rádios da época. 

Engenhoca de (des)travamento do portão (confiscada em nome da revolução) de acesso à casa dos avós (só os fortes se lembram): têm de estar na casa dos -enta: 40, 50, 60, 70 até 100.


quinta-feira, 23 de julho de 2020

Oremos por maravilhas, pelas mãos de Jesus

"E como se fazem tais maravilhas por suas mãos?". Marcos 6,2.

     Carecemos disso. As mãos de Jesus nunca deixaram de operar maravilhas. Principalmente na vida de quem nEle crê. Os que são filhos dEle sempre e mais de perto as experimentam. 
     Algumas vezes carecemos de maravilhas que não vemos Jesus realizar. Explico. Nosso desejo não se realiza, porque, dessa vez, queremos estipular a Jesus o que desejamos que ele faça. 
    Ele é soberano. Em seu ministério terreno dependia do Pai para realizar milagres. Agora contínua a realizar, mantendo com o Pai as mesmas prioridades.
    As nossas propriedades devem ser as mesmas de Deus. O que Ele considera vital, também devemos considerar. Deus é vida, Deus é luz, Deus é amor. Devemos aspirar à vida, à  luz e ao amor de Deus. 
    Guiados pelo amor de Deus, nunca nos faltará luz e vida. Dependentes, desse modo, sempre Jesus estará operando maravilhas em nossa vida.
   Nunca vamos andar em trevas. "Quem há entre vós que tema ao SENHOR e que ouça a voz do seu Servo? Aquele que andou em trevas, sem nenhuma luz, confie em o nome do SENHOR e se firme sobre o seu Deus". 
    As trevas em que Jesus andou, foi para nos dela resgatar. Não mais andamos nas trevas do medo, da falta de fé e do pecado. Nas trevas do desamor. "O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz". Isaías 9:2.
     O evangelho é a maior maravilha de Jesus. Não. Não maior: não existe maior ou menor maravilha. Como se fazem maravilhas pelas mãos de Jesus! Siga o sinal da profecia.
    Jesus não realizou maravilhas alheias. Somente as que, por sua mão, em comunhão com o Pai, continua a realizar milagres. Hoje oramos. Hoje precisamos de que Jesus opere maravilhas.

Constrangidos pelo amor


"Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram.
E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou".  2 Coríntios 5:14,15

   Constrangimento. Vivemos dias de autoafirmação por direitos. Donde, então, constrangimento? Coação. O texto de 2 Coríntios 5,14 afirma, portanto, que somos coagidos pelo amor de Cristo.
   A seguir Paulo, que escreveu o texto nos manda julgar que, nesse sentido, significa avaliar. E o que ele manda julgarmos é que Jesus morreu por todos, logo, todos morreram.
   O que significa essa dedução lógica? Será pela via de se encarar a morte como uma principal coação? Pode ser, porque (como se diz) de sã consciência, ninguém a deseja. 
    Somos coagidos por ela. Então o texto afirma que, "um morreu por todos, logo, todos morreram". Ou seria todos morrem? Porque em Jesus, morrer nEle é opcional.
   A morte humana é coersão, ninguém pode dela fugir. Mas a morte em Jesus é opção. Alguém assume ou não, ninguém nunca se sinta coagido a optar por ela. 
   E os que vivem? Quem são "os que vivem", na ótica do texto acima? Os que optaram por morrer em Jesus e, porque ele ressuscitou, vivem. 
   Que tipo de morte é essa e que tipo de vida é esse? É uma morte que mata a nossa morte. Que é uma morte que carregamos conosco e que se manifesta em vida.
    Ela nos condiciona a morrer não só fisicamente. Mas de todos os outros modos humanos de ser. Ou de morrer. Por isso Jesus morreu Sua morte. Porque é a única que nos pode salvar da nossa própria.
   Se optarmos pela vida, será por meio de, em Jesus, nEle batizados pelo Espírito Santo, experimentarmos nEle sua morte e sua ressurreição. 
   Então faremos parte do grupo "os que vivem". E, definitivamente, não mais viveremos para nós mesmos. 
   Esse processo também se chama amor. Seria uma troca de constrangimentos. A coação e o constrangimento do pecado, para a vida, da coação da morte para aquela do amor de Deus. 
   Mas é uma opção. Se há um ser que não constrange, a não ser pelo amor de Deus, é o próprio Deus. Julgando nós isto.





quinta-feira, 25 de junho de 2020

Nota de pesar IEFP

Com sincero e profundo pesar manifesta-se o Instituto Ecumênico Fé e Política - IEFP, Rio Branco, Acre, lamentando o falecimento de uma de suas mais destacadas lideranças, assim como presença de destaque na sociedade acreana, redobrada competência na área acadêmica e na vanguarda das lutas sociais, o ilustre Ogan José Rodrigues Arimateia. Advogado, Professor, Historiador e Sindicalista, assim como plenamente envolvido na defesa dos direitos humanos e na luta pela igualdade racial. O IEFP solidariza-se com sua família, rogando o consolo de Deus nessa hora. E o IEFP ainda profundamente se entristece e repudia o assassinato de Fernanda Machado, jovem transexual, de modo brutal, confirmando mais um triste recorde nacional, desta vez relacionado à violência contra a orientação sexual de cidadãos. Reafirmada está a necessidade da luta contra a discriminação e o preconceito, assim como a postura do Instituto Ecumênico Fé e Política contra esse e qualquer outro tipo de violência, posicionando-se como parceiro ao lado dos que assim se empenham.

      Pe Massimo Lombardi
      Pr  Francisco Albino
      Pr  Afonso Geber

terça-feira, 9 de junho de 2020

Há uma herança em toda essa nobreza

    
   Há muitas tradições de família, uma delas tio Onésimo deixou, de escrever textos. Dele não herdei humor nem rima, mas, pelo menos, mania.
     Impossível, mesmo injusto seria não retratar num desses textos a nobreza do Barão e sua Baronesa. Dele, o garbo. Dela, esse sutil olhar de suave lucidez.
   "Tia" Nice. Eram Leila, a Russa, mais branca de todas, Labrego, esse escriba, Cabrita, tia Gi, a corrigir, se não me falseia a memória, a Madrasta, com muita injustiça, o apelido de "tia" Nice.
    Se eu a chamasse Nice, vinha a envergadura do olhar e a autoridade da pergunta: "O quê?". Eu ria por dentro, escondido, arregalava olhos por fora, consertando baixinho, balbuciando apenas: "Tia Nice".
    Neto homem mais velho, testemunha ocular de toda essa pândega, como dizia o eterno (e sempre sorridente) primo Moisés, eu era, com muita gozação, o sobrinho "criado segundo os livros", como espalhava Cid aos quatro ventos o requinte de seus métodos. 
    Sempre esbarrei na autoridade da "tia" Nice. Levado, diriam as tias, danado, dizem os acreanos, até dela ensaiava abuso, como no dia em que, sorrateiro, descobri seus pés, ali, no quarto do meio da casa da vó. Ali dormia Nice, senão sozinha, com companhia, evidentemente, subordinada a seu gênio. 
    Tisque, se foi esse o som do muxoxo que ela emitiu, mostrando o rosto de toda a sua imposição, por detrás do lençol com que se cobria. Bastou. Essa mesma autoridade e olhar que, se não me engano, fosse na praça de Nilópolis ou na ponte da estação lançou sobre Dante. 
     Aliás, sempre o chamei "Dante", referindo-me ao Barão, mas "Tia Nice", à Baronesa. Toda a vida foi assim. Mas voltando ao olhar, Dante, como se dizia, caiu na asneira de posar sua mão, claro que inocentemente, no ombro de Eunice. 
    Lançou-lhe olhar, percorrendo da ponta dos dedos dele no lugar indevido, ao fuzilamento com os olhos nos olhos dele. Dante fez sua primeira leitura. Olhar imperial. Toda a sua vida seria de fazer essa mesma leitura, entendeu, Dora?
     A mofa dos amigos foi avassaladora. Ele podia ficar sem essa. Mas planejou vingança."Vou me casar com ela". Cumpriu. Até poderia ficar sem essa, mas jamais sem "tia" Nice. Vingou-se. Doce vingança. Talvez seja essa uma das leituras do olhar da Baronesa.
     Será  que, disfarçadamente, no olhar acima, tenha visto, de soslaio, o garbo do Barão, e pensado rápido, mas seguindo nessa concentração, confabulou consigo: nada adianta essa sua pose. Somos namorados. Acompanhei um pouco dessa trajetória.
        Não sei quem inventou a moda, não importa, mas pior Dorcas que me vestiu com gravatinha borboleta, camisa de requinte, paletó e, ora vejam, bermuda para o dia desse casamento. E ainda acho que tiraram foto...
      Vó Belém e vô Alberico, sargento, combinando com o temperamento da nora. Daí donde vem toda a tradição do Barão. Raízes. Porque a nobreza deles é aquela absoluta. Também forjada por tradição. Mas recamada sem pedigree, como seria se houvesse raízes de nobreza meramente humana. Desnecessário.
    Dante ainda recebeu outro tempero. Calibrado ainda antes de casar, por Eunice, apegada, por fé genuína, a sua igreja. Sim, porque a Baronesa, como comenta Paulo Apóstolo, sempre trouxe consigo essa fé sem fingimento que, como no caso de Timóteo, vinha desde a (bis)avó.
      Uma fé Rufina. Certa vez, no namoro, Dante caiu na besteira de reclamar desse apego à igreja. Fosse por esse ou por outro motivo, talvez até pelo cheiro do cigarro, desfizeram o namoro. Fase em que ele caiu doente. 
    Não acompanhei só o casamento. Nessa fase, não o visitei no hospital: a idade não permitia. A memória só me lembra uma conversa distraída com um funcionário, enquanto Dorcas subia para vê-lo. Estava no "corredor da morte".
   Nem o enfermeiro acreditava nele quando prometia que iria sair dessa. Precisava casar com Eunice, ora. Se foi nessa, pouco antes, pouco depois, a conversão do bisavô, Dora, não se apresse: ainda vão te falar da natureza dessa fé. 
     Eunice, como se diz aqui, botou no doze. Saiu crente daquele hospital. Crentes são a vida toda. Recamada nobreza. Foi assim que meus tios bisavós marcaram minha vida.
     Filho único e solitário, acompanhei todos os ciclos e peregrinações por todas as casas onde residiram. Caxumba, papeira, como dizem aqui, peguei do Lincoln, em Belford Roxo. 
     Dante nos levou ao mirante de lá, de onde se avistava até o Pão de Açúcar. Será que vão confirmar essa memória? A papeira me custou uma segunda temporada no Ebenézer, para onde eu iria dia seguinte do retorno ao Méier. 
     Provavelmente janeiro de 1968, se essa data combinar com B.Roxo, "Broxo", como dizíamos estar escrito nos ônibus. Acordei, quarto de hora a quarto de hora, naquela noite, engolindo Pastilhas Valda, em oração, para que a agonia na garganta não fosse a caxumba. 
     Pois ela inchou até o peito. Por vingança eu não queria repouso. Dante advertiu que, caso eu não  "sossegasse o facho", Isaac e Ana Luísa jamais nasceriam, porque a papeira desceria. 
     O moleque danado perguntou: "Ora, Dante, como assim, os filhos não vêm delas?". Ele arregalou olhos e saiu rápido, como é seu feitio: "Essa conversa pergunta pra teu pai...". 
     Olhar irônico de Eunice. Será que, por detrás dessa armadura que fingiu vestir por toda a vida, havia suave lucidez?  Certamente. Sempre soube onde queria chegar. Dante sempre reclamou sem razão. Doce vingança.
     Semente também vinga. E nobreza também tem dois sentidos. Um deles, relativo e limitado pelo pedigree. O outro, recamado pela história que se constrói. Agora, Dora, eu entendo o seu sorriso, quando ri para os dois lados das histórias de seus bisavós.


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Artigos soltos 39

Uma oração ao Deus da minha vida.

         Oração é eventual. Tem força própria. Muitas vezes irrompe. Surpreende. E nos vemos todos dentro delas. Certas coisas e certas situações em nossa vida nos expõem todos e inteiros. Caramba, como sentimos medo nessas horas.

        Quando Pedro negou, foi tomado pelo medo. Expôs-se todo e inteiro. Sua fraqueza (e franqueza, também) involuntária. Somos Pedros. E aquela prostituta (nem sei se era uma) que, violentada, teve sua vida exposta.  Aqueles homens, ora, os homens, eventualmente, mais do que eventualmente tão covardes: expuseram publicamente e rasgaram a intimidade alheia. 

       Ainda bem que provocaram Jesus. A qualquer e diante de toda a provocação, Jesus explode em amor. Quando você ouve um pássaro cantando, ele explode em amor. Quando você houve um bebê chorando, explode em amor. Se uma flor desabrochar, no invisível, com ou sem flagrante, como brota uma semente, no escondido, como explode a pipoca, explode e brota e floresce em amor.

      Jesus derramou do seu amor na vida da mulher. Aqueles homens não tinham do que acusar Jesus, senão de amor. E amar sempre dá muito medo. Por isso João, que é chamado "apóstolo do amor" certa vez disse "quem tem medo, não se aperfeiçoou no amor". E você me diga se há outra origem para o amor, senão Deus. Por isso que a Bíblia diz que o amor jamais acaba.

       No princípio, é o amor. Isso o livro não diz. Mas é como se dissesse. Me diz, então, se antes de tudo não está o amor e se, depois de tudo, ele não continua. Imagine a sua vida sem amor. Agora me diga se amor ê algo, assim, improvisado entre os homens, largado, como um bate-papo com os amigos. Jesus era homem de bate-papo com os amigos. 

       Ele os procurava. Tirante uma hora ou outra de oração, ele procurava e estava o tempo todo entre amigos. Certa vez que ele veio ao encontro deles, mais que urgente, andou sobre o mar. E até se assustaram com essa urgência. Você não acredita? Em que que você não acredita? No amor, em Jesus ter flutuado, na capacidade dele de fazer amigos, afinal, em quantas coisas você não acredita?

      Responda: acredito no amor, pratico com restrições, quer dizer, escolho a quem amar, mas não acredito que o amor seja eterno. Não acredito que ele era antes e que vai prevalecer depois. Para mim, amor não é eterno. É circunstancial. Para mim o cemitério é o fim do amor. Amor não é presença, para mim. Tem prazo de validade. Amo, quer dizer, amei alguns que já foram. Morreram. Um dia também vou morrer. O amor acaba na morte. 

     Tudo morre. O pássaro que cantou, morre. O bebê que chorou, um dia vai morrer. A flor que desabrochou é a que menos dura viva. O amor termina na morte.  Até Jesus morreu (se é que ele existiu). Jesus ressuscitou. Deus se reinventou. Porque Deus é amor. Um cara anônimo disse num dos livros da Bíblia que Deus é imutável (ora, sobre "Deus" se diz muita coisa). Outro cara da Bíblia disse "Deus é amor". Desculpe-me mencionar a Bíblia, livro tão provocativo. 

      Porque ela que diz que Deus é amor. Você não é obrigado(a) a crer nisso, quer dizer, nem na Bíblia, nem em Deus e nem no amor. Ou, quando muito, definir "amor" de outro jeito. Fique em paz. Ou perca a paz (o que às vezes é até melhor). Caso perca a paz, faça uma oração. Uma oração ao Deus da minha vida. Não é um deus. É Deus. Ele se reinventou. Explodiu em amor. Isso mesmo, até a ciência, essa "deusa", para alguns, de todas as respostas (até daquelas que ela ainda não tem, e o nome disso é fé), até ela diz que houve um Big-Bang.

       Pois então. Deus explodiu em amor.  Deus reinventou-se e ainda se reinventa a cada gesto de amor de verdade. Lembra do passarinho em seu trinado? Do choro da criança (ou qualquer choro verdadeiro)? Lembra da mulher violentada? Lembra de Jesus, boêmio, buscando amigos e crendo que a cada dia, mais uma chance, mais rostos, mais pessoas, mais chances de amar? 

       Desculpe, mas a Bíblia diz que Deus se fez homem. Você acha que é engodo ou mentira dizer isso? Pelo menos, é poético. O "livro inventado" diz que Deus é amor e explodiu-se porque não mais aguentava a solidão. Numa explosão de amor, criou o universo, colocando-nos como poeira cósmica dentro dele. No meio de uma explosão de amor. Diga que é mentira. Diga que seu amor é de mentira. Diga a si mesmo(a) que a morte é o limite do amor. 

     Diga que vida só existe do cemitério para fora. Eu vou continuar acreditando na vida. No amor. E quando encontrar Jesus numa roda de samba, com amigos, terei sempre  certeza do que disse  certo poeta: o samba também é uma forma de se expressar verdades.

EAD - Vídeo 2 - Professus21

      Como aprender e ensinar de forma saudável e viável em tempo de pandemia: 8 recomendações (pesquisadores):

1. Diversificação de atividades: arte, jogos, lab. remotos, ambientes de programação e ajuda recíproca entre alunos, aprendizado para além das plataformas;

2. Construa conhecimento: interpretação inteligente e sistemática do que se vê e do que se experimenta. Não é somente a vista passiva de vídeos, mas dominar as ferramentas on/off line, produzir teorias, inventar, como se propõem problemas e se chegam a soluções;

3. Valorizar o saber do aluno: pensar em tópicos atuais e contextualizados na problemática vivida: menos "aulas" e mais projetos que aproximem realidade e contexto cultural dos alunos. Por exemplo, a síntese do saber em família, diante dessa nova realidade, tornando mais propício o ambiente à aprendizagem;

4. Redução do currículo: "Menos é mais": poucas experiências, porém mais significativas, pela impossibilidade prática de reproduzir 8 disciplinas escolares em casa. Definitivamente, tentar cobrir todo o conteúdo não será aprendizado;

5. Alcançar todos os alunos: igualdade e personalização, à frente do pedagógico, para que o facilitador on line não seja fator de desigualdade;

6. Limitações e cuidados: privacidade em casa e cuidado com a exposição na rede. Crianças, adolescentes, pais e professores precisam ter cuidado com exposição de dados;

7. Continência: não lançar mão de recursos sem prévia avaliação, para evitar despesas desnecessárias: usar o que estiver disponível. Fazer registro pormenorizado de tudo o que foi positivo/negativo nesse momento novo. Compartilhar conteúdos e atividades, recursos e ideias.

8. Envolver todos. Equidade como prioridade. Verificar limitações de instituições. Cada realidade específica. Fechar escolas e universidades não é o ideal, mas se impõe nesse momento. Porém, haverá chance de aprendizado.
    
  Planejamento, cuidado e senso de colaboração. Para garantir continuidade de aprendizagem, ainda que nesse novo contexto. Uma hora a menos de aprendizado, porém uma hora a mais de lição de humanidade.