sábado, 27 de abril de 2019

Momento zero - 0

Ih!

      Aqui,  após a exclamação, faltou aquele emoji de olhinhos arregalados. É muito legal conversar com ateus. Uso o termo, aqui, sem generalizações, mágoas ou, muito menos, depreciações. 

      Temos o direito, levadas em conta as nossas limitações e obviedades, de crer/descrer sem que precisemos nos considerar mutuamente excludentes. Ao contrário, somos complementares e, está provado, ambos temos espaço no espaço/tempo kantiano. 

      Sem que, para isso, nenhum dos dois avalie ser "dono da verdade". Mesmo porque, quando um dos dois reclama de falta de prova, ora, nenhum dos dois as tem: seja o crente ou o descrente. O que os coloca em idêntico pé de igualdade. 

       Não me venha dizer, portanto, como já explanado acima, que vá aparecer o tal dono da verdade, seja a "verdade revelada" (o crente) ou "verdade científica" (o descrente). Fiquemos assim, no acordo: nenhum dos dois tem prova definitiva. 

      E ainda, por hipótese, supondo ser o ateu em questão humilde, sim, porque pode parecer que não, mas existem ateus humildes e que seja o crente inteligente sim porque, assim como, existem crentes inteligentes, chegamos a um consenso. 

     Por isso será muito interessante quando, outra hipótese, todos os homens tiverem sido despertados do sono da morte, reconstruídas Deus sabe como, literalmente, as substâncias que os compõem, ateus derem de cara com o Criador.

       Vão arregalar olhinhos de emoji, para dizer: "Ih!". Daí, minha intenção, mais humilde do que inteligente crente expor, em seguida, 5 (cinco) textos que representam flashes do que vou denominar "momento zero".

      Exatamente o momento imediatamente antes do big-bang, que é quando, a partir de então, explorando aqui conjunções do português, por outras conjunções, ocorreu a Grande Explosão por meio da qual a ciência diz que começou tudo o que aí está. 

     Ora, para que ocorra uma explosão, é necessário haver o que exploda. Que se exploda, diz o vulgo. Mas fique claro, não é vulgo, mas sim, científico: que se exploda foi o momento 1. O momento zero foi antes, quando  o acaso (ou Acaso) organizou a pré-explosão.

     Portanto, pedindo permissão aos filósofos gregos, citaremos um (anônimo) oriental, que alguns afirmam ser Moisés, que seria o autor do Pentateuco, assim chamados os 5 primeiros livros da Bíblia. Com permissão. Supondo, terceira hipótese deste texto, haja vida inteligente (também) no Lívro. 

      Uma cara chamado Julius Wellhausen (1844-1918), biblicista famoso, tentou demonstrar o modo como documentos antigos, de diferentes tradições, deram origem ao que hoje aparece organizado, atribuído a Moisés e denominado "Pentateuco".

      Ele define 4 traços de documentos, sucessivamente organizados por habilidosos redatores, estão na gênese, para já usar a palavra, dos cinco primeiros livros da Bíblia. São eles J, tradição "javista", da palavra Javé, Senhor; E, tradição eloísta, da palavra hebraica "Elohim, Deus; P, tradição sacerdotal, da palavra "priest", sacerdote; e D, tradição deuteronomista, de Deuteronômio.

      Pois vamos nos basear, para os próximos cinco textos, no três primeiros versículos da Bíblia,  Gênesis 1,1-3 que, por ironia são, um acréscimo de P, a título de introdução, às duas "histórias da criação" das tradições E e J. Pois segue a introdução assim planejada:

b'reshit barah elohim et hashamayim v'et ha'arets: v'ha'aretz hitah tohu vabohu v'hosheq 'al-p'nei tihom v'ruah elohim mirahephet 'al-p'nei hamayim: vayomer elohim ihi 'or vayihi-'or:

       Havendo paciência, você leu no hebraico, transliterada a língua original do texto. Os dois pontos, no hebraico, são como o nosso ponto final. Evidentemente, somos gatos escaldados em filosofia grega. Ora, ora, ora, quão difícil é manter-se humilde quanto mais se avança nessa ocidental direção. 

     Mas haveremos de convir que essa não foi a mais antiga civilização sendo, talvez e sem sombra de dúvida, a que mais absorveu, processou a expressou, magistralmente, seu conhecimento, costumado  ser aceito como os esteios de todo o caudal da civilização (pós)moderna, assim classificada. 

      Ora, terá sido a filosofia a mãe da ciência. E a literatura do Gênesis, acima, na esteira dessa classificação, denominada mito. Pois os cinco textos que ora seguem este zero, denominados 1, 2, 3, 4 e 5, serão escritos como uma reportagem de, por que não, Moisés para quem, tal qual um descrente, Wellhausen nega a autoria do Pentateuco.

    Não em absoluto mas, se formos complacentes, pois há os que até neguem Moisés como personagem histórico, ora, fazem assim até outros com relação ao próprio Cristo,  mas nós,  complacentes, colocaremos Moisés com o repórter desse "momento zero". Que se exploda (o cosmo e qualquer crítica):

      MESMO AINDA QUE NÃO PRESENTE:   
     MOISÉS DESCREVE 'MOMENTO ZERO'.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Artigos soltos 44

Ora, Deus (2)

    Já disse aqui, neste espaço, que sou repetitivo. Quanto às ideias e quanto à escolha do assunto. Neste caso, de novo, Deus.  O assunto aqui é,  de novo,  Deus. Isso mesmo.  Repetitivo. 

    Mais especialmente sobre não Deus. Diz-se ser Deus uma criação do homem. E não o contrário, como diz a Bíblia. Aliás, usam como prova exatamente a Bíblia. Como assim? Como, se o Livro é a principal testemunha da existência de Deus?

     Não. Ao contrário. Nas páginas do Livro, máxima incoerência, aparecem as contradições sobre Deus, definitivas provas de sua não existência. O que dizer, por exemplo, sobre o perverso Deus genocida do Antigo Testamento? Que, supondo não tenha, ainda que não mandado chacinar, protegia como seu um povo que assumia tal prática. 

     Moisés, principal líder na história desse povo, também um genocida, à imagem e semelhança de Deus. Deve haver, mesmo, algum erro no Lívro, ironicamente, aqui, referindo-se à concepção de Deus. Porque inventou um Deus perverso. 

    Definitivamente, o Livro mostra um Deus à imagem e semelhança do ser humano. Isso mesmo. A Bíblia diz que Deus é a sua cara, o mesmo que dizer que você é a cara de Deus. E genocida,  no caso, não é Deus.  Somos nós. 

     Ora, porque genocídios existem. Deus pode até não existir. Mas genocídios, temos certeza de que existem. Então não me venha dizendo que Deus é responsável por eles. Para com essa mania de atribuir a Deus a sua maldade. 

    Sim, porque, numa altura dessas, neste texto,  é claro que você dirá o que, recorrentemente, todos dizem: não sou mal. Mal é o outro. Como se diz que o filósofo disse, o outro é meu inferno. Minha bondade não é absoluta, por causa da maldade alheia. Toda a bondade tem um limite. 

     A maldade,  não: esta tem livre acesso e livre curso. Muito embora a Bíblia diga não pagar o mal pelo mal, mas sim manda pagar o mal pelo bem. Repetitivo. O melhor remédio contra a maldade humana é a própria maldade. Quanto maior, melhor.  O nome disso é vingança. 

     Pode chamar de tortura também. Seria, vamos dizer assim, uma "tortura do bem". A tortura justiceira. A tortura do bom. Os bons, por vingança,  podem e devem torturar o mal. Quer dizer, torturar aquele(a) que é mau(má). Não é a Bíblia que diz isso. É a humanidade. 

     E Deus não existe. Talvez, se existir, seja melhor, para que ponhamos nEle a culpa pela maldade. Definitivamente, o mundo está dividido entre maus e bons. Talvez, de novo, possamos incluir mais dois grupos: os mais ou menos maus e os mais ou menos bons. 

    Porque, talvez, repetitivo, os maus sejam mais sinceros. Não são falsos humildes. Sejam os que dizem,  sou mal mesmo, e daí? Enquanto que os bons, sejam hipócritas ou falsos humildes, por assumir, cinicamente,  sua bondade. 

     Para dizer, resumidamente, que o Livro começou mal sua história. Dizendo que Caim, o mal, matou Abel, o bom. Deveria contar a história de como, por pura legítima defesa, Abel tivesse matado Caim. A única maneira de conter Caim seria essa.

     Será que Caim representa os genocidas? A marca de Caim. Já sabemos qual é. Estou mais para Abel, do que para Caim, é claro. Mas vou providenciar minha arma para que, eventualmente, se Caim aparecer seja eu que o mate. 

    Seguro morreu de velho. Eu sou do grupo mais ou menos bom. Mas tenho certeza de que maldade e genocídio não são invenção de Deus. É prática humana. Bem humana. Deveras humana. Ora, Deus mal existe.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Amigos

 Meu amigo Henrique

     As pessoas, alhures (desculpem, adoro (modo de dizer) esta palavra), dizem que ê difícil granjear amigos. Que, na vida, uns dois ou três, no máximo. Mas eu acho até que tenho mais. Milagre. Ele que me acolhe em sua casa, neste pós-operatorio, por uma semana.

   Mas o que me interessa aqui é escrever sobre este. Era 1973. Estranheza total, eu com 17 anos recém-completados, num ambiente totalmente diverso do antigo ginasial, ora, ao qual eu já me adaptava com dificuldade.

    Muito tímido eu era. Velho, já, acho que superei. Também, professor e pastor tímido, torna-se inviável. Atravessava a sala naquele passo gigante,  bem, como ele mesmo já assume, num passo de marmota o Hélio Henrique.

    Era, e ainda é um cara gigante. Ia e vinha, sempre circunspecto. Pela envergadura, tornava-se notável  Certa hora, num daqueles dias, eu o vi conversando com um dos veteranos da eletrônica, ora, éramos da eletrotécnica. Era o Sérgio Cabral, que eu conhecia da Igreja Fluminense.

      I've got a friend. Porque fui perguntar como ele conhecia aquele amigo. Hélio disse que eram da mesma igreja. Eu estranhei, porque julgava conhecer todos daquela igreja. Mas não ele. Passou despercebido. E contou sua história, de como optou por aquele grupo. Aliás, preciso ouvir de novo.

    Surgia uma amizade duradoura, com um hiato apenas entre 1980 e 1993. Ele ganhou rumo em direção à vida profissional e eu, embaralhado até definir a minha que, mais tarde, foi de professor de português e pastor, em muito distante do curso de eletrotécnica, onde estivemos juntos, de 1973-1976.

      Casei-me em 1993 e fui procurar o Hélio para que comparecesse. Visitei d. Neide, sua mãe, em Vila Isabel, revendo sua amiga e vizinha Leilah, e ela me deu o telefone dele na Tijuca. Já estava casado com Cida. Daí, ele compareceu ao casamento e reiniciamos contato que, mesmo com a minha ida para o Acre, não mais se interrompeu.

      Duas vezes nos vimos na Tijuca, outras duas ou três na primeira casa em Guapi, eu sempre com minha família e, durante as vezes que vim sozinho ao Rio, sem deixar de vê-lo acompanhamos, desde os tempos da Tijuca, os planos de adoção de Esther, filha do casal.

      Hélio marcou minha vida de modo bem característico. O fato, como já disse, de ser inseguro na transição escola pública para Escola Técnica, antigo ginasial para curso técnico proporcionou, pela opção de amizade com ele, um forte referencial.

     E uma coisa muito interessante que ele não sabe, a seriedade com que, na época, assumia a sua fé, contribuiu para reforçar a minha. E olha que eu sempre fui catita (camundongo) de igreja, filho de pastor desde nascido. Mas a postura dele influenciou e atualizou a minha.

    Muito interessante que um ateu hoje, como ele se classifica, tenha socorrido um hoje pastor, no passado comum dos dois, na mesma condição de crentes. Essa marca é notável e bem caracteriza o Henrique. Assim o chamavam todos a sua volta, na época, sendo eu o único a chamar de Hélio.

     Continua a apresentar características dessa postura que me influenciou no meado da década de 70. Com ele também aprendi a apreciar o rock, passando a colecionar revistas e conhecer a identidade de bandas daquela época, para as quais eu me alienava. Juntos com seu irmão, colegas do bairro e jovens da igreja acampamos, por três vezes, na Ilha Grande.

     Percorremos a extinta, mais uma estupidez recorrente neste país, estrada de ferro que conduzia à Mangaratiba, naquela época atravessando a baía de Angra pela lancha que levava presidiários à Ilha, quando ainda funcionava o presídio no lado oposto ao Abraão, onde aportávamos. Foram oportunidades sensacionais de lazer, aventura, conversa, coisa muito gratificante, como alento, fantasia e companheirismo típicos dessa geração anos 70.

        Hoje somos 60entões. Perdura no Hélio, a meu ver, sua característica principal que é agir por princípios éticos muito seguros e bem definidos. Uma pessoal leal e confiável, o que não é muito comum reconhecer, hoje, em muitas pessoas. Evidentemente, alguns padrões de comportamento, que ele passou a cultivar na época em que nos conhecemos, ligados à postura puritana do protestantismo, ele abandonou. Mas o essencial definidor de sua personalidade sobrevive constante em meu amigo.

      É claro que, nesse detalhe, há diferenças entre nós, porque continuei cultivando esses padrões. Não que sejam absolutos ou que, por si só, definam e identifiquem fé. Não. A fé não se define por comportamento, mas opção consciente interna e abertura para a ação de Deus naquele que crê. E é isso que marca o caráter. Hélio, sem saber ou admitir, demonstra fé.

      A fé que tens, tenha para contigo mesmo, diz a Bíblia, querendo dizer ser ela muito individual e pessoal. Decide-se, diante de Deus, o de que ele se agrada, numa relação direta de troca. Isso serve para qualquer um. Tiago, na Biblia, fala da lei da liberdade, que não significa fazer o que se quer, mas o que agrada a Deus. E, para isso, e por isso é necessária a abertura para a ação de Deus no que crê. Trata-se de uma troca.

      Mas Hélio continua a ser um referencial para mim. E reconheço que sua fase na Igreja foi valorosa para ajudá-lo a firmar seus princípios. E ainda que afirme que não crê em Deus, eu disse a ele, como costumeiramente se diz, Deus crê nele.

      E ainda que tenha anotado, na Igreja de sua época, como ele mesmo denuncia, posturas de crentes que o marcaram negativamente, ora, mas isso não é novidade e nem exclusivo de uma só igreja ou época, mas próprio do ser humano.  Certamente, ele está consciente de que não pode destacar o erro alheio como determinante para que ele justifique os seus, em sua própria vida. Isso também serve para qualquer um. Ou que prefira, em função disso, o prejuízo maior de ter saído ou estar fora da igreja. Ora, que tenha a igreja dentro dele.

      Mas o dilema dele deve ser mesmo o cara a cara com Deus. Para estar ou não estar de volta ao grupo original dos anos 70, assumindo os próprios erros e compreendendo o dilema deles, seja na própria vida pessoal ou na dos outros, é necessário o cara a cara com Deus. Talvez isso ainda falte na vida do meu amigo. Da parte dele. Não da parte de Deus.

      Concluindo, quero que seja amizade para toda a vida. Perturbá-lo ainda muito com os cacoetes que trago comigo e ele ainda critica. Como o vício, como agora, estar digitando esta crônica no smart. Está bem, Hélio, consciente e inconscientemente, ainda pauto muito de minhas atitudes por tua influência.

     O nome disso é amizade.

domingo, 21 de abril de 2019

A lei da oração


Inércia 

      É uma lei da física. Quando olho o retrato, como se dizia na época deles, desse casal eu me lembro desse princípio da dinâmica, contexto da 1a lei de Newton.

   Meu movimento nesta vida está diretamente relacionado às orações desse casal. Venho até aqui pela inércia nessas orações. Nossa família, meu filho, pode ser definida por qualquer um dos quatro membros.

     Hoje quero definir a partir de você. Sobre quem também atua esse somatório de forças das orações de Cid e Dorcas. Meu casamento, causa e princípio determinante de sua existência, é resultado dessas orações. 

    Atuam sobre nós, até hoje, essas forças. O assunto aqui não é só casamento. Mas ele é determinante. Na vida, nada é mais determinante e vital do que a fé. Mas profissão e casamento delineiam toda a existência. 

     Você já possui um esboço de profissão. E experimenta um desenho, um plano, um rascunho de plano para o casamento. Chico diz que Deus é um "cara gozador, adora brincadeira". Pois você sabe que nos deu uma mulher extraordinária. 

     Nossa Regina, minha esposa, tua mãe, sobre quem atuam também os vetores desse movimento de inércia, é uma mulher virtuosa. Qualquer mulher pode ser virtuosa. Deus as estabeleceu assim para Adão. Hoje em dia elas buscam uma autonomia que não as realiza.

     Entender isso é vital. Se elas buscam o casamento, precisam entender que vão entrar numa relação de amor e submissão. Amor, de minha parte; submissão, por parte dela. E a figura que a Bíblia associa a casamento é igreja com Cristo, o noivo e sua noiva. 

     Quem não experimentar esse jogo de forças, como costumo dizer, de amor e submissão, não casa. Pode estar junto, pode ter certidão, mas não haverá casamento. Você nasceu num lar sob inércia de orações, onde há casamento.   

      Você vivencia meu amor por sua mãe. E a submissão ativa dela. Como ela, com sua maestria, Regina é arte, preenche nossas vidas. Veja bem você que namora. Jesus não ama menos a igreja do que ama a não-igreja. Ama todos igual. Mas a igreja lhe é submissa. 

      Nunca ame uma mulher, quem quer que seja, que não se disponha a ser submissa. Não haverá casamento. E seu amor terá de ser por uma não-esposa, como o amor de Cristo por uma não-igreja. Mas a relação no casamento não é essa absurda de dar-se, com diz aos Efésios, por uma não-esposa. 

       Só uma mulher convertida, como sua mãe,  e não somente convertida, mas treinada, pode ser como Regina. Outro retrato, além de Cid e Dorcas, Heraldo e Lourdes, poderia aparecer acima. Todos os quatro com suas virtudes e defeitos, mas submetidos à lei da inércia. 

     Definida por você, meu amado filho, essa família segue em seu MUV: movimento uniformemente variado. Mas sob lei da inércia.  Isaac, resultado de oração. Ana Luísa, resultado de oração.  Regina e Cid Mauro, respostas de oração. 

     Porque  a Bíblia diz que, um dia, Deus será tudo e em todos, sua mãe vai procurar o Altíssimo e perguntar: está bem, Deus, mas precisava ser com o Cid Mauro? Deus vai sorrir (sim, porque Deus também sorri - e sofre, e chora,  essas coisas humanas) e dizer:

     Está bem, Regina: mas não seria esse Isaac e nem essa Ana Luísa. Ela olharia o Altíssimo nos olhos, para dizer um "então, está bem". Definida por você, meu filho, essa família mostra os efeitos da oração. A sua vida tem os contornos, perfis e resultados de orações. 

      Continue e guar-se por elas. Eu, torto como nasci, se minha vida ganhou um rumo de bênçãos, Deus nos guiando, por amor do Seu nome, foi por causa de orações. E, de um tempo para cá, além das orações de sua mãe, as de vocês dois: primeiro você  e depois sua irmã. 

     É a lei da inércia. Parado ou em movimento, sob efeito das orações. Sua cara e perfil, meu amado filho, personalidade e caráter têm sido modelados pela oração. Nós te amamos, nosso filho, porque Jesus nos amou primeiro. Deus, ajuda--nos a seguir sob essa lei, sob esse principio, regidos por oração .

sábado, 20 de abril de 2019

Jonas - 3

     No navio

     Jonas internou-se no porão. Porão de sua existência. Arriscou tudo nesse palpite. Ocorre uma borrasca no mar. O texto bíblico afirma que Deus provocou. 

     Precisamos falar sobre isto. Sou dos que acreditam que Deus não é uma inflexão dos teólogos. Religião pode ser um objeto de estudo científico. E teologia é uma ciência. Mas, para mim, ela deve partir da ação de Deus na história e não das suposições a respeito de Deus. 

     Quais as indicações da ação de Deus? A palavra de Deus é a principal indicação. Eu acredito na Bíblia como livro em que, como diz Pedro em sua carta, "homens falam da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo".

      Uma vez que interditamos a Bíblia ou loteamos as partes que merecem credibilidade, manipulamos o que ela diz sobre Deus. Evidente que devemos focar o texto em seu tempo. Portanto, argumentação paulina, por exemplo, estruturada no modelo de raciocínio filosófico, terá abordagem diversa da narrativa vetero-testamentária de Jonas.

      Quero dizer que acredito no argumento do texto que diz ser a tempestade ação de Deus, assim como a consequência dela, implicando a projeção de Jonas ao mar e o peixe deparado como livramento. Por que creio assim? Porque Deus. Não quero dizer que todos os absurdos podem der postos na conta corrente dele, como desfalques. Mas, sim, que ele é todo-poderoso. 

      Era Jonas e Deus. A tentativa de fuga. Mergulhou ao porão para dormir. Todas as superstições reunidas davam em Jonas. Procuraram e o acharam no seu porão, por reconhecê-lo o único indiferente a tudo a sua volta. Um dos sintomas da depressão do profeta. 

     Todas as religiões representadas invocavam seus deuses. Era um esforço ecumênico na tentativa de, por modo sobrenatural, quem sabe, último recurso, estancar a tempestade no mar. Jonas continuava alienado. Até que decidiram, para eles, um recurso mais isento e definitivo: sorteio. 

     Deu em Jonas. Era o azar do profeta. Em todo caso, interpelaram-no: por que todos, tendo cada um seu deus, invocam-no, exceto você? Como pode? Parecia, nesse gesto, que Jonas antecipava a observação de Jeremias séculos depois: vejo as nações mais apegadas a seus deuses, posto que não o sejam, do que Judá, no caso futuro de Jeremias, com Jonas, no caso atual, indiferente ao seu Deus. 

       Foram acordá-lo no porão. Jonas confessou sua fuga em relação ao seu Deus. Por serem mesmo supersticiosos, é que se chocaram com a sinceridade do profeta. E com a solução. Por seus escrúpulos, recusaram atender à sugestão do profeta: jogá-lo ao mar. 

     Mas a circunstância se impôs. Ou seja, Deus ganhou no cabo de guerra. Jonas deu-se por derrotado. Não podia, continuamente, fugir de Deus. Pensou que na morte poderia. Deus, em seus próprios desígnios, não se deixa surpreender. Jonas teve a covardia do salto ao mar. Deus tinha um peixe que engolisse o profeta. 

       O nome disso é milagre. Não dá para conceber um Deus sem eles. E também não dá para conceber um Deus que não escolha, por si, que milagres fazer. E não dá para conceber um Deus que não sai ao encalço, mesmo que fujamos dele, para nos abençoar.


     Iguais

     "...somos todos iguais, braços dados ou não".

     Há certas lições que precisam ser repetidas. Porque precisam ser postas em prática. E se dizemos que já aprendemos é, no mínimo, temerário. Porque são contínuas e de aprendizado constante. 

     Não me venham dizer que entender que somos iguais é fácil. Não acredito em quem diz que pratica isso todos os dias e com facilidade. É inerente ao ser humano confundir diversidade com igualdade. 

     Somos, sim, diversos. Mas somos, também, iguais. Não posso reduzir o outro a mim mesmo. Se não me ponho no ponto de vista dele, não há nem esboço de identidade. Deus se fez homem, diz a Bíblia. 

     Mas não me interessa, aqui, na economia deste texto, se você aceita ou não,  acredita ou não na história que a Bíblia conta. Eu acredito. Eu sou, sim, cristão. Mas não interessa aqui religião também. 

    Porque ser igual não depende de ter religião. Não depende de acreditar ou não acreditar na Bíblia. Depende de entender e praticar. Qualquer atitude diversa desta é tirania contra o outro. É violência e não vida. É incoerência com a condição humana. 

     Eu não gosto de "bandeiras". Levantar "bandeiras". Isso me cheira a ideologia. E ideologia vem junto com demagogia misturado a hipocrisia. Então,  ser igual,  viver a igualdade ou ser igualitário, sei lá, não deve ser uma "bandeira".

     Não deve ser uma pregação. Precisa ser prática. Difícil. Não me venha, de novo, por favor, apontar um "partido" político que faz isso. Política é absolutamente necessária. Mas também vem misturada à ideologia, demagogia e à hipocrisia. 

     Vamos falar aqui de igualdade no sentido filosófico, se quiser, no sentido da reflexão que isso provoca, no sentido bem chão. Sentar no chão,  por exemplo, aproxima-se muito de ser igual. Vou voltar à Bíblia e a Jesus. Porque acho que ele praticou isso. Foi exemplo disso.

     Sejamos exemplo disso. Jesus foi reformista da religião judaísmo e foi morto por religiosos que não aceitavam que fosse tão radical em ser igual. E já dissemos aqui: você crendo ou não, o Livro diz que Deus junto misturado se fez igual. 

     Lavou os pés. Sem demagogia. Sem hipocrisia. No esforço de dizer e de querer praticar o ser igual. Deus quis ser um. Junto misturado. Não me interessa qual a sua religião. Tomara até você seja ateu. Porque, para crer errado, é melhor ser ateu do que qualquer religioso. 

     Mas para ser gente,  a única saída é praticar ser um. Se isto não te interessa, até Jesus te lava os pés.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Jonas - 2

      Na fuga cobre-se um percurso constituído por etapas. Para a fé, só existe uma única via, crer. Para a fuga, há múltiplas opções. 

     Jonas decidiu ir para Tarsis, para longe da face de Deus. Como se fosse isso possível.  Desceu ao porto. Procurou um navio. Achou. Pagou o preço da passagem. Entrou para dentro dele. 

      Na primeira etapa Jonas teve uma alucinação. Enganou-se a si mesmo, como que cegando a si próprio. Desviou da face de Deus seu olhar, para enxergar a fantasia da fuga. Divisou Tarsis diante dos olhos.

     A partir dessa racionalização, sim, porque quem foge racionaliza. Os que não creem, dizem ser absurda a fé, porque sua não fé é estrita e absolutamente racional. Pobre ciência. Nunca teve tantos adeptos de sua suposta doutrina.

      As escolhas da não fé, para longe da presença de Deus, são pensadas passo a passo. Jonas procurou, achou, pagou o preço e entrou para dentro. O texto bíblico, como num refrão, repete Tarsis, Tarsis, Tarsis, para longe, para longe da face do Senhor.

      O primeiro casal mencionado na Bíblia não achou ridículo tentar esconder-se de Deus por entre as árvores do jardim. Quanta criancice! Jonas racionalizou cada etapa, de modo calculado e reflexivo. 

     Poderia ter procurado, porém cair em si, desistindo. Uma vez tendo achado, divisando os contornos do navio, uma vez identificado, renunciar a essa visão. E mesmo tendo pago o preço, assim mesmo, assumir o prejuízo e descer. E voltar. 

     Cada etapa da loucura se sobrepõe uma a outra, como se contasse maior peso e, de modo conjunto, cooperassem para a finalidade última, que é manter a fuga e a ilusão de que é possível esconder-se de Deus. Nem na morte, meus caros.

      Quem foge não mais pode pensar. Precisa iludir-se. Ocupar a mente. Racionalizar. Porque está em fuga. Espantoso como é possível cumprir etapas concretas e compostas por atitudes conscientes de fuga. 

      Jonas julgou com isso que, além de poder se esconder, poderia ter paz. A violência da fuga começa, contra quem começa a ser dominado por essa ideia, já a partir do voltar as costas ao cara a cara com Deus. 

      Paulo Apóstolo escreveu que vemos, como por um espelho, por um retrovisor, a glória de Deus, o que nos abre o horizonte de crescer de glória em glória, no modelo de comunhão que o Filho Jesus teve com o Pai.

      Quando Felipe Apóstolo pediu a Jesus, próximo da morte deste, "mostra-nos o Pai e isso nos basta", Jesus respondeu: "Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu 'mostra-nos o Pai'?". Jesus é o rosto de Deus.  Jesus é a expressão exata de Deus. Em Jesus habita corporalmente toda a plenitude da divindade. 

     Como dizes tu 'mostra-nos o Pai?'.