sábado, 30 de junho de 2018

BÍBLIA 15

        Apedrejar filho que desobedece pai e mãe, idólatras ou homossexuais são prescrições bíblicas que perguntam se foi ordem divina direta ou homens presumiram que fosse.

        Israel tentou montar uma teocracia. Reflexo dessa tentativa vã foi um código de leis que pretende ser, todo ele, ordem expressa de Deus, em Pessoa.

       O chamado Decálogo já é mais consensual que fosse inteiramente emanado do Altíssimo, 5 + 5 mandamentos, os cinco primeiros referentes à relação Deus-homem e os cinco últimos à relação homem-homem.

        É necessário ler a Bíblia entendendo que nasce no contexto desses povos antigos que, por exemplo, praticavam o genocídio: eliminavam todos os inimigos, às vezes poupando só mulheres virgens, para serem concubinas e/ou escravas.

       A revelação progressiva de Deus leva em conta o homem no estágio de sua história. Deus se revela um Deus de amor, mas jamais obriga o homem a entender isso.

        E não somos marcianos, somos terrestres. Não somos extraterrestres evoluidíssimos, que já chegamos prontos ao planeta. Aliás, quem pressupõe a figura ridícula do uga-uga, homem/mulher das cavernas, nem é a Bíblia: aparecem nas animações digitais "científicas".

        Portanto, sem preconceitos. A maldade não é privilégio, ao inverso, de nenhuma civilização em especial, ao oriente ou ao ocidente: essa praga afetou a humanidade inteira.

     Então, quando o texto bíblico mostra, sem nenhuma censura, chacina, estupro planejado, estupro coletivo, linchamento, preconceito, discriminação, pena de morte etc, não me venha responsabilizar Deus.

       Todas essas desgraças são resultado de ação humana. Quem pratica o mal contra o próximo é o homem e a mulher também. Quando a Bíblia estipula "olho por olho, dente por dente", possa parecer estupidez.

        Mas não foi. Era porque vasava-se o olho numa agressão e ficava por isso mesmo. Quebrava-se o dente no mesmo gesto e ficava por isso mesmo. Então se resolveu punir, no mesmo preço, quem assim se acostumou a agredir: furou o olho do outro, o seu será furado também.

      Foi evolução naquela sociedade arcaica, sim, em relação ao nosso tempo. Mas a maldade daqueles dias é, exatamente, a mesma de hoje. E quando mandavam apedrejar o filho que ofendesse pai ou mãe, outra evolução.

     Era porque virara rotina filhos que não estavam nem aí para os pais anciãos. Sim, porque enquanto jovens, esses pais se defendiam. Uma vez idosos, eram oprimidos pelos próprios filhos.

       Pois é falta de critério, ignorância nossa, quando acusamos o texto bíblico, misturando maldade humana com preceito legal daquela época. A lei rigorosa era uma tentativa de pôr ordem ao caos.

        E quando condenava e ordenava apedrejamentos, nas relações sexuais transversais, homem com homem, mulher com mulher ou variações a três e/ou grupais, além de sexo bestial, quer dizer, com animais - quanta variedade no reino humano, não é mesmo?! -, ora, era reflexo da sociedade daqueles ermos tempos.
     
      Deus não ordena apedrejamento e nem pena de morte. São ordenamentos estabelecidos por grupos presumidamente teocráticos que, agindo assim, julgavam fazê-lo em nome de Deus. Ora, pena de morte existe hoje, em nome do homem mesmo.

         Muito embora, já de início, a Bíblia entenda morte como sepultura para o pecado: "condenou Deus, na carne, o pecado" (Paulo Apóstolo). Quer dizer, homem/mulher condenados a morrer, para dar fim definitivo a sua sina de pecadores. É assim que a Bíblia explica o porquê da morte.

       E também a Bíbla é heterossexual em sua cosmovisão. E tem esse direito, assim como os outros grupos têm os seus. Casamento, para a Bíblia, é heterossexual, monogâmico e indissolúvel. Se o homem estabeleceu variações para isso, a responsabilidade é dele.

        É necessário distinguir fala de Deus/fala do homem. Deus revela seu caráter nas Escrituras. O homem também revela o seu. A Bíblia propõe que andem juntos, Deus e o homem, em comunhão.

       Com diz Isaías, o profeta, Deus convida o homem: "Vinde e arrazoemos", ou seja, diante de Deus, que o homem exponha suas razões. E continua Deus: "ainda que o seu pecado seja mancha escarlate ou mancha carmesim, vai se tornar, pelo poder de Deus, branco como a neve ou como alva lã". Deus, somente Deus tem o antídoto para a maldade humana.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

Artigos Soltos 31

        Inferno. Temos um problema. Os que não acreditam em Deus, tem mais uma acusação contra Ele. Diz que inferno existe. Então, suma injustiça, o Altíssimo vai se vingar, enfurnando lá, por toda uma eternidade, Seus desafetos.

        Portanto, caso Deus não exista mesmo, resolvida a questão: não existe Deus e não existe inferno. Somos top de linha da evolução (apenas com esse defeito - que nem os irracionais apresentam - da maldade inata) e nosso destino é, como eles e os vegetais, apodrecer no solo e, como exalação, entrar no ciclo do hidrogênio.

      Mas, supondo Deus existir, prevalece o problema. E acreditar no inferno, diríamos nós, seria uma primitiva forma de separar bons e maus, acalentada na antiguidade e sepultada na Idade Média, com o advento do Iluminismo. Bem-vinda a era das luzes, para nos livrar das trevas da ignorância.

       Embora prevaleça a maldade, ainda como hipótese de trabalho, e mal definida. Porque uns dizem (1) nascemos bons, porém o meio nos corrompe; outros dizem (2) o mal é mazela social: consideraremos o progresso social, isolaremos, diminuiremos, anularemos o mal; ou ainda (3) ainda faltam alguns milhões de anos, mas chegaremos lá, a evolução resolve isso: afinal, ainda estamos no meio do caminho e, com aperfeiçoamento, ficaremos bonzinhos.

        Mas a Bíblia trabalha com outra lógica, contando outra história. Deus nos criou a Sua imagem e semelhança. Deu-nos opção de fazer escolha. Até aqui, qualquer ativista dos Direitos Humanos vai absolver o Criador, porque (1) liberdade e (2) livre arbítrio são duas colunas irremovíveis. Aliás, a todo o momento, francamente reivindicadas.

       Aí, deu ruim: o homem escolheu ser mal. Fez a escolha errada. Pronto, a partir dessa parte da história, supondo vir acompanhando o raciocínio, ou seja, supondo que Deus exista, começa-se a culpá-lo.

       Mas olha só que absurdo: culpar Deus de ter criado o homem? Culpar Deus de dar ao homem total liberdade? Culpá-Lo de que o homem tenha feito a escolha errada?

      Parados aqui. Independente-
mente da história, com/sem Deus, a maldade no homem (1) não é logica ou racional; (2) nada tem a ver com o nível social, visto que em Brasília ou na sarjeta mais periférica a escola do mal é a mesma; (3) e nada tem com "defeito de fábrica" na evolução, porque tanto na antiguidade, quanto na modernidade ou pós a maldade da humanidade mantém seus requintes.

      Jesus disse, certa vez, antecipando sua morte - por sinal, covarde e injusta - que "na casa do Pai há muitas moradas: vou preparar-vos lugar". Supondo que Jesus estivesse falando a verdade, há lugar (de sobra) na "casa do Pai". Siga o raciocínio: Jesus fala aqui da ressurreição, penúltimo capítulo da história da humanidade.

        Nao esqueça: estamos supondo. Bem, então, quem vai para a casa do pai? Quem você recebe em sua casa? Deus, na casa dele, recebe quem deixou a maldade para fora de si mesmo. Esqueci de dizer aqui, mas todos, diante de Deus, somos iguais.

      Deus deseja acesso ao nosso interior para, pelo Seu poder, mudar a nossa índole. A maldade do homem só pode ser mudada pelo poder de Deus. Isso diz a Bíblia. Essa é a lógica das Escrituras.

      Mas o homem continua (1) livre e de posse do (2) livre arbítrio. Deus nunca vai forçar ninguém a se tornar bom. Deus nunca vai invadir o íntimo de ninguém. Mas também não vai permitir acesso, em Sua casa, a quem quiser entrar trazendo consigo sua maldade.

      Os maus ficarão fora da casa. Inferno é o lugar fora da casa. Não tem a cara de Deus. É o lugar onde os maus resolveram ficar com sua maldade. O problema é uma "visão romântica" da maldade, tentando dizer que, no fundo, no fundo não passa de uma "pirracinha" de seres "involuídos".

       Para a história da Bíblia, maldade tem rosto humano. É somente o amor de Deus implantado por Deus na vida do homem, de fora para dentro, que pode salvá-lo de sua própria maldade.

      E a Bíblia ainda afirma que a morte física não é o fim da humanidade. Assim como Jesus ressuscitou, bons e maus ressuscitarão. Quem optou por Deus, para que, em Jesus fosse, por Deus, transformado, terá acesso à casa do Pai. Quem nunca permitiu que Deus agisse em sua vida, para ferir de morte o mal, fica fora da casa. Fora da casa é o inferno.

      É assim que creio na maldade. E nem preciso de fé para tanto. Inferno não tem a cara de Deus. Tem a cara da maldade e dos que a ela se apegam até a morte. Para eles, não poder mais exercer sua maldade é que lhes será o maior castigo. Livre arbítrio é livre escolha para fazer ou não fazer. Muita gente acha que liberdade é só para dizer "sim". Também é para dizer "não" à maldade e sim a Deus.

BÍBLIA 14

       Dificuldades bíblicas costumam ser denominadas quando ocorrem situações que complicam a compreensão de partes do texto ou eventos e histórias descritas.

       Por exemplo, logo no início da jornada, quando está escrito que Caim matou Abel, ou seja, o ruim matou o bom, esse desfecho caminha contra o senso comum.

      Fica mais parecido, mesmo, com a realidade quando, em diversas situações, os maus prevalecem contra os bons. E o interessante que, na história, Deus procurou o mau, para argumentar com ele.

       Se entendemos que Deus, realmente, falou a Caim, sem que, por licença poética, o autor tenha imaginado o diálogo, o Deus apresentado, ou melhor, a "ideia de Deus" não se revela, em nada, utilitarista.
     
      Hoje em dia, com a moda de "igrejas de arrecadação" (de dinheiro) e  mensagens de consumo ou de autoajuda, esse Deus aí do Gênesis não se encaixa nessa onda. Senão, vejamos.

      (1) Não protegeu o bom de ser assassinado pelo mau; (2) A fé do bom (será que a fé que Abel tinha era mixuruca?) não evitou que fosse morto; (3) O Deus do Gênesis não procurou o bom, para conversar (pelo menos, para dizer: "Vaza, Abel: teu irmão quer te matar!"), mas deixou-o "na mão" (e bem foi na "mão de Deus"!); (4) Deus, que é presciente, deu uma de "inocente": sabia que o papo dEle não colaria, mas insistiu com Caim.

      Definitivamente, não é um "Deus de consumo". A Bíblia já começa, pelo Gênesis, prevenindo você que Deus não está lá, em cima (e nem aqui embaixo) para resolver problemas do jeito esperado.

      Há uma soberania dEle por cima das circunstâncias e situações (diga-se, de passagem, engendradas, criadas pelo próprio homem) que foge a qualquer lógica humana. Diz Paulo Apóstolo ser "Aquele que faz todas as coisas conforme o conselho de Sua vontade".

      Aqui, Paulo cita Isaías, o profeta. Deus age segundo a Sua vontade, sem pedir nem a minha e nem a sua e nem de ninguém opinião. Aliás, o ser humano também age assim. Com uma diferença: o ser humano demonstra ser, igualzinho a Caim, pelo menos, eventualmente mau.

      Deus é bom. Está aí uma pequena dificuldade bíblica. Lidar com situações em que ela contraria o senso comum e os "profetas" do sempre bem e sempre bom. Jesus confirmou que, no mundo, teremos aflições. Mas, por Ele e pelo ânimo dEle, podemos vencer.

       Não espere que sempre suas expectativas, numa lógica de consumo, sejam correspondidas. Outras máximas ao contrário do senso comum a Bíblia insiste em confirmar, uma delas, mais este exemplo, amar o inimigo.

      Deus nos amou quando inimigos. Amar o inimigo é o principal exercício de toda a lógica bíblica. Jesus nos manda fazer isso, como único mandamento. E o Livro ainda diz que, se há quem diga "amo Deus", mas odeia seu irmão (qualquer um que seja), é mentiroso.

        Quem não ama ao irmão, que vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. A Bíblia só concebe dois fundamentos: amor/ódio. Se não amarmos, prestem atenção, não resta opção senão o ódio. Disfarçado, sim, com "verniz social", que ninguém é besta de queimar seu filme.

      Entender que a proposta da Bíblia não é de uma lógica individualista ou mesquinha é a primeira dificuldade bíblica. Ela não corresponde às tuas expectativas nem às minhas. Embora haja uma tentativa de sequestro como sua, perdeu: a Bíblia não pertence a nenhuma religião. É mais popularmente conhecida como "palavra de Deus".
     

     

quinta-feira, 28 de junho de 2018

BÍBLIA 13

       O trato e toda a metodologia de pesquisa dos elementos componentes do texto do AT também são aplicados ao texto do Novo Testamento.

       Tratados como obras literárias da antiguidade, a própria menção dos nomes de seus autores, atribuídos por cuidadosa tradição é, frequentemente, questionada.
 
        Assim que enumerar os nomes, Mateus, Marcos, Lucas e João, como atribuir a Paulo as 13 epístolas, exceto Hebreus, ou confirmar duas cartas de Pedro, três de João ou referir os demais autores como epígrafe dos livros escritos, não é unanimemente aceito pela crítica desses exegetas, predominantemente alemães.

        Tanto no AT, quanto no NT, cada livro da Bíblia é tratado documento antigo, ao qual serão aplicadas as técnicas de crítica literária, como a qualquer outro tipo de texto, independentemente de sua época de composição.

      Muitas vezes não haverá como confirmar ou não essa autoria, devido à antiguidade dos documentos, sem que haja qualquer outra pista que não a própria tradição.

      Os livros proféticos do AT, por exemplo, possuem um núcleo mais antigo, geralmente atribuído ao profeta em questão, bem como adições posteriores, feitas por discípulos ou pela escola de profetas.

       Com relação às cartas de Paulo, também há autores que defendem, na maioria delas, a ocorrência de material acrescentado por discípulos desse apóstolo.  E no caso das cartas pastorais, são inteiramente atribuídas a esses mesmos autores secundários, porém com algum material paulino.

       Destaque-se que esse critério, denominado "alta crítica", é particular a esse grupo restrito de exegetas. A consequência direta é certa fragmentação do texto bíblico, assim compreendido.

        É necessário conhecer a variedade das conclusões desses autores, com relação aos textos do AT e do NT, de modo a preservar, por argumentos, a intenção específica e única do texto como veículo de revelação.

        Há tendência, muitas vezes inconsciente, de desacreditar a Bíblia, devido à fragmentação mencionada. Por exemplo, dizer que a única Carta aos Coríntios autenticamente paulina é a primeira, sendo a segunda uma reunião de outras duas ou três.

       Que as cartas pastorais são de outro(s) autor(es), que não o Apóstolo, mas que seguiram sua linha de pensamento. E que, entre outros, o Apocalipse é de um João anônimo, se é que é de qualquer "João" desses.

       Pouco lida até pelos crentes, como vem sendo, e enfocada por essa ótica, a Bíblia segue pouco entendida e depreciada. E tais teorias, desconhe-
cidas por líderes mal preparados, ainda são mal apresentadas ao público leitor.

          Revistas de banca de jornal, como Galileu, Superinteressante, Mundo Estranho e seus links na net, espalham a quatro ventos essas hipóteses. Não que depreciemos aqui, sejam as revistas ou as teorias, mas é que tal assunto requer critério de pesquisa e orientação especializada.

       Prevalece, nesse caso, a cuidadosa leitura, na busca do conteúdo exclusivo do Livro: de que modo "homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo". Em sua época, em sua língua, imersos em sua cultura.

        Isso posto, já foi dito: os estudos desses gêneros literários diversos, bem como da tradição de manuscritos assim produzidos e sua transmissão, com ou sem retoques, confirmados por méto-
dos criteriosos, todo esse conjunto compõe as Escrituras, uma vez por todas dada à humanidade. E cremos que Deus fala por meio dela.
     

     

     

quarta-feira, 27 de junho de 2018

BÍBLIA 12

       Julius Wellhausen (1844-1918), alemão, é o padrinho da famosa "hipótese documentária" de formação redacional do Pentateuco.

       Sugestiva ideia de procurar conhecer a partir de que fontes e por qual maneira tiveram sua origem e foram sobrepostos os documentos e textos originais que dão forma final aos primeiros cinco livros da Bíblia.

         Pode-se reparar, mesmo na versão portuguesa, duas formas distintas de começar a história da criação, com nomes diferentes para Deus, assim como repetições de narrativas na história dos Patriarcas. A presença do que se chama "leitmotiv", motivo condutor, que são expressões que reaparecem ao longo do texto do Antigo Testamento.

       Esses dados revelam respeito a fontes distintas de informação, no caso das repetições e nomes diferentes, assim como trabalho redacional, no caso desses "refrões" que aparecem repetidos.

       A partir dessas constatações, variadas formas de críticas científicas passaram a surgir, com vistas a estudar, metodicamente, o processo de formação desses livros: crítica das formas, crítica da tradição, crítica da redação etc.

       Wellhausen propõe quatro documentos principais que estariam no ponto de partida da formação do Pentateuco: J, E, P e D. O primeiro, conta a história da criação nominando Deus como Javé, a partir do tetragrama hebraico Yaweh, por isso denominado "javista".

        O segundo, traduzido "Senhor Deus" na versão portuguesa, denomina Deus pelo hebraico Elohim, daí ser identificado como "eloísta". O terceiro, a partir da palavra inglesa "priest", sacerdote, recebe a letra P e o nome "sacerdotal".

      O quarto recebe D como indicador e é conhecido como "deuteronomista", responsável tanto pela formação predominante do Deuteronômio, assim como na continuidade do AT, através da narrativa histórica, como "história deuteronomista".

       A tradicional atribuição da autoria por Moisés de todo o Pentateuco, nessa perspectiva, ganha uma revisão. Que partes remontam a ele? Quantos e quem são os demais autores? Que escolas de redatores participaram e de que modo nessa tradição?

       Várias teorias são construídas, autores sobre autores opinam a respeito, predominantemente alemães. E a metodologia dessa modalidade de autoria, qual seja, tradição(ões) mais antiga(s) seguidas por fragmentos e redações posteriores, também entra na explicação da composição dos livros proféticos.

        Assim como aos demais livros do AT. É necessário, porém, cautela em aceitar muitas dessas teorias, porque são hipóteses de composição. Pesquisa em meio a obras da disciplina Introdução ao AT, de variados autores, torna-se necessária para, ao final, obter-se uma visão equilibrada de todo o processo.

        Porque a hipótese documentária vem passando, nesses mais de 100 anos, por diversas revisões. Mais aceita, em determinada época, menos aceita em outras. Haverá, permanentemente, dados de origem indefinida e afirmações sobre as quais nunca se poderão fechar, peremptoriamente, questões.

        Sobretudo, duas conclusões mais objetivas podem ser anotadas: (1) essa teoria contribui para estabelecer parâmetros dessa tão notável história de composição da Bíblia; (2) o elemento primordial do texto, que trata da revelação e diálogo com o homem, por parte de Deus, permanece o grande desafio de aceitação/rejeição de toda a Bíblia.

     
     

     

terça-feira, 26 de junho de 2018

BÍBLIA 11

       Arqueologia é uma jovem ciência. Renascimento, séc. XVI, um empurrão no final do séc. XIX e sua debut definitiva na transição para o XX. Podem ser consideradas diversas situações de começo.

         Uma delas tem relação com a dominação napoleônica do norte da África e terras da Palestina. Após sua saída, entra a Inglaterra e grandes expedições são financiadas na virada dos séculos XIX a XX.

       E muitas dessas jornadas tiveram a Bíblia como manual. Várias terras e povos tidos como não existentes foram confirmados nessas oportunidades.

       Daí a motivação em escrever uma obra que consagrou a Bíblia como rica em informações confirmadas pela história, em 1955, o clássico de Werner Keller "E a Bíblia tinha razão".

        Por isso não, porque em 2001 foi escrito "E a Bíblia não tinha razão". Os dois livros partem de pontos de vista diversos. O anterior tem sua premissa confirmada, porque parte da Bíblia para escavações e localizações de cidades nela citadas, antes tidas como inexistentes.

        E essa confirmação revoluciona a visão que se tinha do Livro, incrementando sua credibilidade. Este segundo, do mesmo modo, colhe informações bíblicas, exigindo localizar, unicamente por meio da arqueologia, respaldos extrabíblicos para elas.

       Seu objetivo é assumidamente demonstrar, na Bíblia, inexatidões que, por outro lado, desacreditam-na ou, ainda, cobrar confirmações da arqueologia, para somente então creditá-la. Isso como se fosse possível escolher que traços do mundo antigo se permitem desencavar.
     
         A Bíblia não depende exclusivamente da Arqueologia para ser confirmada. Isso porque já dissemos que seu discurso principal é o diálogo Deus-homem. Para tanto, tal ciência nada tem a acrescentar.

       E ela mesma não desenterra tudo o que já ocorreu, mesmo porque não é possível localizar, para todos os fatos da história, provas dessa natureza que os comprovem.

      Mas não deixa de ser interessante conhecer, a todo momento, comprovações arqueológicas de fatos que, anteriormente, eram desconhecidos ainda que, na Bíblia, sempre houvesse confirmação para eles.
   
       Como em 2013, quando Yossi Garfinkel, professor da Universidade Hebraica, liderou arqueólogos que descobriram ruínas da cidade bíblica de Saaraim, citada nos livros de Josué e em 1 Samuel. Ora, costumava-se dizer, de Davi, que não passava de um pequeno líder tribal.

      As dimensões da fortaleza ali encontrada, assim como, ao seu redor, fragmentos de metais, cerâmica e até vasos de alabastro importados do Egito, em torno de 1.000 a. C., indicam que, para existir um edifício com tais dimensões nessa época e a tal distância de Jerusalém, tais evidências indicam não ser tão diminuto assim o reino de Davi.
       
          Ou também a confirmação extrabíblica da Bênção de Arão, em Números 6,24-26. Pela Teoria dos Documentos, que pretende explicar como se deu a redação do Pentateuco, a data dessa composição e edição em muito de afasta dos tempos da possível existência de seus personagens, em cerca de 1.200 a. C.

        Costuma-se admitir a composição final desses textos na época persa, cerca de 700 anos mais tarde, no séc. V a. C. Mas arqueólogos encontraram um broche que apresenta uma gravação em metal com os dizeres dessa mesma oração. Era usado por volta de 900 a. C., por povos idólatras, que nele gravavam imagens de seus deuses.

         Adaptado, muito provavelmente, pelo gênio das mulheres judaicas que, para usar o enfeite, mantendo-se antenadas com a moda, escreveram: "O Senhor te abençoe/guarde/resplandeça o rosto sobre ti", substituindo a imagem do ídolo. Ora, este fato contraria a teoria de data tardia para essa "bênção araônica".

         Muito há para ser ainda descoberto. O contexto histórico da Bíblia, podemos dizer, está amplamente confirmado. Mais uma vez, porém, afirmamos: seu principal objeto, que é a fé, não depende da arqueologia ou qualquer outra ciência.

         Porém, sem dúvida, tais confirmações se dão em apoio ao contexto de sua mensagem. Isso porque Deus intervém na história humana. As evidências do agir de Deus têm pistas e têm testemunhas. Mas a fé nessa ação está diretamente relacionada ao caráter de Deus e Sua palavra. E não somente às pistas da arqueologia, entre outras ciências.
     

     

BÍBLIA 10

         Personagens bíblicos frequentemente são apontados como criação ficcional, no sentido de emprestar ao povo judeu uma história eivada de heroísmo.

       O patriarca Abraão, o próprio Moisés, Davi e seu filho Salomão, para ficar nestes exemplos, são pura invenção: o primeiro, epônimo de tribos nômades pastoris.

        O segundo, um (super)herói do qual a história extrabíblica não dá nenhuma pista. E os dois últimos, foram reis em dimensões muito menores das que constam nos textos bíblicos.

      O argumento que esbarra contra essas afirmações parte, como sempre, do conteúdo dos textos. Não há, de modo explícito, uma narrativa pormenorizada da vida do Patriarca. Isso porque nunca foi prioridade contar a vida dele.

       Logo, a ênfase nunca foi histórica ou biográfica, porém marcar etapas do seu relacionamento com Deus, cuja síntese é: "Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça".

       Esta afirmativa é central em toda a história da Bíblia e em toda a história do homem diante de Deus. Válida de ponta a ponta, do Gênesis ao  Apocalipse, na Bíblia, Antigo e Novo Testamento, qualquer homem/mulher diante e Deus em qualquer época.

       Quanto a Moisés, não há, da mesma forma, biografia pormenorizada. O trecho que fala de sua vida, de bebê a homem feito, não preenche capítulo inteiro no livro do Êxodo.

        Portanto, descarte-se do texto bíblico a ênfase biográfica ou histórica, no sentido lato. Pois é exatamente por isso que costuma-se desacreditar o texto. Trata-se de um movimento pendular.

        O texto bíblico não tem sua ênfase na história, por ater-se a aspectos pontuais da comunhão com Deus na vida de seus personagens. Daí, os críticos reclamarem critérios mais precisos, quando os textos resvalam em traços do contexto histórico.

       Mas este é um erro de abordagem. Uma crítica posta no texto. No sentido de se partir em sua direção, antecipadamente esperando ver/ou não ver nele conteúdo pré-definido.

       Porque a Bíblia foi escrita a partir de sua mensagem específica a toda a humanidade. Moisés, por exemplo, tipifica o modelo de profeta: aquele que transmite a outros, em nome de Deus, esta palavra.

       Torna-se mediador dos códigos civil, no Êxodo, cerimonial, em Levítico e, no Deuteronômio, o código que leva este nome, enfim prescrições que projetam o que será a vida das tribos de Israel, uma vez que deixem de ser povo nômade e assumam a fase sedentária.

        Povo de Deus. Profeta de Deus. Relacionamento com Deus. A Bíblia é o livro que propõe relacionamento com Deus. Ou quem o tem nas mãos encara esta possibilidade, ou então vai mesmo achar tudo um mero absurdo.

      Está bom para você? Não? Então aconselho a ler os capítulos 3 e 4 do Êxodo: o bate-papo do Altíssimo com Moisés. O Livro é assim, pressupõe e demonstra essa possibilidade. E a respeito de Davi e Salomão, como diz o autor (anônimo) da Epístola aos Hebreus, "disto falaremos noutra oportunidade".